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H. G. WELLS e A ILHA DAS ALMAS SELVAGENS De quando ainda nem se falava em ficção científica Braulio Tavares


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Herbert George Wells (1866 - 1946) Tradução de

Monteiro Lobato

A ILHA DAS ALMAS


SELVAGENS


SUMÁRIO Prefácio – Braulio Tavares..................................................................................

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Capítulo I - No escaler do Lady Vain......................................................... 19 Capítulo II - O homem que não estava indo para parte nenhuma...... 23 Capítulo III - A cara estranha ...................................................................... 28 Capítulo IV - Na amurada da escuna ........................................................... 35 Capítulo V - O homem que não tinha para onde ir................................ 40 Capítulo VI - O canoeiro de má catadura ................................................. 45 Capítulo VII - A porta fechada...................................................................... 51 Capítulo VIII - Os urros do puma............................................................... 57 Capítulo IX - A coisa na floresta.................................................................. 62 Capítulo X - O grito do homem................................................................... 71 Capítulo XI - A caça do homem................................................................... 75 Capítulo XII - Os mestres da Lei................................................................ 82 Capítulo XIII - Negociação.......................................................................... 91 Capítulo XIV - Moreau explica-se.............................................................. 97 Capítulo XV - Os habitantes da Ilha......................................................... 110 Capítulo XVI - Gosto de sangue................................................................ 116 Capítulo XVII - A catástrofe...................................................................... 131 Capítulo XVIII - O encontro de Moreau............................................... 137 Capítulo XIX - A festa de Montgomery................................................ 142 Capítulo XX - Só com os monstros........................................................... 151 Capítulo XXI - A reversão dos humanizados......................................... 157 Capítulo XXII - O homem solitário......................................................... 171


E-rea, 2016

Frontispício da primeira edição de A Ilha do Dr. Moreau (1896) de H. G. Wells, em litografia de Charles Robert Ashbee (C.R.A.). A primeira edição brasileira (1935) adotou o título de A Ilha das Almas Selvagens. 8


H. G. WELLS e A ILHA DAS ALMAS SELVAGENS

Gutenberg.org

De quando ainda nem se falava em ficção científica

Quando H. G. Wells rias produzidas por Jules publicou este romance, Verne, H. G. Wells e em 1896, a expressão Edgar Allan Poe –– “ficção científica” um romance sedutor (FC) era ainda entremeado com desconhecida, e fatos científicos e só viria a desigvisões proféticas. nar um gênero Gernsback literário especídefiniu assim a fico trinta anos árvore genealódepois, com o gica da nova lilançamento da teratura que viria revista norte-amea publicar, e H. G. ricana Amazing StoWells foi sua influênries, editada por Hugo cia mais forte, ou a mais Gernsback, que assim definiu a nova fórmula H. G. Wells (1922). acessível. Nos dois primeiros anos da revista, (tradução minha): Gernsback publicou em cada núPor “ficção científica” (science ficmero mensal uma história do aution) quero indicar o tipo de histótor inglês, cuja produção contística 9


tinha sido exuberante desde os últimos anos do século anterior. Não é de admirar. Àquela altura, em plena década de 1920, mostrava-se impossível ignorar a presença literária de Wells. Era grande o sucesso de seus romances, publicados um atrás do outro, com grande rapidez, e da figura pública que ele passou a representar desde cedo, envolvendo-se em discussões políticas, científicas e literárias. Falava e escrevia com eloquência acessível às massas, e com opiniões bem fundamentadas, capazes de produzir respeito nos intelectuais. A Ilha das Almas Selvagens (The Island of Dr. Moreau) fez parte dessa verdadeira saraivada de títulos que ele publicou em rápida sucessão, propondo uma abordagem muito pessoal desse tipo de literatura –– que a crítica literária britânica, na época, chamava de scientific romances. A Máquina do Tempo (1895), A Ilha das Almas Selvagens (1896), O Homem Invisível (1897), A Guerra dos Mundos (1898), When the Sleeper Awakes (1899), Os Primeiros Homens na Lua (1901), O Alimento dos Deu10

ses (1904), Os Dias do Cometa (1906), A Guerra no Ar (1907)...

No espaço de pouco mais de uma década, um escritor relativamente jovem trazia, em rápida sucessão de romances vívidos, imaginativos, aquilo que Hugo Gernsback sonhava para a literatura do futuro: enredos sedutores, conhecimentos científicos e visão profética.

Uma aventura não planejada A Ilha das Almas Selvagens pertence a um ramo dos mais ricos da literatura fantástica ou de aventuras: a história do náufrago, ou do fugitivo, que acaba chegando casualmente a uma ilha onde coisas estranhas acontecem. Não se trata do explorador ou aventureiro profissional, que parte com o objetivo de descobrir, desbravar, anexar à civilização um lugar remoto. É o homem comum (como o próprio leitor), que não se preparou para aquela aventura –– mas de repente a aventura lhe sobrevém, e ele é forçado a descobrir em si próprio os recursos para enfrentá-la.


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Em abril de 1926, o lançamento de Amazing Stories.

Edward Prendick, o narrador, depara-se com um ambiente estranho que lhe causa horror, e que ele vai decifrando pouco a pouco. Cada nova descoberta substitui um horror por outro, ainda mais inacreditável. O livro de Wells lembra em muitos aspectos O Coração das Trevas (1899) de Joseph Conrad, uma descoberta gradual dos horrores resultantes da presença colonial da Europa no interior do Congo. Uma bestialização de seres humanos, produzida não por um triunfo dos selvagens, mas pela natureza predatória e exploratória da ação dos europeus brancos e civilizados.

O Dr. Moreau ajudou a firmar o arquétipo do “cientista louco” da FC –– mesmo não sendo aquele indivíduo alucinado, de “olho rútilo e lábio trêmulo”, como diria Nelson Rodrigues. Seu personagem é frio, impaciente, áspero, totalmente desprovido de empatia, voltado para dentro de si mesmo, e com uma crença tranquila de que os fins justificam os meios, principalmente quando os meios são praticados por pessoas como ele, que se consideram, a priori, acima de qualquer crítica. Como tantos outros que cumprem esse papel, ele tem um lado racional e um lado delirante. Seus 11


métodos são frios, pragmáticos, bem concatenados, postos em prática com a atenção e a meticulosidade de quem nasceu para o trabalho de laboratório. Pouco importa se a ideia, a tese, o objetivo final pertencem à esfera do delírio megalomaníaco e do total desprezo por suas cobaias. Ele é um daqueles intelectos “vastos, frios e hostis” a que H. G. Wells iria se referir ao descrever os cientistas marcianos na página inicial de The War of the Worlds (1898).

Nas pegadas brasileiras do Dr. Moreau Moreau deixou rastros inclusive na literatura brasileira. É citado nominalmente em A Amazônia Misteriosa (1925) de Gastão Cruls, onde o cientista alemão Hartmann se embrenha na floresta, convive com as índias amazonas e realiza ali experiências de cruzamentos interespécies. É também uma das referências principais dos romances A Mão que Cria (Unicórnio Azul, 2006) e A Mão que Pune – 1890 (Caligari, 2018) de Octávio Aragão, que es12

pecula os desdobramentos de sua “engenharia biológica” na criação de homens-animais dotados de força e inteligência excepcionais, num processo denominado Modelagem da Carne. A autossuficiência de Moreau o caracteriza menos como um cientista louco do que como um cientista sem empatia, como tantas vezes ocorre. Ele vive e age apenas para experimentar, comprovar ou corrigir suas próprias hipóteses, desvinculado de qualquer outro interesse, humano inclusive. Usa repetidamente os termos “arte” e “artísticos” para descrever o que faz, sugerindo que não é a utilidade futura de suas realizações que o mobiliza, mas a curiosidade criativa e o prazer de produzir algo nunca visto: Muita coisa no passado foi praticada em segredo. Criaturas como os irmãos siameses… E nos cárceres da Inquisição? Não há dúvida que a mira imediata era a tortura artística, mas alguns dos inquisidores deviam ser dotados de curiosidade científica... [...] Eu poderia trabalhar de forma a transformar


Pode-se fazer uma comparação entre Moreau e outro “cientista louco” de Wells, o Griffin de O Homem Invisível (1897). Griffin é um franco-atirador, um cientista jovem, ainda sem carreira, que faz uma descoberta extraordinária e começa a desenvolvê-la em segredo, com a intenção de usá-la em benefício próprio. É ambicioso, irritadiço, impaciente –– traços típicos de alguém que se considera superinteligente e acha que todas as pessoas lhe são inferiores. Há alguns desses traços em Moreau, mas Moreau tem um

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carneiros em lhamas e vice-versa, mas escolhi a forma humana como a mais interessante, a mais artística. [...] O meu tema no início foi a transfusão de sangue. Coisa muito simples. Menos simples, porém, e com certeza muito mais praticada, eram as operações dos empíricos medievais que faziam anões, aleijados grotescos ou monstros para exibição em feiras; vestígios dessa arte ainda subsistem hoje no preparo dos saltimbancos ou contorcionistas. Victor Hugo descreve um caso no O Homem que ri. (Cap. XIV )

Primeira edição brasileira (1935), tradução de Monteiro Lobato para o clássico The island of Doctor Moreau.

estofo mais sólido do que o do “homem invisível”. É capaz de desenvolver projetos a longo prazo e em grande escala, é capaz de liderar equipes, mesmo restritas e compostas por indivíduos de personalidade fraca (como Montgomery). Ao contrário de Griffin, já tinha uma carreira científica sólida quando caiu em desgraça: Eu era rapaz por aquele tempo e Moreau já teria uns cinquenta anos. 13


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Gozava fama de grande fisiologista, temido nos meios científicos pela precisão brutal com que abordava os assuntos. [...] Seria o mesmo? O velho Moreau havia feito espantosas comunicações científicas em matéria de transfusão de sangue e de desenvolvimentos vegetativos mórbidos. Estava no apogeu da fama quando de súbito teve de subtrair-se aos olhos do mundo. [...] [O] Doutor Moreau teve de abandonar Londres. Os seus colegas investigadores o repeliram. A vida lá tornara-se impossível. Algumas das suas experiências eram, segundo contava o repórter, de uma infinita crueldade. Moreau poderia ter reconquistado

H. G. Wells, década de 1890, época em que escreveu A Ilha das Almas Selvagens. 14

sua posição social desistindo daquele gênero de experiências; mas apaixonara-se e preferiu retirar-se para continuá-las em outro ponto do globo. Era celibatário e portanto livre de amarras. (Cap. VII)

A quem cabe os pesadelos As histórias de FC podem se dividir, neste aspecto, em duas tendências principais: as que atribuem os pesadelos científicos à ciência produzida pelos governos e pelas megacorporações, e as que as atribuem aos livre atiradores, os cérebros excluídos da ciência oficial, os marginais recusados pela Academia. Griffin e Moreau pertencem nitidamente ao segundo grupo. O perfil de Moreau como cientista é examinado por Ana Claudia Aymoré Martins em Morus, Moreau, Morel –– A ilha como espaço da utopia (Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2007), em que ela relaciona a Utopia de Thomas Morus com os romances de Wells e de Adolfo Bioy Casares (La Invención de


Morel, 1940). Para ela, A Ilha das Almas Selvagens...

nada tem que ver com o céu ou inferno. (Cap. XIV)

...resulta claramente num protesto contra o direito, tão categoricamente afirmado em seu tempo, da ciência e dos cientistas de realizarem todo o tipo de experiência, até as mais cruéis e macabras, em animais. (p. 85)

René Descartes chegou a afirmar que animais não sentem dor, e que os gritos de um animal vivisseccionado não são diferentes do barulho produzido por um objeto qualquer sendo destruído a marteladas.

Existem partes iguais, no projeto de Moreau, de curiosidade científica objetiva e de prazer sádico gratuito. A cena em que Moreau crava o canivete na própria coxa para mostrar seu desprezo pela dor mostra o quanto esse projeto sádico reflete sua personalidade como um todo, e o discurso pronto (sem dúvida várias vezes repetido, quando ele ainda estava na civilização) de justificativas até mesmo religiosas para seus experimentos: Além disso, Prendick, sou um homem religioso, como todos os homens bem equilibrados, e tenho seguido os caminhos do Arquiteto Universal melhor que o senhor –– porque vivo a investigar suas leis enquanto outros, como o senhor, passam a vida a caçar borboletas. E na verdade direi que prazer ou dor

Comenta Ana Claudia Aymoré Martins:

Já o crime de Moreau, Deus legislador de seus filhos, configurados como míticas quimeras, é sua insensibilidade ao sofrimento e à dor. Por isso, a Casa da Dor, os uivos e os gritos das criaturas noite adentro são o elemento central capaz de capturar a empatia do leitor, hiperbolizada pela própria inutilidade prática da pesquisa[.] (p. 86) Todo o sofrimento gerado por Moreau é inútil: as criaturas artificialmente transformadas em seres humanos voltam a se animalizar, apesar dos ritos medonhos, das litanias repetidas, da vigilância permanente, das delações mútuas. The Island of Dr. Moreau inaugura também uma linha de narra15


tivas em que vemos um indivíduo privado do fulgor da inteligência humana acender-se brevemente e depois retornar à treva inicial, como no clássico da FC Flowers for Algernon (1959) de Daniel Keyes e o filme Tempo de Despertar (Awakenings, 1990, Penny Marshall), em que Robert De Niro faz um paciente catatônico que, ao receber uma medicação especial, recupera a lucidez e a energia vital por um breve espaço de tempo. Talvez o lado realmente trágico do livro de Wells não sejam as terríveis cirurgias sem anestésico a que os animais de Moreau são submetidos, mas o fato de que após esse processo eles adquirem um arremedo de consciência humana, desenvolvem emoções humanas, têm vislumbres de ideias e de aspirações humanas, mas depois veem-se fatalmente retornando ao estágio de feras.

A Ciência Gótica e os abismos do inconsciente Sendo um produto da época vitoriana, The Island of Dr. Moreau está profundamente embebido 16

daquilo que eu chamo de “Ciência Gótica”, um conjunto de narrativas que, sob pretextos científicos, fingem apontar para as possibilidades racionais e iluministas da nossa civilização, mas em última análise indicam os abismos profundos do inconsciente, dos medos, da estranheza que subsiste em nossos comportamentos individuais e coletivos. Como diz o compositor e escritor Fausto Fawcett: “Dentro de todo Jetson existe um Flintstone”.

Por baixo das racionalizações científicas a respeito da plasticidade das formas vivas (“plasticidade” sendo encarada, em última análise, como a capacidade de se adaptar, de evoluir) parece existir o impulso sádico de dominar transformando, de impor uma suposta imaginação criadora a uma matéria plástica, maleável, submissa, negando ao mesmo tempo que essa matéria seja capaz de sofrer.

Gene Wolfe, o autor da série The Book of the New Sun, e de obras de FC como The Fifth Head of Cerberus e The Island of Doctor Death and Other Stories, recorda


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H. G. Wells participando de um jogo de guerra. Foto publicada pela primeira vez no Illustrated London News (25/01/1913).

o impacto da primeira leitura do livro de Wells, “numa única tarde de calor tropical”: Este é o nosso romance definitivo de ficção científica e a nossa história definitiva de horror. Ele mostra para onde estamos nos dirigindo, e mostra que de certa forma já chegamos

lá: que somos piores do que as feras, e que quando criarmos o nosso monstro definitivo, iremos descobrir nele um adversário tão maligno quanto nós mesmos. (Horror: The 100 Best Books, ed. Stephen Jones & Kim Newman, 1988) Braulio Tavares

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H. G. WELLS Entre a Aventura e a Ficção Científica A ILHA DAS ALMAS SELVAGENS apresenta a aventura de Edward Prendick, náufrago que vai parar em uma ilha isolada, onde estranhos experimentos são realizados pelo Doutor Moreau. O livro pertence a um ramo dos mais ricos da literatura fantástica ou de aventuras, afirma Braulio Tavares no prefácio desta edição; Prendick não era um aventureiro profissional preparado para enfrentar perigos, mas um homem comum (como o próprio leitor). Mais de 120 anos depois de sua publicação, A ILHA DAS ALMAS SELVAGENS permanece atual, principalmente pela reflexão que traz, justificando a reedição deste clássico sombrio e perturbador. A narrativa aborda, como poucas, a onipotência com que os humanos tratam as outras espécies e discute o sempre atual tema da ética na Ciência. A primeira edição foi lançada no Brasil em 1935, e contou com a tradução de Monteiro Lobato para o já clássico The island of Doctor Moreau, período próximo à versão cinematográfica de A ILHA DAS ALMAS SELVAGENS (1932) de quem a edição brasileira incorporou o nome.

ISBN 978-65-86809-00-8

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Bandeirola

786586 809008

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H. G. WELLS e A ILHA DAS ALMAS SELVAGENS Braulio Tavares  

Prefácio de Braulio Tavares para H. G. WELLS, A ILHA DAS ALMAS SELVAGENS, Bandeirola, 2020, CLÁSSICOS VINTAGE - Ficção Científica, edição...

H. G. WELLS e A ILHA DAS ALMAS SELVAGENS Braulio Tavares  

Prefácio de Braulio Tavares para H. G. WELLS, A ILHA DAS ALMAS SELVAGENS, Bandeirola, 2020, CLÁSSICOS VINTAGE - Ficção Científica, edição...

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