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SEJA MARGINAL


SEJA MARGINAL

Bernardo Jardim Ribeiro


Em junho as ruas explodiram de gente segurando cartazes e brandindo contra o aumento das passagens de ônibus. Ma isso não começou de um dia para o outro como o William Bonner leu no teleprompter. A luta era antiga, não era apenas sobre a passagem. Foi se consolidando ano a ano dentro do movimento estudantil, nos blocos de luta e coletivos independentes. O pessoal apanhou de cacetete, levou spray na cara, ocupou a Câmara Municipal de Vereadores de Porto Alegre, fechou avenidas e fez a Globo pedir mudar de opinião –ou pelo menos mentir para não ficar feio,


Fotos de Miguel Soll


Bárbara Zietlow

N

ascida

no Kentucky,

EUA, Gloria Watkins adotou o pseudônimo bell hooks em 1978. Sua obra foca na interconectividade de ralam capitalismo e gênero no que ela descreve como a habilidade de produzir e perpetuar sistemas de opressão. Em seus livros, escreve sobre a luta intersecional e a importância de não segregar a luta por igualdade, destacando a importância da inclusão masculina na mudança da consciência coletiva. A relevância do trabalho de hooks é a sua compreensão da intersecionalidade de todas as formas de preconceito e a

necessidade de uma análise global e multifacetada da opressão. Feminismo era coisa de mulher cis, branca e de classe média. Pegue qualquer lista de livros feministas e verá que elas são a maioria. Os cânones Segundo Sexo, O Mito da Beleza e A Mística Feminina foram escritos por mulheres com formação universitária, provenientes de lares com boa renda familiar. bell hooks é uma das expoentes da união entre luta por igualdade racial e de gênero, uma questão ainda deixada de lado na maioria dos debates feministas.


A

ntes ocorria somente

quando nascia um bebê e o médico olhava entre suas pernas. Agora nem sequer precisa nascer. Basta um ecógrafo para que se produza a frase performativa: ―é um menino‖ ou ―é uma menina‖. Três palavras e o ambiente em que esse bebê vai viver já não tem nada a fazer, as pessoas que rodeiam a barriga grávida não a tocarão da mesma forma, nem utilizarão o mesmo tom de voz, nem se dirigirão a ela com o mesmo tipo de palavras. Quando nascer, o mundo em que esse bebê viverá será completamente distinto em função dessa frase viverá

lapidar e a partir desse momento se submergirá em um processo de reprodução contínua das normas de gênero e coerção e exclusão de todo aquele corpo que as questione. Antes que caminhe, o sistema heteronormativo já estará funcionando para orientar o bebê na direção adequada. Rosa para elas, azul para eles. Princesas da Disney para elas, super-heróis para eles. Talvez durante a infância possa haver crianças com expressões de gênero diferentes da norma que sejam toleradas por seu ambiente até certa idade, mas na escola ou, se sua expressão de gênero é ―muito‖ diversa,

―muito‖ diversa, numa consulta com x psicólogx da escola ou psiquiatra. Quando estava me formando em psiquiatria infantil, pude ver mais de um garoto que chegou à consulta psicológica derivado pelo colégio (colégios católicos quase sempre) ―porque não jogava futebol e estava sempre com as garotas‖. Por sorte a psicóloga do centro se encarregava de comunicar que não jogar futebol não supõe nenhum problema de saúde mental que seja necessário tratar em um menino. Quando chega a adolescência, e com ela a possibilidade de procriação, as suspeitas de tolerância terminam. O sistema


coercitivo que mantém o binarismo de gênero começa a fazê-lo mais violentamente. Quanto mais longe a expressão de gênero é da norma, mais extrema será a coerção. No contexto espanhol, 68% das garotas trans dizem ter sofrido situações de violência e maltrato alguma vez na vida, com maior intensidade durante a adolescência. No caso dos garotos trans, 31% dizem ter sido agredidos por sua identidade de gênero. Em torno de 50% das pessoas trans* dizem ter pensado em algum momento em suicídio, e estas ideias aparecem sobretudo em torno dos 17 anos, coincidindo

com o momento mais extremo da violência transfóbica. Embora seja necessário visibilizar as violências que seus corpos sofrem, muitas pessoas trans* resistem à vitimização e falam de seu processo como uma experiência que enriquece suas vidas e seus desejos, criando uma rede de apoio e desenvolvendo estratégias criativas de resistência à normalização nas quais há muito a aprender e compartilhar. Embora não seja fácil, o processo trans não tem por que se converter num caminho cheio de sofrimento como é frequentemente

descrito, e também se pode viver como uma experiência positiva e empoderadora. Talvez você esteja lendo isto e pensando que não tem muito a ver com você, mas o sistema binário impõe violentamente sobre todos os corpos. O seu também foi diagnosticado como de menina (ou menino) quando nasceu. Se a sua expressão de gênero é mais ou menos normativa, você não notou tanto; mas quanto mais diferente é da norma, mais vai experienciar a pressão. Se você gostava de jogar com os meninos, se você não se depila, se as mulheres te atraem, se você é proativa ―demais‖ para ser uma garota,


se você questiona o patriarcado… não é necessário se identificar como pessoa trans para sentir a coerção do sistema binário em seu corpo. E chegadxs a este ponto, devemos nos perguntar por que é necessária tanta violência para manter o sistema, por que tanto interesse em sustentar uma correlação supostamente necessária entre os genitais e a expressão de gênero. A resposta nos é dada pelos feminismos: o sistema sexogênero binário é por definição um sistema desigual, que protege os privilégios de uns à frente dos de outros — por isso se os limites foram permeáveis,

questionaram a legitimidade desses privilégios. E a experiência trans atravessa esses limites os colocando em evidência. Aqui a luta trans e os feminismos se entrelaçam e emerge a possibilidade de uma luta comum. Mexeu com elxs, mexeu com todxs nós. Quando cortam seus direitos sanitários, cortam os nossos; quando são patologizadxs, o fazem com todxs que resistimos ao sistema sexo-gênero; quando são agredidxs, estão nos agredindo também; quando as pessoas trans migrantes são negadas a uma assistência, estão negando a todas nós.

Ilustrações de Jay Crosby (happyblood.tumblr.com) Tradução de Renata (questoesplurais.tumblr.com)


//Mogul


//pellesten


Bárbara Zieltow

U

ma

dose

de

uísque

vagabundo e uma cartela de Rivotril. Assim Extensão e Domínio da Luta (editora Sulina; 2002; 142 pág.) pode ser descrito. A cena de abertura já demonstra qual será o tom do livro. O narrador, um analista de programas de informática, observa apático a um striptease, dorme, cobre o seu vômito com almofadas e vai embora. Designado para ensinar o funcionamento de softwares a empresas, o narrador transita entre Paris e cidades do interior da França com seu colega Tisserand.

Fracassado, deprimido e insatisfeito sexual e emocionalmente, o personagem de Houllebecq nos guia em uma jornada de decadência e desgosto. A trama é superada pela complexidade e perfil psicológico do protagonista. A sua visão de mundo é muito mais interessante que a sequência de fatos. A decadência do corpo, a amargura da alma, a felicidade triste e o corroer do espírito. Eis o que é a vida segundo o narrador. A morte é certa e banal. Ao ver, dentro de uma loja self-service, um cadáver, ele continua a empurrar seu

carrinho à procura de pão. O mundo exterior é um esmagamento do eu, uma dor pungente. O escritor francês profetiza: ―Só resta a amargura e o desgosto, a doença e a espera da morte‖. Michel Houllebecq nos dá um soco no estômago e nos confronta com o que há de mais cruel: a verdade.


Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos — dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou.


Gabriel Pontes

A

o se assistir as raras

películas de Ulrike Ottinger fica claro como seu trabalho carrega a força de universos fantásticos traduzidos através de uma direção de arte plástica e subliminar. O documentário ―Ulrike Ottinger – A Nômade do Lago‖ apresenta alguns planos de seus filmes, fortemente ligados a contracultura, em uma Alemanha em reconstrução pós Guerra Fria. Infelizmente, esses excertos não conseguem traduzir o real significado de sua obra que é muito mais sobre sentimentos do que sobre ideologias. Ulrike Ottinger trabalha explanando sensações e significados.

Na palestra que deu para uma turma de cinema na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS, ela relacionou a própria obra com movimentos como o Expressionismo Alemão. O Expressionismo Alemão ficou conhecido por ser um movimento cinematográfico que representava o sentimento do alemão pós a primeira guerra mundial. A própria população (marginalizada na república de Weimar) se enxergava de forma monstruosa e fria, desconcertada. Ulrike faz o mesmo em sua obra: ela

apresenta a sociedade da ―Cidade Freak‖ – por exemplo – como uma reunião de anões, mulheres barbadas e andróginos que também demonstram o sentimento alemão, dessa vez pós Segunda Guerra e Guerra Fria. Em obras como Freak Orlando ela nos mostra a estética do bizarro aliada ao cotidiano. Introduzindo pessoas dispostas a venerarem totens (uma apologia ao endeusamento da mídia e também de figuras cotidianas) aprisionando artistas e cientistas, tais como Mozart,

Kracauer e Einstein, em hospícios. Então os seres que necessitam deificar aparecem vestidos com roupas de couro e cometendo auto flagelação constante, os artistas e cientistas se encontram nus em volta de uma mesa dentro de uma piscina – como que fazendo um pacto de detenção da sabedoria. Ela atira para todos os lados, julgando a todos e mostrando como uns não são diferentes dos outros. Um ponto forte a se destacar nos trabalhos de Ulrike é a constante procura dela por imagens para se retratar. Em seus trabalhos, há uma constante procura por


//Divulgação

imagens para se retratar. A artista, não só no meio cinematográfico, sempre estuda culturas diferentes da alemã para criar seus cenários significativos e sem ideologia. Outro aspecto interessante de se ressaltar é a forma como seu produto oscila dentro do próprio conteúdo. ―Freak Orlando‖, por exemplo, é quase que episódico – possuindo 5 momentos distintos dentro de sua narrativa. Esses 5 momentos nos trazem cenas de humor bizarro (um anão, nu e com o corpo todo pintado igual a um cão dalmata) justaposto a imagens de pessoas torturadas em

pequenos cubículos. Ulrike justifica seu viés artístico por uma temporada de imersão cinematográfica em Paris, onde conheceu diversos movimentos e escolas (inclusive cineastas brasileiros). Sua preocupação excessiva com o trabalho imagético infelizmente não condiz com a qualidade de suas histórias (que não conseguem estabelecer um vínculo personagem – espectador). A experiência, por fim, acaba sendo mais sensorial e simbolista do que envolvente. Gabriel Pontes – Estudante Produção Audiovisual da PUCRS

de


Bárbara Zieltow

P

riscila, a Rainha do

Deserto e Transamérica são filmes revolucionários porque retratam pessoas trans* por aquilo que elas são: pessoas. Mostram que por trás das perucas e dos saltos há angústias e amores, inseguranças e desejos. São, porém, sintomas de um domínio de representação trans* feminina no cinema. Pouco se debate sobre homens trans* e FtM (female to male, ―feminino para masculino‖ em inglês). Lançado em 2011, Tomboy conta a história de Laure, umx meninx de 10 anos, que se

//Divulgação

muda com a sua família para uma cidade no interior da França. Usando cabelos curtos e roupas ‗‘masculinas‘‘, elx se apresenta para as outras crianças como Michaël. Durante o verão, elx joga futebol sem camisa, brinca com os garotos do condomínio e se apaixona por uma menina da vizinhança. Laure/Michaël oscilam entre si, buscando a sua identidade. Em uma casa comunitária do interior da Alemanha mora Lukas, 20 anos. Em meio a sua transição hormonal, ele se apaixona pelo cis Fabio, um jovem local. Confuso se deve

//Divulgação


//Divulgação

ou não revelar a sua verdadeira condição, Lukas se vê cada vez mais atraído por Fabio. Esta é a história de Romeos, filme de 2011 dirigido por Sabine Bernardi que mostra, com sensibilidade, as angústias de um jovem trans* e homossexual. Boys Don’t Cry é, sem dúvida, o filme mais popular sobre homens trans*. Não é uma película obscura filmada no interior da França ou em uma cidadezinha alemã, mas produzido pelos estúdios Fox e estrelado pela já conhecida Hilary Swank. Lançado em 1999, o filme de conta a vida

de Brandon Teena, um FtM no interior de Nebraska, EUA. Baseado em fatos real, o longa é um trágico retrato da transfobia. Boys Don’t Cry é importante porque foi a primeira, e talvez única, exposição ao grande público sobre a transexualidade masculina, mas o fato de o único filme de referência sobre o tema ser uma história de sofrimento é mais prejudicial do que benéfico para os indivíduos trans*. Disforia, depressão e preconceito são lutas diárias de um transexual, por isso as mensagens de otimismo e positividade são tão necessárias.


//Jo達o Gabriel Maracci Cardoso


//Bernardo Jardim Ribeiro


//Bernardo Jardim Ribeiro


//Bernardo Jardim Ribeiro


//Miguel Soll


//Jo達o Gabriel Maracci Cardoso


//LĂşcia Marques


//Jo達o Gabriel Maracci Cardoso


Ñ

Cara, criar é difícil. Tu ficas encarando aquela tela em branco, esperando que alguma ideia brilhante surja na cabeça. Tu começas a ―procurar inspiração‖, levanta e toma um café, assalta a geladeira e de repente são 3 da manhã e tu não fizeste nada. Protelar é uma arte. Uma arte que te engole e de faz viver a base de energético para terminar tudo em cima da hora. Mas aqui está. Terminei esse zine depois de uma dose de desespero e culpa.

Até.


SEJA

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