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Editorial “Só vim telefonar”

Em tarde de chuvas primaveris, a bela Maria de la Luz Cervantes, uma atriz mexicana, casada com um ilusionista de salão, passa pelo improvável acidente de ter o carro quebrado em plena estrada. Sem qualquer indício de civilização nas proximidades, a Maria lhe ocorre fazer sinal, esperando que alguém pudesse leva-la a algum lugar onde ela poderia telefonar para o marido, que lhe esperava às sete da noite para visitar alguns parentes. Depois de uma hora fazendo sinais, e já parecendo um “passarinho ensopado”, um único veículo se compadece de seu estado e se dispõe a dar-lhe uma carona. É um ônibus destrambelhado, repleto de mulheres semiadormecidas. Uma senhora de aspecto militar que viaja ao lado do chofer lhe oferece uma toalha e uma manta, ao que ela agradece, mas logo se sente sonolenta. Maria não imagina, mas encontra-se em ônibus que transporta pacientes para um hospício. Longe de saber seu destino, preocupa-se com o marido, e com a visita que jamais chegaria acontecer. Infelizmente, a entrada da jovem Maria naquele ônibus não permitiria sua saída. A partir da história de Maria, o escritor colombiano Gabriel García Márquez faz uma impressionante descrição-literária do estigma da loucura e das consequências sofridas por aqueles que o carregam. No conto, a atriz havia sido levada a um manicômio por um acaso. O mesmo acaso lhe causou a falha no motor do carro. Mas, naquele dia, assim como as outras mulheres, Maria receberia uma etiqueta que numerava sua condição de doente, e trazia, mais do que isso, o pesado fardo de ter autonomia perdida. De nada adiantou à Maria explicar às guardiãs da portaria: “Só vim telefonar.” Sua ânsia por um telefonema era, para elas, nada além de um sintoma doentio, uma clara obsessão causada pelo delírio de que alguém esperava do outro lado da linha. De nada também valeria sua indignação, a não ser para atestarem um suposto comportamento agressivo, facilmente resolvido com o aumento na medicação e a privação dos poucos benefícios que lhe permitiam suportar aquela situação. A realidade das pessoas diagnosticadas com transtorno psíquico no Brasil já foi exatamente a mesma vivida por Maria. A Reforma Psiquiátrica brasileira – mesmo que longe de estar concluída - foi, porém, um instrumen-

to de renovação fundamental para desativar instituições de trato desumano como àquela em que ela fora trancafiada. Mas assim como a personagem de Garcia Márquez, muitas pessoas em estado de sofrimento psíquico padecem em leitos domésticos, perdendo a oportunidade de manifestar suas opiniões e competências, e, ainda que longe de manicômios, são vítimas de um sistema excludente, alimentado por um senso comum preconceituoso que os condena ao silêncio e à solidão. Dentro dos preceitos da Reforma Psiquiátrica, o Projeto Tear, do município de Guarulhos, mostra que é possível, através da iniciativa coletiva, resgatar esta autonomia perdida e transformá-la em arte, trabalho e geração de renda. Com aproximação com o campo da economia solidária, as oficinas de cultura e trabalho do Tear já permitiram a centenas de pessoas a realização pessoal, resgatando-os de um estado de isolamento e reinserindo -os ao convívio social e profissional. Pioneiro na cidade, o Tear é um espaço de inovação no desenvolvimento de novas tecnologias e estratégias de inclusão que desde 2003 vem fortalecendo a autoconfiança e contratualidade social de seus participantes, demonstrando que o medo e preconceito podem ser revertidos e transformados em um cotidiano mais artístico, cultural e diversificado. Uma vez que o preconceito é alimentado pela desinformação, só a informação pode combatê-lo. Desta premissa, surgiu a primeira publicação da revista Nise. Para fornecer conhecimento sobre os avanços no tratamento e na inclusão de pessoas cansadas de ouvir “não”, fomos buscar em diferentes cidades o trabalho de quem se dedica, mais do que a curar doenças, a combater os distúrbios de uma mentalidade coletiva que exclui e silencia. É pelo direito universal à cultural, à vida e à felicidade que surge esta publicação. Convidamos estudantes, amigos, profissionais, familiares, vizinhos, colegas de trabalho, usuários e familiares da saúde mental e a todos os interessados a descobrirem o histórico e as conquistas do Tear nesta edição comemorativa de seus 10 anos. Fiquem à vontade, também, para conhecerem a trajetória de outras iniciativas que a cada passo dado, vem contribuindo para substituir sofrimento psíquico por alegria. Boa leitura.


Saiba +

foto: Museu Imagens do Inconsciente

Pessoinha Tímida Expediente: Textos e Edição: Beatriz Almeida Revisão: Lívia Rodrigues

“Lamentei ver minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-se culta e boa, Rachel de Queiroz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço. Nunca me havia aparecido criatura mais simpática.”

Fotos: Beatriz Almeida, João Aranha Conselho Editorial: Beatriz Almeida, Melissa de Oliveira, Denise Antunes, Gláucia Pariz, Sebastião Antônio Gonçalves Projeto Gráfico: Beatriz Almeida /Heitor Cury Reis Diagramação e Ilustrações: Heitor Cury Reis

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Assim foi descrita Nise da Silveira por Graciliano Ramos em suas Memórias do Cárcere, quando, por ocasião do ofício, a doutora e o escritor compartilhavam, além da simpatia mútua, grades, muralhas e rebeldia. Presa durante o Estado Novo sob a acusação de possuir livros marxistas, Nise chegou ao cárcere ainda portando o jaleco branco que denunciava seu cargo científico, mas que pouco – ou quase nada dizia de sua natureza visionária. Ali permaneceu por um ano e meio, até

retornar à sua arte, aos seus loucos e ao seu Mário. Uma das primeiras médicas graduadas do Brasil, Nise foi única mulher em uma turma de 157 homens da Faculdade de Medicina da Bahia. Aos 27 anos, aprovada em um concurso de psiquiatria, mudou-se com Mário Magalhães para a capital do Rio de Janeiro, onde, depois de passados oito anos afastada da área por razões políticas, voltaria a dedicar-se a pesquisas e práticas de inspiração humanista. 5

Desta vez, no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, localizado no bairro Engenho de Dentro. O trabalho da psiquiatra – ou, como apontam muitos seus admiradores, anti-psiquiatra - tinha como princípio a rejeição aos métodos agressivos vigorados pela psicologia moderna, adotada durante todo seu período de exercício clínico. Em depoimento ao poeta Ferreira Gullar, a própria Nise relatou situações em que a resignação lhe era impraticável, como no episódio ocorrido pouco depois de sua readmissão, no qual foi convidada a conhecer o então novo método de tratamento com eletrochoques. “Paramos diante da cama de um doente que estava ali para tomar eletrochoque. O psiquiatra apertou o botão e o homem entrou em convulsão. Ele mandou levar aquele paciente para a enfermeira e pediu que trouxessem outro. Quando o novo paciente ficou pronto para a aplicação do choque, o médico me disse: ‘Aperte o botão. ‘ E eu respondi:


‘Não aperto.’ Aí começou a rebelde.” Além da repulsa ao uso de choques elétricos, Nise rechaçava também a lobotomia, o coma insulínico e, embora o início de sua atuação configure uma época em que ainda não existiam pílulas anti-psicóticas, revelou-se, mais tarde, contrária à administração excessiva de fármacos. Recusava, portanto, o uso de violência junto aos pacientes, chegando inclusive a rejeitar o léxico clínico, já que preferia referir-se a eles como “clientes”. Por tanta “rebeldia”, foi transferida para a área de Terapia Ocupacional, atividade até então menosprezada pela medicina e negligenciada por certos profissionais da área, que, pautados por um profundo desconhecimento de métodos terapêuticos eficazes, obrigavam os doentes à execução de tarefas braçais, como limpeza e arrumação das alas, no que consideravam uma maneira de mantê-los distraídos e “ocupados”. Transferida ao novo setor, Nise estava determinada a modificar o que lhe repugnava. Acordava cedo, pegava o ônibus e ia trabalhar no Engenho de Dentro. Logo, trocou o trabalho forçado por pincel, papel, tela, moldes e cores. Fundou uma Seção de Terapia Ocupacional no Pedro II e passou a desenvolver a cura por meio do incentivo a sensibilidade dos clientes, ideia que desenvolvera por influência da leitura de Baruch de Espinoza, filósofo holandês que considerava emoções como “estados do corpo.” Para expressar o que há de mais profundo na condição humana, ela procurava antes resgatar canais de comunicação que se encontravam diluídos em pensamentos obscuros e incompreendidos. Deu início a um ateliê de arte onde emoções saltavam de tela em tela. De papel em papel. Brotavam de argila, barro e água. Às dezenas de pinturas, rascunhos e esculturas, Nise dedicava horas de leitura, em um exercício de compreender a complexidade da psique humana. Encontrou seu instrumento de trabalho na psicologia de Carl Jung, tendo sido sua aluna e discípula, e

mais tarde coordenado grupos de estudos que aproximariam o pensamento jungiano do contexto brasileiro. Seu tempo restante era direcionado a novos projetos, estudos e leituras, por vezes em companhia de seus queridos gatos, que também passaram a frequentar as oficinas, contribuindo para o benefício terapêutico ao evocarem a atenção e o carinho dos pacientes, em maioria diagnosticados com esquizofrenia profunda. No ateliê do Engenho de Dentro nasceram mais de 351.502 obras, entre desenhos, telas, esculturas e tapetes, exibidas hoje no acervo do Museu Imagens do Inconsciente, estabelecido no mesmo prédio do hospício e fundado pela mesma Nise em 1952. Entre tantas outras, estão criações assinadas por Emygdio de Barros - segundo Ferreira Gullar, o melhor pintor brasileiro já vivente - Adelina Gomes, artista de excepcional habilidade para modelagem, Raphael Domingues, e Fernando Diniz, autor, entre dezenas de esculturas, telas e desenhos, da frase “O pintor é feito um livro que não tem fim.”. Centenas de outros internos cujos resultados clínico foram comprovadamente positivos e documentados, contribuíram e seguem contribuindo com o acervo do museu, em expressões de inegável valor artístico, científico e cultural. Sempre persistente, Doutora Nise fez crescer ainda mais ramificações da semente que plantara. Em 1956 deu início a Casa das Palmeiras, com o objetivo de promover a reintegração social de pessoas egressas de manicômios. Queria evitar rein6

ternações e oferecer uma nova proposta de tratamento, mais humanizado, fora do ambiente hospitalar. Um território livre, onde poderiam, finalmente, recuperar a autoestima e procurar independência através da medicação adequada, da convivência, da arte e do auxílio de profissionais determinados a promover a saúde, a vida e o afeto. Hoje, a estrutura hospitalar onde Nise iniciou o ateliê chama-se Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira. Não apenas ela foi força motriz suficiente para rebatizá-lo, mas sua influência vive e é debatida em diversos núcleos de trabalho e estudo em saúde. Sua contribuição nos estudos terapêuticos é considerada uma das mais importantes no contexto da luta por direitos humanos e inclusão de pessoas com transtornos mentais. Apesar de sua significativa importância, a medicina silveriana, não é, segundo alunos de Faculdades de Medicina públicas, uma das mais estudadas em sala de aula. Um fato que se explica, talvez, pelo fato de que ela, enquanto médica, dedicou boa parte da carreira a tornar-se menos doutora, e mais Nise. Mais humana e mais amada. Audaciosa, nunca foi humilde em suas convicções. Sabiase culta e revolucionária. E teimava em acreditar no afeto como a mola propulsora de tudo: coisa que somente loucos e artistas podiam compreender.

+ Política

foto: Rede Saúde Ecosol

FALANDO em

POLÍTICA

“Se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir” Doze anos pode parecer pouco tempo para o combate a práticas comuns há mais de 200 anos, mas, no caso da Lei 10.216/01, que visa à reinserção permanente dos portadores de distúrbios mentais em seu meio familiar, e, especialmente no que diz respeito aos usuários dos CAPS, cada ano de existência e progresso é motivo de orgulho e mais discussões. Sob o tema “Se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir”, a Semana da Luta Antimanicomial de 2013 marcou as comemorações dos avanços da Reforma e obteve a participação de centenas de pessoas em sua organização e realização - com direito a teatro, dança, samba, arte, futebol e feijoada, claro. Com o objetivo de discutir as conquistas do movimento popular organizado junto a usuários, trabalhadores e familiares do sistema de saúde mental, a Semana da Luta

Antimanicomial acontece anualmente entre os dias que antecedem o 18 de maio, o dia nacional da luta por uma sociedade sem manicômios. Este ano, o coletivo formado por CAPS de Guarulhos e de São Paulo (InterCAPS), em parceria com a Associação Inclui Mais, organizou cerca de 15 dias de evento, abrangendo Centros de quase todas as regiões de São Paulo e da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) de Guarulhos. Entre saraus, concertos, oficinas de tetro e pintura, os participantes se reuniram para debater e construir estratégias e políticas de incentivo à saúde mental. Mas o tradicional futebol, a feijoada, o batuque e o samba não ficaram de fora: os momentos de confraternização são responsáveis pela a integração entre usuários, profissionais e militantes, sendo fundamentais para a construção de saber coletivo. 7

A semana terminou com uma Avenida Paulista tomada pela diversidade de cores e ideias. Usuários, familiares e profissionais marcharam sua existência e sua ânsia “Por uma política de droga pública e não segregativa”, por “Mais direitos aos usuários e suas famílias” e “Por políticas de fomento aos projetos e empreendimentos de Inclusão social pelo trabalho.”, como enfatiza o blog da organização do evento. Uma grande faixa branca puxava o bloco. A mensagem não poderia ser mais clara: “Não a internação compulsória!” Na ocasião, os participantes do Projeto Tear uniram-se aos demais usuários da RAPS de Guarulhos e confeccionaram um dos “bandeiraços” levados pelo grupo no dia Marcha da Luta Antimanicomial. Sob o eixo “Qual é sua loucura?” os participantes puderam expressar suas ideias e aproximarem-se do debate


político que sai em defesa de seus direitos. Presentes ou não na Avenida Paulista, eles ajudaram, de alguma forma, a botar o bloco na rua. Para Melissa de Oliveira, militante da Luta Antimanicomial que esteve participando do evento paulistano, os eventos comemorativos são, antes de tudo, um espaço coletivo para troca de pensamentos e reflexões. “Com a participação de todos, mostramos que queremos e podemos avançar muito mais.”

de CAPS vem aumentando progressivamente, embora seu acesso universal ainda seja uma realidade distante. Segundo o mais recente relatório “Saúde mental em dados” divulgado pelo Ministério da Saúde, entre 1998 e 2012, o número de CAPS cresceu de 148 unidades no primeiro ano da pesquisa para 1803 no último. Já a quantidade de Residências Terapêuticas pelo país aumentou de 85 em 2002 para 779 em 2012, mesmo período em que o número de leitos psiquiátricos do Sistema Único de Saúde (SUS), diminuiu de 51.393 para 29.958. A redução progressiva dos leitos reflete a diminuição do orçamento público destinado a gastos hospitalares (principalmente com internações). Em 2002, 75,24% do orçamento federal de saúde mental foram repassados a hospitais psiquiátricos, de um investimento total de R$ 619,2 milhões. Em 2011, o percentual caiu para 28,91%. Com a redução no investimento, mais de 17,5 mil leitos foram encerrados.

Saúde Mental em Números Desde a aprovação da Lei da Reforma Psiquiátrica, o orçamento da área de saúde mental é, sobretudo, direcionado a eliminar as grades de manicômios e esvaziar hospitais psiquiátricos, com a substituição progressiva das internações por atendimentos ligados às Redes de Atenção Psicossociais, como os Centros de Atenção Psicossocial e as Residências Terapêuticas. No Brasil, enquanto as diretrizes da Reforma Psiquiátrica ainda são implantadas, nota-se que o número

Mas ainda que os avanços na área mostrem estar atingindo os objetivos iniciais da lei - de acordo com o mesmo relatório, o orçamento para a Saúde Mental quase triplicou entre 2002 e 2011 - os desafios no setor continuam a vista. A distribuição dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) pelas regiões do país é um dos indicadores que mais gera críticas. O relatório demonstra que das 27 unidades federativas do país, quatro (Acre, Amazonas, Roraima e Distrito Federal) possuem cobertura de atendimento psicossocial regular, baixa, insuficiente ou crítica. O Amazonas, por exemplo, que conta com 3 milhões de habitantes,

tem apenas um hospital com atendimento psiquiátrico do SUS em atividade. No entanto, possui somente 9 Centros de atenção, entre CAPS tipo I, II e III, apenas um deles com funcionamento 24 horas. Para justificar os dados no caso da Região Norte, o relatório coloca que é preciso ajustar o indicador que calcula a médica dos CAPS para 100.000 habitantes, que, segundo o texto, não é sensível às peculiaridades da região “que envolvem grandes distâncias, barreiras geográficas e tecnológicas e uma considerável diversidade étnica.” O Distrito Federal, no entanto, ocupa a última posição na média de cobertura assistencial. Para 2,3 milhões de habitantes, apenas 7 CAPS são disponibilizados.

Série histórica da expansão dos CAPS (Brasil, 1998-jun/2012)

Leitos psiquiátricos SUS por ano (Brasil, 2002-jul/2012)

Fonte: Coordenação da Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas/DAPES/SAS/Ministério da Saúde

O aumento reflete uma política de investimento focada no atendimento extra-hospitalar

Fontes: Em 2002 – 2003, SIH/SUS, Coordenação de Saúde Mental, Álcool e Outrad Drogas/DAPES/ SAS/MS e Coordenações Estaduais. A partir de 2004, PRH/CNES e Coordenações Estaduais.

Entre as diretrizes da Reforma Psiquiátrica está a redução gradual dos leitos destinados à internações.

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2013, época marcada pelo grande número de internações compulsórias nas capitais metropolitanas, o número não chegava a 30 unidades. Segundo o documento, as Residências Terapêuticas ainda não foram implantadas em oito unidades federativas: Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Distrito Federal, Rondônia, Roraima e Tocantins. No Pará e no Tocantins, o serviço está em fase de implementação. Em todo o país há 625 residências terapêuticas em funcionamento que abrigam 3.460 moradores. Outras 154 estão sendo implantadas.

Seguindo o critério de medição da cobertura através da proporção entre um CAPS para cada 100 mil habitantes, a média geral brasileira é de 0,74, considerada, pelo parâmetro comparativo do documento, “muito boa.” O Ministério da Saúde explica que desde 2010 o órgão vem adotando um novo critério de entendimento sobre a cobertura em saúde mental no país, com base na incorporação de outros dados à estatística. Especificamente em relação aos CAPS/AD tipo III (24 horas) e como parte das estratégias de enfrentamento ao crack, a expectativa do Ministério da Saúde é contar com 175 unidades em todo o Brasil até 2014. No início 9


Guarulhos: Sustentabilidade e cultura para mais avanços Em Guarulhos, a demanda por mais avanços no sistema de saúde mental é constante. Para atender a população de 1,2 milhões de habitantes, a Rede de Atenção Psicossocial de Guarulhos dispõe de seis Centros de Atenção, sendo um deles com funcionamento 24 horas (Alvorada), um destinado à atenção de casos ligados à infância e juventude (CAPS Recriar) e, única referência nesta categoria no munícipio, um CAPS especializado no cuidado à dependência de álcool e outras drogas. (CAPS AD). Apesar de a cobertura assistencial em relação à quantidade de habitantes parecer pequena, o fato de o trabalho ser realizado com bases comunitárias facilita o acesso às ferramentas disponíveis para terapia e tratamento dos usuários. Os projetos ligados à cultura e arte são, na maioria das vezes, abertos a todos os usuários dos CAPS do município. Porém, quanto ao atendimento médico, a quantidade de CAPS não chega a responder a demanda de pacientes que procuram os serviços. Segundo Marina Narismagi, coordenadora da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) da região central do município, a dificuldade de atendimento está centrada nos CAPS especializados: AD e infantil. Ela explica que os serviços de atenção são divididos por regiões do município, mas que a concentração de atendimento especializado em apenas duas unidades impede a o acesso universal aos pacientes “No caso do centro, os CAPS seriam suficientes para a necessidade do bairro, mas temos o CAPS infantil e o AD (Álcool e outras drogas) que são referência a todo o município, estas modalidades estão insuficientes para o atendimento da demanda.” explica. Visando diminuir a necessidade de atendimentos relacionados ao uso do Crack, Guarulhos aderiu, em 2013, ao Programa Federal

“Crack, é possível vencer”. O projeto prevê reduzir a oferta de drogas ilícitas através do aumento das ofertas de tratamento e atenção aos dependentes químicos e seus familiares. Para isso, Guarulhos deverá trabalhar na organização de ações informativas e de capacitação de combate ao crack, procurando integrar profissionais da área de saúde, educação, assistência social e lideranças populares capacitadas para levar o discurso do programa a escolas e ambientes públicos. A cartilha oficinal do Programa Federal estipula que “Até o final de 2014, a meta dos municípios aderentes é o aumento da capacidade acolhimento dos usuários, a formação de redes formadas por profissionais de múltiplas áreas e a revitalização das áreas hoje utilizadas por dependentes para o consumo da droga”. Os avanços da RAPS de Guarulhos contemplam ainda outros quatro outros projetos, que segundo Helena Saroni, gerente da Rede de Atenção Psicossocial do município, já foram aprovados pelo Governo Federal e aguardam a liberação de recursos financeiros para serem colocados em prática. São eles “CAPS na Rua”, “Saúde e Cultura” e “Sabor, Saúde e Sustento”, além de um projeto que prevê a criação de uma horta comunitária no CAPS Bom Clima para consumo próprio dos usuários e seus familiares, com objetivo de incentivar uma prática terapêutica relacionada à sustentabilidade e ao consumo de alimentos frescos. Já o projeto “Sabor, Saúde e Sustento”, tem como objetivo organizar um espaço de culinária (para produção de doces e salgados) através da integração entre os serviços de terapia, educação e geração de renda e trabalho. Com oficinas desenvolvidas no CAPS Recriar, o projeto será aberto a todos os participantes dos CAPS de Guarulhos, e funcionará ainda como espaço al10

ternativo para tempo de espera das mães e/ou responsáveis pelas crianças assistidas pelo Recriar no período das terapias, podendo funcionar também como fonte de rende para os familiares, uma vez que, como coloca o documento, “a maioria dos responsáveis não tem condições de fixarem residência no mercado formal de trabalho, devido ao tempo estendido de tratamento de seus filhos. Este espaço favorecerá, através da atividade em comum (culinária), a troca de saberes e fortalecimentos de laços afetivos entre pacientes e familiares”. Pensando na identidade cultu -ral dos usuários, a RAPS de Guarulhos realizou uma pesquisa sobre suas origens. Constatando que a maior parte dos usuários tem suas origens fora de Guarulhos (sobretudo conectadas à Região Nordeste do Brasil e ao Sudeste de Minas Gerais), surgiu o Projeto “Saúde e Cultura”, uma iniciativa voltada ao resgate de memórias e de trajetórias através de práticas multiculturais. Ainda de acordo com Helena, para concretização do projeto a RAPS propõe oficinas de músicas populares, danças e comidas típicas, além do teatro, que contará com aulas de danças regionais e confecção de vestimentas folclóricas. “Para resgatar essas imagens, rodas de conversa e cineclubes serão organizados entre usuários, familiares, conhecedores de diversas nuances culturais brasileiras e profissionais dos CAPS.”, explica. A coordenação do projeto será realizada pelo CAPS Arco-Íris em parceria com o Projeto Tear, CAPS Alvorada e equipe Projeto Teatro do Oprimido.

Inclui +

foto: Sidnei Barros

TRABALHO, TERAPIA e ARTE Há 10 anos, o Projeto Tear, sem fins lucrativos, apresenta uma alternativa de inclusão social pelo trabalho a usuários do Sistema de Saúde Mental de Guarulhos

Há quatro anos e meio Samuel Casemiro mantém

uma rotina semanal estável. Ele sai da casa onde mora com a família, no bairro das Pimentas, por volta das 6h da manhã, toma um ônibus que o deixa no centro de Guarulhos e se dirige ao galpão onde passa manhãs e tardes trabalhando, desenvolvendo suas competências artísticas, conversando com amigos e redescobrindo o gosto pela vida. Ele diz que desde seu primeiro dia no Projeto Tear, que relembra com exatidão - 19 de agosto de 2009 - se sentiu bem acolhido e valorizado. “Aqui eu sou reconhecido pelo meu trabalho”. O porta-voz é um dos participantes das oficinas de geração de trabalho 11

e renda do Projeto Tear, “Terapia e Arte.” Com uma década acumulando resultados positivos, a história do Tear já se confunde com a rotina de Samuel e com a experiência de mais de 700 pessoas que já passaram pelo galpão, entre usuários, familiares e trabalhadores do sistema de atenção à saúde mental do município. Por meio de oficinas de artesanato, incrementadas por cursos de teatro, música e pintura, a iniciativa pública de promoção à saúde mental mostra a importância de incentivar as vocações, a autogestão e a cooperação junto a um público que, há anos, sofre com bloqueios burocráticos e culturais que dificultam seu


acesso ao universo do trabalho e das relações sociais. Situado na região central do município de Guarulhos (próximo à divisa com a Zona Leste de São Paulo) o Projeto Tear acaba de completar 10 anos de existência. Com o lema “trabalho, convívio e arte”, o espaço é destinado a atender adultos, de baixa renda, diagnosticados com algum problema psíquico, mas se encontram em situação clinicamente estáveis. O encaminhamento é feito através dos profissionais da área de saúde de Guarulhos, principalmente do Sistema Único de Saúde (SUS). Além do Projeto Tear, a população de Guarulhos conta com 6 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). No estado de São Paulo, a média de CAPS para cada 100.000 habitantes é de 0,68, considerada “boa” pelo indicador de cobertura assistencial psicossocial do Ministério da Saúde. Na época em o Tear que foi instaurado, Guarulhos contava com apenas um CAPS para atendimento de toda a população, o que causava filas de espera e demora na integração dos interessados pelo Tear, já que a estrutura do galpão não comporta mais do que 60 pessoas por dia.

foto: Beatriz Almeida

ARTE ao CONTRÁRIO Quando começou, em 2003, o Projeto Tear era um projeto piloto de inclusão social pelo trabalho, algo com teor inovador, considerando que naquele momento ainda não havia tantas experiências nesse campo consolidadas no Brasil. O nome, como relata a coordenadora do projeto Denise Antunes, foi ideia de um médico psiquiatra da cidade, um dos que auxiliaram sua implantação “Há uma simbologia por trás do nome. Lendo as sílabas ao contrário, TE-AR vira ARTE.” explica. Foi procurando um equilíbrio entre arte, terapia e trabalho que o Tear foi chegou às suas bases: a experiência do Núcleo de Trabalho de Oficinas (NOT) de Campinas, um dos serviços pioneiros em inclusão social pelo trabalho no campo da saúde mental. O NOT serviu de modelo de inspiração, ditando o nome e a dinâmica das oficinas realizadas no início. Com o tempo, as oficinas foram adaptadas à realidade interna do Tear, mas até 2012, a iniciativa guarulhense manteve uma construtiva parceria com Associação Cornélia Vlieg, responsável pelo NOT em Campinas e pela manutenção de um trabalho semelhante junto aos pacientes do Hospital Psiquiátrico Cândido Ferreira, na mesma cidade.

Com uma proposta pioneira no município, o projeto de construção do Tear começou a circular pela Prefeitura de Guarulhos pouco antes de 2003. Porém, coloca-lo em prática era uma questão que envolvia, principalmente, a captação de recursos financeiros. “O pessoal da prefeitura de Guarulhos queria aproximar as oficinas de trabalho que o pessoal lá em Campinas realizava para a realidade deles. Eles já tinham este projeto, mas não tinham incentivo financeiro governamental para montar essa estrutura”, diz Milena Ramos, coordenadora do Setor de Reponsabilidade Social dos Laboratórios Pzifer. “Foi então que eles procuram a Pfizer, pelo fato de que já tínhamos uma fábrica no município e já éramos conhecidos pela administração da cidade”. Com o apoio financeiro da Pzifer e ideológico da Associação Cornélia Vlieg, que desenvolvia as oficinas em Campinas, Guarulhos inaugurou um espaço que inexistia na cidade. “A prefeitura entrou com o operacional de recursos humanos, a Cornélia Vlieg com a experiência, e a Pzifer, com a estrutura interna” explica Milena. Após o investimento inicial, a Pfizer passou a investir em projetos pontuais, como o mais recente, de ampliação do Tear, que possibilitou a criação de oficinas culturais. “A Pfizer tem sido um importante parceiro do Projeto Tear ao longo de sua existência, sem, no entanto, interferir na gestão de seu funcionamento, visto que esse é um serviço público que atua de acordo com as diretrizes das políticas públicas de atenção à saúde mental no Brasil”, explica o supervisor de Projetos do Tear, Sebastião Alves, o Tião, como é conhecido por todos.

Fábrica de artesãos Quem chega ao Projeto Tear se surpreende com o tamanho do galpão que se estende através da pequena porta instalada em uma das esquinas da Rua Silvestre Vasconcelos Calmon. Atrás da fachada, o Tear ocupa uma estrutura simples, mas ampla, que lembra uma fábrica artesanal graças à presença de algumas máquinas, muitos aventais, óculos de proteção para evitar acidentes e ao ruído de martelos, tesouras e máquinas em atividade. Mesas, cadeiras, alguns livros, materiais recicláveis e computadores completam a estrutura necessária para realização das oito oficinas. Cada setor de trabalho é dividido por prateleiras e armários que servem de abrigo para garrafas, azulejos, papéis, tintas e tecidos, materiais comprados ou recebidos de doações. Entre um setor e outro, desenhos, poesia, um jornal mural e muitas mensagens dos participantes pregados à parede mostram a qualquer desavisado que o clima de descontração prevalece no ambiente. Um sorridente “Bom dia” seguido de um “Veio para o curso?” ou de um “Fique à vontade” é sempre pronunciado à chegada de um visitante, que sem demora é convidado a conhecer o processo de cada oficina, com direito a demonstrações e exposições orgulhosas dos objetos já prontos para venda. A rotina no Tear começa cedo. A cada dia, entre 50 e 60 pessoas frequentam o espaço na realização de diversas atividades. Às 7h da manhã alguns monitores já estão no local. Às 7h30 os participantes começam a chegar e se encaminham ao pequeno refeitório onde a sorridente Vera Muniz, responsável pelos serviços gerais, prepara o café da manhã. Leite, café, pão com manteiga e frutas. Mesmo quando eles insistem, Vera diz que não abre mão de respeitar a dieta dos usuários. “Nada de repetir o pão, você é diabética, sabe que não pode. A gente faz isso porque aqui a gente cuida de você, nem adianta insistir!”, diz Vera em um tom repreensivo, mas com doçura na voz.

“Mudou completamente” Quem conhece Simone Aparecida não pensa que a jovem de 27 anos com ares de menina foi uma adolescente calada, e que, rendida à timidez e às dificuldades de acompanhar as tarefas, acabou deixando de frequentar escola aos 12 anos. Simone diz que antes de ser encaminhada ao Projeto Tear por sua psicóloga passou muito tempo dentro de casa, afastada dos amigos, e que mesmo com a família falava muito pouco. Hoje, quem se interessa em conhecer a oficina de vitral do Tear tem o prazer de conversar com uma animada Simone. Ela explica passo a passo o trabalho que tem realizado e mostra alguns dos materiais que serão encaminhados para a loja. São bandejas, vasos, cinzeiros, petisqueiras e saboneteiras confeccionadas por ela e pelos colegas da oficina. Além de desenvolver sua habilidade artística, ela explica que foi no Tear que pela primeira ela

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vez teve coragem de participar de uma aula de teatro.

Oficinas Autosustentáveis

“Nós fazemos aqui saraus, teatro, dança. A gente canta também, samba, rap, vários tipos de música. Fizemos uma apresentação de teatro na Universidade de Guarulhos outro dia, coisa que eu não faria se fosse há alguns anos atrás.” Questionada se sentiu vergonha no dia da apresentação, ela confessa “Eu fiquei um pouquinho nervosa, mas deu tudo certo e eu gostei bastante.” Ao mesmo tempo, Simone passou a acompanhar também o curso de fotografia Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. A iniciativa é parte do “Programa Igual Diferente” com o qual o Tear mantém uma parceria.

Às 11H30 é servido o almoço, e pela tarde os usuários retornam a alguma das atividades propostas que variam conforme o dia. Às 16h é servido o café da tarde, e às 17h quase todos os artesãos já foram embora. Sebastião explica que os integrantes participam das oficinas de trabalho entre três e quatro vezes por semana. “Desse modo têm um ou dois dias livres para realizarem outras atividades, como cursos, participação em outros serviços de saúde mental e atividades de lazer” diz.

Dezenas de usuários de Guarulhos já foram alunos dos cursos de Desenho, Fotografia, Animação e Escultura oferecidos pelo MAM. Mostrando o que aprendeu, Simone fotografou alguns dos objetos que confeccionou em 2013. Ela é de autora de parte das fotografias que ilustram esta reportagem. Questionada sobre o que o Tear representa em sua vida, a artesã não hesita: “minha vida mudou completamente, agora me sinto muito melhor, converso mais com as pessoas, aqui sou bem tratada, tenho amigos e até conheci meu namorado”, conta a moça, que participa do

Atualmente são desenvolvidas no Tear sete oficinas de trabalho e geração de renda, que englobam, além da vertente artística, a profissionalização dos usuários, o resgate à autonomia e o incentivo à reinserção no mercado de trabalho formal. São elas: marcenaria, papel artesanal, mosaico, vitral, encadernação, serigrafia e tear & costura. O princípio de funcionamento das oficinas obedece a um critério de sustentabilidade econômica, como explica Sebastião. “Toda a sua matéria prima, manutenção e mesmo aquisição de ferramentas ou equipamentos é adquirida com recursos próprios da comercialização de seus produtos e serviços.” Mesmo que recebam doações eventuais, as oficinas devem buscar estabilidade na manutenção de sua existência. “Doações de matérias primas ou equipamentos em bom estado são sempre bem vindas, mas, como não se pode contar com isso, as oficinas precisam prever esse tipo de gasto em seus planejamentos”, pondera. Quando chegam ao espaço, os participantes passam pelo chamado “rodízio”. Durante as primeiras semanas, eles circulam pelas oficinas a fim de experimentá-las

e encontrar aquela com a qual se identificam. Para Samuel, que nunca havia feito qualquer tipo de artesanato, a dedicação foi muito importante para superar as dificuldades iniciais. “Eu superei minhas dificuldades mostrando meu trabalho, meu esforço. Hoje me sinto muito bem adaptado.” Com uma espécie de alicate próprio para cortar pastilhas e azulejos, ele molda uma pequena peça azul, que encaixa no centro de uma bandeira do Brasil em construção. Ele explica que, embora ainda leve bastante tempo, no Tear já começam a pensar nos produtos para venda durante a Copa do Mundo de 2014. “Ainda está longe, mas a gente pretende sim fazer mais produtos com a bandeira e as cores do Brasil.” O comentário de Samuel reflete uma política importante dentro do Tear: a participação dos usuários em todas as etapas do processo produtivo. Segundo a atual representante da coordenação do Projeto, Gláucia Pariz, eles são incentivados a participarem tanto no processo criativo quanto no processo de comercialização. “O protagonismo deve ser articulado em todas as etapas do trabalho: criação, produção e comercialização”, diz.

Tear há pouco mais de menos de um ano.

Inclusão pelo trabalho As práticas de inclusão social pelo trabalho têm se multiplicado nos últimos anos. No Brasil, um avanço im-

foto: Simone Aparecida

portante para a multiplicação destas técnicas se deu pela inclusão do Eixo “Reabilitação Psicossocial” no processo de consolidação das Redes de Atenção Psicossocial (RAPS). Através da parceria entre o Ministério da Saúde e a Secretaria Nacional de Economia Solidária (SNAES), desde 2011, a ação determina incentivos técnicos e financeiros a iniciativas de geração de trabalho e renda e a empreendimentos solidários. Para a psicóloga Regina Fiorati, docente do Curso de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo (USP), toda alternativa de inclusão pelo trabalho deve ser valorizada, uma vez que o trabalho ainda ocupa a centralidade na vida cotidiana do ser humano. “O trabalho atua como fonte de identidade, de inclusão comunitária, é objeto principal para o desenvolvimento dos laços sociais e inserção nas redes de suporte sociais. Pensar em um processo de ressignificação do cotidiano de uma pessoa que, por moti14

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vos de saúde, desenvolvimento vital ou social perdeu capacidades, não pode ser concebido sem inclusão no trabalho como valor social”, afirma. Dentro do Tear, o poder transformador do trabalho é visível no

Arte e Convívio

aspecto psicológico dos participantes, como expõe Sebastião. “A partir do momento em que deixam de ser consideradas improdutivas para serem valorizas pelo trabalho que realizam, as pessoas têm uma significativa melhora em sua autoestima. Somando isso ao convívio social de um modo de produção coletivo e à renda obtida por meios próprios, a pessoa passa reconhecer-se e ser reconhecida por seus familiares e pela sociedade como todo como alguém capaz, transformando assim seu lugar na sociedade” diz.

foto: Beatriz Almeida

Em 2013, o Projeto Tear promoveu, além das oficinas de trabalho, diversas ações socioculturais abertas não apenas à população que utiliza os serviços de saúde mental, mas também a todos os cidadãos de Guarulhos. Entre elas, uma oficina de teatro, saraus culturais, oficinas de confecção de instrumentos musicais, e cursos de técnicas de artesanais, como encadernação, patchwork, cartonagem, modelagem em vidro e xilogravura, estas últimas ministradas por artesãos credenciados pela Superintendência do Trabalho Artesanal nas Comunidades (SUTACO). Para Adriano Gregório Alves, um dos responsáveis pela oficina de confecção de instrumentos musicais, a aproximação com a arte é fundamental para a fortificação da expressividade de qualquer pessoa. “Quando uma pessoa está envolvida em algum seguimento da arte, seja ela teatro, poesia, música, ela está desenvolvendo o exercício de sua identidade, trabalhando suas subjetividades. E isso para o ser humano é fundamental. A gente tem cinco sentidos. Não podemos trabalhar apenas com o racional. Temos que trabalhar essas subjetividades que os sentidos nos propiciam. As sensações, as emoções.” Além de garantir variadas atividades internas, o Tear atua como mediador para participação dos usuários em atividades fora de Guarulhos. A atuação tem como objetivo incentivar a sociabilização dos usuários. “Além dos cursos de arte do Museu de Arte Moderna e da SUTACO, nós recomendamos a eles que façam cursos profissionalizantes e os incentivamos a participarem ativamente de todas as feiras que in-

tegramos” ressalta Sebastião. Passeios e festas também são organizados, e os momentos de entretenimento contribuem para a integração tanto entre os participantes das oficinas, quanto entre seus familiares e junto à comunidade como um todo. Regina Fiorati, docente do curso de Terapia Ocupacional da Univesidade de São Paulo- Campus Ribeirão Preto, defende a importância destes eventos conviviais e explica que o papel da família nesse processo é fundamental. “Sem a continência da família, o tratamento a pessoa em sofrimento psíquico não é viabilizado. Há estudos epidemiológicos que mostram como o prognóstico de pa-

cientes com esquizofrenia muda radicalmente frente à presença e intervenção familiar nos processos terapêuticos e nas etapas que tangem sua reinserção social”, explica. E quem ajuda a fazer o processo todo acontecer também reconhece os benefícios dessa convivência multifacetada. A riqueza de diferenças que convivem neste espaço, segundo Sebastião, é uma experiência transformadora para toda a equipe de trabalhadores. “E isso não é utópico, e sim a vivência concreta de um modo de relações pautadas pelo respeito e pelo coletivismo, onde as diferenças não são negadas, mas potencializadas enquanto diversidade” descreve.

Justo e Solidário diversas regiões de São Paulo, organizadas pela Rede de Saúde Mental e Economia Solidária (Rede Saúde ECOSOL). Durante os eventos, cooperativas sociais e demais aparelhos geração de renda e promoção à saúde mental se articulam para estimular o comércio e o consumo justo e solidário. O grupo também tem participação expressiva em Feiras realizadas dentro de eventos, como em setembro de 2013, quando estiveram presentes no I Forum de Saúde Mental e Direitos Humanos em São Paulo. Ao final dos três dias de evento, quase todos os objetos trazidos da loja já haviam sido vendidos. Recentemente, o Projeto Tear deu início ao processo de obtenção do S2 Selo Social, uma qualificação oferecida pelo coletivo Design Possível, que tem como intenção certificar empreendimentos econômicos solidários com base nos critérios “Comércio Justo”, “Igualdade de Gênero”, “Sustentabilidade e “Qualidade do Produto ou Serviço”. Para ser considerado justo e solidário, o empreendimento deve seguir algumas premissas, como explica Isadora Candian, Coordenadora de Projetos do coletivo e responsável pela parceria com o Tear. “O Comércio Justo é caracterizado por ser uma prática comercial diferente, pois prioriza valores como justiça social e solidariedade. Desta forma, o empreendimento pode comercializar um produto ou serviço dentro do comércio que visa não somente o lucro, mas também o desenvolvimento social das pessoas envolvidas em toda a cadeia de produtiva” define.

Quando saem das mãos dos artesãos, os objetos confeccionados possuem dois destinos: são colocados à venda na loja Tear ou em estandes ocupados por eles em feiras de economia solidária. Nas prateleiras da loja, o consumidor encontra uma linha de artesanatos totalmente desenvolvida com pilares eco sustentáveis. São cadernos, copos, tapetes, banquetas, eco-bags customizadas e vasos em cores e formas diversas. Os preços, acessíveis, consideram o equilíbrio entre o trabalho manual e o fator de responsabilidade ambiental utilizado. Denise Antunes, coordenadora do projeto, explica que a produção de artesanato sustentável com materiais reaproveitados tem sido uma das ações no Tear dentro de um processo amplo que vem contribuindo para a educação ambiental os participantes e também para agregar valor aos produtos comercializados. Para reafirmar esses princípios, em 2012 a loja passou por uma grande reforma. Todos os balcões foram reelaborados a partir de madeira de poda de árvores, fornecida por uma serralheria ecológica da Prefeitura de Guarulhos. Banquetas, vitrais e pastilhas decorativas produzidas nas oficinas adicionaram um toque artístico ao visual. “Apostamos tanto no design da nova loja, que parte da estrutura é fruto do trabalho dos participantes das oficinas. O resultado foi um novo visual, o que reafirma a capacidade produtiva e criativa dos participantes do Projeto Tear” enfatiza Denise. Já as feiras acontecem a cada dois ou três meses em 17


CAPS Diferente

Grupo de reciclagem Desde o seu surgimento, o Tear tem a preocupação de desenvolver conscientização ambiental. A aproximação com a sustentabilidade começou como uma das etapas da oficina de papel artesanal. Logo, a coleta seletiva dos materiais foi ampliada por toda a instituição através de diversas ações, dentre elas, a aquisição de cestos coletores de materiais recicláveis e a realização de palestras através da parceria com Centros de Educação Ambiental da Secretaria Municipal do Meio Ambiente. Para que os participantes entendam ainda melhor os processos de reciclagem, são organizadas visitas a algumas cooperativas da região. Em 2009, foi constituído o Grupo de Reciclagem, atualmente formado por doze usuários e dois funcionários do Projeto Tear. Vera, uma das funcionárias que integra o grupo res-

Em 2012, as vendas dos produtos da loja arrecadaram um total de R$48 mil reais. Do total, uma parte é destinada à manutenção da loja (incluindo taxas administrativas próprias do comércio), e o restante dividido entre os artesãos e a compra de materiais para as oficinas. Em relação à divisão entre os participantes, Gláucia explica que os critérios adotados procuram valorizar a produção coletiva, mas também o empenho individual de cada um. “60% do valor total é dividido proporcionalmente de acordo com as horas de trabalho de cada participante; os 40% restantes são divididos em partes iguais, desde que cada um tenha comparecido ao menos metade dos dias combinados naquele mês”. Assim, o ritmo de trabalho de cada um é respeitado, mas a presença é indispensável, em vez que o objetivo das oficinas é aproximá-los da realidade do mercado de trabalho tradicional, no qual a periodicidade lhes será exigida. Neres Cardeal, ex-funcionário do Projeto Tear, revela que nos oito anos em que foi monitor da oficina de marcenaria, viu muitos usuários saindo do Tear para integrar o mercado de trabalho formal. “Em meus oito anos de Tear vi muitos usuários saindo daqui para serem reinseridos no mercado de trabalho. Empresas do setor de marcenaria, por exemplo, já contrataram participantes daqui”, comenta. foto: Sidnei Barros

Dentro do Tear, não existem psiquiatras. Apenas um dos coordenadores é profissional da saúde, mas sua função interna não é destinada à medicalização. Contudo, a modalidade de trabalho desenvolvida pelo Tear encontra dificuldades para enquadrar-se no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES). Até o presente momento, o registro da equipe junto ao organismo é de Centro de Atenção Psicossocial tipo II, mesmo com as evidentes diferenças de funcionamento e composição do Tear em relação a um CAPS comum. A psicóloga Marina Nairismagi, gerente da RAPS do Centro de Guarulhos, explica que a contradição tem origem nas barreiras burocráticas que impedem a mudança do status jurídico do Projeto. “O Tear tem o cadastro de CAPS por não existir uma modalidade de cadastro no Ministério da Saúde para caracterização deste tipo de serviço. Outros municípios que contam com esse tipo de equipamento, de inclusão social por trabalho, cultura e convivência, também enfrentam

essa dificuldade e encontram outras formas para superar esse problema.” Nem mesmo o funcionamento do Projeto Tear, baseado nos moldes do cooperativismo social ao favorecer a cooperação, autogestão e inclusão dos usuários facilita a mudança no registro. Leonardo Pinho, membro da Rede de Saúde Mental e Economia Solidária, explica que a ausência de regulamentação na lei que dispõe sobre a criação de Cooperativas Sociais dificulta o reconhecimento de iniciativas de geração de renda como o Tear. Assim, elas acabam ficando legalmente fragilizadas. “Sem a regulamentação, a aplicabilidade do Cooperativismo Social fica prejudicada. Apesar de várias tratativas, resoluções de conferências, reuniões e seminários nacionais e internacionais que já realizamos ainda não se construir uma política pública de incentivo, apoio e fomento ao cooperativismo social”, explica. Uma vez que ainda reside na categoria de serviço público, o Projeto Tear não pode gerir os recursos financeiros vindos das oficinas de trabalho. A solução encontrada, explica Sebastião, é a de vincular essas responsabilidades à Associação Inclui mais, parceira do Tear no que diz respeito a essas questões finan-

salta a importância dessas dentro do

ceiras. “A parceria com a Associação Inclui Mais se faz necessária para a abertura de conta corrente bancária para as oficinas, para a emissão de notas fiscais, para a formalização de parcerias com o setor privado” diz. Apesar de o Projeto Tear ter colaborado ativamente para inclusão de centenas de pessoas, afirmando-se, não somente em nível municipal, mas também estadual e nacional, como um dispositivo eficaz de inclusão social pelo trabalho, os principais desafios para a extensão deste tipo de iniciativa, como analisa o supervisor de Projetos, ainda moram em obstáculos políticos. “Apesar de nossa contribuição, ainda precisamos de reconhecimento e financiamento enquanto mecanismo de inclusão social, uma vez que ainda não existe uma portaria nacional que financie cotidianamente esse tipo de ação”, considera. Gláucia reata a contribuição do Tear como incentivo para a criação de novos serviços semelhantes, e, nesse sentido, aproveita para estipular uma perspectiva. “Talvez, no futuro, possamos denominar trabalhos como o Projeto Tear não como um exercício do tratamento, mas como a porta de saída dos usuários da Rede de Atenção Psicossocial”, conclui.

processo produtivo das oficinas. “Uma vez por semana ao fim da feira livre que acontece em frente ao Tear,

Para saber mais: Contatos: Denise Antunes, Sebastião Lopes e Gláucia Pariz Site: www.projetotear.org.br Telefone: 11 – 24092200 Funcionamento de Loja do Tear De segunda à sexta-feira das 9h às 17h Rua Silvestre Vasconcelos Calmon, 92, Vila Moreira - Guarulhos

os usuários coletam folhas de verduras impróprias para o consumo, que são doadas pelos feirantes ou recolhidas do piso. Essas folhas são utilizadas na confecção do papel, mas o fato de eles irem fortalece a relação deles com aquilo que eles produzem”, diz. Ao final do processo, as fibras de folhas secas garantem cor e texturas do material, e além de agregar valor estético ao produto, transparecendo seu caráter ecológico e sustentável. 19


evolução das políticas públicas na área, a importância da aproximação da economia solidária com a saúde mental e a motivação pessoal. “Para mim, a maior motivação é poder olhar nos olhos dos trabalhadores que constroem em seu dia a dia esses empreendimentos solidários e ver brilhar”. NISE: Em que consiste a Rede de Saúde Mental e Economia Solidária?

Coopera +

Pelo

foto: Beatriz Almeida

Direito

Universal ao TRABALHO A Reforma Psiquiátrica e a Luta Antimanicomial propiciaram, nas últimas décadas, uma grande mudança de paradigma em relação à assistência em Saúde Mental no Brasil. Na medida em que o sistema asilar é substituído, surge a necessidade de criar métodos de inclusão capazes de resgatar as trocas sociais e a cidadania perdidas nessas pessoas. Na tentativa de suprir essa demanda, algumas estratégias de geração de renda e trabalho têm sido postas em prática, muitas delas dentro das próprias estruturas dos serviços de promoção à saúde mental, como os CAPS e os Centros de Convivência. Desde 2003 o Projeto Tear trabalha suas de oficinas de geração de renda em aproximação com o campo de economia solidária. Quando chegam ao Projeto, os usuários do sistema de saúde mental de Guarulhos são inseridos em um contexto de produção diferente do tradicional, em que as trocas de experiências e as características individuais são valorizadas. Seguindo os princípios de cooperação, solidariedade e autogestão dos trabalhadores, as práticas contribuem diretamente para a reinserção dos usuários no mercado tradicional. Surgida na Grã-Bretanha e na França no século 19 como forma de reação aos miseráveis salários pagos aos operários, a economia solidária solidificou20

se através de cooperativas criadas e administradas pelos próprios trabalhadores. Hoje, associada a uma modalidade de cooperativismo que prioriza a responsabilidade social (Cooperativismo Social), a economia solidária reabre caminhos para centenas de pessoas, muitas vezes já acostumadas a verem portas se fechando. No centro destas atividades estão os coletivos ligados à área da saúde mental, formados por usuários, trabalhadores, técnicos e militantes. Juntos, eles têm auxiliado na construção de novas unidades produtivas capazes de gerar cidadania e renda, sem, contudo, exigir a padronização dos participantes. Convidamos Leonardo Penafiel Pinho, coordenador do Setor Cooperativismo Social da Central de Cooperativas “UNISOL Brasil” e membro da direção executiva da Rede de Saúde Mental e Economia Solidária para expor os desafios e os incentivos dados à estas experiências de geração de renda junto ao público da saúde mental. Entre os pontos comentados a

Leonardo Pinho: A Rede é um coletivo de organizações da sociedade civil, de empreendimentos econômicos e solidários e projetos de geração de trabalho e renda organizados por usuários, técnicos e familiares dos serviços substitutivos da rede de saúde mental de São Paulo. Eu, que trabalhava com Cooperativismo Social, fui chamado para trabalhar com esse público e desde então temos realizados diversas ações. N: Quantos projetos ligados ao cooperativismo social e à promoção da saúde mental existem atualmente no Estado de São Paulo? LP: Para escrever um projeto para a Secretaria Nacional de ECOSOL – Ministério do Trabalho e Emprego no ano passado e tivemos que solicitar declarações dos projetos e empreendimentos solidários de nossa Rede Estadual. Nesse momento, tivemos a declaração de 180 empreendimentos em 27 municípios. No entanto, alguns empreendimentos entraram posteriormente em nossa REDE. Assim trabalhamos atualmente com o número de 200 empreendimentos que envolvem por volta de 2000 trabalhadoras e trabalhadores. N: Existe uma legislação que protege essas iniciativas? LP: Infelizmente no Brasil a Lei foi aprovada com uma série de vetos promovido na gestão Fernando Henrique Cardoso, inviabilizando diversos pontos que eram fundamentais para beneficiar essas coo-

foto: Arquivo do entrevistado

perativas. Além desses vetos, a Lei também não foi regulamentada, o que na prática, dificulta e muito sua aplicabilidade. Uma porcentagem muito importante dos usuários recebe algum tipo de benefício social ou previdenciário do governo pela condição de vulnerabilidade em que se encontram. Na configuração atual da lei, os membros de uma cooperativa devem estar isentos de qualquer benefício. Porém, no caso deles é praticamente impossível excluir o ônus, que muitas vezes, no início, é o que garante o sustento deles. Com todas essas restrições é muito difícil se formalizar como cooperativas, a alternativa encontrada é a organização de associações, para poder minimamente estar formalizado, abrir conta bancária, participar de editais e licitações e emitir notas fiscais. N: O que tem sido proposto como alternativas de inclusão de usuários de do sistema de saúde nos últimos anos, no âmbito das políticas públicas? LP: No âmbito das políticas públicas, acredito que as iniciativas do governo sejam muito tímidas, já que não existe uma política nacional de apoio, incentivo e financiamento aos nossos projetos e empreendimentos. Sempre brinco que não queremos nenhum tratamento 21

especial nas políticas públicas, queremos apenas, o que já consta nos benefícios e incentivos, como por exemplo, os incentivos para micro e pequenas empresas, que tem acesso a crédito, benefícios em processos licitatórios e políticas de facilitação contra a burocracia e as cargas tributárias. Olha um absurdo, hoje no Brasil é mais caro montar e manter uma cooperativa social do que uma pequena e média empresa.

“Trabalho é todo o dispêndio da força criativa e produtiva dos seres humanos e todas essas ações produzem valor.” N: A inclusão dos programas de cooperativismo social no processo de formação das RAPS representou um avanço nas reivindicações de vocês? LP: Sim, gostaria inclusive de evidenciar que existem sim alguns avanços nas políticas públicas, apesar de ainda tímidos, como falei. O Ministério da Saúde, através da Coordenação Nacional de Saúde Mental, colocou realmente no processo


de consolidação das RAPS o eixo de Reabilitação Psicossocial, que tem como estratégia a organização de empreendimentos solidários e cooperativas sociais. Eles têm ampliado também os editais para apoio e financiamento das oficinas e projetos de inclusão social pelo trabalho. A Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego que em todos os seus editais tem colocado a possibilidade de inclusão do público da saúde mental.

quanto eles dizem “Você não é capaz”, “Na minha empresa não é possível você estar”, nós ao contrário, falamos e fazemos alternativas que são inclusivas, que olham para essas pessoas e afirmam e mostra que ela é capaz de produzir e de criar, de fazer fluxos econômicos diferenciados. N: Pessoalmente, o que te motiva a seguir desenvolvendo este trabalho? LP: Para mim, a maior motivação é poder olhar nos olhos das trabalhadoras (ES) que constroem em seu dia a dia esses empreendimentos solidários e ver brilhar. De ver que as trabalhadoras (ES) sentem com essas experiências, que seu destino, sua história esta em suas mãos. A Economia Solidária é uma escola de formação de novos sujeitos históricos, que sabem que podem com seu trabalho, com a autogestão entre os trabalhadores construir uma Nova Sociedade mais justa, inclusiva, igualitária e solidária.

N: Além de oficinas de trabalho que outra estratégia de inclusão social para pessoas em estado de sofrimento psíquico você julga eficaz e importante? LP: Eu não separo oficinas de trabalho e cultura, pois para mim trabalho, é todo o dispêndio da força criativa e produtiva dos seres humanos e todas essas ações produzem valor. Não valor reduzido a sua representação monetária, mas sim, um Valor – Afeto. Um Valor que cria, reproduz, expressa a potência criativa e produtiva das pessoas, um valor que cria sim, fluxos econômicos diferenciados, mas também, que cria símbolos, signos e novas subjetividades. Isso, sim é instrumento eficaz de reabilitação, ressocialização das pessoas.

N: E em contrapartida, qual o desafio de trabalhar o cooperativismo com populações vulneráveis, como os usuários do sistema de saúde mental? LP: O grande desafio por incrível que pareça não é com o público, com os usuários, que por sinal, me dão lições de vida e de potência criativa e produtiva, mas sim, com as dificuldades, barreiras burocráticas, com a ausência de incentivo, de financiamento, de crédito aos nossos empreendimentos. Enfim, com a ausência de políticas públicas.

N: Como você avalia as críticas que colocam este tipo de atividade econômica como inviável no atual configuração dos meios de produção? LP: Não somos ingênuos de achar que apenas organizados empreendimentos econômicos solidários vamos transformar estruturalmente a sociedade capitalista, mas achamos que a experiência da autogestão dos trabalhadores é uma escola para formar as pessoas, que é possível construir uma Nova Sociedade. Na saúde mental, através da construção desses projetos e empreendimentos (com todas as adversidades e falta de fomento e investimento), nós estamos construindo uma alternativa para essas pessoas, que não sejam os NÃOS seguidos, que estas pessoas recebem do mercado. En-

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Humaniza +

foto: Coletivo Tupinagô

Habitar (n)a Um hotel

loucura reunir-se com uma equipe de artistas, atores e educadores populares. O compartilhamento de experiências e interesses daria origem a um hotel, uma Universidade e um congresso anual. Quase dois anos mais tarde, incumbida da realização do primeiro Congresso de Educação Popular em Saúde, a equipe de agentes populares em saúde reformou e ocupou o terceiro piso de um dos edifícios do Instituto Municipal Nise da Silveira, espaço até então desativado. Viram no coração do hospício uma possibilidade não apenas de fornecer abrigo aos artistas que trabalhariam ali durante as três semanas do evento, mas de oferecer aos pacientes novas formas de interação e convívio. “Queríamos trabalhar a saúde com mais vida. A ciência com mais cultura, tudo no mesmo espaço. A cura viria pela convivência, e não pelo isolamento” conta Vitor. Abriram-se as portas e pintaram-se os muros. “Atenção! Espaço em processo de especulação imaginativa”, avisa a intervenção artística em uma das faces do hotel. Outra, convidativa, diz ao visitante que “chegue mais”. Cortinas de flores e símbolos ancestrais, de cura e crenças populares dão o toque final à decoração. Iemanjá, Baruch Spinoza, Nise da Silveira e Amir Haddad nos saludam desde as paredes azuis e amarelas. Qualquer hóspede é bem vindo. “O hotel é do SUS e é gratuito. A única contrapartida é devolver trabalho criativo. Não copiar, criar ”, ressalta Vitor.

onde não é preciso pagar para conseguir uma reserva. Onde não existe serviço de quarto. Nem se quer há estrelas, exceto por algumas gravuras do corredor. Ao invés de vista para o mar, os hóspedes tem a possibilidade de circular por um típico subúrbio. E um detalhe em particular chama a atenção: aqui, todos os clientes são loucos. O que provavelmente assustaria qualquer turista interessado em desfrutar do agito das belas praias cariocas descreve bem o chamado Hotel da Loucura, espaço situado dentro de um tradicional hospital psiquiátrico da zona norte carioca, no bairro Engenho de Dentro. Desde 2011, o hotel recebe artistas, atores, poetas, jornalistas e pesquisadores interessados, de alguma forma, na loucura e na potencialidade da arte como forma de cura. A ideia de criar um espaço de convivência, cura e arte surgiu com o médico e ator Vitor Pordeus, de espiritualidade tão emblemática quanto o sobrenome que carrega – segundo ele, inventado por seus antepassados no sertão da Paraíba. Aos trinta e poucos anos, formado em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e com considerável experiência em pesquisas na área de imunologia, decidiu por trocar o laboratório clínico por outro, com o qual já dialogava há tempos: o teatro. Em 2009, convocado pela Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro a integrar o Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde da cidade, Vitor teve a oportunidade de 23


Ilustres Clientes

Território de muitos

foto: Coletivo Tupinagô

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Na ocasião do Congresso de Educação Popular em Saúde, foi decidido que o hotel se transformaria na sede da Universidade Popular de Arte e Ciência – UPAC. Trata-se de movimento político, artístico e cultural surgido no cerne das atividades e pesquisas em Educação Popular e Saúde (EPS), ação que tem como princípios a construção coletiva de saberes e a abertura de diálogo através da troca de experiências e círculos de cultura. Desde então, o hotel recebe cerca de 100 visitantes semanais e tornou-se núcleo de atividades para outros seis coletivos do Rio de Janeiro, entre grupos de teatro e dança, expositores de artes visuais e de poesia. Enquanto trabalham, não há distinção entre artista e pacientes. Na ciranda, nas arenas, nas praças públicas e nos espetáculos, todos são atores. Despidos de preconceitos, as ��nicas máscaras permitidas são as dos personagens que encenam. Não há palco, a atuação é linear. Como referências, contam com Amir Haddad, William Shakespeare, Jacob Levy Moreno, e outros mestres do teatro baseado no imaginário e na ancestralidade. Em resumo, neste hotel, o teatro atua como a vacina contra a loucura, e mais do que isso, contra a tristeza. A resposta a estas práticas, segundo Vitor, é visível no desempenho dos pacientes. “Eles estão ali livres do ego, da vaidade, da competição. Estão ali muitas vezes em fluxos diretos com a emoção e nós estamos ali para ajudar esse processo a se formar, ajudar dramatizar essas emoções, oferecer ferramentas expressivas. E isso funciona muito bem”, ressalta.

Assim como Nise da Silveira, os funcionários do Hotel da Loucura referem-se aos doentes como clientes. As portas são abertas a todos os eles: internos e externos. O cliente interno que deseja participar das atividades do hotel deve estar enquadrado em uma política do Instituto chamada de “pátio aberto”. A modalidade permite ao paciente circular pelas instalações externas do hospital – uma espécie de bosque - e integrar atividades terapêuticas ali praticadas. Segundo Amauri de Souza, agente cultural de saúde e funcionário do hotel, muitos internos passam o dia caminhando por esta zona exterior, mas na ausência de orientação para desenvolver atividades, tendem ao ócio. “Como eles não tem nenhuma atividade proposta neste pátio livre, nós convidamos eles a estarem conosco em festas, danças, músicas, exibições de filmes, cinema, teatro, e, principalmente, tentamos criar um canal de diálogo”, explica. São considerados clientes externos antigos pacientes ou usuários do sistema de saúde mental recuperados. É o caso do escritor e poeta Milton Freire, um dos percursores da luta antimanicomial e autor do primeiro manifesto sobre a condição dos internos de manicômios, publicado em 1977 pelo Jornal do Brasil, no qual chegou a trabalhar como jornalista colaborador. Internado aos 15 anos de idade, foi submetido a sequências eletrochoques e choques insulínicos até a década de 60, quando diz ter alcançado a cura graças à escrita. Escreveu e colaborou com dezenas de livros, ensaios e coletâneas. Milton faz questão de destacar a importância destes espaços de invenção psicossocial. “Toda minha luta, a

luta do movimento antimanicomial, foi pelos direitos dos usuários e contra as condições às quais éramos submetidos. O que vejo nisso aqui é um espaço de invenção psicossocial, capaz de quebrar com aquela estrutura organicista e medicamentosa”, considera. “Aquela visão biologista e mercantilista não pode mais ser vista como a única opção” acrescenta, com a voz firme.

Sociedade Manicomial Dentro do mesmo Instituto, e a poucos metros de onde o teatro acontece, três enfermarias psiquiátricas persistem em regime fechado, ainda que, nos últimos anos, o número de leitos no âmbito geral tenha diminuído consideravelmente. Nestas instalações, pacientes em fase aguda de suas doenças recebem o tratamento psiquiátrico indicado para conter a agressividade. Durante este processo, são privados de liberdade e até mesmo os passeios pelos jardins do hospital são vetados. São de certa forma, submetidos a uma política bastante próxima aos moldes manicomiais. Se para muitos o fato de uma ação psicossocial de natureza artística funcionar dentro de um hospício e conviver com sua fria realidade interna pode parecer contraditório, para Vitor, isto se explica pelo contexto social ao qual estamos inseridos. “Quando você pensa que ninguém pode desviar de nada, se não já recebe uma camisa de força química, uma punição, isso é uma coisa muito grave da nossa sociedade. A nossa sociedade é uma sociedade manicomial”. Apesar da complexidade das ações promovidas pelo hotel da Loucura, Vitor enxerga simplicidade em suas ações. “Não tem segredo, não é novidade e não tem dificuldade nenhuma. A dificuldade é política” Apoio político, inclusive, é uma das principais lutas travadas pelos percursores do hotel. Embora pertença ao Núcleo de Cultura e Ciência e receba apoio da Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro, o incentivo adquirido ainda é escasso. “Existe uma luta complexa dentro da própria Secretaria, quando disputamos apoio com um projeto deste grau de complexidade em comparação com os programas didáticos prescritivos do governo”, constata. Em 2013, o espetáculo “DioNise-se, Apoline-se, Curese” se apresentou sob as luzes do teatro Cacilda Becker no bairro Catete, do Rio de Janeiro. Em uma grande festa, artistas loucos e loucos artistas estiveram capturados pelo riso, pela arte e pela cultura, deleitaram a vida através da arte. A quem interessar, as portas continuam abertas. “Chegue mais”, dizem as paredes, como sempre. 25


Espaço de SonhAção

+ ação

foto: Allyson Silvério

POSSÍVEL

OUTRO CUIDAR De mãos dadas

em uma grande roda, eles cantam, dançam, poetizam-se, curam-se. Discutem política, criam estratégias, escutam e compartilham vivências. Por praças públicas e passando por eventos de cunho acadêmico e político, os educadores populares compartilham ideias e se articulam em todos os Estados do Brasil. São poetas, atores, violeiros, cantores. Professores, jornalistas, atores, desempregados e militantes que, mapeados por ideais comuns, integram uma rede de experiências caracterizadas pelo uso da educação popular como forma de promoção à saúde e ao bem-estar. Entre os princípios norteadores destas práticas estão o respeito aos saberes dos participantes, a construção coletiva do conhecimento, o poder da crítica, a promoção ao diálogo através de rodas de conversa e círculos de cultura e o compromisso com um projeto de saúde democrático e popular. Aos 66 anos, Luzia Aparecida não nega o fato de ter pouco tempo disponível. Culpa da agenda, segundo ela “muito lotada para uma pessoa aposentada, ainda que com muitas lutas nesta terra”, confessa. Lutas estas que se tornam evidentes quando ela enumera sua atuação junto a movimentos populares. Iniciando sua trajetória no Movimento Alfabetização de Jovens e Adultos (MOVA) – ocasião na qual pode conhecer as ferramentas pedagógicas do educador Paulo Freire – Luzia logo passou a integrar o Grupo de Mulheres da região de Taboão da Serra e a contribuir com o Movimento Negro. Hoje é força ativa no Movimento Popular de Saúde (MOPS) e na

Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular em Saúde (ANEPS). Apesar da falta de tempo, ela não esconde a motivação. “Participar da ANEPS é amorosidade. Este é o foco de quem está nessa militância. É o de quem acredita que outro mundo já existe e é possível”, explica. Entre as ações realizadas pela ANEPS figuram a participação em Fóruns Nacionais e Internacionais, práticas de intervenções em ambientes públicos e a criação de espaços de discussão. Embora o movimento seja numeroso, Luzia pondera que a falta de apoio financeiro é uma dificuldade difícil de contornar. Como principal recurso, ela destaca o compromisso individual de cada um, segundo ela, capaz de formar um espírito coletivo. “O recurso é compromisso, é acreditar e fazer com o coração. Isso muitas vezes implica em colocar do bolso pelo que acreditamos”, revela. O compromisso da militância com a bandeira da EPS foi definitivo para que surgissem novas políticas públicas de suporte às ações desenvolvidas. Em 19 de novembro de 2013, o Ministério da Saúde instituiu a Política Nacional de Educação Popular em Saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde. A PNEP-SUS tem como diretrizes a implantação da Educação Popular em Saúde nas instituições em atividades pertencentes ao SUS e o incentivo ao intercâmbio entre o saber popular e o técnico-científico, favorecendo assim a atuação dos movimentos sociais populares. 26

Compartilhada por diversos movimentos de Educação Popular e Saúde, a Tenda Paulo Freire é um exemplo das ações da ANEPS e seus parceiros, e aparece com frequência em congressos, conferências e encontros acadêmicos direcionados às temáticas da saúde. Com caráter receptivo a qualquer interessado, a Tenda é, além de um espaço de encontro, um convite à exploração de diversidades, à prática e recebimento de cuidado e à construção do saber mútuo. Membro do GT da Abrasco, a professora Waldenez Oliveira, da Universidade Federal de São Carlos, enxerga a tenda como um espaço de múltiplas possibilidades. “É a diversidade cultural, presente, é o espaço de livre expressão, de trocas, das pessoas se tocarem espiritualmente, também do nível cognitivo e de conhecimento. É um espaço de encontro e também de construção de for-

mas de resistências culturais e de vida”, define, em depoimento ao blog Extensão Popular. Objetos de arte e símbolos da cultura popular preenchem o círculo onde 5 linhas de atividades acontecem ao mesmo tempo: Cuidado & Terapia, Arte, Cultura & Saúde, Rodas de Conversa & Discussão Política, Exposições e, não menos importante, um cantinho para alguns minutos de descanso. Mesmo compequenas adaptações que se dão de acordo com o evento ao qual se insere, a existência das tendas se mantém fiel às bases elementares da EPS, atraindo leigos e curiosos com sua originalidade de cenário e de atores.

Universidade do Saber Popular A poucos quilômetros de Luzia, e com expoentes em todo o país, outro importante eixo de Educação Popular em Saúde se desenvolve e atrai cada vez mais integrantes. A Universidade Popular de Arte e Cultura, assim batizada por seus fundadores, é, atualmente, um dos principais eixos de convergência cultural e científica em atividade no Brasil. Seu surgimento, com raízes no Núcleo de Cultura Ciência e Saúde da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, teve como principal liderança o médico e ator Vitor Pordeus, também fundador do Hotel da Loucura, cujo vanguardismo foi fundamental para que a UPAC ganhasse dimensões claras. Participam da UPAC diversas lideranças comunitárias, coletivos de artistas e organizações do Tercei27

ro Setor, que foram, segundo a atriz Thamara Fernandes, atraídos naturalmente pela valorização efetiva do conhecimento popular. “Rede não se cria, se mapeia. A partir de uma necessidade, pessoas e serviços que desenvolvem práticas comuns se articulam e passam a manter vínculo”, diz. Em determinado momento, Thamara viu-se deixando o emprego para acompanhar de perto as atividades da Educação Popular em Saúde e tornou-se secretária-geral voluntária da UPAC. Com residência em São Paulo, é a responsável pela mediação entre as atividades nacionais e a sede da Universidade, localizada no Rio de Janeiro. Para ela, a UPAC é uma as poucas organizações capazes de enxergar o potencial vigente na sabedoria do povo, razão à qual atribuiu o grande número de


interessados no trabalho que realizam. “O ideal que manteve a progressiva expansão desta rede foi a valorização efetiva dos saberes tradicionais populares” diz. Partindo desta premissa, Thamara indica que a rede tem alcançado resultados relevantes tanto quanto à promoção da saúde quanto à modificação social. “Por desconsiderarmos nossas forças culturais, acabamos adoecendo “da alma” e enfraquecemos socialmente”, afirma. Por meio do teatro comunitário, da educação patrimonial, de círculos de cultura, rodas de conversa, espetáculos-oficinas, saraus e intervenções artísticas, a UPAC abre espaço a quem queira manifestar-se, sem qualquer distinção de origem. “Em todos os eventos, nós abrimos espaço e tempo a toda e qualquer pessoa para expressar sua arte, seu conhecimento, ou simplesmente sua existência, do jeito que bem entende e deseja”, ressalta Thamara. A atuação conjunta e colaborativa de dezenas de pessoas e coletivos no Brasil e em outros 4 países faz da UPAC um movimento político com princípios horizontais. Sua arti-

culação pelo direito de inclusão busca, segundo a representante paulista, reverter a lógica de opressão a qual determinados grupos sociais são condicionados. “Tudo aquilo que a sociedade tem medo, pois através da arte nós buscamos quebrar correntes, eliminar cativeiros e nos espalhamos na vida cotidiana de quem se envolve”, resume. Tanto a UPAC quando a ANEPS e seus parceiros agem sob um projeto de natureza popular que considera a saúde um direito social. Sob este pilar, esta colmeia de movimentos vem atribuindo visibilidade às práticas populares de saúde, promovendo a troca entre elas e criando, cada vez mais, espaços de interlocução com o poder público, a

partir da perspectiva de incorporação de mais ações ao SUS. Desta forma, acreditam estar contribuindo para uma transformação no modo atual modo de atenção à saúde. Se para Luzia “é possível um cuidar diferente”, Thamara acrescenta que a tática de cura que buscamos deve ir além de corpo e de mente. “Estamos socialmente carentes de boas paixões. Resgatar o valor disso e oferecer espaço para acontecer e fazer disso a sua política é a grande sacada para promover a nossa cura.” Questionada sobre qual cura era esta, ela afirma com categoria. “A cura social. É deste tipo de saúde que estamos falando.” finaliza.

foto: João Aranha

Expressa +

A VOZ DOS

EXCLUÍDOS Mostrar a realidade

vivida por pessoas pouco privilegiadas socialmente nunca foi, de fato, tema central dos veículos de comunicação de grande circulação. Sem-terra, sem-teto, sem-educação e claro, sem-saúde, esta parcela majoritária da população raramente protagoniza manchetes, salvo em casos de calamidade cotidianas, quando seus integrantes são, muitas vezes, relatados como vítimas de sua própria situação. Insatisfeito com o que lia e acompanhava em mídias tradicionais, o paulista Marcelo Melinsky deixou de lado o estereótipo de improdutivo e resolveu integrar as vozes que desde 2005 se manifestam em um canal de comunicação totalmente produzido e destinado a usuários, trabalhadores e usuários da rede de saúde mental da região do ABC paulista. Iniciado em 2004, o jornal Vozes da Saúde Mental é resultado da iniciativa de participantes da Associação José Martins de Araújo Júnior, uma organização não governamental (ONG) fundada em 1992 que tem como principal objetivo a luta pelos direitos dos usuários da Saúde Mental e vem realizando, desde sua fundação, ações e práticas de inclusões sociais à pessoas acometi28

das com transtornos psíquicos. Marcelo, que ocupa a função de repórter no jornal, relata que o objetivo do Vozes é divulgar informações verídicas e úteis sobre a Saúde Mental, baseando-se em fontes idôneas, e dando voz aos próprios usuários, “Coisa que a maioria nunca pode fazer porque esteve trancando em um manicômio, ou fechado dentro de casa” explica. Desde sua criação o Jornal Vozes já distribuiu mais de 200 mil jornais entre suas edições bimestrais e segundo participantes voluntários, já auxiliou muitas pessoas a entenderem o que é o sofrimento psíquico, como obter tratamento e o que tem sido feito para alcançar melhorias no campo de atenção psicossocial. A tiragem atual, de cerca de 20 mil exemplares, atende toda a região de Santo André, além de circular também pela Universidade Metodista, com a qual o Vozes mantém a parceria responsável pela capacitação dos repórteres e fotógrafos. Segundo ensaio de Margarete Pedro, professora da Universidade Metodista de São Paulo, responsável pela cooperação da Universidade com o jornal, a colaboração começou em 2005, quando a proposta do jornal foi apre29


sentada pela ONG. Desde então, são realizadas oficinas de jornalismo impresso para os interessados em participar, ministradas por professores e alunos do Núcleo de Jornalismo Social da Universidade. “Entre os temas tratados nas oficinas estão a análise crítica da mídia, a produção de jornal impresso, conceitos básicos de diagramação e orientação fotográfica”, descreve no texto publicado na página do Núcleo de Jornalismo Social da Universidade. Para o repórter, além de render uma atividade profissional, participar do Vozes garante aos seus colabores uma série de experiências enriquecedoras. “Graças ao jornal eu tenho rodado o Brasil inteiro, viajado bastante, fazendo coberturas, conhecendo pessoas” conta. Em resumo, experiências que lhe seriam impraticáveis anos atrás, quando esteve internado em um manicômio. Ele revela que interesse pela escrita começou com a poesia, e que eventualmente colabora também com a coluna cultural do jornal. Enquanto escreve, Marcelo acredita estar imerso na melhor terapia possível. “Se não fosse por isso eu nem aqui estaria, conversando, falando com as pessoas”, releva. Além da tiragem bimestral, o jornal possui uma fanpage na rede social Facebook com atualizações semanais e mais de 90 álbuns de coberturas fotográficas de eventos conectados à temática editorial que seguem e à Associação da qual fazem parte.

foto: João Aranha

No Ar: TV Pinel Com uma proposta semelhante àqCom uma proposta semelhante àquela do jornal Vozes da Saúde Mental, o Instituto Municipal Philippe Pinel, no Rio de Janeiro, mantém em atividade uma equipe de 15 pessoas, entre pacientes psiquiátricos, produtores e técnicos de televisão, com o intuito de estimular o potencial expressivo dos usuários do sistema de saúde mental do município. De maneira bem-humorada, a grade da TV Pinel funciona como um espaço de expressão para eles, um momento em que podem demonstrar seus potenciais e suas opiniões. Como objetivo central da TV, Noale Toja, coordenadora de produção, ressalta o desenvolvimento de atividades de capacitação e a criação de conteúdo a partir de visões múltiplas. “Oferecemos aos usuários e técnicos dos serviços de saúde mental uma formação através de oficinas de técnicas e elementos da linguagem” explica. Mesmo em meio ao clima descontraído da produção, Noale faz questão de ressaltar a importância de atribuir uma visão profissional às atividades, segundo ela, fundamental para que os participantes delimitem metas e superem desafios. “Entre nossas 30

propostas de trabalho está a participação em eventos e a exibição de vídeos em festivais” explana. A dedicação e a competência da equipe já renderam ao espaço de criação diversas premiações, inclusive internacionais. O projeto já foi contemplado na premiação francesa Festival de 1 Minuto, no Festival Internacional do Making Off e no Tokyo Video Festival, além de ter sido tema de inúmeras monografias e teses de mestrado e doutorado desde seu surgimento, em 1996. Naquele ano, as diretrizes implantadas pela Reforma Psiquiátrica Brasileira acabaram por substituir o status do Philippe Pinel de Hospital para Instituto. A mudança possibilitou a uma das psicólogas do hospital, Doralice Araújo, de por em prática uma ideia que, em pouco tempo, saiu do papel e transformou-se em luz, câmera e ação. Para alinhar-se às reformas do sistema de atenção à saúde mental, o Instituto buscava estratégias de inclusão social, que destinariam aos pacientes egressos. Inspirada em uma experiência bem sucedida de uma cooperativa social italiana, a psicóloga, que também era fotógrafa, juntou-se a al-

guns colegas e formou um grupo para dar aulas aos usuários. Em pouco tempo o projeto ganhou visibilidade, e logo depois da compra da primeira ilha de edição, Doralice e os companheiros da Pinel passaram a ser presença constante em eventos tanto da área de saúde, como do próprio cenário audiovisual. Atualmente, a TV Pinel conta com nove bolsistas, todos frequentadores dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) do município do Rio de Janeiro. Com ajuda de alguns técnicos e produtores de TV, Noale descreve que eles auxiliam e desenvolvem boa parte da programação. “Eles aprendem a parte técnica, câmera, áudio, produção e edição, e acompanham as produções da TV”. Ela explica ainda que o alcance da TV vai além dos bolsistas que integram a equipe. “Além dos nove bolsistas, temos outros usuários de outros serviços onde fazemos oficinas. No total, devemos atender umas sessenta pessoas por ano”, diz. Entre os temas elencados pela programação, a temática da saúde mental é presente, mas não limitante. “Tentamos fugir do tema saúde mental e falar vida, mas é saúde mental é uma questão forte para as pessoas que se tratam e eles acabam se rendendo a essa temática” comenta Noale. Programas de entrevista, clipes musicais e curtas-metragens de gênero cômico completam a grade, e os créditos de cada publicação variam a cada semana. “Nossa programação é bem livre, todos tem participação nas reuniões, os usuários dão ideias e a partir da capacitação técnica fazem seus roteiros, produzem, atuam como técnicos em cada produção e costumam se ajudar também como atores”, explica. O espaço comunitário produz conteúdo semanalmente e todos os vídeos são veiculados no blog da TV. Com uma proposta participativa, a TV Pinel está aberta para participação do público e convida todos a colaborar com o envio de novas ideias e sugestões. www.tvpinel2011.blogspot.com

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+ Cultura

foto: divulgação

+ Cinema

A igualdade é branca Krysztof Kiéslowski (Polônia, 1994) A

pelas ruas de Paris, até conseguir retornar à Polônia ilegalmente com ajuda de um compatriota. De volta à Polônia, Karol Karol acaba se tornando segurança particular de um mafioso local e, em pouco tempo, consegue fazer fortuna após trapacear com o chefe e investir no mercado imobiliário. A partir daí, ele decide vingar-se de Dominique, a mulher por quem ainda nutre uma intensa paixão. A questão da igualdade, embora não explícita, permeia todo o enredo em situações pouco evidentes. De início, é possível perceber que França, um país que tanto se vangloria de ser igualitário, se mostra incapaz de escutar e defender um estrangeiro em situação vulnerável. Na relação entre o casal protagonista, o tema aparece na disputa envaidecida de ambos pela igualdade de poder e gênero. Enquanto Dominique pede anulação do casamento sob a premissa de o marido ser impotente, Karol Karol deixa de ser cabelereiro, já que a profissão o tornava diferente dos outros homens “viris” que conhecia. Através da mentira e trapaças, ele busca acumular dinheiro suficiente para vingar-se da mulher que o humilhara. Esta situação exemplifica como a igualdade pode causar distorções. Provando que pode se igualar aos ho-

“ Igualdade é Branca” é um dos filmes da trilogia das cores dirigida pelo polonês Krzysztof Kieślowski (“A liberdade é Azul” e a “A fraternidade é vermelha” completam o combo). Na série de longas diretor desenvolve enredos independentes com títulos inspirados no lema da Revolução francesa e nas cores que, juntas, formam a bandeira do país. Pelo título no Brasil, fica claro que o tema do longa metragem seria a “igualdade”. Mas apesar da história simples, a compreensão do termo título nesta parte da trilogia vai muito além dos diálogos dos personagens. Na trama, Karol Karol (Zbigniew Zamachowski) é um imigrante polonês que se casa com Dominique (Julie Delpy) uma bela mulher francesa que o recebe em seu país. Vendo o casamento ruir aos poucos, ele acaba surpreendido por uma intimação de comparecimento ao Palácio de Justiça de Paris após a entrada no pedido de divórcio feito pela esposa. Com dificuldades no idioma, Karol Karol não consegue defender-se da acusação que recebe: o casamento não estaria sendo consumado. Subvertido por um estigma que fragilizaria sua autoconfiança (o personagem, além disso, é cabelereiro), o imigrante cai em desolamento e passa a vagar como um mendigo 32

mens, até na ideia de que o relacionamento só se sustenta pela relação carnal, a mulher abre mão do casamento numa decisão quase “machista”. O homem, por sua vez, na tentativa de igualar-se àquilo que a sociedade esperava dele, se envolve em situações que contradizem suas opiniões. Através da procura incinerada dos dois por se encaixarem em um patamar igualitário, o diretor deixa explícito o fato de que nem sempre a igualdade é a melhor escolha. A impressão que ao analisarmos essas histórias é que mesmo as convicções, que pensamos como imutáveis, são incapazes de nortear nossas decisões diante da complexidade que é a vida humana. Para nós, a igualdade seria apenas um guia abstrato desejado por muitos, mas, no final das contas, obtido por poucos. Nossas particularidades seriam capazes de sobressair ao ímpeto de seguir a manada? A produção polonesa mostra que nem sempre. A simbologia da cor branca permite assimilar presença de luz, mas ausência de cor, dando a impressão de que quando optamos pela igualdade, estamos seguindo uma necessidade racional. Por outro lado, a falta de cor implica na ausência de diversidade. Fica clara a decisão dos personagens em agir igual aos outros. Mas o que nos impulsiona, enfim, a buscar a igualdade? Será que ela é capaz de nos trazer felicidade, ou o caminho da plenitude é mais colorido e diversificado?

+ Dicas

cinema Adam - Max Mayer (Estados Unidos, 2009) Se “Os opostos se atraem”, é um clichê, o diretor americano Max Mayer soube muito bem como fazer de um clichê, poesia pura. No filme, Adam (Hugh Dancy) é um jovem simpático e inteligente que tem dificuldades de se relacionar com as pessoas. Diagnosticado com síndrome de Asperger, um tipo raro de autismo, ele vive num mundo solidário até que conhece sua mais nova vizinha, a bela Beth (Rose Byrne). A partir da incomum relação entre os dois se desenvolve uma trama tão delicada como tocante. Uma história sobre dois estranhos que se encontram. Um deles um pouquinho mais estranho que o outro.

literatura Holocausto Brasileiro - Daniela Arbex, 2013 Aclamado pela crítica como um dos grandes lançamentos de 2013, o livro-reportagem assinado pela jornalista Daniela Arbex narra com veemência os casos de crueldade e negligência que causaram uma das maiores tragédias silenciosas da história do Brasil: a morte de mais de 60 mil pessoas no Hospital Colônia de Barbacena, o maior hospício do país, localizado em Minas Gerais. Mais de 10 anos após a reforma psiquiátrica que transferiu os pacientes do asilo ao sistema de atenção psicossocial, as marcas deixadas nos sobreviventes ainda permanecem intactas. Memórias, fotografias e relatos fiéis a suas histórias são expostos através de um texto de leitura densa e reflexiva. Uma verdadeira imersão ao sistema manicomial por meio da literatura, que aqui desempenha o importante papel de denúncia e crítica social.

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Trabalho Cultura Convivência

Produto final da disciplina “Projeto Experimental” apresentando à Universidade Estadual Paulista – “Júlio de Mesquita Filho”, como requisito para obtenção de grau em Comunicação Social com Ênfase em Jornalismo pela Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação Social de Bauru. Orientação: Professor Dr. Juarez Xavier


Nise - A revista do Projeto TEar