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A CABEÇA NÃO PARA CHACINA EM JUDAS ORESTES O AMANTE DO ARRAIÁ DA SEMANA PASSADA MILLA FOGOSA REFLEXÕES DE UM CAIPIRA ESPIRITUALISMO X EXISTENCIALISMO POEMAS E MAIS POEMAS...

A ESTRADA DA LITERÁRIA BEATBRASILIS SHE

HIM: É SIMPLES E BONITO ASSIM 1


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EDITORIAL Olá. Essa é uma edição da beatbrasilis das mais literárias. Não nos furtamos e começamos a expor a verve poética que trazemos correndo nas veias. Poemas e contos diversos aqui, a liberdade que ronda nossa mente chega ao papel e se aglutina a tantos outros caminhantes dessa estrada. Contamos com novas participações e isso comprova que o projeto, a idéia, o mote (chame como quiser) está caminhando e conseguindo chegar a mais pessoas, mais olhares e

pensamentos. Isso é bom porque cumprimos o papel que nos cabe mesmo, ser um aglutinador de pessoas que comunguem desse ideal que surgiu literário. Espero que você tenha uma boa leitura e, mais do que tudo, sinta vontade de

edição. Então sente-se e relaxe, curta um som, e desfrute da literária beatbrasilis. participar da próxima

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Vitor Souza (Arte)

Jim Duran


HELENA HUTZ

Pra

cabecinha

parar (FINAL)

Hoje me disseram que faço de tudo pra estragar minha beleza. Ó! Na préadolescência eu usava óculos, era branquela, e curtia, vejam só, The Monkees. Hoje curto ser branca, não uso mais óculos (ok, não enxergo nem a cor da breja, tomo guaraná achando que é whisky e vinho achando que é suco de amora), e ainda curto Monkees. I wanna be free! Coisa linda da mamãe! Eu acho que eu estuprei um bebê quando eu tinha 3 anos de idade e que a cortina do quarto dele ventou e que o gato dele me mordeu: daí eu meti o gato num pneu e lancei ladeira abaixo. Depois minha mãe disse ao meu pai que o bebê caiu da janela. Vai ter criatividade assim na casa do caralho, einh! Volto ao meu pai que, como gineco, é o cara que enxerga mais longe, enxerga lá na casa do caralho. E tem gente que pergunta se me consulto com ele. Cada tara nesse mundo, argh, só de pensar. Argh, repensando. Todo gineco fala pra paciente "relaxa, abaixa mais a bundinha, isso, relaxa". Meu pai acrescenta o "meu bem". Argh, que nojo, argh, argh, argh!

Nunca entendi porque um cara estuda 6 anos pra ser oftamologista. "Tá vendo o A, o C, pra que lado, blá". Sério que é pra isso? E o dermatologista, que sara verruga? Sempre quis ser médica, mas pra costurar, costurar, costurar. Pena que tremo demais. Minto, sou burra, em questão de vestibular. Acerto tudo em humanas, agora, sei lá porque a geladeira funciona, nem quero saber, zero em exatas. Biológicas vou bem, mais ou menos. Sou burra em vestibular. Ainda bem que sobra vaga em Letras na PUC. Eu gosto de rotina, rotina boba, acordar cedo, tomar banho, me arrumar, comer um pão na chapa, e começar o dia. Eu gosto, mas hoje acordo antes das duas da tarde porque não posso perder o restaurante ainda aberto. O porco com cebola, o arroz e a polenta. Ah, uma coca, agora, pasmem, ligh, ou diet, ou zero, tô gordinha. Eu que pesava 43 uns 8 anos atrás, hoje peso 57, uns dias 55, outros 60... depende de como foi a noite. Por que tô escrevento tanto? Porque faço tudo em excesso, então que eu escreva também em demasia. Não vai me levar a lugar algum, cipá a Minsk (minto, Pinsk), mas eu curto. É como arrotar depois de beber um refri quase inteiro na ressaca. Mentira, eu não tenho ressaca. Com 15 anos tinha, gorfava aquele trem verde, iékati, mas ok, passou. Hoje só na breja, na breja e mais breja. Mas só na breja. Tem um moleque que sempre cola no Biro's. Antes pedia grana, eu dava. Me liguei que era pra merda e parei de dar. Daí me pedia refri, eu dava. Me liguei que era pra utensílio de merda. Me pediu um espetinho de frango, dei. Ele vendeu por um conto na esquina. Agora só aperto a mão e lanço um décimo segundo. Vejam só, eu lançando décimo segundo passo. Porque não rola um décimo terceiro porque o menino tem uns 8 anos de idade. Prefiro barriga do velho bêbado só do lado direito, de cirrose, pigarro, um pau mole (pois mereço descanso às vezes) e um "eu assisti a "O Fantasma da Liberdade". Adoro Magritte. Piro. Piro!!!

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Agora me lembrei de Kaspar Hauser. Meu grupo, no primeiro colegial, na pesquisa de sociolínguistica, levava esse nome. Eu pirava nessa aula. Pirava. Fiz o trampo praticamente sozinha, levamos um A honorável. E meti o pau nos outros grupos. Eu era mó pau no cu na escola. E dormia nas aulas, e tinha liberdade de sair porque "eu tomava remédios pra depressão", e assim mesmo pirava. Quando tirei um B em português não aceitei a nota, pedi pra fazer um trabalho. Não lembro sobre o que o professor pediu, alguma coisa sobre o amor em Drummond, sei lá. Comprei um Antonio Candido e pirei, pirei! A! Eu era a pior cdf, aquela que não sabia passar cola, que não pegava cola, que acaba a prova em 10 minutos, porque ou sei, ou não sei, e que nunca pegou recuperação. MENTIRA. No último ano colegial peguei, já que me internaram, malditos hipócritas. Fiz as provas na clínica. A de física quem fez foi um esquizofrênico engenheiro. A de biologia a enfermeira. A de química eu não fiz, mas o professor me adorava, então A. Ó, A! Mas meu maior triunfo na escola foi tirar 10 num trabalho que valia 9. Era um jornal que envolvia todas as disciplinas. Como sempre fiz sozinha, não me importava, adorava ficar na biblioteca, pedir ajuda ao meu pai, pesquisar. O jornal se chamava "O Estouro", destinado ao público de obesos. Foi mais que um estouro. Eu me senti a tal quando recebi a nota.


Minha maior vergonha, arrependimento? da escola, sobre a guerra do Paraguai, elevando o Brasil e cia. Segue a letra: "Vai Brasil cê tentou acabar com essa guerra... e Caxias também ajudou. Brasil, Brasil. Lopez não ajudou, ele só perturbou, pois ele é um dominador. Brasil, Brasil. O Brasil e suas armas, Argentina e Uruguai, lutaram na guerra, no Paraguai. Acabar com essa guerra e gritar Brasil, parabéns você conseguiu!!"

Fou inventar uma música, prum trampo Vergonhoso. Esse país é o que é hoje por causa de tal guerra. Sobraram apenas mulheres e crianças. Etc e tal. Não entendo de história e política, mesmo mamãe dizendo que entendo e finjo não entender. Tanto faz. Por isso que gosto de ficar sozinha em casa. Que mesmo não fazendo nada que achem errado (que eles acham que ler e beber é errado) eu me sinto mais livre. Só não me coloque pra morar sozinha, que é um perigo. Tem gente que me pergunta porque não tenho carro, digo porque seria como uma arma em minha mão. Imagina, levar um fora e acelerar. Mas dizem que a janela tá aqui do meu lado também. Daí me faço de ecológica e digo que não quero poluir mais o planeta. Eu me acomodei tanto com a ideia que desejo apenas um cara que seja mente

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aberta, tenha lido uns livros e me dê um filho, que pra mim tanto faz o planeta, o país, o estado, a cidade, meu bairro. Eu brincava com meu pai disso. Ele começava no universo e eu tinha que ir descendo. Sempre acabava no átomo. Era legal. Tipo assim: Universo - lua - pé do homem na lua- sapato do homem na lua perna do cara que calçava o sapato foguete onde tava o cara... - EUA - Gente loira - loira e peituda - cisto no peito mamografia - peito comprimido - câncer de mama - cirurgia - bisturi - alumínio átomo. Mais ou menos assim. Quando menor eu sabia o que meter antes do átomo. E quando cresci um pouco eu sabia o que colocar depois do átomo. (a cabeça não para, NÃO PARA)


MATEUS TEÓFILO BANDINI

Judas Orestes Parte 3:

Meu

padrasto

sempre dizia

Meu padrasto sempre dizia que ―o medo e o bom senso andam de mãos dadas‖. Ele dizia que as pessoas ansiosas têm medo e que o acúmulo deste se transforma em ansiedade. Quando você não lida com seus medos, quando você não os enfrenta, acaba passando o seu tempo sendo assombrado por eles. Ele dizia que eu era um medroso. E no dia em que ele teve um enfarto bem no meio daquele imenso palco, feito para uma igreja pequena, ele me disse:

irmãos, sendo 3 deles meus ―meioirmãos‖. Eu corri, e pude ouvir ele me dizer isso. Os olhos dele se arregalaram, ele disse: ―Judas, você foge da luz‖ e em seguida ele morreu. Desde então eu adotei esse nome: Judas Orestes. Ele tinha razão, quando me chamava de ―filho do coisa-ruim‖. Eu aprontava todas. Eu era uma criança problemática. E o certo foi que eu me tornei um adulto problemático. Quando abri os olhos, me vi outra vez, no mesmo quarto, no mesmo leito que estive há alguns dias. Estava respirando por uns tubos que entravam nas minhas narinas, e havia outro tubo saindo do meu peito, drenando o sangue do meu pulmão esquerdo. A primeira cena que vi, foi um velho sentado em uma cadeira de rodas, a barba tão grande quanto a que Papai Noel ou um velho eremita bíblico teria. Ele estava acompanhado. Valete, a detetive careca e com câncer no cérebro estava ao seu lado. Vi ela me olhar com desprezo depois de pegar uma bombinha igual àquelas que são feitas para a asma. A vi aspirar a bombinha. Vi suas pupilas dilatarem. Ela olhou para o lado, parecia ouvir alguém que não existia. Fez os mesmo gestos de concordância que Pestana faz quando ouve o seu amigo ―Imaginário‖. — Wolfgang quer pedir desculpas pelo acidente da ultima noite. — Disse Valete. — Pelo que? Por me jogar do segundo andar de um clube escroto de swing? Respondi.

estava acordado. E mesmo imóvel e sem dizer uma palavra, mostrava que estava mais vivo do que qualquer pessoa que eu já vira na vida. Valete pegou uma bombinha do bolso e colocou no travesseiro, ao lado do meu rosto. — Você já conhece a droga do Satori. — Sim. Odiei a viagem. — O único modo de falar com o Velho Wolfgang , é usando a droga outra vez. — Eu estou com dificuldade para respirar, a cada palavra que eu digo sinto uma pontada no peito. Se eu usar essa droga, posso morrer... — Terá que correr o risco. Ele vai te explicar tudo. Eu estava cansado demais. Naquele momento me lembrei do meu padrasto: ―o medo e o bom senso andam de mãos dadas‖. Peguei a bombinha. Enfiei na boca e apertei. Um formigamento familiar tomou conta do meu corpo. Meu peito não doía mais. Em poucos segundos, me vi ao lado da cama, olhando para um rosto debilitado no leito. O meu rosto, as minhas mãos brilhavam. Olhei para frente e vi um rapaz alto e forte estava ao lado de Wolfgang. Vi os seus olhos. Então eu entendi. — Viagem astral... — Eu disse ao rapaz.

Tentei usar meu safado de costume.

— Exatamente. — Ele disse. Sua voz parecia uma sinfonia.

— Wolfgang disse que você está xeretando onde não devia.

Observei valete. Estava de olhos fechados. Estava em pé.

— Exato. Estou xeretando, simplesmente porque você mandou. Lembra da nossa última conversa aqui nesse mesmo quarto de hospital?

— Minha filha tem câncer. Você já deve ter percebido. E por esse fato, seu espírito está preso ao corpo. Meu objetivo, senhor Demétrio, é que, com sua colaboração, a gente possa encontrar uma cura para ela.

— Não ouse deixar os seus medos dominá-lo.

— Wolfgang pessoalmente.

Ele estava pregando para os fiéis. Eu ainda me lembro de estar no ultimo banco, com meu terninho, meus 5

O velho me olhava imóvel da cadeira. Aqueles olhos azuis pareciam refletir a total falta de importância com tudo. Ele

quer

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falar

contigo

— O negocio da droga foi somente uma desculpa. — Exatamente.


Ele começou a flutuar pelo quarto. — Me siga. Tenho que lhe mostrar uma coisa. Como nos filmes de espíritos, ele atravessou o teto do quarto e eu o segui. Quando percebi, estava ao seu lado. Um cordão, que me lembrou um umbilical, saia do meu ventre, estava ligado ao meu corpo. O cordão do velho Wolfgang era um pouco mais fino e um pouco mais brilhante.

— Essa tribo indígena foi colonizada no inicio do século. Aqui foram construídas as cabanas e até uma igreja que você

poderá ver, se for até a ladeira ao sul do vilarejo. A droga do satori foi descoberta aqui, há pouco mais de 30 anos. — E quem fez essa chacina queria a droga. — Sim. — Quem fez a chacina?

Em questão de segundos, chegamos a uma vila. Notei que era dentro de uma floresta extensa.

— Eu.

A Amazônia.

Saber que eu estava acompanhado de um assassino, mesmo que espiritualmente me deixou mais receoso do que já estava.

Wolfgang pousou um pouco antes de mim, e vagou pelo local que parecia deserto e bem antigo. Vi cabanas e barracas bem armadas que haviam resistido ao tempo. E também havia ossadas por todos os cantos. — O que ouve aqui? – perguntei. — Uma chacina. — Ele respondeu. — Porque me trouxe aqui?

somente o caos. E somos o resultado disso. A consciência é um dos resultados do caos. Eu vim aqui há trinta anos em busca de uma flor rocha que colocada na água, podia fazer com que o espírito saísse do corpo. Eu queria conhecimento. Então eu vim aqui, com 12 homens armados e matamos a todos. Mulheres, crianças, homens e animais. Achamos uma boa quantidade da flor rocha e levamos. — Você quer me justificar o fato de ter matado pessoas inocentes? — Não. Quero que você mesmo veja.

— Vamos voltar — Falei. Wollfgang parecia se arrastar sobre os próprios pés. Começou a brilhar e o seu rosto mudava de velho para um rosto jovem em grande velocidade. Era como se ele estivesse confuso sobre quem realmente era. — Judas. Quando eu era jovem, assim como você, eu acreditava que existia um propósito sobre tudo. Hoje eu sei que um propósito não é necessário. Existe

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Ele me estendeu seu braço reluzente e eu toquei em sua mão. Vi um flash de luz, então olhei ao meu redor e o vilarejo parecia ter ganhado vida. Vi alguns homens de pele morena e mulheres semi nuas com seus filhos, algumas mulheres descamavam peixes e alguns homens conversavam em rodas, andei até uma tenda triangular e vi um grupo que fervia algumas flores na água e em seguida respiravam o vapor que subia. Pareceram imóveis logo em seguida. A atividade no vilarejo era constante, crianças brincavam e alguns pastores liam a bíblia para certos grupos. Vi que os mais idosos reclamavam em suas próprias línguas,


talvez reclamassem dos pastores e seu estranho livro de capa negra. A surpresa me atingiu. Alguns homens chegaram do meio das arvores. Estavam armados. — Aquele de cabelos grandes e brancos sou eu. — Disse Wolfgang. Vi a personificação jovem de Wolfgang se aproximar. Era um pouco mais velho do que o espírito mostrava ser, mas bem mais jovem do que o seu corpo acabado na cadeira de rodas. Os pastores foram os primeiros a vê-los. Um velho com um chapéu que viera com eles se aproximou do grupo armado e antes de dizer alguma palavra levou um tiro no rosto e caiu inerte. O tiro fora dado pela versão jovem de Wolfgang. Os tiros começaram. Tentei me impedi-los. Mas era como tocar Miragens. — Não pode fazer nada. Já aconteceu. — O Wolfgang velho me disse. Crianças e mulheres caiam. — Acabe com isso, porra! Wolfgang se aproximou e estendeu o seu braço e eu o toquei. Antes do flash de luz tomar minha visão, eu reconheci um dos pastores. Era o meu Padrasto. Abri os olhos e me vi na cama do hospital. Vi um enfermeiro sobre mim, tinha as mãos no meu peito. — Ele voltou! — o enfermeiro gritou. — Que merda houve aqui? — Estava difícil falar e respirar. — Você teve uma parada. — Disse o enfermeiro. Olhei ao redor, Wolfgang e Valete haviam desaparecido. Quase me convenci que tivesse sido um sonho. Até ver a suposta bombinha de asma do lado esquerdo do meu travesseiro.

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NARAYANA RIBEIRO

O HOMEM FEIO Olhei minha figura em frente ao espelho, depois espiei o amante roncando como um urso esparramado na cama. Passei as mãos nos cabelos e mirei a garrafa de conhaque de péssima qualidade na qual existia ainda dedo e meio da bebida. — Foi com temor que, recordando os fatos, nos vi, noite passada, entregando nossas almas, milímetro a milímetro, aos confortos da vida patética, tudo isso enquanto ele me enlaçava pela cintura e me dizia coisas sujas ao pé do ouvido. Minha pele era suor e meu semblante aquela expressão que vemos no rosto de quem passou a noite embriagado rindo de tudo e de todos. Eu lembrava de absolutamente tudo. ―Puta merda, que foi que eu fiz?‖ Vazio, culpa, imprudência, negligência, falta de cuidado. Senti um formigamento se espalhando pelo corpo. Fui tomar banho. Esperei ainda quarenta minutos para o urso voltar do coma alcoólico, com um suspiro longo e o olhar estúpido, provavelmente se perguntando ―onde é que eu estou?‖ Embriaguez pós ordenada, sonolência, dependência, submissão tardia, consciência do ser. Eu disse: ―E aí?‖ Mas eu só queria dizer que estava ali por inconveniente acaso. Também quis dizer que ele havia sido uma bosta na cama e que eu não tinha sequer gozado. — Enquanto ele me despia devagar eu nem ao menos cogitei desencorajá-lo: tropecei para os limites da cama e covardemente deixei que ele caísse por cima: ele me deu uma lambida no rosto e pôs dois dedos dentro de mim. Fiquei só no pensamento, empunhando palavras imaginárias que machucam, apenas por hábito. Por quê? Porque de outra forma não seria eu mesma, nem poderia viver coisas como as que vivi e vivo. Desabamento, firmamento, período,

folhagem no jardim, céu clareando, sossego e sossego excessivo, sossego de ruína e minha própria voz sufocando de longe o que sinto. Quis perguntar coisas. Contentei-me com um: ―dormiu bem?‖ Não sei porque perguntei isso — certamente a imaginação é mais profunda que a realidade. Meu problema com a paciência ultrapassou o sinal vermelho com força quando ele demonstrou clara falta de interesse em me dar prazer. Eu o empurrei com o braço esquerdo: ―não tenho tempo para pessoas entediantes.‖ Espero de coração que ao encontrar esse amante de novo eu consiga, com a prática que tenho, sanar esse mal entendido com essa casualidade e minha falta de resignação. Entre mortos e feridos estou eu afinal. Ergui-me e vesti a roupa. Sentei-me no sofá da sala e tomei a liberdade de ligar a televisão na esperança de saber que time havia ganhado o jogo. De repente ele apareceu já todo alinhado com seu all star vintage nos pés. ―Vou embora.‖ disse quando minha mãe chegou com o almoço e olhou para ele: ―Você é namorado de qual de minhas filhas?‖ Ele olhou para a tela do celular, como se procurasse a resposta, depois falou sem sorrir: ―Namorado? Não. Eu sou um amigo do arraiá da semana passada.‖ Eu me danei a gargalhar: ―Como é que é: Um amigo do arraiá?! Que resposta moderna, hein, palhaço! Qual seria o próximo passo? Pedir o que

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eu não posso?‖ Ele aceitou almoçar, não tinha o mínimo brio. Mas eu sou uma garota surpreendente, feita de teflon: pode jogar lixo em mim a semana inteira que não vai grudar. Eu revirei meus olhos quando nos sentamos lado a lado na mesa. E ele lá com o celular na mão aparentemente sem perturbação alguma. Revirei os olhos mais uma vez, como quem revira faca na ferida já em processo de cicatrização. Eu não quis permanecer cega no escuro, na aceitação, como se fosse uma ovelha cujo pastor seduz com chicote. Não poderia afrouxar meu pensamento modelar e me quebrar caindo num abismo de futilidades, então eu me concentrei em resistir quando a situação se complicava, e só. Durante a refeição: minha mãe e suas perguntas, o amante e sua postura incomum. A ladainha que estava presente durante o almoço os transformava em ralé, colhendo trocados de desprezo. Ah, como eu gostaria que um raio de fogo e mel varado de luz atingisse a mesa e os transformasse — já que o fogo tudo transforma — em criaturas ideais e encantadoras. Seria perfeito, divino, magnifico. E seria bom que fosse logo antes que o amanhã deixasse de ser pleno e belo tornando-se fúria na forma mais hostil.


Não pude evitar a constatação de saber que nossa loucura estava perigosamente desfazendo nosso mundo em ruínas. — Tínhamos de nos tocar! — Nem pude evitar o pensamento com as palavras de Nietzsche boiando em minha cabecinha de vento e terra. Em certo momento, entre uma garfada e outra, declarei-as: ―É uma barbaridade amar uma única pessoa, pois é algo que se faz contra as outras.‖ Talvez esse pensamento reafirme a premissa bíblica de um dos 10 mandamentos que diz: ―Amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei.‖ Mas por que é tão complicado o amor mais sublime que o amor com interesse sexual? Por que dizer eu te amo não pode ser apenas por afinidade, sem cama? Por que não se pode apenas ser amigos? Por que não posso amar em paz e demonstrar esse afeto natural e espontaneamente, já que eu amava muitos e de diversas maneiras? Por um motivo deveras simples: porque tudo que o ser humano faz, ele faz com a intenção de dominar o outro. Certo, certo. Sei que essa dificuldade esplanada agora, seria também minha própria dificuldade já que eu havia dormido com um, aparentemente, ―amigo do arraiá da semana passada.‖ —

sempre caindo no mesmo erro, sempre sendo seduzida pelo sabor de aventura que a vida oferece — mesmo algo do cotidiano, pois sabia que nada precisa ser fantástico para ser bonito, o simples também pode ser belo. Tive a impressão de que, além de estar falando sozinha, eu estava pensando sozinha. Olhei para o meu amigo tentando evitar o revirar de olhos que insistia em se tornar habitual. Daria 1 real se ele se mantivesse gentil; 2 reais pela tentativa de se manter gentil; se nada acontecesse daria um pontapé em seu traseiro (...) O amante terminou de comer, ensaiou levar o prato para lavar, eu disse ―deixe aí (...)‖ e ele, claro, deixou. Depois, num rompante de sobriedade, levantou-se e lavou, não só o prato onde havia comido, como também toda a louça que estava suja na pia e na mesa — e isso me fez perceber que são formas variantes, na verdade, que estimulam a alma emotiva do ser humano, que permitem que ele esteja bem, mesmo um estúpido como havia sido, horas antes, esse amante, — e só quem não tem sensibilidade se atrapalha com elas — elas são grandes oportunidades de vivência, e de aquisição de sabedoria até para quem não as

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procura. — Eu havia acabado de perder 1 real. O fato é que ―o amigo do arraiá‖ agora lavava a louça do almoço na casa onde eu morava. Não é uma maravilha quando a caminhada nos força a se enquadrar? — Como num teste de sobrevivência. Eu já havia visto muita gente nessa situação: meu ―amigo‖ era um charlatão fértil. Minha mãe pediu licença e foi para seu quarto descansar um pouco do almoço. O amante passou o resto da tarde comigo. Idiota. Ele agia como se fosse seu último dia na casa de uma tia que visitava: com cordialidade. Eu quis fingir desprezo, então na hora do fingimento eu falhei, por isso eu chorei: por me importar demais. O efeito da bebida havia passado fazia horas e eu que desejava paz indescritível, repouso, êxtase, eu que era a menina que resistia quando tudo se complicava, consegui ser a tia de um amante que era um suposto amigo que eu havia conhecido num arraiá qualquer da semana passada.


RODOLPHO MORAES

“SUSIE

QUER SER TOCADA”

assim. Tinha uma incrível mania de se masturbar vendo o noticiário. Eram tempos difíceis para a Grande Vitória. Havia um maníaco que já tinha matado sete pessoas. Todas decapitadas e esquartejadas. Deixava na cena dois inusitados objetos: um abacate com um cartão no meio que dizia: "vote em mim"! Era sua marca.

— Milla, não sou bom nessas coisas, mas escute bem. Existem milhões de mulheres por aí, todas pervertidas e depravadas, loucas e lascivas, todas loucas para dar, com suas bocetas carnudas esperando para abocanhar a próxima presa. É muito egoísmo achar que só vai amar uma delas, sem experimentar as outras, entende o que eu quero dizer? — Não...

No bar, Milla me disse que ficou excitada com toda essa trama e que teve dois orgasmos. Depois de três cervejas comentou sobre sua última decepção: — Rodolpho, aquela vaca não valia nada.

— Ame tudo e a todos, sem distinção, sem esperar nada em troca... Acho que é isso que eu quero dizer. — Você não ta achando que eu tenho cara de Lady Di, Madre Tereza, está?

— As vacas costumam ter esse problema. — Aquela piranha. Tinha todos os defeitos que uma mulher pode ter...

A muito conheci Milla Stan. Seu nome, dado por sua mãe, foi inspirado pelo axé da Bahia. O "Stan" ficou por conta do seu pai, fã de cool jazz. Quis homenagear um dos seus saxofonistas preferidos Mrs. Steamer, the cooker. Teve a oportunidade de vê-lo num dueto com ninguém menos que João Gilberto, no Carnegie Hall, e cultivou uma paixão secreta pelo músico. Nunca descobri qual.

— Fresca, submissa, perdulária...

— Essas sempre esperam algo em troca. — Verdade. Mais uma cerveja?

— Somado aos defeitos de um homem.

— Claro, pede energético, também.

— E quais seriam?

Tinham mudado a música, começou a rolar Susie Q., Creendance. O Overdose era o único bar da Grande Vitória onde se podia ouvir boas músicas. Eu e Milla ficamos calados por um tempo, curtindo o ambiente. Se me lembro bem, ela estava usando um decote V que fazia seus peitos pularem para fora. Poderia afogar minha língua em cima deles. Vestia uma minisaia e salto alto. Estava gostosa, quente, sensual. Comecei a massagear o meu pau, enquanto olhava para ela. Fiquei assim uns bons minutos, apreciando aquela carne toda. Faria um churrasco dela, se pudesse. Comeria das mamas aos pés. Os pés de porco. Parei, para não gozar.

— Machistas, imprestáveis, infantis e safados. — Não, não, essas são as qualidades. — Eu a amava, Rodolpho. — Eu também, Milla. — Porra, estou tentando desabafar.

Milla estava em seu quarto na noite que me ligou. Morava sozinha em Gaivotas, Vila Velha. Disse-me uma vez que o cheiro de valão da cidade a excitava. Gostava de odores fortes. E de mulheres. Terminara seu quarto romance com uma universitária. Chorava de saudade ou de raiva. Deve ter sido traída. Pediu para encontrá-la no Overdose às 21:45. Lá esperei por uma hora e alguns minutos.

— Muito pelo contrário, você é uma dama noctívaga, uma cortesã.

— Claro, claro. — Não sei se encontro outra pessoa que goste de mim. Sempre acontece do mesmo jeito. Está tudo indo uma maravilha e depois volto para mesma fossa de antes. Eu a amava, receio não superar.

Milla era linda, tinha seios médios, lisinhos. Esbelta, tinha cabelos negros corridos e pernas esguias e musculosas, material de primeira. Mas o que encantava era sua boca, breve, pequena, com lábios quentes. Fiquei sabendo que enquanto a esperava, ela estava em casa se tocando. Ficava calma e relaxada,

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Na TV passou uma chamada do Gazeta Notícias. Era o maníaco. Tinha


decapitado um juíz e atirado em uma promotora no meio de uma audiência pública. Entrou com uma máscara de inquisidor, negra, que tinha escrito bem na testa, em vermelho: "Jesus me ama". A imagem mostrava muito sangue e a cabeça do juiz rolando por cima do seu martelo. Todos pareciam muito chocados, havia pessoas correndo ao léu e um garoto rindo bem no fundo da tela. O maníaco já havia feito quatro vítimas durante a noite. Dois eram juristas, uma velha e por fim um homossexual. Esses dois últimos foram encontrados em posição de coito na frente de uma igreja católica, em Itapuã. O cara estava sem uma das pernas e a velha com parte do intestino saltando pela calçada. Havia muito sangue e merda no lugar. Lá estava também um abacate, que da TV me parecia maduro, e um bilhete: "Me ame ou me deixe". "Parece não entender muito de português", salientou o repórter tentando traçar o perfil criminoso. No bar as opiniões se dividiam. Alguns o achavam repugnante, outros um justiceiro. A maioria não escondia o medo e uma secreta admiração. Eu o achava engraçado, de um senso de humor único. Susie Q, continuava rolando. — O que você acha dele? - perguntou Milla. — Um cara interessante. — Ousado, eu diria. — Fiquei com a impressão de que ele ou vendia seguros ou era contador. — Preciso encontrar um cara assim. Visceral! Acho que preciso de um homem viril, que não acumule os defeitos de uma mulher.

— Está olhando para ele. — Estou olhando para um frangote, bêbado por sinal. — Com um super pau de 17 cm. — Gosto de pele lisa, não curto essa coisa enrugada... — Ahhh! Tenho outras partes lisas que vão te encher de tesão. — Não quero comer sua bunda, Rodolpho. — Ninguém nunca vai te chupar como eu, chuchu. — Baby, eu não vou te dar. — Droga. Que tal um boquete? Meianove no seu quarto? — Nem se fosse num resort em Búzios. — Vou fechar a conta... — Pede para tirar os 10 por cento...

da sua boceta e coloquei em sua boca. Ela lambeu minha mão, dedo por dedo. Parti para os seios. Apertei eles com força, era uma cena brutal! Milla sentia tesão e dor. Que seios maravilhosos, macios. Eu sentia vontade de estrupá-la. Levantei sua saia com tanta força que rasgou no corte lateral. Comecei a lamber os grandes lábios e alguns minutos depois percebi que ela tinha tido seu primeiro orgasmo. Ela virou de cócoras para mim. Disse-me: "Fode com vontade, seu merda". Meti com força, cada vez mais rápido. Ela gemia. O mundo inteiro ouvia os gemidos de Milla. Berrava coisas como: "Vai, seu animal", "Com força, me morde", "Saiu, seu imbecil". Ficamos os dois muito suados. Milla, insaciável, agarrou o meu pau. Caiu de boca nele. Lambia como se fosse um picolé de uva. Passava a língua bem na cabeça, sem tirá-lo da boca. Não segurei, puxei a cabeça dela e gozei. Ela engasgou, me deu um tapa e cuspiu pela janela. Limpou a boca, ligou o carro e seguimos para minha casa.

— ... — Tudo bem? Olha, desencana. Eu te levo para casa. Fechei a conta e saímos do bar. Entrei no carro de Milla. Colocou a chave na ignição. Seus seios pareciam maiores e pulavam cada vez que ela tentava acionar o motor. Estavam me chamando. Não resisti e puxei seu rosto e enfiei a língua na sua boca. Ela ficou estática, não fez nenhum movimento. Pus o dedo nos grandes lábios e comecei a massagear. Eu era um artista com os dedos. Passei a língua lentamente por todo seu pescoço. Milla gemia, gemidos quase inaudíveis. Estava muito molhada, tirei meus dedos

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No caminho não falamos nada. Ela me deixou em casa e saiu. Com fome, corri até um trailer e comprei um hambúrguer. O maníaco estava à solta, fiquei preocupado com Milla. Atravessei a rua com pressa. Milla chegou em casa, mas não conseguiu estacionar o carro na garagem, preferiu deixar na rua. Houve mais uma morte naquela noite. Todos olhavam em volta. Os curiosos de sempre, ficam como urubus esperando alguma informação para saciar seu cinismo pela vida. Eu tinha sido atropelado por um maldito Ford Ka, naquela noite. A placa tinha a auspiciosa numeração: 6101.


Amante da Ilusão Giovani Dornelles (Joker)

O que tenho a lhes oferecer, É unicamente minha amante ilusão Nada do que verás, Os proporcionará realidade a imaginação. A mágica que os encantou, deixou de ser mágica; Logo ofereço-lhes minha amante trágica. Nada do que vivi, Proporcionou realidade a meu coração. Conservo-me apaixonado pelo encanto, Proporcionado a mulher sádica Que tirou-me a visão... Há.. se quebrasse o efeito deste desvairado E como um sonho proporcionado, Possuísse a aura que tu capturastes; Minha ilusão, dominaria seu espírito Antevendo como encantastes, O feiticeiro amante da tua elevação. Há.. se elevastes o feitiço deste mago E como em um sonho encantado, Transaríamos sobre fatal poder elevado Da amaldiçoada magia da ilusão.

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Espírito Beat Jim Duran “Eliminai toda a inibição literária gramatical sintática. Nenhuma disciplina que seja a exaltação teórica e de afirmação não censurada.”

Jack Kerouac

Não sei o que dizer nesta manhã chuvosa em que a pele Da mão enruga. O cigarro treme, Estou com frio e gripado Não resisto e dou um gole no meu uísque companheiro. Vamos discutir cinema? Abandonei o teatro para fazer filmes em preto e brando e escrever poemas.

Enquanto eu caminho Sei que você dorme, Embalada em seus sonhos Esperando o dia raiar como teu riso. Cometo o poema à distância, Por que não posso dar o merecido cafuné. Flores pelo chão do quarto Espalhados pela cama teus cabelos Meus passos constroem a distância Mas te convido a um pequeno jogo Vamos plantar palavras em um jardim E deixar os poemas nascerem, Pequeno girassol. Lembre-se sempre, haverá mais manhãs, Gloriosas manhãs em que haverá riso Mas também haverá lágrimas. Continue seu movimento a procura da luz Continue seu embalo carinhoso Estaremos juntos quando a noite chegar Queria que minhas palavras Tocassem teus lábios Como se fosse meu beijo. Que minhas mãos tocassem teus cabelos Nunca por pouco tempo E me ganha como uma descoberta E em meus braços encontraria abrigo Ao frio e ao tempo Deito-me, deixo-me, deleito-me com o som De teus poemas. Tardes em que o tempo pára Ouço tua voz e tremo E te busco como imagem refletida Em gotas de chuva Desenho tua boca com a devoção dos que Crêem em anjos E se apaixonam sem medo Queria que o sol nascesse em teu corpo E que o tempo se rendesse ao abraço não dado.

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Te espero na ponta dos dedos Sorria como o sol que brilha E transforma o silêncio que nos separa Em música, em poesia... Fica um pouco mais Distante musa Aqui nascem odes como ondas Em um mar revolto... Grite comigo por sobre o vale de lágrimas Deixando quietos os que têm medo. Seremos sempre negras ovelhas em meio Ao bando escravo. Temos liberdades e sonhos, Montanhas de papel se perdendo em meio à ventania Criativa, a beatitude exposta. Durma o sono leve dos anjos Durma o sono pleno das musas Durma que o sol te abençoará E meus versos, pobres versos. Te cobrirão de glórias. A noite me trouxe um gosto amargo Querendo encontrar teu cheiro entre flores já colhidas. Quantos anjos caminham pelo frio, Seus corpos arrepiando ao contato gélido do vento Que os envolvem, Caminhe comigo pelo longo e escuro labirinto Tateie as paredes da realidade em busca do sonho... Aqui estou de novo Um pouco dolorido Por que quando a vida te derruba Não tem amanhã que baste. Aqui estou eu de novo Com os olhos ardendo Pelas lágrimas de indignação e saudades. Aqui estou eu de novo Berrando por sobre os telhados. Aqui estou arrumando as malas Por que partir às vezes é solução Às vezes é só um descanso. Aqui estou eu de novo Saudando meus companheiros Beat´s.


Nascerá o Dia!!! Jim Duran o sol deseja sentir os lábios da lua sobre os dele e sentir a língua dela com a sua e criar um idioma novo o que será que a lua deseja? vendo o sol com tanta sede e fome? ha tempos guardei palavras e anseios me conte do seu desejo, não guarde as palavras, deixe que o espaço receba nosso louco bailar e nos amemos nessa colcha de estrelas que espalhamos pelo chão do tempo. ECLIPSE TOTAL Até o final, Corpos sedentos da vontade Bocas sedentas do bailar das línguas, Tua e minha.

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Heróis & dias amenos Altair de Oliveira

Temos que a vida não dói. - Viver é tudo que temos! Ao menos somos os heróis Da história que nos fazemos. E, enquanto o tempo nos rói, Tecemos planos de engenhos… Vamos em busca de sonhos Usando de asas e de remos. Galgamos sobre o passado Buscando os dias amenos Tememos sobre o futuro Que nem sabemos se temos Jogamos os nossos melhores Tentando ganhos pequenos Treinamos poses de heróis Da história que nós queremos! Enfim, nós somos assim: Restos de tudo que fomos Mas sempre somos heróis Da história que nos contamos Nos cremos por maiorais Que, ao certo, um dia seremos Morremos sempre no fim… - Fingimos que não sabemos (Altair de Oliveira, In: "O Lento Alento", edição do autor – 2008)

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Norma Mateu Bandini Eu nunca segui as normas Até ela aparecer Norma. Então a segui E cai em seu abismo Que ficava entre suas pernas Logo descobre como o tempo nos deforma E como pude esquecer ? Aquela forma... Então me perdi E cai no primeiro litro de absinto Voltei sem lar, trocando as pernas Agora olho para o espelho E o olhar do rapaz de lá é recíproco De manhã mal me vejo Com as pernas firmes saio do meu cubículo Norma manda eu me calar Eu digo a ela: Baby Eu não sei rimar Escrevendo esse poema Me sinto um ridículo.

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O poeta... Fernando Krebs O poeta, minha amiga, O poeta é um louco!... Um louco!!! Doido varrido! Onisciente sábio destrambelhado; Misantropo torto e esforçado; Um Santo Niilista Abençoado! Saca tudo e tudo vê, tudo sente... Nada mergulhado em nada... Vê sentido em qualquer ser vivo; Abraça e rechaça o termo ―poeta‖; E chora e gargalha da própria desgraça. Quer a ―bomba de efeito moral‖, E o ramo do galho da árvore... Sacudindo sem vento... Atravessa temporadas: Mãos no inferno, Pés no firmamento... Desconexo do corpo vaga; Queima o charuto da graça, E se entorpece de remorso... É o coelho e a espingarda; A eterna corda bamba; Um morcego perenemente desperto; O ser mais sofrido dos tempos! E um reluzente condenado... Arde no frio fogo das indiferenças; Não busca recompensas Que não sejam passageiras... Levanta caindo pesando demais, Pensando mais do que agüenta; Um anjo sonâmbulo vadiando pelo espaço... Amando e amando ao contrário; Toca pedra e violão; Pede a chuva pede o sol... Pede a primavera! E contenta-se com nada. O poeta, meu camarada, É trinta e nove mil Quatrocentas e setenta e duas Vezes Essa mesma quantidade De coisas ―Diferentes‖.

―Um místico em estado selvagem.‖ — Claudel, sobre Rimbaud

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Poema Psicodélico Luís Henrique de Andrade Sales Manhãs primaveris O Sol escorrendo pelas janelas Até ofuscantes poças incandescentes Aglomerados de luz Garbosos falastrões finitos Cegos da finitude Servos de quimeras já antigas Ainda viventes, ainda vigentes Ilusões explosivas, reinantes, alternativas Coloridas cortinas do oculto palco Contos há muito contados Verdades desconhecidas Dura rocha em meio ao jardim Tempestade em meio à bela manhã Deslocamento ideológico de grande turbulência Enfim gotas de beleza, goles de prazer Eterno cheiro de paz E a terra fofa sob os pés

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Sintomas de ausência tua Altair de Oliveira Chove lá fora e é inverno no meu peito A tua ausência desenha um mundo cinza O teu contágio latente manifesta Garimpo o teu perfume rarefeito... Tudo em mim te cobra e te precisa. Meu coração de válvula sangrenta Me impregna na mente e me ordena: ―Te procurar feito louco entre as caras!‖ Me põe na rua atropelando medos Pra te encontrar no sul da madrugada Nua de todo e qualquer que nos separe Ardendo em febre e o amor preso entre os dedos. (Altair de Oliveira - In: ―Curtaversagem ou Vice-versos" Edição do autor – 1988)

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Keila Costa Angústia Ela não tinha canto algum para se recostar, senão nela mesma; um canto desarmônico, de melodia ensurdecedora e muda. E tudo aquilo que gritava era fundo, surdo, enquanto seu corpo revelava de si para si uma inquietação desconcertante; e ela se postava perante a angústia, crente, penitente, e ninguém ousaria imaginar os turbilhões que percorriam sua carne e ossos. Nada mais poderia dizer de si, senão da dúvida e da certeza que vinha tempestuosa, em corredeiras e redemoinhos, em ventos por corredores estreitos, ecoando nas madrugadas frias. O dentro e o fora eram tangentes; beijos de enlace, reconhecimento; beijos em escapada; desejo e ansiedade. Não saberia dizer de que matéria vinha esse humor angustiado, se do querer amar a si, o outro, ou a si própria revelada no outro, o outro que a fazia existir, uma percepção, uma reflexão de ângulo perturbador e encantador. Tinha para si que esse angustiar era o querer descobrir, e que o sentir dessa descoberta como negação, a deixaria irrefletida no viver, sem marcas de outros, daquele outro, o qual ansiava reconhecer; sem o qual viveria, mas diminuta, próxima do sentimento de finitude. Era urgente essa calmaria, esse outro a acalentar, a interpelar sem receios e julgamentos no ouvir, esse outro reflexo dela mesma nas sensações e lapsos de conclusões de cada parte de seu corpo e de sua mente. Inferia que essa angústia era desejo de amar e de ser amada...

Azeitonar Azeitonar Aquela reunião regada a vinho se repetira; Dessa vez era um Rosé, quase um licor de morangos excessivamente maduros, barato, mas degustado com prazer; com jeito de caro nas mesmas taças repetidas, ávidas pelos lábios; O vinho era fálico e o corpo amolecia; As falas reverberavam na alma e os ouvidos se distraíam e voltavam, sem pudor de não ouvir, de não ter qualquer parecer sensato a dar, senão o contemplar do aconchego e da familiaridade do instante; Na mesa o pequeno prato com azeitonas verdes e nas bocas o experimentar sedento das esperanças, verdes; E as verdes esperanças eram engolidas sem respirar entre os dizeres e risos já amarelados, querendo esverdear de novo, azeitonar, com o sal na medida e o oliva reparador...

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Sons e vãos do sem fim ‗E o sem fim pode ter cerca?‘ Quincas se perguntou numa dessas suas andanças diárias pra roça do Seu Pedro Ramiro, onde labutava com rebanho sem conta, em vastidão e solidão de campos. ‗Claro que pode‘, pensou consigo mesmo; ‗tem cerca que nunca acaba e vai mesmo é parar no sem fim; é só linha de céu que não se acaba e a cerca a correr por baixo; só mesmo quando a noite despenca sem estrelas é que não se avista mais o sem fim e nem a cerca...‘ Depois pôs-se a matutar da divisão, dos dois lados que dão sentido pra cerca, e angustiou-se dos limites, até que pensou mais e repensou; ‗cerca é só um limite falso de arame fino ou grosso, liso ou farpado; é muro desfiado, cheio de vão, onde uma terra dança com a outra; arranham-se ou se gabam de pular de um lado pro outro sem se machucarem, e assim os dois lados ficam ali vazados a escorrer paisagens, enquanto os donos ficam crentes dos limites. ‗Muro é bem pior‘, pensava Quincas, ‗porque não deixa ver‘. Certa vez Quincas foi visitar terra de casas muradas numa cidade sem campos. Havia só pequenas porções de campo com verdinhos escassos, a que chamavam canteiros, e ele se punha a lembrar era da cantoria dos campos abertos, dos mugidos, do vento e da chuva ressoando alto sem limites, mesmo com cercas pra todo lado. Ele achava sim que cerca era um tipo de muro, mas muro sem cola, só de enlace pra desfazer e cheio de janela sem fim. Nunca quis voltar na cidade dos muros e dos canteiros, que preferia mesmo era cerca e cantoria de campos, os sons e vãos do sem fim.


Fernando Krebs

Expíritêncialistas dissesse souseespiritualista , Talvez sofrem,você e etc e etc, que como este corpo demais, em excesso, e talvez eu fosse o que há de mais importante, e concordasse, dissesse que sim, que o sou, com toda a certeza, sou demasiadamente es-piritualista, e então eu diria que você é existencialista demais, quase que completamente existencialista – mes-mo sabendo ser isto impossível –, mas mesmo assim eu diria, sim, eu diria, e ambos concordaríamos, talvez eu com mais alegria que você, apesar de que você jamais admitiria, e eu notaria algo como uma espécie de ódio contido pulsando por baixo do seu rosto, e você tentaria disfarçar e daria um sorriso, um descarado sorriso for-çado, mas eu faria de conta que acreditava, sim, eu acreditaria para que pudéssemos continuar a nossa conversa, e eu te diria que não tenho opção, que este mundo é engraçado, confuso e ilusório demais, e que uma coisa que me ajuda é acreditar em algo maior e que pra mim é um verdadeiro desafio lidar com a mesquinhez e a maldade mundanas, conviver com os absurdos deste mundo, e aí sim você soltaria aquela gigantesca e monstruosa garga-lhada de sarcasmo, e diria que isso é bem a minha cara, fugir da vida ―real‖ – como se realidade fosse apenas o concreto –, viver no espaço e... e neste instante eu te in-terromperia, sim, eu atravessaria o teu raciocínio para afirmar com todas as letras que é exatamente isso, é com isto que eu sempre sonhei: viver no espaço; sim, na verdade eu sempre vivi no espaço, suspenso, apenas ob-servando, deslumbrado e contente com tudo, deixando que as coisas acontecessem, mas eu pediria para que você não se tornasse agressiva, que é assim que as coisas são, que um espiritualista não é melhor nem pior que um existencialista, que em ambos os casos existem os extremos – os intensos e os contidos – e

os equilibra-dos –, mas então eu diria que sim,tudo que bem, tudo tanto bem, faz... ocerto, que importa é sabertodo levar, mundo aceitar está no fundo o antagonismo, tudo é complementar, e também é existencialista, não há então você jáestamos faria umatodos cara emburrada e escapatória, no mesmo talvez começasse a dizer uns que era barco, presos e atados aos sempre outros, assim: velho lá vinha eu tudo comé esses de aquele papo: e não papos é, a gente é―paz sempre e amor‖, dois, ―tudo ou dez,está ou no mil... seuexistimos, lugar‖, e e―blá, somos blá, blá‖, espíritos, e então e eu somos diria que carne, sim,e somos que é isso pensamentos, mesmo, e eque, então sobeuum já estaria outro exausto, ponto de com vista, omeus existencialismo olhos cheios chegade a ser a coisa mais humilde, e lágrimas e o coração batendo abonita mil, e eu afirmativa história, pois e nós os veria que vocêdajá chorava a cântaros existencialistas se apegam completamente a esta simples nos abraçaríamos vidinha com tanto afinco, humilde com tantae mergulhados em nossa vontade, lutam, celebram, choram,e orgulhosa existualidade espiritualista sofrem, e etc e etc, como se este corpo fosse o que há de mais importante, e então eu diria que sim, que tudo bem, está certo, no fundo todo mundo também é existencialista, não há escapatória, estamos todos no mesmo barco, presos e atados uns aos outros, aquele velho papo: tudo é e não é, a gente é sempre dois, ou dez, ou mil... existimos, e somos espíritos, e somos carne, e somos pensamentos, e então eu já estaria exausto, com meus olhos cheios de lágrimas e o coração batendo a mil, e eu veria que você já chorava a cântaros e nós nos abraçaríamos completamente mergulhados em nossa humilde e orgulhosa existualidade espiritualista e fica-ríamos ali, unidos em toda a contradição das nossas vidas, como se não houvesse nada mais a ser dito nem descoberto, como dois seres que sabem a parcela de verdade que lhes é permitida saber, e daquele instante em diante decidem que a única coisa que realmente merece ser seguida é a ancestral intuição que brota eternamente no mais humano e desconhecido centro do infinito universo.

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fica-ríamos ali, unidos em toda a contradição das nossas vidas, como se não houvesse nada mais a ser dito nem descoberto, como dois seres que sabem a parcela de verdade que lhes é permitida saber, e daquele instante em diante decidem que a única coisa que realmente merece ser seguida é a ancestral intuição que brota eternamente no mais humano e desconhecido centro do infinito universo.


Tainá

JUST LIKE A SUNSHINE Wikipédia, pois nunca ouvir falar dele, mas adorei ouvi-lo. Ambos se conheceram nas gravações do filme The Go-Getter, no qual Zooey foi protagonista, e o diretor gostaria de por um dueto dos dois nos créditos. M. Ward encantou-se ao saber que Zooey compunha as próprias canções e a convidou para um duo de verdade. Desde então os dois gravaram dois discos e excursionam pelos Estados Unidos.

Dor de cotovelo. A estrada está cheia de corações partidos, lágrimas escondidas no canto do olho e palavras que um dia esperam ser ditas. Um não, um adeus, mudanças e outras alterações inexplicáveis destroem o dia, as semanas de alguém que amou e teve que desistir. Aos poucos, aquelas mudanças climáticas catastróficas param de acontecer e dão espaço para o sol secar o quintal e as flores podem mostrar seus rostos perfumados novamente. Dor de cotovelo já passou, e o peito está mais leve, de repente um estranho — ou uma estranha — sorri, meio sem querer, vira o rosto e segue. Sem perceber, o pescoço vira-se em busca de compreensão para aquele acontecimento. E por aí vai, até uma nova avalanche, ou uma era glacial. Nada melhor do que canções bobas de amor para traduzir os sentimentos daqueles desiludidos pelo amor. Pop Songs para nos salvar dos males do século, da vida acelerada — longe da estrada e perto das redes sem fios que nos apresentam a um milhão de coisas novas em segundos, sem que possamos aproveitar uma delas sequer. Em meio a

essa velocidade toda, recebi uma música por e-mail que alegrou minha morna rotina — sete-da-manhã-ônibus-trabalhotelefonemas-almoço-insosso-trabalho-péna-estrada-universidade-aula-cansativacasa-sono-rápido-etc. — e que falava do meu coração. Sentimental Heart. Sim, ele é deveras sentimental, apesar de calmo. Uma voz fina e agradável cantava sobre velhos hábitos ruins de desaparecerem, metades de um quebra-cabeça, e devoção amorosa. Apesar de já ter ouvido falar daqueles que contavam essa história toda, nunca procurei saber nada além sobre She & Him. É, simples assim: Ela e Ele. Para que mais? Vai do gosto de cada um. Suas músicas são tão simples quanto o nome. E é o que mais atrai quem ouve pela primeira vez: o fato de ser só aquilo. É! Exatamente pela falta de disfarce e firulas desnecessárias é que as músicas de She & Him apaixonam quem quer que os ouça. Ela é Zooey Deschanel, que ficou bem conhecida nessa Terra Brasilis com o filme 500 Dias com Ela (direção de Marc Webb) — sobre um rapaz que conhece uma garota —, e sempre gostou de cantar, segundo ela própria. Ele é M. Ward (Mattew Ward), cantor, compositor e produtor musical — segundo a

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Um on the Road musical e retrô. As músicas são um misto de folk, country e balada anos setenta, tudo sob um céu primaveril. Eles dizem isso no site oficial: uma eterna primavera. Apesar dos reveses, dos foras e adeuses, aquelas bruscas partidas, mudanças de comportamento e omissões, há um lindo sol brilhando logo mais, ali, onde mesmo se espera. Simplicidade e pureza fazem o espírito dos sons que saem das cordas do ukele, violão e guitarra. Um sorriso sempre surge dos lábios daqueles que vagavam sorumbáticos por este ou aquela rua, sem destino, eira, nem beira, ao ter contato com as melodias doces de She & Him, feito bolo de chocolate com marshmellow. Um adorável remédio para dias iguais e céu nublado. É poder ser adolescente sem ter que pedir permissão para voltar mais tarde. Pode ficar por lá.


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Beatbrasilis 5  

Agosto/2010

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