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PERCURSO AMOROSO DE UMA Vร‚NDALA

Bรกrbara Lia


Capa: Toulouse Lautrec Contracapa _ selo da coleção _ Rosas em Ruínas _ Detalhe do desenho _ Borboleta _ de Manoel Nascimento

Dados para Catalogação Lia, Bárbara Percurso Amoroso de uma Vândala Curitiba, PR Literatura brasileira – Poesia

® direitos reservados


DARK BLUES


ANCORANDO ESTRELAS

Sonhei com Diane Fossey aquela que vivia entre orangotangos. Comprarei um peixe dourado e sorrirei para ele no café da manhã

Poetas são marinheiros, a diferença é que seus portos são estrelas e nunca ancoram no meu coração _ cais.

Aparição sonhada: Teus olhos negros na soleira. Seremos dois a sorrir para o peixe dourado.


LEQUE DE NUVENS PARA O DEUS DAS ONDAS

O leque de nuvens se reflete na areia de mรกrmore. Alento de tarde pagรฃ.

Distante, a carranca do deus das ondas escureceu o mar.

O coqueiro se eriรงa. Cais sobre mim

feito neve nos Alpes. E a tarde abraรงa o nosso abraรงo.


BRISA

Entardecer lilás brisa de raro fôlego

do deus das nuvens. Pés descalços

liberdade de estar amando na era dos mísseis.


CONCHA ROSSA

Gosto dos sonhos feito filmes. Peço aos anjos – Não me acordem! Quero pisar algas, morangos, açucenas.

Leve flanar que só o sonho alcança. Pensei haver sonhado aquele encontro e raptei concha rossa naquela praia.

Dorme no meu quarto, na orla do meu leito. Não foi sonho, foi céu real. E o céu é eterno.


VIOLETAS BRANCAS

Sigo teus passos, feito asteca, sonhando a terra eterna e rica – tua pele. Pele de diários, onde leio a lua. A maré suave que me enlaça nua, echarpe de brisa e aurora, corais gris. Adeus soledade de pedra. Paloma triste em vôo riste, ao longe. O deus-do-sol-do-meio-dia, colibri azul da era atômica, é um sopro de luz e sons. Sonhos delineados na tela fria. O mundo sangra e transforma a garça


em Ă­bis rubro. Leio um salmo antigo, acordo em manhĂŁs violetas. Tenho por companhia um pequeno vaso de violetas brancas.


NOIR


“Enamorar-se é criar uma religião cujo Deus é falível” Jorge Luis Borges

Creio no teu sorriso envolto no espírito do tabaco. Creio no teu silêncio, que só se quebra para pronunciar meu nome. Creio em teus versos lavados em minúcias e sustos. Creio na paz que se instaura em quem senta ao teu lado. Creio na morte da pequenez que teus passos aniquilam. Creio na morte,. La petite-mort que viverei em teus braços.


ORGASMOS DE ÍRIS

Teus olhos enlaçavam os meus em orgasmos de íris. Inflorescência de estrelas.

Sempre acordo antes do sol. Agora, que comecei a te amar, amanheço antes que o dia.

Espanto as Bacantes gélidas, que seguem o perfume da tua pelelírio do recomeço.


Pedras destilam a bílis e a mágoa vai vazar em áridas notas de um blues sem juízo.

As sapatilhas – talismã – azuis seguem- te em paralela senda. A dez centímetros e um véu.

O mar recua ante teu passo, estátuas vertem suor ao teu lado, dentro o sol, não te permite sombra...

... E teus olhos enlaçavam meus olhos em orgasmos de íris...


PROFANA

A cor do amor é branca, e o amor tem uma covinha do lado direito do rosto e o amor me olha como alguém que jamais vai tirar a minha calcinha e gozar o céu dentro de mim. O amor sempre vai me olhar como se eu estivesse num altar de papel. Para o amor, eu sou uma rima e rima não tem vagina. Para o amor, eu sou uma ode com uma ode ninguém fode. Eu sou um verso alexandrino jamais tocado pelo herdeiro deste nome. Eu sou a palavra, e a palavra, a palavra é Deus Deus ninguém come, mas, será que beber pode?


Pássaro bicou a paina no galho alto Repercutiu neve Caias em mim _ arco-íris branco fragmentado em setembro tons: Pele Sorriso Fumaça do cigarro Esperma Notas do violão Voz Alma


AMANTES DE AGOSTO

Gosto de agosto O algodoal menstrua sangue branco antes da primavera É preciso rasgar por dentro antes que chegue a primavera É preciso pagar o tributo _ os deuses sempre cobram Depois de cair gotas espessas brancas No chão quase negro Os algodoais serão apenas valsa Uma onda de espumas trepidantes Quem sabe um leito rústico para os amantes de agosto Quem sabe agosto faça o parto da primavera com menos pranto Sem sangue branco Apenas vento, valsa e um olhar que é só encanto


DEZ ANOTAÇÕES PARA NÃO MORRER DE AMOR - Procuro um sábio antigo tradutor de silêncios - Ouço-te como quem coloca estetoscópios nas nuvens - Você é o pintor silencioso, ama com aquele olhar do pintor holandês Vermeer - Você é uma tempestade silenciosa que molha noite e dia, dia e noite - Ando perguntando ao pó... das estrelas, qual caminho seguir para não te ferir - Curar minha síndrome de Raskólnikov de saias: perdoar meus grandes crimes e dizer que os castigos foram merecidos - Só você mesmo para virar o disco e lembrar meu nome com outra canção... - As mulheres sempre sabem para qual corpo se perfumam - E foram felizes para sempre... a gente raramente encontra na Literatura, só na vida real e na pasteurizada rotina - Aprendi a te olhar com olhos de brisa


BEIJA SUAVE MINHA NUCA! ...demorei a entender que és

mulher

e carregas outonos na nuca Luiz Felipe Leprevost

Uma pinta de beleza brotou sob o seio esquerdo Para o menino devorador de sinais de beleza Rito de oferta Olhando este corpo mascavo com digitais impressas Buscando um poro virgem para plantar a pétala E te oferecer depois _ Rosa a ser desvirginada Um dia li os versos epifânicos do amigo solar _ profeta sem saber _ Que há em mim apenas outonos para esfriar teus verões de acordes... E o amigo do amigo solar nem sabe Do mantra que repeti meses a fio A caminhar por ruas, corredores e antes de adormecer Recitando suave como prece: Beija suave minha nuca! Beija suave minha nuca! Beija suave minha nuca! De outonos adornada e a pinta recém-nata Gota do meu coração que vazou sobre a pele Ou um prêmio extra que trouxe destas noites Em que adentro oceanos estranhos a te procurar Entre as estrelas naufragadas


SHINE


CANTATA EM SOL MAIOR

Como quem clareia sonhos com o fogo de deuses desgarrados fecha-se em silêncio? Na solidão da montanha desenha a partitura que incendeia a noite das Bacantes e os orgasmos das sereias Eis o poeta: Alquimista que filtra a alma da rosa no bosque dos invisíveis


E a adormece, à distância, cantando anil ao celular uma canção de McCartney: Day afterday um homem sozinho em uma montanha. Day afterday vendo o sol se por os olhos na memória do mundo. Day afterday a voz do homem da montanha tal qual na canção

- uma centena de vozes falando claramente


L’OISEAU BLEU

There’s a bluebird in my heart that wants to get out Charles Bukowski

Três dias e três noites tento narrar nosso dia tua beleza misantropa a voz de aço e açucena. Caio prostrada e oca (vencida e sem saída) toda palavra é pouca...


Cães espalham nuvens pela sala. O passado soa mais grave que a chuva uníssona. Ancoras em meu colo abraço a aura a paz a lágrima esfumada. Lembro um pássaro azul a cortar a chuva. Um homem a cantar um rio feio e um anjo. Lembro o cheiro de Deus entre tuas carnes... e agora toda aurora arde.


RAP E BEIJA-FLORES

Diante do amor Ela arrepiou o coração: Não tenho asas Para tanto paraíso Mia Couto

Perfeita tarde: Branca rede rodas de carroças moendo o pó da paisagem/ passado. De macacão jeans o jardineiro de estrelas e pastor de pássaros que dançam no verde vazio


da Serra do Mar... ...me aquece. Ele e os 200 olhos de Deus que vazam da parede transparente. Luz divina que me beija. Como beija-flores beijam a รกgua adocicada no ritmo do rap no rรกdio.


SHINE

“meu coração é luz pai de toda cor” Caetano Veloso

O brilho dele vaza na voz que é da cor da cor No olhar de nebulosas molhadas Nas mãos que afinam o violão O brilho que ele esconde faz deter meu toque Na cicatriz pequena em suas costas Região de asas de anjos Suturada em relevo Sei que se abrir sutilmente esta pele


O brilho me cegará, sem culpa. Então, cubro com cuidado Este risco costurado, Com um beijo molhado, Neste banho partilhado, Neste encanto pontuado, Pelo que está assinalado. E para que nada desencante, Eu apenas peço para que cantes – Com sua voz que é da cor da cor.


Série RR – Rosas em Ruínas Selo 21g Livro 01: Histórias de amor duram o tempo da neve em Curitiba Livro 02: Femme! Livro 03: Percurso amoroso de uma vândala


Bárbara Lia é uma escritora brasileira. Nasceu em Assaí, norte do Paraná. Vive em Curitiba Publicou os livros: O sorriso de Leonardo (Kafka - 2.004) O sal das rosas (Lumme editor – 2.007) A última chuva (Poema, ME –MG – 2.007) Solidão Calcinada (Secretaria da Cultura / Imprensa Oficial do Paraná - 2008) Constelação de Ossos (Vidráguas 2010) Tem um pássaro cantando dentro de mim (2011) A flor dentro da árvore (2011) Paraísos de Pedra (2013)



Percurso amoroso de uma vândala - Bárbara Lia