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Volume Um

Sem

T铆tulo

An么nimo

Bananal Das Letras


Sem TĂ­tulo


01.

E

ram três e cinqüenta da tarde. Motivado pela calmaria da cidade neste horário e decidido a sair para fazer pequenas compras, ele andou tranquilamente até o ponto de ônibus logo na esquina de sua casa, aguardou poucos minutos e entrou no primeiro veículo que passou. Pagou sua passagem com moedas contadas e analisou o ambiente procurando algum lugar para sentar-se. Dentre as duas dúzias de assentos apenas três, estes ao corredor e não às janelas, estavam livres. Curiosamente, todos os três ficavam ao lado de assentos ocupados por três igualmente belas (embora em resto totalmente distintas) garotas. A primeira tinha cabelos tão negros quanto os olhos e que contrastavam com a palidez excessiva de sua pele. Era, de longe, a mais bela das três. Encarava distraída a paisagem urbana através das janelas embaçadas da lotação e escutava alguma coisa em seus fones de ouvido. Distante, mal notou a entrada dele. A segunda falava alegremente ao telefone. Aparentava ser bem jovem e apressada. Vestia um uniforme escolar e carregava no colo uma grande mochila vermelha e que combinava com seus cabelos ruivos. Tinha a pele corada e a voz aguda, ria abertamente enquanto conversava. Notou a chegada dele apenas por algo mais do que um instante, pelo qual analisou-o da cabeça aos pés, antes de voltar à sua conversa. A terceira estava sentada próxima à porta de saída e lia um livro de capa roxa e aspecto antigo. Tinha cabelos loiros e olhos verdes e usava roupas de frio, embora o tempo estivesse agradavelmente quente. Foi a que mais prestou atenção nele. Encarou-o curiosa por longos momentos antes de retomar sua leitura. Tinha uma expressão tímida e usava óculos que escondiam sua beleza simples. Ele encarou as suas três possibilidades de assento. Nervoso, analisou as três garotas. Não imaginava conversar com nenhuma delas e não guardava qualquer expectativa porque sua timidez o dominava, mas mesmo assim aquela escolha parecia uma grande decisão. Uma delas é a garota de sua vida e tomará a iniciativa. Ambas as outras o rejeitarão e ignorarão.


02.

I

ronizando mentalmente sua ansiedade em tomar uma decisão tão banal, ele se sentou ao lado da mais próxima das três, aquela de cabelos escuros. Agora ao lado dela conseguia escutar o baixo som vindo dos fones de ouvido. O volume parecia estar bastante alto, mas a música era de uma tristeza serena. Ela encarou-o por um pequeno instante quando ele sentou e, ao perceber que ele notara seu olhar, ela desviou o rosto de volta para a janela. Minutos se passaram e um silêncio desconfortável imperava no ar. As outras duas garotas abandonaram o ônibus, a ruiva vinte minutos após a chegada dele e a loira quarenta. Esta segunda fitou-o com um último olhar triste antes de abandonar o veículo. A morena permanecia calada e escutando músicas que seguiam todas em melodias de tristeza. Ela se ajeitou desconfortável certo momento, talvez por notar que ele, hipnotizado por sua beleza, não conseguia deixar de admirá-la. Ela não tomaria atitude nenhuma. Triste e frustrado, ele se levantou para abandonar o ônibus em seu ponto que logo mais vinha. Ela olhou para ele mais uma vez nesse momento e um esboço mínimo de sorriso passou por seus lábios. Ela se levantou também, para surpresa e alegria dele. Ele dificilmente via garotas tão bonitas ou ficava tão perto de uma. Uma coragem inacreditável parecia tomar conta de seu corpo. Sua cabeça passava por mil cenários e situações que poderiam ocorrer se ele tentasse falar com ela. Estavam lado a lado na porta de saída. Ele, aparentemente ansioso, batendo os pés nervosamente no chão. Ela agora tirava os fones de ouvido e apertava o botão pedindo para descer.


03.

o

ponto em que desceriam se aproximava. Ainda nervoso, mas levado por uma motivação obscura e incomum, ele se decidiu e falou. — Desculpe, mas... Para onde você está indo? – A voz saiu baixa, quebrada e desafinada. Ela sorriu ligeiramente, em um misto de surpresa e algo que talvez fosse deboche. Entretanto, respondeu aparentemente tranqüila. — Vou fazer compras. Gosto de sair no finalzinho da tarde, a cidade parece bem mais tranqüila. Por quê? Ele engasgou a resposta, dando risos nervosos. Perdeu-se em vogais tentando formular alguma coisa. O sorriso dela foi substituído por uma curiosidade felina e ela observava-o da cabeça aos pés com seus olhos escuros enquanto esperava a resposta. —Nada, apenas... A música que você estava escutando estava alta e eu consegui escutar e... – Ele engasgou novamente. Ela aguardou ele completar a frase. O ponto em que desceriam estava a dois quarteirões de distância – Eu me interessei pelo que consegui ouvir e queria perguntar a banda. Eu vou fazer compras também. Você pareceu triste, pode parecer idiota, mas eu poderia te fazer companhia. Ela deu um sorriso amargurado e soltou uma risada baixa e seca em resposta. Mas pareceu mudar de idéia depois de alguns momentos e disse, como que interessada na experiência, que gostaria de alguém para conversar. Ele deu um sorriso aberto e deixou escapar um suspiro de alívio. O ônibus finalmente parou para descerem. Começaram a caminhar em passo lento, olhando para a cidade calma e para o céu alaranjado. — O que você estava escutando? – Ele perguntou, agora mais confiante. —É a trilha sonora de um filme. – Ela respondeu, desinteressada. Ele perguntou qual filme. Ela respondeu, mas ele não reconheceu o nome.

Passaram mais alguns minutos trocando pequenas frases. Pareciam ambos intimidados um pelo outro. Ele em dado momento perguntou para ela qual era seu nome. Ela disse se chamar Diana. Ele percebeu que não estavam seguindo o caminho em direção ao supermercado. Estavam se intrincando em pequenas ruelas de um bairro residencial de classe média. Incomodado, ele se viu novamente num impasse.


04.

o

caminho ia cada vez mais distante do ponto de ônibus e do supermercado, mas ele continuou a segui-la sem questionar. Quanto mais andavam, mais confiante ela parecia ficar. Conversava agora abertamente, contando banalidades em uma voz serena e regular. Existia algo de misterioso em seus trejeitos e em seu aspecto, mas ele não era capaz de questioná-la sobre nada. Fingindo não perceber o que acontecia, apenas seguiu caminhando com ela e escutando-a falar. Agora era ele que dava respostas curtas e sempre olhava ansioso para o lugar onde estavam. Quarenta minutos se passaram com eles andando pela cidade. O céu já começava a escurecer e uma brisa fria começava a passar pelas ruas. Volta e meia ela anunciava, com uma risada sutil logo após, que não demorariam muito mais. Em dado momento ela disse que precisava “buscar algo” e que a companhia tinha vindo muito bem-vinda. Eram cinco e meia quando finalmente pararam. Estavam em uma pequena rua de paralelepípedos e sem saída, absolutamente vazia de pessoas. Entre as casas modestas da rua, o casarão antigo e mal cuidado para qual foram se destacava. O portão estava enferrujado e sem tranca, permitindo a fácil entrada de quem quisesse. Diana foi até a porta animada, chamando para que ele a acompanhasse. Nervoso pela aparência do lugar, ele sugeriu esperar do lado de fora. Ela, ligeiramente desapontada, permitiu que ele assim o fizesse. Ela tocou a campainha e foi atendida pouco depois. O homem que abriu a porta aparentava ter quarenta anos por suas rugas profundas e olheiras acentuadas. Era obeso e sujo, com a barba por fazer e roupas desbotadas. Deixou cair um olhar severo sobre ele enquanto dava passagem para que ela entrasse. A porta se fechou sem maiores apresentações. Vinte minutos se passaram enquanto ele esperava do lado de fora, mas a espera foi interrompida por barulhos diferenciados vindos do casarão. Ele escutou um grito surdo e abafado vindo de algum lugar dentro da residência, seguido de um baque surdo.

Ele foi até a porta com os passos oscilando. Nervoso, apertou a campainha. Não obteve resposta. Colocou a mão na maçaneta e descobriu que a porta estava aberta. Ao entrar no cômodo, ele se sentiu ainda mais nervoso. A sala não tinha qualquer tipo de mobília. A única coisa que havia ali era uma gigantesca pilha de caixas de papelão lacradas na parede oposta. Uma única porta, na parede esquerda, estava entreaberta.


05.

E

le andou até a porta entreaberta, abriu-a e se deparou com um corredor embolorado e vazio. Não existia qualquer mobília ali igualmente. A escada de madeira estava em péssimo estado e rangia a cada passo que ele dava. Ele ouviu mais barulhos durante a subida. Outras batidas, algo sendo arrastado, uma porta sendo batida. Ao chegar no segundo andar se deparou com duas portas. Uma delas, a mais próxima, estava escancarrada e dava para um quarto escuro e vazio. Na outra porta, no fim do corredor, luz amarelada vazava pelas frestas. Ele seguiu até a porta no final do corredor. Abriu-a lentamente, apavorado pelo que poderia encontrar ali. O quarto estava bem iluminado e, diferente do resto do casarão, parecia ser habitado. Um armário espelhado cobria uma parede inteira. Na parede oposta havia um quadro enorme de uma paisagem rural, uma escrivaninha, e uma mesinha, ambas de madeira. Uma poltrona ficava logo próxima à porta e, no centro do quarto, uma cama de casal. Uma saída para uma pequena sacada ficava na parede restante. Apenas Diana estava no quarto, sentada na cama com as pernas cruzadas e cantarolando alguma coisa. Ao vê-lo, ela deu um sorriso radiante e se levantou da cama num pulo. Acenou para que ele entrasse e ele, ainda hesitante, assim o fez. Ele sentou na poltrona e ela se aproximou dele. Um tenso silêncio dominou o local. Ela, em um movimento rápido e inesperado, beijou-o e guiou-o até a cama num empurrão brusco. Os beijos eram lentos e carinhosos e as mãos dela finalmente chegaram até a virilha dele. Ele arregalou os olhos, nervoso. Aquilo não poderia ser normal, de forma alguma. Ela o conhecera hoje e mal conversaram, por que estavam agora juntos em uma cama? Entretanto, pouco tempo ele teve para protestar. Diana despia ambos lentamente e com um sorriso maldoso no rosto. Fizeram sexo ali mesmo, sem trocar nenhuma palavra desde que ele entrara no cômodo. Terminaram vinte minutos depois e ele, deitado ofegante

na cama, observou ela levantar-se e vestir-se novamente com uma naturalidade quase absurda. Ela jogou as roupas dele de volta. Ele se vestiu e sentou na cama novamente. Ela sentou do lado dele e soltou um pequeno riso. Ele estava perplexo e incomodado. Apenas agora ele notara a ausência do homem que viera recebê-la quando chegaram. Ele encarou sua companheira, que agora falava qualquer coisa à respeito de deverem ir embora por já estar tarde, e pensou em que tipo de situação estava acontecendo ali.


06.

E

le tomou coragem. Não poderia apenas consentir com tudo aquilo apenas em silêncio. Quando ela se levantou e se dirigiu até a porta do quarto falando alegre e casual que deveriam ir embora, ele se manifestou. —Espere um pouco, eu estou um pouco... Incomodado com isso tudo. Tem algo estranho aqui, não tem? Onde está o homem que foi te receber na porta? — Ora, ele está no outro quarto dormindo. Pare de besteiras, vamos logo que está tarde – Disse Diana, tentando desconversar. Ela soltou um pequeno riso, claramente falso e ligeiramente nervoso. Ele sabia que ela mentia. Passara pelo outro quarto e vira que estava vazio. Ela, ao se virar para sair e perceber também que a porta do outro cômodo estava aberta, voltou para o quarto, pegou-o pelo braço bruscamente e tentou guiá-lo para a saída. Ele resistiu e perguntou novamente, com a voz agora alta e nervosa: —Por que está escondendo alguma coisa de mim? Onde estamos e por que você me trouxe até aqui? Ela deu mais um último sorriso. Disse, com a voz trêmula e pela primeira vez sem total controle: —Eu só queria um lugar para ficar sozinha com você. Só isso. – Ela riu novamente – Posso parecer boba, não? Ele manteve a cara fechada, recusando-se a sair. Diana percebeu que fracassara em convencê-lo, soltou seu braço e saiu do quarto correndo. Ele tentou segui-la, mas ela desapareceu na noite que começava quando saiu do casarão. Ele fez o próprio caminho de volta para casa naquela noite. Um mês se passou sem qualquer notícia ou resposta de Diana. Ela tinha anotado o telefone dele, mas nunca ligara. Já ele, não tinha como saber mais dela. Um dia, entretanto, ele recebeu uma mensagem vinda supostamente dela.

“Peço desculpas por como agi quando nos conhecemos. Não era a melhor das situações. Espero que não tenha se sentido usado ou confuso. Quero te encontrar para tentar explicar melhor o que aconteceu. Que tal nos encontrarmos no ponto de ônibus em que descemos juntos, daqui a três dias. Quatro da tarde, talvez? Entenderei se você não vier”. Ele desconfiou imensamente do convite. Por que retomar contato apenas agora, um mês depois? Por que ela fugira na noite em que se conheceram? Ele tinha diversas dúvidas sobre o que acontecera.


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