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Agradecimentos

O projeto da Cinemateca Capitólio vai ao encontro da missão da Fundação Cinema RS, que tem como

Confiantes de que, em breve, iniciaremos e

propósitos a criação de mecanismos de fomento e

concluiremos a terceira e última etapa da obra

suporte à produção cinematográfica e audiovisual,

da Cinemateca Capitólio, entregando-a em

sua distribuição e exibição, a qualificação dos agentes

operação à comunidade, agradecemos a todos

do setor, a promoção do cinema e a formação de

aqueles que contribuíram direta e indiretamente

públicos espectadores, além da preservação da

para termos chegado até aqui. De forma especial, agradecemos ao prefeito de Porto Alegre, José Fogaça; aos ex-prefeitos Tarso Genro e João Verle; ao secretário da Cultura de

memória audiovisual.

Se, até pouco tempo atrás, faltava ao Rio Grande do Sul ensino superior na área, hoje o Curso de Realização

que reúne iniciativa privada, Estado, produtores e

Audiovisual da Unisinos, o Curso Superior de Tecnologia

exibidores cinematográficos do Rio Grande do Sul,

Porto Alegre, Sérgius Gonzaga, e à secretáriaadjunta Ana Fagundes; aos ex-secretários de Cultura Margarete Moraes e Vitor Ortiz e ao exsecretário-adjunto Ricardo Lima; ao ex-secretário da Cultura do Estado Victor Hugo e sua equipe; à equipe da Cinemateca Brasileira; aos estagiários

Criada em 1998, a Fundacine é uma parceria inédita

objetivando a organização e o desenvolvimento do

em Produção Audiovisual da PUCRS e o Curso de Graduação Tecnológica em Produção Audiovisual/Cinema da ULBRA indicam que as próximas gerações de cineastas serão capazes de dar um salto de qualidade,

setor, assim como a difusão do cinema realizado no Rio Grande do Sul, em escala nacional e internacional. É resultado direto da ação política desenvolvida há duas décadas por cineastas, profissionais e

do acervo e aos funcionários da Coordenação de

em capacitação técnica e em espírito crítico. Faltava, isso

empresas do cinema, desde a criação da Associação

Cinema, Vídeo e Fotografia (CCVF) da Prefeitura

sim, ao cinema brasileiro feito no Rio Grande Sul uma

Profissional de Técnicos Cinematográficos (APTC/RS)

de Porto Alegre; às equipes do Patrimônio

iniciativa de impacto no campo da preservação da

Municipal (EPHAC), Estadual (IPHAE) e Nacional (IPHAN); às equipes do Ministério da Cultura, da

Entre as iniciativas desenvolvidas pela Fundacine,

memória audiovisual. É essa lacuna que a Cinemateca

Secretaria do Audiovisual e da Agência Nacional

Capitólio vem preencher. E este livro é o documento que

de Cinema (ANCINE); à equipe da Petrobras; aos

não poderia deixar de acompanhar uma iniciativa como

conselheiros, às entidades e à equipe da Fundacine; aos membros da Associação dos

e do Sindicato da Indústria Audiovisual (SIAV/RS).

essa. Ao mesmo tempo curriculum vitae de um prédio e

estão o Centro Tecnológico de Produção Audiovisual (CTPAv); Prêmio RGE Governo RS de Cinema; projetos de integração com a TV, como o Teledramaturgia na TVE/RS; ações de exibição e formação de público, como o RodaCine RGE, além

Amigos da Cinemateca Capitólio (AAMICA); aos

certidão de nascimento de uma instituição, essas páginas

de atividades e eventos de planejamento e debate

trabalhadores do audiovisual brasileiro produzido

constituem-se numa outra história de Porto Alegre, do seu

político sobre o setor, como o III Congresso Brasileiro

no Rio Grande do Sul; e aos arquitetos,

gosto por cinema, da vocação audiovisual de sua gente.

de Cinema.

engenheiros e às equipes envolvidas nas mais

Participam do seu Conselho Curador, em 2007, a

variadas áreas e momentos do desenvolvimento

APTC/RS, o SIAV/RS e o Sindicato das Empresas

da obra.

Exibidoras Cinematográficas; a RBS TV (emissora privada) e a TVE/RS (emissora pública); a Rio Grande

Fundacine

Energia (RGE); a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS); o Serviço Social do Comércio do Rio Grande do Sul (Sesc/RS); a Federação das Associações Comerciais e de Serviço do Rio Grande do Sul (Federasul); o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), e o Governo do Estado e a Prefeitura de Porto Alegre.


U m o l h a r e m t r a n sf o r m a รง รฃ o


Capitรณlio

Cine -Theatro

U m o l h a r e m t r a n sf o r m a รง รฃ o


FICHA CATALOGRÁFICA F981c FUNDACINE Cine-Theatro Capitólio: Um olhar em transformação / Fundacine; Gunter Axt. — Porto Alegre: Fundacine, 2007. 84 p.: il.; l x h cm. ISBN: 85-99078-02-X. I. Fundação Cinema RS. II. Axt, Gunter. 1. História. Cinema. Porto Alegre. CDU 791.43(816.5) Ficha catalográfica elaborada por Julio Cesar Silva dos Santos, CRB-10/1336


ÍNDICE APRESENTAÇÕES

//12 Uma nova quadra para o cinema gaúcho

//16 Olhos no futuro

//18 O Capitólio e a comunidade

//22 Prefácio

1ª PARTE

//26 Monumento de uma época

//34 O cinema chega a Porto Alegre

//42 O fim de uma era

2ª PARTE

//52 Os primeiros passos para o renascimento

//58 O ponto de partida da cinemateca

//70 A Cinemateca Capitólio


EXPEDIENTE REALIZAÇÃO Fundacine (Fundação Cinema RS) www.fundacine.org.br

COORDENADOR DA PESQUISA HISTÓRICA (1ª parte) Gunter Axt ASSISTENTES DA PESQUISA HISTÓRICA (1ª parte) Fabiana Nunes Silveira e Luiz Armando Capra Filho EDIÇÃO GERAL KCS Projetos em Comunicação www.kcscom.com.br LAYOUT ORIGINAL Cláudio Santana PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Design de Maria FOTOS Arquivos da Carris e da Fundacine, imagens do Museu Hipólito e do Arquivo Municipal de Porto Alegre (imagens do filme 197/35mm do Cine Capitólio/Popular, referente ao Processo 5901/27 - Livro de Tombos), imagens da Bloco ArqDesign, Carlos Carvalho, Cláudio Santana, Fernando Fortes/ Cinemateca Brasileira, Guilherme Lund, Marcelo Fernandez, Paola Coelho, http://fotosantigas.prati.com.br e http://www.us.imdb.com REVISÃO Press Revisão


Apresentações


Uma nova quadra para o cinema gaúcho Prefeitura de Porto Alegre | Secretaria Municipal de Cultura (SMC) | Coordenação de Cinema, Vídeo e Foto (CCVF) |

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Ao longo do século 20, a humanidade experimentou as mais radicais transformações culturais de sua história. Num curto período de cem anos, as chamadas sociedades modernas se viram obrigadas a sepultar antigos valores e a incorporar novas informações em intensidade e velocidade antes jamais divisadas. A transição para os anos 1900 operou rupturas definitivas no imaginário de homens e mulheres, que presenciaram o gradual abandono da palavra como forma maior (predominante) da expressão em favor da comunicação através de imagens. O advento da reprodutibilidade técnica de imagens revolucionou não apenas o cenário do mundo moderno, o qual se tornou visualmente repleto, como também alterou em profundidade a forma como o homem percebia sua própria espécie e trajetória histórica. Preliminarmente, foi o registro fotográfico que permitiu o confronto deste novo homem com seu passado “real”, plasmado na imagem como prova indelével de sua existência. Com a chegada do cinema, estaria superada a palidez da memória coletiva e garantida eternidade à dinâmica experiência humana. As obras cinematográficas produzidas desde então foram responsáveis por algumas das mais belas – e também por algumas das mais atrozes – reflexões a respeito da natureza humana: criações artísticas, documentais ou propagandísticas, as quais exerceram enorme influência sobre nossa cultura. Hoje, iniciado já o século 21, passados mais de cem anos do surgimento do cinema e de tantas outras novas tecnologias – transcorridas também tantas décadas de mudanças sociais, políticas e culturais e de incansável registro dessas experiências –, a humanidade consolida sua certeza de que, mesmo a memória tendo sido analógica ou digitalmente gravada, ela se perde com o tempo. Ao se debruçarem sobre a história recente, as sociedades contemporâneas reafirmam, com renovada convicção, a

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importância de se preservar o patrimônio audiovisual resultante desta jornada através dos tempos. Não poderia ser diferente em nossa sociedade, neste Estado meridional, o Rio Grande do Sul – o mais ao sul na conformação federativa de um país de proporções continentais como o Brasil. Em sua capital, Porto Alegre, Poder Público e sociedade civil, a saber, a Prefeitura Municipal, a Fundacine (Fundação Cinema RS) e a Associação dos Amigos do Cinema Capitólio (AAMICA), reuniram esforços para a missão de estabelecer um arquivo fílmico, ou melhor, uma cinemateca cuja função seria a de proteger, armazenar, mapear e difundir a memória da produção audiovisual aqui realizada – incluídos neste rol não apenas filmes, mas também roteiros, fotos, livros, cartazes e demais itens que compõem a realização cinematográfica. Assim, mal chegados os anos 2000, a iniciativa tomou corpo e fôlego com a destinação feita pela Prefeitura de um prédio próprio municipal para tal finalidade: o Cine-Theatro Capitólio. Construído em Porto Alegre na década de 1920, o Capitólio atravessou uma ampla reforma estrutural com a finalidade de receber, em 2007, a cinemateca com o seu nome. Projeto ambicioso, a Cinemateca Capitólio cumpre não apenas o dever de salvaguardar o patrimônio audiovisual da cidade e do Estado, mas também o compromisso de estimular e viabilizar a pesquisa neste terreno hoje tão produtivo em nossa capital – Porto Alegre gradualmente se consagra como grande pólo cinematográfico distante do eixo Rio-São Paulo. Como se não bastasse, ela devolve à cidade um cinema de calçada, hoje inexistente, e promove uma série de atividades orientadas ao público iniciado e ao público em geral, tais como mostras de filmes, seminários, exposições, publicações especializadas e workshops. Alinhada em prática e concepção à Cinemateca Brasileira, a Cinemateca Capitólio encarrega-se de integrar o projeto de

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unificação das cinematografias nacionais, partindo de sua ação regional, dentro do espírito de mapeamento descentralizado, único possível em nosso continental País. As obras realizadas na Avenida Borges de Medeiros foram integralmente viabilizadas graças aos inestimáveis recursos destinados pela Petrobras, estatal que se destaca pelo alto comprometimento com o cinema brasileiro. Convicta da importância fundamental desta Cinemateca, munida de seu próprio acervo audiovisual, do capital intelectual de seus quadros, dos seus recursos e da compreensão de que não há preservação da memória cultural sem que haja íntimo envolvimento e interesse do poder público, a Prefeitura de Porto Alegre tem a honra de inscrever seus esforços – esforços estes de toda a população de nossa cidade – na memória do novo século. Sólida em sua arquitetura original, a fachada do Capitólio anuncia uma nova quadra para o cinema gaúcho: a da recuperação de nossa memória audiovisual e a da certeza de que futuros filmes também entrarão para nossa história. Bernardo José de Souza Coordenador de Cinema, Vídeo e Fotografia da Secretaria Municipal da Cultura (SMC) da Prefeitura de Porto Alegre

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Olhos no futuro Fundacine (Fundação Cinema RS) |

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A trajetória da sala de esquina entre a Avenida Borges de Medeiros e a Rua Demétrio Ribeiro, em Porto Alegre, traduz a ascensão e a derrocada dos cinemas que surgiram no início do século passado: o glamour e as platéias lotadas, a passagem do filme mudo para o falado, a concorrência com a TV, a decadência e a pornografia, o fim provisório. O reacender das luzes no antigo Cine-Theatro muda esse roteiro e torna-se um marco histórico e cultural para os gaúchos. Com tecnologia de ponta e traços arquitetônicos originais, a Cinemateca Capitólio devolve a Porto Alegre a tradição do cinema de calçada – lentamente extinta pela força comercial das salas de shopping. A construção luxuosa da década de 1920, que chegou a acomodar 1,5 mil pessoas na platéia, volta à cena redesenhada para atender ao eclético público dos dias de hoje. Há salas para três espectadores e outras para mais de cem, há espaço para a preservação de nosso passado e, logo ali, do nosso futuro. A Cinemateca Capitólio surge como endereço obrigatório para a memória da produção audiovisual gaúcha. Conta com o apoio técnico da Cinemateca Brasileira, o que assegura suporte metodológico para o acervamento das obras. A Fundacine (Fundação Cinema RS), ao resgatar e entregar esse equipamento à sociedade gaúcha e brasileira, cumpre sua função social de ser alavancadora e fomentadora de iniciativas que venham preservar e desenvolver o audiovisual brasileiro, principalmente aquele produzido no Rio Grande do Sul. Recuperar e preservar a cultura audiovisual do Estado é garantia da perpetuação do imaginário daqueles que um dia registraram suas idéias por meio da imagem em movimento. Estamos honrados de, ao lado da Prefeitura Municipal de Porto Alegre e da Associação dos Amigos do Cinema Capitólio, entregar aos gaúchos essa histórica ponte entre o passado, o presente e o futuro de nosso audiovisual chamada Cinemateca Capitólio. Longa vida ao cinema gaúcho! Cícero Aragon Presidente da Fundacine

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O Capit贸lio e a comunidade Associa莽茫o dos Amigos do Cinema Capit贸lio (AAMICA) |

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O Capitólio está de volta, e a Associação dos Amigos do Cinema Capitólio (AAMICA) orgulha-se de ter contribuído decisivamente para essa conquista. Tombado pela Prefeitura, o prédio que abrigou outrora o Cinema Capitólio é patrimônio municipal e merece, portanto, ser resgatado do abandono em que estava imerso. A mobilização dos moradores e dos comerciantes das imediações, iniciada em 2000, em prol desse novo centro cultural é um exemplo da força que tem a comunidade, força para transformar em realidade um sonho. O Capitólio restaurado é o resultado de inúmeras reuniões, de um sem-fim de contatos e da boa-vontade de pessoas que, voluntariamente, doaram parte do seu tempo a uma causa na qual acreditaram desde o princípio, cuja concretização é motivo de alegria para todos. A luta transformou-se num triunfo, provando que lutar, persistir, defender ideais e crer na possibilidade de realizar sonhos são atitudes que podem conduzir a um final feliz. Mas o trabalho da AAMICA não pára por aqui. A conclusão das obras de restauração e a implantação desse novo espaço comunitário constituíram a primeira etapa de um projeto que vai além. Torna-se necessário conservar essa conquista, por meio de uma gestão competente e responsável, da qual a AAMICA também faz parte. A mobilização continua, agora, com o objetivo de divulgar amplamente esse marco na história cultural de Porto Alegre, tornando-o um ponto de encontro daqueles que amam a arte. Queremos o Capitólio de pé, guardando vozes, cantos, coros e personagens. Queremos o Capitólio vivo, dinâmico e engajado na nobre tarefa de conservar a memória artística do Estado do Rio Grande do Sul. José de Jesus Santos Presidente da AAMICA Associação dos Amigos do Cinema Capitólio

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Prefรกcio

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O cinema brasileiro feito no Rio Grande do Sul tem cumprido um papel importante. O Estado foi um dos pioneiros na produção alternativa em super 8 no início dos anos 1980. Participou com destaque na “Primavera do curta”, que renovou a linguagem e a trupe audiovisual do País entre 1985 e a primeira metade dos anos 1990. Já na virada do século, consolidou-se como o terceiro centro nacional na produção de longas da “retomada”, da tentativa de ocupação de nosso próprio mercado, de um novo diálogo possível com o público brasileiro. E tudo isso sem deixar de ganhar prêmios em festivais nacionais e no exterior. Iniciativas institucionais ocorridas no Estado têm ajudado a pensar e a reinventar o cinema brasileiro. O Prêmio RGE Governo RS de Cinema, promovido pelo Governo do Estado e pela RGE - Rio Grande Energia em parceria com a Fundacine, o Prêmio Iecine, realizado pelo Governo do Estado em parceria com a Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos (APTC/RS), o Fumproarte, da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), e o Prêmio Assembléia Legislativa de Cinema Gaúcho de Curta e Média Metragens, promovido pela Assembléia e organizado pela APTC/RS com o apoio da Fundacine e do Sindicato da Indústria Cinematográfica do RS (SIAV/RS), apontaram novas possibilidades de apoio à produção de filmes, com transparência nas regras, democracia nos critérios de seleção e continuidade nas ações. O Prêmio Santander Cultural/ Prefeitura de Porto Alegre/APTC para desenvolvimento de

Graças à “Lei do Curta” (de 1975, mas aperfeiçoada em 1984), que obriga a sua exibição antes do longa estrangeiro, o curta-metragem passa a ser o único cinema brasileiro com acesso ao mercado. Assim, em todo o País, surgem novos cineastas e novas propostas de produção, e os curtas brasileiros ganham vários prêmios internacionais. Com a extinção da Embrafilme no governo Fernando Collor (1990-1992), a produção brasileira teve uma queda vertiginosa. O período que marca a retomada do cinema nacional começa por volta de 1994-95, tendo como marco simbólico o sucesso de público no lançamento de Carlota Joaquina, Princesa do Brasil (1995, Carla Camurati). Fundada em 1985, tornou-se a porta-voz dos cineastas junto ao poder público e às associações empresariais. Entre suas ações, estão o auxílio ao Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do RS e ao Ministério do Trabalho na concessão de Registro Profissional de trabalhadores na área de cinema, participação na criação do Fumproarte e das discussões da Lei Estadual de Incentivo à Cultura e da negociação que criou o projeto Curta nas Telas.

projetos de longa-metragem aposta no futuro, na qualificação constante de nossos produtores e roteiristas. O Rodacine/RGE, realizado pela Fundacine em parceria com o Governo do Estado, tem levado cinema onde ele não mais existia, formando público, recriando o gosto pelas nossas imagens. O projeto Curta nas Telas mostrou que é possível uma associação entre realizadores e exibidores, com o aval da Coordenação de Cinema da Prefeitura de Porto Alegre, para manter curtas-metragens brasileiros em cartaz nos cinemas por mais de dez anos. A parceria entre cinema e televisão, tão

Criado em 1986, com a missão de congregar todas as produtoras de áudio, vídeo e cinema do Estado, a partir do final da década de 1990, passou a tomar parte de ações importantes para o fortalecimento do setor audiovisual, como a criação da Agência Nacional de Cinema e a formatação da nova legislação audiovisual brasileira, incluindo a regulação para os setores do cinema e do filme publicitário.

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difícil de ser alcançada no resto do País, aqui é realidade em projetos como o Curtas Gaúchos e o Histórias Curtas da RBS TV, ou o Histórias do Sul da TVE/RS. A própria Fundacine nasceu da idéia de que é sempre possível estabelecer parcerias em torno de objetivos comuns – e para isso, reunimos produção e exibição, cinema e TV, público e privado, ensino e patrocínio para discutir e encontrar caminhos para o audiovisual. Foi esse exemplo, do extremo sul para o Brasil inteiro, que fez renascer aqui o Congresso Brasileiro de Cinema (CBC), depois de 50 anos de dispersão, para propor e cobrar políticas públicas, para criar uma Agência Nacional de Cinema, eventualmente do Audiovisual. A tradição crítica de nossos cinéfilos, que mantêm em atividade o mais antigo Clube de Cinema do Brasil, também é responsável pelos ciclos de debates da Usina do Gasômetro, pelo maior índice de freqüência ao cinema entre as capitais brasileiras, pela quantidade de salas alternativas, pela série Escritos de cinema da Prefeitura de Porto Alegre, pela importância histórica do Festival de Gramado, pelas mostras e núcleos de produção audiovisual em Santa Maria, Caxias do Sul, Pelotas e outros municípios, Revista Teorema – Crítica de Cinema, publicação do Núcleo de Estudos de Cinema de Porto Alegre e editada por profissionais, professores e intelectuais ligados à indústria cinematográfica do Estado.

pela qualidade e permanência de uma revista como a Teorema. Se, até pouco tempo atrás, faltava ao Rio Grande do Sul ensino superior na área, hoje o Curso de Realização Audiovisual da Unisinos, o Curso Superior de Tecnologia em Produção Audiovisual da PUCRS e o Curso de Graduação Tecnológica em Produção Audiovisual/Cinema da ULBRA indicam que as próximas gerações de cineastas serão capazes de dar um salto de qualidade, em capacitação técnica e em espírito crítico. Faltava, isso sim, ao cinema brasileiro feito no Rio Grande Sul uma iniciativa de impacto no campo da preservação da memória audiovisual. É essa lacuna que a Cinemateca Capitólio vem preencher. E este livro é o documento que não poderia deixar de acompanhar uma iniciativa como essa. Ao mesmo tempo curriculum vitae de um prédio e certidão de nascimento de uma instituição, essas páginas constituem-se numa outra história de Porto Alegre, do seu gosto por cinema, da vocação audiovisual de sua gente.

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1ÂŞ parte


Monumento de uma época Contar a história de um prédio é contar várias histórias que se entrelaçam num mesmo espaço físico. Um prédio tem a história da sua construção, da sua ocupação, das pessoas que o habitaram, das atividades que ele abrigou. Do entorno urbano que ele viu se desenvolver. Essas múltiplas vivências, individuais e coletivas, se combinam, se acumulam, se dispersam, são lembradas e esquecidas. Vão, assim, ao longo dos anos, produzindo uma identidade. O resultado dessa imponderável equação do porvir dá às pessoas de hoje noções de valor. Um prédio que é tombado, restaurado e convertido Memória: o CineTheatro Capitólio foi um importante espaço de cultura e entretenimento da capital gaúcha

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num espaço cultural certamente mereceu a distinção dos moradores de uma cidade. Essa distinção é um signo de valor. Que valor é esse?


O de uma janela de cognição para aquilo que já passou, que não é mais palpável, mas está sempre ali, disperso, fragmentado, oculto, mas, de alguma forma quase instintiva, perceptível. Uma janela de cognição para os sentidos e emoções de homens e mulheres de uma outra época, homens e mulheres que nos antecederam, que são parte da nossa sociedade. Uma janela para o nosso vivido em comum, para a nossa identidade cultural, para aquilo que, sensorialmente, cimenta nossa particularidade de grupo. Se ser porto-alegrense, gaúcho e brasileiro tem uma especificidade cultural no mundo de hoje, se essa diversidade é importante, então precisamos revivê-la e reinventá-la permanentemente. Para isso servem também os lugares de memória. São âncoras que nos conectam a um passado em comum, que ligam os indivíduos a uma coletividade. Emprestam sentido à nossa existência. É por isso que lembrar, debater a nossa própria experiência vivida, reinventá-la no presente constituemse em um signo civilizatório. Pois uma civilização se faz

Símbolos: o Lago Guaíba e a Estátua do Laçador são referências dos rio-grandenses

SE SER PORTO-ALEGRENSE, GAÚCHO E BRASILEIRO TEM UMA ESPECIFICIDADE CULTURAL NO MUNDO DE HOJE, SE ESSA DIVERSIDADE É IMPORTANTE, ENTÃO PRECISAMOS REVIVÊ-LA E REINVENTÁ-LA PERMANENTEMENTE.

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dessa plêiade de identidades que se mesclam e se expressam no dia-a-dia, nos costumes, nas artes dos homens e das mulheres de uma época. Para a maioria dos porto-alegrenses, o Cine-Theatro Capitólio sempre esteve ali. Os mais idosos o viram nascer. Muitos fizeram parte de seus anos de glória e acompanharam a sua posterior degradação, o seu abandono. Os mais jovens, talvez, só conheçam a sua carcaça, sem jamais terem transposto a fachada do majestoso prédio inaugurado em 1928. Projeto original: vista da fachada do CineTheatro pela Avenida Borges de Medeiros

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O que representou este prédio para a nossa cidade?


Um marco arquitetônico, um monumento à cultura, um espaço de socialização... O Capitólio nasceu para o cinema. O cinema é um dos mais complexos fenômenos de massa da cultura moderna. Ao mesmo tempo arte e indústria, ele está presente com muita evidência no nosso dia-a-dia. A chamada sétima arte foi a arte do século 20. Condensou todas as aspirações e frustrações desse século frenético. Incontáveis novidades tecnológicas repercutiram sobre o jeito de produzir cinema. O cinema é o espelho mais evidente da diversidade cultural de um mundo.

A preocupação do homem com o registro do movimento é bem antiga. Fragmentos arqueológicos indicam que já por

Trajetória: ao longo da sua história, a humanidade buscou meios de entender a imagem

volta de 5 mil anos a.C., na China, projetavam-se figuras recortadas, com a ajuda de lamparinas, sobre paredes ou telas de linho. No século 15, na Europa, o célebre pintor e inventor Leonardo da Vinci enunciou o princípio da cámara oscura. O invento no século seguinte foi desenvolvido pelo físico napolitano Giambattista Della Porta: uma caixa fechada, com um pequeno orifício coberto por uma lente, por meio da qual se cruzavam raios refletidos pelos objetos exteriores,

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Daguerreótipo: imagem espanhola que utiliza o processo que dispensa o uso de negativos

projetando uma imagem invertida na face do fundo da caixa. No século 17, o alemão Athanasius Kircher descreveu a lanterna mágica, baseada no processo inverso da cámara oscura: uma caixa cilíndrica iluminada a vela projetava imagens desenhadas em uma lâmina de vidro. No início do século 19, o inglês Peter Mark Roget desenvolveu aparelhos capazes de reproduzir imagens em seqüência, no instante em que elas permanecem gravadas na retina. Paralelamente, surgia na França o daguerreótipo, precursor da fotografia, desenvolvido por Louis-Jacques Daguerre e Joseph Nicéphore Niepce. A fotografia chega ao Brasil graças, em grande medida, ao entusiasmo do Imperador Dom Pedro II, sempre atento às novas descobertas científicas que então agitavam o mundo. Vários novos inventos e experiências seriam necessários ao longo do século 19 para que se chegasse ao Kinetoscope. Por volta dos anos 1890, o norte-americano Thomas Edison inventou um filme perfurado, tendo rodado uma série de pequenos filmes em seu estúdio, o Black Maria, primeiro da história do cinema. Esses experimentos não eram projetados em uma tela, mas no interior de uma máquina, sendo as imagens visualizadas apenas por um espectador de cada vez.

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OS PRIMEIROS FILMES ERAM PEQUENOS DOCUMENTÁRIOS. DURAVAM CERCA DE UM MINUTO E REPRODUZIAM CENAS CIRCENSES, MUSICAIS, DANÇAS, PASSEIOS POR ESPAÇOS URBANOS E CENAS COTIDIANAS.

O Cinematógrafo Lumière, que veio a seguir, foi um aperfeiçoamento do Kinetoscope. O aparelho foi criado pelos irmãos Auguste e Louis Lumière em 1895. Consistia numa filmadora movida a manivela, que utilizava negativos perfurados, substituindo a ação de várias máquinas fotográficas para registrar o movimento. O Cinematógrafo tornou possível, ainda, a projeção das imagens para o público. A primeira exibição pública dos filmes dos irmãos Lumière foi em 28 de dezembro de 1895, no Grand Café, em Paris. Surgiam uma nova técnica e uma nova arte: o cinema. Os primeiros filmes eram pequenos documentários. Duravam cerca de um minuto e reproduziam cenas circenses, musicais, danças, passeios por espaços urbanos e cenas cotidianas. Panoramas naturais, catástrofes e documentários sobre guerras e manobras militares também incitavam os filmadores da época. Havia também as seqüências pornográficas, que atraíam os consumidores de postais e desenhos. Os filmes eram curiosidades científicas, mas também se converteram logo em fonte de informação e

Contribuições: Imperador Dom Pedro II e Thomas Edison

de fruição. Eram, em geral, exibidos em feiras ou teatros. No início do século 20, a linguagem se desenvolveu, incorporando estruturas narrativas, inicialmente baseadas no

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teatro. Na década de 1910, o cinema já se alastrava pelo mundo. Em conseqüência da Primeira Guerra Mundial, o cinema europeu desorganizou-se e a produção tendeu a se concentrar nos Estados Unidos, mais precisamente em Hollywood. O cinema norte-americano consolidou-se rapidamente, em todos os seus gêneros: western, policial, comédia, musical... Os filmes ganharam mais tempo de exibição, alcançando os 90 minutos. Firmou-se uma indústria de produção em série, assim como uma rede de salas de exibição, que proliferavam por todo o mundo. Surgiram os grandes estúdios, e o cinema converteu-se numa fábrica de estrelas e de celebridades, uma usina de sonhos. Ditava moda, influía nos costumes, encantava multidões. Ícones: a atriz Greta Garbo e o ator e diretor Charles Chaplin

Mary Pickford era a “noivinha da América”. Greta Garbo hipnotizava o mundo. Nomes como Theda Bara, Tom Mix,

Revista do Globo: matéria sobre o Capitólio publicada na revista, editada em Porto Alegre entre 1929 e 1967

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Douglas Fairbanks e Rodolfo Valentino encantavam as platéias dos anos 1920. No gênero comédia, Buster Keaton e

Marco: detalhe da fachada do prédio do Capitólio sinaliza a data de inauguração

Charles Chaplin arrebatavam multidões. Mas foi a genialidade de Chaplin, com seu personagem Carlitos, que marcou essa época. O vagabundo de bengala, chapéu-coco e calças largas foi imortalizado em produções como O garoto (The Kid, 1921) e Luzes da cidade (City lights, 1931). Ao final dos anos 1920, o som foi associado à projeção, revolucionando a técnica e abalando convicções. Muitos diretores resistiram à inovação, dentre eles, o próprio Chaplin. O primeiro filme inteiramente falado foi Luzes de Nova York (Lights of New York, 1928, Bryan Foy). Em 1930, mais da metade do cinema produzido nos Estados Unidos era falado. O Anjo Azul (Der Blaue Engel, 1930, Joseph von Sternberg) e M, o vampiro de Düsseldorf (1931, Fritz Lang), ambos produzidos na Alemanha, foram alguns dos grandes títulos que marcaram este novo momento do cinema. Foi nesse contexto que nasceu, em Porto Alegre, o CineTheatro Capitólio. O ano era 1928.

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O cinema chega a Porto Alegre Getúlio Dornelles Vargas elegeu-se deputado estadual, deputado federal e líder da bancada gaúcha, entre 1923 e 1926. Foi Ministro da Fazenda de Washington Luís (1926-27) e presidente do Rio Grande do Sul (1927-1930). Governou o Brasil em dois períodos: 1930-1945 e 1951-1954. Antônio Augusto Borges de Medeiros: foi advogado e político, tendo sido presidente do Estado do RS por 25 anos, durante o período conhecido como República Velha (entre a Proclamação da República, em 1889, e a Revolução de 1930).

Por essa época, a acanhada e provinciana vila às margens do Lago Guaíba, que abrigava a Capital do Estado do Rio Grande do Sul, era sacudida por uma onda de mudanças que pretendia transformar a sua fisionomia, dando-lhe ares de metrópole. O jovem político Getúlio Dornelles Vargas chegava ao Governo do Estado (1927-1930), depois de décadas do governo do circunspecto Antônio Augusto Borges de Medeiros, prometendo uma administração ágil e moderna. A inauguração da Usina Termoelétrica da Volta do Gasômetro, mais tarde apelidada simplesmente de Usina do Gasômetro, encarnava o símbolo dessa modernidade. Os becos escuros iam sendo inundados pela luz cristalina

Usina do Gasômetro: localizado à beira do Guaíba, o prédio abrigou a antiga Usina Termoelétrica entre 1928 e 1974. Sua chaminé, de 117 metros, foi tombada pelo município em 1982 e o prédio foi tombado pelo Patrimônio Estadual em 1983. Desde 1991, é um dos mais importantes centros culturais do Estado.

das novas luminárias, o serviço de bondes aprimorava-se

Hidráulica do Moinhos de Vento: local onde se situava, originalmente, a Hydráulica Guaybense, empresa privada que captava água direto do Lago Guaíba e distribuía-a diretamente sem tratamento à população. A grande torre da hidráulica foi desativada em 1969. Durante muito tempo, foi a única caixa d’água que conseguia abastecer os grandes prédios do Centro.

transformações. Os intendentes, como eram na época

Otávio Rocha: governou a cidade entre 1924 e 1928. Após a sua morte, em 1928, o seu viceprefeito, Alberto Bins, assumiu o cargo e deu continuidade ao projeto político do Partido Republicano Rio-Grandense no poder municipal.

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e a eletricidade chegava mais facilmente às indústrias e aos lares dos porto-alegrenses. Inaugurada no mesmo ano, a Hidráulica do Moinhos de Vento traduzia igualmente esse espírito, ampliando e melhorando o serviço de água tratada na cidade. A arquitetura e o urbanismo refletiam essas chamados os prefeitos, Otávio Rocha e Alberto Bins promoviam uma ampla reformulação da cidade. O Centro

Atividade: imagem da Usina do Gasômetro e do Cais do Porto em 1969


Centro de Porto Alegre: Rua dos Andradas em 1913

esparramava-se para além da Rua Duque de Caxias, em direção à zona sul, com a construção do Viaduto Otávio Rocha (1932) e a abertura da Avenida Borges de Medeiros (1935). Essas duas obras majestosas valorizaram uma área que até então recebia pouca atenção. Foi ali, numa das áreas mais requisitadas da Capital, na esquina da Avenida Borges de Medeiros com a Rua Demétrio Ribeiro, que nascia o CineTheatro Capitólio. O cinema já se tornara entre os porto-alegrenses um hábito cultural enraizado havia muito. Em 1897, menos de um ano depois do público parisiense ter assistido à novidade dos irmãos Lumière, o invento era conhecido pelo público brasileiro, nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Não demorou para que chegasse a Porto Alegre. No dia 4 de novembro do mesmo ano, promoveu-se uma sessão na Farmácia Jouvin, na Rua dos Andradas (localizada na área central da cidade).

Irmãos Lumière: os franceses são considerados os pais do cinema

No início, o cinema era uma curiosidade exibida em feiras. Evoluiu para uma manifestação de massas, que sensibilizava especialmente as classes populares. Aos poucos, tornou-se um fenômeno encampado pelas elites. Foi quando começaram a surgir as grandes e sofisticadas salas de espetáculos, inspiradas nos teatros de ópera.

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O primeiro espaço destinado especificamente ao cinema em Porto Alegre – o Recreio Ideal – foi inaugurado em 1908. Ficava na Rua dos Andradas em frente à Praça da Alfândega. Junto a essa sala de exibição, durante os anos 1910, funcionaram também um estúdio e um laboratório para a produção local de filmes. Aos poucos, o sistema organizou-se. Com as salas fixas, podiam ser projetados filmes mais longos em horários predeterminados. Com a disseminação da energia elétrica e do serviço de bondes, as pessoas sentiam-se mais confortáveis também para sair à noite. Os horários das linhas de bondes foram conciliados com o início e o fim das sessões. Os cinemas ganharam elegantes salas de espera, as quais se converteram em espaços de socialização. As pessoas se reuniam ali para verem e serem vistas, para encontrar os amigos. Eram espaços seguros e resguardados da balbúrdia das ruas, lugares propícios a encontros, conversas e Lazer: a fachada do Cinema Guarany e o interior do Cinema Central de Porto Alegre

mexericos, que atraíam especialmente o público feminino, para o qual se destinava, aliás, boa parte da produção cinematográfica da época. Esse ambiente também atraía artistas em geral. Artistas plásticos expunham seus trabalhos pelas paredes, enquanto músicos, mágicos, malabaristas eram requisitados para animar as projeções. Mesmo com o advento do cinema falado, essas apresentações continuaram acontecendo por algum tempo antes do início das sessões, chamando a atenção para o fato de que mais importante do que o filme era o convívio social, a fruição do lazer. A localização das salas de exibição também ganhava importância. Eram freqüentadas preferencialmente pela elite aquelas que se situavam em áreas nobres, centrais, e na proximidade de lojas e cafés. O cinema, assim, permitia

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Modernidade: imagem de um bonde elétrico na década de 1930

COM A DISSEMINAÇÃO DA ENERGIA ELÉTRICA E DO SERVIÇO DE BONDES, AS PESSOAS SENTIAM-SE MAIS CONFORTÁVEIS TAMBÉM PARA SAIR À NOITE. OS HORÁRIOS DAS LINHAS DE BONDES FORAM CONCILIADOS COM O INÍCIO E O FIM DAS SESSÕES.

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Footing: a área central da cidade era o local preferido para os passeios e o lazer

programas casados. O footing no entorno das salas era muito apreciado. Nos jornais, ao fim dos anos 1920, a crítica e os comentários aos filmes exibidos também enveredavam pelo colunismo social: a família tal esteve numa sessão muito badalada no cinema X. O vestido de fulana estava deslumbrante. E assim por diante. Ir ao cinema era um happening. O cinema substituiu outros espaços de lazer, como as festas religiosas, as feiras, os circos

Público: movimentada estréia no Cinema Central, inaugurado no início da década de 1920

e os teatros de variedades, e se converteu no centro da vida social e artística da cidade. Freqüentar os cinemas tornou-se um signo de elegância e de erudição.

O conceito de cine-teatro Em 1913, com a inauguração do Guarany, na Rua dos Andradas, surgiu o conceito de cine-teatro. Eram construções monumentais, suntuosas. O Guarany foi concebido pelo

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incensado arquiteto local Theo Wiederspahn. Também por essa época proliferavam os novos cinemas pelos bairros da Capital. Pois o Cine-Theatro Capitólio foi o coroamento desse espírito em Porto Alegre. O empreendimento foi festivamente inaugurado em 12 de outubro de 1928. O prédio foi projetado pelo arquiteto paulista Domingos F. Rocco. De propriedade do alfaiate José Faillace, foi considerado o maior e mais completo complexo de diversões da época na cidade. A fachada, em estilo eclético com influências açoriana e colonial portuguesa, é suavemente curva na esquina. Suas aberturas amplas e transparentes, em arco nas laterais e geometricamente retangulares ao centro, transmitem monumentalidade. A casa tinha capacidade para 1.295 lugares e uma decoração luxuosa dos interiores. Um piano acompanhava as projeções do cinema mudo. O filme de estréia foi a produção francesa Casanova, o príncipe dos amantes (1927, Alexandre Volkoff), com o russo Ivan Mozzhukhin no papel do célebre

Jornais: na primeira imagem, o anúncio do filme Casanova (1927, Alexandre Volkoff). Na segunda, notícia sobre a inauguração do Capitólio

personagem veneziano. A sala de projeções era inspirada nos teatros de ópera. Uma platéia com cadeiras em veludo vermelho-escuro esparramava-se ao centro, enquanto nas laterais corriam galerias e camarotes. Um elegante lustre de cristal iluminava o ambiente. A tela era guarnecida por longas cortinas de veludo e dispunha-se sobre um majestoso palco, lembrando que aquele espaço era dedicado também a outras formas artísticas. Portas e cercados que orientavam o trânsito de espectadores revelavam cuidadoso trabalho em madeira; da mesma forma, os balcões e guichês situados à entrada. A sala de espera era sofisticada e confortável. Elegantes sofás dispostos no seu entorno eram ocupados pelas damas porto-alegrenses.

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Tudo era cenário. Da fachada à tela, passando pelo lobby, tudo conspirava para criar uma atmosfera de surpresa e emoção. Um grande espetáculo, badalado pela elite social, suscitava o encantamento, a evasão, a fantasia, o exagero. A magia do cinema não estava apenas na tela, mas no ambiente e no ti-ti-ti das pessoas que iam à sala de exibição. Essa ambiência seduziu a classe média. A freqüência aumentou ainda mais com as crianças e os adolescentes. Surgiram as matinés, as soirés, os filmes destinados a essa faixa etária. Os bang-bangs eram muito apreciados. A criançada gostava de “ajudar” o mocinho batendo ritmadamente os pés no assoalho de madeira quando aquele estava a galope, perseguindo o bandido malvado. Os filmes não ficavam muito tempo em cartaz. Às vezes, eram projetados por apenas um dia. E já migravam para outros cinemas, mais populares, ou localizados nos arrabaldes. As casas mais elogiadas eram justamente aquelas que conseguiam manter mais variedade e alta rotatividade nas projeções. Com o tempo, os filmes foram ganhando mais tempo de exibição nos cinemas. No dia 21 de dezembro de 1928, um grupo de professores organizou no Capitólio um evento em benefício da criação do Instituto Ginasial Artístico e Profissional de Cruz Alta. Em homenagem ao intendente eleito daquela cidade, foi exibido na tela em sete partes um drama, A mulher que pecou. Antes das projeções, o palco era ocupado por um número de música e canto. Em 1º de janeiro de 1929, foi realizada a primeira matiné, às 14h. O filme O monstro de circo foi exibido em meio à distribuição de brindes. A sessão foi dedicada ao aniversário Bang-bang: ator americano Tom Mix era um dos ídolos da garotada

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de 46 anos de fundação do jornal A Federação, órgão do Partido Republicano Rio-Grandense. Mas nem tudo eram flores. O Intendente Otávio Rocha


Clássico: Capitólio exibiu o musical Voando para o Rio (1933, Thornton Freeland), com Fred Astaire e Ginger Rogers

resolveu criar uma taxa especial sobre a atividade dos cinemas na Capital. Em protesto, muitos fecharam as portas. A greve dos cinemas foi muito criticada pelo Intendente. Em alguns dias, a situação se acalmou. O Capitólio, que vivia em flertes com o poder, furou a greve. No dia 8 de fevereiro de 1929, o Capitólio abrigou sua primeira festa de Carnaval. O Bloco Thesouras, campeão do Carnaval de 1928, animou os festejos, tocando marchinhas regidas pelo maestro Martiniano. Para abrilhantar ainda mais a ocasião, exibiu-se o filme Filha de Valência. A prática tornou-se regular. Todos os anos, a casa promovia concorridos bailes de carnaval. Assim, toda sorte de eventos culturais e sociais afluía às luxuosas dependências do Capitólio: bailes de carnaval, peças de teatro, exposições artísticas, projeções solenes, que homenageavam alguém ou alguma instituição, concursos de misses. O Capitólio logo ganhou o reconhecimento dos distribuidores. Passou a lançar com exclusividade em Porto Alegre os filmes produzidos pela Vera Cruz, Warner Brothers, Columbia Pictures e United Artists. O novo chegava sempre e cada vez mais por sua tela.

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O fim de uma era Em 1935, o cinema passou pela sua primeira reforma. A capacidade de público foi ampliada para 1,5 mil lugares. Nesse período, a casa de espetáculos viveu o seu apogeu. Porém, assim como a experiência de ir ao cinema não é única, ela não estaciona no tempo. Para cada época, um público, uma apreensão social diversa. Com o passar dos anos, o público do cinema especializou-se. As pessoas desejavam ir ao cinema e assistir apenas ao filme, que passou de fato a ser a atração principal. Caiu em desuso o hábito de animar o início das sessões com shows de música ou de mágica. O cinema foi aos poucos também perdendo aquele glamour social dos anos 1920. Não se faziam mais sessões solenes nem homenagem a alguma personalidade ou a alguma instituição. A crítica concentrou-se nos filmes, no enredo, na sua qualidade técnica, nos seus aspectos operacionais. Os mexericos do colunismo social migraram para outros ambientes. O mesmo aconteceu com as exposições de arte, os bailes

No mesmo ano da primeira reforma do Capitólio, a atriz americana Bette Davis estrelou o filme Perigosa (1935, Alfred E. Green)

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de carnaval, os concursos de misses e as peças de teatro. A cidade ganhava novos espaços para essas atividades. Cinema ficou sendo só cinema. A influência sobre a sociedade das películas exibidas e da indústria cinematográfica, em contrapartida, tornou-se extensa e profunda. Surgiram os cinéfilos, gente adicta em cinema, que conhecia detalhes diversos da produção dos filmes, que comparava a trajetória dos diretores, acompanhava a carreira dos artistas, debatia os temas tratados nas telas. Como registra, com sensibilidade e objetividade, Susana Gastal (2005):

Susana Gastal: professora do curso de Turismo da PUCRS, jornalista, consultora na área de turismo e de cultura.

“Durante a Segunda Guerra, o cinema europeu enfrenta muitas dificuldades de produção, facilitando que o cinema americano amplie sua presença, não só no mercado produtor e exibidor, mas também no ideológico, e uma outra forma de propaganda invade as telas: a do american way of life. A filmografia americana consolida, junto ao público local, uma preferência pelas narrativas lineares em termos de

AS PESSOAS DESEJAVAM IR AO CINEMA E ASSISTIR APENAS AO FILME, QUE PASSOU DE FATO A SER A ATRAÇÃO PRINCIPAL. CAIU EM DESUSO O HÁBITO DE ANIMAR O INÍCIO DAS SESSÕES COM SHOWS DE MÚSICA OU DE MÁGICA.

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roteiros e estruturas de imagem. Quanto menos complexos, melhor. Películas que fugissem a essa simplicidade – como Cidadão Kane, que estréia no País em 1942 – são recebidas com protestos. As produções americanas também devem respeitar o código Hays, um verdadeiro código de censura, que impõe uma postura ética maniqueísta aos roteiros, em que o bem sempre deve superar o mal, e onde os casais seriam quase assexuados: beijos são apenas insinuados e camas de casal não podem aparecer nas cenas. Os filmes alemães e italianos, mais apimentados, só retornaram às telas na década de 1950, mostrando uma realidade bem menos cor-de-rosa que a das Cidadão Kane (1941): o filme, dirigido e protagonizado por Orson Welles, criou polêmica no Brasil

películas americanas. Passam, de imediato, a ser tratados como Cinema Arte e, se agradam aos críticos na imprensa, muitas vezes afugentam o público”. Nos anos 1960, cresceu o interesse do público, sobretudo dos estudantes universitários, pelo cinema político. Cinema bom era aquele que fazia pensar. As pessoas saíam dos filmes e debatiam, às vezes por horas a fio. Cinema e intelectualidade misturaram-se. Não que deixasse de existir o gênero mais popular ou o cinema para simples diversão e fruição. Pelo contrário, a indústria cinematográfica crescia em todos os sentidos. E diversificava-se. Mas a amplitude do chamado cinema político foi uma novidade, comportamental até. Com a ditadura militar implantada pelo Golpe de 1964, a censura caiu sobre as telas, tal como um véu-de-ferro. Muitos filmes tiveram a sua exibição proibida. Outros tantos foram cortados. Ir ao cinema, em alguns casos, era um ato de rebeldia. O último filme proibido no Brasil foi Je vous salue, Marie (1985, Jean-Luc Godard), em 1986, já em plena abertura política, o que provocou manifestações em todo o País contra a sobrevivência da censura e do autoritarismo. Essa época marcou o início da decadência do antes

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Censura: Je vous salue, Marie foi o último filme a ter a exibição proibida no País

requintado Cine Capitólio. Em 1969, depois de quatro décadas reconhecido como um dos melhores espaços de exibição da cidade, o Capitólio foi arrendado e novamente reformado. Passou então a chamar-se Cine Première. A descaracterização traduziu bem a crise de identidade então vivida pela antiga casa de espetáculos. Dez anos depois, o prédio sofreu outra intervenção e teve seu nome original devolvido. A partir dos anos 1960, além da censura que violentava os filmes, o cinema passou a sofrer a concorrência da televisão, artigo de consumo que se massificou no Brasil. A televisão converteu-se na grande opção de lazer de considerável parcela da população, roubando público ao cinema. Além disso, a melhoria das condições de vida das classes médias urbanas, na esteira do desenvolvimento econômico trazido pelo regime militar, suscitou o surgimento de ainda outras opções de lazer, tais como os prolongados veraneios nas praias, luxo até então restrito às famílias mais abastadas. Em fins dos anos 1970, muito embora existisse um público altamente informado sobre o cinema, o número de salas de exibição começava a reduzir. 45


A mudança do público Em 1988, o Capitólio foi mais uma vez reformado. O cinema ficou fechado durante um mês e reabriu em 5 de março daquele ano, com a exibição de Hamlet (1948, Laurence Olivier). Como nas reformas anteriores, não houve alteração nas fachadas, mas instalou-se uma nova iluminação externa. Hamlet: obra inspirada no clássico do dramaturgo inglês William Shakespeare marcou tentativa de revitalização

Ficou bonito. A tela foi lavada, e a casa ganhou moderna aparelhagem de projeção e som. Os banheiros foram modernizados e melhorados; os surrados tapetes, trocados. Instalou-se um sistema de ventilação e prometeu-se para breve o conforto de um ar-condicionado. Revigorado, o Capitólio viveu um instante de renascimento. Parecia que voltaria a ser o palácio do cinema que fora antes. Para muitos porto-alegrenses, a sala, reformada, era uma novidade. As sessões noturnas passaram a ser concorridas. Projetavam-se filmes de arte, e havia todo um clima retrô na ambiência que seduzia o público jovem. Mas os tempos eram outros. O Centro da cidade já havia deixado de ser uma zona nobre. Envelhecera, verticalizara-se, degradara-se. Muitas famílias ilustres migraram para outros bairros, mais afastados, menos movimentados. À noite, nem sombra dos footings e da charmosa vida boêmia de antigamente. Também à noite, prédios de escritórios davam um ar deserto, quase desolado, para algumas áreas da região central, excessivamente agitadas durante o dia. Até o majestoso Viaduto Otávio Rocha estava a reclamar uma providencial obra de restauração. Além disso, a era dos grandes cinemas de calçada parecia estar chegando ao fim. Os amplos e modernos shopping centers que se espalharam pelo mundo e começavam a proliferar pela cidade convidavam o público, que lá encontrava segurança e a possibilidade de realizar programas casados,

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OS AMPLOS E MODERNOS SHOPPING CENTERS QUE SE ESPALHARAM PELO MUNDO E COMEÇAVAM A PROLIFERAR PELA CIDADE CONVIDAVAM O PÚBLICO, QUE LÁ ENCONTRAVA SEGURANÇA E A POSSIBILIDADE DE REALIZAR PROGRAMAS CASADOS.

Catherine Deneuve: a atriz francesa estrelou Belle de jour (1967, Luis Buñuel)

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Ocaso: Capitólio não resistiu às mudanças do público

com giros entre as vitrines e paradas estratégicas e saborosas nas bem-instaladas praças de alimentação. Numa época em que cada vez mais a população deslocava-se em automóveis próprios, a oferta de estacionamento farto também seduzia. Mas, sobretudo, a onda crescente de violência urbana empurrou o público para a segurança dos shoppings. Era um fenômeno nacional, que também se verificava em outras partes do mundo, e Porto Alegre acompanhava essa tendência. Os cinemas ficaram menores, ganharam em conforto e em qualidade de exibição. Atraíram de volta o público que deles havia em parte se afastado durante os anos 1980. Mas perderam o charme das antigas salas de calçada. O Capitólio não resistiu a esse novo momento. Havia algum tempo, rendera-se ao desinteresse do público pelas salas tradicionais e exibia apenas filmes de sexo explícito. O sexo introduzira-se no cinema devagar, de forma implícita e artística, como no filme Os amantes (Les amants, 1958, Louis Malle), exibido em 1962 e logo vetado pela censura, ou, já mais evidente, no clássico Belle de jour (1967, Luis Buñuel), com Catherine Deneuve. Estes foram marcos do erotismo artístico no cinema. Com o tempo, consolidou-se um outro gênero: a pornografia. Nos anos 1980, a pornografia já se disseminara, constituindo-se em recurso de desespero dos exibidores com salas de calçada, que enfrentavam uma crise cada vez maior de afluência de público para o cinema mais artístico.

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As sessões eram contínuas, a partir das 13h30min. Depois dos anos de glória, a pornografia explicitava a extensão da decadência e do desprestígio que se abatera sobre a antiga sala. O fim do contrato com a Fama Filmes e a devolução do prédio aos seus proprietários precipitaram a crise final. A Prefeitura vinha ainda cobrando obras de segurança que os permissionários não tinham condições de realizar, ameaçando com a cassação da licença de funcionamento. O Cine-Theatro Capitólio foi fechado em 30 de junho de 1994. Aproximadamente na mesma época, fechavam as portas outros ícones dos cinemas de calçada de Porto Alegre, como o São João, no Bairro Centro, e o Marrocos, no Bairro Menino Deus. Em 1965, a cidade tinha 33 salas, todas de calçada. Em 1985, das 22 salas em atividade na Capital, apenas uma localizava-se em um centro comercial. Em 1995, dos 36 cinemas em operação, 13 ainda eram de calçada. Em agosto de 2005, quando funcionavam em Porto Alegre 59 cinemas, o que representa uma média de 1 para cada 24 mil pessoas, a mais alta no País, fecharam-se as últimas duas salas de calçada de Porto Alegre: o Imperial e o Guarany. Era o fim de uma era. Mas o início, também, de uma nova vida. Se não para todos os cinemas de calçada, pelo menos para um dos mais tradicionais e queridos da cidade, o Capitólio, como se verá no decorrer deste livro.

Arquitetura: detalhes da fachada do prédio

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2ª p a r t e


Os primeiros passos para o renascimento Mecanismo que possibilita a troca de áreas dentro do perímetro urbano, previsto no Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (1º PDDU), que entrou em vigor em 21 de julho de 1979. O plano atualmente em vigor na cidade é a Lei Complementar 434/99 (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Ambiental – PDDUA).

Em 1995, reconhecendo seu valor histórico e afetivo, a Prefeitura tombou o prédio do antigo Cine-Theatro Capitólio como patrimônio cultural de Porto Alegre, por meio da Lei 365/ 95. Nesse mesmo ano, o município adquiriu o prédio da família Faillace, valendo-se de uma permuta de índices de construção. Para se entender a importância dessa ação, é fundamental contextualizar o cenário da época. Na década de 1990, a Prefeitura de Porto Alegre e o Governo do Estado iniciaram uma ampla política de revitalização da área central, focada na re-urbanização de praças e passeios públicos. Além de aumentar a segurança dos cidadãos, o objetivo era disseminar centros culturais por toda a região, resgatando a vida artística do Centro da Capital.

Adquirido pelo Governo do Estado em 1982, no ano seguinte o Majestic foi arrolado como prédio de valor histórico e iniciada sua transformação em Casa de Cultura.

Dessa forma, a recuperação do Capitólio se inseria nesse movimento de resgate, cujo marco se deu, em 1990, com a inauguração da Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ), que passou a abrigar um dos mais completos centros de cultura do Brasil e da América Latina. Em 1993,

O Solar dos Câmara foi tombado como Patrimônio Histórico Nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1963.

o Solar dos Câmara, aristocrático casarão colonial que desde 1988 possui um espaço cultural, foi restaurado por meio de uma iniciativa da Assembléia Legislativa do Estado. Três anos mais tarde, em 1996, um convênio entre os governos federal e estadual possibilitou a criação do

O antigo prédio dos Correios e Telégrafos foi construído entre os anos de 1910 e 1914, e tombado em 1980 pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Fundado em 27 de julho de 1954 pelo artista paulista e professor Ado Malagoli, na época radicado no sul do Brasil, o museu, que é o maior do Estado e um dos mais importantes do país, desde 1978 ocupa o prédio localizado na Praça da Alfândega.

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Memorial do Rio Grande do Sul. Trata-se de um centro histórico no qual estão reunidos objetos, mapas, gravuras, fotos, livros, imagens iconográficas e depoimentos sobre os principais fatos do Rio Grande do Sul. Ainda em 1996, iniciaram-se as obras de restauração do Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (Margs), por meio do patrocínio do Governo do Estado e do Ministério da Cultura. Concluída um ano depois, a iniciativa possibilitou que o museu passasse a receber grandes exposições a partir de 1999. No início da década seguinte, outros dois


Prédio antes da reforma: plano de recuperar o Capitólio se inseria em um projeto de valorização do Centro da cidade

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O edifício-sede do Santander Cultural, tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico estadual, foi construído em estilo neoclássico entre os anos 1927 e 1932. A restauração foi patrocinada pelo Santander Banespa. O antigo prédio Força e Luz, construído entre os anos de 1926 e 1928, foi tombado em 1994 pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do RS. A reciclagem do local foi patrocinada pela Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) por meio da Lei de Incentivo à Cultura.

espaços foram incorporados ao panorama cultural de Porto Alegre. Em 2001, no local onde ficava a sede dos bancos Nacional do Comércio e Sul Brasileiro, nasceu o Santander Cultural. Após uma reforma, o prédio passou a contar com galeria de arte, espaços para shows e palestras, além de cinema. Em 2002, foi criado o Centro Cultural CEEE Erico Verissimo (CCCEV), que conta com espaços para exposições e eventos, e ainda abriga o Memorial Erico Verissimo e o Museu da Eletricidade do Rio Grande do Sul. Em decorrência da criação de novos centros históricos e culturais, a região reencontrou a sua vocação cultural. O Capitólio, mais do que se somar, vem a engrandecer esse conjunto de iniciativas, como veremos ao longo deste capítulo.

Mais detalhes do prédio antes da reforma: meta era incluir o Capitólio no resgate da região

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Capitólio degradado: Sesc/RS capitaneou a primeira tentativa de revitalização

Parceria inicial Após o tombamento do prédio do Capitólio, um convênio entre a Prefeitura de Porto Alegre e o Serviço Social do Comércio do Rio Grande do Sul (Sesc/RS) permitiu o desenho de um projeto de restauração para o antigo cinema. A entidade, que financiaria as obras orçadas em R$ 5 milhões, ficaria responsável pela administração do espaço por 50 anos. A intenção era construir duas salas de exibição, uma com 300 lugares, que preservaria também o palco original para apresentações teatrais, e outra com 350 lugares, equipada com sistemas multimídia. Durante um mês, o Sesc/RS realizou atividades teatrais e musicais no prédio, para celebrar a assinatura do acordo. Desse modo, resgatava também um pouco do espírito mambembe que caracterizou os primeiros anos do cinema em Porto Alegre. A construção foi cercada por tapumes. Ganhou uma placa. Mas assim ficou. As obras não decolaram. O Sesc teve dificuldades de mobilizar recursos para enfrentar o desafio e conseguiu apenas realizar trabalhos de prospecção no solo. Em 1999, após sucessivos adiamentos, o prazo dado ao Sesc para a restauração expirou. O bem foi devolvido ao município. Naufragava, assim, a primeira tentativa de restauração do Capitólio.

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Mobilização da comunidade Depois desse período, o prédio passou por um intenso processo de degradação, tendo sido invadido por ratos, cupins e morcegos. Os novos habitantes passaram a infestar a vizinhança. Em dezembro de 2000, a queda de parte do telhado do prédio fez com que o até então incipiente movimento pró-restauração existente, capitaneado por moradores e comerciantes do entorno, ganhasse dimensões muito maiores. O resultado foi a criação, em setembro do ano seguinte, da Associação dos Amigos do Cinema Capitólio (AAMICA), a qual passou a lutar pela restauração do prédio. Para se ter noção da acolhida que a idéia de transformar o espaço em um centro cultural teve entre a população, basta dizer que em apenas uma semana um abaixo-assinado organizado pela Associação recebeu 1,2 mil assinaturas. Munida do apoio da comunidade, a AAMICA procurou a Prefeitura para estabelecer uma parceria. Dessa forma, por intermédio da Secretaria Municipal da Cultura (SMC), começava a se esboçar um projeto para a revitalização do local. A fim de garantir a manutenção do prédio, em 2001, a Prefeitura executou, de modo emergencial, a recuperação do telhado. Entre fevereiro e abril do mesmo ano, foram feitos a substituição da cobertura e o escoramento do prédio, em uma área de 448 m2. Em uma segunda etapa, o poder municipal realizou intervenções na entrada de energia, drenagem, demolições, estruturas de concreto e Implantado em 1989 em Porto Alegre, o Orçamento Participativo (OP) é um processo pelo qual a população decide, de forma direta, a aplicação dos recursos em obras e serviços que serão executados pela administração municipal.

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limpeza. Os recursos utilizados foram originados do Orçamento Participativo (OP) do município. No entanto, essas eram medidas meramente paliativas. Ainda levariam alguns anos para que o antigo Cine-Theatro redescobrisse sua verdadeira vocação e voltasse a ser uma referência cultural para os porto-alegrenses.


EmergĂŞncia: queda de parte do telhado motivou a comunidade a buscar parcerias com o poder pĂşblico

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O ponto de partida da Cinemateca O cinema brasileiro feito no Rio Grande do Sul já deu mostras de vitalidade nas áreas de criação, produção, diálogo com o mercado e organização institucional. Faltava uma iniciativa forte e duradoura no setor de acervo e pesquisa. A Cinemateca Capitólio é o elo que faltava no audiovisual gaúcho. Giba Assis Brasil Presidente da Fundacine (gestão 2003/2005)

Para entender os bastidores da criação da Cinemateca, é indispensável contextualizar o ambiente audiovisual gaúcho. Assim como o plano de resgatar o antigo Cine-Theatro era um desejo da população, a implantação de uma cinemateca no Estado era um anseio antigo da classe cinematográfica. Com uma produção intensa, que coloca o Estado como o primeiro pólo do País fora do eixo Rio-São Paulo, o Rio Grande do Sul não contava com uma estrutura adequada para preservar sua memória fílmica e documental. O resultado é que, fora raras iniciativas individuais de prospecção de filmes realizadas por cineastas como Antonio Jesus Pfeil e Glênio Póvoas, a maior parte do material se encontra dispersa em produtoras, instituições públicas e arquivos domésticos, o que inviabiliza a exibição e a pesquisa por parte de profissionais da área e do público. E o pior: muitas vezes, os filmes ficam acondicionados em locais sem as condições de temperatura, umidade e luminosidade necessárias para a conservação, colocando em risco as características físico-químicas das películas. Por isso, reunir esse acervo que compõe parte da história do cinema em um único lugar, com a infra-estrutura técnica

ASSIM COMO O PLANO DE RESGATAR O ESPAÇO DO CINE-THEATRO ERA UM DESEJO DA POPULAÇÃO, A CRIAÇÃO DE UMA CINEMATECA NO RIO GRANDE DO SUL ERA MAIS DO QUE UM ANSEIO ANTIGO DA CLASSE CINEMATOGRÁFICA GAÚCHA, ERA UMA NECESSIDADE.

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adequada, representava, ao mesmo tempo, um sonho e um desafio, dada a complexidade do empreendimento. Por muitos anos, diversas discussões na busca da criação

Capitólio: revitalização do espaço foi ao encontro da proposta de criação de uma cinemateca

de uma cinemateca foram travadas dentro e fora das entidades, em especial dentro da Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos do Rio Grande do Sul (APTC/RS). Era preciso encontrar um espaço para a memória do audiovisual gaúcho. Em outubro de 2002, durante o Fórum Gaúcho de Cinema, realizado em Porto Alegre pela Fundacine (Fundação Cinema RS), com o apoio da APTC/RS, a necessidade da criação de uma cinemateca voltou à pauta de forma mais consistente, embalada pelo importante momento pelo qual passava o setor audiovisual gaúcho e brasileiro. No encontro, que reuniu entidades, produtoras e realizadores, foi retomada a discussão sobre um projeto que englobasse o resgate da produção local. A iniciativa reaqueceu o sonho de se criar uma cinemateca e deu origem a um grupo de trabalho

Vamos guardar nossa imaginação para os filmes do futuro. Liliana Sulzbach Cineasta 59


informal, composto por representantes da Fundacine e da APTC/RS e por profissionais da área interessados em levar o plano adiante. Como decorrência das discussões desse grupo, surgiu a idéia de aproveitar o prédio do Cine-Theatro Capitólio, adquirido pelo município alguns anos antes, para instalar o espaço de preservação. Nascia ali a semente da futura Cinemateca Capitólio. Criada em 1989, tem como função cuidar das políticas para a área do audiovisual, em especial no que diz respeito a projetos nas áreas de recuperação, preservação e divulgação da memória do cinema gaúcho.

No primeiro semestre de 2003, a Fundacine e a APTC/RS apresentaram à Prefeitura de Porto Alegre a proposta de transformar o antigo cinema em uma cinemateca. O projeto foi acolhido pela Prefeitura, que o passou ao encargo da Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia (CCVF), da Secretaria Municipal da Cultura (SMC).

Prefeitura e Fundacine firmam convênio Em 2003, foi dado mais um passo importante rumo à consolidação do projeto da cinemateca, que já contava com apoio da AAMICA. Responsável por coordenar os esforços de implantação e fomento da indústria cinematográfica gaúcha, a Fundacine firmou, em novembro do mesmo ano, um convênio com a Prefeitura para o fortalecimento da iniciativa. Para a Fundacine, a parceria representou uma oportunidade ímpar de aliar as preocupações da categoria à necessidade de implementar políticas e estratégias dirigidas à preservação e difusão da memória e do acervo audiovisual do Estado. Desse modo, por meio de um acordo inédito que envolveu três atores (AAMICA, Fundacine e Prefeitura), foi dado o empurrão que faltava para que, após quase uma década de abandono, o Capitólio voltasse a ser um espaço de cultura, Esforço conjunto: Prefeitura, Fundacine e AAMICA uniram forças para criar a Cinemateca

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memória e entretenimento. Enfim, o sonho de resgatar o Capitólio começava a se transformar em realidade.


Novo projeto de reestruturação Após a oficialização do convênio Fundacine-Prefeitura, foi elaborado um novo projeto de restauração e de adaptação do antigo prédio para a instalação da cinemateca, assinado pelos arquitetos gaúchos Marcelo Fernandez e Telmo Stensmann. A iniciativa, que preservou as características arquitetônicas originais, teve a supervisão da equipe do Patrimônio Histórico e Cultural da Secretaria Municipal da Cultura (SMC) e do Escritório de Projetos e Obras da

Lançamento: proposta foi apresentada à população portoalegrense em 2004

Secretaria Municipal de Obras e Viação (SMOV). Além do espaço para a conservação do acervo, o plano previa a instalação de áreas de convivência para o público. A proposta foi submetida à Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Roaunet), do Ministério da Cultura, e aprovada integralmente, tendo sido contemplada com patrocínio da Petrobras em 2003. Por meio desse mecanismo de fomento, a estatal se comprometeu a investir R$ 4,1 milhões na restauração, dentro de um orçamento total de R$ 5,6 milhões. Em outubro de 2004, a Fundacine, a SMC, a AAMICA e a Petrobras organizaram um evento para apresentar o projeto arquitetônico da Cinemateca Capitólio à comunidade gaúcha. O local, é claro, não poderia ser outro. A apresentação aconteceu nas ruínas do prédio do antigo Cine-Theatro e contou com intervenções cênicas do grupo teatral porto-alegrense Falos & Stercus, além da exibição do curta-metragem Moviola (2004, Glênio Póvoas), editado com trechos de filmes de arquivo. Na ocasião, também foram ratificados os convênios firmados entre a Fundacine, a Prefeitura de Porto Alegre e a Cinemateca Brasileira, com o objetivo de consolidar os compromissos de cooperação técnica entre as instituições.

A implantação da Cinemateca Capitólio é vital para a memória cultural do RS. Ela representa um capítulo novo na busca de uma recuperação sistemática de nossos acervos audiovisuais. Beto Rodrigues Realizador e produtor audiovisual, presidente do Sindicato da Indústria Audiovisual do RS 61


Cobertura: iniciativa ganhou atenção da imprensa gaúcha

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O acordo prevê orientações sobre técnicas de acervo e tratamento para restauração das películas, vídeos e materiais documentais, como cartazes e revistas. çA iniciativa também inclui a salvaguarda das matrizes (negativos dos filmes) na Cinemateca Brasileira, uma vez que o Capitólio foi projetado para armazenar apenas as cópias das obras em seu acervo. Fundada em 1946, a Cinemateca Brasileira é responsável pela preservação da produção audiovisual nacional, sendo referência na América Latina. O País conta ainda com

Criado em 1938, o órgão congrega as cinematecas do mundo todo, viabilizando intercâmbios institucionais.

outras duas cinematecas: a do Museu de Arte Moderna (RJ) e a de Curitiba (PR), criadas em 1957 e 1975, respectivamente. As cinematecas em atividade, assim como o projeto do Capitólio, seguem os padrões internacionais de acervos de filmes da Federação Internacional de Arquivos de Filmes (FIAF), que se referem ao controle de umidade, temperatura e luminosidade necessários para a conservação.

Início das obras No segundo semestre de 2005, durante a gestão do presidente Giba Assis Brasil na Fundacine, começaram as obras de readequação do prédio do Capitólio, com quatro andares e 1,7 mil metros quadrados. Na primeira etapa, concluída em janeiro de 2006, foram realizadas demolições e serviços no telhado e na estrutura, entre outros. A segunda etapa incluiu acabamentos, instalação elétrica, instalação de equipamentos contra incêndio, pintura, iluminação, entre outras ações. Essa etapa foi concluída em novembro do mesmo ano.

É muito triste ver uma sala de cinema fechar, como aconteceu com tantas salas de Porto Alegre. Por isso, é muito bom ver que uma dessas salas renasce com a nobre função de ser uma cinemateca. Um prédio antigo recuperado para abrigar filmes antigos (ou não tão antigos assim) restaurados. Longa vida à nova existência do Capitólio. Carlos Gerbase Cineasta 63


Obras - 1ª etapa

trocar

Fase 1: foram executados serviços no telhado, na estrutura, além de demolições, entre outros

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Obras - 2ª etapa

Fase 2: incluiu, entre outras ações, acabamentos, instalação elétrica, pintura e iluminação

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Obras – Visitas Apoio: Manoel Rangel, diretor-presidente da Agência Nacional de Cinema (ao centro, de terno), esteve no Capitólio em 2007

Visita às instalações do Capitólio (2005): Lorena Martins, Zelinda Soares, Bernardo José de Souza, Giba Assis Brasil, João Guilherme Barone, Marta Machado, Cícero Aragon e Carlos Engels

Parceiros: Giba Assis Brasil, expresidente da Fundacine, Bernardo de Souza, coordenador da CCVF, Cícero Aragon, presidente da Fundacine, e José de Jesus, presidente da AAMICA, no encerramento da segunda fase (2006)

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Grupo de trabalho articulou ações

Cinemateca Brasileira: intercâmbio com a instituição paulista foi vital para embasar a atuação da equipe

Paralelamente ao desenvolvimento do projeto e anteriormente ao início das obras, a Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia (CCVF) instituiu, por meio de portaria administrativa, um grupo de trabalho que passou a se reunir regularmente a partir de setembro de 2003 na sede da CCVF. O grupo foi responsável por fomentar iniciativas para embasar o funcionamento da futura cinemateca, o que incluiu uma política de prospecção de filmes para compor o acervo e a articulação de parcerias importantes, como a já citada com a Cinemateca Brasileira.

O grupo de trabalho foi formado por Glênio Póvoas, Beatriz Barcellos, Angélica Santos e Marcus Mello, representando a CCVF; Débora Peters, Paulo Zílio e Cláudio Santana, então produtor executivo do projeto, da Fundacine. Também participaram dos encontros Jaime Rodrigues, representando a AAMICA, e o arquiteto Marcelo Fernandez, responsável pelo projeto arquitetônico.

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Entre as iniciativas orquestradas pela equipe ao longo do período em que o projeto foi desenvolvido, esteve a vinda do curador de acervo da Cinemateca Brasileira, Carlos Roberto de Souza, para um seminário interno realizado em Porto Alegre de 14 a 16 de outubro de 2003. O objetivo foi Ação: divulgação do projeto no Festival de Cinema de Gramado (2006). Ao centro, o cineasta Nelson Pereira dos Santos

aproximar o grupo do universo das cinematecas e estreitar os laços entre as instituições gaúcha e paulista. Em novembro de 2005, época em que as obras da Cinemateca Capitólio já estavam em andamento, a técnica em preservação da Cinemateca Brasileira, Fernanda Coelho, também veio à cidade para acompanhar e prestar consultoria técnica ao projeto a convite do grupo. No mesmo ano, também ocorreram outras iniciativas que visavam preparar o terreno para o estabelecimento de

Os Processos do Cinema: (acima) debate sobre Terra em transe (1967, Glauber Rocha) no Cine Santander Cultural, com Manuel Martinez Carril (E) e Glênio Póvoas. Ao lado, outra atividade do seminário

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dinâmicas e de rotinas essenciais para garantir o funcionamento da Cinemateca. Exemplo desse esforço continuado foi a realização do seminário Os Processos do Cinema, organizado em conjunto pela Fundacine e pela Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia (CCVF) da Prefeitura de Porto Alegre, no final de 2005. O evento contou com as presenças do diretor da Cinemateca Uruguaya, Manuel Martinez Carril, e do curador-adjunto e conservador-chefe da Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, Hernani Heffner, entre outros. Em 2006, no período de 30 de janeiro a 10 de fevereiro, membros da equipe responsável pelo acervo do Capitólio foram convidados pela Cinemateca Brasileira para fazerem estágios no setor de preservação e catalogação da entidade. Nesse mesmo ano, os integrantes do grupo participaram do 62º Congresso Internacional da Federação Internacional de Arquivos de Filmes (FIAF), realizado na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. O objetivo foi reunir informações sobre como catalogar a produção cinematográfica do Rio Grande do Sul, item fundamental para estruturar o acervo do Capitólio.

Trabalhamos muitos anos para consolidar o RS como terceiro pólo de produção de conteúdos para cinema e televisão do País. Temos uma cinematografia que faz sua riqueza da diversidade de temas e estilos que marcam a nossa produção. A Cinemateca Capitólio, ao preservar nossos filmes e difundir o trabalho de todos aqueles que contribuem para este projeto vitorioso, vai ser o grande templo do cinema gaúcho. Henrique de Freitas Lima Cineasta

A recuperação do Capitólio foi um esforço muito grande da Fundacine e da comunidade cinematográfica gaúcha na tentativa de se ter um espaço de preservação da memória audiovisual do Estado. Só pelo fato de reunir essa memória, que está dispersa em vários outros ambientes, já justifica o esforço. Sem contar que vai ser um lugar de exibições também. Para a APTC, é muito importante estar envolvida nesse processo. Marta Machado Presidente da Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos do RS (gestão 2005/2007)

FIAF: Representantes de cinematecas da América Latina em reunião da Coordinadora Latinoamericana de Archivos de Imágenes en Movimiento

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A Cinemateca Capitólio

Novo Capitólio: projeto une preservação das características arquitetônicas e modernidade

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Criado com a missão de prospectar, preservar, proteger e promover a memória do audiovisual gaúcho e brasileiro, o projeto da Cinemateca Capitólio une passado, presente e futuro. Esse compromisso está presente nos detalhes, como na arquitetura que preserva os padrões originais do prédio com influência açoriana e colonial, aliando inovação técnica e qualidade dos espaços, sem desprezar a história que deu alma e caráter ao antigo Cine-Theatro. Para isso, o projeto terá sala de cinema com 188 lugares, equipada com projetores digitais de 35mm, 16mm e de vídeo. Também possui cinco salas de projeção multimídia – uma com 42 lugares e outras quatro microssalas, com três a cinco assentos. E o mais importante: disporá de salas especialmente climatizadas para o acervamento de obras em película e de material analógico e digital, seguindo as exigências técnicas que garantem a longevidade de cada suporte armazenado. O local também contemplará biblioteca especializada, café e um espaço de exposições com mostras permanentes e temporárias de cartazes de filmes e de

O aumento da produção de cinema no Rio Grande do Sul, assim como o rico acervo existente no Estado, requer uma cinemateca capaz de armazenar, organizar e catalogar essas obras. Sabemos que a história audiovisual comumente se perde no esquecimento e em arquivos inadequados após alguns anos. Tão importante quanto produzir filmes é saber preservá-los. Monica Schmiedt Produtora e diretora

outros materiais relacionados à história do cinema.

Estrutura A Cinemateca Capitólio, que contará com espaços e equipamentos específicos, baseia a sua atuação em três eixos: acervo audiovisual e documental; pesquisa e informação, e exibição, formação de público e difusão. Acervo audiovisual e documental Com base no seu Programa de Formação de Acervo, a Cinemateca montou um arquivo de obras audiovisuais e documentos iconográficos. A finalidade é constituir uma

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coleção com a produção audiovisual gaúcha na sua integralidade e reunir ainda as obras de referência da cinematografia brasileira e mundial. O Arquivo será o setor responsável pelo atendimento das políticas de aquisição, catalogação, duplicação, preservação e manutenção das obras, conforme as normas técnicas recomendadas pela Federação Internacional dos Arquivos de Filmes (FIAF). Estrutura: biblioteca especializada (acima) e área de convivência

Pesquisa e informação Mais do que guardar cópias ou exibir filmes, a função da Cinemateca Capitólio será proporcionar a convergência de informações sobre a produção audiovisual – cinema, tevê e outras mídias –, especialmente a gaúcha. O Arquivo do Capitólio e os acervos públicos e particulares que não

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estejam aí depositados deverão ser integrados por um Banco de Dados, que permita aos interessados conhecer a produção audiovisual gaúcha, localização e condição das obras, história, conteúdo, equipe e forma de produção. Esse eixo de intervenção está baseado numa biblioteca especializada em audiovisual e desenvolverá linhas de pesquisa com programas de bolsas e de publicações.

Exibição, formação de público e difusão A Cinemateca Capitólio disporá de uma sala de cinema com 188 lugares, sala multimídia com 42 lugares, quatro cabines multimídia para grupos de 3 a 5 usuários, duas

Sala principal (acima) e sala multimídia: capacidade para grandes e pequenos grupos

salas de uso múltiplo, espaços para exposições e área de convivência integrada com as funções do prédio. Essa

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O projeto da Cinemateca é bem-vindo. É fundamental que se tenha um acervo com os filmes do Rio Grande Sul, resgatando a história e a produção ‘gaudéria’ dos anos 1980. O cinema do Sul tem uma grande importância no cenário nacional. Otto Guerra Cineasta

relação de espaços responde pelos programas de contato mais próximo com a população, formação de públicos para o cinema, divulgação das novas produções gaúchas e brasileiras, aferição de opiniões e impressões sobre as obras, exposição dos processos e elementos de produção. A relação com a comunidade do entorno tem destaque especial nesse eixo, como público a ser cativado não apenas por ações de valorização do prédio, sua história e posição na cidade, mas também por projetos de integração com a economia local.

Vista do foyer: espaços amplos e com boa circulação

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Objetivos da Cinemateca Promover a preservação da memória audiovisual gaúcha, obras e crítica, e priorizar a produção audiovisual brasileira nos projetos de exibição Propor a preservação do patrimônio cultural como atividade de interesse público aliada às políticas de desenvolvimento econômico, como as do setor de produção audiovisual e do turismo Fomentar uma relação comunitária e integradora com as instituições, cidadãos, empresas, articuladas com a programação cultural da Cinemateca Valorizar o produto cultural brasileiro, em especial o audiovisual, defender e participar dos planos de desenvolvimento da indústria audiovisual gaúcha promovidos pelas entidades representativas do setor, oferecendo espaços para a exibição audiovisual voltados para a formação de públicos e caracterizados pela inovação tecnológica Incentivar a utilização de recursos e tecnologias audiovisuais nas atividades educacionais, divulgar as linguagens do cinema, da televisão e da internet nos programas regulares de ensino fundamental, valorizando a popularização de conhecimentos, o estímulo à criação artística e a inovação estética Atuar na preservação da memória fílmica sul-riograndense, das obras e da crítica audiovisual, realizando projetos de investigação e debate sobre a produção local e de difusão dos bens audiovisuais locais Oferecer à indústria audiovisual mecanismo de aferição instantânea de opiniões e coleta de informações, vinculado à exibição audiovisual.

Era uma vez um povoado que virou cidade, chácaras que se tornaram casas, casas que deram lugar a prédios, caminhos que se transformaram em ruas, ruas que viraram um universo hostil. Era uma vez cinemas de rua, testemunhas inertes de um tempo que passou. E desses escombros, onde o novo soterra o antigo, recupera-se o Capitólio, que representa a lembrança não só de tempos passados, mas de tempos que ainda virão, preservando, recuperando, projetando e estudando no futuro os filmes que fazemos agora. Nada melhor do que a recuperação do prédio “ físico, com todo seu simbolismo, para a preservação e o resgate do cinema feito no RS, patrimônio imaterial, reflexo da nossa vivência por estas bandas, memória acumulada dos nossos Era uma vez.” Jaime Lerner Cineasta

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Para quem trabalha com cinema ou simplesmente gosta de cinema, seja como arte ou entretenimento, a inauguração de uma cinemateca já é um marco a ser comemorado. Mas, quando se trata de um projeto (realidade) como o Capitólio, tudo ganha uma dimensão especial. É um misto de resgate e, ao mesmo tempo, inserção na alma da cidade. O Cine-Theatro Capitólio foi – e volta a ser – aquele olhar obrigatório, aquela referência quando se fala sobre Porto Alegre. Paulo Nascimento Cineasta

Acervo reúne história do RS Coração da Cinemateca Capitólio, o acervo fílmico é formado por cópias de filmes em 9,5mm, 16mm e 35mm, em VHS e em DVD. Lá, estão o ciclo de Pelotas e de Porto Alegre, a produção em super 8 e os cinejornais, além da produção curta-metragista dos anos 1980 e 1990. Em evidência, encontram-se as obras de Antonio Carlos Textor, um dos realizadores mais importantes do Estado, produções marcantes da cinematografia gaúcha e nacional, como Vento Norte (1951, Salomão Scliar) e Anahy de las Missiones (1997, Sérgio Silva), obras de Teixeirinha, além de filmes da safra mais recente do cinema gaúcho. A idéia da Cinemateca não é preservar apenas as películas, mas todo o material que gira em torno da execução de um filme, como anotações pessoais, pressbooks e cartazes de produções nacionais e estrangeiras. Alguns dos destaques do acervo documental são os registros em papel (fotos, roteiros e objetos pessoais) da coleção do fotógrafo Tony Rabatoni e uma série de roteiros escritos pelo cineasta Jorge Furtado, além de coletâneas de revistas e recortes de cinema depositados pelos colecionadores Marco Antonio Bezerra Campos e Denise Baptista.

VHS: fitas nacionais e estrangeiras fazem parte do patrimônio. Na outra foto, detalhe da mesa enroladeira, utilizada para manipulação dos filmes na horizontal

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A IDÉIA DA CINEMATECA NÃO É PRESERVAR APENAS AS PELÍCULAS, MAS TODO O MATERIAL QUE GIRA EM TORNO DA PRODUÇÃO DE UM FILME, COMO ANOTAÇÕES PESSOAIS, MATERIAL DE DIVULGAÇÃO, ETC.

Materiais: cópias de filmes depositados e cartazes de produções estrangeiras

A Cinemateca Capitólio é a história do cinema gaúcho e do próprio Rio Grande perpetuada. É a concretização de décadas de luta política de quem faz cinema no Estado para tornar real o que nossos antepassados cinematográficos nos deixaram. Não só um acervo, a Cinemateca é um ponto cultural onde esse cinema poderá servir a toda a população, em um prédio histórico, localizado no centro da cidade. A Cinemateca servirá às gerações passadas, preservando a sua memória, às gerações presentes, tornando este imaginário real, e às gerações futuras, construindo um conteúdo audiovisual e histórico. Gustavo Spolidoro Diretor e um dos organizadores do CineEsquemaNovo 77


Acervo do CineEsquemaNovo: mais de dois mil filmes foram depositados na Cinemateca

Integram o patrimônio do Capitólio filmes comprados pela Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia (CCVF) e cópias de filmes dados como contrapartida pelos realizadores ao

O Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre foi criado pela Lei 7.328/93 e regulamentado pelo Decreto 10.867/93. Tem como finalidade estimular a produção cultural da cidade de Porto Alegre, prestando apoio financeiro em até 80% do custo de projetos de natureza artística.

Fumproarte, assim como dezenas de materiais analógicos e digitais depositados por produtoras e realizadores, interessados em contribuir para a preservação da memória audiovisual. Exemplo disso aconteceu em junho de 2006, quando os mais de dois mil filmes inscritos nas três edições do CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre foram repassados à CCVF. A partir deste acordo, todos os materiais recebidos nas próximas edições do Festival serão repassados à Cinemateca, que irá gerenciar a guarda das obras.

Acervos domésticos Outro ponto importante são os acervos domésticos, que revelam um olhar não-oficial da vida pública e privada e têm sido cada vez mais valorizados e incorporados às cinematografias mundiais. Com a finalidade de resgatar essas películas, as quais muitas vezes apresentam condições físico-químicas precárias, a Cinemateca Capitólio

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vem realizando um intenso trabalho de prospecção junto à comunidade gaúcha, obtendo resultados bastante positivos. Atualmente, a instituição é responsável pela salvaguarda de materiais em 9,5mm e 16mm depositados por diversas famílias de Porto Alegre (Hengist, Hochheim, Gerbase, Duarte, Moreira e Engel). Muitos desses cineastas locais enveredaram pela ficção vinculados (mas não necessariamente) ao Foto-cine Clube Gaúcho (FCG), entidade que reunia cineastas amadores desde 1950. Dos lotes de filmes, há preciosidades, como o curta Passos na madrugada (1950), com o ator e diretor Alberto Ruschel. Também constam produções realizadas pelo dentista Bruno Hochheim. Associado ao FCG, Hochheim produziu

Memória viva: imagens da enchente em Porto Alegre (acima) e da passagem do Zeppelin pela Capital, ambas de 1941

dezenas de ficções exibidas em concursos da entidade e do Foto Cine Clube Bandeirante, clube de fotografia fundado em São Paulo no ano de 1939, tendo sido premiado muitas vezes. Além das imagens que revelam aspectos da vida privada brasileira, os acervos ainda contemplam outros registros da vida pública – como a enchente em Porto Alegre e a passagem do Zeppelin pela cidade, ambas em 1941, ou a inauguração do estádio do Grêmio, em 1954.

Curiosidade No Brasil, as imagens em movimento mais antigas preservadas fazem parte de um filme doméstico intitulado Reminiscências, que registra o cotidiano da família do coronel Antonio Junqueira, em Belo Horizonte (MG), entre 1909 e início dos anos 1920. Outros filmes domésticos remanescentes são A exma. Família Bueno Brandão, em Belo

Estamos construindo o espaço para os filmes e as histórias do cinema gaúcho. Glênio Póvoas Professor e pesquisador de cinema (PUCRS)

Horizonte, no dia 11 de julho de 1913 (1913) e Em família – Reminiscências do passado (1914). Essas películas encontram-se salvaguardadas na Cinemateca Brasileira (SP).

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Conclusão A revitalização do antigo Cine-Theatro, por meio do projeto da Cinemateca Capitólio, devolve um importante espaço cultural para Porto Alegre e para o Rio Grande do Sul. Com a finalização das obras de restauração em 2006, o prédio do Capitólio, que faz parte da história do cinema brasileiro, foi reintegrado ao cotidiano da Capital. Em 2007, o projeto entra em sua terceira e última etapa (aquisição e instalação de equipamentos). Quando estiver inteiramente pronta, a Cinemateca concentrará atividades voltadas à valorização da crítica, coleta de informações sobre os públicos e preservação de acervos fílmicos, além da difusão de filmes com a finalidade de formar novos públicos. Nesse contexto, a Cinemateca Capitólio se firma como uma iniciativa fundamental no que se refere à consolidação da cultura cinematográfica do Rio Grande do Sul, lembrando que o Estado é o mais importante pólo produtor de obras fora

A correta preservação e, principalmente, a possibilidade de acesso à sua produção cultural são importantes conquistas de qualquer sociedade. A Cinemateca Capitólio é um marco na história do cinema brasileiro feito no Rio Grande do Sul. Temos que preservar porque temos o que preservar. Jorge Furtado Cineasta 80

de Rio de Janeiro e São Paulo. O projeto, fruto de uma parceria entre a Fundacine, a Prefeitura Municipal e a AAMICA, é resultado do desenvolvimento do setor audiovisual do Estado. E mais: também se constitui como um mecanismo essencial para o diálogo (sobre o fazer cinema) e para a renovação constante da produção gaúcha. Afinal, para difundir é preciso preservar.


BIBLIOGRAFIA Bibliografia Consultada BORDAT, F. & ETCHEVERRY, M. Cent ans d’aller au cinema. Rennes: Presses Universitaires de Rennes, 1995. DAMASCENO, Athos. Colóquios com a minha cidade. Porto Alegre: Globo, 1974. FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. Porto Alegre: Ed. da Universidade-UFRGS, 1992. GASTAL, Susana. “Salas de cinema: a cultura entre o lazer e o prazer”. AXT, Gunter; SCHÜLLER, Fernando (org). 4 X Brasil. Itinerários da Cultura Brasileira. Porto Alegre: Artes & Ofícios, 2005. História Ilustrada de Porto Alegre. Porto Alegre: Edição CEEE, 1997. PFEIL, Antonio Jesus. “Eduardo Hirtz, o pioneiro”. Filme Cultura, ano 8, n.25, 1974. PFEIL, Antonio Jesus. Cinematógrafo e o cinema dos pioneiros. In: BECKER, Tuio (org). Cinema no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Unidade Editorial, 1995. Cadernos Porto & Vírgula, 8. SCHVARZMAN, Sheila. “Ir ao cinema em São Paulo nos anos 20”. Revista Brasileira de História, ANPUH, v.25, n.49, jan-jun 2005, p.153-174.

Fontes Pesquisadas Diário de Notícias, 12 de outubro de 1928, p.10. Correio do Povo, 12 de outubro de 1928, p.10. A Federação, 21 de dezembro de 1928. A Federação, 1º de janeiro de 1929, p.15. A Federação, 8 de fevereiro de 1929, p.2. Diário de Notícias, 6 de fevereiro de 1935, p.10. Zero Hora, 5 de março de 1988. Zero Hora, 30 de junho de 1994, Segundo Caderno, p.7. Zero Hora, 8 de junho de 2000, Geral, Patrimônio, p.67. Zero Hora, 9 de agosto de 2005, Segundo Caderno. Arquivos Consultados Arquivo Histórico Municipal de Porto Alegre Arquivo da Câmara Municipal de Porto Alegre Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa

SIMÕES, Inimá. Salas de cinema em São Paulo. São Paulo: SMC, 1990. SPALDING, Walter. Pequena história de Porto Alegre. Porto Alegre: Sulina, 1967.

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Agradecimentos

O projeto da Cinemateca Capitólio vai ao encontro da missão da Fundação Cinema RS, que tem como

Confiantes de que, em breve, iniciaremos e

propósitos a criação de mecanismos de fomento e

concluiremos a terceira e última etapa da obra

suporte à produção cinematográfica e audiovisual,

da Cinemateca Capitólio, entregando-a em

sua distribuição e exibição, a qualificação dos agentes

operação à comunidade, agradecemos a todos

do setor, a promoção do cinema e a formação de

aqueles que contribuíram direta e indiretamente

públicos espectadores, além da preservação da

para termos chegado até aqui. De forma especial, agradecemos ao prefeito de Porto Alegre, José Fogaça; aos ex-prefeitos Tarso Genro e João Verle; ao secretário da Cultura de

memória audiovisual.

Se, até pouco tempo atrás, faltava ao Rio Grande do Sul ensino superior na área, hoje o Curso de Realização

que reúne iniciativa privada, Estado, produtores e

Audiovisual da Unisinos, o Curso Superior de Tecnologia

exibidores cinematográficos do Rio Grande do Sul,

Porto Alegre, Sérgius Gonzaga, e à secretáriaadjunta Ana Fagundes; aos ex-secretários de Cultura Margarete Moraes e Vitor Ortiz e ao exsecretário-adjunto Ricardo Lima; ao ex-secretário da Cultura do Estado Victor Hugo e sua equipe; à equipe da Cinemateca Brasileira; aos estagiários

Criada em 1998, a Fundacine é uma parceria inédita

objetivando a organização e o desenvolvimento do

em Produção Audiovisual da PUCRS e o Curso de Graduação Tecnológica em Produção Audiovisual/Cinema da ULBRA indicam que as próximas gerações de cineastas serão capazes de dar um salto de qualidade,

setor, assim como a difusão do cinema realizado no Rio Grande do Sul, em escala nacional e internacional. É resultado direto da ação política desenvolvida há duas décadas por cineastas, profissionais e

do acervo e aos funcionários da Coordenação de

em capacitação técnica e em espírito crítico. Faltava, isso

empresas do cinema, desde a criação da Associação

Cinema, Vídeo e Fotografia (CCVF) da Prefeitura

sim, ao cinema brasileiro feito no Rio Grande Sul uma

Profissional de Técnicos Cinematográficos (APTC/RS)

de Porto Alegre; às equipes do Patrimônio

iniciativa de impacto no campo da preservação da

Municipal (EPHAC), Estadual (IPHAE) e Nacional (IPHAN); às equipes do Ministério da Cultura, da

Entre as iniciativas desenvolvidas pela Fundacine,

memória audiovisual. É essa lacuna que a Cinemateca

Secretaria do Audiovisual e da Agência Nacional

Capitólio vem preencher. E este livro é o documento que

de Cinema (ANCINE); à equipe da Petrobras; aos

não poderia deixar de acompanhar uma iniciativa como

conselheiros, às entidades e à equipe da Fundacine; aos membros da Associação dos

e do Sindicato da Indústria Audiovisual (SIAV/RS).

essa. Ao mesmo tempo curriculum vitae de um prédio e

estão o Centro Tecnológico de Produção Audiovisual (CTPAv); Prêmio RGE Governo RS de Cinema; projetos de integração com a TV, como o Teledramaturgia na TVE/RS; ações de exibição e formação de público, como o RodaCine RGE, além

Amigos da Cinemateca Capitólio (AAMICA); aos

certidão de nascimento de uma instituição, essas páginas

de atividades e eventos de planejamento e debate

trabalhadores do audiovisual brasileiro produzido

constituem-se numa outra história de Porto Alegre, do seu

político sobre o setor, como o III Congresso Brasileiro

no Rio Grande do Sul; e aos arquitetos,

gosto por cinema, da vocação audiovisual de sua gente.

de Cinema.

engenheiros e às equipes envolvidas nas mais

Participam do seu Conselho Curador, em 2007, a

variadas áreas e momentos do desenvolvimento

APTC/RS, o SIAV/RS e o Sindicato das Empresas

da obra.

Exibidoras Cinematográficas; a RBS TV (emissora privada) e a TVE/RS (emissora pública); a Rio Grande

Fundacine

Energia (RGE); a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS); o Serviço Social do Comércio do Rio Grande do Sul (Sesc/RS); a Federação das Associações Comerciais e de Serviço do Rio Grande do Sul (Federasul); o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), e o Governo do Estado e a Prefeitura de Porto Alegre.


Cine Theatro Capitólio