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O chão se mexia, parecia areia e ali se criavam minúsculos seres imaginários como aqueles da composteira, vermes se mexendo em um líquido pestilento, alguns criam asas e voam para fora na claridade. Estou vendo eles enquanto olho para o chão e lembro dos meus afazeres do dia de amanhã. Será mesmo que eu vou trabalhar, qual é a importância deste processo todo. É uma hora e um minuto da madrugada, já estamos na segunda-feira. Mais um cigarro.


A multidão vai a todas, muita gente, um circo que está presente, a questão é que não sabemos o quanto estamos sãos, a alienação está em todo lugar, e no fundo o resultado é sempre aquele vazio sem tamanho. Tendo isso como pré-requisito tudo, aquilo que os olhos veem são reais. É claro que existem as drogas que dissociam as coisas, mas no fundo a mente permanece, as pessoas quando não se enganam param de mentir, e isso foge ao esquema da aparência, é possível viver assim, vendo as pessoas-coisas circulando e rodopiando inebriadas, se o Henry Miller viu as pessoas pintadas de azuis e se aquilo em uma análise chula talvez nos fizesse pensar que é poesia surreal para descrever uma realidade amarga, digo uma coisa, os seres azuis existem mesmo.


música até

estão moça dança

dança não expressão não

só nós


“Você quer saber em que consiste minha segurança? Vou lhe contar> Eu penso assim: a solidão é absoluta. È uma ilusão uma pessoa convencer-se de outra coisa. Tome consciência disso. E tente agir em coerência com isso. Não espere nada, nada, a não ser um inferno na terra. Se acontecer algo de agradável, melhor. Não acredite nunca que você poderá quebrar a solidão. Ela é absoluta. Você poderá fazer poesia sobre coexistência em vários planos, mas ainda assim será apenas poesia sobre religião, política, amor, arte e assim por diante. A solidão é total da mesma maneira. A ratoeira está na possibilidade de poder ser alguma vez dominada por uma miragem de coexistência. Esteja consciente de que é uma ilusão. Assim, você não ficará decepcionada depois, quando tudo voltar ao seu normal. Uma pessoa tem de viver pelo instinto da solidão absoluta. Nessa altura, uma pessoa deixa de lamentar-se, deixa de afligirse. É aí que uma pessoa, de fato, passa a sentir-se bastante segura e aprende a aceitar a falta de sentido da vida com uma certa satisfação. Com isso, não quero dizer que uma pessoa se torne passiva. Acredito que uma pessoa deve lutar o mais possível e o melhor possível. Por nenhuma outra razão a não ser aquela de que uma pessoa se sente melhor fazendo o seu melhor do que desistindo.” (Ingmar Bergman – “Cenas de um Casamento Sueco”)


“No resto, não concordo com você, mas não faz mal. Eu não acredito nessa conversa a respeito de consciência. Qual é o sentido de fazer as pessoas mais angustiadas do que já são. Você fala que a ciência representa segurança. Conversa, apenas. A ciência dá mais possibilidades de escolher e mais angústias.” (Ingmar Bergman – “Cenas de um Casamento Sueco”)


Zine Anotações #01  

Pedaços de um cotidiano...