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de 3 a 9 de fevereiro de 2011

internacional

Nasser Houri

Faltava uma faísca REVOLTAS NO MUNDO ÁRABE Onda de protestos por justiça social e democracia que vem assombrando o planeta é apenas a explosão de uma longa luta até então silenciosa Eduardo Sales de Lima e Renato Godoy de Toledo da Redação

OS POVOS ÁRABES chegaram a seu limite. Os protestos contra os respectivos governos extrapolaram a região do Magreb (norte da África) e ganharam proporção em boa parte do mundo árabe. Em vários países, multidões estão indo às ruas como resposta à opressão política, à falta de acesso à alimentação plena e ao desemprego cujos responsáveis, dizem, são os regimes autocráticos apoiados pelas potências ocidentais. Em recente artigo, o professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), Reginaldo Nasser, informa que um relatório do Banco Mundial publicado em 2009 mostrava que os países árabes importam cerca de 60% dos alimentos que consomem e já são os maiores importadores de cereais no mundo. Em relação ao desemprego, no caso do Egito, por exemplo, dois terços da popução é formada por jovens abaixo de 30 anos, dos quais 90% estão desempregados.

90

%

dos egípcios abaixo dos 30 anos estão desempregados

“Todos os levantes populares têm em comum o esgotamento da paciência e da espera que durou décadas, durante as quais os poderes locais se apropriaram das instituições às custas do bem-estar social em todos os sentidos”

“Todos os levantes populares têm em comum o esgotamento da paciência e da espera que durou décadas, durante as quais os poderes locais se apropriaram das instituições às custas do bemestar social em todos os sentidos”, defende o egípcio Mohamed Habib, próreitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e diretor do Icarabe (Instituto da Cultura Árabe).

“Não retorno”

O sociólogo José Farhat defende que está em jogo na região uma luta que até há pouco era estritamente silenciosa, à qual faltava um acontecimento, uma faísca. “Essa centelha veio na forma da imolação de protesto de um pobre desconhecido vendedor de rua chamado Mohamed Bouazizi, que, ao atear fogo em si mesmo, iniciou uma revolta em toda a Tunísia, que se estendeu para o Egito e, dali, seguirá o caminho do não retorno e se transformará na revolução de todo um povo árabe oprimido contra os seus algozes opressores e estúpidos, clientes do colonialismo selvagem impositor de seus interesses nas costas dos povos de todos os recantos”, dispara (leia a entrevista na íntegra com o sociólogo no endereço www.brasilde fato.com.br). Os primeiros protestos ocorreram em Argel, capital da Argélia, no início de janeiro, contra a elevação do custo de vida no país.

Protestos pela saída de Ben Ali, no centro de Túnis, capital da Tunísia

As grandes manifestações da Tunísia, mesmo reprimidas com crueldade pela ditadura de Zine el Abidine Ben Ali, tiveram êxito. Ali fugiu do país, mas a Justiça tunisiana emitiu uma ordem de detenção internacional contra o presidente deposto. Entretanto, as manifestações permanecem e pedem a saída de todos os ministros ligados ao ex-ditador. Até o fechamento desta edição (no dia 1°), 219 pessoas foram assassinadas no país, segundo a ONU. Onda de revoltas

O povo egípcio também decidiu desafiar o poder tirano de um regime corrupto e subserviente, de Hosni Mubarak, na presidência há três décadas, que se preparava para designar como seu sucessor o filho Gamal Mubarak. Como uma onda, os iemenitas tomaram as ruas de sua capital Sana. Em Marrocos, o rei impediu a subida do preço dos alimentos e de bens essenciais, temendo pelo futuro da monarquia feudal, mas de nada está adiantando. Lá, protestos por democracia estão sendo organizados via internet, assim como na Síria. Também há relatos de tensão na Arábia Saudita, em Omã e na Jordânia. O movimento que ocorre nestes países árabes não tem direção, nem organização partidária clara; são espontâneos. A organização vem ocorrendo principalmente por via das redes sociais da

internet. A maior parte dos manifestantes em todo o mundo árabe é formada por jovens, desde as classes pobres até as classes médias que foram empobrecidas nos últimos anos.

O movimento que ocorre nesses países árabes não tem direção, nem organização partidária clara; são espontâneos O sociólogo José Farhat reforça que a religião nada tem com as revoltas, como apontam alguns jornais do ocidente. “O islamismo foi trazido à baila como argumentação inválida dos neocolonizadores, os mesmos que inventaram o choque das civilizações e o perigo islâmico contra o Ocidente”, reitera. O que vai acontecer a partir de agora? “Se as revoltas puserem um fim a essas autocracias árabes, estaríamos vivendo uma autêntica revolução mundial, um giro decisivo na história de nossa concepção dos sistemas políticos mundiais”, afirmou o sociólogo e filósofo Sami Naïr, presidente do Instituto Magreb-Europa da Universidade de Paris VIII, em entrevista ao jornal argentino Página/12.

Opressão dos “fantoches” de Washington Nasser Houri

Regimes ditatoriais árabes há tempos são apoiados por potências imperialistas

dar conselhos ao primeiro-ministro designado”, lembra. Petróleo

da Redação Quase todos os países árabes oprimidos por regimes não democráticos são tutelados por Washington (EUA). Há análises, como a do sociólogo Sami Naïr, de que os Estados Unidos e outras potências, como Inglaterra e França, são atores que querem que os países árabes tenham estabilidade e, para isso, necessitam de regimes fortes, ditatoriais, porque o que importa a eles são duas coisas: em primeiro lugar, que essas pessoas não emigrem e, em segundo, que as fontes de recursos petrolíferos sejam garantidas. “Todos os países onde as revoltas já começaram e aqueles onde ela acontecerá, são dominados por ditadores e seus asseclas. Todos têm regimes apoiados por uma, outra ou todas as potências, ex ou atuais colonizadoras: Grã Bretanha, França, Espanha, e a União Europeia”, afirma o sociólogo José Farhat.

José Farhat acrescenta que os Estados Unidos apoiaram o regime de Ben Ali “desde o seu nascedouro e até quando não havia mais esperança” Em artigo, o economista canadense Michel Chossudovsky cita o exemplo da presença estadunidense no Egito. “No Egito, em 1991, foi imposto um devastador programa do Fundo Mone-

Polícia tunisiana disparou diversos tiros; dezenas de manifestantes foram mortos

tário Internacional (FMI) na época da Guerra do Golfo. Ele foi negociado em troca da anulação da multimilionária dívida militar do Egito com os Estados Unidos, bem como de sua participação na guerra”, escreve. A resultante disso, como lembra, foi a desregulamentação dos preços dos alimentos, a privatização geral e medidas de austeridade maciças que levaram ao empobrecimento da população egípcia e à desestabilização da sua economia. Silêncio das potências

No caso da Tunísia, como lembra o jornalista Igor Fuser, na sua coluna publicada na edição 412 do Brasil de Fato, o ditador Zine el Abidine Ben Ali nunca foi repreendido pelos estadunidenses por violações aos direitos humanos e, mesmo quando ordenou que

suas forças repressivas abrissem fogo contra manifestantes desarmados, matando dezenas de jovens, o presidente Barack Obama e sua secretária de Estado, Hillary Clinton, permaneceram em silêncio. “Não abriram a boca nem mesmo para tentar conter o massacre. Só se manifestaram depois que Ben Ali fugiu do país, como um rato, carregando na bagagem mais de uma tonelada de ouro”, pontuou Fuser. O sociólogo José Farhat acrescenta que os Estados Unidos apoiaram o regime de Ben Ali “desde o seu nascedouro e até quando não havia mais esperança”. “Só aí, cinicamente, os Estados Unidos, e , com maior desfaçatez ainda, seguidos pelo Estado sionista, pediram calma. A França não se fez esperar e recomendou moderação, e também se achou no direito, mesmo sem ser chamada, de

Segundo Farhat, todo o comportamento das referidas potências com relação aos países árabes tem o petróleo como “móvel” desse interesse. “A procura da exploração do petróleo ou do caminho para obtê-lo exige o conluio de governantes locais por elas (potências) colocados no poder; corruptos, lenientes e que relevam o interesse de seus povos às favas”, critica. Pobre em petróleo, a importância do Egito, por exemplo, reside no fato de possuir a passagem do transporte dessa matéria-prima através do canal de Suez, que liga a Europa ao Oriente Médio. “Além disso, é um país importante para os interesses internacionais, porque é capaz de influenciar os demais países árabes. Daí terem influenciado o Egito a assinar um acordo de paz com o Estado sionista, o gendarme colocado desde o tempo do Império Britânico, não somente para garantir o trânsito do petróleo, mas também para assegurar o caminho à Índia”, analisa Farhat.

Pobre em petróleo, a importância do Egito, por exemplo, reside no fato de possuir a passagem do transporte dessa matéria-prima através do canal de Suez, que liga a Europa ao Oriente Médio Por isso tudo, o economista canadense Michel Chossudovsky conclui em seu artigo que o movimento de protesto no Egito, por exemplo, deveria se atentar a alvos políticos, como a Embaixada dos Estados Unidos, a União Europeia, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. (ESL e RGT)


Mundo árabe  

Só faltava uma faísca

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