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Ju Costa

A IDADE DO SANGUE Livro I – Agnus Dei

1ª Edição

Recife Julianna Cavalcanti Costa 2012


Copyright © 2011 Julianna Costa

Capa Filipe Morais – AF Capas Revisão Pedro Américo de Farias Ilustração Temístocles Gonçalves

(Este livro segue as novas regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.)

Costa, Ju A Idade do Sangue: Agnus Dei / Ju Costa. – Recife. 2011. 352p.; 15,5 X 22,5 cm ISBN 978-85-912899-0-5

2012 Edição do Autor juliec.costa@gmail.com www.outrosdeuses.com


Ju Costa

A IDADE DO SANGUE Livro I – Agnus Dei

1ª Edição


Quando eu tinha treze anos, eu tive o privilégio de encontrar algumas pessoas extraordinárias. Elas me ensinaram que eu não era louca, nem estava sozinha. Sussurraram docemente em meus ouvidos que não havia nada errado com os universos de fantasia que eu criava. Pegaram-me pela mão e me convidaram para conhecer os seus universos. Sem elas, eu nunca teria me aventurado a experimentar o que tinha do outro lado do túnel. Sem elas, eu não teria com quem comentar as maravilhas que eu descobria a cada novo livro. Sem elas, eu nunca teria rascunhado as primeiras de muitas páginas. Sem elas, eu não seria eu.

Esse livro é dedicado às minhas mesas de RPG. A mais antiga, a mais recente, e todas as outras que vieram no meio. Valeu, pessoal. Eu não teria conseguido sem vocês.

Ju Costa


Prefácio

N

o início era o caos e então surgiram as histórias, delas nasceram os vampiros. Seres monstruosos, noturnos e malévolos. Ligados a ricas famílias e seus castelos. Bebedores de sangue, tementes a cruzes, alho e água benta. Amaldiçoados. Mortos apenas pela luz do sol, fogo ou uma estaca de madeira atravessando seu coração ha muito parado. O tempo passou. Alguns passaram a vê-los como criaturas sedutoras. Imortais. Apreciadores de outras belezas imortais como as artes. Alguns os dividiam em famílias ou clãs e os elegantes mortos-vivos passaram a protagonizar, também, filmes e jogos. Vampiro: A Máscara se tornou um clássico RPG onde todos os jogadores puderam viver a vida de uma dessas fascinantes criaturas. Foram associados a Caim e a primeira traição, mas continuaram imortais bebedores de sangue. Ganharam as telas dos cinemas desde os primórdios da sétima arte e delas não saíram desde então. Existem séries de TV e incontáveis séries de romances sobre os vampiros e devo dizer que das várias que eu li poucas me impressionaram. E antes que alguém pense que a história em si é diferente devo alertá-los que não há extravagâncias na narrativa. O que há é que J. , em sua história, nos mostra um lado até então não explorado da natureza dessas fascinantes criaturas da noite. A psique. Por que eles são malignos? Quais as implicações da imortalidade? Que caminhos levam um vampiro a se tornar um monstro recluso como o Conde Orlok, Nosferatu, ou um sedutor e misterioso como Bill da serie Sookie Stackhouse ou Lestat das Crônicas Vampirescas? Em A Idade do Sangue, podemos acompanhar a jornada de vampiros antigos, monstros sedutores. De recém transformados, nossa personagem principal


que de forma alguma se encaixa no papel de heroína, e das pessoas que convivem com tais seres. Trazendo a tona uma lente psicológica e com um nível maravilhoso de verossimilhança a uma série de acontecimentos que são nada além de naturais, se você considerar que existem vampiros. Partindo dessa nova premissa Dostoévicista e bebendo de fontes profundas como a literatura de Saramago e jovens como J.K. Rowling, J. constrói um livro mais cativante e inspirador a cada página e deixa um gostinho ferroso de quero mais ao final de cada capitulo. Então sem mais delongas, leiam o livro.

Luke Navarro


Ao meu pai


Prólogo

‘Death is when the monsters get you.’ - Stephen King

‘Morte é quando os monstros te pegam.’ - Stephen King


P

assos ecoavam apressados pelo corredor de pedras cruas. Era um subterrâneo qualquer, as lâmpadas no teto iluminavam firmemente o local, fora uma ou duas mais adiante que piscavam devido a alguma oscilação de eletricidade. A mulher não corria, não era do tipo que corria; ao invés disso apenas adiantava-se elegantemente pela passagem. Usava seus longos cabelos louros soltos e um óculos de armação leve diante dos olhos azuis. Tinha um corpo alto e magro coberto por um pijama de mangas compridas e um robe vestido de qualquer jeito. Virou-se bruscamente à direita e entrou por uma porta de madeira. Atrás da porta havia uma sala pequena, na parede oposta imediatamente em frente à mulher encontrava-se uma grande janela que dava para o aposento vizinho e ia do chão ao teto ocupando quase todo o cumprimento da sala. De costas para a porta de entrada havia um homem, alto de cabelos negros, vestia calças pretas e uma camisa branca, estava descalço. A mulher se aproximou dele e parou ao seu lado: - Já disse alguma coisa? - Não – respondeu sem desviar o olhar da janela tentando controlar a própria empolgação e ansiedade. Do outro lado, no centro de uma pequena sala circular encontrava-se uma mulher inteiramente despida com cabelos negros tão longos que tapavam boa parte de seu corpo. Seus olhos estavam inteiramente lilás e enevoados. Os cortes que cobriam seu rosto, pescoço e ombros formavam desenhos, símbolos, uma imensa tatuagem de sangue. Ela levantava e abaixava as pernas, afastando e aproximando as mãos e diferentes partes do braço do rosto em uma lenta dança ritualística. Ao redor da sala seis lâmpadas apagadas eram foco da atenção exclusiva de igual número de homens mantidos de costas para o centro, vestidos com roupas militares e com pesados abafadores tampando-lhes as orelhas. - Quanto tempo você acha que demora? O homem virou-se para ela com um leve sorriso: - Não muito mais, eu acho. Ju Costa

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À medida que a criatura dançava a tatuagem continuava a escrever-se rasgando-lhe a pele até que todo seu corpo estivesse coberto com os símbolos. A cabeça mantinha-se frouxa, pendendo de um lado para o outro sem vontade própria, os movimentos foram ficando menores e mais cansados e subitamente cessaram. A criatura tinha a cabeça jogada para trás, seus cabelos foram puxados seguindo a violência do movimento, e agora revelavam o corpo que antes escondiam. Os braços e pernas estavam largados sem vida e sangue escorria por eles pingando pelos dedos, e ela parecia estar sustentada no ar como que por um anzol invisível que a puxava pela parte da frente do pescoço, todo o resto estava simplesmente largado. A tatuagem elevou-se do corpo criando um relevo, e a boca da criatura mexeu-se fora do campo de visão dos dois observadores. A voz era aguda, dolorida e sem vida: - ‘Vocês não podem procurá-la’ ele disse. ‘Vocês não vão achá-la’ ele disse. ‘Não podem entendê-la’ ele disse. ‘Não lhes serve’ ele disse. A cabeça que falava começou a se elevar, como se arrancasse forças de seu próprio discurso para retornar à vida. Mas a força exigida para mantê-la ereta observando seus interlocutores parecia ser absurda e permanecia tremendo, tentando equilibrar-se em uma só posição. Os membros que até então permaneciam mortos foram readquirindo movimentos apresentando pequenos impulsos e sacudidas. A boca arreganhada continuava seu monólogo agora exibindo dentes que pareciam ter crescido alternadamente da gengiva, alguns afiados, outros mais retos; todos grandes demais para caber dentro da boca ficando a mostra e cortando os lábios da criatura que não reduzia a velocidade das palavras agora expulsas com maior ferocidade por uma voz mais segura e grave. - Mesmo que a tivessem não saberiam que fazer com ela. Nunca vão saber o que fazer com ela. Não podem entendê-la Mesmo que a aprisionem, ela sempre pertencerá a mim! Pertencerá a mim! A fala transformou-se em um grito rouco que apenas repetia as últimas três palavras incessantemente. O homem ficou de costas para a janela apoiando-se no vidro e olhou para a outra que observa a cena como se ainda esperasse algo. - Acho que está na hora. - Ainda não nos disse nada útil. Ainda não disse nada que não soubéssemos. O corpo do outro lado já se debatia violentamente, os braços e pernas se espalhavam sacudindo-se para os lados como se fossem feitos de pano e a cabeça já se Ju Costa

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sustentava com firmeza no ar, fixa encarando seus observadores, não tremia mais. - Pertencerá a mim – entoava como uma canção. - Não vai nos dizer mais nada. – concluiu o homem. A mulher se dirigiu à lateral e apoiou sua mão na parede logo onde a janela terminava, envolvendo com seus dedos um interruptor que abrigava um pequeno botão amarelo. - Ainda há tempo – disse ainda observando a criatura que se debatia cada vez menos sofrivelmente. Em seus olhos o lilás enevoado tinha se reduzido a minúsculos pontos estáticos no meio da imensa branquidão. O homem divertia-se com a situação e disse apenas: - Não, minha senhora. Não há. A mulher pressionou o botão com o indicador e as lâmpadas dentro da sala se acenderam. Imediatamente os seis homens se viraram atirando na criatura do centro até que mais nenhuma bala restasse em suas armas. - E agora? - perguntou desolada, mais a si mesma do que ao outro. - Agora só lhe resta fazer uma coisa. - Eu não vou fazer nada – disse furiosa – é você quem vai fazer. Vai. Agora! – a última palavra foi dita forte, como uma ordem que era. E completou já saindo pela porta – mas só observe. Não a traga até que eu mande. O outro ficou sozinho no aposento. Sabia tudo que precisava saber, tinha dito tudo que ela precisa ouvir. E então disse baixinho meio que para si mesmo, meio que para o cadáver em uma língua que poucos entenderiam se ouvissem: “Você está certo, ela não entende, nunca vai entender. Mas não importa, nós entendemos, não é?” e sorriu. Seus olhos vermelhos ficaram completamente escuros e a escuridão se expandiu para o seu rosto e todo o seu corpo que ficou absolutamente negro, e então translúcido e por fim desapareceu.

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Capítulo I Trinta e dois metros

“O perigo desaparece quando ousamos enfrentá-lo.” - François Chateaubriand

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E

la sentia uma pressão sobre seus pulsos e pés. Amarras de couro acolchoadas a mantinham segura em uma cama. “O que está acontecendo?”. Uma sensação de sonolência que ela não conseguia combater a impregnava com força. Seus olhos permaneciam fechados e a garota com certeza não conseguiria abri-los em um futuro próximo. Ao invés de lutar, era muito mais agradável deixar a sensação penetrá-la e dominá-la. E seria exatamente isso o que ela faria. “O que está acontecendo?” Sua mente parcialmente lúcida continuava a se perguntar. Mas não havia resposta. Não ali, naquela escuridão de dúvida e torpor. Sua memória estava distante, aparecia para ela como a história de um filme que alguém lhe contou há muito tempo atrás, e que agora já não tinha mais qualquer importância. Ela não sentia dor ou medo. Apenas curiosidade. “Mas o que está acontecendo?” O acidente! Ela se lembrava de um acidente. Uma rua vazia, estilhaços de vidro quebrado por todo o lado, muito sangue, dois homens e uma faca. Sim, ela se lembrava daquilo. Não lembrava? Ju Costa


Ou será que tinha sido só um sonho? Ou será que tinha sido só a história de um filme que alguém lhe contou há muito tempo atrás? Seus olhos permaneciam fechados e ela se lembrou dos seus trinta e dois metros.

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Jules amarrou o cadarço e puxou o nó com força para que não desamarrasse. Sacudiu a mochila para ter certeza que estava bem presa e sentiu as amarras forçarem, seguras contra seu peito. Ela pisou nas pedras longas, lisas e molhadas com cuidado para não escorregar, e prendeu as cordas de segurança no cinto. Olhou para baixo: Trinta e dois deliciosos metros de cachoeira a aguardavam, terminando em um belíssimo véu de espuma branca e gentil. Jules deitou-se no ar, segurando as travas com força ao redor da cintura, e impulsionou-se para trás, caindo gentilmente. A água batia com força em suas canelas e joelhos encharcando suas calças, mas ela não se importou. Era o tipo de dor com a qual ela já estava bem acostumada. Afinal, rapel era uma de suas atividades favoritas, e aqueles contratempos faziam parte. Julie olhou para cima para a visão privilegiada da cachoeira que só os praticantes de rapel poderiam apreciar. A cachoeira caía sobre ela com toda a sua majestade. Larga, forte e torrencial, a água deslizava pelo tapete vertical de pedras no qual Julie se apoiava para equilibrar o peso, enquanto descia. Ela segurou as travas e olhou para o céu, sentia o respingar da água que batia com força contra seu corpo ser levantado pelo vento e bater em sua boca, olhos e cabelos. O ar tinha um cheiro leve e confortável de água doce, plantas e terra molhada. Jules respirou fundo umas duas vezes antes de continuar a sua descida. A espuma branca abraçou o corpo de Julie, e ela percebeu que tinha chegado ao fim da cachoeira. Esticou um pé para as pedras mais abaixo, e se segurou na corda até estar firme sobre os dois pés. Soltou as travas e se afastou em direção à margem com bastante cuidado. Caso ela desse um único passo em falso, as pedras úmidas seriam traiçoeiras, e ela sabia muito bem disso. Já tinha caído algumas vezes em sua vida, em situações como aquela. Não que quedas, arranhões e machucados a impedissem de continuar voltando a se embrenhar naquelas trilhas que ela tanto amava. Na margem, ela sentou-se em uma pedra larga e redonda que parecia estar menos molhada que tudo o mais ao redor. Desamarrou a mochila e colocou-a para A Idade do Sangue •– Agnus Dei


descansar ao seu lado, arrancou os tênis e as meias molhadas com um puxão e enfiou a mão na mochila para procurar meias secas. A trilha ainda seguia por mais duas ou três horas de caminhada. Meias secas eram essenciais. A mão molhada de Jules encontrou um pedaço de papel meio amassado, ela o retirou com cuidado e um pouco de purpurina azul se espalhou em sua mão. Ela sorriu. A mochila que ela usava para as trilhas era a mesma que levava para a creche pública onde fazia trabalho voluntário. Volta e meia, quando enfiava a mão lá dentro para pegar uma meia seca, acabava achando algum desenho que uma das crianças tinha feito para ela. E volta e meia, queria achar os desenhos e encontrava apenas meias secas. Era um desenho simples, feito com lápis de cera colorido e pontos duros aqui e ali, onde a criança tinha colocado cola demais para colar um pouco de purpurina. Na folha, o céu branco, cheio de nuvens de purpurina azul, estava sobre a cabeça do que deveria ser um ser humano. Um círculo mal feito sobre um corpo de palito com uns traços marrons que deveriam ser os cabelos não fazia exatamente jus à figura de Julie. Alta, com a pele levemente morena e suave, os longos cabelos escuros desciam em cachos largos pelos ombros e abaixo deles, quando ela não os tinha presos em um farto rabo de cavalo. Seus lábios eram bem desenhados e preenchidos, os traços finos e longos, os olhos de um negro muito escuro. Ela sorriu para o desenho. “Suas crianças”, como as chamava, sabiam o quanto ela adorava se enfiar no mato e só reaparecer dias depois, por isso, sempre que a desenhavam, faziam questão de colocar muita natureza ao redor. Talvez seja assim que elas me vêem, pensou Julie, Uma cabeça redonda, um corpo de palito e muito céu. O desenho foi dobrado e colocado com muita gentileza de volta dentro da mochila. As meias secas apareceram, bem como a pequena toalha de rosto amarela que Julie sempre levava consigo. Era importante ter uma toalha, mas toalhas pequenas enxugavam tão bem quanto as grandes, ocupavam menos espaço e faziam menos peso. Ela enxugou os pés antes de calçar as meias secas e o tênis ainda molhado. A roupa secaria dali a algum tempo. Levantou-se batendo as mãos uma na outra para se livrar da terra que tinha se acumulado em suas palmas quando se apoiou nas mãos para levantar. E pôs-se a andar. A vida pode ser curta e grossa com algumas pessoas. E era assim com Julie. O “meio do nada” era o seu lugar de descanso. Era onde recarregava as baterias. O trabalho cansativo, o chefe instável, a família distante... No final das contas, tudo que Julie realmente tinha eram aqueles trinta e dois metros de cachoeira. Ela sentiu sua bolsa vibrando nas suas costas. Mas o que diab...

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Seu celular estava ligado, e apesar dele quase nunca funcionar ali, estava tocando. - Chefe? – chamou ela. - Cadê os recibos? – aquele era um homem que não perdia qualquer tempo com gentilezas. Nada de “desculpe te incomodar no feriado” ou sequer um “boa tarde”. Não. Ele precisava saber onde estavam os recibos. - Quais recibos? - Os recibos! – ele realmente achava que era possível responder um pergunta simplesmente repetindo o que já tinha dito antes. Mas Jules já trabalhava com ele há muito tempo – tempo até demais – e já tinha aprendido a se comunicar no mesmo dialeto que ele. - Estão na sua segunda gaveta, chefe. Você pediu que eu colocasse lá, antes de sair. Lembra? - Não! Aquele recibo não! Estou falando do outro. - Deve estar com Val. O único que estava comigo eu coloquei na sua segunda gaveta. – a ligação estava começando a cortar. Julie não se deu ao trabalho de parar de andar enquanto falava com ele. E quanto mais ela andava, pior o sinal ficava. - Onde diabos você está, menina? - No meio do nada. – respondeu ela. Todo mundo que conhecia Julie sabia o que “o meio do nada” significava. Ela podia estar em uma trilha em Machu Pichu, se preparando para pular de pára-quedas na Ilha de Itaparica no nordeste da costa brasileira, uma trilha a cavalo na região dos Cárpatos na Romênia, parasailing em Cancun, paragliding em Hopfgarten,e sabe-se lá mais o quê. Mas independente de onde ela estivesse, “no meio do nada” significa que ela não queria responder. Ela detestava colegas e conhecidos que faziam questão de conhecer detalhes íntimos da vida de todos ao seu redor. Mesmo quando a pessoa dava todas as indicações de que não queria responder. Antes de desligar, ela ouviu seu chefe resmungar algo do outro lado que soou como “cuidado”. Mas “cuidado” era um conceito muito vasto naquelas terras. Poderia significar cuidado com a trilha de pedras úmidas traiçoeiras e escorregadias, ou cuidado com ladrões e outros criminosos que andam pelas regiões mais ermas deste mundo, cuidado para não rasgar os desenhos das suas crianças com seus dedos molhados, ou até mesmo cuidado com o que diz sobre onde estão os meus recibos. Ele deveria ter sido mais específico, pensou Jules. Mas a verdade era que não importava. Conhecendo seu chefe como conhecia, o que ele quis dizer provavelmente foi algo como “Cuidado. Não vá morrer no meio do nada, pois eu preciso de você na segunda”. Era estranho como todo mundo sempre achava que Julie ia morrer só porque gostava de passear no meio da natureza. Certo, alguns dos esportes radicais que ela gostava de praticar eram um pouco mais arriscados. Mas, no geral, tudo que ela fazia A Idade do Sangue •– Agnus Dei


era andar no meio do mato, seguindo trilhas que ela já tinha feito tantas vezes que poderia repetir de olhos fechados. Mas as pessoas costumam achar que só porque elas não fazem, ou não gostam, ou não sabem como fazer, deve ser algo muito perigoso. Aquela era uma das trilhas que Julie já tinha repetido mais vezes. Ela adorava o lugar. Aquela cachoeira específica era a redenção de todos os seus problemas. Trinta e dois metros: tudo que ela precisava para preservar sua sanidade. Só fechar os olhos e se lembrar do céu, e da vista privilegiada que só os praticantes de rapel podem apreciar. Quem tem coragem para sair do convencional pode aproveitar coisas que as outras pessoas nem sonham que existem: a dor na canela, os respingos nos olhos, o abraço de espuma branca, o desenho no lugar da meia, o infinito verde e solitário que a natureza parecia ter feito só pra ela. Os caminhos estreitos cercados de vegetação densa foram se abrindo diante de Julie. O chão de barro vermelho tomou o lugar da terra negra e molhada, e a vegetação ficou bem mais branda à medida que ela se aproximava da pequena cidade de Bonito. Uma casa achatada e amarela já era vista à distância. Não parecia mais do que um casebre, mas Jules já tinha feito aquele caminho vezes o suficiente para saber que era uma Igreja. Podem faltar hospitais nessas cidadezinhas, mas Igrejas, nunca. Resmungou Jules para si mesma. Ela era uma ateia convicta, e às vezes a devoção alheia a incomodava. Rob estava esperando, deitado no fundo da Kombi branca e enferrujada que dirigia. As portas estavam escancaradas e o som do carro tocava alguma música que Julie não conseguiu identificar, tamanho era o chiado dos auto-falantes. Ela puxou a perna do homem magro e velho que estava estirado no fundo do carro, ele se levantou com um pulo e a cumprimentou. - Opa! Já está de volta? - Obrigada por vir me buscar, Rob! – sorriu. Eles entraram no carro que tremeu e chiou antes de finalmente dar partida. Ele seguiu devagar pela estrada esburacada de barro. O caminho estava bem vazio, como era de se esperar. O carro velho rangia e sacudia a cada buraco alcançado na estrada. O barulho do motor roncando soava como uma canção de ninar aos ouvidos cansados de Julie, que se recostou na cadeira, ainda abraçada com sua mochila e fechou os olhos. A pancada que ela sentiu na testa foi forte o suficiente para arrancá-la de seu torpor. O que foi is... Ela levou os dedos ao lugar dolorido em sua cabeça. Ela olhou para o líquido viscoso e vermelho em sua mão. Sangue... Ela achou que ia desmaiar. Aos pouco a sensação estava voltando. A Kombi velha tinha derrapado, rasgando no barro úmido e lamacento. O barulho alto, de metal e vidro quebrando. O Ju Costa

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impacto lançando sua cabeça contra painel. Batemos. Concluiu. Mas em que? A estrada tinha estado vazia até poucos segundos antes. Sua cabeça doía e girava. Rob desligou o carro e Jules o percebeu escorregando pela porta do motorista. Ela também abriu a sua porta, completamente atordoada para seguir o colega. Estava emperrada. Era óbvio porque. O outro carro tinha se enfiado na lateral da Kombi entortando a porta do passageiro. Ela se esticou vagarosamente para o banco do motorista, para sair do carro pela porta aberta Olhou ao redor, fora ela e Rob não havia viva alma. Julie se sentia como se estivesse assistindo a um filme, ela estava assistindo a si mesma sair do carro. O pensamento de que alguém poderia ter se machucado a atingiu de repente, fazendo com que sua cabeça dolorida parasse de girar tempo suficiente para que ela pudesse ajudar quem quer que estivesse ferido. Andou em direção ao outro carro para verificar se o motorista estava bem, Rob já estava lá, olhando para dentro do outro carro, confuso. No caminho havia muitos pedaços de vidro e ela pôde ver que o dano no carro foi bastante significativo: a lateral da Kombi estava destruída e tinha levado boa parte da dignidade da frente do outro carro consigo. Jules passou pela frente do outro carro tentado olhar para dentro do veículo através do vidro frontal – totalmente coberto de rachaduras – mas não conseguia ver nada lá dentro. Todos os seus movimentos eram automáticos. Ainda não tinha processado tudo que tinha acontecido e estava se sentindo aérea, entre um tropeço e outro só conseguia focalizar sua mente em saber se a outra pessoa estava bem. Ela mal tinha consciência de Rob que estava em algum lugar perto dela. Chegou à porta do motorista e olhou para dentro, para ver o que tinha deixado seu colega tão confuso. A janela de vidro estava completamente baixa e ela pode ver muito bem que não havia qualquer pessoa lá dentro. A chave ainda na ignição e o motor ainda ligado afastaram rapidamente a idéia breve que surgiu na cabeça de Julie, de que talvez eles tivessem batido em um carro estacionado. Então, ela sentiu Rob cair subitamente ao seu lado, e mal teve tempo de vê-lo sangrar até a morte quando sentiu alguém à suas costas lhe segurar firmemente pelos cabelos, e bater sua cabeça com força contra a parte superior da porta fechada do motorista. Julie cambaleou e achou que ia perder os sentidos, mas, de algum modo, seu corpo resistiu ao golpe e girou sob si mesmo ficando de frente para o agressor. Seus olhos não conseguiram sequer identificar – ou tentar identificar – quem ele era, o que estava vestindo. A garota apenas se jogou contra ele em uma tentativa desesperada de fugir. Tentou gritar por socorro, mas apenas teve tempo de encher os pulmões, e o homem, muito mais forte do que ela, lhe tapou a boca e lhe segurou os braços agarrando seu abdômen, com violência. Ela sentiu o homem forte atrás dela, esfregando suas pernas contra a parte de A Idade do Sangue •– Agnus Dei


trás de suas coxas, enquanto a segurava em um aperto intransponível. A parte da garota que não queria morrer forçou o corpo a ficar quieto, talvez ele a deixasse viver. Mas desistir não cabia muito bem no coração de Julie e, mesmo que sua intenção fosse desistir, ela não conseguiu parar de se debater. Alguns metros atrás dela, apoiado contra a lateral de uma das construções próximas, estava um homem. Sua presença era, até então, ignorada. Era belo, alto com vastos cabelos negros e cavanhaque ralo e elegante. Não havia nada de peculiar em sua figura, fora seus olhos de um vermelho intenso e o fato de que estava com os pés descalços. Presenciou toda a situação à distância e estava transtornado. Ele colocou a mão no bolso direito pela milionésima vez e verificou seu celular. Nada. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação, nenhum aviso. Ainda deveria só observar. O problema é que se ele continuasse ali parado, em algum tempo, era possível que não restasse mais nada para se observar. Queria que o agressor nocauteasse a garota, assim poderia livrar-se dele com mais facilidade, e levá-la a um hospital ou algo assim. Mas enquanto ela estivesse acordada, aproximar-se significaria uma atitude decisiva que ele ainda não tinha recebido autorização para tomar. O homem segurava o pescoço da menina com força e ela sufocava em desespero enquanto tentava inutilmente se debater contra ele. Ela não ia desmaiar, não ia perder os sentidos. Maasi sabia disso. Então resolveu interferir. O agressor não notou quando Maasi se aproximou com uma velocidade assustadora. Mas a garota sim. Com os olhos arregalados pela falta de oxigênio ela viu o homem que lhe atacava puxar uma faca e colocar contra seu pescoço aliviando um pouco a força contra sua garganta. E viu também uma outra figura que simplesmente apareceu às costas de seu agressor. Maasi sorriu. O fato é que quando aquele criminoso acordou pela manhã, não fazia ideia do que iria presenciar. Maasi colocou as mãos no homem que atacava a garota indefesa, pronto para jogá-lo para longe dali, com apenas um leve movimento de seus braços. E foi aí que ele viu a faca que o homem apoiava contra a garganta de sua vítima. Era uma lâmina curva quase em U, tinha o fio do lado contrário, uma lâmina invertida; e ao longo de sua superfície estavam escritas com elegante letra em tinta prateada palavras de uma língua esquecida: mitol d’righlâyhon l’vyshtau rahtan umistârehvyn l’méshâdh dma zâk-kaya Maasi enrijeceu os músculos e travou os dentes, pressionando seus caninos afiados contra os lábios. E com as suas mãos já nos ombros do homem, o puxou para trás, com violência. O agressor então notou sua presença, e rapidamente golpeou Maasi com sua arma de lâmina curva. - Saia daqui, filho – disse o agressor, calmo – o que está acontecendo aqui Ju Costa

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é além de sua compreensão. Maasi estava furioso: - Nada – vociferou – está além de minha compreensão. Humano. – cuspiu a última palavra quase que com nojo. O outro, então, percebendo que não estava lidando com um transeunte qualquer, atacou-o sem piedade nem hesitação. Para Maasi nada daquilo ia ser difícil, ia apenas desviar de um lado para o outro cansando e humilhando seu oponente até que a brincadeira perdesse a graça. Mas o primeiro golpe deferido pelo inimigo o acertou rasgando boa parte de seu antebraço. Ele olhou surpreso para a própria ferida, que rapidamente coagulou e cicatrizou e do braço levou os olhos ao estranho que não pareceu impressionado. - Conheço você! Nosferatu! – anunciou. Maasi deitou a cabeça para a lateral encostando-a em seu ombro direito: - Não me chame assim. – sorriu – Eu não gosto. Investiu contra a faca do outro em uma tentativa de arrancá-la para si. Talvez aquilo fosse dar mais trabalho do que tinha antecipado. A garota assustada estava agora deitada no chão recuperando loucamente o fôlego. Maasi movia-se rápido demais para o pobre homem, mas ainda assim ele estava conseguindo ficar a sua altura. Escapou do último golpe com dificuldade e teve que se afastar para fazê-lo. Permaneceu um pouco distante procurando a melhor deixa para se aproximar. Julie estava com medo e não entendia o que estava vendo, mas também não queria ficar para descobrir. Levantou-se com o que restava de suas forças e coragem e correu. O homem entre ela e Maasi notando sua movimentação precisou apenas virar para trás com intensidade o braço que segurava a faca e atravessá-la em sua garganta que cedeu de um lado a outro espalhando seu sangue pelo estrada de barro em fortes jatos. A garota já estava condenada à morte antes mesmo de cair ao chão. De longe, Maasi aproveitou as costas de seu oponente, sacou sua arma com tranqüilidade e atirou três vezes em seu peito assim que ele se virou de volta. O agressor da lâmina curva finalmente caiu de joelhos sangrando e balbuciando em suspiros: Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum

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Maasi guardou sua Taurus, munida com balas modificadas .454 Cassul, e adiantou-se em direção à garota. A rua continuava convenientemente deserta. Ouviu o barulho de um carro que estava se aproximando e achou melhor se adiantar. O moribundo continuava com uma voz cada vez mais hesitante, cada vez mais fraca e sofrida: benedicta tu in mulieribus, et benedictus fructus ventris tui, Jesus. Aproximou-se da garota com cuidado. Verificou o celular novamente, até agora nada, ainda. Mas não adiantava mais, seu sangue se espalhava pelo chão. Só havia uma solução, Theresa ia ter que entender: Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus Sua boca abriu-se em um sorriso e ele expôs seus longos caninos afiados. Respirou fundo aquele cheiro maravilhoso de sangue, como seu sangue cheirava bem, era verdadeiramente puro. E então mordeu o que restava de pescoço da vítima e bebeu seu sangue em largos goles. Era muito puro. Os olhos de Maasi se abriram forçadamente. Tinha algo errado, nunca tinha provado sangue tão puro assim: Ju Costa


nunc et in hora mortis nostrae. “Não acredito”, entendeu Maasi. “Aquele filho da mãe. Era isso o tempo todo...” Teve que controlar-se mais do que jamais imaginou precisar para interromper sua refeição e então cortou o próprio braço e ofereceu seu sangue à boca inerte da garota. O carro estava muito perto agora, tinha que ir embora. Não conseguiu segurar um sorriso largo e alto de satisfação. Tudo aquilo era inacreditável. Realmente. Segurou a garota nos braço e levantou-se. O homem jazia morto e silencioso no chão, agora.

- Amen. – Concluiu Maasi para ele. E sumiu, segundos antes do carro se aproximar o suficiente para presenciar o resto da cena.

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Capítulo II A Ordem de Aset

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heresa Monte era jovem e bela, mas a preocupação lhe agredia os traços do rosto, cada vez mais intensamente. Terminou de amarrar os longos cabelos louros em um apertado coque, ajeitou com o indicador os óculos de armação leve mais para perto do rosto. A maquiagem era fraca e opaca, a roupa era sóbria. A líder da Aset observou o reflexo do próprio rosto, no velho espelho manchado da penteadeira, uma última vez. Levantou-se, resoluta, puxando um pouco mais para baixo a longa blusa azul-claro e passando as mãos ao longo dos braços para desamassar as mangas. Tinha chamado seus conselheiros para mantê-los a par dos acontecimentos mais recentes, como era necessário que fizesse. Mas se reunir com aqueles velhos a meio caminho da cova, que achavam que sabiam de tudo era sempre muito desagradável. Até seu pai, que liderou a Aset antes dela, detestava aquelas reuniões e as evitava enquanto fosse possível. Saiu de seus aposentos e se lançou em direção ao corredor forrado com um carpete verde-escuro. Caminhou envolta em pensamentos até chegar em uma larga porta de madeira escura, com símbolos gravados em alto relevo. A porta dava para uma sala de reuniões estreita e comprida. Uma única mesa longa ocupava quase todo o aposento. Do outro lado da porta havia uma grande janela circular com finos vitrais azuis. Theresa fechou com delicadeza a porta atrás de si, não a trancou, não era necessário. Ninguém que não fizesse parte daquela reunião entraria naquela sala sem Ju Costa

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ser convidado. Os homens que já a esperavam, conversavam brevemente, a meia voz, assuntos sem importância, e mal notaram sua presença. Enquanto isso, seus olhos azuis seguiram para a última cadeira à esquerda da longa mesa de madeira negra no centro do ambiente. Ali, envolto em leves sombras, sentava um homem alto de feições alongadas, à exceção do nariz que se destacava grosseiro no meio do rosto. Estava em silêncio, os olhos pensativos perdiam-se analisando cada detalhe da parede a sua frente, do lado oposto da mesa. Seu nome era Arthur, e para Theresa, a sua opinião era a única que importava, a única voz que deveria ser ouvida entre todas as outras, naquela reunião. À medida que foram notando a chegada de seu líder, os homens foram progressivamente silenciando, até que o único som que restava calar era a voz rouca de um homem gordo em pé ao fundo da sala que segurava um celular na mão obesa, apertando-o contra a orelha e falava rápido, dando leves gargalhadas guturais, com intervalos para respirar. Monte não esperava respeito ou educação de metade daquelas pessoas. Sabia que era detestada e ridicularizada, mas iria cumprir a sua missão na Ordem de Aset. - Desligue isso, Marvin! Theresa já está aqui. – a voz vinha de seu lado direito à altura de sua cintura, ela se virou e viu um homem miúdo, retorcido em cima de uma cadeira de rodas, era careca e usava óculos sem hastes presos no nariz. – não ligue para ele, meu bem. – continuou o miúdo – Como você está? Robert era um homem ruim, e Theresa sabia muito bem disso. Ele sempre se forçava a ser gentil, mas nunca conseguia ser verdadeiro e agradável. As más línguas pelos corredores da Aset sempre disseram que Robert se achava dono da Ordem por ser um burocrata antigo no serviço, que sabia bem demais como tudo funcionava e como modificar um pouco – ou muito – as coisas para que elas funcionassem a seu favor. - Estou bem, Robert. – respondeu, seca. - Que bom, que bom. Com tudo que vem acontecendo era de se esperar que estivesse com medo – ele falava entoando cada palavra como uma canção maldita, em uma voz baixa e com ares de segredo – mas eu sempre soube que você tinha herdado os nervos de seu pai. Apostei dinheiro com muita gente que você não hesitaria! Gente que não acredita em você. Gente desta sala, inclusive... – concluiu, baixando ainda mais a voz ao dizer suas últimas palavras. Theresa andou até sua cadeira e sentou-se, esperando Marvin terminar sua conversa ao telefone e ignorando completamente tudo que dizia Robert. Olhou mais uma vez para Arthur sentado ao final da mesa. Ele não havia se movido, a expressão continuava a mesma. Monte não entendia porque uma pessoa tão sábia e tranquila como Arthur estava sempre soturna e cabisbaixa; ele tinha sempre no rosto aquele olhar de alguém que viveu coisa demais em tempo de menos. - Vamos acabar logo com isso, então. – Marvin sentou-se à mesa, dirigindo-se aos outros com aspereza. Theresa permaneceu em silêncio olhando para Arthur, e, A Idade do Sangue •– Agnus Dei


apenas alguns segundos depois, quando ele a olhou de volta e expirou longamente, como quem acorda de um pensamente profundo, foi que ela sentiu-se autorizada a começar. - Acho que todos já imaginam porque estão aqui. – disse, continuando sem perder tempo – Ainda não sabemos exatamente o que aquela garota representa, mas achei melhor mandar alguém ficar de olho nela por enquanto. O último exector que encontramos foi tão pouco útil quanto os outros... - Calma, Monte. – a voz era autoritária, com um sotaque forte e marcante. Theresa achava humilhante como todos naquela sala pareciam ser o líder da Aset e não ela. De fato, se algum desconhecido observasse a reunião pareceria que aquele era o grupo de líderes e ela uma mera conselheira. – temos um novo companheiro. – continuou o homem de cabelos grisalhos e fofos, que a interrompia – Não acha que devemos colocá-lo a par da situação antes de começarmos? – Theresa pareceu confusa, e realmente estava. - Novo companheiro? – perguntou observando a mesa. Não havia qualquer desconhecido ali. Ao longe, estava Arthur sentado sem interferir; a sua esquerda estava Marvin, sentado na cabeceira da mesa do lado oposto ao de Monte, os dedos gordos tamborilando impacientes nos braços de sua cadeira; mais três assentos para esquerda estava o homem grisalho de cabelos fofos que interrompia a reunião, exatamente à direita de Theresa; e à esquerda dela estava Robert, espremendo-se ao seu lado, dividindo a cabeceira por ela ocupada. Todos os outros assentos estavam vagos. Monte abriu a boca para perguntar algo que lhe ajudasse a entender o comentário feito pelo outro, mas foi imediatamente interrompida por Arthur, que pigarreou alto, chamando sua atenção. As pálpebras leves de Theresa piscaram brevemente sobre seus grandes olhos azuis, antes que ela desviasse sua atenção para a figura magra e elegante do amigo sentado ao final da mesa. Seus olhos se encontraram por um momento, e então, Arthur desviou os seus para algum local atrás de Theresa. Ela se virou rapidamente para observar um jovem magro, parado com as costas contra a parede próxima à porta. Ela pensou que deveria ter passado direto por ele ao entrar, sem sequer notar sua presença, absorta na tentativa de ignorar cada palavra de Robert. Seus olhos se demoraram nele: tinha no máximo 30 anos, os olhos eram de um castanho muito claro assim como o cabelo, que ele usava curto e arrepiado. O nó da gravata mostrava falta de experiência na utilização daquele tipo de roupa, e ao se desencostar da parede e aproximar-se da mesa, ele tropeçou brevemente sobre os próprios pés e parecia realmente constrangido, e meio envergonhado, com toda a situação. Era como um aluno novo na escola no primeiro dia de aula que não sabe onde se sentar. Já próximo à mesa, passava os olhos pelos rostos de todos, como que esperando que alguém o convidasse a sentar. Puxou por fim a cadeira próxima ao homem grisalho e autoritário, mas imediatamente desistiu e saltitou parado no local onde Ju Costa

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estava, visivelmente indeciso se deveria ou não sentar. E finalmente resolveu ficar em pé por trás da cadeira que tinha escolhido, ainda segurando-a como apoio. - Este – apresentou o grisalho com um sorriso arrogante invadindo-lhe o rosto – é Henri Lahalle. Meu substituto. Monte estava sem palavras, apenas arregalou os olhos para ele, esperando que continuasse. - Estou velho. – concluiu com obviedade no tom de voz carregado por um forte sotaque francês – nunca quis trabalhar com isso para sempre. Aliás – bufou irônico – nunca quis trabalhar com isso. Aposento-me imediatamente e estou colocando Henri em meu lugar. A indignação na voz de Monte era facilmente perceptível: - Não é assim que funciona, Michel. – disse, entre os dentes travados de ódio, cuspindo o nome com nojo – Nunca lhe ocorreu que caberia a mim decidir sobre seu substituto no conselho da instituição que eu lidero? - Não é assim que funciona, Theresa – disse, repetindo a violência nas palavras – eu sou um encarregado do governo para verificar o bom funcionamento deste... órgão. – concluiu com desprezo – São meus superiores quem decidem quem colocar aqui. - E não acharam que deveriam fazer, pelo menos, a gentileza de me informar? – Ela ainda estava enchendo a boca, pronta para continuar a discussão por horas, para ofender a ele, ao novato e a todos os seus superiores. Iria xingá-los e amaldiçoá-los, aquilo não podia continuar. Desde que assumiu a Aset nunca fora respeitada, ou sequer aceita, como a líder que era. A cada dia surgia uma novidade, pequenos detalhes ou grandes problemas: fosse o desrespeito de seus colegas de trabalho, ou o descaso de seus superiores de lhe informar sobre decisões tomadas. Algo sempre a impedia de exercer sua função. - Estou lhe informando agora. – disse o outro, como se não visse qualquer problema nisso. - Eu sou a chefe deste buraco – disse Monte, perdendo a classe – se vão trocar alguém da minha equipe, têm que me comunicar. A decisão deve ser feita com minha participação. E não arbitrariamente por sabe deus quem... - Foi feita por mim! Eu escolhi Henri. Ele é mais do que qualificado para a função que vai exercer neste buraco, como você bem colocou. Theresa estava vermelha, o ar lhe faltava nos pulmões, tão nervosa que estava não notou a aproximação de Arthur. Ele parou atrás de sua cadeira e colocou as mãos em seus ombros. Quando ele falou sua voz soou imponente e resoluta: - Senhora, por que não me deixa explicar ao nosso novo companheiro o que ele precisa saber? Não adianta discutir modificação de pessoal com Michel, afinal – continuou com tom de obviedade – ele é apenas um subalterno. Se a indicação que ele fez foi bem recebida pelos superiores, e a senhora discorda, discuta direto com A Idade do Sangue •– Agnus Dei


seus iguais, ao invés de com um inferior – disse Arthur, gesticulando com a mão para indicar o grisalho arrogante – que nada poderá resolver. Monte conseguiu engolir a indignação, Arthur tinha um excelente tato nestes assuntos e ela preferiu deixá-lo continuar, enquanto aproveitava para se acalmar. - Faça como quiser – disse Theresa, apenas. Arthur era um homem alto e esbelto de cabelos pretos cortados bem curtos, e dirigiu-se ao jovem Henri com educação, deixando claro em seus gestos, que apenas estava prosseguindo após receber a autorização de Theresa para fazê-lo: - Então. Até onde você sabe? – perguntou, com delicadeza. O garoto parecia não entender que estavam falando com ele, mantinha os olhos girando de um lado a outro da sala, completamente perdido. Olhou para Michel e esperou que este assentisse, dando-lhe permissão para que falasse. - Sei que vou trabalhar aqui como fiscal do governo e que tenho... que fazer relatórios s-sobre qualquer coisa. Qualquer coisa que eu ache relevante. – Toda a figura do garoto era patética. Seu paletó impecável parecia ser o primeiro que ele usava na vida e a cada movimento mais brusco que fazia, passava as mãos ao longo do próprio corpo, como que para verificar se não tinha amassado nada. E quando falava, seu tom de voz era o de alguém que pedia desculpa por existir. - Não quis dizer sobre seu trabalho, filho – explicou Arthur, de um jeito com que homens sérios se dirigem a crianças pequenas – quis dizer sobre este lugar e o que se faz aqui. - Eu fazia parte da comitiva do congressista Jean Ditoin quando ele sofreu aquele ataque que todos os jornais comentaram. – começou o jovem Henri. – Estava lá com ele quando aquelas coisas o atacaram. – sua voz tremia perceptivelmente. – Então eu acabei vindo parar aqui... - Ditoin foi uma grande perda. – lamentou-se Theresa, baixinho. - Perdão? – perguntou Henri. - Jean Ditoin. – explicou ela em alto e bom som – Ele, de certo modo, trabalhava conosco. Protegia pessoas que traíam organizações contrárias a nossa e resolviam vir para cá. - Sumaína... – começou Henri. - Sim. – disse Theresa - Sumaína era wiccaning, trabalhava para o Vaticano... Mas a dúvida estampada no rosto de Henri fez com que Theresa parasse. - Wiccaning é algo como uma bruxa. – disse Henri em tom de pergunta – E vocês aqui, dessa organização, são as únicas que trabalham com forças sobrenaturais. – outra pergunta disfarçada de afirmação. Talvez ele fosse continuar falando, e até dizendo outras coisas que sabia daquela Organização. Mas o fato é que ele ainda não sabia nada de relevante e ouvi-lo pareceu desnecessário para Arthur, que interrompeu Henri, dizendo: - Está bem. Vamos começar pelo começo. Esta instituição chama-se Aset, ou Ju Costa

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Ordem de Aset, se preferir; e ela é responsável por manter sob controle essas... coisas que atacaram você e várias outras pessoas comuns pelo mundo inteiro. Nesta sala, estão as pessoas do conselho e liderança da Ordem, grupo seleto do qual você fará parte a partir de hoje. Meu nome é Arthur, sou o segundo conselheiro, o que significa que trabalho aqui todos os dias e acompanho todos os movimentos, opinando como posso. Sou um velho ranzinza e sem paciência, brinque comigo e eu te mato. Vê aquele senhor na cadeira de rodas? Aquele cuja vida parece estar se esvaindo do corpo? Seu nome é Robert Drake, ele é o primeiro conselheiro. O que significa que ele está aqui todos os dias acompanhando todas as decisões, e se acha mais importante do que eu, você, a líder da Ordem, os Beatles ou o Imperador Romano responsável pela compilação da Bíblia Sagrada. Brinque com ele e ele não te mata pessoalmente porque não pode, mas vai arranjar quem o faça. Naquela cabeceira, lá longe, está Marvin Greyer. Ele é o representante da Armaria GT&T, que não só nos fornece o nosso suprimento bélico, como é também nossa maior patrocinadora. Com ele eu não vou fazer piadinhas: ele é o homem do dinheiro e deve ser levado a sério por isso. Se não fosse por isso, eu poderia dizer que ele é um narcisista com obesidade mórbida, que trai a mulher com a chefe do Departamento de Desenvolvimentos Químicos de sua empresa e que, devido ao seu vício em trabalho, não tem tempo para o filho com tendências suicidas ou a filha drogada. Mas como ele deve ser levado a sério, não vou dizer isso. Michel Benoit você já conhece, e você vai fazer aqui basicamente o que ele fazia: nada. Você descreveu bem: relatórios sobre o que achar relevante. O que é sobre nada. Representantes do governo só ficam aqui para terem certeza que a situação está sob controle, e quando não está, avisam seus superiores para que eles puxem nossas orelhas. Mas, felizmente, somos muito absurdamente bons no que fazemos, e a situação nunca sai do controle. Então, você não precisará fazer muito a não ser observar, escrever uns papeizinhos para seus chefes e ficar fora de nosso caminho, enquanto nós cuidamos de tudo e você desenvolve seu ego, até se tornar um inútil arrogante como o que você agora vai substituir. E por último e mais importante: a líder de nossa Ordem, Theresa Monte, escolhida a dedo pelo líder anterior, o Sr. Christian. - Monte. – completou Marvin – Christian Monte, o pai dela. – explicou, com desprezo na voz. – É sempre bom dizer isso quando alguém diz que Theresa foi “escolhida a dedo” para qualquer coisa que seja, aqui dentro. - O Sr. Christian Monte – corrigiu Arthur, ao que Theresa endureceu-se e afundou-se em seu lugar. – O líder atual da Aset escolhe o líder seguinte é assim que funciona desde 2500 a.C., quando a Ordem foi criada. - Quais os critérios de escolha? – perguntou Henri, ambiciosamente, com um sorriso sonhador nos lábios, enquanto cruzava a perna direita por cima da outra em uma tentativa fracassada de parecer à vontade. - O líder observa o contingente de homens que tem sob suas ordens e escolhe A Idade do Sangue •– Agnus Dei


aquele que, a seu ver, seja o mais qualificado – respondeu Robert, de sua cadeira de rodas, intrometendo-se na explicação. – Theresa aqui teve a sorte de ser filha do grande Christian Monte – concluiu, dando uma piscadela para a jovem que, não se manifestou. Pois em sua interpretação, o comentário tanto poderia ser um elogio como uma ofensa; e, conhecendo Robert, era mais provável que a última opção estivesse correta. - Então, o líder seguinte é uma decisão arbitrária do líder atual? – perguntou o novato, certificando-se de que aquilo era tudo o que era necessário. - Sim – afirmou Arthur, com ares de simplicidade. - Isso – interrompeu novamente Robert – quando a reencarnação de um dos fundadores originais da Ordem não é encontrada. Theresa prendeu a respiração e deixou Arthur continuar com a mesma tranquilidade de sempre: - Verdade. – começou, preparando-se para alongar a explicação, diante do rosto de dúvida de seu jovem interlocutor, que arregalava os olhos castanho-claros o máximo que podia. – A Ordem de Aset foi originalmente fundada por três... – e fez uma breve pausa enquanto, visivelmente, escolhia uma palavra que fosse adequada – criaturas. Quando a reencarnação de uma dessas criaturas é encontrada, ela deve ser incorporada à Ordem e treinada para assumir a liderança. - O que nos traz para a discussão atual – concluiu Marvin, em tom de pressa. – Então, Theresa? Temos ou não um novo líder? - Não é assim tão simples, Marvin – balbuciou Theresa, a calma visivelmente recuperada – temos indicações de vários exectors... - Isso são como oráculos. – explicou Arthur para Henri, que se esforçava diante das informações recém-adquiridas, para acompanhar o diálogo. - ...indicações de vários oráculos – corrigiu-se Monte, perturbada com a novidade de ter que explicar tudo que fosse dito – que uma garota em particular pode ter informações importantes sobre o paradeiro de uma das reencarnações. Mas ainda não temos certeza. - Ótimo, então, – levantou-se Marvin – vamos trazê-la para cá e interrogá-la. Quando tiver uma resposta nos ligue, sim? Não tem por que vir até aqui só para falarmos trivialidades, sem importância. – continuou, já a meio caminho da porta – Sr. Lahalle, seja bem vindo. – disse, sem qualquer cordialidade na voz. - Sr. Greyer – interrompeu-o Theresa – a decisão do próximo líder da Aset não é uma trivialidade, sem importância. – Marvin parou, encarando-a – E não podemos simplesmente trazê-la para cá sem saber se será realmente útil. - E por que não? – perguntou Michel, finalmente participando da discussão. - Porque ela é uma pessoa. Uma pessoa inocente. E trazê-la para cá vai mudar sua vida, não quero arriscar uma garota inocente para satisfazer nossos caprichos. - Não é satisfação de caprichos – explodiu Michel, ultrajado – você mesma Ju Costa

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disse: se trata da decisão sobre um novo líder para a Ordem. Se tivermos que arriscar uma pessoa, devemos fazê-lo. Traga-a, Theresa! Imediatamente! - Ela também pode ser perigosa – continuou Theresa, como se Michel não tivesse dito qualquer palavra – é o que podemos concluir da maior parte dos relatos que recebemos dos oráculos. Ou pelo menos dos relatos que não foram feitos em Daemish. Henri estava confuso mais uma vez. - Daemish é um dialeto demoníaco que só poucos demônios de alta estirpe compreendem. Não há tradutores humanos. Theresa ignorava as explicações de Arthur para o novato: - Vou manter a garota sob observação até que saibamos o suficiente para trazê-la. Acho que devemos agir com cautela, não há motivo para afobação. - Sim, há! – disse Michel, enchendo cada sílaba com ênfase – Precisamos de um líder. - Temos um líder. – cortou-o Monte, ofendida. – Vamos observá-la, mantê-la longe de perigo, evitar que machuque outros, caso seja perigosa e vamos buscar mais informações para, só então, trazê-la! - Francamente, Theresa! – Michel agora também estava de pé – Somos seu conselho! Mas se você só nos convoca para dizer o que vai ser feito e não para nos ouvir. Poderia muito bem ter telefonado. Marvin está certo, nem precisávamos ter vindo. - Quantos homens estão seguindo esta pessoa? – a voz de Henri foi ouvida acima de todas as outras. Não pela relevância de seu comentário, mas porque todos se surpreenderam com a ousada interrupção do novato – Quero dizer, se ela pode ser perigosa, talvez fosse melhor realmente trazê-la de uma vez. Para evitar que machuque outras pessoas. É o que fazemos aqui, não é? – perguntou. E notando que tinha atingido um ponto importante, estimulou-se em seu discurso e continuou, tentando controlar a empolgação – E se não sabemos o suficiente a seu respeito, isso quer dizer que ela pode não ser importante. Mas também podemos acabar descobrindo que ela é extremamente perigosa. E se for o caso, será mais fácil controlá-la aqui do que em outro lugar, não? A boca de Monte se entreabriu um pouco enquanto buscava em sua mente uma resposta rápida. - Isso! – disse Michel, satisfeito. – Traga-a, Theresa. – concluiu com obviedade, e talvez fosse fazer mais algum comentário sobre a incompetência da moça para pensar em todos os aspectos de sua decisão, ou sobre como Henri foi uma boa escolha. Mas foi interrompido por Marvin, que ainda estava preocupado. - Quantos homens, Theresa? – sua voz, especialmente rouca, transparecia a preocupação com o escândalo que poderia surgir de uma decisão mal tomada. Uma criatura potencialmente perigosa deveria estar sendo bem seguida para evitar transA Idade do Sangue •– Agnus Dei


tornos, que significariam uma possível quebra de toda a operação e muita gente importante perdendo muito dinheiro. – Quantos soldados da Aset estão seguindo a garota? - Um – respondeu ela, monotonamente. O peito de Michel encheu-se com o máximo de ar que conseguiu reunir e estava se preparando para gritar com Theresa. Não porque se importava com o bom funcionamento da Aset, ou com a vida de inocentes, ou mesmo com os investimentos dos sócios de Marvin. Ele apenas gostava de gritar com ela e fazê-la sentir-se imprestável. Gostava muito. Mas a explosão de Marvin veio primeiro: - Você é louca! – ele estava vermelho, e mesmo sob todo o excesso de gordura, conseguia-se identificar facilmente mais de uma veia em seu corpo que poderia estourar dali a alguns segundos – Uma criatura... perigosa... desconhecida... não sabemos o que... e agora... só um homem... – gritava, com dificuldade de organizar o pensamento – Diga a verdade! Ele só está seguindo ela. Só pra constar. Você prefere que ela saia de controle e mate muita gente, porque aí seríamos forçados a abatê-la e a informação sobre o próximo líder estaria perdida! – Quanto mais irritado Marvin ficava, maior parecia ser a serenidade de Theresa. Afinal, ela tinha uma informação que ele não tinha – E aí você teria esse seu reinadozinho bastardo garantido! Você é um moleque! Um moleque com o código de ativação de uma bomba nuclear nas mãos! – ele parou para puxar ar e quando voltou a falar, sua voz rouca era baixa e ameaçadora – Olhe aqui! Se eu, ou qualquer um de meus investidores perder um centavo, me ouviu? Um único centavo por causa da sua insanidade, eu acabo com esse circo todo! Puxo da tomada e desligo tudo... - Mandei Maasi – explicou Theresa em alto e bom som. O vermelho se esvaiu do rosto de Marvin levemente, enquanto ele parecia ter reaprendido a respirar. Theresa lhe ofereceu um sorriso amistoso, sabia que agora não haveria mais motivos para quaisquer reclamações: Maasi era não apenas o guarda-costas pessoal de Theresa, como também a força mais significativa da Ordem. Era de conhecimento geral que não importava o nível de periculosidade da criatura, nada do mundo conhecido nunca seria suficiente para pará-lo. - Devia ter dito isso desde o começo – sussurrou Marvin acalmando-se, mas sua voz, ainda que baixa, continuava a soar bastante aborrecida – não tinha por que ter nos preocupado desse jeito. Sinceramente, Theresa! Em um movimento brusco, ele levantou a manga esquerda do paletó, lançou uma olhadela para o seu Rolex dourado e retomou o caminho em direção à porta: - Mantenha Maasi com essa garota, está bem? Fora isso, não há mais nada a ser dito, creio eu. Arthur recostou-se contra a parede. Michel permaneceu em pé e gesticulou para Henri que o imitasse. Robert encarava as próprias mãos entrelaçadas em seu colo, enquanto usava um dedão para perseguir o outro em movimentos circulares. Ju Costa

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A reunião estava terminada, e fora exatamente tão inútil quanto Theresa havia antecipado. Ela colocou os cotovelos sobre a mesa e, inclinando-se para frente, apoiou a testa em uma das mãos, enquanto deixava a outra cair levemente sobre a toalha branca que cobria a mesa. Ouviu a porta atrás de si se abrir e os passos apressados de Marvin se afastando. Michel seguiu-o, guiando Henri pela saída e ignorando Theresa, enquanto murmurava algumas instruções para o garoto como para quem ele deveria ligar em caso de problemas e onde seria sua sala. A porta atrás dele ficou aberta e Theresa permaneceu sentada, observando os que tinham restado. Robert abriu um largo sorriso sem emoção e Arthur desencostou-se da parede, mudando o peso do corpo de um pé para o outro: - Robert, você não tinha algo para fazer, agora? - Não, Arthur. Nada no momento. – respondeu, monotonamente. - Preciso falar com Theresa. – completou Arthur, gesticulando educadamente em direção à saída, em uma sutil indicação de que precisava ficar a sós com ela. - Não, Arthur – repetiu, com seu sorrido de dentes amarelos – Não tenho nada para fazer. – disse, escolhendo as palavras. - Pois então arranje. – explicou Arthur, sem respeito ou paciência. O sorriso sumiu do rosto do velho decrépito. Não importava qual fosse o tema em discussão, havia momentos em que Arthur simplesmente não era um homem que se deveria contrariar. E aquele era, com certeza, um desses momentos. Robert tocou a ponta da língua na lateral do lábio superior e puxou o ar entre os dentes fazendo um barulho desconfortável; e então gesticulou com a cabeça em uma educada aceitação e saiu sem dirigir outro olhar a qualquer um dos dois. Arthur fechou a porta atrás dele com cuidado, depois de se certificar que ele já estava bem longe no corredor. - Fez bem em não dizer tudo a eles, Theresa. – falou com simplicidade, sentando-se ao lado de Monte. – Estava preocupado que falasse demais, sabia que não íamos ter qualquer tempo a sós antes da reunião para que pudesse alertá-la. - Nunca digo a eles mais do que o estritamente necessário para que eles se achem por dentro da situação. Sabe disso, Arthur. - Sim, eu sei. Mas... – ele hesitava, sem saber quais palavras deveria usar – quanto a este assunto em particular, minha senhora... Temos que tomar... - Muito cuidado – concluiu Monte, completando o raciocínio do amigo. - Essa garota – continuou Arthur – ela é mesmo a reencarnação de um dos Fundadores? - Não vejo como não poderia ser. Não obtivemos nenhuma informação clara, mas tudo indica que ela seja, sim. É claro que não posso dizer isso a eles – explicou Theresa, revirando os olhos ao se referir ao seu conselho – por isso preferi dizer que só encontramos uma garota que pode ter informações sobre o próximo líder ao invés de dizer... A Idade do Sangue •– Agnus Dei


- ...que já encontramos o próximo líder. – concluiu Arthur. Os olhos de Monte estavam tristes quando ela indagou: - Que acham que farão comigo, Arthur? E não me poupe com meias verdades. Diga o que acha. O que farão comigo quando eu não conseguir mais esconder o que essa garota é? - Vão querer preparar a garota para assumir a Ordem e- Não perguntei o que acha que farão com ela, meu amigo. É de mim que estou falando, agora. – interrompeu-o com a voz vacilante – Vão tirar a Aset de mim, não vão? - O mais rápido possível. – disse o outro no tom mais amigável que conseguiu. – Por isso, agora, o mais importante é manter essa garota escondida, e o conselho no escuro. Até que você consiga decidir qual o próximo passo. - Não... o mais importante é a Aset – disse Monte, mais para si mesma do que para Arthur – O nosso trabalho aqui é o mais importante. Se ela for realmente uma Reencarnação, e eu acho que ela seja, devemos prepará-la como manda a tradição. É só que... Theresa estava com ambos os cotovelos apoiados na mesa, e agora escondia os olhos atrás das mãos. Sua voz oscilava enquanto buscava forças dentro de si para continuar: - É tudo que meu pai me deixou. Esse lugar é... é toda a família que me resta. Abrir mão de tudo assim, me parece tão... tão... sem sentido. E por uma garota que nem sabemos quem é. Uma garota que uma tradição antiga diz que devemos confiar e que um pequeno grupo de oráculos encarnados indicou. Não sei... me parece tão... perigoso. E se ela não for confiável? E se ela se vender aos nossos inimigos como outros líderes já fizeram no passado? A Aset já anda com a moral tão abalada perante a comunidade internacional, uma derrota agora... Arthur... não sei se conseguiríamos nos reerguer. - É uma decisão delicada que só você pode tomar, Theresa. – disse-lhe com doçura. – Afinal, é a você que cabe fazer a indicação do próximo líder. Monte gostava desse tom que Arthur usava para tranquilizá-la, lembrava-lhe de seu pai. E era isso que Arthur era, a seus olhos, seu novo pai. E Arthur, por sua vez, sempre tinha visto nela a filha que não poderia ter tido, mesmo quando Christian ainda era vivo. E quando seu bom amigo morreu lhe deixando encarregado da maior preciosidade que deixou pra trás, o papel de figura paterna envolveu Arthur com muito mais intensidade. - Que acha que papai faria? Acha que ele teria deixado o bom senso de lado e confiado na tradição? Que ao invés de indicar como próximo líder uma pessoa em quem confiasse e que soubesse capaz, ele indicaria alguém que nasceu, sei lá – confundiu-se Thereza ironizando – predeterminado pelas estrelas para guiar a Ordem? -Não sei. É realmente difícil dizer. Os exectors podem estar errados. Ou nossa Ju Costa

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interpretação do que eles disseram pode ter sido equivocada e essa garota pode não ter nada a ver com o que buscamos. Mas, pode ser que seja verdade. - E como vamos saber? - Com o tempo, creio eu. Theresa expirou com ansiedade: - Não temos tempo. - Temos se a solução for a mesma. – murmurou Arthur, tocando a própria boca com as pontas dos dedos. – Veja – disse, com a empolgação de quem quer resolver um problema – estamos em um dilema, certo? Queremos o que é melhor para a Aset e isso, para nós dois, significa você na liderança por tempo suficiente para encontrarmos um novo líder digno. Não por ter sido pré-selecionado, porque neste caso não saberíamos se confiar ou não nele, mas por ter se provado digno. - Isso. – disse, automaticamente, Theresa, querendo entender onde ele queria chegar. - Então, só o que precisamos fazer é observar essa garota. Trazê-la para cá é uma boa idéia. Ficamos de olho nela e começamos a prepará-la do nosso jeito. Se com o tempo a previsão dos exectors se mostrar correta, teremos um nova líder como manda a tradição. E um líder que você treinou e condicionou para ser confiável. - E se os exectors estiverem errados? E se ela não se mostrar uma líder... qual foi a palavra que você usou... digna? - O conselho não sabe que ela é a reencarnação que procuramos! – concluiu Arthur extasiado – Só precisamos dizer a todos que a informação era ruim, e que não encontramos o novo líder predestinado. E então, na hora certa, a senhora indicará o líder que convier. - Vão me chamar de incompetente - afirmou Monte - ou pior, dizer que armei para que não pudéssemos encontrar a reencarnação. Para me perpetuar na Aset. - Eles já a chamam de incompetente, minha senhora. – disse Arthur – Não haveria mudança, simplesmente teria que seguir enfrentando o que sempre enfrentou. E quanto ao argumento de que a senhora armou para que não encontrássemos o novo líder... bem... neste caso, isso seria verdade, não é? – sorriu – Então, simplesmente ouviríamos calados, e pensaríamos que os idiotas não fazem idéia de como estão certos. - E a Aset estaria segura, que é o que importa. – sorriu-lhe Theresa de volta. - A Aset estaria segura. - Mando Maasi trazer a garota, então? Ou seria melhor esperarmos mais um pouco? - Agora, seria melhor esperar. A senhora acabou de discutir com todo o seu conselho sobre porque era mais importante não trazê-la. Mudar de idéia agora e trazê-la imediatamente vai dar a eles a idéia de que a senhora resolveu, imagine só, começar a ouvi-los – sorriu brincalhão. A Idade do Sangue •– Agnus Dei


- Não! – riu forte Theresa, sacudindo as mãos no ar de forma exagerada – Não iríamos querer isso, nunca! - Mostrar que está seguindo suas próprias decisões sem deixar os argumentos infundados deles interferirem, é importante – disse Arthur, ainda alegre, mas retomando a seriedade do tema – Se não, os observadores passam a acreditar que a senhora não está realmente pesando todas as suas escolhas, e que qualquer comentário já a faz perceber falhas em seu plano. Não! Vamos passar a idéia correta: você pensou, e a melhor opção era observar a garota por um tempo, explicou isso a seu conselho e é isso que vai fazer. Segure Maasi com ela mais um dia, ou dois, e depois mande que ele a traga. - E depois, o mantemos longe dela. – afirmou Theresa, lembrando-se de um outro problema. - Por quê? – perguntou confuso. - Nada angustia Maasi mais do que o fato de estar preso a mim. – explicou Theresa com pesar - Ele quer ser livre mais do que tudo. Sua proximidade com uma criatura antiga pode estimulá-lo a buscar, nas lembranças dela, algo que o ajude a se libertar. Aí ele começaria a imaginar possibilidades. E um Maasi criativo seria muito perigoso. Ou mais perigoso do que ele já é normalmente. E eu não quero nem pensar em um Maasi livre. – disse, com uma dose saudável de terror na voz. – Vamos mantê-lo longe dela, por segurança. - E mantê-la humana também seria bom – alertou-lhe Arthur – já que estamos no assunto. Se Maasi a transformar, seria um problema. - Claro – concordou – seria muito mais difícil mantê-la sob controle. Sem contar que as lembranças poderiam voltar muito mais facilmente se ela se transformasse, e aí ela poderia dizer coisas demais a Maasi... - Maasi não sabe? – perguntou Arthur surpreso – Você não lhe disse que ela é a Reencarnação? - Não! De jeito nenhum! – assustou-se Monte – Dei-lhe outras atividades enquanto a maioria dos exectors era ouvida, de modo que ele não pudesse ter informações suficientes por si só. E a conclusão que dei a ele foi a mesma que dei ao conselho. - E ele não conseguiu perceber sozinho? – Arthur estava descrente. - Não. - Nossa! – surpreendeu-se – Você realmente está aprendendo a lidar muito bem com ele! – riu alto – Eu já existo há muito tempo, e nunca encontrei criatura na face da Terra que ludibriasse Maasi, ou pelo menos – corrigiu-se Arthur – criatura humana que o fizesse. - Ele só precisa ser mantido ocupado, e aparentemente não se concentra em outras coisas. – sorriu sem emoção – Mas com a garota aqui... pode ser mais difícil. - Principalmente se ele a morder. – concluiu – Essa garota transformada seria Ju Costa

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um grande problema. Não só porque Maasi poderia descobrir a verdade mais facilmente, mas o conselho também poderia fazê-lo. E, creio eu, são nossas duas maiores preocupações no momento. - Ótimo! – disse resoluta batendo as mãos simultaneamente nos braços de sua cadeira – Faremos isso então. Esperamos dois dias, trazemos a garota, mantemos Maasi e o conselho afastados enquanto a treinamos e... - Esperamos. – terminou Arthur. - Vai ser a parte mais difícil. – Theresa ia sorrir para o amigo, mas foi interrompida pela porta que se abriu abruptamente para dar passagem a uma garota baixa, morena, de longos cabelos intensamente cacheados. - Hia! – surpreendeu-se Theresa. Sua secretária, Hia, era uma das poucas pessoas que ainda mantinha uma saudável dose de respeito por essa instituição e sua líder. Não era de seu feitio interromper uma reunião desse modo, a não ser que houvesse algo importante a ser dito. – Que foi que houve? - Senhora! – disse a secretária, com sua voz delicada – é o Maasi, senhora... ele... ele voltou. Seria difícil dizer qual pensamento passou primeiro pela cabeça de Monte: O mais novo golpe à sua reputação por não conseguir fazer com que nem mesmo seu guarda-costas/escravo obedeça a suas ordens; a satisfação de Michel em saber que a Aset tinha mais um problema; a reviravolta da situação que interferia diretamente com seus recém-definidos planos; ou o fato de que: se Maasi estava de volta, ou ele tinha deixado a garota sozinha – o que além de ser um problema por si só, também faria com que Marvin não lhe deixasse em paz – ou... - Ele trouxe a garota, senhora! – Afirmou Hia, como quem confessa um crime. Respondendo, sem saber, às perguntas mentais de sua chefe. A cabeça de Theresa girou com a raiva, começando a latejar por baixo da pele. O imprestável do Maasi tinha adiantado o cronograma, roubando dela dois preciosos dias para se preparar para a chegada da garota que ela queria que permanecesse imperceptível dentro da instituição. - Onde ela está? – perguntou Theresa, com as primeiras notas de fúria já começando a aparecer. - Na enfermaria, senhora... – admitiu Hia, com cara de culpa, entrelaçando os dedos das mãos que ela mantinha na altura da cintura. - Na enfer-... Por quê? – indagou alto, quase gritando em um deliberado tom de ordem. - É que t-teve mais uma coisa, senhora... que aconteceu e... e eu acho... que a senhora não vai gostar.

A Idade do Sangue •– Agnus Dei


Livro 'A Idade do sangue'