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R REPORTAGEM

POSSO PRATICAR DESPORTO?

INSPIRA-TE NESTES EXEMPLOS...

Para te inspirares a começar a praticar desporto ou continuar a tomar a pílula do bem-estar, lê este artigo. Afinal devemos calçar as sapatilhas em qualquer situação? Por: Isabel Pinto da Costa Fotografia: Fotolia

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pesar de o desporto estar a crescer em número de praticantes sabemos que a maioria das pessoas não pratica regularmente exercício físico. Para te inspirares fomos entrevistar três pessoas que são um exemplo de determinação. É a prova de que se quisermos conseguimos começar ou manter-nos ativos. Apesar de terem sido diagnosticadas doenças que de repente mudaram a vida e seriam à partida limitativas continuaram a treinar como nunca para se superarem a si próprios. E tu, o que vais fazer? 024 | janeiro


DIABETES > Posso correr se for diabético/a? «Deixo aqui a mensagem que costumo transmitir nas minhas palestras motivacionais: se te conheceres a ti próprio, tiveres o acompanhamento médico necessário e levares na mochila o que precisas, podes fazer tudo o que quiseres! Sempre pensei que os sonhos se inventaram para serem cumpridos; se tens um sonho luta para o conseguir. Não há nada impossível e é preciso desfrutar cada segundo».

Durante uma prova longa, a cada 2h a 3h, tenho que ver os níveis de glicémia e injetar com insulina caso seja necessário... Com 33 anos, Bea Garcia Bercé cruzou-se com a Sport Life em Itália, num convite feito pela Soul Running, revista italiana de trail, para correr no Monte Sibilini. Houve empatia desde o primeiro momento. Ainda quando estávamos no carrinha que nos iria levar do aeroporto de Roma para o hotel Domus Laetitiae em Ussita, onde íamos ficar alojados e daí começar o trail, Bea picou o dedo. «Sou diabética », explicou a jornalista da TV3 em Barcelona, «preciso de verificar os níveis de glicémia de vez em quando». Fiz uma expressão de surpresa pelo que a atleta se apressou a esclarecer naturalmente, como quem já tinha dito a mesma frase milhares de vezes: «As pessoas ficam admiradas e têm pena de mim mas eu estou habituada. A mim não me afeta minimamente, descobri que tinha diabetes aos 10 anos». É também desde pequena que Bea pratica desporto e em 2007 começou a fazer corridas de aventura e correr trails longos. Deserto, alta montanha, gosta de correr em meio natural. Para se preparar para as provas treina no ginásio, anda de bicicleta, faz esqui, pratica trekking, corre… tudo conta para ter uma excelente preparação física necessária principalmente a nível da resistência para participar neste tipo de competições. A doença é secundária na sua vida, uma vez que a única diferença, segundo

ela própria conta, é ter que se picar várias vezes e injetar insulina também diversas vezes. Não se sente limitada, antes pelo contrário, o único senão é levar a mochila um pouco mais pesada do que os outros corredores. «Durante uma prova longa, a cada 2 a 3 horas tenho que me picar para ver os valores de glicémia e injetar com insulina caso necessário, segundo os valores que tiver, o tipo de percurso que ainda me falta correr e a distância para alcançar a meta. Teria que abandonar a corrida se por acaso me faltasse comida ou suplementos ou se não tivesse comigo o material necessário para controlar a diabetes ou ainda, por exemplo, se houvesse uma ferida infetada pelo risco que representa em pessoas diabéticas», explica Bea. As pessoas ficam admiradas quando sabem que uma diabética participa em provas tão longas, embora, com os cuidados certos, não exista qualquer problema para a Bea. E prova disso é que não tem havido qualquer complicação nem em treino nem sequer em prova. «Os médicos tentam aconselhar-me o melhor que podem para que eu corra em segurança e terminar as provas sem problemas, arriscando o mínimo possível; já aprendi que como há muito poucas pessoas na minha situação, tenho que decidir e agir mais segundo a minha própria experiência. Tem corrido bem!»

Sinais de alerta

Há vários sinais de que a pessoa pode estar diabética ou pré diabética mas existem três muito básicos que convém saber: Ter muita sede; Emagrecer muito; Ter fome.

BI desportivo Bea Garcia Bercé Data de nascimento: 23 de junho de 1981 Profissão: jornalista TV3 em Barcelona Modalidade: Ultra Trail – Corrida de Montanha de longa distância Resultados desportivos: 4º Lugar‘Ultra Iniciàtic Andorra’; 2º Lugar The Last Desert Antarctica 1º Lugar Ultra Trail Tabernas Desert Provas favoritas: Os 4 Deserts em Atacama; China; Sáhara e Antártida

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DOENÇA CARDÍACA

BI desportivo António Vasco Leal

> Posso correr se tiver tido um ataque de coração? «Com ou sem problemas devemos sempre começar a atividade desportiva com moderação e perceber como é que o nosso corpo está a reagir ao estímulo e principalmente a nossa cabeça. Seguir sempre os conselhos do médico que nos acompanha. E sobretudo nunca desistir, ‘passar por cima da dor’ como diz um amigo meu. Quem pratica desporto sabe que vai ter que abdicar de algumas coisas embora vá ganhar muitas mais…»

Data de nascimento: 16 de julho de 1959 Profissão: Professor (não colocado) Resultados desportivos: No triatlo supersprint fico quase sempre nos primeiros lugares no meu escalão Modalidade: Triatlo Provas favoritas: Triatlo do Estoril embora no Triatlo de Lisboa tenha desfrutado de uma maneira diferente por ter sido o primeiro em que participo depois de ter tido um ataque de coração.

Sinais de alerta

Nem sempre um ataque de coração tem sinais claros de que se trata efetivamente desse problema. É necessário estar alerta para agir a tempo de nos salvarmos sem danos. «No meu caso comecei a sentir azia quando comia qualquer coisa; no dia que aconteceu foi uma dor insuportável e eu suporto bem a dor. Quando isto acontece devemos chamar o 112 porque o nosso coração está a morrer e quanto mais tempo passar maiores os danos que ele vai sofrer.»

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Escolhi o triatlo porque me dá especial gozo: faço pelo menos duas modalidades por dia sete vezes por semana! Como apreciava modalidades relacionadas com água, foi com 16 anos que os amigos convenceram Vasco Leal a iniciar-se no remo, modalidade em que competiu durante 12 anos. Atualmente com 55 anos, Vasco é triatleta e treina para preparar os três segmentos que compõem este desporto. «Faço 40 a 50km de bicicleta logo de manhã ou então rolos caso esteja a chover muito, depois corro ou então nado na piscina onde também dou aulas de natação. Faço sempre pelo menos duas modalidades por dia sete vezes por semana». Escolheu o Triatlo porque é uma modalidade que lhe dá especial gozo praticar e participar em provas, já que o fator competição está sempre presente: «Para mim competir é uma maneira de estar na vida, sou assim em tudo». Ainda que a meta principal para Vasco seja divertir-se, os objetivos passam por melhorar os tempos. Antes de se dedicar ao triatlo, Vasco praticava musculação, e treinava no ginásio todos os dias. Tudo mudou a 29 de abril de 2011, dia em que teve um enfarte agudo do miocárdio, vulgo ataque de coração. Depois da

recuperação a vida deu uma reviravolta. «Deixei o ‘ferro’ e passei a correr, nadar e a andar de bike. Na altura do ataque de coração pesava 82kg, hoje o peso oscila entre os 63kg e os 65kg. Quando a Sport Life lhe perguntou o que de facto alterou na vida dele, conta-nos que o enfarte diminuiu a atividade do coração, o que se traduziu numa performance inferior ao que ele pretendia. Mas mesmo assim as coisas correram bem:«De qualquer modo consigo treinar duas vezes por dia e participar em várias provas por ano. Nunca me senti mal em prova mas também não penso nisso e não deixo que isso me incomode.» Vasco faz do desporto um estilo de vida mesmo sem ter uma explicação racional «Porque gosto e ponto final. Uma vez li um livro que se chamava ‘Porque Corre Sam’ em que o protagonista corria porque era uma maneira de viver. Não existe explicação para se ir correr quando chove a cântaros ou está um frio de rachar; eu corro sempre em qualquer circunstância. Fico molhado, todo sujo de lama mas feliz porque simplesmente fui correr».


ESPECIALISTA SPORT LIFE RODRIGO RUIVO

HIPERTENSÃO

> Posso praticar desporto se for hipertensa? «Só o médico pode dizer mas com os devidos cuidados é possível. E o desporto tem muitas vantagens, principalmente de ar livre.»

Sinais de alerta

Se existir dificuldade em adormecer ou dormir durante toda a noite um sono agitado, alguma irritabilidade ou inquietação. Dores de cabeça ou tonturas em condições de stresse psicológico ou esforço físico; Falta de ar, dor no peito, e/ou aperto no peito durante o esforço podem ser sintomas de doença cardíaca possivelmente desenvolvida por causa da hipertensão continuada. Valores de alerta (90 de tensão arterial mínima 140 tensão arterial máxima).

BI desportivo Anabela Pinto Data de nascimento: 9 de junho de 1965 Profissão: Professora Modalidade favorita: BTT e ciclismo Provas favoritas: Todas em que puder participar

É necessário fazer exames, ter cuidados acrescidos com o sal, café e outros aceleradores... Anabela Pinto, de 49 anos, começou aos sete anos a praticar desporto, sempre mais direcionada para o multidesporto como a natação, corrida, ginástica e yoga. Quando somos crianças somos normalmente incentivados sempre por alguém mas na idade adulta treinamos porque assim o desejamos. Hoje dedica-se mais ao ciclismo e BTT, desporto que a faz sentir muito bem. «O dia de treinos começa nas vésperas com a planificação mental, que passa pelo tempo, a distância, as localidades a passar, sem esquecer os cuidados alimentares a ter no dia anterior e no próprio dia.» Anabela pratica desporto porque gosta do contacto com as outras pessoas e com a natureza conseguindo ao mesmo tempo adquirir a performance que sempre desejou. Um dia percebeu que alguma coisa não estava bem quando o cardiofrequencimetro mostrou valores não usuais. «Comecei a ficar atenta até que na véspera de Carnaval de 2012 me senti desfalecer. Levaram-me de urgência para o hospital. Foi a partir daí que recomecei uma nova vida adaptada à medicação para a hipertensão. E meço a tensão arterial uma vez por semana», conta Anabela. Para perceber o que se tinha passado, a ciclista aprofundou as causas da doença uma vez que tinha surgido repentinamente sem razão aparente. «Por autoria própria senti necessidade de saber a origem da hipertensão, juntando a isto valores elevados de colesterol, embora o bom também estivesse alto. Fiz exames médicos, ECG, prova de esforço, ecocardiograma e análises. Tudo para despistar uma causa fisiológica ou hereditária. O cardiologista concluiu que foi a hereditariedade que despoletou tudo isso», explica Anabela. Claro que existem riscos inerentes à prática desportiva e a nossa atleta está bem consciente deles, controlando com maior frequência os valores que o relógio lhe mostra. Deixa um conselho que pode ser aplicado a qualquer pessoa, até porque a hipertensão pode ser uma doença silenciosa. « É necessário fazer exames, ter cuidados acrescidos com a alimentação, quer na percentagem de sal, quer com o café ou outros produtos ativadores do metabolismo. Usar corretamente um cardiofrequencímetro que vá informando sobre a pulsação e medir a tensão arterial uma vez por semana. É conveniente estar alerta!» Uma coisa é certa, Anabela não vive sem desporto. « Com o desporto sinto-me liberta, consigo degustar a natureza e saborear a auto-competição dia a dia!»

Qualquer pessoa pode praticar atividade física? Nos tempos atuais é comumente aceite que a prática de atividade física tem um papel primordial na prevenção e tratamento de inúmeras doenças e na melhoria da qualidade de vida. A prática de atividade física, no geral, apenas acarreta benefícios e não provoca problemas cardiovasculares em adultos saudáveis. No entanto, é imperativo perceber-se que existem um conjunto de situações clínicas, cuja presença desaconselha a prática de atividade física. Quais os cuidados a ter? Independentemente do nível de condição física, objetivo de treino ou contexto desportivo em que nos queiramos inserir é essencial que se realize uma avaliação prévia de saúde. Sem esta avaliação não conseguimos garantir o máximo de segurança na prática. Esta avaliação de saúde, que pode ser mais ou menos exaustiva, deve ser capaz de estratificar o risco cardiovascular do sujeito. No contexto desta prévia avaliação por vezes haverá necessidade de recorrer a examens complementares de diagnóstico para esclarecimento de determinadas situações clínicas. Muitas das vezes recorre-se à aplicação de um questionário que se denomina de PAR-Q&You (Physical Activity Readiness Questionnaire & You) ou a uma consulta de Medicina do Exercício. O ideal é o recurso a uma avaliação Interdisciplinar aproveitando a sinergia e complementaridade de saberes entre o Médico e o Técnico de Exercício Físico. Devemos: - Procurar uma supervisão técnica qualificada. A avaliação e prescrição de exercício deverá ficar a cargo de técnicos qualificados para o efeito. Se quisermos projetar uma casa recorremos a um arquiteto, se necessitarmos de apoio jurídico consultamos um advogado, portanto, porque não seguir a mesma lógica? -Respeitar os limites do nosso corpo e os princípios de progressão da carga. Indivíduos menos condicionados fisicamente deverão iniciar prática de atividade física a intensidades menos elevadas; - Treinar sempre com companhia. Rodrigo Ruivo é Mestre em Exercício e Saúde, Dir.Dep. Desporto Club Clínica das Conchas, Docente ISCE Curso de Educação Física, Certificado ACSM www.clinicadasconchas.pt

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Posso Practicar Desporto?  

Sport Life Portugal

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