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POEMAS À LA CARTE

Menu NATUREZA  António Ramos Rosa, O Jardim  Sophia de Mello Breyner, Paisagem  Alberto Caeiro, Aquela Senhora Tem um Piano  Alberto Caeiro, Não Basta Abrir a Janela  Miguel Torga, A Palavra  Florbela Espanca, A Voz da Tília  Miguel Torga, Segredo  Manuel da Silva Gaio, Águas Passadas  Cesário Verde, Heroísmos  Eugénio de Andrade, Também o deserto vem  Florbela Espanca, Árvores do Alentejo  Antero de Quental, Diálogos  Albano Martins, Pintura   Alberto Caeiro, Todas as opiniões que há sobre a Natureza sadas  Antero de Quental, Diálogo

 Alberto Caeiro, Todas as opiniões que há sobre a natureza  Alberto Caeiro, Se às vezes digo que as flores sorriem  Cesário Verde, De tarde


O JARDIM Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas, calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes. Sequências de convergências e divergências, ordem e dispersões, transparência de estruturas, pausas de areia e de água, fábulas minúsculas. Geometria que respira errante e ritmada, varandas verdes, direcções de primavera, ramos em que se regressa ao espaço azul, curvas vagarosas, pulsações de uma ordem composta pelo vento em sinuosas palmas. Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio. Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena. Sou uma pequena folha na felicidade do ar. Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis. É aqui, é aqui que se renova a luz. António Ramos Rosa, in “Volante Verde” (Faro, 1924)

PAISAGEM Passavam pelo ar aves repentinas, O cheiro da terra era fundo e amargo, E ao longe as cavalgadas do mar largo Sacudiam na areia as suas crinas. Era o céu azul, o campo verde, a terra escura, Era a carne das árvores elástica e dura, Eram as gotas de sangue da resina E as folhas em que a luz se descombina. Eram os caminhos num ir lento, Eram as mãos profundas do vento Era o livre e luminoso chamamento Da asa dos espaços fugitiva. Eram os pinheirais onde o céu poisa, Era o peso e era a cor de cada coisa, A sua quietude, secretamente viva, E a sua exalação afirmativa. Era a verdade e a força do mar largo, Cuja voz, quando se quebra, sobe, Era o regresso sem fim e a claridade Das praias onde a direito o vento corre. Sophia de Mello de Breyner Andresen, in “Obra Poética I” (Porto, 1919 – Lisboa, 2004)


AQUELA SENHORA TEM UM PIANO Aquela senhora tem um piano Que é agradável mas não é o correr dos rios Nem o murmúrio que as árvores fazem ... Para que é preciso ter um piano? O melhor é ter ouvidos E amar a Natureza. Alberto Caeiro, in “Guardador de Rebanhos” (Lisboa, 1889-1915)

NÃO BASTA ABRIR A JANELA Não basta abrir a janela Para ver os campos e o rio. Não é bastante não ser cego Para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma. Com filosofia não há árvores: há ideias apenas. Há só cada um de nós, como uma cave. Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, Que nunca é o que se vê quando se abre a janela. Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos” (Lisboa, 1889-1915)

A PALAVRA Falo da natureza. E nas minhas palavras vou sentindo A dureza das pedras, A frescura das fontes, O perfume das flores. Digo, e tenho na voz O mistério das coisas nomeadas. Nem preciso de as ver. Tanto as olhei, Analisei E referi, outrora, Que nos próprios sinais que as marquei As reconheço agora. Miguel Torga (S. Martinho de Anta, 1907 - Coimbra, 1995)


A VOZ DA TÍLIA Diz-me a tília a cantar:" Eu sou sincera, eu sou isto que vês: o sonho, a graça, deu ao meu corpo o vento, quando passa, este ar escultural de bayadera... E de manhã o sol é uma cratera, uma serpente de oiro que me enlaça... Trago nas mãos as mãos da Primavera... E é para mim que em noites de desgraça Toca o vento Mozart, triste e solene, e à minha alma vibrante, posta a nu, diz a chuva sonetos de Verlaine..." E, ao ver-me triste, a tília murmurou: "Já fui um dia poeta como tu... Ainda hás-de ser tília como eu sou..." Florbela Espanca, in “Charneca em Flor” (Vila Viçosa, 1894 - Matosinhos, 1930)

SEGREDO Sei um ninho E o ninho tem um ovo. E o ovo, redondinho, Tem lá dentro um passarinho Novo. Mas escusam de me atentar: Nem o tiro, nem o ensino. Quero ser um bom menino E guardar Este segredo comigo. E ter depois um amigo Que faça o pino A voar... Miguel Torga, in “Diário VIII” (S. Martinho de Anta, 1907 - Coimbra, 1995)


ÁGUAS PASSADAS Quando o seu gado guardava Junto ao Mondego saudoso Lemano, zagal formoso, Ligeira flauta tocava. E por ela, noite e dia, Espalhava, misturadas, As alegrias sonhadas E as mágoas que conhecia. Àquele cantar de mágoas, A que os pastores corriam, Paravam as vivas águas E nem as folhas buliam. Manuel da Silva Gaio, in “De Mondego” (Coimbra, 1860 - 1934)

HEROÍSMOS Eu temo muito o mar, o mar enorme, Solene, enraivecido, turbulento, Erguido em vagalhões, rugindo ao vento; O mar sublime, o mar que nunca dorme. Eu temo o largo mar, rebelde, informe, De vítimas famélico, sedento, E creio ouvir em cada lamento Os ruídos dum túmulo disforme. Contudo, num barquinho transparente No seu dorso feroz vou blasonar, Tufada a vela e n’água quase assente, E ouvindo muito ao perto o seu bramar, Eu rindo, sem cuidados, simplesmente, Escarro, com desdém, no grande mar! Cesário Verde, in “Obra Completa” (Lisboa, 1855 - 1886)


TAMBÉM O DESERTO VEM Também o deserto vem do mar. Não sei em que navio, mas foi desses lugares que chegaram ao meu jardim as palmeiras. Com o sol das areias em cada folha, na coroa o sopro ainda húmido das estrelas Eugénio de Andrade (Póvoa da Atalaia, 1923 – Porto, 2005)

ÁRVORES DO ALENTEJO

Horas mortas... curvadas aos pés do Monte A planície é um brasido... e, torturadas, As árvores sangrentas, revoltadas, Gritam a Deus a bênção duma fonte! E quando, manhã alta, o sol postonte A oiro a giesta, a arder, pelas estradas, Esfíngicas, recortam desgrenhadas Os trágicos perfis no horizonte! Árvores! Corações, almas que choram, Almas iguais à minha, almas que imploram Em vão remédio para tanta mágoa! Árvores! Não choreis! Olhai e vede: -Também ando a gritar, morta de sede, Pedindo a Deus a minha gota de água! Florbela Espanca (Vila Viçosa, 1894 - Matosinhos,1930)


DIÁLOGO A cruz dizia à terra onde assentava, Ao vale obscuro, ao monte áspero e mudo: - Que és tu, abismo e jaula, aonde tudo Vive na dor e em luta cega e brava? Sempre em trabalho, condenada escrava. Que fazes tu de grande e bom, contudo? Resignada, és só lodo informe e rudo; Revoltosa, és só fogo e horrida lava... Mas a mim não há alta e livre serra Que me possa igualar!.. amor, firmeza, Sou eu só: sou a paz, tu és a guerra! Sou o espírito, a luz!.. tu és tristeza, Oh lodo escuro e vil! - Porém a terra Respondeu: Cruz, eu sou a Natureza! Antero de Quental, in "Sonetos" (Ponta Delgada, 1842 - 1891)

PINTURA Onde se diz espiga leia-se narciso. Ou leia-se jacinto. Ou leia-se outra flor. Que pode ser a mesma. As flores são formas de que a pintura se serve para disfarçar a natureza. Por isso é que no perfil duma flor está também pintado o seu perfume. Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas" (Fundão, 1930)


TODAS AS OPINIÕES QUE HÁ SOBRE A NATUREZA Todas as opiniões que há sobre a Natureza Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor. Toda a sabedoria a respeito das cousas Nunca foi cousa em que pudesse pegar como nas cousas; Se a ciência quer ser verdadeira, Que ciência mais verdadeira que a das cousas sem ciência? Fecho os olhos e a terra dura sobre que me deito Tem uma realidade tão real que até as minhas costas a sentem. Não preciso de raciocínio onde tenho espáduas. Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" (Lisboa, 1889-1915)

SE ÀS VEZES DIGO QUE AS FLORES SORRIEM Se às vezes digo que as flores sorriem E se eu disser que os rios cantam, Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores E cantos no correr dos rios... É porque assim faço mais sentir aos homens falsos A existência verdadeiramente real das flores e dos rios. Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes À sua estupidez de sentidos... Não concordo comigo mas absolvo-me, Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza, Porque há homens que não percebem a sua linguagem, Por ela não ser linguagem nenhuma. Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos” (Lisboa, 1889-1915)


DE TARDE Naquele «pic-nic» de burguesas, Houve uma coisa simplesmente bela, E que, sem ter história nem grandezas, Em todo o caso dava uma aguarela. Foi quando tu, descendo do burrico, Foste colher, sem imposturas tolas, A um granzoal azul de grão-de-bico Um ramalhete rubro de papoulas. Pouco depois, em cima duns penhascos, Nós acampámos, inda o sol se via; E houve talhadas de melão, damascos, E pão de ló molhado em malvasia. Mas, todo púrpuro, a sair da renda Dos teus dois seios como duas rolas, Era o supremo encanto da merenda O ramalhete rubro das papoulas! Cesário Verde, in “Poesia Completa” (Lisboa, 1855 - 1886)

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