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Re-escrita de tudo e etc: concepção re-destrutiva do mundo


“o zine re-escrita de tudo foi retirado do blog reescritadetudo.blogspot.com de arthur prado, os textos e imagens aqui utilizados pertencem as postagens de tal blog datadas de julho a setembro de 2009.

espero não incomodar o autor com essa publicação independente, mas que se foda, resolvemos isso bebendo uma cachaça, ou na porrada...” batata sem umbigo


a condição humana é dada pela certeza da morte. a certeza da morte, no entanto, está encoberta pelas circunstâncias gerais socialmente produzidas ao longo do tempo. eu desejo a vida na vadiagem; o tempo passado no bar com amigos é possível pelo trabalho e pela manutenção da sociedade burguesa: 1- trabalhadores que produzem cerveja em todos seus estágios, engarrafagem, distribuição, etc. isso implica estrutura urbana para escoamento de mercadoria, caminhões para transporte de cerveja, amendoim, etc. 2- atuação do poder público na garantia de iluminação pública, segurança. segurança: sem a repressão aos excluídos seria possível o happy hour do universitário? é necessário o meu trabalho (ou de meus pais) para poder consumir: aquecimento da economia, etc, sistema de preços, salários, combustível dos caminhões de cerveja, do ônibus, tarifa do ônibus. o desejo de uma vida sem trabalho em que todos a aproveitem choca-se com a necessidade de produzir o tempo todo. a produção está oculta. aparece apenas a disponibilidade do produto, o que leva a ilusão de que a vida poderia ser muito mais simples: contudo a vida está marcada pela contradição. a variedade e quantidade de alimentos a preço acessível no supermercado oculta o processo longo de sua produção, distribuição, implicações políticas, inserção no sistema mundial de preços. pessoal uniformizado de limpeza nos estabelecimentos, lixeiros que trabalham de madrugada fazem sumir todo o descartado do consumo excessivo. pela manhã tudo está limpo como que por mágica. o filho da classe média tem essa mesma sensação dentro da própria casa: roupa limpa e passada, almoço pronto na hora certa, casa limpa. divisão familiar do trabalho. divisão social: há empregadas domésticas. então, o tempo de usufruir das mercadorias é o tempo da vida. o tempo da vida oculta o tempo da produção, que é o tempo do consumo da vida. portanto a natureza separada da produção em relação ao consumo oculta também a realidade da morte em relação à vida.


elementos que nos forçam, ou nos inclinam a certas atitudes apesar da liberdade de escolha. constrangimento. o nascimento é o primeiro deles. a morte é o último. o sexo está no meio, e é também o início e o fim. a liberdade de escolha é ilusão: liberdade relativa não é liberdade. liberdade é uma abstração para a qual não há correspondente no mundo concreto. nascer na miséria, por exemplo, tem implicações profundas. a classe média despreza o vagabundo, com seu discurso "quem tem vontade supera a pobreza!"; a mídia tem o prazer de divulgar a excessão do pobre que enriquece, como exemplo, como se fosse oportunidade geral e universalmente acessível. a classe trabalhadora incorpora o discurso: "eu trabalhei e agora olha só onde eu cheguei!" chegou aonde? porque comprou uma moto, porque tem celular novo, acha que subiu na vida; continua explorado pela classe dominante. a classe trabalhadora se reveste com o individualismo burguês a cada geração. a vontade supera a pobreza? dentro de certos limites apenas. a vontade surge do modo particular como cada um concebe o mundo. as concepções de mundo se formam pela experiência no mundo: a criança que consegue facilmente dos pais os brinquedos que as propagandas divulgam nos intervalos do horário da programação infantil da tv, forma concepção diferente de mundo (exagero?). além disso essa criança toma café da manhã, toma banho, veste roupas limpas todos os dias e frequenta escola particucular, ou pelo menos não vai para o semáforo esmolar... ser rico ou pobre, branco ou negro, mulher ou homem (ou homossexual), brasileiro ou sueco; desde o princípio condições inescapáveis, constrangimentos, impõem campos limitados de escolha aos sujeitos.


sempre que o filho da classe média for assaltado, sequestrado, ou morto, ele deverá saber que tais acidentes decorrem das contradições que definem a condição humana. as contradições estão acentuadas no modo de produção capitalista. quando um morador de rua me pede uma moeda, o "não tenho, amigo", a fim de evitar que me tomem o que neguei, substitui o "não!", "não, vai trabalhar!". -tem uma moeda? -tenho, mas é minha. o filho da classe média com pretensões de militante anti-capitalista, está constrangido a defender o que é seu, a temer o assalto, a chamar a polícia caso ocorra; a desejar a instituição da pena de morte quando a violência atinge seus familiares, ou quando certas atrocidades chamam a atenção dos jornalistas. o discurso encontra seu limite assim que interesses socias são atingidos. interesses sociais e necessidades sociais: coisas de que não posso prescindir, não para viver, mas socialmente, de acordo com a classe a que pertenço.


minha geração não tem vontade de nada. vontade de acabar apenas. pouco me importa: toda causa é causa perdida. o vazio é tão amplo que até o fatalismo fica só no discurso. (os mais espertos encontrarão uma contradição aqui). hoje em dia fatalismo e crise de identidade são elementos de estilo. pega bem não se importar, ridicularizar os militantes. "é descolado", "desencanado", "é viver a vida real". o mundo é o que é. o capitalismo é o fim da história? essas são páginas de autismo: eu escrevo, eu leio. referências com correspondentes apenas no meu mundo. minha geração cresceu vendo power rangers, exterminador do futuro, stalone cobra. é o que houve de melhor nos últimos 200 anos. ouvindo nirvana e criando identidade grunge sem entender a letra. concepção (re-)destrutiva de mundo. eu quero destruir o mundo? ninguém destrói o mundo com palavras. clube da luta é uma boa alternativa: para isso é preciso encontrar o brad pitt que há dentro de cada um de nós. mas o que é o mundo? é uma abstração. eu conheço o mundo pela t.v.. o mundo para quem atravessa a pé o terminal central depois de descer do ônibus (eu: meu exemplo de abordagem empírica do mundo) é diferente do mundo de quem passa de carro por cima do viaduto cury. ninguém tem culpa, entretanto. mesmo assim as forças estão em choque e sempre há vitmas inocentes.

debaixo do viaduto cury há o terminal central. lá há lojas de todas as coisas e também barracas de camelôs com mais coisas. há uma instituição de assistência social: "casa da cidadania" (hehe), portanto há muitos mendigos. do outro lado, do lado da linha do trem há esse belo canto debaixo do viaduto cury. é um canto secreto, que ninguém vê, só eu. ali se juntam muitos mendigos. eu não sei como eles chegam ali. a cada vez que passo por cima deles (em sentido semi-figurado) eles são mais.


então o mundo não presta. então a juventude (o futuro da nação) pode, no máximo, brincar de revolução. os jovens militantes universitários negociam com o reitor. eles não sabem que o reitor necessariamente representa o poder hegemônico. o reitor é um agente a serviço do capitalismo. não por acaso: ele comanda a universidade. a universidade é o lugar da formação de profissionais qualificados para o mercado de trabalho. portanto o reitor ocupa uma posição muito mais complexa. ele não é um agente das forças do mal: seria mais fácil se fosse. os militantes ironizaram a morte do pinotti (pouco me importa), como se o indivíduo tivesse alguma importância: o que importa é a função do cargo político. se o movimento estudantil fosse mais que reformismo teria que deixar de ser estudantil: a mudança da universidade feita por dentro é apenas oportunismo, "se nada mudar eu pego meu diploma e vou trabalhar, afinal". a mudança deveria vir de fora e ter como pressuposto a mudança da sociedade. negociar com o reitor é considerá-lo instância legítima de poder: como de fato ele é...dentro da perspectiva burguesa vigente. mas isso é só um exercício de lógica, porque o buraco é mais embaixo.


um dia as pessoas vão comer vegetais apenas. nesse dia todos os animais do mundo terão seus sentimentos respeitados de verdade! os revolucionários verdes querem convencer os temíveis carnívoros a pararem a matança, mostrando-lhes fotos de animais cruelmente mortos. por pouco essa estratégia não funciona. mas não funciona pelo mesmo motivo que fotografias de crianças africanas pré-mortas não convencem os maldosos a repartirem o que têm. os carnívoros matam os animais para comer e para diversão: sangue e diversão. o apelo à compaixão humana nem sempre convence porque desfaz apenas temporariamente a separação das coisas. portanto causa apenas choque, que passa assim que voltamos à condição como se encontram as coisas na vida rotineira, ou seja, separadas: encontramos apenas a carne, talvez até já devidamente assada (porque os ovos dos vermes devem ser mortos); o longo processo de criação, morte, esquartejamento dos animais; relações de trabalho entre donos de frigoríficos, empresas transnacionais do que quer que seja, transporte, açougue tudo isso está oculto. a quantidade de produção, o valor do salário dos trabalhadores, etc, preço do transporte, tudo o que permite que a carne chegue a preço acessível. tudo está oculto. tudo está oculto para todos (duas partes): 1- eu compro a carne para o almoço e não penso na morte do animal, retirado pelo despotismo humano, de sua vida livre na natureza . 2- o revolucionário verde acredita que o que faz o carnívoro é a maldade pura. ele se engana porque, além da maldade há a necessidade cruel. o que está oculto ao revolucionário verde é que o preço dos vegetais é possível apenas com a continuidade da pecuária. no mundo capitalista até o café que o vegetariano toma faz parte de uma economia na qual está incluída a produção e o consumo de carne. o mesmo para o carro com que ele se desloca por este mundo injusto, ou celular que ele usa, ou apartamento onde ele mora. no mundo capitalista o preço das coisas todas depende do dos salários de quem as produz. os salários dependem de quanto o burguês-sem-coração pode explorar o trabalhador pagando o mínimo para que ele possa comer (sobreviver, continuar trabalhando-reproduzindo a força de trabalho). tudo isso para dizer que os trabalhadores comem carne, viabilizando o acesso aos vegetais (?!). o revolucionário verde é cumplice do homem carnívoro: ele consome carne de forma indireta. também é cumplice do capitalismo, mas tudo bem, porque em geral eles acreditam no desenvolvimento sustentável, ou seja, que o mundo se torne um lugar sem mortes de vacas e crianças, desde que se possa conservar a liberdade individual e o direito de propriedade privada: essa concepção só é possível desde que não se tenha a menor desconfiança da condição de separação em que se encontram as coisas. a solução portanto está nos revolucionários verdes socialistas (verdes-vermelhos), pois na sociedade sem classes os homens e os animais têm os mesmos direitos e deveres. ou não.


nada nesse mundo é pior que a pretensão de originalidade. ao homem modesto é preciso convencer-se de que tudo já foi dito. é preciso aceitar a cruel inevitabilidade de repetir e repetir-se eternamente. os blogs são o lugar do direito à livre reprodução de bobagens. tenho uma opinião ranzinza-autoritária-excludente: crianças que não lêem mas querem ser lidas entopem a net de clichês pretenciosos moralizantes sobre todas as coisas. a pretensão de originalidade como vontade moralizadora do mundo parte do princípio de que existe uma situação ruim generalizada, da qual a tal criança-escritora-de-blog não se considera parte. considera-se, portanto, alguém capaz de superar a degeneração reinante e redimir o mundo. só uma coisa: o campo do conhecimento amplia proporcionalmente o da ignorância sentida como ignorância. de outro modo, a visão de mundo formada a partir de convicções fechadas em si, (jornalismo, educação escolar, tradição familiar) dá aos sujeitos a prepotência de dizerem com certeza, soluções para problemas complexos. ao contrário, a concepção re-destrutiva de mundo considera a contradição na condição humana, coloca sem a menor sombra de certeza problemas complexos para as soluções, não inova em coisa alguma. em resumo: repetição engraçadinha sem sentido do já dito. se tanto.


inventei numa mesa de bar a salvação do mundo conhecido: trata-se de um grande tubo capaz de jogar para fora da atmosfera terrestre todas as sujeiras que produzimos! poder-se-ia lançar para o espaço, o lixo doméstico e o industrial, os dejetos humanos e as fumaças dos carros. o vácuo é o único lugar em que é possível fazer de tudo sem desrespeitar quem quer que seja: não há responsabilidade social ou consciência ecológica quando se trata de atirar esgoto e descartáveis contra as estrelas e os meteorítos. então, como é e como será:

bem, como nem tudo pode ser totalmente para o bem, um amigo alertou-me que o tubo poderia ser uma opção relativamente simples de suicídios, o que seria indesejável caso as pessoas começassem a aderir em massa a esse tipo de prática.


este blog é dedicado aos mendigos e marginais que circulam pelas intermediações do terminal central de campinas. isso melhora em muito a vida deles. mas a questão é: no rio de janeiro o buraco é mais embaixo. a orla de copacabana é montada para reproduzir a ilusão da cidade maravilhosa: é o espaço do turista, o espaço em que a felicidade no ato do consumo deve ser plenamente satisfeita. a satisfação é produzida pela possibilidade de reproduzir na atividade turística algum modelo de felicidade incorporado via propaganda/cinema/novela/etc. os modelos de felicidade são formulados pela indústria, que associa, na representação veiculada pela propaganda/cinema/novela/etc, seu produto a certas condições ideais. então, beber uma cerveja na praia é mais que bom, é ideal, quando ao redor há a paisagem perfeita de prédios e espaço público bem cuidados, quiosques modernos, higiênicos - com opção de pagamento em cartão de crádito. tudo isso emoldurado pelo corcovado, pelo cristo, pelo pão de açúcar, gostosas de bikini. um fim de semana no rio de janeiro é a oportunidade de realizar algo já repetidamente visto antes pela t.v. nada pode estragar a ilusão da cidade maravilhosa. portanto, na orla de copacabana, só muito raramente surge algum garoto-negromenor-de-idade, vestido com roupas velhas e sujas pedindo algum trocado. a realidade personificada nos marginais frustra, pelo menos por alguns minutos, a produção da felicidade que se quer vender ao turista. a cidade maravilhosa restringe-se a estrita faixa do calçadão: andando duas quadras no sentido oposto ao mar a quantidade de mendigos e garotos-negros-menores-de-idade pedindo trocado, aumenta gravemente.


Re-escrita de tudo e etc: concepção re-destrutiva do mundo

"Manduca vivia no interior da casa, deitado na cama, lendo por desfastio. Ao domingo, sobre a tarde, o pai enfiava-lhe uma camisola escura, e trazia-o para o fundo da loja, donde ele espiava um palmo da rua e a gente que passava. Era todo o seu recreio. Foi ali que o vi uma vez, e não fiquei pouco espantado; a doença ia-lhe comendo parte das carnes, os dedos queriam apertar-se; o aspecto não atraía, decerto. Tinha eu de treze para quatorze anos. Da segunda vez que o vi ali, como falássemos da guerra da Criméia, que então ardia e andava nos jornais, Manduca disse que os aliados haviam de vencer, e eu respondi que não. [...] e daí continuou por algum tempo uma polêmica ardente, em que nenhum de nós cedia, defendendo cada um os seus clientes com força e brio. Manduca era mais longo e pronto que eu. Naturalmente a mim sobravam mil coisas que distraíam, o estudo, os recreios, a família, e a própria saúde, que me chamava a outros exercícios. Manduca, salvo o palmo de rua ao domingo de tarde, tinha só esta guerra, assunto da cidade e do mundo, mas que ninguém ia tratar com ele. O acaso dera-lhe em mim um adversário; ele, que tinha gosto à escrita, deitou-se ao debate, como a um remédio novo e radical. As horas tristes e compridas eram agora breves e alegres; os olhos desaprenderam de chorar, se porventura choravam antes. [...] Manduca enterrou-se sem mim." - machado de assis, dom casmurro

Zine Re-escrita de Tudo #01  

Um zine sobre a re-destruiçao de tudo, com textos de Arthur Prado, editado por Batata Sem Umbigo.

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