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Entrevista pessoas têm acesso à transporte, educação, saúde e isso aumenta a qualidade de vida. Também há muito pouca violência e tudo isso faz com que os sindicatos possam se preocupar com outras coisas. Ao mesmo tempo, no dia-a-dia, as negociações são mais brandas, mais fáceis. Talvez porque já exista, entre os próprios patrões, uma cultura de que os direitos trabalhistas devam ser respeitados. RB – E o estágio, como foi? Anabele – Eu fiz o meu estágio na PSI – uma organização internacional sindical que trabalha com o pessoal de serviços públicos. E foi uma experiência muito boa, até porque existe um interesse grande em interagir com a realidade do Brasil. Por exemplo, eles queriam saber mais informações sobre o FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço), que não existe em outros lugares e poderia ser uma alternativa interessante para países da África ou a Índia. Outro ponto em que pudemos contribuir bastante foi com relação à política de privatizações. A Europa está passando hoje pelo que o Brasil passou na década de 90. E o caso da privatização da energia elétrica brasileira foi muito utilizado como exemplo de que privatizar os serviços públicos não funciona. Tanto que, depois, o governo teve de intervir no setor e criar programas como o “Luz para todos”. Ao mesmo tempo, também pudemos falar de nossa organização, que ajudou a impedir que outras empresas fossem privatizadas, como a Caixa e o Banco do Brasil.

grupos se mobilizando para garantir um mínimo de benefícios sociais. Muitos países também já estão aumentando as barreiras para estrangeiros, com medo de uma imigração em massa... RB – Você sentiu algum tipo de rejeição por ser de outro continente? Anabele – Não. Talvez por tudo o que aconteceu na segunda guerra, o alemão tem pavor de ser classificado como nazista ou como alguém que discrimina. Lá existem muitos turcos, por exemplo. E, ao mesmo tempo em que os alemães procuram passar uma imagem de que tudo vai bem, as duas culturas não se misturam. E são quase opostas. Existem bairros turcos, que mantém suas características, e praticamente não convivem com os bairros alemães. Mas o brasileiro tem uma receptividade muito boa dentro da Europa. E a imagem do Brasil já não é a mesma. Não me perguntaram sobre Pelé. Queriam saber sobre Lula, sobre Dilma, sobre política. Existe uma visão muito boa do que vem sendo feito no Brasil em termos de políticas sociais. RB – E como foi a convivência com os outros participantes? Anabele – No começo era estranho. São culturas diferentes. A gente contava uma piada, o pessoal não entendia... Nossa relação mais fácil foi com os indianos, que tem uma cultura muito acolhedora, como

Anabele Silva

a nossa. Mas este é um exercício importantíssimo: o da democracia e do convívio com as diferenças. Às vezes, tinha coisas que a gente achava absurdas, mas que fazem parte da realidade do outro, e a gente tem de respeitar e entender. RB – Além desta, que aprendizagens você traz para cá? Anabele - A Europa, agora que está em crise, sob ameaça de perder aquilo que sempre teve, começa a se tocar de que precisa lutar pela garantia de direitos sociais mínimos. Então, o movimento sindical precisa estar alerta sempre, porque mesmo aqueles direitos que parecem imutáveis podem ser perdidos. Na Europa, apesar das negociações serem mais brandas, quando se ameaça cortar algum direito, o trabalhador é muito ativo: grita, vai pra rua. Aqui – talvez pelo fato de já termos vivido tantas crises, recessões e inflações – gerou-se uma passividade, cultivou-se a ideia de que política não se discute. E isso nós precisamos mudar. Até porque o Brasil é a sexta economia do mundo. Mas a concentração de renda é altíssima e as pessoas continuam vivendo mal. Então, esta nossa luta contra os bancos é também uma briga pela repartição desta renda, deste lucro absurdo dos banqueiros. Esta é uma função de todos nós, trabalhadores. Não adianta só crescer. É preciso repartir bem o bolo para que todos saiam ganhando.

Anabele teve a companhia de colegas de todos os continentes

RB – Você esteve na Europa em tempos de crise. Como você viu tudo isso? Anabele – Na verdade, como a Alemanha é a melhor economia da Europa, não dava para perceber isso de perto. Mas, o que os professores falavam, por exemplo, era que teriam de aprender a fazer o que o Brasil fez em termos de políticas sociais. Salário mínimo, por exemplo. Lá, nunca existiu porque a economia funcionava e não havia necessidade. Mas já existem REVISTA DOS BANCÁRIOS 9

Revista dos Bancários 14 - jan. 2012  
Revista dos Bancários 14 - jan. 2012  

Janeiro 2012

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