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Escolas João de Araújo Correia

N.º 26

Junho 2021


ÍNDICE 02 03 05 06 07 08 10 11 13 14 15 16 17 19 21 22 23 24

Editorial - O verso e o reverso... A. Marcos Tavares Amor, amores ou biologia Ana Paula Lopes Fragmentos de uma pandemia Estela Maria Ferreira A viver em lockdown Inês Magalhães A marca da máscara Joana Almeida Avivar consciências para os DH José Ribeiro, José Pedro e Nuno Ferreira Sonhos Carolina Cantante Almeida

da História: 25 abril de 1974 25 Histórias CE Alagoas - Catarina Pina e Ana F. Cardoso 27 Vários CE Alagoas - F. Teixeira e Laura Gonçalves 28 Vários CE Alagoas - Marta Rocha e M. Carneiro com os olhos 29 Lemos CE Alagoas - Guilherme Ferraz e confinamento 30 Liberdade CE Alameda - Turma do 4.1 e depois do Covid 31 Antes CE Alameda - Benedita Mota título 32 Sem CE Alameda - Turma do 4.2

Melhorar amanhã o que somos hoje Mafalda Fonseca, et al.

TRIBUTO: MARCOS TAVARES

Parábola do Cágado Velho, de Pepetela Joana Gouveia

título 33 Sem Leandro Andrade isto é um homem" 35 "Se Margarida Quintela sobre os DH 36 Reflexões Ana M. Macedo, et al. da música 38 ELúciaemoção Lopes e os outros 39 Uns Agostinha Araújo 40 AsJoséimagens Artur Matos sempre aparece! 41 AVítorluzBriga Take these bridges away 43 João Andrade Rebelo 44 Ansiedade João Pimenta desabafo para ti, Covid 45 Um Rafaela Costa

Globalização e Direitos Humanos Vera Osório Tempos de hoje Rui Lopes A Heartbeat away Fernanda Sousa Um imperativo de consciência... Manuel Ferreira "Revelações de uma máscara" Conceição Dias What do my eyes tell you? Lara Campelo What do my eyes tell you? Bruna Resende What do my eyes tell you? Francisco Almeida What do my eyes tell you? Margarida Vicente

cultura, a arte e a história... 46 AAntónio Coutinho porta fechada 47 Aquela Marta Magalhães sem título) 48 (Ainda Carla Cabral Algumas notas 49 Pandemia. Cristina Trindade de uma máscara" Diana Teixeira 50 "Revelações de ti, de mim e de todos 51 Saudades Maria isabel Ribeiro livre em tempos de pandemia 52 Ser Sofia Silva é um ator 53 OA.professor Marcos Tavares aflita 55 Máscara Matilde Ribeiro 56 Pandemia Anita Fonseca descoberta 57 ÀJoana Mendes O céu acima do céu 58 Cumolonimbus. Carlos Bao se pode aproveitar 59 Algo Adriana Mota e mente bem aberta 60 Olhos Ana Velho do conceito de beleza... 61 Padronização Marta Guedes desconhecidas, de Raúl Brandão 62 AsRaúlilhasSaraiva moralidade nos dias atuais 63 AKarolline Ferreira 64 OSónianomeLopesdos dias da semana


Editorial O verso e o reverso da pandemia

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o Editorial do nº 25 da Pensar(es), em junho de 2020, dissemos que, face à invasão galopante da pandemia, queríamos associar a revista a um alerta fundamental: «não nos descuidemos, aproveitemos a ocasião para mudar radicalmente o nosso estilo de vida, as nossas atitudes face ao todo que é a mãe Natureza». Hoje, um ano depois, a pandemia continua a galopar e as atitudes dos humanos não mudaram muito. A par de um dignificante cenário de abnegação e de entrega, por parte de alguns, assiste-se a um retrocesso considerável da fortaleza psíquica de muitos, dando lugar a regressões e brutalidades. Verificam-se fenómenos muito dececionantes de desmoralização, de ressentimento e de violência. Ao lado de ações nobres e de esforçada generosidade de muita gente que não esteve à espera de que houvesse «condições adequadas», mas se lançou nos hospitais e nas ruas na ajuda aos necessitados, observam-se atitudes de puro egoísmo, de ganância, de açambarcamento. Ao lado da atenção, da disponibilidade, do denodo e do compromisso de quem, enfrentando o perigo, se entrega aos outros, persiste o salve-se quem puder: o mundo não foi capaz de chegar a acordo nem sequer numa situação excecional. A distribuição das vacinas é bem ilustrativa – os países pobres continuam sem vacinas, porque os países ricos reservam para si toda a produção interna, como acontece nos EUA e no RU. Quando satisfeitos, farão alarde da sua benevolência, distribuindo as migalhas, tarde e a más horas, pelos pobres. A pandemia veio revelar a hipocrisia humana. Foi pretexto para muitos se aproveitarem de outros e fugirem às suas responsabilidades; foi ocasião para trazer à luz do dia situações que eram antigas mas a que não se prestava atenção. Sirva de exemplo a situação dos migrantes nas empresas (agrícolas, de construção civil): desde há muito que era pública a exploração inaceitável por parte de máfias e de empresários sem escrúpulos, mas nunca nada se fez. Foi necessário o surto pandémico no concelho de Odemira para que a situação se tornasse pública nos órgãos de comunicação social. A pandemia veio por a nu a fragilidade da condição humana. As últimas imagens trágicas da Índia, com doentes espalhados por carros e ruas, a agonizar sem oxigénio; aquele médico que, com profunda mágoa, se queixava de que o obrigavam a uma tarefa que não era sua, mas dos deuses: ele, simplesmente humano, não podia determinar quem salvar e quem condenar à morte. «Sou um mero ser humano que não pode decidir sobre a vida de outros seres humanos». A pandemia veio desvelar o melhor e o pior da natureza humana. Nota Final - Depois de ter assinado os Editoriais dos últimos 16 anos, é hora de entregar a outros esta tarefa. Será este o último. Muito obrigado a todos os leitores da Pensar(es). Encontrar-nos-emos por aí, pelos caminhos da vida. A. Marcos Tavares


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Amor, amores ou biologia Ana Paula Lopes . Professora de Filosofia

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amor é provavelmente o afeto que mais instigou o pensamento humano ao longo dos séculos. Todas as grandes mitologias, todas as grandes religiões, discutiram de forma profunda a questão do amor. No pensamento filosófico Platão foi o primeiro a escrever um tratado sobre a questão do amor, a sua obra O Banquete. Depois dele quase todos os grandes filósofos abordaram a questão do amor: Aristóteles, Epicuro, Schopenhauer, Nietzsche, Foucault, entre outros. Na arte a omnipresença do amor é indiscutível, desde a pintura à literatura são inúmeras as obras de arte onde o amor é representado e enaltecido. Muito se tem escrito sobre o amor ao longo da história da humanidade. A literatura está repleta de casos de amores e desamores, encontros e desencontros, finais felizes que nos fazem acreditar que o amor é a força que eleva o ser humano. Mas, por amor se mata e por amor se morre. O amor liberta-nos e transforma-nos em prisioneiros. O amor humaniza-nos, mas pode, também, tornar-nos monstruosos. O amor é eterno, mas não raras vezes, acaba logo ali. Que sentimento é este? O que está na sua origem? Qual é verdadeiramente a sua natureza? Pode o amor ser a solução (para os males da humanidade) ou é o amor um problema? A psicologia do amor define esse sentimento como sendo um estado psicológico qualitativamente diferente do gostar, isto porque, ao con-

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trário do gostar, o amor inclui elementos de paixão, proximidade, deslumbramento, exclusividade, desejo sexual e uma preocupação intensa. Mas, para que melhor se compreenda o que é o amor, a psicologia apresenta e define diferentes formas de amar: amor romântico, amor possessivo, amor cooperante, amor pragmático, amor lúdico e amor altruísta. Independentemente da forma de amar, o amor é em si mesmo um problema, pelo menos do ponto de vista filosófico. Os diferentes tipos de amor parecem não esgotar a dimensão ou abrangência do sentimento e as perspetivas apresentadas por diferentes pensadores ao longo dos tempos tendem para uma visão parcelar e reducionista, enquadrada numa das tipologias. Enquanto a resposta à pergunta “O que é o amor?” for subjetiva, continuará a ser uma pergunta aberta à


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discussão. E o caráter existencial do amor, porque não podemos falar da existência humana sem a enquadrar numa teia de vínculos, proximidades e afetos, faz dele um problema filosófico. Até onde posso ir em nome do amor? Como conciliar o amor com a dimensão ética? O amor é um sentimento imanente ou transcendente? A experiência mostra-nos que vivenciamos diferentes emoções/sentimentos e que somos condicionados nas nossas ações pelos nossos estados de alma. Um maior e melhor conhecimento do psiquismo humano poderá ajudar-nos a compreender, de forma mais objetiva, o que ocorre em nós quando somos assaltados por diferentes tipos de sentimentos. Investigações na área da neurologia apontam para que, longe de ser algo metafísico, o amor é fruto de alterações do funcionamento do cérebro e, geralmente, subdivide-se em algumas fases muito específicas. A primeira fase, a paixão, é caraterizada por ser de grande intensidade e curta duração. Esta emoção é regulada por fatores endócrinos, pela ação de hormonas e neurotransmissores, que agem sobre o corpo e de forma muito específica sobre o cérebro. Quer a alta motivação, quer a saudade do ser amado, resultam de alterações nos circuitos neuronais do individuo apaixonado. No estado de paixão, a oxitocina e a vasopressina, pequenos compostos químicos, agem localmente no cérebro e estão associadas ao apego, à conexão formada entre o casal e à preferência que se manifesta por uma pessoa em particular. Também a dopamina exerce um papel importante no individuo apaixonado. A paixão é um estado hiperdopaminérgico, gerador de grande motivação e prazer associados a uma maior ativação dos circuitos de recompensa. Durante a paixão, os níveis de serotonina caem (tal como acontece em transtornos obsessivo-compulsivos) provocando permanentemente ideias invasivas da pessoa amada, bem como a vontade de estar sempre na companhia do outro. Indivíduos medicamentados com substâncias antidepressivas, que elevam os níveis de serotonina no cérebro, tendem a apresentar menor intensidade dos sintomas da paixão. O cortisol, associado às respostas do organismo ao stress, aumenta durante a paixão provocando sintomas

de euforia, ansiedade e insegurança. Acresce que, durante o estado de paixão, o funcionamento das áreas pré-frontais do córtex cerebral (local onde ocorrem os processos mentais e cognitivos mais complexos, responsável pelo controlo dos impulsos e pela tomada de decisões conscientes) fica inibido, provocando comportamentos semelhantes aos observados em estados de demência. Desta forma, para as neurociências, o amor apaixonado assemelha-se a um estado hipermotivacional, de demência temporária, com caraterísticas de stress, obsessão e compulsão. Os estudos realizados mostram que as alterações químicas e funcionais verificadas no cérebro derivadas da paixão tendem a durar de doze a vinte e quatro meses. Embora esta abordagem nos pareça uma perspetiva mais fria e mais triste acerca deste tipo de amor, pelo menos tem o mérito de nos fazer compreender porque dizemos que estamos perdidamente apaixonados: no máximo, ao fim de vinte e quatro meses, voltamos a reencontrar-nos. Talvez o desenvolvimento das neurociências traga um olhar mais esclarecido sobre o amor. Talvez nos consiga explicar o que acontece quando amamos e porque amamos. Até lá, fico-me pelas palavras de quem, mesmo privado de um olho, via mais longe… Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer; É um não querer mais que bem querer; É solitário andar por entre a gente; É nunca contentar-se de contente; É cuidar que se ganha em se perder; É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata lealdade. Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor? Luís de Camões


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Fragmentos de uma pandemia As estrelas brotam o Céu, E o azul ofegante Da imensidão Inebria os dias. Clamores infundados De espasmos grotescos Toldam a mansidão Dos afetos. O olhar ternurento do entardecer Desperta o compromisso. Velas acesas de dor, Flores reinventadas De ternura Redescoberta do «eu» Prioriza o nascimento da vida… Sem ser, Sem acontecer, Sem enobrecer, Apenas o imortaliza! Estela Maria Ferreira. Professora de Filosofia

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A viver em lockdown Inês Magalhães . Aluna do 10.º C

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iver e saber viver são duas noções dissemelhantes. O verbo viver consiste na aceitação deliberada das condições que não se podem alterar, enquanto a segunda revela-se mais complexa. Saber viver é degustar novas realidades e superar obstáculos aterradores. É mergulhar num oceano, profundo e medonho, para aqueles que se limitam à vivência, ou claro e desafiador para aqueles que possuem a arte de ler o que não está escrito.

Ficar longe dos entes queridos, recear um inimigo invisível que nos espera nos afetos e na convivência e usar máscara que dificulta a respiração e a transmissão de expressões. Sorrir, não desistir, ficar em casa e abraçar o novo dia sem desesperar, são ingredientes preciosos para a superação desta batalha que enfrentamos juntos, mas afastados, no mínimo dois metros. E assim nasce uma geração guerreira, fechada em casa!

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A marca da máscara Joana Almeida . Aluna do 12.º F

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meio de março de 2020, inicia-se uma nova realidade para todos nós. Começa o país a fechar, o uso obrigatório de máscara em todos os lugares, a privação de estar com a própria família, algo que era impensável aconteceu. Agora, passado mais de um ano, é possível tirar algumas conclusões, quer dizer, algumas é ser bastante benevolente. Então, encontro-me no 12.º ano de escolaridade e a verdade é que tenho mais recordações do tempo em que passei em casa a ter aulas através de um computador do que as aulas ditas “normais” numa sala de aula, o que era inimaginável quando iniciei o secundário. O que é certo é que o meu 11.º e 12.º ficou e está a ser marcado pela palavra pandemia, mais especificamente Covid-19. Tenho pena por todos os meus colegas e eu termos sido privados de ter, por exemplo, as viagens de estudo que era para nós uma das alturas preferidas, sair da escola para aprofundar o nosso conhecimento, para complementar o que é estudado entre as quatro paredes, a sala de aula. Sim, e para também “fugirmos” um bocadinho ao tempo de aulas, claro, acho que não há um único estudante que não partilhe desta mesma opinião. Focando-me agora apenas na nossa aprendizagem, apesar de termos tido as aulas on-line, falo por mim, sinto que não foi absorvida a matéria da mesma forma do que se fosse presencial. Falta-

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va o contacto com o professor, a facilidade em perguntar algo que não tivéssemos percebido à primeira explicação. Com o tempo fomo-nos habituando, mas foi extremamente difícil termos de estar “presos” em casa, sem poder estar com os amigos, família, com quem quer que fosse. No entanto, apesar de já não estarmos em quarentena, temos de estar sempre acompanhados pela implacável máscara, cumprir o distanciamento físico, basicamente cumprir todas as normas que nos são impostas pelo governo. Concluindo, só nos resta esperar até chegar o dia em que possamos abraçar, beijar e demonstrar o nosso afeto ao outro sem qualquer risco de ficarmos infetados e, finalmente, ficarmos totalmente livres da palavra pandemia que tanta gente levou e feriu.


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Avivar consciências para os Direitos Humanos João Ribeiro, José Pedro e Nuno Ferreira . Alunos do 12.º A

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Declaração Universal dos Direitos do Homem, publicada oficialmente em 1948, reconhece a todos os homens e mulheres do mundo direitos iguais e inalienáveis, de modo a garantir-lhes a sua liberdade e dignidade. Ao considerar que todas as nações, em estreita colaboração com a Organização das Nações Unidas, se comprometeriam a respeitar, universalmente, todos estes direitos, poderse-ia afirmar que a justiça, a paz, a solidariedade e o bem-estar dos povos seriam uma realidade. Infelizmente, a aplicação prática destes direitos tem sido, muitas vezes, uma utopia. Desde então, até hoje, um pouco por todo o mundo (em alguns lugares de forma muito mais flagrante), temos assistido a inúmeros desrespeitos pela vida humana e quem dedica a sua vida a lutar por tais direitos é ameaçado, morto ou silenciado. Em boa verdade, o lugar onde nascemos, a classe social a que pertencemos, a cor da nossa pele, os nossos valores, as nossas crenças são traços identitários, mas diferenciadores e geradores de discriminação, discórdia, privação de liberdade (expressão /ação), de saúde, de segurança, de defesa e até da própria vida. “Ninguém será submetido a tortura nem a punição ou tratamento cruéis, desumanos ou degradantes”, é afirmado no artigo quinto desta Declaração. Porém, todos sabemos que há quem exerça o poder político ou desempenhe cargos de

chefia e se julgue no direito de utilizar quaisquer meios à sua disposição para atingir certos fins. A tortura física e mental faz parte desses meios. Assim, maltratar para obter uma confissão de um suspeito, usando a tortura, ainda é hoje uma prática usada. Lembremo-nos de Ihor Homenyuk, que morreu às mãos de três inspetores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). Foi agredido, algemado, os pés atados por ligaduras e, apesar de profundamente ferido, foi isolado, como um animal selvagem e perigoso. Agonizou durante sete horas até à morte. Onde estão os direitos humanos? Apesar de ser proibido aos Estados utilizarem métodos desumanos e degradantes para atingir os seus objetivos (geralmente para forçar a falar ou para obter uma informação), estas situações ainda ocorrem de forma velada, todavia denunciadas graças aos meios de comunicação social. É comummente afirmado e está mencionado no artigo vigésimo quinto que “todos os seres humanos têm direito a um padrão de vida capaz de assegurar a saúde e bem‑estar de si mesmo e da sua família, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis…”. Mas será que esses cuidados são assegurados de igual modo para todos? No nosso país, ainda se constatam situações nas quais não há garantia de um acesso regular a uma alimentação suficiente, adequada e cultural-


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mente aceitável, para uma vida sã e ativa. Uns não conseguem realizar este direito porque não o sabem fazer, pois não têm literacia suficiente para boas escolhas alimentares. Outros porque não o podem fazer, visto que não têm condições económicas que o permitam. Mas, se formos a África, estas condições ainda são mais miseráveis e chocantes! Envergonham-nos, certamente! E no que diz respeito à saúde? Teremos todos, de igual modo, acesso a cuidados médicos de qualidade? Ainda continuamos a ter um Serviço Nacional de Saúde superlotado para a classe baixa e média baixa e Hospitais privados para as classes média alta e alta. E a habitação? O Bem-estar? Quem pode compra a sua própria moradia ou apartamento no centro das grandes cidades, com um grande leque de possibilidades para ser feliz: viatura própria e diversidade de espaços de entretenimento, culturais e de lazer. Quem vive do salário mínimo nacional ou de baixos rendimentos trabalha nas grandes cidades, mas vive na periferia, em bairros sociais, “com a família apertada”, sem condições, necessitando de apanhar múltiplos transportes, sem disponibilidade e dinheiro para se distrair da pesada rotina semanal. Dizer que “estes” têm “direito à segurança em caso

de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora do seu controlo”, às vezes fica mesmo no papel! Ninguém pode ficar indiferente à forma como a sociedade trata os idosos: frágeis na saúde física e mental são “atirados” para os lares, muitos deles sem condições e completamente esquecidos das suas famílias. “A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças (…) gozarão da mesma proteção social”, ainda acrescenta o artº25, contudo é esta a realidade que observamos no nosso país? Quantas crianças morrem ou ficam deficientes à espera de uma cesariana que não é feita em tempo útil para poupar dinheiro ao hospital? Quantos quilómetros são percorridos em ambulâncias para chegar ao hospital com o parto feito?… A pobreza deixa, efetivamente, o ser humano vulnerável e, em Portugal, só a televisão e as redes sociais podem fazer alguma diferença nas suas vidas. Denunciar é, muitas vezes, retirar esta gente do anonimato e dizer que são gente, a melhor forma de avivar consciências para os Direitos Humanos!


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Sonhos Este mundo é cruel Cheio de perigos e escuridão Por isso é que a sonhar Está sempre o meu coração Nos sonhos tudo é belo Não me posso magoar Mas a realidade Também não me pode apanhar Se isso é bom ou mau Ainda não me decidi Pois passo lá tanto tempo Que parece que não vivi Lá, estou em paz Há sempre alegria Mas sozinha fico Não tenho companhia Será que vale a pena? Começo a duvidar Devo voltar à realidade Ou continuar a sonhar? Lá estou bem mas estou sozinha Cá estou mal mas tenho companhia Se tivesse de decidir agora Não sei qual escolheria

Carolina Cantante Almeida . Aluna 11.º C


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Melhorar amanhã o que somos hoje Mafalda Fonseca, Maria Ribeiro e Maria Teixeira . Alunas do 12.º

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Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela Organização das Nações Unidas a 10 de dezembro de 1948, surgiu na sequência da Segunda Guerra Mundial. Neste conflito morreram vários milhões de pessoas, militares e civis, por todo o mundo. O holocausto, que vitimou milhões de judeus e ciganos às mãos da Alemanha nazi, foi a negação da Humanidade. Com a aprovação desta Declaração, as nações enunciam um conjunto de direitos comuns a todos os Homens, independentemente da nacionalidade, sexo, etnia, religião ou orientação política. Portugal, como membro da ONU, também aprovou esta Declaração e comprometeu-se a respeitá-la e a promover o seu respeito pelas outras nações. Embora este documento seja composto por trinta artigos, abordaremos com maior pormenor apenas três dos artigos: o 1º, o 3º e o 26º. O artigo 1º defende a liberdade e igualdade de todos os seres humanos à nascença. Reafirma a dignidade da pessoa e o espírito de fraternidade. Este artigo é fundamental, pois ao afirmar que “todos os seres humanos nascem livres” recusa a existência de pessoas que nascem sem liberdade, isto é, escravas. Por outro lado, reforça a ideia de igualdade de todos em direitos e em dignidade, recusando a ideia de que alguns nascem dotados com menos regalias por serem oriundos de

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famílias, etnias ou comunidades menos privilegiadas. Infelizmente, após tanto tempo da aprovação desta Declaração, continuamos a ter situações de escravatura um pouco por todo o mundo. Os seres humanos continuam sujeitos a todo o tipo de exploração. As desigualdades à nascença estão longe de estar resolvidas e continuam a crescer. Este direito continua a ser uma simples miragem em muitas regiões do planeta. O artigo 3º protege o direito à vida, à liberdade e à segurança de cada um. Este artigo defende o bem mais valioso de cada ser humano: a sua própria vida. Reforça o direito à vida de cada um, mas, mais do que uma simples existência, reconhece como fundamental uma vida em liberdade e em segurança. Por todo o mundo assistimos à violação deste direito. As guerras, os conflitos religiosos e a pobreza continuam a negar a milhões de pessoas o direito à vida em liberdade e em segurança e, muitas vezes, à vida propriamente dita. Em muitos países assistimos diariamente à morte sistemática e impune de pessoas e à prática de atos violentos contra populações inteiras, destacando-se a violência contra as crianças e mulheres. Quanto ao artigo 26º, este defende o direito de todos à educação. Define a educação como o meio para garantir “a plena expansão da personalidade humana”, devendo favorecer “a com-


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preensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos”. Uma vez mais, este direito está longe de ser garantido. As notícias que nos chegam de todo o mundo são cada vez mais alarmantes. Comunidades inteiras são privadas do direito à educação, muitos povos recusam às raparigas e às mulheres a entrada na escola e empurram-nas para uma vida de pobreza e ignorância. E a situação continua a piorar, ano após ano. Em Portugal, embora a situação esteja longe de ser a ideal, registaram-se bons progressos. O direito à vida está consagrado e, apesar de algumas situações preocupantes, vivemos em relativa segurança. Quanto à educação, é garantido a todas as crianças e jovens o acesso gratuito à

mesma até ao 12º ano. As taxas de analfabetismo têm vindo a ser reduzidas e a escolaridade das novas gerações tem melhorado, havendo cada vez mais jovens no ensino superior, o que acaba por ser fundamental, uma vez que a melhor forma de solucionar os problemas de amanhã é educando a sociedade de hoje! Setenta e dois anos depois da aprovação da Declaração Universal dos Direitos do Homem, a violência, a morte, a injustiça, a pobreza e o analfabetismo continuam a marcar uma boa parte da Humanidade e esperemos que esta reflexão seja uma porta e um abrir de olhos para melhorarmos no dia de amanhã aquilo que somos hoje!


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Parábola do Cágado Velho, de Pepetela Joana Gouveia . Aluna do 10.º C

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raças ao projeto de leitura, li o livro Parábola do Cágado Velho, uma obra classificada como romance e escrita por Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, mais conhecido como Pepetela, o qual nasceu em Benguela a 29 de outubro de 1941 e recebeu um prémio Camões em 1977. A sua vasta obra conta, quase sempre, um pouco da história contemporânea angolana. Tendo esse aspeto em mente, o facto de o livro não nos situar no espaço nem no tempo não nos chega a perturbar, já que imaginamos que estaremos algures em Angola, durante a guerra civil. A visão da guerra foi um dos grandes pontos positivos da obra. Eu gostei porque não a vemos de uma perspetiva militar, tal como é habitual, mas, em vez disso, seguimos a história de Ulumbe (que significa o homem em Umbundu) e Muari (tradução: a primeira mulher), que viviam numa pequena aldeia (Kimbo) e tinham dois filhos que causam um grande problema, já que, mal chegam à idade adulta e decidem os seus caminhos, vão ambos para a guerra, e pior, para lados opostos. Então, durante o livro todo, quando a população do kimbo tem a oportunidade de saber o que se passa na guerra (normalmente através de visitas ou então de emboscadas que os soldados de ambos os lados faziam à aldeia para levarem comida, homens para lutar e mulheres para casar com os soldados), a pergunta que prevalece é “Quem são

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os nossos e quem são os inimigos?”, uma pergunta vinda de pessoas que não tiveram a possibilidade de entender a guerra e muito menos saber de que lado estavam, e que acreditavam piamente que haveriam de existir os bons e os maus, quando na verdade não chega a ter importância, pois tudo o que ambos deixavam para trás eram rastos de destruição, que levavam a que as famílias tivessem de juntar o pouco que lhes restava e partir em busca de um kimbo melhor e mais escondido. A história de amor é só um fio condutor para o desenrolar da narrativa e, apesar do impulso inicial ter sido uma situação de vida ou morte, o que se mostrou ser um ótimo começo, a história de Ulumbe e Munakasi (tradução: a mulher) acaba por ser mais uma história de compreensão, perdão e um amor mais paternal. Chegam a ser mais interessantes as questões que são levantadas com o relacionamento, tais como a poligamia, a diferença de idade das duas personagens, o modo como são feitos os pedidos de casamento, a palavra dos pais na decisão da noiva, e como todos esses costumes antigos são divergentes em relação aos novos valores da sociedade e da própria geração de Munakasi e até dos filhos de Ulumbe, do que o próprio romance em concreto. Em termos gerais, é um bom livro, que recomendo a pessoas que tenham interesse em conhecer um pouco da cultura africana (já que o livro não se deixa ficar apenas pela angolana) e a quem quer, sobretudo, conhecer esse lado dramático da guerra, vista de olhos inocentes das pessoas que têm de arcar com as consequências dela, enquanto se questionam se algum dia haverá realmente a paz que tanto almejam.


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Globalização e Direitos Humanos Vera Osório . Aluna do 12.º F

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globalização é o termo para descrever o processo de intensificação da integração económica e política internacional, marcado pelo avanço nos sistemas de transporte e de comunicação. A comunicação social, principalmente a televisão por satélite ou cabo, o cinema e os meios eletrónicos, é o que mais contribui para este avanço, desde logo porque estes media difundem informação permanentemente atualizada sobre os principais acontecimentos políticos, sociais, económicos e culturais. Mas, pelo facto de atraírem audiência global de milhões de pessoas, os mass media também ajudam a reorientar o modo de pensar dos indivíduos, que já não se limitam a considerar a dimensão nacional dos acontecimentos, mas igualmente os seus impactes globais, assim evoluindo para uma consciência global acerca do estado do mundo. Um dos aspetos associados à globalização é o dos seus impactes sobre a cultura dos povos: a aculturação. A aculturação pode perspetivar-se a partir de duas vias: a homogeneização cultural e a diferenciação cultural. A globalização pode conduzir à homogeneização da cultura na medida em que, devido à rapidez da comunicação entre os diferentes países do mundo, os traços originais das cul-

turas nacionais tendem a enfraquecer ou mesmo a perder-se, em favor de culturas estrangeiras com mais poder de atração. É, por exemplo, o processo de ocidentalização a que há anos assistimos Mas a globalização também pode potenciar a diferenciação cultural, favorecendo uma ampla aproximação à infinda variedade de culturas. Ou seja, os defensores da diferenciação cultural consideram que a globalização aumenta a diversidade, fragmenta as formas culturais e gera identidades culturais híbridas, isto é, compostas quer por traços nacionais quer por influências estrangeiras. Esta é a consequência mais positiva da globalização. A que melhor salvaguarda os direitos humanos, dando a todos os indivíduos a oportunidade de escolher e combinar formas culturais nacionais e estrangeiras. Como refere o art.1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos «Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade» e o artº 19º da mesma Declaração «Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão». Estes direitos fundamentais devem ser defendidos e potenciados pela comunidade de todos os povos. Ora a globalização, pela comunicação e pela interdependência que implica, pode e dever ser um poderoso instrumento de defesa destes direitos.


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Tempos de hoje Eu em pleno 2020 nunca imaginaria Que estaria no auge da adolescência Durante uma pandemia Sem poder aproveitar os últimos momentos Antes de chegar à vida adulta. Sinto que a minha adolescência Me foge da mão E não posso vivê-la como gostaria Festas? Discotecas? Diversão? Nada disso, tem que se ter cuidado Para não se ficar contaminado. Sinto que ainda é cedo Que está a passar rápido Que não estou 100% preparado Para os desafios do quotidiano Da minha futura vida adulta. Queria voltar atrás no tempo Sem pandemia, complicações e problemas Simplesmente viver e não me preocupar Com as pessoas que posso contaminar A vida é mais que isto E eu quero poder desfrutar o que a vida tem a dar. Rui Lopes . Aluno do 12.º D

Imagem do autor do poema


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A Heartbeat away Fernanda Sousa . Professora de Inglês

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nce again the Clock stretched his hands on a long tick-tack to wake up. He looked at the half closed window. From across the room he could almost feel the sun. What he could see from this window was incredible: all these new versions of him, running around attached to Humans, now with these strange masks on. These different versions of him were new and seemed happy, something he was not… On that particular morning, something changed. Just a split of a second but the Clock felt it. He stopped looking outside and pondered: “Why am I stuck here, to this heavy, pendular case?” He had noone to talk to. So, he decided to find the reason. He went inside himself. Maybe his core machine had the answer. Besides, he couldn´t remember the last time he had been there. It was an inner chamber, somewhat similar to what Humans call heart. By now, it would probably be full of dust and who knows what else. So, he stopped his movements while he went inwards. All day long, Humans passed. It was only when a loud silence filled the room that Humans noticed something was different. They approached their old friend. The Clock was nowhere to be found. Well, he was there but he wasnt’t working. Mum said: “Maybe I didn’t dust it!”; the boys followed her: “Maybe it was the ball”. The father lastly completed: “Maybe I didn’t wind it up!”.

The Clock kept going down, deep into his inner chamber, listening only to his own rhythm, so he couldn’t see or hear them. Time went by for all of them. But differently. It had been years for Humans since the Clock last moved. But for the Clock, it had been just the time of a heartbeat. Eventually, and after concluding the Clock had outlived his time, Humans donated it to a museum. It had been a good Clock, old and precious. They were sad but they soon got a new improved version. When the Clock resurfaced, after discovering that there was no problem with him and that he was even better than he thought he was, he opened his eyes and looked for his friendly, familiar window. Surprisingly, he found himself in a room not with one, but full of wide, crystal windows where he could see all the amazing things he had never seen but heard about: the sky, mountains, birds and trees. He couldn’t believe his eyes and this new light! He had just been inside for a moment. What happened? The sunlight was now touching him directly and it felt so warm. “Did I die?” He sometimes overheard Humans talking about this “death” thing. He was so overcaught in this new reality that it took him a while to notice something amazing… There were others like him all around! In all shapes and sizes and they were happily tick-tacking him. At last, after such a long time, he was not alone.


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Um imperativo de consciência... Manuel Ferreira . Professor de Filosofia

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stamos a viver mais um daqueles momentos da nossa vida individual e coletiva em que somos novamente impelidos a pensar fora da caixa. Por imperativo de consciência, temos de ser destemidos, apresentando a interpretação que fazemos sobre o atual período de sombra em que vivemos, ainda que essa leitura possa ser pouco popular e não acompanhe os lugares comuns. É importante marcar posição. Afirmar o que se pensa em nome de princípios e valores, que são estruturais para os sistemas sociais, e dar-lhes visibilidade, de modo a conferir dignidade e emancipação à pessoa humana. Os tempos de hoje, associados à pandemia provocada pelo Sars-CoV-2, são difíceis. É uma realidade. Mas este fenómeno não nos pode conduzir a uma paralisia intelectual, a uma segregação relacional ou a um isolamento emocional. Assim, é contraproducente subordinar toda a ação humana aos efeitos negativos e perversos da pandemia. Não é normal. Não pode ser normal que tenhamos uma comunicação social que se entretém durante todo este tempo a debitar noticias sobre o COVID 19, que nos flagela, todos os meses, semanas, dias, horas, minutos, segundos, com episódios de pandemia. Não podemos aceitar a prática de um jornalismo de excessos, de exageros, sem escrúpulos, medíocre, que explora a miséria e a desgraça humanas. Afinal, qual é o objetivo e o que se pretende

com este massacre mediático? Em face de uma situação tão complexa para o Homem, a comunicação social tinha o dever de realizar uma abordagem sensata, ponderada e moderada. Seria missão nobre se sensibilizasse e não aterrorizasse, se informasse e não assustasse. A abundância, sem critério, de notícias só cria confusão, retira serenidade e discernimento e destrói o ânimo às pessoas. Assim, em face desta tirania, é essencial que cada vez mais possamos aumentar o grau de exigência da opinião pública, desenvolvendo a sua capacidade seletiva. Também é pertinente questionar o conteúdo da comunicação que se tem estabelecido entre nós. É preocupante que os temas de conversação, de diálogo entre a família e os amigos quase se resumam ao vírus e à pandemia. Estamos confinados nos modos de pensar, de sentir e de agir. Estamos a assistir a algo que nos deve inquietar, que no mínimo deve interpelar a nossa consciência e tentar ajuizar o que está a acontecer para que esteja instalada tão desqualificada paranoia social. Os desafios que se colocam continuamente ao Homem e à sua evolução não se podem restringir ao debelar de uma enfermidade. Não sou negacionista, mas também não estou ofuscado pelo vírus, por mais variantes que este possa vir a apresentar. Não me deixo dominar e paralisar pelo medo provocado pelo COVID 19. Recuso-me a viver entrincheirado na ação do


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Imagem in https://www.farahtherapycentre.co.uk/

vírus. Não podemos ser incautos, mas também não podemos ser obstinados. Podemos estremecer, mas temos de manter a lucidez e o exame crítico. Em momentos de crise, em que é essencial encontrar novas soluções, não podemos ceder à imposição de verdades absolutas e práticas de autoritarismo. As novas sínteses que são necessárias só se alcançam com liberdade de pensamento e de ação, na diversidade e no confronto, no diálogo e na discussão. Ao se demonizar e ao se instrumentalizar a pandemia, o Homem está a ser coagido na sua ação, na determinação da sua vontade, na liberdade e autonomia das suas escolhas e decisões. Estamos a prestar um mau serviço ao Homem, à sua existência e à sociedade. É discutível que os nossos direitos, liberdades e garantias não estejam a ser colocados em causa. É duvidoso que a democracia não esteja a ser molestada com um conjunto de atitudes dogmáticas, posições unilaterais e suavemente ditatoriais. Os decisores têm de ser cuidadosos nas medidas que escolhem e pretendem implementar. É determinante resistir à tendência de robotizar o Homem. A este nunca se lhe pode retirar a sua humanidade. Esta é a sua essência. Não se lhe pode subtrair o seu espírito gregário, cavando uma maior distância para com o outro, anestesiando as suas emoções, sentimentos e afetos, aumentando a indiferença e a insensibilidade. Não podemos ser escravizados pelo eterno re-

torno de momentos históricos de escuridão e de trevas. A mera sobrevivência física, só por si, não vale, não acrescenta valor, não dignifica a condição humana. Em nome de uma hipotética defesa biológica da vida dos indivíduos, não podemos desrespeitar o próprio Homem. Há também a necessidade de não escamotear a pluralidade que caracteriza o Homem. Para a construção de um futuro mais promissor, para sermos melhores pessoas, o Homem não pode mobilizar toda a sua adrenalina no combate a uma doença, desvalorizando outras enfermidades e deixando para segundo plano grandes questões como a fome, a violência, a pobreza, a equidade, a justiça, a desigualdade, o clima e a sustentabilidade do planeta, as relações interpessoais, a educação e a aprendizagem, entre outras. É que a dimensão da saúde física e do securitarismo não são as únicas que conferem sentido à vida. O sentido da vida também se faz de risco, de incerteza e de desordem. É preciso, portanto, combater esta ideia de que nada parece ter brilho, em que rir é uma heresia, desesperar é um hábito, ter alegria uma quimera, em que a esperança e a confiança são sombras de uma realidade pálida, em que a depressão e a solidão são constantes e em que a infelicidade e a morte são as verdades que mais temos como evidentes e seguras. Sejamos… A vida não parou…


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“Revelações de uma Máscara” Conceição Dias . Professora de Inglês

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om, foi este o repto lançado pelos editores da nossa e tão minha revista Pensar(es), num ano tão atípico, inusitado e inquietante. Reflito e questiono-me sobre aquilo que possa, eventualmente, ter a dizer e que já não tenha cruzado o pensamento de todos nós, numa época conturbada pela intempestiva mudança de paradigma que fomos, literalmente, “obrigados” a viver. A nossa visão particular do mundo foi cruelmente abalada, quase que sem pré-aviso, de um dia para o outro e toda a nossa estrutura mental composta por experiências, teorias e conceitos, anos de aprendizado na perceção da realidade e do nosso modelo funcional de vida pareceu colapsar. De um dia para o outro, pura e simplesmente colapsou, deixando toda uma civilização à deriva, votada à incerteza do futuro e obrigada ao inevitável uso diário e permanente de uma máscara, uma nova normalidade dentro da anormalidade, diria eu, ainda que a máscara seja tudo menos “nova” em termos civilizacionais. Julgo que se impõe explanar a origem da palavra máscara, situá-la no tempo e no espaço, inferir sobre as suas funcionalidades no decurso dos séculos. A máscara, por definição, nada mais é que um acessório utilizado para cobrir o rosto. É utilizada desde os primórdios da civilização e tem, ao longo dos anos, vindo a adquirir novas funcionalidades, novas formas e materiais, novas simbologias, algo

perfeitamente natural tendo em conta a evolução imparável do Homem. A palavra “Máscara” tem, provavelmente, origem no latim mascus ou masca que significa "fantasma", ou no árabe maskharah , que quer dizer "palhaço", "homem disfarçado". Em muitas culturas ditas primitivas da África, da América e do Pacífico, as máscaras são usadas em cerimónias religiosas e, em algumas tribos indígenas, por exemplo, os índios mais idosos usam-nas durante rituais para curar doentes, afastar maus espíritos ou celebrar casamentos e ritos de passagem da infância para a idade adulta. No Ocidente, a máscara foi utilizada primeiro na Grécia Antiga, durante as festividades de Dionísio, o deus do vinho e da fertilidade; passaram, posteriormente, pelos luxuosos bailes de máscaras em Veneza e Florença, na Idade Média e, mais recentemente, utilizamo-las para fins lúdicos, em festas como a celebração do “Halloween” e o Carnaval. A máscara, nestes casos, permite esconder a identidade, fazendo com que a pessoa que a usa encarne um personagem e deixe, por um momento, de ser quem era. Interessante este conceito de encarnação em algo que, definitivamente, não somos ou… será que somos? E recorremos à máscara para que, sem julgamentos, sem juízos de valor, possamos dar asas àquilo que gostaríamos de ser e possivelmente somos, mas que, fruto de condicionalis-


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Imagem da autora do texto

mos socias, somos impelidos a refrear. Seria uma reflexão que daria pano para mangas, como alguém já o disse, contudo devo restringir-me ao tema “Revelações de uma Máscara”. Assim sendo, acredito que, na mais recente história da Humanidade, a máscara assumiu, devido ao imposto e forçado convívio com um espaçoso, mutante, implacável e mortal vírus comummente conhecido coronavírus SARS-CoV-2, um carácter utilitário e, acima de tudo, preventivo; o uso da máscara, cirúrgica ou não, tornou-se parte integrante da vida pessoal de todos nós e revela muitas coisas que não gostaríamos de esquecer, que eu não gostaria de esquecer… A Máscara revela e relembra-me, todos os dias, da pouca importância atribuída a um abraço, a um carinho, ao toque de duas mãos que se apoiam, de dois braços que se entrelaçam. Revela a saudade de poder pousar a cabeça num

ombro amigo…no colo da minha mãe. Revela a saudade do beijo diário do meu pai à hora do almoço ou no primeiro momento do dia em que nos cruzávamos… Revela a saudade de um sorriso, do riso genuíno, sem preocupações de contaminação. Revela a saudade de estar com os outros, das brincadeiras, das confidências feitas ao ouvido, em voz baixa, em sussurro, bem próximo do outro, olhos nos olhos, numa conversação muda e tão cheia de significado. Revela a saudade de ver no outro o amigo e não o potencial inimigo que me pode contagiar e que me evita, à cautela. Revela a saudade do mundo até então por mim conhecido - um mundo sem gel desinfetante, sem distanciamento social, sem etiqueta respiratória, sem ventiladores, sem planos de vacinação em massa, sem máscara… sem medo.


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Lara Campelo . Aluna do 11.º B


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“What do my eyes tell you?” Bruna Resende . Aluna do 12.º E

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any people tell me my eyes are really big and capture attention. Well, actually that’s one of the reasons why I love my eyes, it’s funny because it’s practically the only thing I can love about myself without trying too hard. Why? Because thanks to my eyes I’ve been able to see beautiful places, meet different and wonderful people and just enjoy the precious things in life like rainbows, when the sunshine kisses the rain, or the night sky where clouds are out of sight. If I had to choose what kind of feeling or message my eyes should pass to other people, I would rather say comfort or confidence. I want people to look at me and feel comfortable to open up whenever it gets too overwhelming to handle. I want them to know through my eyes that I’m hearing every word attentively and that I wouldn’t mind at all to share the burden for them to breathe easier. If there’s anything I can do to help them healing, I will do it. In terms of confidence, I try my best to pass that energy through eye contact conversation in which I'm quite good. I wish the world could know how confident I am but the truth is I am only able to show that side of me to people I’ve been knowing for a very long time, and even so I lack on that. Sometimes, all that’s left of myself is holes in my false confidence but I always give my best not to show it.

My eyes carry the eternal gleam of a child, the love for each and every single precious soul I have ever crossed paths with, the excitement while I’m talking about something I deeply love, the euphoria by seeing the faces of the people that, despite not knowing me, still help me a lot going through this roller coaster that is life. They have met the most sparkling galaxy in the whole universe but also met the deepest of oceans. They lulled themselves and said “It’s okay, tomorrow will be a new day and we will try again. There's nothing wrong with living one day at a time.” (for that I truly need to give myself a pat on the shoulder); they burned themselves onto their own demons and learned how to sing in joy throughout all the living hells. These two little things showed me a perception of the world that only belongs to myself, isn’t that amazing? Like the famous saying, I believe my eyes are the windows to my soul but I must confess they are really good at building walls in order to protect themselves and not show fragileness. They are expressive, especially when I’m dancing (honestly that’s indeed my soul’s favorite expression itself ). They tend to show a glimpse of what I feel, but only the ones who look at them with care can notice. My eyes tell who I am. The important question here is: are you willing to try to learn their own language?


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“What do my eyes tell you?” Francisco Almeida . Aluno do 12.º E

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’ve been told many things before about my eyes: I've heard that they look tired, that they look sad or melancholic, that they look mysterious and unrevealing, sometimes arrogant and uninterested while other times friendly and lovable. If my eyes could give some sort of reaction to those assumptions, I'm guessing that they would either smile awkwardly or just shrug their shoulders in doubt. They stare, observe, analyze and reflect, smile, pout and cry. Oh boy, do they cry. I’m not quite sure of what do my eyes tell you, and I'm certain I have no idea of what they tell me. I could tell you that they mostly mirror what I'm feeling but I'm proud to say that they’re great actors. They’re great liars and are especially good at making you feel like you know me. But don’t be scared, I'm not some scary manipulator, they’re mostly a shield to all the parts of myself I'd rather not have on display, I'm sure anyone can relate, but maybe if you stare long enough, you’ll unlock these vaults and find some hidden brand-new treasure no one has found yet. No promises. Especially because my eyes tend to be somewhat timid and are not really good at the whole “eye contact” kind of deal. They do their best though, so be patient. Be as understanding and empathetic as I believe they are and try to look through them, even if they’re as opaque as a mask. They’ve seen beautiful things and they mostly do, finding beauty and

light in almost everything but there’s no light without a dark side and they’ve seen It as well. That was kind of cheesy. My eyes are natural romantics poetizing everything, including this text. It’s a little embarrassing but honestly, it’s no wonder, considering how many silly “romcoms” they’ve watched through the years, they must’ve absorbed at least something from them. I’m not the type to care too much about what others may think of me, and perhaps that’s my arrogant and unapologetic side (which I love as well), but I hope that at least when you look into my eyes, for as brief as it may be, or as everlasting as it is, that they can deliver the following message to you: “I love you, unconditionally. I love everything about and around you. I love me and I love everything I've seen us gone through. No matter what you do, I'll keep on loving and I'll keep on believing that the only purpose of my life is to love. Love you, me, nature, the good, the bad, the pure and the dirty. Everything is the same to my eyes, and if they could speak the only word they would know would be love.” Again, how cheesy.


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“What do my eyes tell you?” Margarida Vicente . Aluna do 12.º C

My eyes are searching for life, for the true meaning of the things that really matter.


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Histórias da História: 25 DE ABRIL DE 1974 Catarina Pina e Ana Francisca Cardoso . T4.2 - Centro Escolar das Alagoas

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o dia 25 de abril de 1974 deu-se a revolução dos cravos. Participaram nesta revolução muitos militares entre os quais estavam Salgueiro Maia, Otelo Saraiva, Joaquim Almeida. Alguns símbolos de liberdade do 25 de abril eram cartazes, panfletos, flyers, imagens de propaganda dos partidos políticos e pinturas nas paredes (os murais). Celeste Caeiro foi a mulher que fez do cravo o símbolo do 25 de abril de 1974. “Em 1974 Celeste Caeiro tinha 40 anos e vivia num quarto que alugara no Chiado, com a mãe e com a filha. Trabalhava na rua Braancamp, na limpeza do restaurante Franjinhas, que abrira um ano antes. O dia de inauguração fora precisamente o 25 de Abril de 1973. O gerente queria comemorar o primeiro aniversário do restaurante oferecendo cravos à clientela. Tinha comprado cravos vermelhos e tinha-os no restaurante, quando soube pela rádio que estava na rua uma revolução. Mandou embora toda a gente e acrescentou: "Levem as flores para casa, é escusado ficarem aqui a murchar". Celeste foi então de Metro até ao Rossio e aí recorda ter visto os "chaimites" e ter perguntado a um soldado o que era aquilo. O soldado, que já lá estava desde muito cedo, pediu-lhe um cigarro e Celeste, que não fumava,

só pôde oferecer-lhe um cravo. O soldado logo colocou o cravo no cano da espingarda. O gesto foi visto e imitado. No caminho, a pé, para o Largo do Carmo, Celeste foi oferecendo cravos e os soldados foram colocando esses cravos em mais canos de mais espingardas. “ (Fonte: RTP)


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ANTES DO 25 DE ABRIL DE 1974 A polícia internacional de defesa do estado (PIDE), foi criada a 22 de Outubro de 1945, no auge do estado novo. A função desta política era perseguir, prender e interrogar qualquer indivíduo que fosse visto como inimigo à ditadura salazarista. A PIDE também dirigia a censura. Um dos seus mais famosos processos ficou conhecido como o “ Lápis Azul”. O "Lápis Azul" foi o símbolo da censura e da época da ditadura portuguesa do século XX. Eles usavam um lápis de cor azul nos cortes de qualquer texto, imagem ou desenho a publicar

na imprensa. Até setembro de 1968, no governo de António de Oliveira Salazar, é designada Comissão da Censura a responsável pelo "Lápis Azul". Durante o governo de Marcello Caetano esta comissão passa a chamar-se Comissão do Exame Prévio, mas, na prática, mantém o lápis com o mesmo sentido censório. No dia 16 de março de 1974, houve uma tentativa de um golpe militar e cerca de 200 militares foram presos. Trabalho realizado no Programa de Mentoria


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Finalistas da pandemia Madalena Carneiro T4.4 - Centro Escolar das Alagoas

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enho orgulho em mim, pois consegui realizar um sonho… terminar este ciclo e iniciar outro… Momentos únicos fazem parte desta caminhada, risos, gargalhadas, lágrimas, medo e COVID-19. COVID-19 e a pandemia, que nos cortou os abraços, os beijos, “tapou-nos” a boca e escondeu os nossos sorrisos… separou-nos! Foram tempos atípicos, confinados, com ensino à distância, vivemos experiências únicas e nunca pensadas….Depois voltamos à escola, mas uma escola diferente, sem sorrisos, sem abraços, sempre distanciados... mas é a nossa escola e que tanto nos ensina… Quatro anos, deste ciclo, passaram a voar… mas e apesar de tudo… somos felizes e somos finalistas!!!!!


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sem poder usufruir do nosso direito de brincar livremente. Comemoramos as datas especiais, como os aniversários, o Carnaval ou a Páscoa, em casa, apenas com a família mais próxima. Para nos distrairmos jogávamos playstation online com os amigos, jogávamos futebol na varanda, inventávamos jogos, brincávamos com os nossos animais de estimação, desenhávamos e ligávamos aos familiares e amigos. Também experimentamos receitas de culinária em família, fomos para o campo e descobrimos que gostávamos da natureza, construímos uma casa na árvore, usamos objetos para fazer brinquedos, aprendemos a reutilizar tecidos para fazer bolas e bonecos e descobrimos outras funções do computador, ou seja, demos largas à imaginação. Agora que voltamos à escola as coisas melhoraram, mas quando tudo isto terminar vamos adorar sair de casa sem máscara, abraçar e beijar os nossos familiares e amigos, festejar em liberdade, viajar para conhecer pessoas e lugares novos, brincar na rua em paz, sem medo de contrair doenças, andar de bicicleta em qualquer sítio, voltar ao Museu do Douro, ir à catequese e muitas outras coisas divertidas.

Em casa e na escola, aprendemos a ter novos cuidados como lavar as mãos com mais frequência, usar máscara, manter distância social e desinfetar as mãos. Para nós, alunos da turma 4.1 da Alameda, esse tempo de confinamento foi muito aborrecido e cansativo. Não podíamos sair de casa nem brincar pessoalmente com os amigos; não podíamos visitar, abraçar e beijar os familiares e estávamos muito tempo em frente aos ecrãs, o que nos fazia mal, sobretudo aos olhos. Durante esse tempo, sentimo-nos tristes, trancados, sem liberdade e

Gostávamos de deixar uma mensagem para o futuro: que as pessoas cuidassem melhor de si e do ambiente do nosso planeta para evitarem novos vírus e que, se não puderem estar juntas, sejam amigas mesmo à distância. Com esta situação assustadora aprendemos uma lição importante: que a vida não é fácil sem liberdade e sem saúde e nós só percebemos isso quando o mundo ficou reduzido ao tamanho da nossa casa.

Liberdade e confinamento T4.1 - Centro Escolar da Alameda

o início de 2020, um vírus terrível espalhou-se por todo o mundo e obrigou as pessoas a ficarem em casa para se protegerem do contágio e da doença. Em Portugal, as escolas fecharam e as crianças e jovens passaram a ter aulas através da Internet e da televisão, mas nós não gostamos porque aprendíamos menos e era mais complicado.


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Antes e depois do Covid Benedita Mota . T4.3 - Centro Escolar da Alameda Antes, eu era muito feliz! Agora, sou só feliz! Antes, respirava ar puro. Agora respiro dentro de uma máscara. Primeiro, podia beijar os meus amigos! Agora, só posso dar cotoveladas! Antes, podia jogar em grupo nadar, viajar e passear à vontade! Agora, apenas posso jogar sozinha e ficar em casa! Primeiro, a Maria, o Manuel e a Joana emprestavam-me um lápis, a caneta e a borracha! Agora o lápis e a caneta e a borracha não podem ser emprestadas! Antes, eu era muito feliz! Agora sou só feliz! Depois quero ser muito feliz!! Vai ficar tudo bem!!!!!

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Turma 4.2 - Centro Escolar da Alameda


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Marcos Tavares

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o longo de 22 anos, o Professor Marcos Tavares foi o impulsionador da revista Pensar(es), permitindo que este espaço de partilha se tornasse uma marca da identidade da Escola João de Araújo Correia. A compilação de mensagens que a seguir se apresenta, ainda que meramente representativa de um universo muito mais vasto, foi a forma encontrada de, singelamente, dizermos “Bem-haja!“, ao professor, ao amigo, ao companheiro de luta. Ana Paula Lopes


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aríssimo Professor, tantas são as memórias indeléveis que guardo com carinho: as aulas interessantíssimas, a visita de estudo a Lisboa, o debate em aula sobre a Eutanásia após a visualização do filme “Mar Adentro”, o convívio final especial… Lembro-me de ser uma adolescente um pouco inconsequente e sem rumo definido para a vida, sentimento talvez próprio daquela idade. Recordo que, apesar disso, sempre me incentivou e um dia eu disse, recuperando um desejo de infância: “Acho que gostava de ser professora”. Não sabe a importância que teve na minha vida dizer-me que eu era capaz. Deu-me motivação, inspiração e o alento que, na altura, me faltava. Agora que sou professora, espero um dia ser um pedacinho daquilo que o professor Marcos foi e representou na minha vida e agradeço muito esta oportunidade para lho fazer saber. Este ano, ao lecionar “Poetas Contemporâneos” no 12.º ano, decidi introduzir a temática, preparando uma atividade à volta do poema “Cântico Negro” de José Régio. É a aula do secundário que mais recordo. A aula em que o Professor Marcos usou esse poema para nos falar de liberdade individual. Falei de si aos meus alunos. Adoraram a aula e, no final, uma aluna disse-me que, certamente, o professor estaria orgulhoso da aula que eu dera. Eu e a colega Cátia Pinto mantemos a amizade passados todos estes anos e é raro o café que tomamos ou conversa que temos em que, inevitavelmente, não recordemos o ensino secundário e, naturalmente, o nosso querido e inspirador professor de Filosofia e Psicologia: o Professor António Marcos Tavares. Obrigada por ser um reflexo de tudo aquilo que um verdadeiro professor deve ser, no cabal sentido da palavra. Grata pela partilha de conhecimentos e ensinamentos para a vida. Grata por não se limitar aos ensinamentos dos livros, mas por ter ido muito mais além e ter contribuído para que nos tornássemos cidadãos reflexivos, ativos e críticos. Sem dúvida que é uma das missões do professor, como tão bem nos ensinou e tão exemplarmente cumpriu. Só tenho pena que a sua caminhada no ensino termine já, pois os jovens e a educação ficam a perder e eu também, uma vez que jamais poderei realizar o meu desejo de me cruzar consigo na ESJAC. Termino estas breves linhas, ciente de que não refletem a sua grandeza profissional e humana. Contudo, faço um breve resumo, citando o escritor francês Antoine de Saint-Exupéry: “Aqueles que passam por nós,

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não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.” Ana Isabel . Ex-aluna ....................................................................................

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alar sobre o professor Marcos? O que dizer? Sorte de todos os alunos que se cruzaram com ele. Um professor com uma figura imponente mas com uma dedicação e interesse pelos alunos sem igual. Tão boas recordações das suas aulas e da paixão que nos transmitia. Graças a ele interessei-me por filosofia e inscrevi-me em psicologia. Obrigada professor por nos motivar a irmos mais além do que nos era solicitado, por ter partilhado tão alegres momentos connosco e por ter sempre uma palavra amiga para nos dar. Recordo com alegria o piquenique que fizemos em sua casa e as canções tocadas nas violas dos meus colegas. Recordo o carinho com que sempre nos tratou e mesmo depois de termos entrado na faculdade a atenção de perceber se estava tudo a correr bem. “Aqueles que passam por nós não vão sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.” Obrigada por me ter dado um pouco de si, fez sem dúvida a diferença. Desejo-lhe as maiores felicidades nesta nova fase, um beijinho com saudades. Cátia Pinto . Ex-aluna ................................................................................... Aula de Filosofia: Professor: - Sabem qual a origem da palavra Personalidade? Alunos: (Ninguém responde) Professor: - Quer dizer “máscara”. Alunos: (Cara de admirados! (AHHH…))

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vida leva-nos a percorrer diferentes caminhos, alguns que não antecipávamos, outros pelos quais ansiávamos. Começamos por não ter qualquer preocupação quando somos pequeninos, temos os nossos pais – os nossos protetores de todas as horas. Vamos crescendo, chegamos à idade do “armário” em que tudo é complicado, ninguém nos compreende, estamos tristes e contentes ao mesmo tempo. Iniciamos o período conturbado da tomada de decisão sobre a nossa vida, cada vez com mais autonomia e o mundo parece cada vez maior. Há quem se deixe intimidar pelo mundo, outros mergulham de cabeça. Seguimos


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m pouco desenfreados, às vezes perdidos. Vivemos no ciclo – escola – casa – estudar e recomeçar. Pelo meio com novelas de amores e desamores dignas do horário nobre da TV. Depois lá vêm as férias para nos proporcionar o descanso merecido dos guerreiros (achamos nós!). Pensamos: mas afinal o que quero ser? Quem quero ser? E olhamos para os nossos professores. Não que queiramos ser como eles, mas, será que poderão nos guiar neste processo do qual nada sabemos? Eles é que nos estão a ensinar todas aquelas coisas sobre as quais não sabíamos de nada minimamente. E sim, são os nossos principais influenciadores, não só por nos despoletarem o gosto por determinadas matérias, mas também pela amizade e laços que se vão criando. O ensino vai para além do que se encontra nos livros e nos conteúdos programáticos, para a vida levamos outros pormenores, algumas palavras, conselhos sábios, interrogações e mesmo chamadas de atenção que nos foram feitas. Há pessoas que contribuem ativamente nesta moldagem e incentivo para que sejamos melhores: Ao professor Marcos, por ser uma dessas pessoas, deixo o meu sincero agradecimento. Diana Gonçalves . Ex-aluna ...................................................................................

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Professor Marcos foi para mim uma referência. Uma pessoa por quem nutro um forte sentimento de respeito e de admiração. As suas aulas eram óperas marcadas pela serenidade, entusiasmo e competência. A forma como apresentava as suas reflexões, a proximidade que estabelecia com os seus alunos, faziam das suas aulas um espaço de cogitação, de questionamento e de enriquecimento pessoal. Recordo ainda a forma prática e magnífica com que transpunha os ensinamentos e doutrinas filosóficas para a vida prática. A preparação, os ensinamentos, os diálogos que realizamos com o Professor Marcos capacitaram-me para um maior espírito crítico, para uma maior e melhor forma de enfrentar os desafios académicos e os próprios desafios provenientes da vida social. Concluo, pois, com um pensamento de Pitágoras que nos refere que: “Falar é lançar a semente, escutar é preparar para fazer a colheita”. Neste ensinamento do filósofo caracterizo a docência do Professor Marcos. Um homem e um professor comprometido com o verbo, que funda e dá futuro à realidade e à

existência humana. Eduardo Ferreira . Aluno ................................................................................... Leitura do Elogio da Filosofia, de Maurice Merleau-Ponty https://soundcloud.com/user-287467624/elogio-da-filosofia Marisa Adegas . Ex-aluna ...................................................................................

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á pessoas que nos marcam pela forma de estar, pelo seu ser, pela maneira de sentir, pelas ideias que carrega, pelos ensinamentos que transmite e pelos princípios que as norteiam! Ágil e fugaz, correto e leal, assertivo e corajoso, bom orador e sem medo de expressar ideias, amigo e companheiro, alegre e divertido, de certa forma são apenas adjetivos! Na realidade transformaram-se até hoje em grandes ensinamentos passados por um grande senhor, o Caríssimo prof. Marcos! Recordo-o com carinho, amizade e principalmente com admiração! Sabe que ao longo destes anos marcou não só a minha vida como estudante e pessoa, mas também a vida de muitos dos alunos que por si passaram! O valor das palavras é enorme, outra coisa que aprendi consigo, mas o sentido e a perceção das mesmas é chegar ao auge da mensagem! Hoje, mais do que nunca, retiro no meu dia a dia, valores e princípios que só o prof. Marcos me poderia ter passado! Por tudo e por tanto, a mim e a tantos outros alunos, um OBRIGADO!" Vanessa Guedes . Ex-aluna ...................................................................................

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alar do Professor Marcos para mim é um pouco intimidante, por ter receio de não estar à altura, mas por estima e respeito deixo algumas palavras. Conheço o Sr. Professor Marcos mais ou menos há 32 anos, o nosso convívio advém apenas do ambiente escolar, desde que este fazia parte do Conselho Diretivo até aos dias de hoje, mas a nossa convivência foi mais constante quando eu trabalhava no Socalco, e o Sr. Professor dava formação ao Pessoal Não Docente. Durante este tempo de convivência, incentivou-me a escrever e ainda não desistiu de o fazer apesar da


ensar(es) minha assumida preguiça. Ensinou-me a importância da formação, e com orgulho afirmo: as formações que tenho em maior número, foram dadas pelo Sr. Professor, cada erro corrigido foi relevante, não foi em vão. Durante as suas formações ensinou-me a importância de pensar para além do óbvio, a trabalhar em grupo e a questionar as coisas dadas como certas, o que me provocou uma certa inquietude em ver/fazer diferente. Do seu carácter pessoal apenas sei que é uma pessoa bondosa, honesta e integra, nutre uma simpatia especial por alguns escritores espanhóis, dá pouca importância aos títulos (Dr. Eng.º. Ex.ª etc.), tem uma gargalhada sincera e franca, a qual se fazia ouvir, nomeadamente, durante os jantares de Natal organizados pela escola. É para mim uma honra ter conhecido o Sr. Professor, desejo-lhe uma vida plena, seja muito feliz e continue a ensinar as pessoas com quem se cruzar. Uma vez professor, para sempre professor. Deixo aqui a minha gratidão ao Sr. Professor Marcos, não Marco, como teimava em escrever. Para evitar uma lágrima, despeço-me com um “até logo”. Muito Obrigada. Isabel Fernandes . Assistente Técnica ...................................................................................

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uando fui abordada e informada sobre o pedido de aposentação do Sr. Prof. Marcos Tavares e do propósito de lhe ser feita uma homenagem, não hesitei em participar e demonstrar, através das minhas simples palavras, o meu "SENTIR" pela sua pessoa. Quando cheguei a esta escola, já lá vão quase 28 anos, o Sr. Professor Marcos fazia parte da Direção, que se designava por "Conselho Executivo". A sua figura era, e continua a ser, a de um SENHOR sereno, ponderado, afável, simpático, simples no seu trato e na sua forma de estar, mas de uma cultura/saber muitíssimo elevada. Tive a oportunidade de ser sua formanda em algumas formações proporcionadas pelo já extinto SOCALCO. Deliciava-me ao ouvi-lo, opinião partilhada por colegas meus nas mesmas formações. Os seus conhecimentos eram tão abrangentes que podíamos abordar com ele os mais variadíssimos temas e ficávamos esclarecidos. Sei também o quanto os seus alunos o estimam e por ele nutrem grande admiração. Os seus artigos para a revista Pensares são também testemu-

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nho do seu elevado saber. O Sr. Professor Marcos faz parte da minha/nossa outra família, Escola, pois é assim que eu o sinto dado que são muitos anos a remarmos no mesmo barco, embora em posições diferentes. Brevemente uma nova etapa se abre na sua vida e, eu desejo do coração, que seja acompanhada de muita saúde, muitos anos de vida, muitos artigos escritos para nos continuarmos a deliciar e com visitas frequentes aos que por cá ficam mais algum tempinho. Em meu nome pessoal e da classe que eu represento, Assistentes Operacionais, a nossa eterna amizade, estima e gratidão. Manuela Guedes Joaquim Encarregada Operacional da ESJAC ...................................................................................

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ediram-me para falar de um Grande Senhor, que se chama António Marcos Tavares. Não sei se sou capaz de, nas minhas humildes palavras, descrever este Senhor. Sim, Senhor com letra grande, e um professor daqueles que deixam boas memórias nos seus alunos. Infelizmente não tive o privilégio de ter sido sua aluna mas, já o conheço há quase 35 anos, como funcionária desta grande instituição: a Escola Secundária Dr. João Araújo Correia. É uma pessoa de fino trato, elevada educação e conhecimentos. Trabalhei diretamente com ele, quando fazia parte do Conselho Diretivo, ligado à área de alunos, que dominava como ninguém, conhecia a legislação de trás para a frente, sempre atualizado, quando surgia alguma dúvida lá estava o Sr. Professor Marcos sempre disponível para nos ajudar. Como Professor, durante todos estes anos, sempre ouvi dizer aos seus alunos, até mesmo os que diziam não gostar de Filosofia, que o Sr. Professor nasceu para ensinar tão bem Filosofia e Psicologia. Faltam-me as palavras, que mais posso dizer, que tenho por ele grande estima, que o vejo como um amigo, e sei que é recíproco da parte dele para comigo. Professor que marcou gerações, daqueles que não são esquecidos pelos seus alunos. Por fazer o favor de ser meu amigo, bem-haja Senhor Professor. Maria do Rosário Dias . Assistente Técnica


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migos verdadeiros são para sempre e não importa a distância, pois no coração estarão sempre perto. Não importam as diferenças, no coração sempre terão um ponto de acordo, sempre haverá lugar para o perdão. Não importam as circunstâncias, sempre haverá um ombro para recostar, mãos para ajudar, olhos para enxergar, bocas para expressar as verdades e sorrir. Isabel Lopes . Assistente Operacional da Biblioteca ...................................................................................

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oi rápida a minha passagem pela “Araújo Correia”. Rápida, mas marcante. Fiquei com amigos e o Marcos foi um deles. Colega de grupo, mas sobretudo um amigo. Guardo com saudade o seu apoio e carinho para com os colegas. A forma como fala, fascina-me. A sua cultura faz dele um ser muito especial. Pessoas como o Marcos fazem falta à Escola. Pessoas integradoras, cooperantes, que ajudam e não apontam, que não procuram falhas nem defeitos. Só lamento que a minha passagem não tivesse sido mais prolongada para poder aprender com quem sabe ensinar sem nunca se impor. Um beijinho muito grande. Adriana Gonçalves Pereira . Professora ...................................................................................

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edem-me umas palavras sobre o colega e amigo Marcos. Hesito entre o colega, o amigo e o professor. Na verdade, quando penso na Pessoa, frontal, bom colega, amigo atento, profissional competente, aliando o saber e a ética, todos estes aspetos se relacionam. Há sempre mais a dizer, a costela de agricultor que vem de ser orgulhosamente um beirão e da raia…O seu lado filósofo, inquieto e inconformista, por vocação e formação desde os tempos de Granada, ao litoral poveiro até ao seio do Douro…Marcante nas suas qualidades humanas e profissionais, empenhado nos seus projetos, sendo a Pensar(es), penso que não estarei enganada, uma das suas “jóias da coroa”…Na hora da despedida da Escola e dos seus pupilos, espero que surjam outros projetos encarados com aquela sua atitude humilde e muito enriquecedora daqueles que se vão cruzando com ele, nos diferentes percursos da vida. Alexandra Magalhães . Professora

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orredores infindáveis, salas de aula, Carteiras repletas de rostos em busca do aprender, Quadros, giz, computadores, … Durante anos esta foi a realidade diária. Ensinar…. Aprender… Uma ponte que uniu conhecimento e sabedoria, Um ser humano especial, Alguém que auxiliou a construção de um mundo melhor. Fez a diferença no palco da existência, Mostrou caminhos… e por isso a sua vida já ganhou! Transformou a docência, a escola, em voo, Sonho, consciência, saber… ensinou para a vida, Todos aqueles que passaram pelas suas salas de aula. A sua missão chegou ao fim… Filósofo, plantou em muitas vidas A semente do interesse, do pensar, do questionar… Foi, para muitos, uma inspiração E permanecerá, tenho a certeza, nas saudades de muitos Pode ir agora descansar, aproveitar as horas, os dias… Pode ir agora viver em pleno a sua família Na certeza de que o caminho que percorreu Foi um caminhar maior Enquanto professor semeou sonhos e alcançou conquistas. Para nós, colegas, fica um sentimento de vazio… Uma sensação de que o nosso percurso ficará mais pobre. A partir deste momento deixaremos de usufruir diariamente Da sua calma, Do seu bom senso, Da sua sabedoria, Da sua generosidade E da sua boa disposição. Mas todos sabemos que embora o professor Arrume a sua pasta, carregada por tantos anos, O amigo, esse, permanecerá para sempre… Desejo as maiores felicidades para a nova etapa e transmito o gosto que foi, para mim, poder conhecer o Professor e a Pessoa que o Marcos é. Alexandra Rebelo . Professora ...................................................................................

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arquitos, Agora que decidiste ensaiar um novo voo, apetece-me dizer-te: “não vás já, conta só mais uma história! Leva-me novamente a viajar nas tuas palavras… fala-me daquilo que leste, do tanto que já vi-


ensar(es) veste, dos caminhos que percorreste, de tudo o que aprendeste e gostas de partilhar…” Pensar em ti é pensar numa mão cheia de bons momentos, em conversas que enriquecem, em olhares que abraçam e gargalhadas com sabor a casa. Mas é, também, constatar o privilégio que tem sido esta caminhada em conjunto. Há pessoas que nos acrescentam porque sabem ser, e que nos marcam pela sua autenticidade. Voa! Continua a espalhar a generosidade mental e a coerência ética que tão bem te caraterizam! Aqueles que são nossos, por herança ou por conquista, nunca deixam de o ser. Tu és o meu (nosso) Marcos. Sabes o quanto gosto de ti, não sabes? O ninho continua cá… Ana Paula Lopes . Professora ...................................................................................

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ste é um tempo de despedida, talvez até de rutura. Mas não é, certamente, um tempo de corte, de rompimento da amizade, do respeito, da consideração que o prof. Marcos sempre nos mereceu (desculpem o uso abusivo do plural). Esses são sentimentos que continuarão para sempre entre quem se despede e quem fica. No entanto, este é, sem dúvida, um tempo de início de uma ausência… A Bíblia diz “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de abraçar e tempo de afastar-se…”. Para o Marcos, este é um tempo de tudo. Até de morrer. No sentido figurado, claro, - morrer de saudade do convívio diário com os alunos, com os colegas, com os funcionários da nossa escola, e da revista “Pensar(es)”, que ele ajudou a conceber e amparou nas dores do crescimento. E não pensem que foi fácil ajudar esta publicação a chegar aos 22 anos… É evidente que o seu “cantinho” estará sempre à espera da sua opinião. Para nós, os que ficamos, este é um tempo de colher, sobretudo o fruto da amizade, da sabedoria, da lealdade, do companheirismo, do respeito, da fidelidade a princípios em que o Marcos sempre acreditou, e que brotaram da sua formação profundamente humanista. Vemo-nos por aí, Marcos… Benjamim Matos . Professor

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eu querido amigo, Nada há de maior valor que a amizade, mesmo as improváveis e inesperadas, como a que nos aconteceu. As amizades são todas diferentes, mas todas tomam conta do nosso coração. Os amigos são a família que escolhemos. - Sabes? É especial o tempo em que convivemos! Pese embora a diferença de idades, é real e autêntica a minha estima. Por vezes, os mais jovens descartam os mais velhos por serem “old fashion”, e os mais velhos julgam os mais jovens exagerados ou demasiado efusivos. Nenhum desses estereótipos é verdadeiro, autêntico é o tempo de especial valor em que tenho o privilégio de privar contigo. Todas as pessoas são únicas, todas são diferentes na genética, nas vivências, nas qualidades e capacidades (onde é que eu já ouvi isto?…talvez numa aula dada em conjunto:-)). Porém, umas são “mais únicas” que outras… mais especiais, como tu. O meu amigo é singular, é erudito, letrado, culto e, simultaneamente, transborda simplicidade. Repleto de habilidades intelectuais e sociais, com sentido de humor, empático e comunicador…um pensador! Num só homem, o Duriense, o Raiano, o Poveiro, o homem cheio de Mundo. Um mestre, de discurso eloquente, sempre compreensivo e bondoso, com a capacidade de compartilhar aquilo que sabe, cativando quem o ouve. Obrigada! Carlota Martins . Professora ...................................................................................

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onhecem o sabor de um olhar que acolhe? Eis-me hoje aqui para vos falar do primeiro rosto que me recebeu quando, amedrontada (d)e inexperiente, caí sem paraquedas na Araújo Correia. (Não foi por acaso) Aquele olhar que eu li atenta, apesar da minha timidez de então, soube-me a lar. E um lar nunca se esquece. Ao seu lado eu era pequena e frágil. Ele, robusto e perspicaz, “socorreu-me” no que, na altura, eram as urgências duma professora recém-formada, jovem e insegura que, pouco, muito pouco conhecia do mundo profissional em que mergulhara. Eu sabia apenas a entrega de alma e coração. Paulatinamente fomos convivendo sabiamente entre


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o profissional e o quase pessoal. O interesse comum pela música, que tanto nos eleva, aproximou-nos espontaneamente no canto coral da escola e logo nos conduziu ao convívio são, alegre e brincalhão. Foi então que dei por mim a observar e a admirar o “cavaleiro andante”, o beirão cortês, o colega terra-a-terra, sempre de bem com a vida… Apelidava-me de “Celestinha” e, pela forma como o fazia, conheci-lhe a essência. Por detrás duma aparência quase rude escondia-se um homem nobre, frontal, dotado duma sensibilidade extrema. Quase trinta anos idos e sem precisar de mais delongas … Sempre aqui, sempre aí! Obrigada, Marcos! Aquele abraço, Celeste Santos . Professora ...................................................................................

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m primeiro lugar, parabéns. É tempo de esvaziar gavetas, apagar contas e esquecer logins e palavras-passe. É tempo de arrumar as malas e içar as velas! Esperam-te os livros que (ainda) não leste e todos os que ainda não escreveste. E acresce que é primavera, a hora mudou e conseguirás perfeitamente acordar a horas de ver o sol nascer porque não vais ter horas de deitar, a menos que queiras deitar-te cedo. Como as galinhas. E no galinheiro que vais fazer no fundo do quintal, haverá ovos que podes usar sem mesmo despir o pijama e fazer, ou não, a omelete para o pequeno-almoço que vais, se quiseres, juntar ao almoço e estender os jantares sem tempo, nem limite, porque o vinho está bom e o pão e a conversa partilhados sem pressa, sabem melhor. Daqui para a frente começas a perceber, ainda melhor, que sabes menos do que pensavas e que a liberdade dá uma trabalheira danada. Ao contrário do que muita gente te vai dizer, acredita nas pessoas e nas horas felizes que te esperam. Pelo menos uma vez. Nunca conheci um cínico que fosse moderadamente feliz. Lê o Unamuno mas não te tornes um existencialista preocupado com a dialética entre o intelectual e o emocional, a fé e a razão, porque vai ser mais importante veres se os pêssegos amadureceram e se ninguém os

vai levar e comer em vez da tua filha, que os adora, e que vem no próximo fim de semana e tu queres guardá-los para ela. E tens sempre a Galiza aqui ao lado. E novas filosofias para descobrires sem teres que fazer planificações nem calculares as aulas previstas e dadas. E terás sempre o carinho e a admiração de quem te teve como professor e como colega e como amigo. Quero estar entre estes últimos. Tu estarás. Pela forma como me recebeste, generosamente, como criámos laços, e como, apesar de tudo (ou sobretudo por tudo) cimentámos uma relação que ficou para além do portão da Escola. Teremos tempos para mais “pensares” mesmo que não seja para publicar na revista. É tempo de marcar datas, de lugares e tempos felizes, no calendário. Não terás que as adiar, ou antecipar, por causa da reunião ordinária, do grupo disciplinar ou da reunião extraordinária do Conselho Pedagógico. Serão no tempo certo: aquele que tu quiseres. E isso não tem preço! Conceição Carneiro . Professora ...................................................................................

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embro-me, de ainda com pouco tempo na escola que hoje considero “a minha escola”, de entrar na sala dos professores e de reconhecer, de imediato, a voz entusiasta e possante do meu fervoroso colega e defensor do ensino do Latim e Grego na escola: “Bom dia, meninos. Tudo bem, Marco?” – saudei. “Como é que me chamaste, cachopa? – inquiriu o Marcos com um sorriso. ” Marco, não é?” - retorqui já sem certeza alguma…. ” Não, menina, é Marcos… Marcos, menina.” - Registei a correção… claro… De facto, que outro nome poderia assentar melhor no nosso emblemático colega, Marcos Tavares? De origem latina, este nome carrega em si mesmo as qualidades inerentes aos verdadeiros “guerreiros” tais como a coragem, entre outras, que aprendi a admirar neste meu querido colega de profissão, na defesa das suas convicções, na procura do equilíbrio e de consensos, na transparência dos seus ideais, na lealdade e franqueza com que aberta e frontalmente se posiciona perante as injustiças da vida e da luta social. Não fosse o nosso Marcos, um filósofo de gema, com espírito de missão…. Eficiente, trabalhador, erudito, amigo, depressa conquistou a minha confiança com a sua boa disposição,


ensar(es) gargalhada farta e sorriso franco, bem ao jeito transmontano, que eu tanto prezo. Espero, querido Marcos, continuar a ter a honra de ler os teus radiosos textos na tua/nossa revista “Pensares”, a revista que sabiamente soubeste impulsionar ao longo da tua brilhante carreira de professor de Filosofia, formador de consciências e pensamentos construtivos nas gerações futuras que contigo tiveram o privilégio de conviver, não só como professor mas, e não menos importante, como ser humano, capaz de fazer a diferença. Obrigada Marcos, por tudo o que contigo aprendi e continuarei a aprender, certamente. Hasta la vista Conceição Dias . Professora ...................................................................................

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ara o Marcos… A porta fechada atrás de ti mostra um rosto aninhado nas entranhas do silêncio. Não é um silêncio mordaz, mas ergue-se e, de pé, murmura e canta acordes de juventude vivida nos corredores e nas salas plenas de curiosidade aprendida. Construíste castelos, conquistaste-lhes futuros que pensavam não se puder imaginar. Agitaste a juventude do marasmo do acontecido e voltaste a sonhar… Tudo isto no escapulário de uma nobre profissão, agora tão desvalida. Na luz ténue do repouso merecido gritarás sempre a emergência de um novo amanhecer! E é assim, neste rasgo de solicitude e audácia, que estabelecemos relações inusitadas que ilustram uma aliança construída a que chamamos amizade. Estela Ferreira. Professora ...................................................................................

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onheci a revista Pensare(s) era ainda estudante. Cedo começou a minha admiração pelo professor Marcos enquanto membro responsável por este projeto. Estávamos no século XX. Conheci o professor Marcos passados uns anos e fomos colegas numa formação para professores de Filosofia. Relembro a euforia do momento - o professor da revista Pensare(s). Quis a vida que nos voltássemos a encontrar. Profes-

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sores do mesmo grupo disciplinar, juntos a trabalhar na mesma escola. Continuou a ser o professor Marcos. Apesar da proximidade nunca o vi como colega. Nunca me deu aulas, mas ensinou-me muito pelo seu exemplo, sobre os valores da persistência e do trabalho. Um grande bem-haja professor Marcos, tenho muita estima e admiração por si. Votos de uma vida longa e feliz. Eugénia Almeida . Professora ...................................................................................

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em-haja Marcos! Muitos anos passaram como colega, professor, gestor e amigo… Alguém a quem admiro a sua organização, dedicação, empenho e responsabilidade nesta profissão de “ser professor”. Foi também neste espirito que conduziu sempre os seus alunos a aprenderem e a descobrir novos horizontes, quer como estudantes, quer como pessoas. Um humanista sem dúvida. Nas nossas memórias fica a revista “Pensare(s)”, um projeto de boas práticas do AEJAC, estando a sua existência, desde o seu primeiro número, ligada ao professor Marcos Tavares. Este projeto sempre propiciou à comunidade escolar um espaço de reflexão humanista, pedagógica, de ciência, de cidadania, do exercício da escrita criativa, da libertação de emoções literárias e estéticas… O seu fundador foi tudo isto, mas sobretudo, um grande humanista. Peguei na minha coleção de revistas e efetuei uma nova leitura em alguns dos seus artigos. Da revista nº15, de maio de 2010, selecionei uma das suas reflexões que aqui partilho: “Ensinaram-me que ser responsável é reconhecer-se autor dos próprios atos, é responder pelas suas atitudes. Ser responsável significa assumir-se como pessoa livre e autónoma. Responsabilidade e liberdade são interdependentes. Negar-se à responsabilidade é negar-se à liberdade”. Bem-haja, professor Marcos Tavares, pelos ensinamentos das suas reflexões! Estando para breve a sua aposentação, certamente que a comunidade escolar saberá manter vivo este projeto, e continuará a contar sempre consigo. Bem-haja! Fernanda Coutinho . Professora


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Querido Marcos! Como condensar em algumas linhas o apreço por tantos anos de convívio, trabalho e amizade? Impossível. Por isso, estas breves palavras não são de despedidas e términos. São de celebração de novas etapas, apoio e reconhecimento por seres quem és. Neste repensar de novos caminhos, quem te estima manter-se-á por perto, como sempre esteve. Para todos eles, continuarás a ser o que sempre foste: uma voz que sabe bem ouvir, um coração grande, um sorriso, quase sempre, de estandarte. Sê feliz e take care, dear friend! Grupo Disciplinar de Inglês ................................................................................... Existe ainda nos olhos onde mora a infância Incólume no planalto Ali segura o tempo com um canto na voz e um dedo na centelha da metáfora Sob a rigorosa trajetória do voo do estorninho arou o azul da utopia Abrigou no peito lugares rasos de segredos e a ignorância foi obrigada a suicidar-se nas suas mãos Nos pulmões do mediterrâneo arrastou um feroz violino sobre as águas soalheiras de magnas epifanias Tinha que haver dentro das coisas uma lembrança de sol uma nesga de luz que a parede da sombra não havia engolido. Sob o cílio do omnipotente tocou a noite no seu silêncio sacro Coletou todas as palavras Penduradas na sua rigidez definitiva E num sorriso a morder-se a si próprio logrou pérolas no desvelamento dos mistérios do mundo afinal quem fomos, o que somos e o que seremos?

De peito largo de sonho E um olhar de lobo Regressou à pátria Que não era mais que uma casa em ruína Perante o desfocar súbito do futuro de todas as interrogações Apenas um hino de Francisco Fanhais lhe bastava Para derrubar os embustes salinizados na boca dos inquilinos deste povo. Só um sítio Podia concentrar a eternidade cognitiva dos instantes. Seus pupilos recebiam luz com o deslumbre de uma folha Que lhes caía o colo. No renque do pensamento sempre a exulta arquitetura da palavra E de bolsos repletos de alfabeto esculpiam a vida como uma eterna nascente a agigantar-se na sua biografia. Ante a desertificação da esperança sempre as mãos em concha nas raízes do amor a anunciar um silêncio vadio na uterina razão do pensamento Esta é a simplicidade do princípio de todas as árvores - era sabido. Uma asa aguda a entregar o vítreo cabaz dos frutos silvestres do conhecimento. Não há orfandade de valores no berço da dignidade Nem crepúsculo no milagre da flutuante molécula da revelação. O Raiano Uma seiva de maré Uma voz peregrina no coração da pedra Uma breve ardência que atinge o corpo da língua Um verde de alma na artéria do encantamento Uma rúbrica na lucidez.


ensar(es) Permanecerá Vivo ou morto. O Raiano, de Raia Serra ................................................................................... “El camino se hace caminando”

Antonio Machado, Poesías Completas, Alianza Editorial

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ara António Marcos Tavares Muita Sabedoria vem com os Invernos. Não gosto de homenagens, porque falam de um presente. O elo é o Tempo. Não pode haver nostalgia. As homenagens visam sobretudo o agora, visão de um tempo que já foi, e isso para mim, é disparate. É uma falácia... ”Eu sou o que posso imaginar que serei” dizia E. Erikson, na análise da 8ª idade da vida de um ser humano (Generatividade vs Dsesespero). No caso presente, tenho a certeza de que ele, Marcos, acredita e tem consciência, que somos aquilo que sobrevive em nós. Na minha ótica, um professor de Filosofia é sempre e para sempre. Importa o reconhecimento e a confiança no trabalho realizado ao longo dos anos. Não somos nem seremos filósofos. Apenas temos a humildade de tentar ensinar a Filosofar como diria António Sérgio. Tentamos apenas transmitir aos mais novos a força que vem da crítica honesta. Sabemos que tudo muda, tudo passa, mas o mais importante é ser sempre o mesmo na mudança. Assim, mais do que tudo o que as palavras faltam, o que importa e ter confiança e acreditar em si mesmo. Marcos, tenho a imagem sempre presente do teu telemóvel… As vivências ao longo destes espaços e das diferentes circunstâncias, proporcionou-nos outra maneira de ver o mundo. Acrescentou-se mundividência. Nestes espaços conhecemos, ou aprendemos a conhecer, ideias que partilhámos, com pessoas bem diferentes, que ainda nos fazem companhia, e com outros que mudaram de sítio. Para mim isto é tranquilidade, partilhar e ser solidário na diferença e no tempo. Ainda que o tempo passe, no mais profundo do nosso íntimo, sentimo-nos exatamente os mesmos de quando começamos esta caminhada há mais de quarenta anos. Porque não renegamos o passado, porque ele é o centro da nossa existência. Esta nossa essência, então não reside no tempo, como parece, mas é inalterável. Somos hoje o que o passado

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nos deu e o futuro nos permitirá. É inalterável que o caminho faz-se caminhando, sem desespero. Apesar de aqui forasteiro, não renego o privilégio de te ter conhecido e ser teu colega ao longo de todos estes anos. Abraço João Rebelo . Professor ...................................................................................

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eu querido amigo, Lembro-me perfeitamente do primeiro dia em que te vi, à esquerda, logo depois da porta de entrada, do então Conselho Diretivo. Essa imagem (2002), que agora é já contruída, marcou o princípio de tantos encontros que tivemos ao longo destes 20 anos. Cedo apreciei a tua franqueza, a tenacidade e a energia, as convicções e a erudição. O respeito por tudo e por todos, uma ampla tolerância diante do que é simples e também do que é complexo. Conheço alguns dos teus ex-alunos e sei o carinho que nutrem por ti, mesmo aqueles que já passaram pela escola há largos anos. Isso diz muito da tua competência pedagógica e ainda mais da competência emocional e humana. Congregas tanto mundo que quando te encontro ancorado aos lugares, me pareces viagem, quando te vejo rústico, me pareces pedra, quando és eloquente, vejo o sábio. Ocupas na nossa escola um lugar que jamais será preenchido. Um lugar que sempre vai reclamar a tua presença. Para mim, és norte, és âncora, és tudo que espero de um amigo. Enquanto houver estrada para andar, nós vamos continuar… José Artur Matos . Professor ................................................................................... Dos Luíses um abraço amigo, desejando ao Marcos muitas felicidades na nova etapa da sua vida em que a Filosofia não poderá nunca deixar de estar presente!" Luísa e Luís Oliveira . Professores


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que dizer de um Homem que é sinceramente uma pessoa? Uma pessoa que na sua essência é assaz fecunda e onde se entrecruzam os valores da dignidade humana. Onde a humildade é a regra e a responsabilidade a prática. Com um pensamento clarividente e livre e uma consciência apurada e fortemente vigilante, foi estimulante acompanhá-lo nos momentos do quotidiano profissional e nos de convívio e de relação interpessoal. Foi virtuoso este encontro com uma individualidade inspiradora que me fortaleceu no desempenho da actividade docente, possuidor de um conhecimento ecléctico, condimentado com um revigorante sentido de boa disposição e de alegria. A vigorosa sociabilidade que coloca na relação com os outros é uma das marcas da sua identidade. Não somos iguais para todos os que se cruzam connosco, pelo que, o conteúdo desta percepção da personalidade e do comportamento do amigo Marcos Tavares, pode não ser aquela que diversos leitores deste testemunho perfilham. Mas, esta é a liberdade que a vontade tem e a riqueza de olhares que a diversidade permite. Contudo, algumas características são tão disseminadas e públicas que se tornam visíveis e reconhecidas por todos. Estou a referir-me à persistente procura da verdade, da justiça, da honestidade e da bondade. Porque a amizade não tem tempo, nem distância, um abraço afectuoso… Manuel Ferreira . Professor ...................................................................................

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“Não corro como corria Nem salto com saltava. Mas vejo mais do que via E sonho mais que sonhava” (Agostinho da Silva)

rande amigo Marcos, As nossas vidas cruzaram-se durante anos. Fomos companheiros de luta em tantos momentos e contextos de vida: a nossa adolescência nos Carvalhos, a nossa juventude em terras de “nuestros hermanos”. A amizade continuou. Curiosamente escolhemos a mesma atividade profissional. E hoje cá estamos. PARABÉNS!!! Estás terminando mais um ciclo da tua vida que tu abraçaste com entusiasmo, sabedoria e determinação. Realizaste, de uma forma concreta, real, objetiva e profunda o pensamento do grande

Miguel de Unamuno: «deveríamos ser os pais do nosso futuro em lugar de descendentes do nosso passado». Durante todos estes largos anos, aprendeste para ensinar e preparar as mentes do futuro. Hoje todos te estarão agradecidos porque transportam consigo as marcas indeléveis do seu mestre. Irás inspirar para sempre a construção efetiva e estruturante da sua personalidade. Mudaste muitas histórias de vida porque compartilhaste a tua sabedoria. Sempre defendeste e trabalhaste para que a realidade que existe nas nossas escolas fosse mais dinâmica e em que os alunos não fossem meros aprendizes, profissionais de obediência. Sempre pugnaste por uma Escola que eliminasse as desigualdades e não as potenciasse, uma Escola que favorecesse a equidade e não incrementasse as diferenças, uma Escola em que os alunos, mais que ter direito à escolarização tivessem direito ao êxito na escolarização. Foste, ao longo deste teu percurso docente, como as feromonas da maçã: ajudaste a amadurecer quem estava ao teu redor, de um modo silencioso, constante e eficaz. Deixaste melhor a Escola do que a encontraste. Obrigado, Marcos, pelos teus sábios ensinamentos. E como dizia Holderlin, “os educadores formam os seus educandos como os oceanos formam os continentes - retirando-se”. Sempre te admirei, beirão de gema e Freinedense de nascimento (belos tempos…!!). Mente aberta e brilhante. Comunicador exímio (recorda Agra em Vieira do Minho), capacidades intelectuais fora do comum (como davas cartas na faculdade em Granada!!!), frontal mas sempre coerente (que o digam Muñoz, Palacios, Carrasco…), animador nato (quantos momentos… “a minha prima Palmira”), amigo do seu amigo. Superaste os momentos difíceis com sabedoria, vivestes os momentos felizes com arte e mestria pois “das núvens mais negras cai água límpida e fecunda”. Foste escrevendo página a página o livro que és e que quiseste ser. Vira-se uma nova página. Diferente mas não menos importante. Mais tempo para te dedicares a outras coisas que gostas mas para as quais não havia horas vagas. É assim que se compreende a vida: olhando para o passado mas com os olhos postos no futuro. As palavras iniciais de Agostinho da Silva revelam que, apesar de já não sermos aquilo que fomos, continuamos a ter vistas largas e o infinito como horizonte dos nossos sonhos. Um grande abraço e… faz o favor de CONTINUAR


ensar(es) A Ser Feliz! Olha que a vida são dois dias… menos as férias grandes. Manuel Rocha Pereira . Professor ...................................................................................

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aríssimo Marcos Na realidade não é fácil separar o colega do amigo, mas aqui dirijo-me ao colega porque sei que o amigo permanece para a vida. Já lá vão mais de 30 anos desde que iniciamos esta aventura na ESJAC, e a verdade é que aprendi muito contigo, quer profissionalmente, quer como pessoa. Agora que estou a abrir o baú das memórias, encontro tantas e tão fantásticas memórias que é difícil dizer qual delas foi mais marcante. Porque os resultados foram sempre surpreendentes, continuam a ser motivo de grande satisfação, e de um sentimento de forte contributo para o percurso escolar dos alunos, mas também na relação e convivência entre os nossos colegas, e muitas vezes para o prestígio da nossa escola. Trabalhamos muito, discutimos ainda mais, mas divertimo-nos como poucos a organizar e a preparar as atividades que criávamos! E há momentos inesquecíveis de uma saudável loucura. Agora chegou a hora de avançar, sem receios nem lamentos, para os projetos que iam sendo adiados. Tenho a certeza que vais voltar a surpreender-nos a todos! Foi uma aprendizagem trabalhar contigo, mas a amizade que resultou desta colaboração é a melhor coisa que fica! Até já P.S. Não esqueças que ainda há atividades a organizar! Nair Santiago . Professora ...................................................................................

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Professor Marcos Quando fui enviado à escola secundária Dr. João de Araújo Correia, para lecionar EMRC, o meu Bispo D. Joaquim Gonçalves, falou-me de um Professor de filosofia da escola chamado Marcos com quem falara na visita à escola. Recordo-me de ter dito, que lhe pareceu ser um homem extremamente educado, humano, com um pensamento e cultura muito interessantes e que lhe pareceu ser crente. Na breve passagem pela Escola acabei confirmando tudo isso.

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O Professor Marcos é daqueles seres verdadeiramente extraordinários capazes de marcar positivamente quantos o circundam. Como professor era irrepreensível, dedicado, admirado, respeitado, por colegas e alunos. Sempre comprometido e empenhado na direção da escola, colaborador do jornal, da revista, disponível para viagens de estudo, um homem verdadeiramente altruísta. Como colega foi um grande amigo, companheiro dentro e fora da escola. Fui testemunha do seu esmerado amor e carinho à família e de como o seu coração de filósofo se manteve aberto à fé, a novos horizontes. Todos estes anos depois, caro Professor Marcos é com alegria e orgulho, que me associo a esta iniciativa, deixando o meu agradecimento, por tudo quanto trouxe à minha vida e de tantos outros. Sérgio Tomé . Padre/Professor ...................................................................................

S

etembro/outubro de 1987 – colocado na Escola Secundária Dr. João de Araújo Correia, ainda menino de 22 anos, iniciava eu o segundo ano da minha carreira profissional, entrando numa instituição que, embora com interrupções, se tornaria a minha casa de trabalho até hoje. Aqui encontrei belíssimos profissionais e colegas, querendo destacar, agora, o ilustríssimo António Marcos Tavares, cuja primeira imagem que se me aflora, ainda hoje, é a de um sobretudo cor de camelo que o mesmo envergava à noite quando nos cruzávamos na sala de professores do pavilhão administrativo da escola, uma vez que, nesse ano, lecionávamos no ensino noturno o chamado curso complementar dos liceus. E não só: trazia, por vezes, um veículo antigo – conhecido, na gíria popular, por Boca de Sapo – que afinal vim a verificar ser também a viatura de transporte do meu caro colega Marcos Tavares. É com pena que o vejo agora sair para outra fase da sua vida, fase que não nos permitirá decerto, pelo menos com tanta intensidade, usufruir de diálogos calorosos com quem tanta erudição sempre nos demonstrou, assim como simpatia e acolhimento. Sê feliz, caríssimo Amigo! Paulo Pereira Guedes . Professor


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uando penso no Marcos (Markito como carinhosamente o tratava quando estive a lecionar na escola João de Araújo Correia) surge na minha lembrança o cheiro e sabor a laranja. Um fim de tarde na companhia dos amigos que ele tão bem sabe mimar e compreender. Tal como a flor da laranjeira representa a pureza, assim considero também ser uma característica que se pode atribuir ao Marcos: um homem com uma alma verdadeiramente pura, simples; um ser inteligente, excelente profissional, íntegro, e genuinamente altruísta. Este homem constitui um exemplo para todos os que o conhecem. Sem deixar de acompanhar a passagem do tempo que inevitavelmente acontece, não deixa por isso de alimentar a simplicidade, o sonho e a curiosidade de uma criança, características fundamentais na Filosofia. Se o Marcos podia não existir? Poder, podia. Mas certamente a vida daqueles que o conhecem não seria tão cheia de significado. Para alunos, colegas, amigos, e evidentemente para mim, o Marcos é o Marcos. É encontro e reencontro do verdadeiro significado do ser, pensar e agir na Filosofia. Beijo grande, Markito

o Manelinho, a queridíssima Carlota, o Rui, o Ferreira... Menus atulhados de livros, cinema, histórias e lendas, educação, política, economia… as comezainas, a família, o seminário, os serões ao som da viola, a Póvoa, os cafés-concerto, Almeida e Granada, claro! e tantos assuntos tão favoritos do teu riquíssimo acervo cultural e socioafetivo. Tantas conversas, tagarelices e reflexões, tantas risadas e gargalhadas, muitas emoções…! Vão trucidar-me, Marcos, porque me alongo, mas não posso concluir sem expressar a minha satisfação por fazeres parte da minha história e afirmo-o sem qualquer lisonja ou exagero, até porque não preciso, pois somos amigos há muitos e bons anos. É claro que tive de passar por uma extensíssima lista e muita concorrência, mas consegui superar todas as provas e granjear, finalmente, a tua amizade! E é com muito agrado que o digo, pois contigo aprendi muito do que sei, cresci como profissional, cresci como pessoa, aprendi a viver um dia de cada vez, aprendi a concretizar os meus sonhos. Desta catraia, um enorme bem-haja!

Quitéria Mateus . Professora ...................................................................................

Rosa Ferrão . Professora ...................................................................................

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aríssimo amigo Marcos! Era agora que eu escreveria a minha tese de mestrado, mas não me deixam. Deram-me apenas umas míseras duzentas palavras! Protestei e implorei… Batalha perdida! E agora – perguntei-lhes eu – como é que vou falar do professor de referência para os alunos e colegas, para a escola e, quiçá, para o mundo? Sem espaço, salva-me unicamente o testemunho de quantas Anas e Cátias – Ana João, Ana Isabel, Lucy, Vanessa, Ana Fernandes … – e tantas e tantos outros alunos que tiveram o privilégio e se regozijam por te terem como mestre na sala de aula, nas visitas de estudo e em tantos outros momentos mais casuais. Como eu os entendo! Mais do que o excelente profissional, está o homem que prima pela simpatia e generosidade, pelo seu carácter verdadeiramente genuíno e pela simplicidade com que nos maravilha diariamente, dentro e fora da escola. Perder-me-ia na enumeração, por isso fico-me tão-só pelos incontáveis almoços no restaurante do Sr. Joaquim, sempre na companhia dos melhores amigos – o caríssimo Artur,


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Sem título Leandro Andrade . Ex-aluno

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imidamente abriu a porta, olhou de relance notando desde logo a minha juventude. Não sei o que me atraíra para lá, talvez fosse apenas uma questão de decadentismo, de tentar experimentar aquilo sobre o que tanto tenho falado, escrito, mas nunca vivido. Talvez fosse apenas um lacaio levado pelo desejo carnal, abominável a todos os Homens, talvez, não sei. Talvez eu quisesse ultrapassar o que outrora fora um complexo imenso de perda e que residia agora no esquecimento, numa vã tentação de mover o inabalável, não! eu sabia que tinha de passar aquela barreira, apenas para tentar escrever melhor, para saber, aprender e dessa forma aproximar-me cada vez mais rápido da mortalidade metafisica, queria matar a alma que fermentava este campo de mentiras e proceder ao negócio da troca, alma por devaneio… entrei no submundo. Notei desde logo a sua idade, nada como no anúncio, mais de quarenta anos, que importava, era o que eu procurava, não um aspeto, não uma caracterização fiel à beleza. O que eu queria realmente era entregar-me à fealdade do desespero, ao real, sem filtros digitais, nesta cultura de beleza em que tudo é lavado de uma forma ou de outra, tudo. Eu tentei, tentei realmente relacionar-me com o resto das mulheres que encontrava, mas não, não dá, o romance deixou de existir, basta teres um pouco de miolos para que fiques na berma da estrada a saudar os passageiros musculados e inertes da nossa

geração… bem… da minha, ou melhor, de uma a que não pertenço. O que achei cómico desde o início foi como se apresentava, indumentária de lingerie branca, floreada com um cetim rosa, hmm, dá para rir… certo? um ser feio para os padrões da normalidade estética, na meia-idade, tentando a todo o custo manter a sua sexualidade, escapar ao julgamento do tempo. Mandou-me entrar, um apartamento fechado, pequeno, escuro e deprimente. Ouvi um choro de criança no quarto à minha direita, e como que adivinhando a minha suscetibilidade juvenil, ou mesmo tentando proteger a dela, fechou a porta, mandando-me entrar num pequeno antro à minha esquerda. Quase “maquinal-mente” entrei no local onde o que restava da minha juventude se iria perder para sempre, ou, pelo menos, a relação com o romantismo que sempre mantive e que apenas me tinha dado em retorno, abandono real e cru de todas as ambições amaldiçoadas que mantinha. Inocência, palavra engraçada, certo! Já a tinha perdido há muito, bebendo com os demónios que caminham ao meu lado, sempre tentando realçar a minha virilidade. De certa forma perdeu-se a única réstia de sonho que mantinha para com um mundo fiel às histórias de infância e que se tinham perdido no momento em que a vi trancar a criança. Outro inocente se iria perder, já marcado, convalescendo ao meu lado, irmão de armas que teria de passar pelo raio do mesmo processo, caminhar na mesma linha,


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alcoolismo, drogas, perdas, mais perdas, morte, tudo… Coitado, nunca se irá safar, ainda não tem memórias. O seu choro será o meu tormento, como fui capaz de o fazer com ele tão perto. Perdi para sempre todas as ilusões infantis da minha própria bondade “a path straight to hell”. Uma vez no quarto, a criança desvaneceu-se na minha memória, apenas os atributos animais importavam agora, nada mais, estava fora do meu corpo, estava ausente, a pairar, e pela trágica ocorrência não reparei nas suas feições, uma vez perdido pelo abuso que me autoinfligia. O preço que importa! dei-lhe quarenta, o mínimo para estes negócios (suponho), pois são meramente negócios. Mandou-me despir e deitar na cama, despindo-se também. Comecei a perguntar o porquê de tanto trabalho ao apresentar-se daquela forma, todos tentamos mascarar algo, ela a idade, eu a dor de um vazio completo, pois dentro da ação que embalava estes dois corpos, não existia intimidade. De todas as posições, de todas formas, de todos os sentidos, tentei atingir algum significado para o que estava a ocorrer, mas como, se nem eu sabia do que estava à procura? Mesmo em casos passageiros, do perdido ao lamento, sempre houvera paixão, não àquele ritmo venéreo, maquinal sempre á espera que a meia-hora terminasse. Os seus gritos de prazer nada faziam, nos seus uivos conseguia distinguir o fingimento, a necessidade de me dar prazer, pensando que aquilo me excitava. O que ela tentava oferecer, era um negócio, um vazio, convulsões fantasmagóricas, onde nada parecia surgir por mais que eu tentasse. Acabou da mesma maneira que começou, sem atingir nada ou algo, mas deitando por terra a inocência de homem que assassinou a criança, pelo prazer fácil de um nada revoltante. Fingi, e sim, retive o poder que ela me tinha tirado á entrada. Soube bem, o poder é tudo, especialmente no sexo primitivo. Fingi-me poderoso, quando sabia que nada nem ninguém o poderia fazer a não ser tu. O sexo sem amor é uma experiência vazia, mas, decerto, a única à qual me posso oferecer, pois há muito que a minha paixão foi levada pelos ritmos dos antigos marinheiros que povoavam a terra do meu nascimento. Tentei apagar a tua memória, tentei preencher o

que deixaste, tentei, e disso veio algo mais atemorizador que a solidão que estes atos proporcionam. Negociei o teu amor, e fiquei vazio, como os templos de tantos outros homens de outrora. Foste tu que me levaste para a decadência e para o limiar da imitação animal, do desejo e da paixão. No final de tudo, neste momento lúgubre, encontrei uma réstia de humanidade, do ser decrépito que à minha frente se encontrava desprovido de toda sua oratória fabril. Perguntou-me, falou, concorreu e nela vi um objeto humanizado a tentar fluir, vislumbrei a mulher por detrás da máscara, um ser petulante, frágil, que conversava como uma mulher e não um objeto, o que para meu pesar, não cessava de o ser, tal como a encontrara. À saída, não sei porque lhe beijei a face, não foi por ternura, mas talvez devido a uma fragilidade que não pude esconder, uma réstia de Humanidade, que ainda se entranhava no meu gelado coração. Saí mais frágil, mais pobre, mais humano, desci dessa forma do pedestal no qual me mantinha, sei-o agora, a fragilidade é tanto minha como tua, mas tu queres escondê-la, queres-me manter nesta transfiguração de algo que não desejo ser, pois tu deténs o poder. Como a minha vida se esvazia pouco a pouco, pois que seja, manter-me-ei no vazio, no choque de corpos, no sentido sem o ter, provando tudo, mantendo-me esfomeado. Que a tua vontade seja feita, És Deus, que seja, mas eu, eu serei sempre real, enquanto tu nunca irás passar de uma miragem… foi tanto o que perdemos. É a vontade do Olimpo. Odeio-te. Não quero saber se existes, não quero que este ódio se vá, embora o deseje, pois tenho de o manter próximo. Não te dei mais valor do que no passado e não esperes que vá mudar algo no futuro, pelo que sei e aprendi, vivi mais que tudo toda a tragicidade da morte, do corte da lâmina, dos comprimidos, de acordar num hospital diferente cada vez que a contagem supera o que já não deveria existir. Bebi, fiquei sóbrio, foi para Hades e voltei. Tudo o que te posso dizer é que existe mais humanidade naquela figura entorpecida pelos custos da vida do que em toda a tua miserável existência. És Deus, hmm, que seja, reina sobre o teu nada!


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“Se Isto É Um Homem” Margarida Quintela . Aluna do 12.º F

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este último mês, li um livro que me marcou pela positiva devido ao assunto de que se trata: “Se isto é um Homem”. Comecei a ler este livro no âmbito da disciplina de Português, graças a uma apresentação oral que tive de fazer. Esta obra foi publicada em 1947 pelo judeu italiano Primo Levi, que foi um dos poucos sobreviventes de Auschwitz, e no qual se dedicou a compartilhar a sua história. “Se isto é um Homem” é um livro autobiográfico que descreve as experiências vivenciadas pelo autor enquanto prisioneiro no campo de Auschwitz. Tal como mencionei na minha apresentação oral, este livro começa com um poema (“Vocês que vivem seguros em suas cálidas casas, vocês que, voltando à noite, encontram comida quente e rostos amigos, pensem bem se isto é um homem que trabalha no meio do barro, que não conhece paz, que luta por um pedaço de pão, que morre por um sim ou por um não. Pensem bem se isto é uma mulher, sem cabelos e sem nome, sem mais força para lembrar, vazios os olhos, frio o ventre, como um sapo no inverno.”) que nos questiona como é que nós definimos o ser humano e nos da uma ideia clara de sofrimento. Depois deste poema começa o relato, relato este que é a recordação do período em que Levi foi levado pelos fascistas até ao momento em que os soviéticos chegaram à Polónia. Ao longo desta obra, vamos percebendo todos

os obstáculos que o autor teve de ultrapassar, desde as condições desumanas até aos maus tratos por parte dos guardas. Para atravessar estes obstáculos, o autor manteve sempre uma posição otimista, constatável em “Cedo ou tarde, na vida, cada um de nós se dá conta de que a felicidade completa é irrealizável; poucos, porém, atentam para a reflexão oposta: que também é irrealizável a infelicidade completa. Os motivos que se opõem à realização de ambos os estados-limite são da mesma natureza; eles vêm de nossa condição humana, que é contra qualquer “infinito”, posição essa que o fez manter a lucidez e que também o ajudou a sobreviver. Recomendo imenso este livro, pois apesar de Primo Levi ser um judeu, ele não se centra só nos problemas da sua religião. Ao longo da obra, fui percebendo que este tinha a preocupação de relatar os acontecimentos do campo e não apenas os problemas do grupo x ou y. Outra preocupação que este brilhante autor teve foi o facto de relatar tudo com o máximo pormenor, tudo aquilo que ele viveu e sentiu, fazendo assim com que os leitores entendessem tudo aquilo pelo que ele passou. Para finalizar, quero salientar que este livro não é um discurso de ódio aos alemães, nem um relato heroico de um sobrevivente, mas sim um relato de uma tragédia que não deve ser esquecida.


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Reflexão sobre os Direitos Humanos Ana Margarida Macedo, Margarida Coutinho, Pedro Fonseca . Alunos do 12.º A

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er uma vida digna, respeitável, livre e com acesso a todas as necessidades básicas é direito de todos os seres humanos, independentemente do seu género, etnia, nacionalidade, idioma, religião ou qualquer outra condição. O conceito de Direitos Humanos é antigo e, embora seja algo aparentemente simples, é um tema muito mais complexo e que se encontra distante da realidade de muitas pessoas. Segundo as Nações Unidas, os Direitos Humanos são universais. Contudo, em países como a Arábia Saudita, Israel, Ucrânia e até mesmo China certos direitos são diariamente violados. Apesar de existir um certo reconhecimento e combate às violações dos direitos do Homem por parte da sociedade moderna, por vezes, esta revela-se “cega” perante muitas das desigualdades que permanecem no mundo. Segundo o Artigo 16.° da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a partir de idade núbil, qualquer indivíduo tem direito a casar e a constituir família sem qualquer restringimento, desde que exista consentimento de ambas as partes. É também um direito de ambos os cônjuges que, durante o matrimónio e aquando da sua dissolução, estes disponham dos mesmos direitos. Posto isto, em algumas partes do mundo, o casamento é muitas vezes celebrado sem o livre e pleno consentimento de um ou ambos os futuros esposos. Existem argumentos culturais, relacionados com

Imagem in https://www.esquerda.net/


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Imagem in https://www.catho.com.br/

tradições e questões políticas que servem de justificação para a ocorrência de casamentos forçados. Em países como o Irão, mulheres ou até mesmo crianças são obrigadas a casar com homens significativamente mais velhos, vendo a sua dignidade e liberdade condicionadas. Hannah Arendt um dia disse: “A essência dos Direitos Humanos é o direito a ter direitos”, mas onde estão os direitos destas mulheres e crianças? Sendo a Lei igualitária para todo o mundo, esta deve ser aplicada da mesma forma para todos, sem qualquer distinção. Todavia, em diversos países, pessoas são privadas de trabalhar e contribuir para a evolução da sociedade única e exclusivamente pelo seu género. De acordo com o artigo 23º, qualquer pessoa tem direito ao trabalho e à escolha do mesmo, usufruindo de condições equitativas e satisfatórias, permitindo-lhe e à sua família viver de forma digna e completada, se possível, por todos os meios de proteção social. Em grande medida, a diferença salarial entre homens e mulheres reflete as desigualdades que persistem no mercado de emprego. Frequentemente, as mulheres recebem um salário inferior ao dos homens sob as mesmas condições de trabalho. É um facto que a disparidade salarial entre homens e mulheres é algo que persiste na atualidade. Sabemos ainda que a sociedade em que atualmente vivemos é, em parte, fruto da cultura. No

entanto, a cultura é também moldada pelos indivíduos que a ela pertencem. Conforme o Artigo 27.°, todas as pessoas têm o direito total em participar na vida cultural da comunidade, contribuindo para o seu desenvolvimento e usufruindo dela e dos seus benefícios. Apesar de cada vez mais se verificar a inclusão de pessoas com deficiência ou necessidades especiais nas artes e nas ciências, existe ainda uma certa rejeição na forma como estas podem contribuir para o avanço cultural. A arte e a ciência são de todos e para todos, por isso, “negar ao povo os seus direitos é pôr em causa a sua humanidade” (Nelson Mandela). É importante refletir que, embora seja notória uma evolução significativa na maneira como os Direitos Humanos são encarados, e mesmo que, de acordo com as leis, todos devam seguir a mesma conduta e possuir os mesmos direitos, infelizmente, tal coisa só acontece na teoria, porque na prática, existe sempre alguém prejudicado e que acaba por ver os seus direitos a serem violados.


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E emoção da música Lúcia Lopes . Aluna do 12.º B

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música é uma forma de arte que acompanha a vida de todos. A definição de música é muito complexa, varia de acordo com a cultura e contexto social. É difícil enquadrá-la em simples conceito. Alguns autores defendem que a música é uma combinação entre o som e o silêncio, outros vão mais além e descrevem a música como a coordenação entre a harmonia, melodia e ritmo. Há mais de um ano atrás, assisti um programa chamado Got Talent Portugal que mudou o conceito de música na minha vida. Um dos participantes, Franky Innocenti, um senhor italiano de 78 anos apresentou a sua história de vida antes de revelar o seu talento. Viveu num orfanato e tocava sempre que encontrava um piano na igreja, mesmo sem ter estudado as notas musicais. Franky Innocenti na sua apresentação demonstrou que a música é apreciada e valiosa mesmo tocando com notas aleatórias ou com elevado número de acordes. Frisou que a música é uma arte que não se estuda e sim se expressa. Através da música, comunicou de forma emocionante com os júris e público a sua ligação com o piano, sendo este o maior conforto na sua infância. Franky ao tocar piano comoveu-me, não só pela história de vida, como também pelo modo que expressou as suas emoções através da música. “Criaste um mundo e nos convidaste”, uma frase dita por um júri que me fez refletir. A música é

Imagem da autora do texto

muito mais que harmonia, melodia e ritmo, ela é todas as interpretações e emoções partilhadas entre o ouvinte e o artista.


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Uns e os Outros Agostinha Araújo . Professora de Português

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ns são grandes, outros pequenos. Uns redondos, outros amendoados. Alguns parecem uma linha rasgada no horizonte. Uns são escuros e lembram a noite, outros são luminosos como o céu ou o mar numa tarde de verão. Uns são amistosos e apetece entrar neles, outros são hostis e amedrontam-nos, rechaçam-nos. Alguns ficam na nossa memória, povoam os nossos sonhos, fascinam-nos, atraem como um íman; uns poucos passam por nós com indiferença. Na sua diversidade quase infinita, eles são extraordinários, “máquinas” de uma perfeição e precisão incríveis, que nos ligam ao mundo. Eles são, dizem, “o espelho da alma”. Eis os nossos olhos, únicos e irrepetíveis. Que deserto seria a nossa vida se, de repente, ficássemos impedidos de ver os olhos uns dos outros, num qualquer “distanciamento ocular”. Mal por mal, antes a máscara que a venda nos olhos!

Imagem da autora do texto


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As imagens José Artur Matos . Professor de Artes Visuais e Multimédia

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ada nesta imagem parece relevante, no entanto, para mim, está investida de punctum*.

Será fevereiro ou março. A sombra projetada na parede branca mostra a macieira do quintal ainda sem folhas. O momento tem o conforto dos inícios de tarde soalheiros e a energia boa do sol quase primaveril. O meu pai fez-me rir e alguém fotografou. Foi há muito tempo, teria vinte e poucos anos. Existem silhuetas, sombras e olhares menos óbvios. De chapéu de palha, à esquerda, um dos grandes amores da minha vida observa o quadro. A minha mãe deve estar ali ao lado a lavar a louça do almoço. Sim, só pode ser domingo! Acordei há pouco tempo, a noite de sábado terá sido longa e o J. deve estar a chegar. Não vamos parar, temos vinte e poucos anos e a montanha embriagada, a Diane descapotável, a procura de tudo que ainda não sabemos… julgamos ser felizes!

Imagem do autor do texto

….

corromper. As imagens podem ser inocentes, mas também podem ser encomendadas e compradas - mercadoria. O que as imagens significam é volátil e impermanente e varia de acordo com contextos, com o tempo ou a cultura. Existirá uma dimensão objetiva nas imagens, no entanto, acabam por revelar muito pouco, quando somos parte delas. Ainda bem que assim é, porque ele há coisas que são indizíveis e outras tantas que queremos manter secretas.

As imagens elevam e/ou destroem o mito, contribuem na construção de perceções, ideias, ilusões e nadas. As imagens revelam e denunciam, mas também podem ser utilizadas para manipular e

* “O punctum é então uma espécie de fora-de-campo subtil, como se a imagem lançasse o desejo para além daquilo que dá a ver”. Barthes, Roland (1980), A Câmara Clara. Edições 70.


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A luz aparece sempre! Vítor Briga . Convidado

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o auge da pandemia, e em pleno isolamento social, fui recebendo mensagens de preocupação e carinho de amigos improváveis. É de um amigo destes que vos quero falar hoje: Hanifa Fais. Há três anos, fui ao Sri Lanka e após uma semana a viajar pelo país, decidi, um pouco por acaso, passar uma semana mais tranquila numa pequena vila piscatória, muito pouco turística, no sul do país chamada Beruwala. O acaso foi meu amigo e encontrei o lugar perfeito para descansar e simultaneamente viver os costumes e cultura locais. Praias desertas onde pude ver e ouvir a alegria de monges adolescentes, ainda em formação, a banharem-se encantados com o prazer dos sentidos; onde almoçava diariamente com os pés na areia refeições servidas sempre com um sorriso imperfeito, absolutamente honesto e autêntico; e onde passei todo o tempo possível no centro de terapias ayurveda da região, em momentos imersivos de renovação energética. Num dos dias, ao final da tarde, decidi caminhar até ao mercado do peixe local. O mercado fica no próprio porto de pesca e, portanto, o espetáculo é estimulante e multissensorial. Os barcos a chegarem e a serem empurrados com a força de vários homens para a areia, a mistura de peixes com cores fortes e tamanhos impressionantes por todo o mercado. No ar, o ruído inebriante dos filhos dos pescadores descalços a jogarem a bola

Imagem do autor do texto

na terra… Recordo-me de ser o único estrangeiro por ali e de em algumas bancas de peixe ser olhado com alguma desconfiança, talvez pela diferença, ou talvez pelo meu péssimo hábito de “roubar” fotografias de ‘instantes decisivos’. Enquanto me perdia, e me encontrava, nesta busca das imagens que iam ficar na minha memória, ouvi uma voz a cumprimentar-me, num inglês elementar e esforçado. Era o Hanifa. Vive em Beruwala e estava também a passear após um dia de trabalho. Ofereceu-se para me ajudar a compreender melhor aquilo que estava a ver. Quando viajamos sozinhos, se tendemos, por um lado, a desconfiar dos estranhos que decidem “invadir” o nosso espaço, temos também grande liberdade para correr riscos, pois não dependemos de ninguém e ninguém depende de nós. O Hanifa


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pareceu-me boa pessoa e por isso aceitei o convite para ir conhecer o seu espaço. Entre ruelas, e ilhas de casas, lá entramos no seu lar, onde me apresentou a mulher e me ofereceu uma água de coco colhido, naquele momento, das árvores do seu jardim. Conversámos sobre as nossas vidas e o Hanifa perguntou-me se tinha filhos ao que respondi que não. Olhou para mim com um ar sério, preocupado, e confessou que ser pai é o seu maior sonho, o que por algum motivo de saúde não tinha ainda acontecido apesar da vontade do casal. Descemos novamente para junto ao mar e sentamo-nos numas rochas com vista para uma ilha com um farol. Perguntei-lhe se o farol alguma vez acendia, ao que ele respondeu: “Sim. A luz aparece sempre.” Ficamos em silêncio a olhar para a ilha, a contemplar o momento em que o fim do dia e a noite se encontram. De repente, a luz do farol acendeu. Diz-me o Hanifa: “Estás a ver, a luz aparece sempre.” Quando me despedi do Hanifa, desejei que ele acreditasse sempre naquilo que me disse naquele fim de tarde. Ser um otimista (centrado no real) não muda a realidade, mas coloca mais facilmente o nosso pensamento focado em soluções. É bem melhor do que o pessimismo, que tende a ficar refém das emoções. Permite uma avaliação mais abrangente do que está a acontecer e aumenta as hipóteses de iniciarmos as ações certas. Em 1999 foi apresentado o Manifesto da Psicologia Positiva por Martin Seligman, caracterizando este ramo da psicologia como o ‘estudo científico do funcionamento humano ótimo’. Tem como objetivo descobrir e promover os fatores que permitem aos indivíduos e às organizações prosperarem, em vez de colocar a ênfase na doença e no distúrbio, como sempre fez a psicologia tradicional. Ou seja, o estudo da felicidade, para melhorar a qualidade das nossas vidas, passou a ter uma base científica e deixou de estar restrito aos livros de literatura pop e de autoajuda. Não é função da psicologia positiva dizer às pessoas que devem ser mais otimistas, ou mais espirituais, ou mais simpáticas e bem-humoradas; a sua função é antes descrever as consequências destas características. Aquilo que cada um fizer com essa informação

depende dos seus próprios valores e objetivos. O curso mais popular da universidade Harvard, é sobre psicologia positiva. Todos os anos mais de mil alunos, entre eles centenas de executivos, inscrevem-se no curso do filósofo e psicólogo Tal Ben-Shahar para aprenderem técnicas que lhes permitam encontrar congruência, prazer e significado na corrida diária e sentirem-se, além de bem-sucedidos, felizes. Afinal de contas, parece que a felicidade ajuda ao sucesso e o sucesso não é outra coisa, senão a felicidade.... A boa notícia é que podemos efetivamente, se quisermos, tornarmo-nos mais felizes. Apesar de apenas cada um poder saber o que é a felicidade para si próprio, já que ela será sempre subjetiva, tem-se verificado como padrão que as pessoas mais felizes experimentam no seu dia-a-dia mais emoções positivas do que negativas. A busca da felicidade no trabalho poderá ser, afinal, esta conquista. Segundo Sonja Lyubomirsky, professora na universidade da Califórnia e autora do livro “The How of Happiness”, a felicidade depende em 50% da herança genética; em 10% das circunstâncias da vida, tais como o local onde vivemos, quanto dinheiro ganhamos ou o aspeto físico; e em 40% da nossa atitude, o que pensamos e o que fazemos. Ora, é operando nestes 40% que poderemos aumentar os nossos índices de satisfação e bem-estar para maximizar a nossa relação com o trabalho e com os outros. A psicologia positiva propõe uma série de atividades que aumentam este nosso bem-estar subjetivo. Vem assim comprovar-se a proposta de Aristóteles quando afirmou que a felicidade depende de nós e a de Abraham Lincoln ao intuir que “a maior parte das pessoas é tão feliz quanto decide ser.” Termino, lembrando que a felicidade não é facilidade. Dá trabalho! Alimenta-se da prática de pequenos hábitos diários positivos, de sabermos tirar da nossa vida pessoas ‘tóxicas’ (ou saber não deixar que nos afetem), da aceitação das nossas emoções negativas, da opção consciente de pensamentos alternativos mais positivos, de um otimismo realista que nos mantenha atentos aos acasos e às oportunidades. É por isto que é importante acreditar que a luz aparece sempre.


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Take these bridges away Levem estas pontes. Um fósforo que se apaga sempre! Passos antigos debruçam-se nas pontes. Não levam a lugar nenhum. Apenas são almas sofridas à espera de luz. Levem daqui estas pontes pois não são verdadeiras. João Andrade Rebelo . Professor de Filosofia

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Ansiedade João Pimenta . Aluno do 10.º C

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unca pensei que uma coisa como esta poderia acontecer enquanto eu estivesse vivo. No início, vi uma notícia que dizia que tinham sido encontrados 28 casos de pneumonia viral em Whuan e pensei para mim mesmo que nada de grave iria acontecer e que não iria chegar até aqui. Estava muito enganado. Começou muito rápido e parece que vai acabar lentamente, que vai ficar connosco para sempre. A distância e a apatia deixaram-me num estado de ansiedade ainda maior do que aquele que já tinha. Espero que esta situação acabe o mais rapidamente possível. Estou farto da longa distância entre mim e aqueles que eu amo.

Imagem do autor do texto


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Um desabafo para ti, Covid Rafaela Costa . Aluna do 12.º F

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oje, pela primeira vez em algum tempo, abracei a minha avó materna. Costumava fazê-lo vezes e vezes sem conta. Olha, eram tantas as vezes que o nosso abraço acabou mesmo por se tornar num gesto quase que irracional, vê lá tu. E era assim até tu chegares. Com a tua chegada, as visitas diminuíram e com a distância a aumentar cada vez mais, fomos obrigadas a raciocinar e banir o nosso abraço do quotidiano. Não só nós as duas, mas também o meu avô, os meus avós paternos, os meus amigos, todos fomos forçados a cortar o contacto físico. Com os amigos o assunto resolveu-se facilmente: viemos confinados para casa. Já com os idosos, o caso foi outro. Estás por todo o lado e ninguém te vê e acho que foi assim que infetaste os meus avós paternos. Foi horrível. Foram para o hospital muitas vezes e voltaram outras tantas por falta de lugar. Viveram um verdadeiro inferno e nós também, mas, no fim, eras só tu, Covid, que chegaste como quem não queria nada e levaste-nos tudo. Mas não penses que te odeio por tudo. Odeiote bastante, é verdade, mas, graças a ti, aprendi a valorizar as coisas mais simples que tenho a oportunidade de viver todos os dias. O abraço rápido dos meus avós, que agora estão vacinados; o sorriso dos meus melhores amigos que consigo perceber através da máscara quando os olhos sobem; as corridas com o meu cão pelo monte; a

Imagem da autora do texto

companhia da minha mãe na quarentena. São as coisas mais simples que tenho e ainda assim as mais valiosas. Obrigada por me lembrares o que é realmente importante, Covid, mas continuo a pedir-te que vás embora. Já fizeste mais do que o suficiente. És Covid-19 e já estamos em 21, acho que já aprendemos a lição, agora deixa-nos viver.


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A Cultura, a Arte e a História na Escola do século XXI António Coutinho . Professor de História

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roponho neste número uma partilha reflexiva de “Pensar(es)” sobre a Cultura, a Arte e a História na Escola do século XXI. CULTURA significa a ação que o Homem realiza quer sobre o seu meio, quer sobre si mesmo, visando uma transformação. Nela se incluem produtos da ação humana tão diferenciados como a linguagem, as técnicas da escrita, o Direito, as práticas do lazer e do ócio, as festividades, a religião e os rituais religiosos, as conceções sobre o planeta, o universo e, sobretudo, a ARTE, sob todas as suas formas e modalidades, como as artes visuais/artes maiores (pintura, escultura e arquitetura). A arte é uma atividade de criadores individuais como das sociedades onde se integram. Sendo resultado da ação humana, esses produtos e atributos são, por consequência, transmissíveis por hereditariedade social. A arte é um produto cultural por excelência que, cumprindo ou não finalidades uteis, expressa ideias, sentimentos ou emoções estéticas. O homem é, assim, em simultâneo, um produto e um agente produtor de cultura. A HISTÓRIA DA ARTE é a disciplina que tem por objeto o estudo das produções artísticas, isto é, as obras de arte produzidas pelo homem ao longo dos tempos. Como todas as ciências, possui também um método, pois requer investigação/ pesquisa e uma síntese interpretativa criativa e crítica, procurando relacioná-las com o contexto

individual, sociocultural e histórico em que foram produzidas. “A obra de um grande artista é uma realidade histórica que não fica atrás da Reforma de Lutero, da política de Carlos V, das descobertas de Galileu” (Fagiolo e Argan). O que se espera da ESCOLA do século XXI? As Aprendizagens Essenciais de História da Cultura e das Artes visam identificar os conhecimentos, capacidades e atitudes que contribuam para o desenvolvimento das áreas de competências definidas no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória. Pretende-se que os alunos desenvolvam uma consciência cultural e artística (técnica, estética e formal), permitindo-lhes, deste modo, assumir uma posição crítica, participativa e informada na sociedade, reconhecendo a utilidade da História da Cultura e das Artes para a compreensão do mundo em que vivem, numa perspetiva humanista. Educar para a preservação do património artístico é desenvolver a consciência cívica pela fruição estética.


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Aquela porta fechada Em um quarto com a porta fechada Esperando para não ser nada Com medo do futuro E do mundo sem rumo Perdidos e desesperados Com receio de ficar para sempre fechados O que será de nós? Quem dera saber! O que era para ser temporário Já lá vai mais de um aniversário Abriu-se a porta! Mas rápido se fecha novamente Não haverá algo que a abra eternamente? Ninguém sabe... Nesta luta injusta que parece Não ter coração, Quando surgirá a solução? Ninguém sabe... Mas há esperança de um dia, todos saberem que aquela porta jamais se fecharia. Marta Magalhães . Aluna do 12.º B

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(Ainda sem título) Carla Cabral . Professora de Artes Visuais

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osto dos dias de nevoeiro. Da imaterialidade do mundo, de como o tempo se expande. Não há nem ontem nem amanhã, apenas a intensa incerteza do agora. Do lado de fora da casa tudo é fluido, frágil e precário. Lá dentro percebo todos os contornos, o peso das coisas, o relógio que marca o tempo no rosto segundo a segundo a segundo, a inesgotável sucessão das tarefas quotidianas, esmagadoras e insignificantes. Nos dias maus a casa enche-se de sombras, de silêncios opacos, reconfigura-se num amontoado de esquinas e tubos e portas fechadas e desencontros. Às vezes encosto o rosto às paredes e escuto o seu pulsar débil, a desolação que a invade como um fungo, o bolor do tempo que se entranha em tudo, e tremo de frio. Nos dias bons a casa esvazia-se de medos, abrese ao nevoeiro, enche-se de árvores, rumores de bichos e abraços e percorro a casa como se percorresse o mundo. Talvez seja por isso que gosto dos dias de nevoeiro, dessa indefinição que nos estilhaça, que suspende o corpo, que nos torna amplos e translúcidos. Amo essa leveza, essa quase invisibilidade, essa não fronteira entre mim e o mundo, esse nada ser onde posso ser tudo – erva, tronco, nuvem, pedra. Imagem da autora do texto


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Pandemia. Algumas notas Cristina Trindade . Aluna do 12.º C

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,2,1...Feliz ano novo! Só não esperava que o desejo de passar mais tempo com a família resultasse numa pandemia. 2020 foi um ano de mudanças e, como tudo, revelou o seu pior e o seu melhor. Por um lado, para mim, a pior parte deste “filme” foi o facto de sermos proibidos de fazer o que mais nos torna humanos, demonstrar afeto e amor pelos outros. Esta situação demonstrou a importância de aproveitar as pequenas coisas, mesmo aquelas que nos parecem insignificantes. Agora percebo a icónica frase “carpe diem”. De uma perspetiva menos positiva, estes dois anos deixaram transparecer a verdadeira natureza de alguns seres humanos. A irresponsabilidade e a falta de prudência perante a existência do vírus, levaram à sobrelotação dos hospitais e à consequente exaustão da linha da frente. Além disso, a distribuição das vacinas tornou-se um autêntico salve-se quem puder. A Covid-19 trouxe impacto na economia, na educação e no desemprego, sendo estes apenas alguns de muitos dos problemas que nos vão afetar durante os próximos anos. No entanto, é a falta de consciência que realmente me preocupa.

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“Revelações de uma máscara” Diana Teixeira . Aluna do 12.º B

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lguma vez pensei usar uma máscara na minha vida? Não. Mas somos surpreendidos por uma pandemia que toma conta das nossas vidas num ápice, como nunca pensei ser possível. Relativamente ao efeito da pandemia na minha vida, consegui perceber ainda mais quem são as pessoas importantes para mim. Quando sentimos saudade de alguém, sabemos que essa pessoa é importante. A pandemia fez-me dar ainda mais valor às pessoas de quem gosto e aos momentos que passo com elas. Algo engraçado é que dou por mim a sorrir de máscara, não me apercebendo que não me conseguem ver. No geral, foi possível ver o quão solidários conseguimos ser. O mundo uniu-se pelo mesmo e já estamos mais perto de nos ver livres deste “bicho”.

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Saudades de ti, de mim, de todos Maria Isabel Ribeiro . Aluna do 12.º A

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enho saudades dos fins-de-semana passados em família e de agora nem um simples concelho poder passar. Saudades de viver a vida sem me preocupar com qualquer tipo de contacto com outra pessoa... sem pensar que respirar o mesmo ar que essa outra pessoa se poderá tornar num medo e numa angústia nunca antes vistos ou sequer imaginados. Saudades daquilo que não vamos viver mais, saudades daquilo que nem sequer aconteceu e, sim, parece estúpido, mas não o é, porque sabemos que tudo o que imaginávamos para o nosso futuro não seria “isto”, seria antes um ano igual ou melhor do que tantos outros, habitualmente, é o que desejamos numa passagem de ano. Nunca pensamos que, ao comemorar o ano velho e dar as boas vindas a um ano novo cheio de esperanças e promessas fôssemos ficar assim, reduzidos a nada e a ninguém... Saudades de sorrir livremente, saudades de ver um rosto tal como ele é, sem máscaras, sem viseiras, sem óculos ou fatos de proteção... saudades de ti, de mim, e de todos nós, de nos vermos juntos, olhos nos olhos, sem nada a separar, apenas duas faces puras... a tua e a minha...

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Ser livre em tempos de pandemia Sofia Silva . Aluna do 11.º F

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o ano de 2020 surge um vírus que, apenas uns meses depois, se transformou em uma pandemia. Devido a este problema, com o qual ainda temos que lidar um ano depois, tenho-me deparado com vários comentários sobre o quanto este vírus nos roubou a liberdade, ou, mais especificamente, as decisões dos governos de vários países ao implementarem o confinamento. Mas será que, de facto, já não somos livres? Será que a nossa liberdade individual se deve sobrepor ao bem-estar coletivo? A nossa liberdade deve ser celebrada todos os dias, no entanto, neste contexto, a nossa liberdade individual não deveria ser mais importante do que o bem-estar da sociedade. Ao não respeitarmos as regras implementadas, não só nos estamos a prejudicar a nós, como também estamos a comprometer a saúde pública. É importante ter em mente que este vírus é altamente contagioso e, em algumas situações, é mortal. É importante saber que existem pessoas com certas caraterísticas que as fazem ser mais frágeis perante este vírus. Sendo assim, ao escolhermos não obedecer ao confinamento estamos a roubar a vida dessas pessoas. Considero bastante preocupante e revoltante que milhões estejam a morrer e, ainda assim, existam pessoas que preferem ignorar a realidade. Contribuir para a gravidade desta situação é o mesmo que contribuir para o prolongamento de um confinamento.

Imagem in https://www.cartacapital.com.br/

De facto, neste caso, “a nossa liberdade acaba onde a do outro começa”. A liberdade é um bem partilhado e a liberdade de escolha não é uma justificação para se continuar a viver de forma despreocupada em relação aos “outros eus”.


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O professor é um ator A. Marcos Tavares . Professor de Filosofia

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ntendo aqui por ator aquele que encarna uma determinada personagem, que representa um determinado papel. O ator é-o sempre na relação com um público. Não tem sentido falar de ator enquanto indivíduo isolado (a não ser que queira representar para si próprio, o que às vezes acontece, mas isso é já outra questão). Confrontar-se com o público é a essência do ser ator e, ao mesmo tempo, o seu maior desafio. Vários atores profissionais confessaram estar sempre nervosos e com algum receio antes de entrarem em palco. É o reconhecimento implícito do peso decisivo de cada público na substancialização do papel apresentado. O professor, na sala de aula, também se substancializa pela mediação do público, neste caso os seus alunos. Tudo o que faz ou diz, a maneira como se movimenta, os gestos que articula, mesmo a roupa que veste e os silêncios que promove são formas de comunicação que impactam no seu auditório e estão sujeitas a escrutínio. De tudo o ator/professor deve cuidar e não serve dizer que, por exemplo, se veste como quiser e que os alunos não têm nada que ver com isso. Claro que têm. Tudo «soa através» d´«as máscaras» - é sabido que a «máscara» usada por um ator no teatro clássico se designava por «persona». A máscara constitui tudo o que a pessoa, como ser comunicativo, que «soa através de», utiliza para fazer passar a mensagem. O professor é talvez o ator de quem mais se exige,

Imagem de depoistphotos

porque a sua representação é sempre ao vivo. Cumprir devidamente o seu papel requer a motivação dos alunos e o domínio de um conjunto de técnicas; mas, ao mesmo tempo, reclama a persuasão e o controle do seu público. O ator (de teatro, de cinema, de telenovelas…), em circunstâncias normais, não tem de se preocupar com cativar o seu público: este, naturalmente, vai vê-lo porque quer, vai vê-lo com um sentimento de prazer. O público que o professor tem à sua frente não está ali por sua


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Imagem Pixabay

iniciativa, porque escolheu ir, mas por dever, porque lhe foi atribuído este tempo, este espaço e este professor. Ao ator, se a tomada da cena não correu bem, há sempre forma de a remediar, ao professor está vedada esta possibilidade. Ele não pode voltar atrás e, provavelmente, o eventual deslize vai condicionar toda a sua prestação e a atitude do seu público. Nestes últimos tempos, nesta situação especial tão delicada, o professor foi forçado a ser duplamente ator: usou duplamente a máscara. A máscara que literalmente lhe cobria o rosto, escondendo as feições, o sorriso, a maioria das expressões faciais. E a máscara, chamemos-lhe natural, que no seu desempenho de professor está sempre presente. A escritora italiana, Paola Mastrocola, recordando os seus tempos de escola nas colunas do jornal La Stampa, dizia que “Há magia mas esta só ocorre quando alunos e professores estão cara a cara”. “Quando dá aulas numa sala, um professor não só transmite conhecimento cultural direto como também algo mais misterioso, muitas vezes in-

consciente, e que é o verdadeiro ensino.” Quando, por exemplo, um professor lê um poema na aula, ele não se limita a ler em voz alta. Enquanto lê, diz mais coisas, através do tom de voz ou do olhar. Exprime emoções improvisadas que ajudam na compreensão do significado profundo daquela poesia. É por isso que não devemos eliminar as aulas presenciais. Seria como suprimir a imaginação, retirando a nossa confiança no misterioso poder da palavra. Seria como “cortar a corda a um papagaio de papel”, nas palavras da escritora italiana. A situação virtual, a distância, as presenças «impessoais» anulam, ou, pelo menos, desvirtuam o que verdadeiramente interessa: a comunicação profunda e profícua entre o ator/professor e o seu auditório/alunos. O E@D não permite que o corpo fale, inviabiliza o significado da postura, dos gestos, das expressões, dos silêncios. O ator é-o na sua interação com o público. O professor é-o na sua intercomunicação com os alunos.


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Máscara aflita Antes era usada apenas pelos médicos ou assim, mas agora que o covid chegou ninguém se esquece de mim. Agora eu sou rainha, em todas as lojas estou, em todos os rostos que vêm Podem ter certeza que lá estou. Mas o que adianta, ter toda esta atenção? Se ninguém gosta de mim, nem sequer o meu irmão. Em todas as casas que estou muitas vezes dizem assim: -Deus queira que o covid passe, Porque esta máscara já faz parte de mim! Mas tem uma coisa que eles deveriam saber. Eu só os impeço, De tão cedo morrer.

Matilde Ribeiro, 6.º2 - EB2,3

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Pandemia Anita Fonseca . Aluna do 10.º B

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unca entendi a necessidade do ser humano se expressar em toques, abraços e beijos, o terem um certo impulso para se expressar através de atos e não em palavras, até agora. Já faz um ano (2020-2021), que não se sente o toque dos entes mais queridos, as brincadeiras em que havia contacto físico com colegas deixaram de ser constantes, a alegria e a simplicidade foi substituída por um cansaço mental, perderam-se vidas, empregos e a economia diminuiu drasticamente. Pode-se considerar que foi, e está a ser, um ano cheio de amargura, onde todos nós tentamos não perder a sanidade no dia-a-dia. Agora sim, entendo a necessidade de expressar o

que vai na alma através do toque, nós precisamos de demonstrar que o sentimento é real, que não são meras palavras ditas. Através do toque e da expressão facial, o ser humano pode transmitir calma, alegria, tristeza, fraqueza ou felicidade, e a Covid-19 veio tirar-nos estas formas de expressão. Em Portugal houve um aumento significativo da depressão e ansiedade devido ao stress imposto por esta pandemia, 92% de pessoas relataram sintomas de ansiedade (moderada a grave) e 43% sintomas de perturbação de stress pós-traumático. A pandemia retirou muita coisa ao ser humano. Mas pode também abrir as portas para um mundo mais expressivo, respeitador e cuidadoso. Assim nós queiramos…

Imagem da autora do texto


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À descoberta Joana Mendes . Aluna do 10.º B

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iver numa pandemia não é fácil. Especialmente quando somos tão novos e ainda temos tanto para ver e descobrir. No entanto, caso esta tragédia não tivesse acontecido, era-me impossível sequer imaginar que seriam mais as coisas boas do que as más que dela retiraria. Durante o tempo em que estive sozinha em casa descobri-me a mim mesma e este é um processo que ainda está a decorrer. Percebi o porquê de certas atitudes e pensamentos meus, tive tempo para mim (algo raro de acontecer), ouvi música, dancei, pus as séries em dia e o mais importante, tratei da minha saúde mental. Há um ano atrás era uma pessoa completamente diferente e provavelmente não tão feliz ou consciente do mundo à minha volta. Ao covid só tenho a agradecer por ter mostrado que nem todos os que estão ao meu lado são de facto meus amigos e que no fim sou eu por mim e todas as minhas ações devem ser em volta da minha felicidade e bem-estar. Depois disto tudo terminar o mundo vai estar melhor e mais ciente do quanto a vida é preciosa e merecedora de aventuras.

Imagem da autora do texto


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Cumolonimbus. O céu acima do céu Carlos Bao . Aluno do 11.º C

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distâncias do horizonte diante dos meus olhos, camadas alvacentas de vapor, amontoam-se em pilhas amorfas de ar. Acima das nuvens que cercam o véu da cidade, o céu azul, ruge num tremor de empalidecer com o soerguer de uma torre de Babel. Esta estrutura colossal cresce indefinidamente, engolindo o céu num cenário de fim do mundo. Só de desviar o olhar, o topo dela torna-se num planalto e nele entrevejo nos interesticíos macios e volumptuosos das nuvens, a existência de vida, a vida de seres como nós que se fixam a um solo e fitam o céu como se algo dele nos fascinasse.

Imagem de Carlos Bao


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Algo se pode aproveitar Adriana Mota . Aluna do 10.º B

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ão tenho nenhuma dúvida de que a quarentena que esta pandemia causou nos está a matar a todos por dentro. Desde que tudo começou, as coisas têm sido difíceis. Temos de ter cuidado e estar sempre à alerta. Já não podemos sair com os nossos amigos sem ter aquele medo de que algo nos aconteça ou à nossa família. Temos de ter o máximo de cuidado possível. Há quem diga que “só vivemos uma vez” e por isso não têm os devidos cuidados. NÃO É ASSIM QUE FUNCIONA. É claro que só vivemos uma vez, mas não é por isso que não nos devemos proteger ou preocupar. No início de tudo isto eu estava feliz, pois nunca pensei que Portugal fosse ficar tão afetado e também porque ficámos um tempinho sem aulas e eu achei que as aulas online iam ser muito divertidas… Estava enganada! As aulas por videoconferência são, sem dúvida, uma das piores maneiras de aprender. Nós, alunos adolescentes, distraímo-nos com qualquer coisa que temos à frente, basta passar o nosso pet para fazer umas “festinhas” ou ter irmãos mais novos que precisam da nossa atenção durante um pouco para os trabalhos da escola deles. É muito difícil um professor conseguir cativar a atenção de um aluno numa aula síncrona. Os últimos tempos não têm sido fáceis. Como os professores têm de nos avaliar, temos tido muitos trabalhos, desde questões aula até apresentações orais feitas para uma câmara. Esta é a nossa realidade hoje em dia, nunca pensei que isto poderia acontecer. Só podemos sair de casa para coisas essenciais e isso dá cabo de mim. Eu adorava ir às compras ao shopping

com a minha família aos domingos, não só para comprar, mas também para sairmos juntos e passearmos um bocado. Mas isso já não é possível, tudo mudou. Tenho saudades dos tempos em que não tínhamos a preocupação de nos afastar de todos e de usar máscara sempre que saíamos à rua, de higienizar as mãos sempre que tocamos em algo que não nos pertence. Com a pandemia tive de abdicar de 2 coisas das quais eu gostava muito: as saídas com os meus amigos e a natação. Mas nem tudo foi assim tão mau, acabei por descobrir que gosto imenso de cozinhar… antes só sabia fazer arroz e massa, quase nem sabia estrelar um ovo. Dediquei-me mais à guitarra e à música, tenho aulas online todas as sextas feiras, e encontrei uma grande felicidade nos últimos tempos, alguém que me tem apoiado bastante e vice-versa. Se há uns anos atrás me dissessem que em 2020 e em 2021 nós estaríamos a ter aulas em casa através de um computador, eu não acreditaria. Se me dissessem que eu estaria proibida de sair de casa, também não acreditava. Vivemos uma realidade bastante diferente, pode não ser tão má quanto as guerras, mas é terrível para uma geração habituada a que esteja sempre tudo bem, sem muitas dificuldades. Adorava que tudo isto fosse um sonho, acordar e esta pandemia não existir, ser apenas fruto da nossa imaginação… Mas não é possível, por isso vamo-nos proteger e proteger os outros. Temos de ter muito cuidado. Isto não é uma brincadeira nem nenhum tipo um jogo. Protejam-se e fiquem em casa!


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Olhos e mente bem abertos Ana Velho . Aluna do 10.º A

“ (…) Quem não tem umas tintas de filosofia é homem que caminha pela vida fora sempre agrilhoado a preconceitos, das crenças habituais do seu tempo (…) ” B. Russel, Os problemas da Filosofia - adaptado

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sta afirmação defende que o Homem que não tem a filosofia presente na sua vida, é uma pessoa cujo intelecto não evolui. Se a filosofia tem uma ação libertadora, no sentido em que nos convida a pensarmos por nós próprios e a sermos críticos de forma a, por exemplo, não sermos enganados ou manipulados ou até mesmo para descobrirmos coisas novas e termos a nossa própria perspetiva, quando alguém não teve na sua formação/educação esta liberdade de pensamento, será alguém agarrado ao dogmatismo, ao preconceito, às ideias fixas e predefinidas, e, por isso, será uma pessoa fechada a novas formas de pensar cujo conhecimento não evoluirá. Eu concordo com a tese acima descrita, uma vez que no mundo real temos de ter espírito crítico, de forma a que não nos enganem e nos manipulem. Por exemplo, nos regimes ditatoriais, os chefes da nação querem que as pessoas pensem todas do mesmo modo, de maneira a que concordem com as políticas do regime sem terem um conhecimento aprofundado daquilo com que estão a concordar. Por isso, não devemos deixar que nos retirem a nossa liberdade de pensamento para podermos ser originais e genuínos. Devemos também ter uma mente aberta e aceitar

Imagem: Escultura de "Antony Gormley"

tanto as perspetivas dos outros como novas descobertas feitas noutras áreas/ciências. Se assim fosse, viveríamos num mundo mais civilizado, com espírito crítico e mais autêntico.


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Padronização do conceito de beleza feminina Marta Guedes . Aluna do 10.º A

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esde a antiguidade que se têm vindo a alterar os padrões de beleza na sociedade. O conceito universal de beleza diz que esta é ‘’Uma característica de uma pessoa, animal, lugar, objeto ou ideia que oferece uma experiência percetual de prazer ou satisfação. É a qualidade do que é belo’’. A beleza não é algo exato. Pode tanto ser considerada algo subjetivo como objetivo. A primeira impressão que nós temos de uma pessoa que acabamos de conhecer acontece nos primeiros 15 segundos de observação. Por exemplo, se eu for a uma entrevista de emprego, é importante causar uma boa impressão exatamente por causa disso. Porém, a longo prazo, esta primeira perceção da pessoa vai-se tornando algo subjetivo, uma vez que, a partir desse momento, a beleza já não depende apenas do que nós vemos, mas também da maneira de ser da pessoa, do seu interior. Afinal, quem nunca achou alguém extremamente bonito, mas afinal de contas, as atitudes dessa pessoa não corresponderam com o esperado e acabaram por nos fazer mudar de pensamento quanto a ela? E quanto à beleza feminina, passar-se-á o mesmo? Na sociedade atual existem os chamados padrões de beleza. Principalmente no que diz respeito à mulher. Desde a antiguidade que a perceção sobre ela tem vindo a mudar. Atualmente, o ideal de beleza feminina é encarado no Ocidente tendo em conta determinadas características, como

Imagem: "Vénus de Milo" in https://www.telerama.fr/

o peso e a altura, que tendem a ser impostas por supermodelos ou influenciadores do mundo da moda. Este padrão tem-se vindo a intensificar de uma maneira extrema e tem vindo a provocar um maior efeito nas mulheres do que nos homens. Hoje em dia as mulheres sentem mais a necessidade e a pressão de estar dentro desses padrões porque acham que só assim podem ser consideradas bonitas. Estas comparações a um modelo considerado o ‘’perfeito’’ não deveriam ser feitas de todo. Considerando a beleza algo relativo, temos de ter em conta não só as características pessoais da mulher, mas também as sociais e culturais, porque o seu valor está sujeito ao tempo e dependente de cada região do globo.


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As Ilhas Desconhecidas, de Raúl Brandão Raúl Saraiva . Aluno do 10.º F

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u escolhi este livro porque, ao ler o título, achei curiosa e interessante a palavra “Desconhecidas” e então decidi ler para ver quais eram e como eram essas Ilhas Desconhecidas. Este livro é um diário, já que o autor relata tudo o que vê no dia a dia. Nele descreve as paisagens, o quotidiano, os costumes dos povos, os animais, etc., aspetos que, em 1924, eram ainda muito pouco conhecidos. Raúl Brandão vai de barco até às Ilhas Desconhecidas, que são o Arquipélago dos Açores e o Arquipélago da Madeira. Assim que ele deixa terra, começa a descrever a vida a bordo do vapor e a paisagem encantadora que os mares e os céus oferecem. O livro é belíssimo, todo ele tem um discurso laudatório das Ilhas do Arquipélago dos Açores e das Ilhas do Arquipélago da Madeira com muitos adjetivos e hipérboles. Algumas frases e expressões até nos tocam um bocado no coração. Por exemplo, quando o viajante descreve o mar: “mar desmaiado, que não foi feito para se ver, mas para respirar”. Depois de passar rapidamente pela Madeira, o autor elogia-a como uma terra fértil, feliz e romântica, porém também a considera muito turística, terrivelmente turística, o que acaba por ser mau, de acordo com a sua opinião. Raul Brandão seguiu para os Açores. Por aí foi viajando, de barco, de ilha em ilha. Embora Raul Brandão tenha uma atenção a todos os sentidos

– visões, sons, sabores – a exaltação da cor e da paisagem é tanta que até se pode dizer que é constante ao longo da obra. O autor realça e aprecia muitas vezes a solidão que há em toda a beleza visitada. Nas gentes açorianas, Brandão sentiu um isolamento extremo (no Corvo) e uma coragem destemida (caça à baleia no Pico), mas sobretudo um grande espírito de partilha e de comunidade. Ao longo do texto, o autor confessa frequentemente ter saudades de casa, porém diz também que desejava viver uma vida diferente. Uma vida nua como a dos açorianos, que ele considera livres e orgulhosos. Com esta última caracterização, é evidente o maior gosto e simpatia do autor pelas paisagens e gentes dos Açores, principalmente da Lagoa das Sete Cidades, em relação às da Madeira, apesar de também as apreciar muito, como se disse há pouco. Eu considero que este tipo de livros e de escrita nos ajuda muito a compreender como são alguns sítios que ainda não visitámos. Por outro lado, para além de adquirirmos um melhor vocabulário, adquirimos também cultura e conhecimento acerca do que se passa no mundo. Em suma, recomendo a leitura deste livro, até porque, sinceramente, as descrições são mais cativantes do que eu estava à espera e achei interessante o facto de todo o livro ser escrito à base das notas originais que, como o autor referiu no fim do livro, foi tirando durante a viagem.


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A moralidade nos dias atuais Karolline Ferreira . Aluna do 10.º A

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Moralidade é definida como o respeito pelas normas instituídas na sociedade, a sua obrigatoriedade depende das razões que justificam a ação do agente moral. Usemos como exemplo um influenciador que tem muitos seguidores e tem também uma certa fama. Durante a pandemia, este decide ajudar uma instituição de caridade e documenta o seu feito nas suas redes sociais, ganhando mais fama e seguidores. A ação do influenciador foi moralmente correta? Segundo o filósofo Immanuel Kant, uma ação só é boa quando ocorre a partir de uma intenção pura, ou seja, quando o agente tem autonomia da vontade. Neste exemplo, o agente moral (influenciador), pode ter tido uma das seguintes intenções: • Ajudou a instituição pois é o seu dever ajudar os menos afortunados; • Ajudou a instituição somente para ganhar mais seguidores. Analisando a ação a partir da filosofia moral Kantiana, se o agente moral a realizou com a primeira intenção, agiu por respeito ao dever, e cumpriu as duas fórmulas do imperativo categórico, ou seja, a máxima da sua ação pode se tornar lei universal (1ª fórmula), e não utilizou as pessoas como meio, mas sim como fim (2ª fórmula), logo, sua ação foi moralmente correta. Porém, se a ação

foi concretizada com a intenção de ganhar mais seguidores, esta foi imoral, pois não obedeceu a nenhuma fórmula do imperativo categórico e foi, provavelmente, guiado pelas emoções. Avaliando a mesma ação a partir do utilitarismo de Stuart Mill, este diz que uma ação só é moralmente correta se trouxer felicidade (presença de prazer e ausência de dor) ao maior número de pessoas que serão afetadas pelas possíveis consequências. Ora, neste caso, a única consequência será a felicidade maior, uma vez que todos os envolvidos ficarão satisfeitos: • A instituição e os seus beneficiários ficarão felizes pois foram auxiliados durante a crise sanitária; • Os seguidores do influenciador ficarão felizes, pois seguem alguém de bom coração; • O influenciador ficará feliz pois fez uma boa ação e acabou por ter o seu trabalho repercutido. Logo, segundo Stuart Mill, a ação foi moralmente correta. Sendo assim, será que atualmente temos agido de forma moral? Ou estaremos a agir sem pensar se estamos a fazê-lo por dever ou pelas consequências boas ou ruins?


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O nome dos dias da semana Sónia Lopes . Professora de Físico-Química

A

palavra semana provem do latim septmana que significa sete manhãs, mas o número de dias tem origem na Babilónia. Os babilónios eram bons astrónomos e tinham o culto diário aos sete astros errantes que observavam: Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter, Saturno, Lua e Sol. Esses astros deram os nomes aos dias da semana nas línguas latinas: Astro

Latim

Espanhol

Francês

Italiano

Romeno

Português

Lua

Dies Lunae

lunes

lundi

lunedi

Luni

2ª feira

Marte

Dies Martis

martes

mardi

martedi

Marti

3ª feira

Mercúrio

Dies Mercurii

miercoles

mecredi

merculedi

Miercuri

4ª feira

Júpiter

Dies Jovis

jueves

jeudi

gioveni

Joi

5ª feira

Vénus

Dies Veneris

viernes

vendredi

venerdi

Vineri

6ª feira

Saturno

Dies Saturni

sábado

samedi

sabato

Sâbătă

sábado

Sol

Dies Solis

domingo

dimanche

domenica

Duminică

domingo

Com o cristianismo, o dia do Sol passa a ser o dia do Senhor - dominis dies - domingo. A diferença nos nomes em português deve-se a Martinho de Dume, bispo em Braga, que viveu no séc. VI d. C. e que afirmou ser indigno de bom cristão haver dias da semana com nomes pagãos. Foi então adotada a nomenclatura atual. A palavra feira provém de feria que significa pagamento. De 2ª a 6ª feira eram dias de pagamento. Mas a semana de sete dias também tem a ver com

o ciclo Lunar. O ciclo Lunar, de uma Lua Nova a outra Lua nova, tem a duração de 29,5 dias o que perfaz pouco mais de 7 dias para cada fase da Lua: Lua Nova, Quarto crescente, Lua Cheia, Quarto minguante. Assim sendo, uma semana, uma fase da Lua, sete dias.


ensar(es) Coordenação e Redação A. Marcos Tavares Ana Paula Lopes José Artur Matos Colaboradores/Alunos Adriana Mota, Ana M. Macedo, Ana Velho, Anita Fonseca, Bruna Resende, Carlos Bao, Carolina Almeida, Catarina Pinto, Cristina Trindade, Diana Teixeira, Francisco Almeida, Inês Magalhães, Joana Almeida, Joana Gouveia, Joana Mendes, João Pimenta, João Ribeiro, José Pedro, Karolline Ferreira, Lara Campelo, Lúcia Lopes, Mafalda Fonseca, Margarida Coutinho, Margarida Quintela, Margarida Vicente, Maria I. Ribeiro, Maria Teixeira, Marta Guedes, Marta Magalhães, Matilde Ribeiro, Nuno Ferreira, Pedro Fonseca, Rafaela Costa, Raúl Saraiva, Rui Lopes, Sofia Silva, Vera Osório Colaboradores/Professores Agostinha Araújo, Ana Paula Lopes, A. Marcos Tavares, António Coutinho, Carla Cabral, Conceição Dias, Estela Ferreira, Fernanda Sousa, João Andrade Rebelo, José Artur Matos, Manuel Ferreira, Sónia Lopes Participação Especial Centro Escolar das Alagoas Centro Escolar da Alameda EB 2,3 de Peso da Régua Convidados Leandro Andrade e Vítor Briga. Design, paginação e foto da capa José Artur Matos Agradecimentos Ana França e Joaquim Ferreira (foto da capa) Ana Filipa Alves, Hélder Barbosa José Eduardo Pereira, Susana Gonçalves Impressão / Tiragem Tipografia Minerva - Lamego / 300 exemplares

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1999 . 2021


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DOURO Património Mundial da Unesco “Douro verdejante de socalcos vinhedos, sustentam paixões de um Povo vigoroso que produz da sua terra sonhos e encantos.” António Barroso

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Revista Pensar(es) 26 - Junho de 2021  

Revista do Agrupamento de Escolas João de Araújo Correia - Peso da Régua - Portugal

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