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© 2011 Bárbara Lia Diagramação: Bárbara Lia Capa: Claude Monet

Dados para Catalogação Lia, Bárbara O sorriso de Leonardo Curitiba, PR Literatura brasileira – Poesias.

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Bรกrbara Lia

O sorriso de Leonardo


A poesia de Bárbara Lia junta um lirismo muito feminino à realidade que, todos os, dias bate à porta dos seus olhos. Poética dos homens, da terra, mas também dos sonhos onde “Para quem dorme a chuva tem / A magia do canto das sereias”. Fernando Aguiar Lisboa


CHIAR(O)SCURO

Hora suspensa. Horizonte de sangue. Despediu-se o sol, não brilha a lua. Barcas estremecem em marés de fogo. Sinos dobram a Ave-Maria. O Bem chora a evaporação do dia. Lágrimas de anjos pela humanidade crua. Encontro e fuga de almas no ocaso, Bebendo o sangue solar – poção De luz para os dias de aço. Crepúsculo incendiado. Átimo de esperança: Um Serafim alado, Flauta de estrelas flana acima de algas e corais. Toca a música divina estremecendo cristais. (Jazz, blues, salsa cubana, sinfonía) Som azul unindo sangue celeste e marinho. Serafim, flauta e sol Evaporam em silêncio de prece. A branda noite abraça o arrebol. O eco da flauta aos puros adormece.


O SORRISO DE LEONARDO

Dissecar cadáveres para buscar a perfeita anatomia. Libertar pássaros nos mercados da Itália renascentista. Beleza clara cabelos e barba emaranhados luz em desalinho. Toga cor-de-rosa levita na pele suntuosa de gênio. -inocência serenaLeonardo, in carbon, copiando a própria beleza, em sorrisos negados. Sorriso de Leonardo inauguraria um novo sol aplacaria o brilho do astro. -seu sorriso imaginado seus quadros incendiadosnos conduzem enquanto vamos dissecando o verbo com fúria encantada.


Desejo leonardiano de libertar o poema e revelar a musculatura exata de cada palavra.


LUZ DE FLORENÇA Seda púrpura acaricia pele Mãos dormente de apoiar o gesto de abandono a Eros Flores colorem o leito embalsamado dos odores de outras musas Pouso o olhar em Leonardo: Olhos claros, mão destra a copiar meus traços a toga cor-de-rosa que esconde a beleza nata. Inocência serena, barba e cabelo emaranhados de sol Luz de Florença a me perscruta Um risco. Um gesto. A mão de sábio antigo a traçar meus contornos de musa morena.


MAÕS DE ABRIR NUVENS

Ter mãos de abrir nuvens Romper o velcro de baunilha E espiar Dentro a catedral Dos sonhos Um rito de encanto Crianças e lagos E mapas emaranhados A Sexta Avenida Deságua no Eufrates E as barcas cruzam De Bagdad ao Mojave As mãos se enlaçam Negras brancas Amarelas azuis.

Ter mãos de abrir nuvens Descobrir a alma de neve E perfume Que se fazem Pássaros Camelos Bailarinas.


Quem possui mãos de abrir nuvens? Quem rega pedras E pesca pássaros Em tempestades E ancora no alto Da montanha mais alta Suas caravelas.

Quiçá Penélope, Sem manto, grilhões e espera. A abrir nuvens Além da torre de concreto Em pleno azul Entre a brancura espumada. Mãos de mulher livre A abrir o velcro Da humanidade encantada.


AVES DE ARREBENTAÇÃO

Pássaros renascentistas Libertados por Da Vinci. Invadem as minhas pálpebras Que meditam em silêncio de monja Louvam as aves Do terceiro milênio. Mão destra de Leonardo Pinta o sorriso De uma Monalisa escura A aurora ausente Do meu olhar que ele colore Com luz de Florença E sobre músculos sofridos Estriados de saudade E febre de amor Pulsa a inocência poética Das mulheres que venceram O jugo secular E cruzaram as linhas E romperam os laços E abriram os braços Aves de arrebentação A flanar entre As azaleias púrpuras E o grito ardente De libertação.


GOSTO DE CHUVA

Para a terra a chuva é doce. Para a fonte, confidente. Para a criança, bolinhos com canela, lareira, histórias. Para os sapos - uma festa! Para mim - alma lavada. Para quem dorme a chuva tem a magia do canto das sereias.


SOPRO DE DEUS

Sigo distraído e breve - piedade na alma, opulência no calabouço. Sigo sereno, neblina me abraça. Meu corpo um jarro de esperanças. O amor - única navalha que me corta. Aprendi que somos sopros de Deus - instantes.


BRISA

Entardecer lilás brisa de raro fôlego do deus das nuvens. Pés descalços liberdade de estar amando na era dos mísseis.


DEUS SORRINDO NA VARANDA

O quintal de Deus é o céu. Um paraíso em uma ilha. Alcançaremos quando formos náufragos. Aguaçal encoberto de dor, nascituro rompendo em harmonia a eternidade - Deus sorrindo na varanda.


BEM-TE-VI

Ramagem arranha janela. Sonho: Aeroporto fantasma. Espíritos de náufragos do Titanic. Ku Klux Kan ateando fogo ao enforcado. Sequência horripilante: A mulher sem olhos na cama, entre lençóis úmidos de chuva. Acordo com o bem-te-vi na manhã de sol na mesma paisagem.


BEM-TE-WHITMAN

Às seis da manhã A serenata que acorda O sol Um pássaro Transgride O vocabulário Canoro Te-vi Te-vi Te-vi E se faz Bem-te-Whitman Inaugurando nova voz Ave livre Em asas e melodia Bem-te-Whitman Acorda o meu dia Com nova rima E parceria


O sorriso de Leonardo 21 Gramas (Vol. 16) Capa – Monet 2ª edição Publicado em 2004 – pela Kafka ed. Baratas. Em formato de bolso


21 Gramas – Bárbara Lia 1. À sombra de um rio 2. Adamare 3. Até secar o sol 4. Barco de Lia no rio de Cora 5. Brincando nos campos do amor 6. Cantata Fugace 7. Chá para as borboletas 8. Cigarras no apocalipse 9. Deus no orvalho 10. Entre ogivas e axés 11. Nebulosas no quintal 12. NooN 13. Nyx Nua 14. O Fim do Futuro 15. O rasurado azul de Paris 16. O sorriso de Leonardo (2ª edição) 17. Para Camille, com uma flor de pedra 18. Percepções


19. RĂŠquiem 20. Um rio de jasmins nas veias 21. Uma lua em teu ventre


Bárbara Lia - Poeta e escritora brasileira. Destaque nos concursos: Prêmio SESC de Literatura (2004 e 2005), Conc. de Poesias Helena Kolody ( 2006 e 2007), Conc. Nacional de Contos Newton Sampaio (2009). Conc. de Contos Grotescos – Edgar Alan Poe (2009) e Prêmio UFES Literatura (2009). Faz parte do livro de ensaios O que é poesia? (Ed. Confraria do Vento) organizada por Edson Cruz. Participou da Antologia H2Horas (Cronópios/Dulcinéia Catadora) e da Antologia O Melhor da Festa 3 - Festipoa/ed. Casa Verde (2011). Publicou os livros de poesia: O sorriso de Leonardo (Kafka - 2.004), O sal das rosas (Lumme editor – 2.007), A última chuva (ME – MG – 2.007), Tem um pássaro cantando dentro de mim (2011) e A flor dentro da árvore (2011). Criou o projeto 21 gramas – livros artesanais. Publicou os Romances: Solidão Calcinada (Sec. da Cultura / Imprensa Oficial do Paraná - 2008) e Constelação de Ossos (ed. Vidráguas – 2010). barbaralia@gmail.com

O Sorriso de Leonardo  

Primeiro livro de poesias publicado pela autora. Esta edição é parte da coleção artesanal -21 gramas - inventário poético by Bárbara Lia.

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