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perdoe-me tanto laquĂŞ


Copyright © 2013 Juliana Gervason Defilippo

Projeto gráfico Senhor B

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Defilippo, Juliana Gervason Perdoe-me tanto laquê / Juliana Gervason Defilippo. -- 1. ed. -- Juiz de Fora, MG : Bartlebee, 2013.

ISBN 978-85-64914-47-6

1. Poesia brasileira I. Título.

CDD-869.91

Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia brasileira 869.91 Todos os direitos desta edição reservados à BARTLEBEE EDITORA LTDA Rua Paracatu, 562 Santa Terezinha Juiz de Fora - MG 36046-040 www.bartlebee.com.br


* Reza a lenda que, com o passar do tempo, nossas lembranças se tornam esmaecidas, e de tudo o que passou, nos lembramos apenas do que nos fez mais felizes, ou do que mais dói. No meu caso, não lembro quais tortuosos caminhos virtuais me fizeram chegar até O Batom de Clarice, mas lembro bem de quando cheguei lá, porque doeu. Doeu reconhecer nas palavras de outra pessoa uma angústia que eu achava ser só minha, e foi a partir dali que me encontrei em Juliana, e fui [e tenho sido] feliz. Mestre Vinicius cantava que essa nossa vida é a arte do encontro, e apesar dos tamanhos e tristonhos desencontros que teimam em atravancar meu caminho, ter encontrado Ju e suas palavras são como aquele quindim recheado de carinho e deixado, silenciosamente, na portaria. Sei que estou cá para falar desse livro lindo, o primeiro rebento dos muitos que, espero, estejam por vir. Mas não consigo falar da criatura sem falar da criadora. Não consigo desvencilhar a obra da autora, e eu sei, é um pecado meu, mas um pecado de quem não sabe separar o amor pela amiga querida da admiração por suas palavras. Os poemas de Perdoe-me tanto laquê são, assim como as mãos que os escrevem, polifônicos. Cheios de vozes de tantas mulheres que residem em apenas uma: virgens, santas e putas, como aquelas que arrumam sua cama em “quase ana c”. São tantas e tão diferentes mulheres que cabem nessas páginas, que é como se Juliana tivesse feito horcruxes de si mesma e as espalhado em cada verso, em cada estrofe, em cada página em branco. E esses retalhos se encontram com as querências, as dúvidas, os prazeres, as angústias e as tristezas das tantas outras almas que estão buscando a si mesmas. Certa hora ela diz “É na pequenez que me vale, que me cerca, que me importa, que me faço.” Como aceitar que uma iraquiana - ainda que por acaso do destino -, mineira e brasileira se faça na


pequenez? É que a pequenez de Juliana é a da delicadeza, da simplicidade que reside nas coisas tão grandes que, por não caberem em si, reverberam ao seu redor. A poesia desse livro não está em estado de dicionário. É necessário que você traga a chave drummondiana que possa abrir as portas e janelas das palavras que, aqui adormecidas, esperam para brincar em olhos outros. Os poemas que aqui estão esperam, inquietos, para passear em sua vida, e reverberar em sua história. Assim como Clarice, Juliana trata as palavras com o carinho de quem vê nelas a salvação para o desespero dos dias. Como se suas palavras fossem a mão de deus guardando com amor seus sonhos. O insano Quincas Borba, retalho do nosso querido Bruxo do Cosme Velho, disse certa feita que “o maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado”. Eis que você tem em mãos a publicação do maior pecado de Juliana Gervason: querer carregar água na peneira, assim como Manoel de Barros e tantos outros que ousaram sair do lugar-comum e voar fora de suas próprias asas. “O mesmo triste do ato da escrita É o silêncio dos que nunca aplaudem” Eu sinto ter que desapontar seu poema, Ju, pois estou aqui, aplaudindo de pé, e tenho certeza de que aqueles que se aventurarem a andar descalços e desnudos por suas idiossincrasias também o farão. E, com a benção e a licença poética de outro querido mestre, o Quintana, preciso dizer a todos os que seguirão esse caminho que, os outros passarão, mas Juliana, passarinho. Que seja doce, como o queria Caio F., esse nosso caminho. Com amor, Patrícia Pirota www.aindamininama.com


do dicionário informal ......................................................... 13 [hai kai] das dores ............................................................... 15 quase ana c ......................................................................... 17 idiossincrasias ..................................................................... 19 pairar-se .............................................................................. 21 na sala de espera .................................................................. 23 novas idiossincrasias ........................................................... 25 [hai kai] II .......................................................................... 27 de mim para os meus .......................................................... 29 em aula eu disse ................................................................... 31 [hai kai] III ......................................................................... 33 eu prece .............................................................................. 35 quando o homem envelhece ................................................... 37 das carências ....................................................................... 39 do fim ................................................................................ 41 da vida ............................................................................... 43 algumas pessoas ................................................................... 45 dos sapatos ......................................................................... 47 do não amor ou [sacrilégio amoroso] ou [sobre aquilo que ninguém nunca diz] ........................................................... 49 das relações humanas .......................................................... 51 há toneladas de solidão quando ............................................. 53 Me diga se há vida ............................................................... 55 e no meio da sala ................................................................. 57 Quantos anos me separam do resto do mundo? ....................... 59 Não. Eu não vou fugir com o circo (...) .................................. 61 das questões ........................................................................ 63 da angústia ......................................................................... 65 das constatações ................................................................. 67 Profanando ......................................................................... 69 O triste da escrita ................................................................. 71 uma pergunta ...................................................................... 73 biografia e todo o resto mais ............................................... 75


Para Margareth e Jo達o, sempre.


“O como, o quando, e onde as cousas cabem.” Camões * “a dificílima dangerosíssima viagem de si a si mesmo: pôr o pé no chão do seu coração experimentar colonizar civilizar humanizar o homem.” Carlos Drummond de Andrade


do dicionário informal, oficial da terra onde ninguém aporta, com tradução integral: laquê: unidade linguística masculina fixa a dor

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[hai kai] das dores das dores doĂ­a mas era o azulejo que alagava

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quase ana c troquei a roupa de cama coloquei lençol limpo o de cor clara, dos que você costuma gostar as fronhas foram substituídas por outras, passadas troquei a roupa com calma arrumei o carma e a nossa cama deixei o quarto, mais uma vez, à sua espera para a noite do dia tudo pronto tudo pronto para mais uma noite em que você não virá pois desde o dia em que desde aquele dia exatamente aquele desde então eu arrumo a cama com a voracidade das virgens, com [a ritualidade das santas, com o cansaço das putas arrumo a cama exatamente como você costuma gostar para manter o diário gozo de tê-lo expulsado de minha vida desde [então arrumo a cama para você mas quem se deita nela sou eu!

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idiossincrasias se eu morrer, já ia dizer eu, mas mudo: quando eu morrer peço-te uma coisa apenas: nunca deixes rosas de plástico em minha sepultura não quero que me ultrapasse não quero que nada me exista para além de mim ~ tenho muros em redor de miniaturas intransponíveis em redor de mentiras reveladas em redor de miméticos espelhos em redor de mimalhices vitais em redor de mimanças que me ferem em redor de muros intransponíveis revelados com espelhos vitais que me [ferem em redor de mim ~ para além de mim há um algo tão para além que pára além de mim ~

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Perdoe-me tanto laquê (drops)