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Passei toda a minha infância na Figueira da Foz. Recordo agora a maravilhosa cidade que era. Eu estava habituada a que tivesse mar, rio e serra, que fosse calma e bela. Por isso, não a apreciava tanto como merecia. No verão, eu tentava levantar-me cedo, para poder aproveitar o máximo de horas na praia. No Cabo Mondego, o mar era gelado, com muitas rochas, por isso o melhor era estar a ler enquanto apanhava sol na barriga. Mas em Buarcos, quando estava bandeira verde, eu ficava no mar desde o primeiro minuto na praia até ao último. O mar era um pouco frio, mas por uma hora lá eu faria tudo: era aconchegante. Havia ainda a praia do Cabedelo. Essa era a melhor praia do mundo. Em Buarcos nadava, mas no Cabedelo deslizava pelo mar, com a minha prancha de bodyboard. Quando estava maré baixa, gostava de fingir que era uma tartaruga ou um caranguejo. A água era límpida, via-se a areia que estava no fundo. Porém, quando estava maré alta, sentia-me a rainha do mundo, naquela prancha que eu não sabia usar. No outono, as praias eram frequentadas apenas por três ou quatro pessoas, passeando os seus cães e deixando pegadas na areia molhada, que o mar destruía logo de seguida. As árvores não tinham folhas. Estas caíam levemente para o chão, que era agora uma mancha abstrata amarela, vermelha e cor de laranja. A seguir vinha o inverno. O mar era como o fruto proibido. Era irresistível, mas como molhar os pés naquele manto azul, se ele atacava as estradas e destruía os passeios de pedra? O inverno era quando o mar estava mais selvagem, mas mais belo. Nunca vi mar tão mar como aquele. Era indomável. Fazia o que lhe apetecesse, quando lhe apetecesse. Na primavera, o mercado Municipal ficava cheio de gente a regatear e a negociar. Havia flores e cores por todo o lado. Eu acordava com pássaros a cantar e a saltitar de um lado para o outro. O mar era agora um bom sítio para correr, com os sapatos na mão e uma sensação de felicidade a invadir-nos. De repente, eu ficava alegre, pelo simples motivo de ser primavera. Às vezes, imaginava que era uma pena,

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voando levemente até tocar no chão. Cantarolava sem reparar. Viam-se borboletas a pousar nas flores e a levantarem voo, esvoaçando à procura de outra flor. Parecia que havia uma nuvem de boa-disposição, e essa nuvem estava sempre a acompanhar tudo e todos. Os anos passaram e, agora, a Figueira da Foz está diferente: a praia está poluída, a Serra da Boa Viagem já não tem árvores, o mercado municipal foi substituído por um centro comercial. As pessoas já não ficam felizes com o verão, nem com o outono, nem com o inverno, nem com a primavera. Mas esta será sempre a minha casa.

Figueira da Foz, 20.Fev. 2091.

Freddie Mercury

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Às avessas

Numa casa interessante Há móveis muito diferentes Que vão desde pentes com asas Até canecas com dentes.

O higiénico lava-louça Suja tudo o que vê. Na confortável sanita Vê-se um programa de TV!

No imaculado quarto Come-se uma gordurosa alheira E dorme-se maravilhosamente Na rígida banheira!

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Semeiam-se flores Na apertada despensa E no perfumado jardim Entra-se com indiferença. Lava-se o carro Na espaçosa sala E na feia garagem Ninguém se cala.

Desde o sótão até à cave Há muitas divisões Coisas grandes como o amor E outras pequenas como botões.

John Lennon

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A casa Quando regressei à nossa antiga casa pela primeira vez depois de nos mudarmos, quase tudo estava mudado. As cadeiras, as mesas e o resto da mobília que antes nos tinham servido estavam embrulhadas numa película de plástico quase transparente que fazia com que tudo parecesse antigo, frágil e precioso. Notava-se que aquele lugar já não era limpo há muito tempo quando eu olhava para o vazio e reparava no pó esvoaçante que preenchia os compartimentos da casa, ou quando passava as mãos pelas paredes, agora já com falta de tinta, e estas deixavam marcas escuras nos meus dedos. Por muito diferente que aquele sítio estivesse, eu ainda conseguia sentir a sua enormidade, ainda conseguia ouvir o eco dos nossos alegres risos de criança, conseguia cheirar as flores que o pai gostava de comprar à mãe, e saborear os chocolates e as gomas que ela nos comprava quando tínhamos boas notas na escola. Acima de tudo, mesmo sem ninguém a fazer uso dela, aquela casa ainda transmitia vida. O primeiro compartimento que decidi visitar foi a cozinha. Sem o frigorífico, a mesa bonita de granito, os bancos almofadados e o nosso cão hiperativo, ela parecia ainda mais espaçosa. O chão ainda estava marcado por teres deixado cair o portátil que a tia nos oferecera quando fizemos quinze anos. Recordo-me de ter sido eu a arcar com as culpas, mas nada disso importava passado tanto tempo. O fogão ainda lá estava, queimado e gasto, por cima do forno igualmente velho. Fora ali que eu aprendera a cozinhar pela primeira vez, quando os pais foram sozinhos naquele cruzeiro e deixaram a prima, que não gostava de fazer nada, a cuidar de nós, o que nos obrigara a tentar fazer o jantar se não queríamos morrer de fome. Lembro-me também de quando tu escorregaste naquele mesmo lugar e quase partiste a cabeça, e de como eu te segurei e perguntei à mãe porque é que havia tanto sangue e ela abraçou-me e assegurou-me de que aquilo não era nada e de que irias ficar bem.

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Nessa altura eu não fazia a mínima ideia de que alguns anos mais tarde ela me repetiria as mesmas palavras, mas que dessa vez tu não ias ficar bem. Os sofás bege da sala já não estavam lá. Os pais tinham-nos levado para a nova casa quando eu fui para a universidade. Com o chão descoberto conseguiam ver-se os riscos sobre o fundo branco dos mosaicos, resultado de quando eu e tu decidíamos arredar a mobília para haver mais espaço para jogarmos e dançarmos. Perto da porta ainda restavam marcas de quando decidíamos pintar a parede com os nossos lápis de cor, que a mãe depois nos arrancava das mãos e deitava para o lixo, furiosa por estarmos a fazer asneiras e a sujar a casa. Em geral nunca fomos muito limpos, e quando crescemos e fizemos 14 anos ainda ficámos pior. Lembro-me de quando tu deixavas as meias por toda a casa e o cão as abocanhava e punha-se a brincar com elas até não saberes onde estavam. Eram, depois, os pais que as descobriam, todas babadas e esticadas, e punham-te de castigo, tirando-te os teus jogos preferidos durante um dia ou dois porque tu não aguentavas ficar sem jogar e eles queriam que aprendesses a lição. Eu também pagava porque eles escondiam-nos muito bem e nem eu podia brincar. Foi também na sala que eu aprendi a mexer no computador fixo do pai pela primeira vez, ele tinha-me ensinado a usar o teclado para escrever e jogar às cartas online e mais tarde até me deixou criar uma conta num daqueles sites sociais. Tu não ligavas muito às novas tecnologias e continuaste a preferir os lápis de cor e o verdadeiro jogo das cartas por mais algum tempo, até a tia nos oferecer o tal portátil que te fez ficar mais viciado do que eu. O andar de cima ainda estava pior que o anterior. As janelas e os estores estavam fechados e, como custavam demasiado a abrir, eu tive que acender quase todas as luzes para poder ver alguma coisa, visto que muitas das lâmpadas já estavam fundidas. A lâmpada do corredor fui eu quem a estragou quando andava com a mania de ser eletricista: tu ajudaste-me a ir buscar um escadote e ficaste ao meu lado a ver-me mudar a lâmpada anterior até que eu deixei cair a nova e os pais não compraram mais nenhuma. Nunca fora precisa mais luz naquele corredor. A mãe fazia questão de poupar eletricidade e de dia, com os estores de todos os quartos abertos, via-se bastante bem. Ultrapassámos muitas fases em que queríamos ter diferentes profissões quando crescêssemos. Quando tínhamos 9 ou 10 anos, já não me recordo muito bem, tu tinhas o sonho de ser bombeiro e estavas sempre a lavar o quintal com a mangueira, fingindo que estava tudo a arder. Por outro lado, eu, nessa altura, queria ser ladrão porque tinha a mania que os polícias é que eram os maus da fita, de tal

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modo que quando estavas a brincar eu ia sempre atrás de ti e tentava roubar-te as coisas, fazendo com que tu começasses a chorar e fosses fazer queixinhas aos pais. Quando crescemos começámos os dois a querer fazer a mesma coisa: queríamos ser peritos em informática e ir viver para fora do país, talvez para os Estados Unidos ou para algum sítio que na altura nos viesse à cabeça. As memórias que me invadiram quando eu fui visitar o teu antigo quarto foram daquela primeira noite, no nosso 15º aniversário, no mês frio de Janeiro, quando os nossos problemas realmente começaram. Lembro-me desse momento e de todos os outros que lhe sucederam como se tivessem acontecido ontem. Nesse dia chegámos mais cedo da escola porque a professora faltou à última aula, tu estavas a tremer de frio porque tínhamos apanhado chuva no caminho para casa, e quando chegámos os pais fizeram questão de te tirar a febre: estava altíssima. Mandaram-te de seguida para a cama, prometendo que traziam os nossos presentes para o teu quarto para que os pudéssemos abrir. A ti ofereceram-te um portátil novo, que seria para nós partilharmos, e a mim um jogo que eu já andava a pedir há bastante tempo. Agradeceste-lhes e ficaste contente, mas eu conseguia notar que não te estavas a sentir nada bem e estava muito preocupado porque já tinhas tomado um comprimido há algum tempo e ainda não tinha feito efeito. Decidi vestir o pijama e deitei-me contigo. Lembro-me que ao princípio ficaste espantado porque eu deixara de ser carinhoso contigo quando entrámos na adolescência, e só nos dávamos realmente bem quando estávamos a jogar. No entanto, passados alguns minutos um pequeno sorriso apareceu nos teus lábios e chegaste-te mais perto de mim, deitando a cabeça no meu peito, murmurando palavras de agradecimento. Passei as mãos várias vezes pelo teu cabelo preto carvão, igualzinho ao meu, e tu acabaste por adormecer. Naquela altura eu pensava que aquele momento tivesse sido fruto de um vírus ou talvez até uma intoxicação alimentar. Hoje sei que estava enganado. Depois de olhar uma última vez para o teu quarto e para todas as memórias que este me trazia, dirigi-me para o dos pais. A primeira coisa a me chamar a atenção foi o vidro da janela: ainda não tinha sido substituído desde aquela vez que lhe dei um murro quando os pais primeiro me contaram da tua doença. Lembro-me de teres sido o único a conseguir amainar a minha agonia quando o pai retirou o que restava das lascas de vidro espetadas na minha mão. Desviei o olhar da janela e reparei que estavam alguns riscos feitos a lápis na parede, ao pé de onde costumava ser a cama. Recordei-me então de quando eramos pequenos e a mãe tinha o hábito de nos medir

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daquela maneira, pintando um risco de mês a mês no sítio acima da nossa cabeça. Embora meu gémeo, tu sempre foste ligeiramente mais pequeno, e fazias birra sempre que a ‘mamã’ desenhava o meu risco mais alto do que o teu, tal como choravas se depois ela não te deixasse brincar com os lápis de cera, que nas tuas pequenas mãos acabavam sempre por se partir. Lembro-me também de dormirmos com os nossos pais sempre que víamos filmes de terror ou tínhamos pesadelos, deitávamos-mos encolhidos debaixo dos cobertores enquanto eles nos afagavam os cabelos e nos faziam sorrir com piadas e contos de fadas. Numa dessas noites a mãe contou-nos uma história sobre um príncipe e uma princesa que eram almas gémeas, descrevendo as suas aventuras e dizendo que eles estavam destinados a ficar juntos. Tu, como o rapaz curioso que eras, lançaste-lhe um olhar confuso e afirmaste que não tinhas percebido a história porque não sabias o que era uma alma gémea, perguntando-lhe se o significado tinha alguma coisa a ver comigo, visto que eu era o teu irmão gémeo. A mãe riu-se e abanou a cabeça, explicando-te com a sua voz melodiosa o que a palavra realmente significava. Lembro-me das palavras que usou como se fosse ontem: “Bem… Uma alma gémea é a única pessoa no mundo que te conhece melhor do que ninguém, que faz de ti alguém melhor. É alguém que te inspira, alguém que fica no teu coração a tua vida inteira. É aquela pessoa que acreditou em ti quando ninguém mais o quis fazer. É quem está contigo tanto nos teus erros como no teu sucesso, quem te ajuda a ultrapassar os obstáculos e te avisa do que podias fazer melhor. Esse é o único ‘alguém’ que te abre o coração, não para o partir, mas para que luz possa entrar. É a única pessoa que, não importa o que acontecer, tu vais amar para sempre.” Percebi que continuaste sem entender, mas não fizeste mais nada sem ser encostar a cabeça no ombro da mãe e adormecer. Eu, no entanto, consegui entender o significado daquelas bonitas e poéticas palavras. Desse momento em diante sempre soube que, para mim, tu eras esse alguém, a minha alma gémea. Ainda hoje, mesmo com tudo o que mudou desde essa altura, continuo a pensar assim. Quando fui visitar a velha casa de banho, memórias dos teus tratamentos assombraram-me o pensamento. Recordo-me dos dias em que estavas mais pálido do que o arroz que eu costumava cozinhar, ou de quando eu te via tomar aqueles comprimidos amarelados contra vontade, porque nunca pensaste naquilo como uma prioridade, preferindo sempre sair com os teus amigos ou ir jogar computador.

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Tínhamos nessa altura 16 anos e a tua falta de responsabilidade para com a tua condição sempre me afetou bastante. Lembro-me de comprar uma agenda só para o propósito de marcar a que horas tinhas que tomar o quê, e de como me empurraste contra a parede e gritaste comigo quando a descobriste, afirmando que sabias muito bem o que tinhas que fazer e quando, o que não era verdade. Infelizmente, nunca tiveste oportunidade de me aleijar fisicamente outra vez, visto que foste ficando mais fraco muito rapidamente, o que significava que o tratamento não estava a funcionar. Havia dias em que não saías da cama. O pai fez-te um pequeno sino que se ouvia até no piso debaixo caso precisasses de alguma coisa. Recordo-me de quando me pedias para me deitar a teu lado e recontar aqueles contos de quando eramos pequenos, ou então dizias-me para te ler uma história de um dos muitos livros de aventura que tinhas na tua estante. A desculpa era sempre a de que querias ouvir a minha voz e que mais ninguém sabia imitar sons tão bem como eu. Foi numa dessas tardes, quando pensei que já estivesses a dormir, que sussurrei ao teu ouvido o que a mãe dizia ao pai quando já não queria estar zangada com ele, ou quando não o ia ver durante muito tempo, e então vi-te sorrir, como já não via há muito tempo. Na manhã seguinte, quando te fui acordar e antes de sair para a escola, beijei-te como a mãe beijava o pai para se despedir dele ou para o cumprimentar, e então tu sorriste outra vez. Daí para diante, fiz sempre os possíveis, os certos e os errados, só para ver o teu sorriso. A minha última paragem, e a mais dolorosa, foi a garagem. As estantes de madeira onde o pai punha as coisas que precisava para o carro ainda se encontravam pregadas à parede, com algumas partes partidas e esfarrapadas. Foi no mês do nosso 17º aniversário que tiveste que ser internado no hospital. O primeiro tratamento proposto não tinha resultado e os médicos queriam então tratar-te onde te pudessem ver todos os dias. Tu choraste até os teus olhos ficarem secos e lutaste com as tuas poucas forças contra a ideia de seres confinado a uma cama de hospital. Nessa altura fizeste-me lembrar das tuas birras quando eramos pequenos e não querias ir a algum lado: deitavas-te no chão a gritar e tinhas que ser arrastado até ao carro, doutra maneira não ias mesmo. Eu sempre fora muito menos rabugento. Nas primeiras semanas após a tua ida para o hospital, nós íamos visitar-te todos os dias e os médicos até nos iam dando boas notícias, dizendo que não tinhas respondido mal à primeira fase do tratamento. Tiveram que te rapar o cabelo e eu consegui fazer-te rir quando te disse que a tua cabeça estava mais pobre em cabelo do que a carteira dos pais em dinheiro. Essa foi a última vez que te vi feliz.

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Ao longo da nossa estadia naquela casa só mudámos de carro uma vez, quando o pai achou que se todos os amigos dele tinham carros novos ele também tinha direito a não andar num caixote com rodas. Todos concordámos e até fomos escolher um novo em família. Os pais acabaram por comprar um carro de um modelo mais desportivo, preto, com três lugares atrás e dois à frente. Foi nesse carro que eu viajei três vezes num único mês para o hospital, num mísero e frio Setembro, três meses após teres sido internado. A primeira foi a última vez que te vi consciente, embora o que dizias fizesse tudo menos sentido. Ouvi os médicos dizerem aos pais que mais nada do que fizessem te ia fazer sentir melhor, e então sentei-me ao teu lado a ouvir as tuas baboseiras e chorei, fartando-me de ser o único a fingir ser forte. Na segunda vez já nem conseguias falar. Recordo-me de que tinhas os teus olhos azulados abertos e estavas a olhar para o teto porque provavelmente não tinhas força suficiente para mexer a cabeça. Segurei na tua mão, que estava cada vez mais fria e pálida, e sussurrei ao teu ouvido que queria que lutasses por mim e por nós, mas hoje sei que tu não ouviste. A terceira vez não foi planeada. Eu e os pais estávamos a jantar e ouvimos o telefone tocar. Eles trocaram de olhares, pois provavelmente sabiam de algo que não me tinham contado, e a mãe levantou-se para o atender. Pouco depois, tudo o que se ouvia naquela casa era o seu choro, seguido do do pai, e do meu depois de me terem contado. Quando lá cheguei tu já não estavas no mesmo sítio e eu não me pude despedir de ti. Lembro-me de abraçar a mãe e de lhe perguntar se isto era um pesadelo e se tu ias ficar bem, mas, ao contrário daquela vez quando eramos pequenos, ela respondeu que ‘não’. Agora, após um dia tanto feliz como sofredor, sentado na secretária do meu quarto da universidade, decidi partilhar as memórias da nossa velha casa contigo. Eu sei que, mesmo não estando aqui, e ao contrário daquela vez no hospital, tu me estás a ouvir, algures num sítio muito melhor, num sítio onde tenhas encontrado mais alguém para aturar as tuas birras e talvez até aquele hamster teu que mataste porque achavas que ele ia querer brincar com o cão. Como a mãe costumava dizer, eu não perdi a minha alma gémea porque as almas gémeas ficam no nosso coração a nossa vida inteira, assim como tu estarás para sempre no meu.

Caçadora de sombras

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Despeço-me Saí do carro lentamente, passando os olhos pela fachada da pequena casa que em tempos fora a minha. A antiga pintura que fora de um tom bege muito bonito já escascara quase toda, como pele que deixava à vista os músculos e os tendões de um corpo. Mostrava a toda a gente o cinzento angustiado do cimento que cobria e ligava os ossos, que eram os tijolos vermelhos. E se continuasse a olhar a casa como a uma pessoa, o cabelo seriam as telhas alaranjadas, manchadas de líquenes e outros fungos, tal como um cabelo manchado pela neve da velhice. Os olhos seriam aquelas duas janelas do andar de cima, com os vidros embaciados de pó e polén como olhos por cataratas. O nariz seria largo e curto, como a pequena varanda arredondada entre essas duas janelas, e a boca passaria pela pequena porta situada imediatamente por baixo. Os pilares de madeira rachada e com pequenas lascas que sustentavam a cobertura do alpendre seriam os dedos enrugados e frágeis de duas mãos que cobrem desoladamente um rosto envelhecido e abandonado por aqueles que lhe eram queridos. – Voltei – murmurei-lhe, enquanto fechava a porta do carro e dava os primeiros passos na sua direção.

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Havia três degraus de madeira a dar acesso ao alpendre, cada um deles gemendo de forma diferente, quase como uma melodia, mas de forma igualmente triste, todos eles sincronizados no mesmo choro ressentido que apenas palavras não apaziguariam. A sua cura seria carinho, o qual acabaria sempre por não vir de mim. Caso contrário, eu seria somente contagiada pela sua tristeza e cobriria também o rosto abandonado e triste com os dedos, ainda não envelhecidos, ainda jovens, mas também frágeis. Retirei a chave do bolso das calças de ganga, sentindo-a quente e macia, como o toque querido daqueles que a tinham segurado nas mãos antes de mim, como um toque do meu passado infantil, alegre e para sempre perdido. Inseri-a na fechadura antiga e já com contornos de ferrugem, rodando-a lentamente até ouvir aquele clique tão familiar. Um clique que abriu mais do que aquela porta: abriu o meu passado, o meu coração, o cofre de aço das minhas memórias e da criança em mim e, por fim, a comporta que até ali segurara as minhas lágrimas, salgadas de amargura. Quando eu entrei na casa, já elas me deslizavam silenciosa e delicadamente pelo rosto. Na frente da porta de entrada encontrava-se uma pequena parede e para a direita também não tinha saída. Restava apenas a esquerda, que levava diretamente à espaçosa e simpática sala de estar que ocupava metade do rés do chão. Junto à parede em frente estava a pequena e antiga televisão que deliciara os meus olhos infantis quando decidia estar demasiado cansada para ir brincar lá para fora. O sofá na frente da televisão estava com as molas arruinadas, devido à quantidade de vezes que eu saltara ali. E não só, ele também pesava um pouquinho mais do que o aconselhável pelo médio, pelo que sempre fizera o sofá gemer de protesto ao receber o seu peso. Depois, ao lado do sofá, estava a grande lareira. Eu e eles sempre lutávamos pela ponta do sofá mais próxima da lareira naquelas frias noites de inverno, às vezes com uma taça de chocolate quente nas mãos, feito por ela. Ao aproximar-me e poisar as mãos trémulas nas costas do sofá, senti nos meus dedos o tecido áspero mas quente da velha manta que nos cobrira aos três quanto víamos televisão, muitas vezes chorando de tristeza ou de alegria, sérios ou preocupados e, às vezes, sonolentos. Limpei as lágrimas que me escorriam com mais abundância pelo rosto, fungando levemente. Apesar de ter vindo ali simplesmente para aquilo, para ver,

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sentir, recordar e chorar o que estava perdido, não pretendia demorar ali muito tempo. Tinha outras coisas para fazer, entre as quais recomeçar a minha vida. Portanto, avancei rapidamente até à porta das traseiras. Perpendicular a essa porta estava a entrada da cozinha, com os seus balcões de madeira, o velho fogão a gás e aquela tosca mesa de madeira escura em que eu, durante anos, tomara as minhas refeições. Fora ele que a fizera e estivera sempre a gabar-se disso. O tampo já estava enegrecido devido às panelas quentes que ali tinham sido descuidadamente poisadas e a outros acidentes de que já nem guardava memória. Mas aqueles dois conjuntos de seis manchas em forma de meia-lua eram-me recordados com muito carinho. Num dos conjuntos, as manchas estavam mais afastadas do que no outro, mostrando a diferença entre uma mão jovem e uma mais envelhecida. Eu ainda tentei encaixar a minha mão no conjunto de manchas mais pequeno, mas não consegui. A minha mão apenas cabia no conjunto maior, como se para me convencer ainda mais da passagem do tempo. Por muito que eu a tivesse querido parar. Aquele era o resultado de uma brincadeira que eu tinha com ele desde pequena. Uma brincadeira com facas que, para evitar que eu me cortasse, começara por ser com colheres. Eu e ele tínhamos competido várias vezes para saber quem conseguiria espetar a faca no espaço entre os dedos da mão aberta, passando de um espaço para o outro com a maior rapidez possível e sem cortar os dedos. Isso valerame alguns pequenos cortes e arranhões, para grande desespero dela, que sempre corria a ir fazer-me um curativo. No entanto, ele também sofrera alguns, para minha infantil e ingénua alegria. Abandonei a cozinha, ignorando a pequena porta da casa de banho que nada me dizia e voltando para junto da porta das traseiras. Na frente dela, estavam as escadas de madeira que levavam ao andar de cima, as quais subi lentamente, deixando que o chiar de cada degrau se desvanece por completo antes de subir o seguinte. No topo, não havia corredor, apenas um espacinho quadrado. Na minha frente estava a janela grande e suja que dava para a pequena varanda. Do lado esquerdo, a porta do meu antigo quarto, que eu deixara quase vazio quando partira. Sem saber o que iria encontrar ali, avancei e abri a porta, que rangeu levemente. A cama de solteiro mantinha-se inalterada, encostada à parede, com uma mesa de cabeceira ao lado e um candeeiro antigo sobre ela. A roupa da cama mantinha-se, e estava do jeito que ela sempre a fizera: um jogo de lençóis, um

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cobertor e uma colcha. Atualmente estava lá uma colcha fina de verão, como se para imortalizar ali a estação do ano em que eu abandonara aquela casa. Ou talvez apenas à esperar o meu regresso, como se nenhum tempo tivesse passado desde que eu a deixara. Mas passara, e contara com vários anos. Via-se pelo aspeto velho e empoeirado da colcha, já comida em vários pontos pelas traças. O roupeiro ainda estava ao lado da janela que eu antes considerara um dos olhos da casa, mas vazio, com exceção da roupa da cama que era suposto, num dia de limpeza, substituir aquela que cobria a cama agora. E recordava-me do toque de cada uma daquelas peças, com que ela gentilmente cobria o meu corpo, todas as noites. Decidindo que já vira o suficiente, até porque não havia muito para ver ali, dei a volta e coloquei-me na frente da última porta que me faltava abrir. Aquela porta era aquela que eu mais temia, porque fora ali que começara o início do fim. E fora ali que o fim chegara. Era o quarto deles. Estendi a mão para a maçaneta da porta, querendo terminar aquela visita ao meu passado, mas com a coragem falhando-me no ato de continuar. Ao sentir o metal frio e empoeirado da maçaneta, fechei os olhos, com novas lágrimas deslizando-me pelo rosto abaixo. Abri a porta lentamente, deixando soar no silêncio empoeirado o som sofredor da maçaneta. Ainda de olhos fechados, empurrei a porta para trás, deixando depois cair o braço ao lado do corpo, quando o propósito estava comprido. Lentamente, abri os olhos. O quarto estava exatamente como eu o recordava. A cama de casal com a colcha branca e bordada em tons de bege. A cruz da madeira pendurada na parede por trás dela, abençoando aquele leito em que eu fora gerada. Numa das duas mesas de cabeceira que ladeavam a cama estava um candeeiro; na outra estava uma estatueta da Nossa Senhora de Fátima, com um terço cuidadosamente pendurado nas mãos juntas e erguidas até ao peito da figura de porcelana. O antigo toucador com espelho ainda tinha sobre ele uma escova, um copo vazio e caixas de compridos. Muitas caixas de compridos, espalhadas por todo o lado. O quarto cheirava a remédio. A remédio, à doença sem cura que era a velhice, ao lento apodrecer do corpo enquanto ainda se era vivo, ao suor e às lágrimas do esforço gasto em lutas que se sabiam completamente vãs, para manter os corações frágeis e gentis a bater. As minhas próprias lágrimas começaram a deslizar com o dobro da abundância enquanto eu perguntava no interior da minha mente porquê. Que razões tinha a figura

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encapuzada que assombrava aquele quarto para os levar? Aquele não era o fim que eles mereciam, se alguma vez houvera alguém no mundo que merecera receber a imortalidade, teriam sido eles. Eles mereciam. Eles mereciam! Eles, eles, eles! – Mãe – gemi, tristemente, deixando-me cair de joelhos no chão, soluçando sem controlo – Pai… – Alessa? Olhei por cima do ombro, vendo Bryan espreitar-me timidamente, ainda a subir as escadas e avançando um degrau de cada vez, sem saber se deveria permanecer ali ou se deveria voltar para o carro, onde estivera à minha espera. Eu dirigi-lhe um pequeno sorriso para o tranquilizar e levantei-me, sacudindo o pó das calças. – Estás bem? – perguntou Bryan, ainda indeciso entre continuar ali ou deixarme sozinha. – Sim, estou bem – confirmei, limpando as lágrimas e fazendo um novo sorriso tranquilizador. – Estavas a chorar – insistiu ele, avançando por fim com confiança e fazendo um polegar deslizar pela maçã do meu rosto, limpando quaisquer réstias de lágrimas qua ali ainda pudessem estar. – É só que… custa-me muito lembrar-me deles – murmurei, baixando o olhar. – Eu sei – murmurou ele, muito baixinho. Ergui os meus olhos para os dele, para aquele azul profundo e muito escuro, tal e qual o fundo do oceano mas, ao contrário dele, quente como fogo. Ao olhar no fundo do seu olhar tive a certeza, mais uma vez, de que aquela casa decrépita, a cair aos bocados, e que eu tanto hesitara em vender apesar de não a usar, já não era a minha casa. Deixara de o ser no momento em que os meus pais tinham morrido, porque eram eles o meu lar, o meu porto de abrigo, o meu mundo para sempre perdido. Como o ditado dizia, eram as pessoas que faziam os lugares. E agora eu

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estava com Bryan e ele era o meu lar. Seria sempre, até que aquela figura encapuzada nos separasse. – Queres voltar? – perguntou ele, no mesmo tom baixo e suave que usara antes. – Sim – confirmei, respirando fundo, para me libertar das garras da saudade que aquele lugar lançava sobre mim – Já vi tudo o que tinha a ver. – Já te despediste? – inquiriu, inclinando ligeiramente a cabeça para o lado, com a curiosidade. Eu olhei para o interior do quarto dos meus pais, sentindo-o agora estranhamente distante. Talvez por Bryan, o meu presente, estar ali ao meu lado, fazendo-me ver toda a distância que já me separava da minha infância e que por muito tempo eu me recusara a aceitar, fazendo a minha vida parar num momento incerto que não era passado e não era presente. Como poderia ser, se eu estava ausente dele, teimando em caminhar para trás? Mas chegava disso. Era altura de me despedir e continuar em frente. – Adeus – murmurei para o interior do quarto. Depois, fechei suave e lentamente a porta, fechando com ela aquela fase da minha vida.

Sadness

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Casa é o silêncio que repousa na varanda, Que se estende ao Sol de Inverno Embalado pela sombra que envelhece, E que, sob a chuva quente, anda, Por fim, adormece.

Casa é sabor a terra molhada, Ao fim de uma tarde de Verão; Colheres de compota doce, Figos comidos à mão… A infantil inconsciência do nada E a sabedoria de uma alma cansada Com a certeza de que nada foi em vão.

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Casa é recordar o passado, Viver como se ainda existisses; Sonhar um pouco… Mas não demasiado! Pois o sonho morre e arrasta a alma E, mesmo para quem já nada tem, É um preço deveras pesado.

Casa são todas as estrelas que me olham, Despertas em cada noite à lua vendida, E me chamam para longe, Para reviver tudo o que já escrevi E ser a mesma que aqui anda perdida.

À minha casa chamo mar. São todos os caminhos incertos Por onde as lágrimas se fazem deslizar, Gotas que se desenrolam pela face E culminam num fogo incapaz de queimar.

Ilusão

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Textos vencedores do prémio literário cristina torres 2013