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12 – BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Março, 2012

Fotos Alexandre Moraes

Entrevista JORNAL DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ • ANO XXVI • N. 102 • Março, 2012

Graduação

Difícil caminho até a proficiência

Karol Khaled

Um canteiro de obra sustentável Projeto investiga as razões de desmotivação dos alunos nos cursos de Licenciatura em Línguas Estrangeiras. Pág. 8

Medicina

Rosyane Rodrigues e Dilermando Gadelha

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Biblioteca Central da Universidade Federal do Pará está comemorando 50 anos. Junto com as 33 bibliotecas universitárias que compõem o Sistema de Bibliotecas da UFPA, a BC soma um acervo de 900 mil volumes. São livros, periódicos, obras de referência, obras raras, Coleção Amazônica, fotografias, dissertações, teses e obras em Braille. Alunos da graduação, da pós-graduação, dos ensinos fundamental e médio, servidores e professores da Instituição são os usuários mais frequentes. Mas, em tempo de avanço tecnológico, muitos usuários utilizam o contato virtual, por meio do site, blog, Twitter e Facebook. Em entrevista ao Jornal Beira do Rio, a diretora Maria das Graças Pena falou sobre os “tesouros” guardados na seção de Obras Raras, o processo de digitalização do acervo e a programação comemorativa ao cinquentenário. Beira do Rio - O Sistema de Bibliotecas reúne 33 bibliotecas em Belém e no interior. Como vocês fazem para manter esse acervo atualizado? Graça Pena – A atualização do acervo tem caráter permanente e é realizada a cada ano, respaldada na demanda apresentada pelas diversas faculdades, pelos institutos e de acordo com a disponibilidade de novas publicações no mercado editorial brasileiro. A avaliação e a seleção para a aquisição do acervo são condições básicas para atender a necessidade do ensino da graduação. Esse check list inclui observar a bibliografia básica recomendada para os cursos, as carências e as lacunas bibliográficas nas diversas áreas, as sugestões da comunidade acadêmica, as estatísticas de empréstimos e as consultas, entre outros aspectos. O objetivo é adquirir diversos tipos de publicações para suprir as necessidades de informação das atividades de ensino, pesquisa e extensão da UFPA. Beira do Rio - A principal meta para 2012 será a digitalização de acervos da Biblioteca. Como está sendo esse processo? Que obras serão digitalizadas? Como será o acesso a elas? Graça Pena – Além da produção científica e edi-

torial da UFPA, também iremos disponibilizar o acervo obras raras que sejam de domínio público: imagens fotográficas; material manuscrito, que hoje tem acesso restrito; obras da literatura paraense e amazônica. Para isso, é necessário um suporte tecnológico. Em alguma medida, esse trabalho já foi iniciado pelo Centro da Memória, de quem nós somos parceiros. Beira do Rio - Essa é uma estratégia de aproximação com essa nova geração “tecnológica” que está entrando na Universidade? Graça Pena – Para essa juventude, não há nenhum mistério acessar a informação com essas ferramentas. O que precisa é de um filtro que mostre as fontes que têm credibilidade, alerte para o que é falso, ajude a descobrir a origem daquela informação, indique onde aquele conhecimento está sendo produzido. Nós temos que explorar esse potencial. Outro dia, nós digitalizamos e enviamos para um pesquisador um capítulo do Diálogos de Platão. Isso comprova que essa demanda existe. Outro exemplo são as obras de referência – dicionários e enciclopédias. Esse material não é consultado. Eventualmente, há consulta a um dicionário técnico, algo específico. Isso acontece porque, hoje, as pessoas buscam informações no Google e não mais nos dicionários. Beira do Rio - Um dos grandes problemas enfrentado pelos professores atualmente é a questão do plágio e os meios digitais têm facilitado essa prática. Como incentivar os alunos a buscarem a pesquisa e não a cópia? Graça Pena – A Biblioteca, com a sua missão de formar e informar, seguramente, as fontes de que ela disponibiliza, tem um critério de qualidade. O que nós costumamos fazer é orientar o uso dessas fontes. Mas esse papel também cabe ao professor no momento em que ele ministra o seu conhecimento ou recomenda leituras. Os bibliotecários, como mediadores da informação, também fazem essa mesma orientação. O importante é a citação da fonte. Há, inclusive, um movimento pela garantia do direito do autor, a legislação está sendo modificada... Beira do Rio - Entre as obras raras, o que você considera um “tesouro” que merece ser

consultado pelo menos uma vez por qualquer aluno? Graça Pena – É justamente esse acervo que nós pretendemos disponibilizar na íntegra, pois são obras de acesso restrito, compradas ou doadas para a Biblioteca Central. Hoje, temos acervos de referência em Literatura, Filosofia e História, alguns manuscritos guardados no cofre. Temos, por exemplo, um diário de viagem de Jaime Cardoso, um paraense que foi embaixador do Brasil na Itália. Esses trabalhos nós queremos digitalizar e colocar na internet para que o mundo tenha acesso. Entre os nossos "tesouros", estão: o manuscrito da obra do Platão, com seis cadernos, do qual Carlos Alberto Nunes fez a tradução diretamente do Grego para o Português; a Hiléia Amazônica, do escritor carioca Gastão Luis Cruls, que retrata a região sob os aspectos da fauna, flora, etnografia e arqueologia; a edição de Dom Quixote de La Mancha, do século XVII; os Álbuns da Cidade de Belém e do Estado do Pará, impressos em 1902 e 1908, com fotos históricas do Studio Fidanza. Essas obras merecem um tratamento especial. Beira do Rio - Em dezembro passado, foi lançada a nova logomarca da Biblioteca e um selo comemorativo aos 50 anos. O que mais está previsto para as comemorações ao longo de 2012? Graça Pena – Uma série de eventos, como palestras, encontro regional, seminário, todos temáticos na área de biblioteca digital, principalmente. Esse é o tema em discussão no momento. Costumo dizer que, hoje, a biblioteca digital é um produto desta biblioteca aqui, mas, amanhã, será o inverso. A demanda pelo livro impresso continuará existindo, é nele que o aluno estuda. Porém os periódicos, que são publicados mais rapidamente do que os livros, já estão totalmente eletrônicos. A velocidade é muito grande na área da informação e nós precisamos acompanhar esse processo. Teremos uma programação especial para o Dia do Bibliotecário e para as outras datas comemorativas. Também iremos realizar um evento com o objetivo de mobilizar e dinamizar esse movimento digital na Amazônia, o qual está muito tímido. A UFPA e o MPEG são as instituições que estão na dianteira desse processo.

Conscientização: ações promoveram mudança de postura nos trabalhadores das três obras analisadas

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e acordo com profissionais da construção civil, a obra de um edifício desperdiça cerca de 20 litros de água por metro quadrado de área construída. Um prédio com 20 andares, se cada um deles tiver 250 m², irá desperdiçar cinco mil litros de água por pavimento. Diante desse quadro, estudantes do curso de Engenharia Civil da UFPA

elaboraram o Programa de Combate ao Desperdício de Água em Obras Civis. Sob a orientação do professor Manoel Diniz Peres, os alunos distribuíram cartilhas e realizaram palestras propondo uma postura ambientalmente responsável nas três obras visitadas em Belém. Após três meses, foi possível verificar a redução do consumo. Pág. 3

Nutrição

Cardápio de cantinas escolares é inadequado

Pré-natal evitaria maioria dos casos

Entrevista Graça Pena conversa sobre a programação comemorativa aos 50 anos da Biblioteca Central. Pág. 12

Coluna da Reitoria

Nanotecnologia

Pesquisa coordenada pela professora Ivanira Dias, do curso de Nutrição da UFPA, analisou o cardápio de 14

escolas particulares de Belém. Refrigerantes e salgados são os itens mais consumidos. Pág. 7

Alexandre Moraes

A "jovem senhora" se prepara para receber os nativos virtuais

Alexandre Moraes

Biblioteca Central comemora 50 anos

O risco do parto prematuro Pág. 4

Professor Marcos Allan dos Reis utiliza nanotubos de carbono para revestir turbinas de hidroelétricas. Pág. 10

Saúde

"Rompendo os muros, construindo alianças" é o artigo do pró-reitor Fernando Arthur. Pág. 2

Bettina atende estudantes de baixa renda

Opinião Assis Oliveira faz balanço do primeiro ano do curso de Etnodesenvolvimento. Pág. 2

Tese rende parceria com Eletronorte

Frutas não fazem parte do universo alimentar de grande número de crianças

Convênio firmado com a Pró-Reitoria de Extensão vai garantir cerca de 600 atendimentos ao mês. Pág. 5


BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Março, 2012 –

Coluna da REITORIA

Fernando Arthur de Freitas Neves - Pró-Reitor de Extensão da UFPA

A

Acervo Pessoal

Multicampi kkk

Projeto revitaliza a língua Munduruku

proex@ufpa.br

Rompendo os muros, construindo alianças

PROEX inicia 2012 preparada para constituir um espaço de interlocução entre o acadêmico, o governamental e a sociedade civil, no intuito de tornar sistêmica a oferta de extensão através de parcerias que acelerem o acesso às tecnologias, aos processos, aos produtos, às assessorias e aos serviços, no portfólio de ações desenvolvidas pela extensão universitária, por meio de encontros setoriais, cujo cerne seja configurar uma agenda mínima no atendimento das demandas prioritárias, ampliando a sinergia entre sociedade, Estado e UFPA. A agenda resultante do "Fórum de Extensão: diálogo UFPA e Governos" inclui 500 programas e projetos - apresentados de modo compacto para demonstrar a ação extensionista autossustentável em curso, em 2012. Entre eles, Curso de Capacitação do Quadro Técnico para Elaboração de Projetos para Captação de Recursos em Editais Federais e Curso de Prestação de Conta Municipal, Elaboração de Projetos Culturais para Captação de

Recursos, Formação de Conselheiros, Encontro de Arte e Cultura, Capacitação de Técnicos Municipais na Implementação do Cadastro Territorial Multifinalitário (CTM), com uso de Sistemas de Informações Geográficas, Aproveitamento de Água da Chuva na Amazônia, Mestrado Profissional em Gestão Pública/NAEA, Incubadora de Políticas Públicas da Amazônia, Inclusão e Formação para as Novas Tecnologias de Informação e Comunicação. O portfólio completo pode ser acessado no sítio eletrônico da PROEX. Naquele encontro, mostramos como a Universidade pode colaborar na tradução e conformação de serviços, produtos, gestões e assessorias para a assimilação de tecnologia ao cotidiano do serviço público. Há um vasto campo de possibilidades, compartilhado por instituições como a Caixa Econômica e as prefeituras, estas com propostas de convênios de cooperação técnica com a UFPA, para formar os agentes da administração pública. A Embrapa se dispôs à articulação institucional

para desenvolver ações na educação a distancia; governança de recursos naturais; tecnologia de informação e comunicação; celular comunitário e atuação na cadeia do leite e capacitação de pecuaristas familiares, com interesse em ações conjuntas no Marajó, em Altamira e em Marabá. Este arco de alianças é ponto de partida para novas iniciativas. Temos certeza de que a associação Universidade e governos precisa de uma interlocução clara, circunscrevendo o problema a ser enfrentado, sob pena de frustrações com promessas de resposta rápida, sem o planejamento da oferta da extensão universitária amparada na correta identificação do quadro que a Universidade se propõs a mitigar ou mesmo resolver. Já temos tecnologias para responder a muitas das necessidades dos municípios, mas é indispensável o protagonismo dos atores locais, a instar a Universidade na busca de soluções para melhorar a gestão e a elaboração de políticas públicas.   Constituímos, na PROEX, a

OPINIÃO

Assis da Costa Oliveira

capacidade para elaborar projetos aptos a concorrer à captação de recursos nos editais ministeriais os mais diversos. Essa expertise precisa ser tonificada pela sensibilização das prefeituras para ativarem esse dispositivo, com o afluxo de propostas nas diferentes áreas. Essas oportunidades já existem, contudo a falta de informação ou a ausência de competências instaladas faz com que a taxa de sucesso nessas concorrências não seja, ainda, a desejável. Decerto, precisamos tornar a extensão uma prática comum em todos os campi da UFPA, pois ainda há desequilíbrio na oferta de propostas devido à falta de domínio do processo de elaboração e execução das ações conforme proposto pela PROEX. A sistematização desta oferta pode ser equacionada na Escola de Extensão, abrangendo a formação presencial e a distância, com desenho curricular dinâmico para atender às demandas do Estado e da sociedade civil, sem desconsiderar, neste processo, a missão da Universidade de instigar a produção e a crítica do conhecimento.

assisdco@gmail.com

Etnodesenvolvimento: um ano de atividades curriculares

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m janeiro, o curso de Licenciatura e Bacharelado em Etnodesenvolvimento, sediado no Campus Altamira da Universidade Federal do Pará, comemorou um ano de atividades letivas. É o primeiro e único curso de graduação no Brasil pensado para habilitar pessoas na perspectiva do etnodesenvolvimento. Com a qualificação acadêmica, membros de povos e comunidades tradicionais podem melhorar as formas de gestão de suas próprias terras, recursos, organização social e cultural, assim como fortalecer o direito à autodeterminação na negociação com o Estado e no estabelecimento de projetos de desenvolvimento étnico e de relações sociopolíticas segundo seus interesses. Para tanto, o curso de Etnodesenvolvimento configura-se como política afirmativa voltada para a inclusão socioacadêmica de estudantes oriundos de povos e comunidades tradicionais, estruturado a partir da pedagogia da alternância, em que o calendário de atividades se divide entre o TempoUniversidade, no período intervalar, e o Tempo-Comunidade, no período regular. Neste último, os discentes realizam ações de pesquisa e intervenção nos grupos de pertença e produzem relatório

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ Rua Augusto Corrêa n.1 - Belém/PA beiradorio@ufpa.br - www.ufpa.br Tel. (91) 3201-8036

das atividades realizadas. Apesar de sido aprovado em maio de 2009, pela Resolução Nº 3.860 do CONSEPE/UFPA, o curso de Etnodesenvolvimento só ofertou vagas a partir de 2010, por meio de dois vestibulares diferenciados, em que foram aprovados 17 agricultores familiares da região da Transamazônica, 13 quilombolas de Salvaterra/Marajó, nove indígenas das etnias Arawete, Curuaia, Juruna e Xipaia, quatro representantes do movimento negro de Altamira, uma pescadora de Senador José Porfírio e uma ribeirinha de Curralinho/Marajó, num total de 45 discentes. Desde o início das aulas, a diversidade cultural dos discentes implicou (e implica) preocupação permanente dos docentes. As atividades pedagógicas devem, ao mesmo tempo, ressaltar as identidades coletivas de cada povo/ comunidade – para fortalecer a mobilização de cada pertença em relação às diferenças culturais – e propiciar formas de articulação das demandas e das realidades sociais – para composição de agendas comuns que evidenciem a transversalidade das situações de desigualdade e de discriminação – no intuito de potencializar a atuação

dos estudantes como agentes sociais que possuem similares histórias de opressão, ainda que com narrativas, memórias e composição políticoorganizacional distintas. Ao mesmo tempo, há o desafio do trabalho coletivo da docência, pois o Projeto Pedagógico Curricular do Curso define que mais de um professor pode ministrar cada disciplina, o que possibilitou, na prática educacional, que o perfil interdisciplinar dos docentes integrasse e enriquecesse os conteúdos programáticos definidos para cada disciplina. Por outro lado, há o desafio de verdadeiramente institucionalizar as condições de continuidade do Curso, pois, ao se estruturar pela lógica da Pedagogia da Alternância, houve o estabelecimento de atividades acadêmicas que ocorrem tanto no período intervalar (as chamadas aulas), quanto no período regular (do Tempo-Comunidade), produzindo o que costumo chamar de “curso de período letivo integral”, o que, na prática, gerou (e gera) diversos conflitos com o sistema da UFPA – pensado para administrar apenas cursos que sejam intervalares ou regulares – , como a questão do lançamento de conceitos, a matrícula dos estudantes, as bolsas de permanência estudantil e o

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financiamento do Tempo-Comunidade. Certamente, estas são questões que também devem permear outros cursos estruturados na Pedagogia da Alternância, como as Licenciaturas em Educação do Campo, de Abaetetuba e Marabá. Daí ser tão necessário pensar seriamente em formas de reordenar a estrutura universitária para melhor acolher os cursos diferenciados, situação que somente se iniciará com o estabelecimento de um fórum para discussão, o qual envolva gestores, docentes e discentes dos respectivos cursos. Ainda assim, a consequência mais importante da celebração do primeiro ano de prática educacional do Curso de Etnodesenvolvimento está no amadurecimento acadêmico e pessoal dos discentes, sujeitos que encamparam a "alma" da proposta e souberam fazer desta oportunidade de inclusão social a possibilidade de traçar novos rumos não somente para suas trajetórias e coletividades de pertença mas também para a própria Universidade, que caminha para se tornar efetivamente democrática e plural. Assis da Costa Oliveira é diretor da Faculdade de Etnodesenvolvimento.

Reitor: Carlos Edilson Maneschy; Vice-Reitor: Horácio Schneider; Pró-Reitor de Administração: Edson Ortiz de Matos; Pró-Reitor de Planejamento: Erick Nelo Pedreira; Pró-Reitora de Ensino de Graduação: Marlene Rodrigues Medeiros Freitas; Pró-Reitor de Extensão: Fernando Arthur de Freitas Neves; Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação: Emmanuel Zagury Tourinho; Pró-Reitor de Desenvolvimento e Gestão de Pessoal: João Cauby de Almeida Júnior; Pró-Reitor de Relações Internacionais: Flávio Augusto Sidrim Nassar; Prefeito do Campus: Alemar Dias Rodrigues Júnior. Assessoria de Comunicação Institucional Coordenação Luiz Cezar S. dos Santos; JORNAL BEIRA DO RIO Edição: Rosyane Rodrigues; Reportagem: Cleide Magalhães (1.563-DRT/PA)/Dilermando Gadelha/Ericka Pinto (1.266-DRT/PA)/Glauce Monteiro (1.869-DRT/PA) Helder Ferreira/Igor de Souza/Jaqueline Almeida (1.219-DRT/PA)/Mayara Albuquerque/Paulo Henrique Gadelha/Pedro Fernandes/Rosyane Rodrigues (2.386-DRT/PE); Fotografia: Alexandre Moraes/Karol Khaled; Secretaria: Silvana Vilhena; Beira On-Line: Leandro Machado; Revisão: Júlia Lopes/Cintia Magalhães; Arte e Diagramação: Rafaela André/Omar Fonseca; Impressão: Gráfica UFPA; Tiragem: 4 mil exemplares.

Ação atinge comunidades do Pará e do Amazonas

Fotos Acervo do Pesquisador

Mácio Ferreira

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Alunos indígenas do curso de Formação de Professores da Universidade Federal do Amazonas são responsáveis pelo processo de revitalização Ericka Pinto

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iniciativa de recuperar a língua Munduruku, praticamente extinta no Brasil, reacende a esperança de uma comunidade indígena localizada na aldeia Kwatá-Laranjal, na região do município de Borba, a 150 quilômetros de Manaus (AM). Alunos indígenas do curso de Formação de Professores, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), demonstraram

interesse em aprender a língua nativa nas aulas e na interação com falantes da língua na região do Tapajós, no Estado do Pará. A ideia é retomar a identidade linguística, ensinando as crianças em casa e nas escolas. A observação desse processo de revitalização da língua Munduruku é o objeto de estudo da dissertação de Mestrado em Linguística do professor Celso Francês Junior, diretor da Faculdade de Letras do Campus de Breves da Universidade Federal do Pará.

A pesquisa está sob a orientação da professora Gessiane Picanço, especialista na língua Munduruku, e teve como ponto de partida informações referentes à história, ao uso da língua, à educação e à atitude dos falantes. O levantamento foi realizado a partir de entrevistas com os 43 alunos do curso e também envolveu as comunidades indígenas. O Projeto abre discussões sobre as experiências de revitalização de idiomas, inclusive de outros países.

"É importante considerarmos que o futuro de uma língua em processo de revitalização está no que as crianças vão fazer com o idioma. São elas que determinam o sucesso ou não do processo", afirma o professor. Outro fator determinante para o interesse do aprendizado da língua está no fato de os indígenas entrevistados acreditarem que a sociedade os considera "menos índios" quando não falam a língua nativa, gerando preconceitos.

Funasa estima população com cerca de dez mil pessoas Os índios Munduruku autodenominam-se wuyjuyu, que significa povo, gente, pessoa. São conhecidos como guerreiros por atacar em massa os territórios rivais. A Fundação Nacional de Saúde (Funasa) estima uma população de aproximadamente 10.000 pessoas, com poucos falantes plenos. Essa população vive no Vale do Rio Tapajós e de seus afluentes, no Estado do Pará, sendo também encontrada na bacia do Rio Madeira, Estado do Amazonas, e na terra indígena Apiaká, município de Juara (Mato Grosso). Desde o processo de colonização do Brasil, a cultura indígena vem sofrendo diversas influências. O contato com o branco, a presença dos jesuítas, a saída de índios para trabalhar fora das aldeias e estudar em escolas não indígenas foram alguns dos fatores que contribuíram para a perda da língua. Há 500 anos, as línguas indígenas somavam cerca de 1.500. Hoje, são aproximadamente 180 idiomas,

muitos em fase de extinção. Embora algumas iniciativas comecem a resgatar essas raízes, e o que é melhor, partindo dos próprios índios, Celso Francês diz que a documentação linguística exige esforço imediato e coletivo. Para ele, é imprescindível uma mobilização para reverter o quadro de extinção das línguas indígenas no Brasil e, para isso, é preciso discutir e executar políticas de preservação, manutenção e revitalização dessas línguas. O professor compara a situação sociolinguística de duas comunidades indígenas Munduruku no Brasil. Uma está localizada no Vale do Tapajós, no Pará, e a outra, na terra indígena Kwatá-Laranjal, no rio Canumã, no Estado do Amazonas. A população localizada nas pequenas aldeias às margens do Tapajós, em sua maioria, é bilíngue. Na aldeia Sai Cinza, nas aldeias dos rios Cururu, Kabitutu e em outros afluentes do Tapajós, crianças, mulheres e idosos falam, na maioria das vezes,

Pesquisa coletou informações sobre a língua e seus falantes unicamente a língua materna. Nas aldeias do Mangue e da Praia do Índio, em Itaituba, e nas comunidades da Kwatá-Laranjal, onde vivem cerca de 2.200 índios, a língua dominante entre crianças e jovens é o

Português. Os poucos falantes nativos da língua Munduruku são idosos. "Esse foi um dos motivos da escolha desta comunidade para a pesquisa, já que possui uma língua quase extinta", explica.

Mercado de trabalho exige comunicação em Português Ele destaca alguns fatores que contribuem para esse processo: a ausência - até pouco tempo - de escolas indígenas, a alfabetização na Língua Portuguesa, e o próprio mercado de trabalho, ao exigir a comunicação em Português. "O que determina a morte do idioma é a morte do falante. Agora, existem os fatores sociais, extralinguísticos, por exemplo, os jovens indígenas começam a trabalhar

fora da aldeia, vão para a escola e, aos poucos, perdem o contato com o falante nativo", ressalta. Celso Francês acredita que, para os governos, a revitalização de uma língua não é um processo vantajoso, pois é oneroso para os cofres públicos. "Hoje, as políticas linguísticas voltadas para esta questão ainda são tímidas e, muitas vezes, hipócritas. A mobilização para a manutenção de

línguas minoritárias ainda parte de pesquisadores interessados no assunto", critica o pesquisador. Para o professor, a contribuição da pesquisa será percebida em longo prazo, ao trazer para a comunidade científica experiências de revitalização em línguas minoritárias e auxiliar na elaboração de políticas mais eficazes para a manutenção e a revitalização de idiomas que estejam em processo

de extinção. "Considero importante para o processo de revitalização que os alunos do curso de Formação de Professores no Amazonas aprendam o Munduruku e ensinem às crianças. Contudo sabemos que o Português aprendido não irá desaparecer subitamente, portanto, esperamos que, no futuro, esta comunidade seja bilíngue, falando Português e Munduruku", finaliza.


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BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Março, 2012 –

Engenharia

Nanotecnologia

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rafite e Diamante. As duas substâncias tão diferentes são feitas do mesmo material: carbono. A forma como os átomos desse elemento estão organizados é que determina se o carbono originará uma ou outra substância. Esta também é a matéria-prima para uma nova cadeia de produtos que une as propriedades orgânicas do carbono com a resistência ou a maleabilidade dos materiais que ele é capaz de originar: os nanotubos de carbono. Na Universidade Federal do Pará (UFPA), professor Marcos Allan Leite dos Reis, da Faculdade de Física do Campus de Abaetetuba desenvolveu uma máquina capaz de produzir nanotubos de carbono em matriz metálica e já testou algumas aplicabilidades. O Projeto é uma parceria da UFPA com a Eletronorte. Nanotubos de carbono são como tubos com dimensões até 70 mil vezes menores que o diâmetro de um fio de cabelo e podem ter diversas aplicabilidades. Na área ambiental, ajudam outras substâncias a conter vazamentos de óleo no mar. Na área de energia, melhoram a eficiência de condutores de eletricidade. Já nas áreas médica e farmacológica, potencializa tratamentos e ações de medicamentos ao permitir que o princípio ativo aja exatamente nas

Alexandre Moraes

Nanotubos de carbono irão revestir turbinas de hidroelétricas

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O professor Marcos Allan Leite dos Reis apresenta protótipo no Laboratório da Eletronorte células doentes, sem prejudicar as saudáveis. Durante a pesquisa, Marcos dos Reis criou um protótipo para a produção de nanotubos de carbono associados a materiais metálicos. Esses nanotubos foram testados em alguns dispositivos também inventados pelo

pesquisador e seus orientadores. O pesquisador foi aluno de doutorado da Universidade e desenvolveu sua tese com o título Desenvolvimento de dispositivos eletrônicos orgânicos nano e microestruturados: Memória Volátil, Sensores e Fotocélulas, sob orientação dos professores Jordan

Del Nero, da UFPA; Lucimara Stolz Roman, da Universidade Federal do Paraná (UFPR); e Manuel Vieira, da Universidade do Porto (FEUP). Parte da pesquisa foi realizada na Universidade do Porto, em Portugal, por meio do Programa de Mobilidade Acadêmica Erasmus Mundus.

Marcos Allan Leite dos Reis. A pesquisa é a primeira a utilizar nanotubos de carbono em revestimentos metálicos de turbinas de hidroelétricas. "A grande novidade é que estamos criando uma tecnologia: conhecimento, técnicas, metodologia, máquinas e produtos novos, o que é importante por diminuir os custos pelo fato de não termos de pagar royalties a outras instituições e países", defende o pesquisador da UFPA. Associada ao Projeto, a Eletronorte implantou um Laboratório de Nanotecnologia, que deve abrigar outros estudos sobre nanociência no futuro. Marcos Reis explica que a máquina que produz nanotubos de

carbono, batizada de Plasmatube, reduz etapas no processo industrial de produção de nanotubos em nanocompósitos e é versátil por poder produzir variedades de nanotubos. "Podemos ir incorporando o material metálico ou polimérico desejado para o nanotubo final, dependendo da aplicação requerida, sem que seja preciso modificar o equipamento ou a rotina de produção", conta. A patente do invento já foi requerida pelos pesquisadores da UFPA. Além de Marcos Reis, o Grupo de Nanotecnologia Aplicada ao Desenvolvimento de Nanocompósitos Baseados em Nanotubos de Carbono conta com pesquisadores

da Eletronorte e da UFPA, como Augusto Cézar Fonseca Saraiva e Jordan Del Nero. O pesquisador pretende desenvolver outros projetos, desta vez, específicos ao Campus de Abaetetuba. "Com a Vila do Conde tão próxima, a ideia é buscar parcerias e assinar projetos que possam propiciar aos alunos dos cursos de Engenharia Industrial e de Física bolsas de iniciação científica e experiência na área de Nanotecnologia, além de criar um grupo local de pesquisa na área", anuncia. O novo projeto produziria nanomateriais baseados em alumínio, uma vez que Abaetetuba e Barcarena trabalham com esse material.

Aplicado à robótica, dispositivo simula o tato humano Entre os dispositivos criados durante o doutorado de Marcos Reis, está uma memória volátil orgânica, um sensor para vapor combustível e um sensor termo-piesoresistivo. Todos baseados em nanotubos de carbono. Os nomes parecem complicados, mas as aplicações dos dispositivos são importantes no cotidiano. A memória volátil orgânica funciona como uma memória RAM, tais como as que existem nos computadores. A vantagem desse dispositivo em relação aos atuais é que ele muda sua natureza elétrica de

Atividades envolvem trabalhadores e engenheiros em canteiros de obras

Pedro Fernandes

Conhecimento, técnicas, metodologias e novos produtos "O protótipo que construí no doutorado repercutiu num convite da Eletronorte para participar de um projeto de pesquisa a fim de desenvolver novos revestimentos para as turbinas hidroelétricas. Periodicamente, as turbinas, como as de Tucuruí, precisam ser paralisadas para receber manutenção. A cada dia parado, há uma perda de até um milhão e meio de reais por turbina. Com o revestimento, que contém nanotubos de carbono, será possível aumentar a capacidade de operação contínua das turbinas devido ao aumento da dureza superficial de suas pás, minimizando, assim, as perdas com as desativações para manutenção", sintetiza o professor

Programa combate desperdício de água

isolante para semicondutor de eletricidade. "Um dos grandes problemas da eletrônica é que os equipamentos, cada vez menores, também aquecem mais e ocorre passagem de elétrons entre as barras de cobre por estarem 'mais próximas', o que compromete a 'leitura da informação'. Ao garantirmos que, no estado 'desligado', a memória é um isolante, ou seja, não há corrente elétrica, não ocorrerá esse processo que chamamos de tunelamento de elétrons", explica o professor. Já o sensor de vapor com-

bustível é um dispositivo que 'avisa' quando há etanol no ar. "Ele informa quando está ocorrendo vazamento, e pode ser utilizado como um sensor portátil que acusa quando o combustível está adulterado, e ainda pode ser um sistema de alarme que informa sobre vazamentos em indústrias e residências, prevenindo acidentes", enumera. O sensor termo-piesoresistivo é um dispositivo que pode ser aplicado na robótica, permitindo ao robô perceber diferenças na pressão, na temperatura e na textura do material

que está tocando, o que quer dizer que ele simula o tato. "Um robô com essa tecnologia na área médica, por exemplo, pode efetuar cirurgias e ‘sentir’ a intensidade com que está segurando a pinça ou a temperatura do paciente durante a realização da sutura, o que ajuda os médicos e os cirurgiões na condução dos procedimentos clínicos", explica. Atualmente, nenhum sensor disponível no mercado une essas propriedades. O sensor termo-piesoresistivo é baseado em nanotubos de carbono criados no protótipo do Plasmatube.

ara construir um imóvel (casa, prédio ou edifício), exige-se uma grande demanda de materiais, como ferro, concreto e tijolo. Mas não é só isso. Requer também uma grande quantidade de água. No entanto a preocupação com a economia desse recurso inexiste nas obras. Em Belém, onde esse setor se encontra em expansão, ainda não há a preocupação com a sustentabilidade nas construções. Segundo consulta aos profissionais do setor, a construção de um edifício desperdiça cerca de 20 litros de água por metro quadrado de área construída. Desse modo, uma edificação que terá 20 pavimentos ou andares, com 250 m² cada um, desperdiçará 5.000 litros de água por pavimento construído. Ao fim da obra, serão desperdiçados, em média, 100 mil litros de água. Diante desse quadro, o Programa de Combate ao Desperdício de Água em Obras Civis (PCDOC), do Instituto de Tecnologia (ITEC) da Universidade Federal do Pará (UFPA), constitui uma alternativa inteligente e inovadora de evitar o desperdício de água na construção civil. Desenvolvido por alunos do curso de Engenharia Civil, o PCDOC é um projeto de extensão que visa conscientizar os trabalhadores do setor sobre a importância de racionalizar o consumo de água nas

Números após intervenção do Projeto Ilustração Rafaela André

Tese rende parceria com Eletronorte Glauce Monteiro

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Obra B (estrutura) Redução de 31m³ = 13,61% = R$208,27 na conta

Obra C (revestimento e limpeza) Redução de 26,5 ³= 8,79% = R$ 178,10 na conta

Obra A (fundação) Redução de 19 m³ = 7,13% = R$ 127,66 na conta

construções. Por meio da distribuição de uma cartilha elaborada pelos integrantes do PCDOC e de palestras informativas, o Projeto busca desenvolver a responsabilidade social, econômica e ambiental do trabalhador, garantir a qualidade das obras e a aplicação do conceito de sustentabilidade. "Os nossos alunos, pensando no exercício da futura profissão, tiveram a ideia de ir aos canteiros de

obra conscientizar trabalhadores e engenheiros sobre a importância de evitar o desperdício de água. Neste sentido, a principal contribuição que o PCDOC traz à sociedade é a economia de água e de capital", afirma Manoel Diniz Peres, professor do curso de Engenharia Civil da UFPA e coordenador do Projeto. "O Projeto nasceu da necessidade de cumprirmos a nossa carga horária de extensão, que é de 360

horas, no mínimo. Buscamos temas relacionados à nossa área, os quais pudessem servir à comunidade. Escolhemos o meio ambiente e, posteriormente, a questão do desperdício de água nas obras civis", explica a aluna do curso de Engenharia Civil e bolsista do Projeto, Lana Daniele dos Santos Gomes. Os resultados do PCDOC foram apresentados na XIV Jornada Acadêmica da UFPA, em novembro de 2011.

Belém: t­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­rês obras de grande porte foram analisadas A fim de investigar as principais causas do desperdício de água na construção civil, os integrantes do PCDOC visitaram três obras de grande porte na capital paraense. A escolha das obras obedeceu a dois critérios: elas deveriam possuir hidrômetros (registros medidores do consumo de água) e deveriam estar em diferentes estágios de execução. Escolhidas as obras, elas foram classificadas em A, B e C. A obra "A" foi analisada na sua fase de fundação, a

obra "B", na etapa de estrutura, e a obra "C", na de revestimento e limpeza. Durante as visitas às obras, os integrantes do Projeto identificaram problemas, como vazamentos e desperdícios, os quais foram registrados por meio de fotos e anotações. Nessas obras, constatou-se que as principais causas do desperdício de água eram mangueiras danificadas ou ligadas sem uso, vazamentos nas instalações hidráulicas e negligência por parte dos funcionários. Com essas

informações, elaborou-se uma cartilha educativa com medidas de combate ao desperdício. Além de distribuir as cartilhas, o grupo realizou palestras informativas sobre como racionalizar o consumo de água. Três meses após as visitas, os integrantes do PCDOC retornaram às obras a fim de verificar se a cartilha e a palestra haviam sido bem sucedidas. Verificou-se que os trabalhadores das obras haviam assimilado e aplicado as lições recebidas. O resultado foi consi-

derado satisfatório pelos estudantes. "Quando voltamos às obras, não constatamos os problemas identificados anteriormente. Por exemplo, os operários deixavam a mangueira aberta enquanto preparavam o concreto na betoneira. Após a intervenção, essa situação deixou de existir. Os operários, preocupados com o desperdício, passaram a economizar água", conta o aluno do curso de Engenharia Civil da UFPA e bolsista do Projeto, Érico Shimada Rabello.

Resultados favorecem construtoras e meio ambiente Antes da aplicação do Projeto, os integrantes do Programa de Combate ao Desperdício de Água em Obras Civis (PCDOC) analisaram as faturas mensais de consumo de água das três obras escolhidas. A maior média de consumo mensal de água, 301,5 m³, foi constatada na obra "C". Já a menor média de consumo de água mensal, 231,5 m³, foi verificada na obra "B". Após três meses, diminuíram o desperdício e o consumo mensal. A média de consumo da obra "A" caiu de 273,5 m³ para 254 m³; da obra "B", de 231,5 m³ para 200 m³; e da obra "C", de 301,5 m³ para 275 m³. Veja na ilustração a economia nas faturas de água. "A princípio, esse trabalho não

foi diretamente voltado ao lucro das construtoras, mas ao meio ambiente e à sociedade. A partir do momento em que houver o investimento no setor de construções verdes, o avanço será maior. Todos serão favorecidos – empresas, sociedade e meio ambiente. Hoje, já existem as ‘construções responsáveis', que prezam pela sustentabilidade e respeitam o meio ambiente. Quando essa prática for incentivada em Belém, as pessoas começarão a se preocupar com o desperdício de água nas obras. Mas, por enquanto, não há o mínimo de preocupação com essa questão", declara Érico Rabello. Verticalização – O acelerado processo

de verticalização de Belém, associado à despreocupação com a economia de água, implica desperdício durante construção e depois, quando esses espaços já estão habitados. Além de alterar o espaço físico, a construção não planejada de prédios e edifícios sobrecarrega a prestação de serviços, como o abastecimento de água, o fornecimento de energia e o transporte público. "Vamos considerar uma residência com cinco pessoas consumindo água. De repente, no lugar dessa casa, é construído um edifício de 30 pavimentos e quatro apartamentos por pavimento. Serão 120 apartamentos. Se, em cada apartamento, viverem

três pessoas, serão 360 pessoas consumindo água. Quando se faz uma obra, modifica-se o entorno dessa construção. Inclusive o serviço de fornecimento de água", exemplifica Manoel Peres. Para combater o desperdício de água nas obras, é necessário que haja fiscalização e que existam políticas públicas voltadas à conscientização da sociedade. Todavia o poder municipal não fiscaliza as obras, tampouco educa o cidadão. De acordo com Lana Gomes, o Projeto surge como alternativa para promover a conscientização entre os trabalhadores da construção civil e para formar engenheiros mais responsáveis quanto à sustentabilidade ambiental.


4 – BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Março, 2012

BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Março, 2012 –

Ciência

Parto prematuro

V

erificar quais são os fatores de risco associados ao parto prematuro de gestantes atendidas na Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará. Esse foi o objetivo do estudo realizado pela professora Nara Macedo Botelho e pela bolsista Lana Fabíola de Souza, do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Pará. A pesquisa feita nas enfermarias de puerpérios - pacientes que deram à luz recentemente - no período de maio a setembro de 2010, teve como resultado a identificação e a análise dos aspectos associados ao parto prematuro na região amazônica. Segundo os dados estudados, a prematuridade continua sendo a principal causa da mortalidade neonatal, além de representar um dos maiores desafios para a obstetrícia atual e um dos problemas mais sérios enfrentados pelas mulheres durante a gestação, tanto em países desenvolvidos quanto naqueles em desenvolvimento. Durante a pesquisa, foram analisadas 100 pacientes que tiveram partos prematuros e estavam internadas nas enfermarias da Santa Casa, quando foram submetidas a uma entrevista acerca de características socioeconômicas, antecedentes pessoais, antecedentes ginecológicos, obstetrícios e gestação atual. A bolsista Lana Souza afirma que o tema lhe interessou ainda durante a graduação e virou tema do seu

Alexandre Moraes

Faltam informação e atendimento adequado durante a gravidez

U

A prematuridade e as suas consequências representam grande desafio da obstetrícia atual Trabalho de Conclusão de Curso, que obteve menção honrosa pela banca de jurados."Primeiramente, esta pesquisa seria somente para o meu TCC, mas conseguimos transformála em um projeto de extensão e fiquei trabalhando nela durante o ano de

culminar em barreiras socioeconômicas, impedindo o acesso a melhores serviços de saúde. Muitas vezes, essas mulheres têm dificuldade para entender por que elas precisam fazer o pré-natal, já que muitas vezes suas mães e avós não tiveram acesso ao serviço", explica a professora. Geografia – Segundo a bolsista Lana Souza, residir fora da capital, muitas vezes, significa acesso precário à assistência médica, deficiências de tráfego e socioeconômica. Na Amazônia, essas questões têm peculiaridades, "a própria geografia local impõe barreiras, dificulta o acesso e aumenta a distância entre a população e os serviços médicos de qualidade. Ainda há uma deficiência

Pré-natal: tempo de prevenir O Projeto sugere como alternativas à diminuição do parto prematuro o esclarecimento das gestantes em relação à importância dos exames e de um pré-natal de qualidade, tendo em vista que, muitas vezes, a gestação é o único contato que essas mulheres têm com o serviço de saúde durante sua vida adulta. "Muitas dessas mulheres, antes da gravidez, não procuram o serviço de saúde ou não têm acesso a ele. Quando engravidam, terão esse contato durante o pré-natal. Trata-se,

Geólogo da UFPA publica artigo refutando teoria clássica

Paulo Henrique Gadelha

2010." Ela afirma que o número de partos prematuros na região e a falta de conhecimento das gestantes em relação a exames básicos chamaram mais chamou sua atenção. "Quando entrei na enfermaria de puerpérios, fiquei surpresa com a falta de conheci-

mento dessas mulheres em relação ao próprio corpo. Lembro o caso de uma moça de 20 anos. Perguntei quando havia sido o seu último Preventivo de Câncer de Colo de Útero (PCCU) e ela nem sabia o que era o exame," conta.

Fora de Belém acesso à assistência médica é precário Os resultados do Projeto "Fatores de Risco para o parto prematuro em gestantes atendidas na Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará" foram apresentados durante a XIV Jornada de Extensão, ocorrida em novembro de 2011, e associam o parto prematuro aos seguintes fatores: baixa escolaridade, baixa renda, faixa etária situada entre 19 e 24 anos e ao fato de grande parte das gestantes residir no interior do Estado. Em relação aos baixos índices de escolaridade, a pesquisa indica que tal fator dificulta o acesso das pacientes a informações e medidas de prevenção e promoção à saúde. "A baixa escolaridade, associada à falta de incentivos sociais parecem

Planeta Terra não era uma bola de neve

portanto, de uma valiosa oportunidade para intervenções direcionadas à promoção da saúde da mulher", afirma a professora Nara Botelho. Lana Souza relata que os achados do estudo evidenciam, também, a necessidade de novas pesquisas dentro do tema, especialmente na região amazônica, a fim de melhorar a assistência ao pré-natal e rastrear previamente a gravidez de alto risco para tratar adequadamente as causas que levam ao parto prematuro.

muito grande no interior do Estado em relação aos serviços de saúde", afirma. Professora e aluna defendem, entretanto, que a maior descoberta do estudo refere-se à má qualidade do sistema de saúde público no Pará. Segundo a coordenadora do Projeto, ficou constatado que, apesar de cerca de 80% das gestantes terem feito o pré-natal, ou seja, seis consultas - o mínimo preconizado pelo Ministério da Saúde -, isso não refletiu em uma assistência de qualidade, pois a maioria não foi submetida aos exames básicos, como o PCCU, que, obrigatoriamente, deve ser feito durante o pré-natal. "Não é por acaso que o Pará tem a maior incidência de câncer de colo uterino.

O pré-natal é um dos momentos para essa prevenção e ela não está sendo feita", afirma Nara Botelho. A professora chama atenção para o fato de as gestantes terem feito o pré-natal e, ainda assim, evoluído para um parto precoce. "Se a maioria fez o pré-natal, por que esse parto prematuro? Há várias causas que poderiam ter sido controladas com um atendimento de qualidade", avalia. Para a professora, isso demonstra a fragilidade do sistema de saúde público na região amazônica, no que tange à assistência materno-infantil e contraria os dados de que a qualidade do pré-natal estaria melhor na última década, em vista do aumento da quantidade de consultas.

Fatores de risco - Baixa escolaridade: 41% das entrevistadas só haviam cursado o ensino fundamental completo ou incompleto e 51%, o ensino médio completo ou incompleto. Apenas 4% das entrevistadas possuíam ensino superior. - Baixa renda salarial: 70% das entrevistadas possuíam renda média familiar entre 1 e 3 salários mínimos. - Faixa etária: 36% das entrevistadas

tinham entre 19 e 24 anos. - A maioria residia no interior do Estado. *A paciente era qualificada a participar do estudo caso possuísse idade entre 12 e 45 anos completos no momento da entrevista e apresentassem recém-nascidos de parto prematuro. Foram entrevistadas 100 mulheres que se encaixavam nessas condições.

m dos escopos da ciência é elaborar teorias que expliquem, por meio da razão, os fenômenos que acontecem nos grupos humanos e na natureza e, assim, contribuir para que a sociedade esteja em contínua evolução. Muitas dessas teorias atravessam décadas, séculos, milênios e cristalizam-se como verdades absolutas. Contudo há pesquisadores que, insatisfeitos com alguns postulados, contestam e propõem novos conceitos que expliquem os fenômenos de maneira diferente. Uma dessas teorias é a Snowball Earth (Terra Bola de Neve). De acordo com esse postulado, há, aproximadamente, 630 milhões de anos, o Planeta Terra, que conhecemos hoje, estava completamente congelado, configurando-se como uma "bola de neve". Essa matriz de pensamento é contestada por Afonso César Rodrigues Nogueira, geólogo e professor da Faculdade de Geologia e do Programa de Pós-Graduação em Geologia e Geoquímica, do Instituto de Geociências (IG) da Universidade Federal do Pará (UFPA). O docente desenvolveu um estudo no qual refuta a ideia de que a Terra estava totalmente coberta por gelo ao final do período denominado Criogeniano. O questionamento culminou com a produção do artigo A carbon isotope challenge to the snowball Earth, publicado em outubro de 2011, na Revista Nature, periódico britânico de divulgação científica.

Acervo do Pesquisador

Pesquisa identifica fatores de risco

Mayara Albuquerque

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Na Região Centro Oeste, especificamente no Estado do Mato Grosso, foram realizadas as pesquisas de campo "Nós não estávamos satisfeitos com o que diz esta teoria, o objetivo principal do nosso trabalho era descobrir evidências, no Brasil, de glaciações globais que ocorreram há mais de 600 milhões de anos, para,

assim, propor uma discussão sobre esse assunto", explica o professor Afonso Nogueira. Para atingir esse objetivo, o docente realizou pesquisa de campo no Estado do Mato Grosso, na Região

Centro Oeste do Brasil. De acordo com o professor, a descoberta de evidências de glaciações nessa unidade federativa serviria como referência para as posteriores conclusões do seu estudo.

Níveis de gás carbônico eram similares aos de hoje Segundo Afonso Nogueira, a determinação da quantidade de dióxido de carbono seria o caminho para chegar a estes resultados. "Os níveis de gás carbônico que existiam na atmosfera naquele período, no qual a Terra, supostamente, era totalmente coberta por gelo, dariam-nos algumas pistas. Esses dados são importantes, pois, se uma porcentagem de dióxido de carbono muito baixa é encontrada nas rochas carbonáticas, por meio de uma variação isotópica, é possível dizer que, realmente, o gelo estava presente. Em contrapar-

tida, se há uma grande concentração deste gás na atmosfera, conclui-se que o planeta era mais quente", explica o professor. "O dióxido de carbono é um dos gases hidratos que causam o efeito estufa", destaca o geólogo. Ele diz que o período em que vivemos hoje é mais quente, porque há uma quantidade relevante desse gás sendo liberado para a atmosfera. Isso foi constatado no seu estudo. "A nossa equipe conseguiu detectar esse fenômeno. Com amostras do solo de rochas carbonáticas do

nosso campo de pesquisa, fora possível medir a quantidade de dióxido de carbono que existia na atmosfera, naquela época. Então, utilizando alguns equipamentos, equações e cálculos, chegamos ao resultado de que o Planeta Terra não era tão frio há mais de 600 milhões de anos, como se pensou durante muito tempo, não configurando a bola de neve, como preconiza a teoria Snowball Earth", afirma o pesquisador. Afonso Nogueira acredita – e reconhece – que não chegou à verdade sobre o assunto pesquisado, mas

muito próximo dela. Ainda sobre os resultados da pesquisa, ele diz que os níveis de dióxido de carbono que existiam naquela época eram parecidos com os dos tempos hodiernos, o que, para o pesquisador, já é uma evidência de que a Terra, pelo menos naquele período, não era totalmente coberta por gelo. Isso, inclusive, teria facilitado a proliferação de organismos. Afonso Nogueira lembra que, em estudos anteriores, pesquisadores norte-americanos também defendem que algumas partes da Terra teriam ficado livres do gelo.

Universidade é destaque em publicação internacional Curiosidade científica. Esse foi o principal aspecto motivacional para o desenvolvimento do estudo. Afonso Nogueira diz que, por também ser educador, a produção de uma boa pesquisa pode contribuir para o crescimento acadêmico e científico dos seus alunos. Para ele, a curiosidade pode e deve ser algo presente no cotidiano desses discentes. "Um tema como esse suscita o interesse dos estudantes pela pesquisa. Inclusive, tenho vários alunos que estão desenvolvendo essa temática em trabalhos de iniciação científica, monografias, dissertações

e teses", complementa. Segundo Afonso Nogueira, a função da Geologia é entender os processos que ocorreram na Terra. O geólogo diz que muitos eventos importantes, que marcaram o Planeta, foram determinantes para o surgimento da vida. Então, o entendimento dos fenômenos decorridos, de certa forma, serve como resposta para o futuro. Hoje, destaca o professor, por meio de várias técnicas, é possível fazer considerações a respeito, por exemplo, do efeito estufa e do aquecimento global.

Afonso Nogueira integra um seleto grupo. Ele está entre os pesquisadores brasileiros que já tiveram trabalhos publicados no periódico britânico Nature, um dos que mais têm notoriedade e credibilidade no mundo. "Os critérios de seleção dos artigos publicados na Nature são extremamente acurados", diz o docente. Esta prerrogativa, conforme destaca o pesquisador, traz um grande prestígio para a Universidade Federal do Pará, a qual, ao ter seu nome lançado nesta Revista, ganha projeção internacional. Além disso, acredita o professor, a pró-

pria Região Norte ganha visibilidade no Brasil e no mundo. O estudo que deu origem ao artigo publicado foi desenvolvido ao longo de dois anos, sob a coordenação do professor Afonso Nogueira e contou com a participação do professor Ricardo Trindade, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP), e de pesquisadores das Universidades de Paris Diderot, na França, e Califórnia, nos EUA. A intenção da equipe é continuar pesquisando a Teoria Snowball Earth.


8 – BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Março, 2012

BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Março, 2012 –

Saúde

Graduação

Dificuldades para chegar à proficiência

Proex e Bettina firmam convênio

Beneficados serão alunos de graduação de baixa renda Alexandre Moraes

Alexandre Moraes

Projeto estuda desmotivação entre alunos de língua estrangeira

EM DIA Novos Cadernos A Comissão Editorial de Novos Cadernos NAEA está recebendo artigos para publicação no volume 15 da Revista. Os trabalhos submetidos até o dia 10 de agosto serão avaliados para a edição de dezembro de 2012. Para mais informações, acesse www.periodicos.ufpa.br/index.php/ncn

Engenharia

No Hospital Bettina Ferro, estudantes podem realizar consultas e procedimentos médicos Aconselhamento linguageiro: nova proposta incentiva conversa entre tutor e aluno como estratégia de enfrentamento Igor de Souza

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e acordo com o Quadro Europeu Comum de Referência para Línguas, no qual estão descritos os objetivos a serem alcançados por estudantes de línguas estrangeiras, o nível C1 é o recomendado para quem quer ser professor, pois indica um nível de proficiência adequado nas quatro habilidades fundamentais no aprendizado de uma língua estrangeira: ouvir, falar, ler e escrever.

Na Faculdade de Letras Estrangeiras Modernas da UFPA (Falem), mesmo com todas as possibilidades para atingir o nível C1 em suas quatro licenciaturas – Línguas Inglesa, Francesa, Espanhola e Alemã, a desmotivação tem impedido alguns alunos de alcançarem esse nível. O projeto de iniciação científica desenvolvido por Kamila Santos Santana buscou investigar as razões dessa desmotivação. O trabalho, cadastrado no Programa Institucional de Bolsas de

Iniciação Científica (Pibic), insere-se no Projeto "Caminhos da autonomia na aprendizagem de Línguas Estrangeiras: o papel da motivação", coordenado pela professora da Falem Walkyria Magno e Silva, a qual procurou, desde 2008, trabalhar com mecanismos motivacionais que fazem o aluno persistir nos seus objetivos e não se desviar da busca da proficiência adequada ao ensino da língua estrangeira. "Nossa principal fonte de estudos advém dos trabalhos do pesquisa-

dor Zoltán Dörnyei, da Universidade de Nottingham (Inglaterra), o qual desenvolveu um modelo dinâmico de compreensão da motivação na aprendizagem de línguas estrangeiras. Para ele, a motivação é como se fosse uma maré, que enche e vaza. Quando se entende isso, é mais fácil trabalhar com estratégias automotivacionais, procurar mecanismos para contrabalancear as desmotivações: aceitando-as e, no momento certo, lutando contra elas", explica a professora Walkyria Magno.

Heterogeneidade da turma é fator de desmotivação Durante a pesquisa, Kamila Santana e Walkyria Magno trabalharam com um grupo de sujeitos composto por 16 alunos, os quais foram submetidos à aplicação de questionários em escala Likert, com assertivas pertinentes ao problema abordado. Dos 16 alunos, oito, sendo dois de cada língua estrangeira, foram escolhidos para participar de entrevistas diretas por terem apresentado respostas incongruentes ou instigantes ao problema. Os 16 discentes foram escolhidos por meio de visitas às turmas da Falem e entre alunos que foram de uma a três vezes aos encontros de orientação na Base de Apoio à Aprendizagem Autônoma (BA³). Institucionalizada em 2010 no projeto pedagógico da Falem, a BA³ é um laboratório onde tutores ensinam os discentes a aprenderem de forma autônoma e com recursos diferenciados dos recursos habituais. "Um laboratório de línguas estrangeiras não é um lugar onde você simplesmente põe um fone de ouvido e escuta a língua. É um local com tutores para que os alunos

experimentem maneiras de aprender uma língua, as quais podem ser por vídeos, jogos, conversas e internet. No entanto não basta dizer 'vá para a internet e aprenda’. É preciso ensinar a aprender e é isso que a gente faz na BA³", ressalta a professora. Entre as principais causas de desmotivação, destacam-se: a falta de autonomia dos alunos, os conflitos de estilos entre professor e aluno, a dificuldade no gerenciamento do tempo para se dedicar ao estudo da língua estrangeira, a heterogeneidade das turmas e o fato de muitos discentes não se verem como professores ou não desejarem ser professor no futuro. Para a bolsista Kamila Santana, um dos fatores de desmotivação que mais lhe chamaram a atenção foi a falta de autonomia dos alunos. Por não se sentirem responsáveis pela aprendizagem, os sujeitos não buscam estratégias disponíveis para melhorá-la, o que leva à desmotivação. A bolsista acrescenta que "a desmotivação não é algo restrito ao âmbito acadêmico, também está presente nas escolas de idiomas. A aprendizagem de uma lín-

gua estrangeira é um processo longo e cada aluno vai levar um determinado tempo. É durante esse tempo que ocorre a variação da motivação". Preconceitos - A professora Walkyria Magno chama a atenção para a heterogeneidade das turmas na UFPA. O desnível de proficiência entre os ingressantes na Instituição pode gerar preconceitos e, por conseguinte, a desmotivação. "Por exemplo, entram alunos com conhecimento total, que já moraram no exterior e falam inglês, e outros que estão aprendendo inglês desde o nível 1. Atualmente, isso é necessário, porque nós não temos como garantir a aprendizagem de línguas na educação básica, o que gostaríamos que acontecesse, pois o discente já entraria na Universidade com certo conhecimento. Como isso ainda não ocorre, pelo menos, podemos garantir que os alunos que desejem se licenciar em uma língua estrangeira possam fazê-lo, mesmo sem nunca ter frequentado cursos de idiomas". Laureado com o prêmio de melhor relatório Pibic na área das Ciências Humanas e Sociais, Letras e

Artes no XXII Seminário de Iniciação Científica, realizado em setembro deste ano, o trabalho de iniciação científica da discente Kamila Santana, mais os resultados encontrados estimularam o surgimento do Projeto "Aconselhamento linguageiro visando à autonomia e à motivação na aprendizagem de línguas estrangeiras". O novo projeto de pesquisa, também orientado pela professora Walkyria Magno, propõe, por meio de conversas com cada aluno, o confronto da desmotivação, procurando entender a sua trajetória de aprendizagem e orientá-lo para uma postura mais autônoma e motivada. "Este novo projeto é basicamente uma conversa entre o tutor e um discente que está tendo dificuldade de aprendizagem. A nossa ideia é fazer com que esse aluno estabeleça uma relação com o seu passado recente, quando ele não sabia tanto quanto sabe agora, levando-o a ver que as dificuldades de hoje não existirão no futuro. É uma espécie de ação tranquilizadora para os alunos", finaliza a professora.

Cleide Magalhães Especial para o Beira do Rio

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ados do Fórum Nacional de Pró-Reitores de Assuntos Comunitários e Estudantis mostram que 65% dos estudantes das Instituições Federais de Ensino Superior do País precisam de algum tipo de ajuda para permanecerem na Universidade, mas somente 13% são atendidos. Para melhorar essa realidade, o Hospital Universitário Bettina Ferro de Souza (HUBFS) apoia a permanência de estudantes de baixa renda matriculados em cursos de graduação da Universidade Federal do Pará, ajudando a ampliar o Programa de Atenção à Saúde Discente. A ação se dá pelo Projeto Ações Integradas de Extensão à Saúde Estudantil, uma parceria entre o HUBFS e a Pró-Reitoria de Extensão (Proex). O Projeto integra o Programa Nacional

de Assistência Estudantil (PNAES) e, com recursos do Ministério da Educação, atende mais de 14 mil estudantes com diversos programas, projetos e ações da assistência estudantil. A estimativa é que sejam feitos 600 atendimentos ao mês. Desde maio de 2011, dezenas de estudantes já tiveram consultas médicas e foram beneficiados com outros procedimentos no Hospital Bettina Ferro. O diretor de Assistência e Integração Estudantil da Pró-Reitoria de Extensão (DAIE/Proex), José Maia Bezerra Neto, explica que o PNAES existe há quatro anos na UFPA e acontece de diversas formas, com a concessão de bolsas, o apoio à participação de estudantes em eventos estudantis e científicos, o auxílio à saúde discente, a promoção de atividades desportivas, de lazer e a inclusão digital, os cursos de nivelamento, entre outros.

Investimento de R$432 mil Segundo a coordenadora Acadêmica do Hospital Bettina, Ana Yasue Yokoyona, os estudantes são selecionados - em especial, os de baixa renda, que vivem situação de vulnerabilidade socioeconômica - e encaminhados pela Proex para o Bettina. "O Hospital protocola na agenda do Sistema Único de Saúde e realiza o atendimento nas especialidades que o HUBFS apresenta. Caso seja necessário, garantimos o encaminhamento, pelo SUS, para exames que não são feitos no Hospital", explicou. Para ampliar o atendimento, um convênio assinado disponibilizou R$ 432 mil para que o Bettina possa contratar médicos e técnicos de laboratório, comprar insumos e garantir a realização de exames nos laboratórios do Instituto de Ciências Biológicas e Farmácia da UFPA. Em 2011, o

Hospital Universitário recebeu 16 armários de aço, 48 cadeiras estofadas, cinco armários de madeira, quatro macas com estrutura tubolar, quatro impressoras a jato de tinta, duas estantes de aço, uma mesa ginecológica e uma mesa para reunião. Há, ainda, outros setores da área da saúde da UFPA envolvidos nessa parceria: Laboratório de Citopatologia; Serviço de Assistência Psicossocial (Saps), Clínicas de Psicologia e de Odontologia. Os critérios de seleção, verificados por assistentes sociais e pedagogos, levam em consideração a renda familiar que identifique a vulnerabilidade social dos alunos. Serviço: Mais informações na Diretoria de Assistência e Integração Estudantil da Proex ou no site www. proex.ufpa.br

Elielson Ricardo da Silva Cruz, 25 anos, aluno do curso de Biomedicina da UFPA, procurou o Hospital Bettina Ferro, pela primeira vez, para uma consulta no Serviço de Oftalmologia. O estudante afirma que, apesar do processo burocrático para o atendimento, para o qual é exigida a apresentação de documentos, a mediação feita pelo PNAES facilitou a sua vida. "O encaminhamento é excelente, muito melhor do que na Unidade Básica de Saúde. Irei ao HUBFS sempre que precisar, pois não tenho recursos financeiros para pagar consultas médicas'', considerou. A estudante Adriane Alcântara e Silva, de Meteorologia, também teve boa impressão do atendimento no HUBFS. "Foi bem rápido. Fui recebida por uma equipe muito eficiente. Quando precisar, voltarei a me consultar no Bettina Ferro’’, afirmou.

Saiba mais O Programa Nacional de Assistência Estudantil busca democratizar as condições de permanência dos jovens na educação superior pública federal e reduzir as taxas de retenção e evasão. Foi instituído em 2007 para execução a partir de 2008. Participam do Programa apenas as universidades federais, que recebem os recursos diretamente em suas Unidades Orçamentárias – medida que visa conferir mais eficiência e autonomia na execução financeira. O PNAES foi criado para atender a crescente presença de estudantes de baixa renda nas IFES com a implementação do Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI) pelo governo federal.

O Projeto "INFOSaberes: inclusão digital através da inclusão social" foi o primeiro colocado no Prêmio Brasil de Engenharia 2011, na temática Inclusão Social. Sob a coordenação do professor Eduardo Cerqueira, o INFOSaberes capacita estudantes da UFPA para elaborarem e ministrarem cursos básicos e avançados para a comunidade em Infocentros. Concorreram ao Prêmio 90 trabalhos de instituições de ensino e pesquisa, distribuídos entre nove áreas temáticas.

Seminário I Acontece no período de 24 a 26 de maio, no auditório do NAEA, o II Seminário Belém do Pará. Na programação, estão previstas conferências, mesas-redondas, apresentação de trabalhos científicos, workshop e minicursos. O objetivo é discutir questões que envolvam a cidade e apresentar possibilidades de políticas públicas. Nesta edição, os trabalhos selecionados compõem quatro eixos temáticos: ambiente, história, cultura e sociedade.

Seminário II Os interessados podem fazer suas inscrições na Secretaria da Especialização, no térreo do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, no Campus Profissional da UFPA. Quem fizer a inscrição entre 6 de março e 30 de abril pagará R$ 40,00 (estudantes) e R$ 60,00 (profissionais e demais pessoas); de 1º a 24 de maio, o valor será de R$ 50,00 e R$ 70,00 respectivamente. Mais informações: seminariobelem2@gmail.com

Orçamento A UFPA apresentará incremento de 7% em seu orçamento para o ano de 2012. Em comparação ao do ano passado, o acréscimo será em torno de R$ 108 milhões. O apoio discente tem sido uma das prioridades da UFPA. Em 2012, serão investidos R$27.457.031. Para saber mais, acesse o Plano de Gestão Orçamentária 2012, disponível no site da Pró-Reitoria de Planejamento e Desenvolvimento Institucional (Proplan).

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BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Março, 2012 –

Nutrição

Direito

Fotos Acervo do Pesquisador

Para 2012, a meta é formar 700 conselheiros em 100 municípios

O peso da alimentação inadequada

Estudo analisa cardápio nas cantinas de escolas particulares de Belém Helder Ferreira

A

Vivências nas escolas e palestras com especialistas estão entre as atividades que auxiliam a formação de conselheiros

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ste ano, o Estatuto da Criança e do Adolescente completa 22 anos. Apesar de mais de duas décadas de existência, muitos dos direitos previstos ainda precisam ser lembrados diariamente. Um deles é o papel dos Conselhos Tutelares e dos Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente. Previstos pela Constituição de 1988 e pelo próprio Estatuto, os Conselhos são instâncias essenciais ao exercício da democracia e à proximidade da sociedade com o poder público. Porém essa tarefa tão

nobre também precisa ser aprendida e exercitada. É para qualificar a atuação dos Conselhos Tutelares e dos Conselhos de Direitos que, há um ano, foi criada a Escola de Conselhos do Pará – Núcleo de Formação Continuada de Conselheiros Tutelares e Conselheiros de Direitos da Amazônia Paraense. O Projeto é vinculado à PróReitoria de Extensão e executado pelo Instituto de Ciências da Educação (ICED), com o apoio da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente do Pará (CEDCA).

A Escola nasceu com o objetivo de promover a formação dos conselheiros, visando ao fortalecimento não somente deles, mas também dos demais atores do Sistema de Garantia de Direitos, como são chamados os órgãos e instâncias que atuam na área dos direitos de crianças e adolescentes. O coordenador da Escola, professor Salomão Hage, lembra que, dentro do objetivo geral, há a proposta de apoiar a formulação, a execução e o monitoramento das políticas públicas para crianças e adolescentes, além de ajudar os conselheiros a elaborarem os diagnósticos e os planos de ação nos municípios. "O diagnóstico é muito

importante. Durante as Vivências Formativas, damos subsídios para que os conselheiros percebam seus déficits e melhorem a sistematização de indicadores e planos de atuação", explica o professor. Instalada em janeiro de 2011, a Escola de Conselhos empreendeu seus primeiros seis meses na organização da infraestrutura, composição da equipe de trabalho, elaboração da matriz curricular, produção do material de formação, seleção de formadores e criação do portal escoladeconselhospa.ufpa.br, pelo qual é possível acompanhar o calendário de atividades.

Intercâmbio garante construção da proposta pedagógica O Sistema de Garantia de Direitos (SGD) e as violações sofridas por crianças e adolescentes, o Sistema Nacional de Medidas Socioeducativas (Sinase) e o drama da exploração sexual de crianças e adolescentes foram temas debatidos por especialistas, técnicos, professores e estudantes. Tais palestras tiveram como objetivo a formação dos educadores selecionados e de atores do SGD. Essas atividades foram filmadas, editadas e compõem o material pedagógico levado para os conselheiros durante as Vivências Formativas no interior do Estado. Foi a partir desse intercâmbio que a Escola construiu sua proposta pedagógica e sua matriz curricular. Ficou claro, por exemplo, que é fundamental reconhecer as identidades culturais e as territorialidades da Amazônia na formulação de Políticas de Garantia de Direitos. Também é importante garantir o papel dos conselheiros como instâncias legítimas e o protagonismo de crianças e adolescentes. Em 2011, a Escola alcançou 42 municípios, distribuídos em cidades polo, atingindo 203 conselheiros. "Este ano, queremos formar pelo menos 700 conselheiros", afirma Salomão Hage, lembrando a meta apresentada no projeto original. Além

Surpresa: gincana da degustação revela que crianças desconhecem frutas pela cantina, estudantes do curso de Nutrição da UFPA, sob a coordenação da professora Ivanira Dias, aplicaram um check list, tendo como referência a lista de verificação das boas práticas de fabricação de alimento da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa). Os dados foram coletados a partir da

regulação técnica da Anvisa e da observação direta nas cantinas. "Fazemos parte do polo norte do Centro Colaborador de Alimentação e Nutrição, no qual o Projeto está inserido. Este centro está dentro da Faculdade de Nutrição da UFPA, é uma espécie de ‘braço’ do Ministério

da Saúde e trabalha em parceria com as secretarias de saúde estadual e municipal". Segundo Ivanira Dias, a ideia inicial era incluir as escolas públicas na pesquisa, mas, com a greve no sistema estadual de ensino, apenas os dados de escolas particulares foram coletados.

Condições higiênico-sanitárias também foram observadas

da meta de conselheiros, em 2012, a Escola vai chegar a 14 polos, alguns pela segunda vez, alcançando mais de 100 municípios paraenses. Compromissos – Muitas organizações poderiam abrigar a Escola de Conselhos, mas o Instituto de Ciências da Educação (ICED) trouxe o desafio para si. "Com a Escola, confirmamos vários dos nossos compromissos, um deles é com a educação na Amazônia e o outro é com a justiça social", diz a professora Ana Tancredi, diretora do ICED. A professora lembra, ainda, que vários professores do Instituto foram - ou ainda são - membros do Movimento República de Emaús, uma importante organização na área de defesa dos direitos humanos. Para Ana Tancredi, o ICED também ganhou com a chegada do Projeto, pois "outro público passou a circular pelo Instituto", diz referindo-se aos agentes de movimentos sociais, de Direitos Humanos, da Infância e de Operadores do Direito. Na Escola de Conselhos do Pará, nada é decidido isoladamente. Todas as decisões são discutidas por um núcleo gestor, formado por organizações da sociedade civil e do poder público. Atualmente, a

tualmente, é cada vez maior o número de crianças acima do peso adequado para sua idade. Em alguns casos, elas chegam a ter medidas corporais comparadas às de um adulto. Isso se deve, principalmente, à alta ingestão de alimentos ricos em lipídios (gordura) e glicose (açúcar), hábito adquirido cada vez mais cedo e em um dos lugares onde a criança passa a maior parte do seu dia: na escola. O Projeto "Escolas particulares e ensino fundamental: condições higiênico-sanitárias e alimentação das cantinas", coordenado pela professora Ivanira Amaral Dias, do curso de Nutrição do Instituto de Ciência da Saúde (ICS), visa estudar o comportamento alimentar de crianças de 5 a 10 anos, em escolas particulares da grande Belém, assim como as condições de armazenamento e comercialização de alimentos nas dependências dessas instituições de ensino. Foram realizadas visitas em 14 escolas privadas de Belém, localizadas nos bairros Nazaré, Umarizal, Guamá, Marco, Reduto, Batista Campos, Terra Firme, Sacramenta e Pedreira, entre setembro de 2010 e janeiro de 2011. O objetivo era conhecer as condições de higiene, sanitárias e o tipo de alimentação comercializada nas cantinas das escolas particulares de ensino fundamental da cidade. Além disso, fazer um levantamento dos principais alimentos e bebidas consumidas nesses espaços. Com a autorização dos diretores das instituições e dos responsáveis

Alexandre Moraes

Escola de Conselhos completa um ano

Jaqueline Almeida Especial para o Beira do Rio

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Foram analisados 18 itens no Projeto, divididos em dois grupos: condições higiênico-sanitárias e alimentação. Na análise dos resultados, alguns dados chamaram a atenção. No primeiro grupo, destaque para a avaliação feita no armazenamento e na qualidade do produto final nas cantinas das escolas. 100% das escolas pesquisadas não apresentaram condições favoráveis no armazenamento do produto vendido nas cantinas. Ainda neste primeiro grupo,

foi constatado que, nas 14 escolas, não há cartazes com instruções para a lavagem correta das mãos e todas trabalham com funcionários sem capacitação profissional no ramo alimentício. Segundo Ivanira Dias, algumas escolas não tinham Alvará de Funcionamento, obrigatório para quem opta por este tipo de comércio. No grupo dos alimentos, os mais comercializados nas cantinas, detectado na pesquisa, foram: em pri-

meiro lugar, os refrigerantes, seguido de salgados fritos e assados. "As crianças dessa faixa etária, mesmo estudando em uma escola particular e sendo oriundas de famílias com alto poder aquisitivo, pouco sabem sobre quais alimentos saudáveis deveriam consumir. Em algumas escolas, onde realizamos uma gincana de degustação de frutas, muitas crianças não conheciam, por exemplo, o melão", afirma a professora. Diego Silva, um dos bolsistas

que participaram da pesquisa, ressalta a importância da conscientização em escolas de ensino fundamental, pois, nessa faixa etária, as crianças aprendem com maior facilidade. "A gincana serviu para mostrar a importância de uma alimentação saudável e notamos que as crianças entendiam o que estávamos fazendo ali. Elas absorvem o conteúdo que está sendo ensinado e, o que é melhor, levam essas informações para casa", afirma.

Trabalho de conscientização também deve envolver pais Turma de conselheiros formada no município de Altamira Universidade do Estado do Pará (UEPA), o Ministério Público do Estado do Pará, o Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cedca), a Associação dos Conselheiros e Ex-Conselheiros Tutelares (Aconextel), o Fórum dos Direitos da Criança e do Adolescente (Fórum CDA) e a Secretaria de Estado de Assistência Social (Seas) compõem o núcleo gestor. A Sociedade de Direitos Se-

xuais na Amazônia (Sodireitos), a Universidade Popular (Unipop), a Associação Paraense de Apoio às Comunidades Carentes (Apacc), o Movimento República de Emaús, o Movimento de Valorização do ECA (Mover) e o Programa Pró-Paz também são parceiros da Escola. "A construção de paradigmas exige a parceria. Nessa área, não se faz nada só", conclui o professor Salomão Hage.

A análise dos dados levou a três conclusões principais. A capacitação é importante, pois tem o objetivo de conscientizar os proprietários de cantinas escolares quanto à infraestrutura. A segunda constatação diz respeito aos produtos alimentícios considerados não saudáveis ou até mesmo proibidos em algumas cidades do Brasil, comercializados nessas cantinas. De modo geral, esses alimentos são ricos em açúcares, gorduras saturadas, gorduras trans e sódio. Em Santa Catarina e em outros Estados da Nação, já existe uma lei

que dispõe sobre critérios de concessão de serviços de lanches e bebidas nas unidades educacionais públicas e privadas, por meio da qual os estabelecimentos são proibidos de comercializar alimentos prejudiciais à saúde das crianças. Em Belém, existe uma minuta tramitando na Câmara de Vereadores para que essa lei possa ser implementada na capital paraense. Segundo a professora Ivanira Dias, não adianta um trabalho de conscientização com os alunos se a família não adotar uma dieta balanceada e os pais não orientarem seus filhos quanto

ao consumo de biscoitos recheados, refrigerantes e salgados industrializados. "Será complicado tentarmos orientar crianças do pré-escolar se os pais dão dinheiro para o filho comprar lanche na escola e a cantina oferece alimentos não saudáveis; se, ao fazerem as compras no supermercado, os pais levarem para casa alimentos não recomendados pelos nutricionistas. Para que esta ação de saúde pública tenha sucesso, este trabalho de aconselhamento precisa existir dentro de casa também", avalia. A coordenadora do Projeto

alerta que, caso não seja tomada alguma providência pelas autoridades da saúde, em poucos anos, a saúde pública irá sentir as consequências de toda uma geração com altos índices de obesidade, hipertensão, doenças coronarianas, entre outras. "Este é um problema que é de curto e médio prazos. Hoje, precisamos orientar nossas crianças quanto à adoção de hábitos alimentares saudáveis. Esta é uma importante medida de prevenção e promoção de saúde, com repercussões positivas na vida adulta", adverte Ivanira Dias.

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