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O BECO Roberta Quirino


Roberta Quirino

O beco

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Tabita andava pelo beco. A penumbra gerada pela iluminação precária e o cheiro azedo mostravam muito bem que tipo de pessoas frequentavam aquele lugar: cafetões, prostitutas, gays, lésbicas, bissexuais, exibicionistas, S&M, voyeurs... Todo o tipo que a sociedade renega, exclui e/ou simplesmente finge que não existe. Aquele lugar pertencia a eles; olhares ferozes, curiosos e obscenos eram comuns a qualquer um que quisesse invadir ou participar daquela vida. Assim olharam para Tabita, que não se intimidou porque era igual a eles; nunca tinha ido lá, mas já ouvira falar. Tinha medo de encarar aquele mundo de análogos a ela e agora enfrentava frente a frente sua própria identidade dotada de várias faces, cheiros, olhares e corpos... Tudo da forma mais podre possível. O estranho era a forma como chegara até lá. Era só mais um dia como qualquer outro (não importa qual, pois ela seguia a mesma rotina todos os dias. De domingo a domingo); ela estava em um bar qualquer do centro da cidade, próximo ao motel que morava e sentada sozinha em uma mesa de fundo, tomando uma cerveja e fumando uma penca de cigarros. Olhava, pensava, sentia... Para o nada. Era sempre assim, seus pensamentos vagavam tão desconexos que ela, depois de muito tentar entender porque eles eram assim, chegou à conclusão de que eles eram nada; foi mais fácil dormir a partir daí. Tudo estava como sempre era, a não ser por uma jovem que entrou no bar e se sentou em um dos bancos perto do balcão. A garota aparentava vinte e poucos anos, tinha uma pele alva e de aparência bem macia, suas roupas eram negras e usava uma corrente com um crucifixo enorme e um Cristo bem no meio dos seios também brancos que estavam à mostra por causa do decote um tanto exagerado do corpete que ela usava. Um tanto exótica, é verdade, mas não foi isso que surpreendeu Tabita. O que a hipnotizou foram os olhos dela. Negros como breu e penetrantes como olhos de gato, a encaravam, como se ordenassem que ela os seguisse para onde fossem, como se a desejassem. A garota se levantou e saiu do bar. Tabita simplesmente a seguiu. Na rua, não reconhecia por onde passava, tinha medo que qualquer distração fizesse a garota desaparecer. Vez ou outra, a garota olhava para trás por sobre seus ombros e abria um leve sorriso toda vez que percebia que Tabita ainda a seguia hipnoticamente. E fora assim que ela tinha parado naquele beco. A garota entrara por ali e quando Tabita virou a esquina, a estranha sumira. Somente o que restava eram as pessoas que estavam lá.


O Beco

Ela não entendia o porquê que uma garota com aparência tão casta e pecadora ao mesmo tempo iria àquele lugar. E como ela desaparecera tão rápido, em um piscar de olhos? Ela não sabia. A única coisa que tinha certeza era que aquilo tudo já estava muito estranho, mas que iria até o fim para encontrar a mulher de seios alvos e olhar penetrante. Quanto mais entrava no beco, mais se reconhecia nele. As pessoas tinham pelo menos uma característica que ela mesma tinha; algum olhar malicioso, um toque indecente ou até mesmo o tom de voz. Tabita não percebeu, mas estava hipnotizada por todos aqueles seres semelhantes; era como se estivesse em uma grande sala escura com diversos espelhos de todos os tamanhos e formas e que refletiam todos os lados dela, dos mais escancarados aos mais íntimos. Entretanto, sua atenção foi desviada por um vulto negro com os mesmos olhos que a fitavam no bar. Era ela. A garota a havia reencontrado, agora a queria; e Tabita ia. A garota seguia devagar, não tinha pressa. Tabita também a seguia no mesmo ritmo da caminhada. Quanto mais avançavam, mais escuro e deserto o beco ficava. As pessoas que restavam ao redor abriam espaço para a garota passar, com medo ou respeito; Tabita não sabia bem o que era, mas percebia o clima de tensão crescendo cada vez mais. Tabita sentia suas mãos suarem e todos os pelos do seu corpo se eriçarem. Seu coração batia acelerado e sua cabeça estava a mil imaginando aonde aquela garota ia e porque exercia esse tipo de poder sobre ela. De repente, a garota virou a esquerda em um túnel escuro. Tabita parou nesse momento tentando reconhecer o lugar em volta, mas estava tão escuro que ela não conseguiu ver sequer um palmo à sua frente. Quando entrou no túnel, foi puxada e empurrada para a parede. Com suas mãos, pôde sentir a parede de cimento frio e pegajoso; o cheiro ruim era fortíssimo. Foi então que percebeu que estava dentro de um grande duto de esgoto; a água passava por seus pés e, ao longe, podia ouvir o som dos ratos passando. No entanto sua atenção foi desviada pela garota que agora segurava seu rosto bem perto do dela. Tabita sentiu uma respiração fria e mentolada perto de seus lábios e percebeu que a pele dela era fria como gelo. Um arrepio lhe percorreu a espinha. A garota começou a tocar o sexo de Tabita que gemeu tão alto de prazer que conseguiu um risinho em troca e uma frase: “Você é minha!”. A voz da garota era suave, mas transmitia um perigo difícil de detectar. Tabita imaginou que essa seria a voz da Serpente do Jardim do Éden quando ela ofereceu a maçã a Adão: extremamente sedutora.

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Tabita tentou tocar a garota, mas foi impedida e seus braços foram prensados na parede. Percebeu que essa estranha tinha uma força fora do comum; pensou que talvez fosse melhor ir embora, mas o desejo e a curiosidade que sentia logo tiraram essa ideia de sua cabeça. A garota começou a tirar a camisa de Tabita. A força foi tamanha que todos os botões da camisa foram parar no chão. Com a mesma força, a garota rasgou sutiã de Tabita e o jogou longe. Seus seios estavam duros de tanto prazer e de sentir o toque frio da garota em sua pele. Tabita também sentiu a língua da garota em sua orelha e seu pescoço, descendo pela nuca e encontrando sua boca. O beijo era selvagem e extremamente delicioso; por um momento achou que tinha enlouquecido, pois o beijo tinha gosto de maçã... A garota continuou beijando todo o corpo de Tabita: ombros, seios, barriga e ao chegar em suas pernas, arrancou também com violência suas calça e calcinha. Então com os dedos, a garota tocou o sexo de Tabita; ao senti-lo quente e úmido gargalhou bem alto. Sua risada lembrava a daqueles bruxas que existem nos contos de fada, e mais uma vez Tabita se lembrou da maçã, dessa vez a dada para Branca de Neve pela Madrasta Má. A estranha então desceu até o sexo de Tabita e começou a beija-lo. Nesse momento, Tabita sentia todo o corpo tremer querendo escapar daquele gozo inesgotável. Tinha vontade de gritar; mas o máximo que conseguia era puxar os cabelos da garota e arranhar suas costas. Mas ela nem se importava e continuava; cada vez mais rápida e mais alucinada. O gozo veio logo depois; Tabita tentava respirar tentando recuperar o fôlego que ainda lhe restava, o coração batia acelerado e o corpo ainda tinha espasmos de adrenalina e de tesão. A garota a encarava e, de repente, pegou o pescoço de Tabita e o encostou em seus lábios, sentiu o cheiro inebriante do prazer iminente. Tabita só teve tempo de ouvir: “Despeça-se, sua alma agora me pertence...”. Sentiu como se grandes e grossas agulhas lhe rasgassem a pele. Parecia que todo o líquido do seu corpo estava sendo sugado pelos lábios daquela garota. Sua cabeça começava a girar, começou a sentir náuseas e sentiu que seu... coração... estava... parando... de... bater... ... ...


O Beco

Acordou com todo o corpo doendo, parecia que haviam arrancado sua pele e colocado uma menor no lugar. Precisava sair dali. Foi para fora do túnel e encontrou um pequeno feixe de luz; a claridade a incomodou um pouco, mas imaginou que fosse talvez pelo tempo que passara no escuro. Por falar nisso, quanto tempo havia sido? Não fazia idéia e não tinha condições físicas e nem psicológicas para pensar nisso agora. Só queria ir embora daquele lugar ou acordar daquele pesadelo. Era isso, mais uma vez bebera demais e estava somente tendo um sonho ruim. Enquanto divagava sobre o assunto, tropeçou em uma pedra no meio do caminho e caiu no chão perto de um espelho quebrado e sujo. O que enxergou nele a fez pular e encostar-se na parede. Respirou. “Não é verdade, não é verdade...”. Hesitou. Voltou ao espelho e confirmou que o pesadelo era só o começo e que era real. Seu pescoço tinha dois furos secos, sua pele estava fria como gelo, pálida e macia como neve e seus olhos vermelhos feito sangue. Tocou seu peito e não sentiu seu coração bater. Nesse momento percebeu que tinha sede... Muita sede...

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Tabita andava pelo beco. A penumbra gerada pela iluminação precária e o cheiro azedo mostravam muito bem que tipo de pessoas frequentavam aq...

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