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Nova Direita,

Redes Socias e Força Política Fragilidade Organizacional da direita

Setembro de 2018


Hoje vou tratar de um artigo apresentado no Congresso Internacional: Pesquisa em Cultura e Sociedade na Universidade Federal de Pelotas por duas doutorandas em Ciência Política desta universidade. De início, é evidente que há um certo aumento no volume do discurso de direita no Brasil, frente a sua pouca expressividade desde o Regime Militar, se entendermos que pelo termo discurso as autoras estão se atendo ao plano cultural ou intelectual. Da mesma maneira, o papel das redes sociais deve também estar circunscrito ao âmbito discursivo ou cultural e não ao do poder político. Bem, o problema fundamental deste artigo é que nele falta algumas delimitações importantes, tais como: não está explícito o que definem como a nova direita em oposição à velha direita; há também uma confusão entre o exercício do poder político, a expressão de insatisfação da massa e a influência cultural ou intelectual de uma determinada forma mental, como se tudo isso fosse o mesmo fenômeno. Isto é um vício cognitivo muito próprio da mentalidade universitária, acostumada a considerar tudo como sendo simplesmente político, ou propício a ser problematizado em relações de poder. Tal confusão, tal como uma miopia, acaba desfocando a política como a força organizadora das instituições, e também a cultura ou a intelectualidade como a força espiritual da sociedade civil. É a manifestação da tão sonhada estatização de tudo que impede, na mentalidade de esquerda, a discriminação necessária entre política e cultura, ou entre organização política e a divulgação de ideias em redes sociais.


Sem uma definição daquilo que pertence ao âmbito político ou ao cultural, com suas delimitações, as autoras superdimensionam o valor do impacto político e cultural das redes sociais.

Para elas, o papel das redes sociais é tanto cultural, na disputa das narrativas, no processo de significação em torno dos eventos políticos propriamente ditos. Mas também, as redes sociais tem um papel primordial na política, preparando e sustentando seus eventos. Acreditar nessa potencialidade das redes sociais é de um exagero sem tamanho. As redes sociais não possuem uma predominância em nenhum dos dois âmbitos, muito menos no político, quanto muito algum no eleitoral, tão somente. As autoras estabelecem uma importância às redes sociais que elas não têm e que nunca poderão apresentar, porque não foram desenhadas para essas finalidades. Elas perdem de vista o controle cognitivo das redes sociais, nelas o indivíduo se enquadra em determinados grupos através de reforços positivos (likes) ou negativos (ausência de likes), moldando para a aceitação coletiva em ambientes controlados seus valores, normas e conceitos que expressa em rede. Esse exagero só é possível ao se fazer um recorte que desconsidera a unidade do real e que faz de um recurso analítico, o molde mais fundamental de tudo que possa existir. Isso é próprio da mente esquerdista, com seus sintomas histéricos.


Veja bem, outra deformidade da mentalidade de esquerda é dizer que irá entregar materialmente algo que não tem condições de realizar. A forma mental de esquerda sempre se projeta socialmente acreditando que o simples fato de expressar seus idealismos, já é, por si só, o meio de materializá-los na realidade. As autoras têm uma visão bastante otimista daquilo que realizam em seu próprio artigo.

Não há idealismo maior do que considerarem a si próprias como superiores às disputas políticas, quando assumem nitidamente uma forma mental de esquerda que está incomodada com a presença da direita nas redes sociais. Assim como, não há reducionismo tão patente do que citarem a mídia como fonte de que foram eleitos, em 2014, um percentual de 43,5 legisladores conservadores no Congresso. O que será que entendem por conservadorismo?


Agora, a pior explicação definitiva sobre o espectro político brasileiro é aquela que repete o mantra de que o PSDB faz parte da direita. A mentalidade das autoras é tão esquerdista que explicam a quase derrota de Dilma em 2014 pelo desgaste natural de um partido no poder há 12 anos. Para as autoras não houve mensalão, não houve o petrolão, não houve uma política econômica baseada no endividamento interno e externo, não houve a transformação do país em exportador de produtos in natura para a China, não houve a colaboração com os narcotraficantes das FARC, não houve a falência do aprendizado nas escolas, etc.

É evidente que as autoras são bastante ágeis em assumirem as explicações definitivas do PT, como a de culpar pelo desastre econômico da Nova Política Econômica os efeitos da crise global no Brasil. Ou pior, para cientistas políticos: acreditar no jogo de cena de que o PT é um partido moderado, apenas progressista, nunca socialista e revolucionário. Ou ainda, acreditar que não houve uma coordenação na chegada dos partidos de esquerda ao poder na América Latina, como se tudo fosse obra do acaso.


Será que nessa passagem as autores apresentam um discurso imparcial, preocupado com a divergência de interesse, como imaginaram estar praticando em seu artigo? Para elas a direita tem uma visão de mundo puramente negativa, baseada apenas na crítica às reformas, aos programas sociais e aos direitos de minorias. É preciso esclarecer que a direita não quer a concentração de poder nas mãos de um grupo político, não quer a concentração econômica nas mãos de um grupo político, não quer que um grupo político controle todas as instituições do Estado, não quer que um grupo político controle toda a moral vigente, a despeito das famílias, não quer que um grupo político controle todos os empregos. O que a direita não quer é exatamente a tirania socialista.


Não há como compreender um fenômeno como a apresentação eleitoral de alguns candidatos de direita no Brasil em 2018, sem dar mostras de que conhecem a mentalidade que possibilitou tal fato, sem demonstrarem que a abarcam cognitivamente. É um erro esquerdista achar que a direita é tão simplista cognitivamente quanto ela. Não há qualquer sinal dessa compreensão nas autoras, que repetem a visão simplista que os oponentes da direita divulgam sobre a mesma, para fins de propaganda política. Assim, afirmam estranhamente que uma nova organização de direita deu seus primeiros indícios em 2007. Seria bom que explicassem o que entendem por “organização”, pois a direita carece em 2018 de toda organização política, tendo em vista que sua apresentação enquanto opção eleitoral em 2018 no Brasil só foi possível, por um lado, pelo trabalho cultural e intelectual de Olavo de Carvalho e, de outro, pela existência de Bolsonaro que unificou o descontentamento geral com o estamento político corrompido e com a crise econômica. Não há como elas compreenderem as diferentes forças políticas em atuação nas eleições de 2018 se utilizam apenas o jornal Folha de São Paulo e autores identificados com a esquerda para analisarem a direita.


Em síntese, é preciso esclarecer que a possibilidade de haver uma direita que apresenta alguns candidatos nas eleições de 2018 foi construída no trabalho cultural e intelectual realizado primordialmente por Olavo de Carvalho. Seria importante que as autoras conhecessem a obra de Olavo de Carvalho, pois assim poderiam perceber que o embrião da direita, mesmo que muito frágil, que se apresenta hoje no cenário eleitoral, nasceu da crítica à agenda da intelectualidade de esquerda do país. Então, não foi nas redes sociais que a atual direita nasceu, mas do trabalho intelectual de Olavo de Carvalho, publicado na obra “O Imbecil Coletivo”, lançado em 1994, que aliás tem nova edição em 2018. Essa obra faz parte de uma trilogia que se completa com “Nova Era e Revolução Cultural” e “O Jardim das Aflições”. O combate intelectual do filósofo contra a mentalidade de esquerda continua nos primeiros anos de 2000 através de seus artigos na imprensa e do projeto Mídia sem Mascaras na internet e na TV. Com o bloqueio da imprensa aos artigos de Olavo de Carvalho, ele vai morar nos EUA e em dezembro de 2006 começa as suas transmissões semanais da web rádio: True Outspeak. Em 2009, Olavo continua a romper a hegemonia intelectual da esquerda com o seu curso on-line de filosofia, o COF. Então, só muito recentemente, na falta de outros meios de divulgação de massa, é que os nascentes “movimentos” de direita começaram a se utilizar das redes socias como forma mínima de combate cultural. Mas isso não significa que a direita esteja organizada como força política.


Seria preciso ainda debater a visão idealizada das autoras acerca das redes sociais. Elas não fazem nenhum esforço intelectual próprio para compreenderem as redes sociais, apenas empilham citações de autores estrangeiros, que parecem ver nas redes a realização dos sonhos socialistas mais utópicos e não a arquitetura para o controle cognitivo. Assim, elas repetem idealizações, tais como: a ampliação da liberdade individual; a descentralização da produção de informação; a criação de relações políticas horizontais; o fortalecimento das organizações civis. O recente boicote do Facebook às páginas conservadoras no Brasil e nos EUA, por si só, questionaria os pressupostos apresentados pelas autoras. Porém, como afirmam, nem tudo são positividades nas redes sociais, certamente para elas a existência da direita é uma negatividade.

O problema desta repercussão é que nenhum grupo de esquerda deixou de realizar reuniões presenciais de coletivos, seminários, congressos, oficinas, formação de professores; não deixaram de formar células partidárias para a atuação militante; não deixaram de disputar entre si sindicatos; não deixaram de criar movimentos sociais de direitos de minorias; não deixaram de ocupar espaços na mídia, na cultura, nas escolas e universidades; não deixaram de infiltrar militantes em igrejas; não deixaram de criar ONG’s; não deixaram a estrutura estatal; não deixaram de formar exércitos de jovens para o combate de rua; etc. Tudo para ficar em redes sociais. Se a fragilidade da esquerda no Brasil é intelectual, fragilidade que este artigo é só mais um exemplo, a da direita é, sobretudo, organizacional.


FIM Setembro de 2018

A Fragilidade Organizacional da Direita  
A Fragilidade Organizacional da Direita  
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