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EDIÇÃO 1, Dezembro de 2016

Bárbara Cabral 2016


Expediente Revista D’Olho. Produto online para a conclusão do curso de Comunicação Social - Jornalismo da Universidade Católica de Brasília Ano 17, nº 1. Dezembro de 2016 Professora Orientadora: Profª Dr. Bernadete Brasiliense Editora-Chefe: Bárbara Cabral Editora de texto: Sabrina Pessoa Editora de fotografia: Bárbara Cabral Editora de arte: Bárbara Cabral Diagramação: Bárbara Cabral Reportagem: Alberto Brandão Alexandra Modzeleski Bárbara Cabral Filipe Cardoso Luís Nova Fotógrafos: Ana Paz Ana Rayssa Bárbara Cabral Filipe Carvalho Luís Nova Pryscilla Dantas Foto da Capa: Luís Nova Agradecimentos: Arthur Lincon, Emídio Cabral, Guilherme Lincon, Marília Cabral, Editoria de fotografia do Correio Braziliense.


Letras miúdas

EDITORIAL

Opa! É aqui que eu apresento a revista? Tudo bem? Essa é a primeira edição da revista D’Olho, uma revista pensada para quem procura mergulhar no universo da fotografia de uma forma diferente. Aqui você poderá refletir sobre projetos pessoais, buscar referências e sair inspirado para pegar sua câmera e bater perna pelo mundo, clicando o que há de melhor ou de pior nele. Afinal, nem tudo é só alegria não é mesmo? Sabemos que a fotografia tem um papel importante na reflexão de problemas sociais, econômicos e mundiais, mas não apenas, pois pode-se trabalhar a imagem por puro prazer. Essa revista que está sendo folheada em um momento de descontração do seu dia, é fruto de um trabalho final de conclusão do curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Então fica por aqui mesmo - meu agradecimento a você que está lendo e compartilhando de um sonho que se tornou realidade. Boa leitura! “Todos nós recebemos relatórios de muitas maneiras diferentes, mas a verdadeira emoção do que você está fazendo está em fazê-lo. Não é o que você vai conseguir no final, é realmente em fazer, e amar o que você está fazendo.” – Ralph Lauren


o ensaio do invisível

b de blasé

Lugar atípico

LUZES DE LUTA, LUZES DE GLÓRIA

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VESTINDO O NU mANDA NUDES

sebastiĂŁo salgado

L ig e i r a m e nt e fora de foco

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Adoção de cachorros. Foto para o jornal Correio Braziliense

Luzes de luta, luzes de glória A fotografia sob a perspectiva de um fotojornalista Por: Luís Nova fotos: luís nova

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Infelizmente a fotografia é uma ciência muito superestimada e desvalorizada. Para os fotógrafos é clássico ouvir que a máquina faz a foto, o que muitos não entendem é que por trás de qualquer equipamento existe uma pessoa capacitada para realizar a arte de captar imagem: o fotógrafo. A fotografia é mais do que apertar um simples botão em uma câmera configurada no automático. Todos os elementos estão interligados: a máquina, o fotógrafo e o sentimento tornam-se um só. Há uma simbiose entre o orgânico e o inorgânico. O resultado disso tudo é a imagem, que está intimamente ligada com sentimento, sensibilidade e empatia, como afirma Henri Cartier Bresson: “Fotografar é colocar, na mesma linha, a cabeça, o olho e o coração”. Ainda usando as palavras de Henri CartierBresson, ele nos recorda do papel que a fotografia tem de instigar a memória e de preservar a história, documentando-a . Para ele, “De todos os meios de expressão, a fotografia é o único que fixa, para sempre, o instante preciso e transitório. Nós, fotógrafos, lidamos com coisas que estão continuamente desaparecendo e, uma vez desaparecidas, não há mecanismo no mundo capaz de fazê-Ias voltar outra vez. Não podemos

revelar ou copiar uma memória”, destaca. O olhar do fotojornalista registra fatos históricos para levar a quem observa de fora, tecendo uma pluralidade de interpretações. A história não merece ser homogênea. Mesmo após o clique, a imagem é o passado, ela eterniza o momento. Por isso, o ato de fotografar é o mesmo de guardar, ele permite a recordação de algo remoto. Quantas vezes uma pequena foto remete à alguma história? Quantos sorrisos um simples papel fotográfico trouxe? “A fotografia ajuda as pessoas a ver”, reforça Berenice Abbott. . Paro para pensar os meus primeiros passos na fotografia. Morava em São Paulo e minha mãe me emprestou uma máquina semiprofissional. Achei o máximo. Falei com dois amigos e fomos à Vila Madalena. Tentei fazer um ensaio e a experiência foi muito bacana. Sobre o resultado das fotos, não posso falar o mesmo, mas temos que começar de algum lugar. Um ano e meio depois, voltei a Brasília. Consegui um estágio de texto em um jornal local e, aos poucos, fiquei próximo dos fotojornalistas e consegui comprar a minha câmera. Nos meus sábados de descanso, trabalhava de graça para

Senador da Repúbica, Aécio Neves. Foto para o jornal Estadão

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Procissão do Fogaréu.

Procissão do fogaréu. Pirinópolis

“Fotografar é colocar, a cabeça, o olho e Henri Cartier

aprender e cada dia era uma aula. Lembro de ter aprendido sobre luz, enquadramento, velocidade, kelvin e mecanismos básicos do equipamento com colegas da profissão. Após seis meses, o editor do jornal me deu uma boa oportunidade, ia para a pauta com muito medo e tremendo bastante porque sempre fui inseguro. O estágio acabou depois de um certo tempo mas carrego no peito tudo que aprendi. Se hoje tenho essa profissão, um dos responsáveis é o editor do jornal que estagiei, onde também fiz grandes amigos.

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Eleições americanas na Embaixada dos Estados Unidos,em Brasília. Foto para o Correio Braziliense

na mesma linha, e o coração.” Bresson

Contei tudo isso para dizer que todo fotógrafo carrega uma história e merece ser respeitado, assim como sua fotografia. É indelicado dizer que o equipamento é responsável pelo resultado de seu trabalho, pois atrás de uma lente existe uma pessoa que se dedica bastante para estar aonde chegou. O intuito do fotojornalista é sempre de garantir uma boa foto. São anos de sofrimento e aprendizado para cada foto significar um grão de areia no deserto da fotografia. Quanto mais aprendemos sobre a área, mais precisamos nos reciclar!

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Entrada do bar Pl

Bem-vindo este é um Da série: o prazer em renovação do olhar Por: Filipe cardoso fotos: filipe cardoso 10


o: lugar รกtipico sair de casa em busca da sobre a simplicidade

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Nos últimos anos tive o privilégio de viajar bastante pelo Brasil. Do Amazonas ao Rio Grande do Sul, estive em muitos lugares incríveis. Vi paisagens de tirar o fôlego e conheci pessoas únicas. Numa dessas viagens fui parar em um barzinho pouco conhecido em Curitiba chamado PL. À primeira vista não tem nada demais, é apenas uma casinha verde em frente a linha do trem, mas que por dentro esconde um ambiente que nunca havia visto em nenhum outro lugar. Pedro Lauro, dono do estabelecimento, foi deputado pelo MDB por dois mandatos de 1972 a 1980, em pleno regime militar. Um homem simples e humilde, muito bem vestido, sempre fumando um charuto e com muita história para contar. Foi candidato a vereador e um de seus principais projetos de lei era a regulamentação e criação de cassinos no Brasil, uma das histórias que adora contar aos seus clientes do bar. O ambiente é um reflexo da personalidade de “seu” Pedro, com uma infinidade de objetos espalhados por todos os cantos. Num primeiro momento parecem ter sido jogados ao acaso, mas quando se para para observar é possível notar que houve um cuidado muito especial em posicionar cada bugiganga para compor um cenário cômico Bar Pl usa elementos diferentes para atrair clientes

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e sarcástico. Em meio ao caos visual, o Bar do PL provoca um sentimento único de pertencimento, o que faz com que cada cliente sinta-se em casa. . É possível circular por todos os ambientes temáticos. Na área do balcão do bar há televisores ligados em programações diferentes, ao mesmo tempo, e uma velha vitrola tocando bolero. No salão principal estão mesas de sinuca, pebolim, e no quintal é possível encontrar todo tipo de pessoas da boêmia, com cigarros e cervejas em mãos para sempre discutir algo relevante. Há também uma fonte dos desejos, onde devese jogar a tampinha da primeira garrafa da noite; e também a estátua de um simpático


Mensagens engraçadas são espealhadas em todo o local Totó é uma das atrações do bar

Estátuas compõem cenário do bar Pl

cachorro que está sempre a observar a casa. Por todo lado é possível ver plaquinhas escritas pelo próprio Pedro com as regras do bar, piadas e boas vindas aos clientes. É realmente um lugar incrível, descrito com perfeição em uma destas mensagens - PL - um lugar atípico, do camelo, diferente, referencial, democrático e outras cozitas mas. Sem dúvidas o PL é um dos lugares mais incríveis que já tive a sorte de pisar e recomendo que todos que tiverem a oportunidade de vir a Curitiba tomem uma cerveja por lá.

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Moradora de rua pede uns trocados na frente da Catedral


B de Blasé B de Brasília. B de Blasé: O sujeito e a grande metrópole envolto em uma individualidade que fecha portas para novas experiências Por: Bárbara Cabral fotos: bárbara cabral

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Individualismo e nulidade está presente nas grandes cidades

“A essência do caráter blasé é o embotamento frente à distinção das coisas”Georg Simmel Indiferença é uma das características da atitude

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Apitos e ronco de motores geram melodia a pessoas que ignoram, caminham e correm com seus fones de ouvido pelas ruas cinzas, que se misturam ao céu enquanto outras dormem em papelões espalhados pelo chão dessas mesmas vias, que são direcionadas pelas tradicionais luzes verde e vermelho. Cenas como essas, são alguns exemplos comuns que presenciamos continuamente nas grandes cidades e, de forma natural, levamos para nós como corriqueiras, passando despercebidas no inconsciente. São cenas de um indivíduo blasé.

seu próprio desenvolvimento interpessoal.

Blasé é um adjetivo francês para classificar uma atitude cética, apática ou indiferente, o conceito, originalmente criado por Georg Simmel, tem como significado um indivíduo alheio ou distante do que passa ao seu redor. O individualismo é a uma vontade de se preservar do contato com o outro. Para o autor, em sua crítica da modernidade essa atitude está cada vez mais presente na cidade, no dia a dia e em cada pessoa sem que seja perceptível “A essência do caráter blasé é o embotamento frente à distinção das coisas; não no sentido de que elas não sejam percebidas, mas sim de tal modo que o significado e o valor da distinção das coisas são sentidos como nulos” explica o sociólogo. (1903, p.581)

A cidade não é totalmente constituída de sentimentos nulos. Embora exista a percepção que caminhamos cada dia mais frios e individualistas. Pessoas como a aluna de pedagogia, Jéssica Rodrigues, ainda fazem uma reflexão para contornar essa realidade: “essa geração tecnológica fica tão alucinada em mostrar para todo mundo que é feliz, que realmente esquece de viver o momento. Na maioria das vezes, uso como solução desligar a internet do celular, ou até mesmo desligar o aparelho. Se a gente aprendesse a olhar mais o mundo em volta perceberíamos muitas coisas”, sugere a estudante.

Com as responsabilidades diárias e nossa tradicional rotina de casa, faculdade e trabalho não conseguimos perceber essa nulidade. A perda de uma expansão no ciclo social é um dos principais pontos negativos do comportamento blasé, impossibilitando ao indivíduo novas experiências. O preconceito, a falta de tempo, medo e comodismo são alguns exemplos que acabam fechando esse ciclo de experiências e restringindo

Gabriela Quadros, é estudante de serviço social na UnB e percebe presente em seu dia a dia a presença da atitude de uma maneira pessimista “esse excesso de individualismo também influencia em um crescimento da violência, porque as pessoas passam a se importar apenas pelo seu “próprio mundo” deixando de se importar com o que acontece ao redor. Creio que seria uma potencialização da frieza humana”, afirma ela.

Não existe uma fórmula secreta para escapar dessa atitude. Não são todos os dias que estamos dispostos a sair por aí, querendo conversar com o mundo, mas pequenas atitudes diárias de empatia ajudam a ver a cidade com outros olhos. Buscar vivenciar de verdade cada momento e experiências que aparecem e consequentemente aumentar seu ciclo social sem preconceitos tornaria a cidade um lugar mais quente e aconchegante. Se reconhecer como pessoa e enxergar isso nos outros, isso é ser livre em uma cidade blasé.

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Fotografar o invisĂ­vel Ensaio fotogrĂĄfico com catadoras de lixo e donas de casa, com o intuito de dar visibilidade a essas mulheres

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Tereza Aparecida .Recanto das Emas, 2014

Por: Alexandra Modzeleski FOTOS: ANA PAZ


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“elas puderam se ver, trazendo no rosto e no corpo as marcas de suas histórias, como mulheres que dão valor a vida.” Ana Paz

A invisibilidade social. Você pode nunca ter ouvido falar sobre esse conceito, mas sabe que existe. Está no gari que varre a rua, na atendente que tira o prato da mesa, no cobrador de ônibus, no vendedor ambulante e por aí vai. Esse termo designa pessoas que ficam e/ou são tratadas como invisíveis, seja por preconceitos ou, simplesmente, indiferença. O ensaio fotográfico “Como você se vê?”, iniciativa da fotógrafa Ana Paz, foi realizado com catadoras de lixo e donas de casa que estão em situação de invisibilidade social.

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“O objetivo principal do trabalho foi resgatar a identidade e a autoestima dessas mulheres, por meio da fotografia. O ensaio aconteceu para despertar novamente nelas o respeito próprio, e sentir o corpo como território de expressão individual, sentir em casa em relação à corporalidade”, explica a autora do projeto. O projeto começou em 2012, no Lixão da Estrutural, onde essas mulheres trabalham. Na época, foram fotografadas 24 voluntárias. O cenário para as fotos


Valdeneide. Estrutural,, 2012

foi as ruas da cidade, para trazer à tona a realidade das moradoras. “Fazíamos de tudo para modificar suas expressões cansadas, brincávamos com elas, contávamos histórias e ouvíamos as suas”, relembra Ana. Apesar das dificuldades da profissão e dos preconceitos emitidos pela sociedade, Ana garante que ouviu relatos de força e orgulho de cada uma delas. “É do lixo que tiram o seu sustento e o sustento dos filhos, certificando que a invisibilidade

é, na maioria das vezes, imposta pela sociedade, pelo outro, mas que não precisa ser necessariamente incorporada pelo indivíduo que vive aquela realidade”, defende. Em um segundo momento, em 2014, donas de casa e moradoras do Recanto das Emas também foram fotografadas, em produção semelhante à Estrutural. Essas mulheres tinham entre 35 e 60 anos e eram moradoras da periferia, sem recursos e sem estudos. Elas ficaram desconfiadas e constrangidas

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Fátima Rejane. Recanto das Emas, 2014

Ana Lúcia. Estrutural, 2012

com a possibilidade de serem fotografadas, no início. “Foi preciso mais conversa e descontração para seguir o trabalho”, conta a autora. As fotografias foram registradas em cenários com muros pichados ou crus, fortalecendo o foco na realidade das próprias personagens. O trabalho foi exposto na Universidade Católica de Brasília e também na Estrutural, onde as fotografadas habitavam à época. Construir para desconstruir Além de fazer visível a existência dessas mulheres, o projeto tem o intuito, ainda, de construir a autoestima da mulher, desconstruindo a visão do padrão de beleza, principalmente da mulher brasileira. O projeto enquadra todo tipo de cor de pele, cabelo e curvas. “O processo reforça a chance que a personagem tem para construir uma nova imagem de si mesma, uma imagem valorizada, tanto pela maquiagem como por outros elementos de produção, mas, principalmente, pela fotografia, o espaço onde se percebe como mulher bonita, sorridente e faceira”, afirma a autora.

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Solange . Estrutural, 2012

Maria do Socorro. Estrutural , 2012

Para ressaltar ainda mais a beleza e a existência das personagens, Ana utilizou a técnica do preto e branco. Dessa forma, é retirada toda a carga de informação extra da fotografia e proporciona, àquele que vê, uma concentração maior apenas no item principal. Nesse caso, “nos sentimentos e na beleza do ser humano naquela situação”. Ana Paz garante que a fotografia foi essencial para a construção desse momento. “Foi, por meio das fotos, que elas puderam se ver, trazendo no rosto e no corpo as marcas de suas histórias, de seus valores, de suas lutas, como mulheres que dão valor a vida.” lembra. “Nas fotos elas têm uma identidade, esse é o objetivo principal do trabalho, valorizar essa identidade. Por isso, nesse momento, a fotografia é importante, porque ela é documental, guarda essa mulher, sua essência, sua história de vida, seu envolvimento familiar e social, sua face que nos revela sua identidade de mulher de fibra, batalhadora e feliz, apesar das dificuldades”, conclui Ana Paz.

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Vestindo o nĂş


Gabriela Franze, 2016

A Fotógrafa usa Da sensibilidade para retratar nus feminino em busca da quebra de tabus. A imagem da nudez ainda é associada à sexualização do corpo Por: Bárbara Cabral FOTOS: PRYSCILLA DANTAS

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A nudez sempre foi um assunto polêmico. Desde os primórdios da história, temos nosso corpo nu associado à vergonha e ao pecado. Começando com Adão e Eva que mesmo estando fisicamente nus, somente com a experiência da desobediência sentiram-se despidos e desconfortáveis, percebendo-se pelados. A forma que observamos a nudez é reflexo da nossa cultura e ainda vivemos em um mundo machista – inclusive com mulheres machistas onde a moral e os bons costumes padronizaram construções sociais na forma como moças de prestígio deveriam se mostrar para o mundo. Agimos com uma certa ignorância em termos da aceitação do corpo feminino apenas como arte, pois como toda manifestação, gera interpretações. Uma dessas concepções pode ser o desejo do observador. O nu é um tema que foi revitalizado no período

Gabriela Franze, 2016

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pós-guerra, quando a fotografia de moda já era referência com a padronização de corpos altos e magros. Logo, toda essa construção cultural da nudez passou a ser um problema de moral e da própria aceitação do corpo, influenciando o pensamento sexual e aprisionando as mulheres numa ideia de corpo perfeito. A busca pelo indivíduo que queira despir-se é um dos passos mais difíceis para quem decide embarcar em um projeto dessa magnitude, pois estamos lidando com todos esses problemas de construção social do corpo. O projeto de Pryscilla Dantas tem como objetivo libertar mulheres, trazendo por meio das lentes, a escritura do próprio corpo. A autora assume que sua preferência sempre foi fotografar mulheres: “talvez por ser uma mulher e me colocar facilmente no lugar delas, sabendo que cada ser é único, talvez por aquelas histórias carregadas de tristeza, insatisfação com a aparência, traumas”, argumenta a fotógrafa.

Carolina Schäffer, 2016

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“cada ser é único, talvez por aquelas histórias carregadas de tristeza, insatisfação com a aparência e traumas.” Pryscilla Dantas

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A busca pela liberdade do corpo é um processo contínuo e de luta diária. Existe dualidade na forma da mulher que luta por essa libertação, por isso a fotógrafa se preocupa desde o momento da escolha da locação, produção e momento do clique, fazendo com que a mulher sinta-se bem. O trabalho revela de uma forma simples a delicadeza do corpo e uma estética mais serena,


Carolina Schäffer, 2016

a autora fala que suas obras carregam um pouco de melancolia: “o olhar de uma mulher sobre a outra é sensível, delicado e natural. Muitas vezes as mulheres enxergam um lado sexy que elas não viam. Minhas fotografias retratam o nu de uma forma leve, sensível e até mesmo melancólica”, explica.

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Manda “O que você enxerga no espelho quando sai do banho? Se sente sexy? Desejável? De onde tiraria alguns quilos ou até mesmo colocaria umas gordurinhas? Na frente de quem você ficaria pelado e à vontade? Talvez essa seja a grande dificuldade em encarar o nu. É Percebêlo como algo natural, que permite dissociá-lo do sexo” Rafael Campos 30


nudes

Rafael Campos, 2016

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a fotรณgrafa Ana Rayssa busca naturalizar o nu. nas prรณximas pรกginas pode - se ler os depoimentos dos fotografados. fotos: ana rayssa soares

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Insegurança foi uma das barreiras que Rafael Campos enfrentou para pousar nú

Mesmo sabendo que aquelas imagens seriam colocadas para o mundo ver, havia ali uma sensação de liberdade e naturalidade que me fez compreender, mais ainda, minha ideia de que o nu não é apenas um convite ao prazer carnal. Havia muito mais ali. Havia toda a minha confiança colocada à prova. Principalmente por não ter um corpo dentro dos padrões de perfeição que a sociedade pede. Havia a flacidez do falo, uma alegoria tão poderosa para o macho desprotegido. Motivo pelo qual muitos homens temem tirar a roupa na frente um do outro, com receio de ser julgado por tamanhos e medidas. Havia, repito, a certeza de que

todos poderiam ver aquele ensaio depois: amigos e familiares tendo de conviver com a noção deles de nudez e, ao mesmo tempo, encaixando minha desenvoltura nessa forma de me mostrar ao mundo. Ao fim, eu não estava desprotegido. As roupas dizem muito e eu gosto de viver em um mundo no qual podemos falar por meio do que vestimos. Mas vi que meu corpo tinha força, tinha expressão, também conseguia falar. E, quando do último clique, ele tinha dito: você é bonito. Você pode ficar sem roupa. A sociedade não precisa te dizer como deve ser o seu corpo. Basta você querer.

Rafael Campos

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Isabela Furtado Sentir-se confortável é uma dificil tarefa para quem quer pousar nu

No dia do ensaio estava super nervosa. Ainda era difícil me abrir e me fazer confortável. Mas a Ana tem uma energia maravilhosa, uma parada que te estimula e te deixa confortável, e acabou que foi uma experiência linda. Adorei o ensaio e as fotos ficaram maravilhosas.

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Camila Parca ”

Padrões de corpo ainda influenciam na decisão de pousar nu

Despir parece ser uma coisa muito complicada, íntima, difícil... E é mesmo. Mas é incrível estar sem armaduras na frente do outro. Acho que a sensação é de uma irmandade, um momento de cumplicidade, sem máscaras. Não importa o resultado e sim a experiência. Tenho algumas inseguranças com meu corpo. Ver como ficaram lindas as fotos foi incrível e empoderador. É sempre bom se desafiar.

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Amanda Nunes ”

Amanda Nunes decide posar nua para emponderar-se

Uma experiência de liberdade, desconstrução e empoderamento. Ser fotografada nua, pela perspectiva de uma mulher que enxerga a naturalidade do nu, serviu para que eu me questionasse, e levasse essa reflexão para as pessoas à minha volta: será que a nudez é algo tão transgressor assim? A resposta é não! O nu é e deve ser encarado como algo natural e lindo. Nesse sentido, a fotografia vem com uma força poderosa, combater os anos de objetificação dos corpos femininos. Desconstruir o ideal utópico do corpo perfeito e, particularmente, desconstruir a imagem da mulher tatuada, ainda muito hipersexualizada. Há beleza em todos os corpos e existem pessoas dispostas a disseminar essa ideia. Fico feliz de ter participado desse projeto.

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Sebastiao Salgado: O ato de fotografar vem se tornando cada vez mais trivial. Ao longo dos últimos 10 anos, uma verdadeira revolução tecnológica popularizou diversos tipos de equipamentos fotográficos, simplificando o que antes era, um cuidadoso processo artístico. Por: Alberto Brandão Fotos: sebastião salgado “Com os olhos mortos gastos pelas tempestades de areia e infecções crônicas, esta mulher da região de Gondan chegou ao fim de sua viagem” Sebastião Salgado

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A subremacia do olhar Para muitos, a fotografia representa apenas uma forma de registrar um momento, mas assim como na pintura em telas o propósito vai além do registro. A intenção é destacar elementos que passam despercebido aos olhos desavisados. O conceito fica claro na idéia de Oscar Wilde quando comenta sobre as obras de James McNeil Whistler “Não havia neblina em Londres antes de Whistler pintá-la”. A frase não significa que os londrinos não enxergassem a densa neblina no horizonte de sua cidade, mas o que antes era apenas uma informação sem muito valor agora possui destaque na mente das pessoas.

O trabalho do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado tem a difícil tarefa de destacar elementos que naturalmente não gostaríamos de notar, cenas que em outra ocasião nos fariam virar o rosto ou sentir repulsa àquela situação. No entanto, Salgado tem sucesso em nos fazer reagir de forma oposta. Com sua técnica, o artista e também economista, é capaz de nos apresentar situações difíceis como guerras, pobreza e injustiças, ao mesmo tempo que nos convence a fixar os olhos e tentar entender com mais profundidade a mensagem que a imagem transmite.

Pintura de James McNeil Whistler: Rio em battersea

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Projeto: Gênesis. Mirounga leonina. Geórgia do Sul, 2009

Projeto: Trabalhadores. Realizado na década de 80. Publicado em 1993

“a vida e a felicidade de nossa Assim como no exemplo da neblina de Whistler, Sebastião Salgado evidencia uma realidade que já sabemos da existência, mas adiciona uma dimensão inteiramente nova, estética e poética, um ponto de vista que não estamos acostumados. Em A Mulher Cega, de 1985, Sebastião Salgado insere a legenda que contextualiza a cena: “Com os olhos mortos gastos pelas tempestades de areia e infecções crônicas, esta mulher da região de Gondan chegou ao fim de sua viagem”. A fotografia é ousada, tratando o sofrimento com uma beleza incomum que gera admiração estética, mas é seguida de um reconhecimento interno de culpa. A legenda define a atmosfera, mas a imagem é eficiente ao demonstrar a incerteza na vida da protagonista. O fundo preto, o forte contraste e as sombras declaram que não há otimismo. O olho ofuscado não transparece um sentimento, mas deixa o questionamento no ar, “o que ela estaria pensando?”.

cria um curioso efeito, confundindo-a com a própria representação da morte, desta que vemos em filmes e desenhos animados. Observando a imagem não podemos prever o destino da mulher, mas existe uma forte sugestão do futuro que lhe aguarda. A admiração estética que nos causa culpa, rapidamente apresenta seu propósito. Um problema que antes era uma vaga ideia, agora tem um rosto e uma história. Ao invés de desviar do assunto, agora não podemos mais negar que ele existe. Salgado é bem sucedido quando remove nossa paz cotidiana e introduz um problema que não conseguimos ignorar.

A carreira de Salgado foi construída em cima deste propósito, capturar cenas terríveis como forma de protesto, apresentando ao mundo o que recusamos a ver. Infelizmente, viver rodeado de sofrimento cobra seu preço. Com o passar dos anos, seu envolvimento com a morte trouxe depressão e diversas outras doenças. Nas palavras de seu médico “[…]viu tantas mortes que agora Propositalmente ou não, o tecido que a envolve seu corpo estava morrendo”. Para contornar a

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Projeto: Gênesis. Mulheres da povoação Zo’é Towari Ypy, 2009

Projeto: Exôdos. Crianças no orfanato de Zaire, 1994

Fotos: Sebastião Salgado,

estão desaparecendo percepção.”

doença, a sugestão de seu médico foi que parasse Indicando que ali mora um detalhe crucial para de registrar tragédias. entender o sentido da obra. Ao descobrirmos a imagem do fotógrafo refletida nos olhos da foca, Devido a seriedade de sua condição, Salgado não compreendemos que todo aquele cenário imenso, tinha muita escolha senão atender ao pedido de com indescritível riqueza de detalhes, traz a ideia seu médico. Mas após uma longa recuperação, o de celebração da vida, não apenas da vida em fotógrafo iniciou uma nova fase em seu trabalho. forma geral, mas da sua própria vida. O homem que antes destacava as dores do mundo agora se dedica ao registro da vida. Como podemos Ao inserir-se de forma tão sutil numa cena tão observar em obras como o Elefante-Marinho, rica, Sebastião Salgado protesta novamente, nos Sebastião Salgado não abandona sua estética em mostrando que não apenas o sofrimento humano preto e branco, nem o forte uso do contraste. Ao está esquecido em nossa pressa cotidiana, contrário das obras que abordam a dor como mas que aos poucos a vida e a felicidade estão elemento central, a foca-marinha nos recebe com desaparecendo de nossa percepção. uma doce e calorosa expressão. Sabemos que o sorriso animal não é como o nosso, proposital, mas seu semblante nos contamina com um forte otimismo a ponto de não importar mais se é realmente um sorriso ou não. Assim como na fotografia d’A Mulher Cega, o Elefante-Marinho direciona nossa visão imediatamente para os olhos do animal.

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Ligeiramente fora de foco O livro autobiográfico de Robert Capa, Ligeiramente Fora de Foco, conta a incrível jornada do fotojornalista de guerra na cobertura do dia D na Segunda Guerra Mundial Por: Bárbara Cabral Fotos: Robert Capa

Fotografia utilizada na capa do ivro Ligeiramente Fora de Foco. Pouso no campo de concentração

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“Dormindo ou acordado, aqui estou eu, admirando cada vez mais este Imagine que você está em um avião de guerra minutos antes de pular de paraquedas. Com o detalhe mínimo que não foi mencionado: o de nunca ter pulado ou ter tido qualquer instrução sobre o assunto. No local escuro, soldados sentados esperando o comando da invasão por ar, uns ficam pensativos, outros passam mal e você apenas observa e registra sem ter tido muito tempo para digerir o que estava prestes a acontecer. Logo depois vem o aviso do pulo, você obviamente congela e sente a coragem em forma de um empurrão com um pé na bunda. No ar, fecha os olhos e lembra que deveria estar fotografando esse momento. Abre os olhos e se vê preso em árvores, junto com mais alguns soldados, em terras inimigas. Sente medo, sente frio, sente fome, mas sente-se vivo. Essa é uma das muitas histórias que Robert Capa

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vivencia no livro Ligeiramente fora de foco, 2010. Ao contrário do que se pode esperar de um livro autobiográfico, que conta parte de sua trajetória na Guerra, a narrativa é bastante envolvente e engraçada. Engraçada? Você está certa disto? Acredite, é isso mesmo. Robert Capa era muito bem humorado, levava a vida de uma forma boemia e descontraída. Me arrisco a dizer que justamente por isto muitas de suas histórias foram possíveis, beirando o inacreditável. No livro, o autor se inspira em suas experiências para criar a história fictícia. Capa vivencia um romance com uma mulher de cabelo cor de rosa (apelidada de Pink) enquanto trilha sua jornada opcional na guerra contra os alemães. O livro de Robert, está disponível em livrarias e pela internet.


a 3 mil e poucos pés de altitude, novo velho mundo.” Robert Capa Robert Capa foi um dos fundadores da Agência Magnum. Nasceu em Budapeste e morreu em um campo minado no Japão em 1954. Capa tinha uma coisa contraditória com a vida, ele a amava - ainda colocá-la em e adorava mais risco para dar sentimento às fotos. Por meio de imagens, divulgadas nas revistas Collier’s e Life, conseguia transmitir sensibilidade e empatia onde só a irracionalidade da guerra residia. Outra característica de Capa é a sua capacidade de enxergar oportunidades. Foi um grande revelador de talentos e serve como referência a grandes nomes da fotografia e inspiração aos iniciantes.

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Colaboradores Alberto Brandão,

Analista de sistemas, e estudante de física. escreve sobre comportamento e cotidiano para o site Papo de Homem. e semanalmente para uma newsletter chamada Caso Contextual.

Alessandra Modzeleski, é jornalista. Formada pela Universidade Católica de Brasília ucb .possui passagem como repórter colaboradora no portal UOL e, atualmente, no caderno de Cidades do jornal Correio Braziliense.

Ana Paz, é formada em Jornalismo pela Universidade Católica de Brasília UCB e cursa Letras português pela Unb

Ana Rayssa, é formada em fotografia pelo Instituto de Educação Superior de Brasília IESB Foi estagiária no Correio Braziliense e Jornal de Brasília. hoje é AUTONOMA. 47 47


Filipe Cardoso, é formado em jornalismo pela Universidade Católica de Brasília UCB. Atualmente é jornalista E FOTOGRAFO AUTONOMO e viajante..

Luís Gustavo Nova, é jornalista, e Atualmente é assessor de imprensa e fotojornalista para o Correio Braziliense e de agência, cobre política nacional e outras pautas para o impresso.

Pryscilla Dantas, é fotógrafa desde os 15 anos. Começou com autorretrato. Aposta na sensibilidade, que atualmente vem sendo sua maior aliada na composição do retrato de mulheres.

Sabrina Pessoa, é formada em moda pelo Instituto de Educação Superior de Brasília IESB e em jornalismo pela Universidade Católica de Brasília UCB. .

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Revista D'Olho