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A LUZ DA MELODIA O presente no passado Narrativa realizada pelos alunos do 3ยบ Ciclo do Ensino Bรกsico, da Escola Secundรกria Camilo Castelo Branco.


RESPEITE OS DIREITOS DE AUTOR NÃO FOTOCOPIE LIVROS

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor. Ilustrações: Olga Coimbra Pinheiro Paginação: Patrícia Escobar Revisão: Joaquim Sá Marques, Luísa Ferreira, Maria Augusta Castro, Maria Helena Machado Ruivo, e Maria do Céu Pires Junho 2011 biblioteca@esccb.pt


“Era uma tarde de fim de Novembro, já sem nenhum Outono”. Retirado do conto “O Homem” de Sophia de Mello Breyner


etirado do conto “O Homem� de Sophia de Mello Breyner


PREFÁCIO Os professores de Língua Portuguesa do Ensino Básico decidiram um dia, à roda de uma mesa redonda, lançar um desafio literário aos seus alunos. Como mote, escolheram o primeiro parágrafo do conto “O Homem” de Sophia de Mello Breyner, uma vez que esta autora os acompanha desde o segundo ciclo e integra o PNL. Delinearam, então, o trabalho a desenvolver durante uma aula (90 minutos) de Língua Portuguesa: a primeira turma teria acesso à frase original e a uma imagem e construiria a situação inicial da narrativa e, seguindo o princípio de uma corrida de estafetas, cada turma pegaria no testemunho, elaboraria nova sequência e fá-lo-ia chegar à turma seguinte (do 7º ao 9ºano). Concluída a narrativa, promoveram junto dos alunos envolvidos um concurso para a escolha do título e subtítulo. Em simultâneo, seduziram, com a leitura do conto, duas docentes de Artes: Olga Olímpia Pinheiro e Patrícia Escobar, para que estas, enamoradas, colaborassem, respectivamente, na ilustração e paginação do mesmo. O resultado desta parceria surpreendeu positivamente os promotores e os “escritores” colaboradores, quer pela originalidade da estória quer pela cadeia de entusiasmo e expectativa criadas. Os objectivos inicialmente traçados foram, assim, plenamente atingidos.


Era uma tarde de fim de Novembro, já sem nenhum Outono.

Uma névoa muito forte, um ar frio e cortante atravessavam a cidade de Chaves, diminuindo a visibilidade aos condutores e aos peões, sobretudo na velha ponte da cidade. Foi neste cenário de Inverno antecipado que os irmãos, Francisco e Maria, continuaram o seu percurso habitual em direcção à escola. A Maria, a mais nova, era a mais despachada e, naquele dia, vinha muito bem protegida contra o ambiente agreste da região: vestia umas calças de ganga, uma camisola de gola alta, um grosso casaco de penas, um gorro e um cachecol aconchegantes. O Francisco, habitualmente mais lento, parecia mais ligeiro, talvez porque trouxesse uma mochila nova, de uma marca bem conceituada, mas comprada numa loja de produtos orientais, e quisesse mostrá-la, em primeira mão, aos seus amigos.


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Normalmente mais observador do que a irmã, deparou com um objecto estranhíssimo quando ambos caminhavam num passo apressado. Intrigado, logo decidiu aproximar-se para verificar, com mais pormenor, o aspecto do objecto, uma caixinha bizarra. De repente, estacou surpreendido. Entretanto, a Maria abeirou-se, estranhou a sua atitude e, sem grande hesitação, perguntou-lhe: - Francisco, o que te aconteceu? Estás mesmo a sentir-te bem? O jovem parecia preocupado com aquela caixinha misteriosa e, antes de lhe responder, fez uma breve pausa. - Já reparaste neste estranhíssimo objecto? Não achas que pode ser perigoso? – indagou preocupado.

Com ar trocista, Maria virou-se e propôs-lhe: - Olha, Francisco, será que não queres estrear a tua pasta de marca, metendo a caixa dentro dela? - Por que não a guardas na tua que é velha e maior? – retorquiu, com ar aborrecido. - Se a meteres na tua mochila, a surpresa dos teus amigos vai ser ainda maior! – logo ripostou a garota. Ele gostou da ideia e, com um ar de superioridade e importância, preparou-se para o fazer. No entanto, ao pegar na caixa reparou que esta se apresentava, surpreendentemente, lacrada. Então, resolveu ainda assim, abri-la. Quebrou o lacre e deparou-se com um delicado objecto antigo, rugoso, piramidal, em prata oxidada. No topo, destacava-se um belo rubi vermelho.


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Maria gritou, deslumbrada: -

MAGNÍFICO!!

- Será que abre?-indagou, curioso. - Não sejas parvo!- reclamou ela. Não vês que não se observa nenhuma abertura?!- insistiu. Subitamente, a névoa adensou-se e o céu ficou mais plúmbeo. Ao longe soou um trovão e o ar gélido acentuou-se, penetrando nos corpos dos dois irmãos. O rapaz examinou a pirâmide. Que estranho! De facto não parece abrir de forma alguma, pensou. Repentinamente, num gesto brusco, a miúda tentou agarrar a relíquia, mas esta caiu. Ao embater no chão da velha calçada romana, escancarou-se e ele vociferou, irado: - Sua desastrada! Que fizeste? Partiste-a! Entretanto, uma melodia encheu os ares daquela tarde e no chão surgiu uma partitura do famoso compositor J.S. Bach. Ao lado, um lindíssimo colar de pérolas com um medalhão de ouro que chamou a atenção de Maria e esta, de imediato, colocou-o ao pescoço. Nesse exacto momento, o nevoeiro envolveu-os completamente, impedindo-os de ver o que quer que fosse ao seu redor. No meio deles destacava-se uma luz vermelha muito brilhante, emitida pelo rubi: Francisco baixou-se para agarrar a relíquia e a partitura.


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O ar encheu-se de relâmpagos e raios que

rasgavam a névoa e o céu em

clarões multicolores.

O vento uivava assustadoramente

e a música soava mais intensa.

A caixa piramidal começou

a estremecer, soltou-se

das mãos do rapaz,

pôs-se a girar

vertiginosamente e...

sugou-os.


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Atónitos e sem reacção, encontraram-se, de repente, numa cidade estranha, cheia de pessoas vestidas e penteadas de forma extremamente luxuosa,

como se fossem para um baile de Carnaval. Até os homens usavam cabeleiras postiças!... E a música continuava soando, agora num tom suave, melodioso…


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Atordoados, quase foram atropelados por um coche igual ao da Gata Borralheira. Uma cabeça branca e encaracolada surgiu da portinhola e, numa língua estranha, dura e fria, gritou-lhes exaltadamente uma série de palavras que não entenderam. Agarrando a irmã, Francisco sussurrou amedrontado: - Onde estamos? O que nos aconteceu? - Estamos perdidos! Tenho medo… - choramingou, aflita, Maria, abraçando-o. E a música soava agora lenta, num choro triste de piano e violino. Foi aí que o rubi da caixa começou a puxar-lhe o colar e, com um estalido seco, a pedra preciosa encaixou-se no centro do medalhão. Como por encanto, todas as conversas à sua volta começaram a ter sentido e a música envolvia a praça num tom ligeiro. - O compositor foi roubado! – indignava-se, desolada, uma velha senhora de sombrinha na mão. - Então, o concerto na Catedral já não será hoje?! – surpreendia-se um jovem senhor que a acompanhava. - Trinta dias de viagem para assistir à estreia de Bach na Catedral de Viena e agora fica tudo sem efeito?! Que grande maçada! – lamentava-se um gordo senhor de longa cabeleira ondulada, que atravessava a praça. - Será que viajámos para a época de Bach? – suspeitou Maria, incrédula.


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- Olha o que temos aqui! Será esta a partitura roubada? – afligiu-se o garoto. - Era muito azar! – acrescentou a menina, muito preocupada. - Procuremos a Catedral e tentemos encontrar Bach para … De súbito, vários guardas a cavalo rodearam-nos, interrompendo-o. A música tornara-se quase ensurdecedora, lembrando uma marcha militar.

Agarrem esses mendigos! São eles que a têm! -

– ordenou o chefe da guarda. Rapidamente, Maria, pressentindo o perigo iminente, arrastou o irmão, perplexo, até um beco sem saída, escuro e tenebroso, lembrando um cenário dantesco. No meio da escuridão, surgiu, novamente, a luz encarnada e ofuscante, que os tinha deslumbrado, ainda em Chaves, e, como que por magia, apareceu uma saída no beco. As crianças depararam-se com um túnel misterioso, de onde

saía uma música, que lhes pareceu ser «A Arte da Fuga» de J.S.Bach e os conduziu às catacumbas da catedral. Guiados por essa doce melodia e pela luz cativante, chegaram à nave central da catedral, inundada pelos ténues raios luminosos de um final de tarde, e encontraram o compositor, recolhido em oração.


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- Já pensaste bem nos momentos aflitivos que Bach está a passar? Não seria boa ideia entregar-lhe a partitura, Maria? - Não sei. Já imaginaste o que nos poderá acontecer caso a devolvamos? - Mas por que razão dizes isso? - Ora pensa um pouco… As autoridades poderão pensar que somos ladrões. Enquanto debatiam este dilema, lá longe, em Chaves, a preocupação, relativa à ausência dos dois irmãos na escola, adensava-se. Entretanto, a Direcção da Escola tinha entrado em contacto com os pais para compreender o motivo de tal ausência. A admiração destes foi enorme e, muito aflitos, partiram, de imediato, rumo à cidade. Aí, não se falava de outro assunto, a não ser do ocorrido. As autoridades tinham sido alertadas e já estavam no terreno. Ao atravessarem a velha ponte, os pais repararam, com grande surpresa, que a pasta nova do Francisco estava aberta e abandonada. A sua preocupação aumentou e pensaram que algum malfeitor os tinha raptado.

A mãe, muito angustiada, apertou a mochila contra o coração e começou a chorar.


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Entretanto, na catedral de Sto. Estêvão, os dois irmãos pensavam na melhor forma de entregar a partitura a Bach. Este, desolado, temia o fim da sua carreira. Enquanto se aproximavam, o compositor, que pensara ouvir o som da sua melodia, virou a cabeça. Nesse instante, dois vultos surgiram por trás deles: eram os guardas que persistiam na perseguição e os detiveram. Mais tarde, o músico dirigiu-se à prisão onde se encontravam as crianças. Junto à cela, abordouas, perguntando, delicadamente: - Quem são vocês? Onde arranjaram a partitura? - Nós somos Francisco e Maria, viemos de outra época e de um país chamado Portugal. Encontrámos estes objectos que temos aqui. Sei que lhe pode parecer estranho, mas é a

pura verdade! Porém, só lhos entregamos se nos libertar – respondeu a menina. Bach concordou com esta ideia e subornou o guarda com três moedas de ouro. Os irmãos saíram à socapa da prisão e, logo que puderam, foram encontrar-se com o compositor na catedral. Ao chegar, entregaram-lhe os objectos e ele prometeu ajudá-los a sair dali e a voltar ao mundo deles, desde que ficassem para o concerto. Os jovens anuíram. Contudo, lembraram que havia

o rubi só funcionava se o ligassem ao colar. um problema:

Então, Bach pediu-lhes que o acompanhassem e devolveulhos.


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As crianças, entusiasmadas, aceitaram o convite, pois seria a primeira vez que assistiriam a um tão nobre e tão desejado evento musical. Viena, em êxtase, seria, nesta noite, o palco do mundo. Aí, estariam presentes grandes personalidades, como reis, arquiduques e compositores famosos, explodindo de exuberância e brilho. A nave central da catedral resplandecia de luz como o sorriso de uma criança!


Perto do final do faiscante concerto, luzes, cor e som ofuscaram os irmãos, que, possuídos pela magia e, novamente, envolvidos pela névoa e cintilação do rubi, foram transportados para Chaves, onde a mãe, agarrada à mochila e, sentindo o mesmo encantamento, viu os filhos surgirem por entre os seus braços. O despertador tocou e Francisco, desiludido, percebeu que tudo não passara de um lindo sonho. Saltou da cama, desenfreado, e dirigiuse, correndo, ao quarto da irmã, para lhe contar a sua odisseia.

-

Maria, tive um sonho! - gritou.

Estacou, assombrado, à porta do quarto, ao dar com os olhos num rubi, pousado ao lado da almofada de Maria…


TESTEMUNHOS das Turmas envolvidas 7A

Demos um pontapé de saída para um final feliz.

7B

Foi uma experiência deveras interessante termos participado nesta aventura.

7C

A turma C considera a actividade proveitosa, porque nos permitiu desenvolver as nossas competências linguísticas e literárias, assim como aproximar as turmas do Ensino Básico e promover a união dentro da própria turma. Agradecemos, também, a possibilidade de termos participado na construção desta narrativa.

8A

Esta experiência revelou-se muito interessante, porque nos apresentou desafios interessantes para resolver, estimulou a nossa criatividade na construção de um novo desafio difícil para os outros, deixando-os “em pulgas” para descobrirem o fim. Em suma, uma recordação inesquecível que fez de nós uns mini-escritores.

8B

Experiência enriquecedora e plena de magia.

8C

Participar na construção desta história, tornou-nos pequenos escritores.

9A

Contribuímos com muito gosto para esta causa.

9B

Os alunos da turma B do 9º ano gostaram muito de dar o seu contributo nesta história, pois acharam-na entusiasmante, cientificamente impossível, cheia de fantasia, repleta de suspense e aventura. Este projecto deu-nos a oportunidade de trabalhar em conjunto, desenvolver a nossa criatividade e melhorar a construção frásica.

9C

A turma do 9ºC gostou bastante de participar na elaboração da história. Trata, com muita imaginação, de uma aventura de jovens que conseguiram dar vida a personagens com diferentes emoções. Os lugares descritos no percurso desta aventura são muito belos.


ASSINATURAS DOS AUTORES


7A


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«Viena, em êxtase, seria, nesta noite, o palco do mundo. Aí, estariam presentes grandes personalidades, como reis, arquiduques e compositores famosos, explodindo de exuberância e brilho. A nave central da catedral resplandecia de luz como o sorriso de uma criança!»


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3

«Viena, em êxtase, seria, nesta noite, o palco do mundo. Aí, estariam presentes grandes personalidades, como reis, arquiduques e compositores famosos, explodindo de exuberância e brilho. A nave central da catedral resplandecia de luz como o sorriso de uma criança!»

A luz da melodia  

Narrativa realizada pelos alunos do 3º Ciclo do Ensino Básico, da Escola Secundária Camilo Castelo Branco.

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