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HISTÓRIAS FORA DA ORDEM é uma expo-

absorvermos nossas contradições inerentes, fa-

sição de arte contemporânea que se põe em diá-

zermos aflorar no presente o passado recalcado.

logo com o acervo do Império no Museu Históri-

Desse modo, não podemos de forma alguma fur-

co Nacional (MHN), Rio de Janeiro, apresentado

tar-nos de encarar os traumas pelos quais passa-

nos módulos da exposição “A Construção do Es-

mos ao longo de todos esses anos. Neste sentido, a

tado”, no segundo andar, e da “Galeria de Carru-

história, mais do que arranjo narrativo ou interpreta-

agens”, no térreo. O escopo temático das salas

ções dos fatos é uma prática diária de autoanálise.

evidencia o processo de construção do Estado

Tecendo relações entre o passado e o pre-

nacional brasileiro no século XIX e a consequen-

sente, Histórias fora da ordem pretende lançar

te definição do modelo de regime político e social que o acarretou. A narrativa que se oferece ao visitante, seguindo uma ordem cronológica e bem assentada sobre os fatos históricos já consolidados em nossos livros escolares, começa com os eventos que culminaram com a proclamação da independência na segunda década do século XIX, por Pedro I, e segue até ao adeus definitivo à monarquia, pontuada na grande tela O último baile do império, de Aurélio de Figueiredo, que teve lugar no palacete da Ilha Fiscal. Pondo um ponto final a essa história, o ataque iconoclasta à figura emblemática do Imperador Pedro II, cujo retrato foi brutalmente dilacerado a golpes de espada, nos dá seu testemunho dramático. Arthur Danto, ao argumentar sua tese sobre o fim da arte, alega que uma narrativa de longa duração, contando o passado, tem consequentes desdobramentos sobre o futuro. Se o autor está certo, cabe a nós, cidadãos, perguntarmo-nos se o que nos contam, nos abraça e nos acolhe em nossa diversidade e amplitude de desejos. Neste momento oportuno, em que tateamos na experiência democrática, numa escalada de avanços e re-

um olhar crítico sobre a nossa realidade, desalinhando os discursos e inserindo outros sujeitos e outros objetos, nem sempre heroicos, nem sempre vistosos. De outro modo, a intrusão pontual de novas peças criadas especialmente para dialogar com o acervo ocasiona outros níveis imprevistos de leitura que autorizam interpretações heterodoxas e plurais de nosso passado e atualidade. Neste sentido, a autoimagem que construímos para nos representar faz parte daquilo que pretendemos ser tal como a realidade que forjamos para viver. Assim a arte não está isenta de responsabilidade social e contribui para a construção dialética de nossas identidades. A exposição reúne 13 artistas, professores e estudantes de Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal Fluminense (UFF), e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O projeto é uma iniciativa dos grupos de pesquisa A arte, a história e o museu em processo (CNPq), liderado pela prof.ª Dr.ª Beatriz Pimenta Velloso (EBA- UFRJ), e Prática artística e experiência cotidiana (CNPq), liderado pelo prof. Dr. Luciano Vinhosa (UFF), que juntos realizaram a curadoria da exposição.

trocessos sucessivos, é necessário repensarmos aquilo que nos tem feito ser o que somos para, ao

Luciano Vinhosa

Museu Histórico Nacional - Histórias fora da ordem  

Catálogo de intervenções realizadas na Galeria do Império do MHN do Rio de Janeiro

Museu Histórico Nacional - Histórias fora da ordem  

Catálogo de intervenções realizadas na Galeria do Império do MHN do Rio de Janeiro

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