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ADAMARE

Bรกrbara Lia


© 2011 Bárbara Lia Diagramação: Bárbara Lia Capa: Beatriz – Divina Comédia – HQ http://divinacomediahq.blogspot.com. br/

Dados para Catalogação Lia, Bárbara Adamare Curitiba, PR Literatura brasileira – Poesias.

® direitos reservados


A poesia é uma religião sem esperança. Jean Cocteau


ADAMARE

Eu sem ti: Catedral de argila. Campo ceifado. Esperança de brisa. Anjo desnorteado. Nua de luz y vida.

Adamare! Adamare! Mantra de medievais baladas. Adamare! Adamare! Balcão de flores, mãos aladas.

Véu na sacada Cristais de lágrimas, acenos. És o pastor andante que seguirei calada.

Pássaro invisível - Pégasus. Adamare! Rio que deságua no adeus.


ADAMARE

Yo sin ti: Catedral de arcilla. Campo segado. Esperanza de brisa. Ángel despistado. Desnuda de luz y vida. ¡Adamare! ¡Adamare! Mantra de medievales baladas. ¡Adamare! ¡Adamare! Balcón de flores, manos con alas. Velo en el balcón. Cristales de lágrimas. Estrellas que sigo callada. Pájaro invisible - Pegaso. ¡Adamare! Río que desagua en el adiós.


PRIMAVERA PARA BEETHOVEN

Também os bosques são sinfonias no silêncio da bela arquitetura teias de aranhas são partituras por mais casta que seja a analogia Em nítida alegria toda tessitura de um concerto pleno de alegorias traçando entre o verde, harmonias asas dos pássaros voam alturas (entre galhos notas do vento ouvem e um exército de aves se levanta rasgando em asas o ar fuligem) Uma paisagem etérea-sacrossanta. Primavera oferecida ao triste Beethoven que fulge entre o verde, e sorrindo, canta.


EYES OF WOOD

Crisântemos calados assistem à cena O heresiarca e a lua clara e alta Meditam – odor do sândalo Textos apócrifos nas mãos cálidas

A indumentária da cor do tabaco negro Os olhos de madeira do crucificado Fixam-se no andarilho da ordem secreta Ébano olhar – encantação

O dia chega e olhos não se despregam Um de carne outro de madeira E o segredo ecoando como água no cântaro


COLD CLOUD

Ardor louco em mim aguerrido E o pranto triste derramado Nosso incêncio represado Em rio de abandono convertido

Busquei-te nas auroras esconiddo Todos os nós do meu peito desatado Deste amor que me manteve aprisionado No gelo – da ausência – derretido

Se me abraçasses brandamente Se em silêncio esquecesses a porfia Preferistes ser prudente

Amor negado se transforma em tirania Como quando o sol em manhã ardente Preferiu que lhe nublasse a nuvem fria


Excesso de vida Cheira à morte.

Minhas primaveras De mandrágoras floridas Que germinam do sêmen Do enforcado

Meus outonos Gélidos e cinzas Calcinando amores Que não despregam Das minhas carnes


Estás em mim – amalgamado Se sou névoa – água. Se sou árvore – tronco Se sou deserto – areia

O oráculo dos antigos nos previa: Duas aves soltas na mesma travessia

Um anjo espia do mirante eterno E nos inveja por este amor audaz


Ocluso destino. Nó esgarçado Pés resvalando musgos e cascalhos

O anel era vidro O favo fel

Tudo se quebra Morre Anoitece

Ponto final.


NETUNO

Netuno sopra a nave ao porto de alĂŠias tristes.

Onde mora a branca garça e o monge.


Tテ。ULA RASA

As portas da cidade branca. Abertas, par em par. Meu espテュrito, tabula rasa.

Antes da data no tempo gravada, Para alcanテァar a eternidade, Sigo beijando vermes, Como se fossem jasmins.


AFRODITE CHORA

Eu digo: Amor; Tu dizes: Desejo. Dois corpos-vidas Na contra-mão. Que estrada seguir Para chegar ao porto? Em minha mala: Teus beijos ávidos; Na tua: Minh’alma em chamas. No Olimpo, Afrodite chora. O próprio amor Nos concebia juntos.


DHARMA

Depois da caverna fria lago negro estalactites abissal silêncio Depois das areias densas sarça-ardente espectro de monge taoísta em delírio Depois das cavalgadas pelos sonhos de Afrodite noite grega dracma esquecida salamandra Depois de pés pisando seixos marés de angústias phoênix delirante vôo no dorso do tigre branco

Depois da tarde lânguida ao sabor das notas de um piano árido plenilúnio cigarras Um anjo conduziu meus passos. Era aurora de mármore manhã orvalhada


garças brancas perfume da lua ainda no ar Tapete de pétalas arco de heras medievais ar embalsamado de sons sutis de Bach Além de sonhos & flores tua alma revestida da tinta primordial que se faz obra-prima de Deus

Olhar que clareia o cosmo, brilha mais que Altair Luz do luar de agosto rio entre arbusto arco-íris no final das ruas O azul que vela os sonhos loucos, tudo baixa ao porão das horas. Somente tua alma flama árvore perfumada e florida no jardim de mim.


LUPERCAL

Taças tecidas de junco guardam o vinho de romã, que vai bailar em chamas em teu coração de deus silvestre.

A minha ternura vai cobrir de melissas o teu leito branco. Com este bálsamo, hás de dormir sereno.

Na lareira, chamas em carrossel valsam ao som da encantada flauta. Teu lábio de deus arfante, causticante sina -ter beleza tão divinaa comandar a alegoria das notas encantadas.

Tua melodia fazendo o fogo tornar viva a ciranda de signos: Unicórnios


Leões alados Centauros Águias de fogo.

É o tempo do teu tributo, belo deus silvestre. Tão perto a Roma Antiga. Tão real os mitos. Quando me vens, olhar de fauno, som que enfeitiça o fogo.

Demolindo as ervas daninhas da alma. Erguendo um altar de segredos. Decapitando meus medos.

- Lupercal – fevereiro em festa, a tua mão abrindo esta fresta na cortina deste coração l-e-n-t-a-m-e-n-t-e esta luz atravessa deixando impressa: O fogo da tua música. O perfume da tua alma. O silencioso grito do amor.


Adamare é uma expressão retirada do livro -MONTAILLOU, Cátaros e Católicos numa Aldeia Occitana 1294-1324 Emmanuel Le Roy Ladurie O livro revela arquivos da Inquisição que no século XIV Nos autos da Inquisição existe a classificação para denominar o sentimento – amor.

Amare – é gostar de alguém Diligere – é gostar muito de alguém ADAMARE – é o amor verdadeiro.


Bárbara

Lia

é

uma

escritora

brasileira. Nasceu em Assai – Pr. Livros Publicados: O sorriso de Leonardo (Poema, Edições Kafka - 2.004) Noir (Poema, ed. do autor – 2.006) O sal das rosas (Poema, Lumme editor – 2.007) A última chuva (Poema, ME – ed. alternativas – MG – 2.007) Solidão Calcinada (Romance, Secretaria da Cultura / Imprensa Oficial do Paraná - 2008) e-mail – barbaralia@gmail.com



Adamare