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GLOSSÁRIO CAIÇARA De Ubatuba

PEQUENO VOCABULÁRIO DE PALAVRAS E LOCUÇÕES QUE COMPÕEM O FALAR DO POVO CAIÇARA DO LITORAL NORTE DE SÃO PAULO C O M P I L A Ç Ã O DE:

PETER SANTOS N É M E T H


GLOSSÁRIO CAIÇARA DE

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P E Q U E N O VOCABULÁRIO DE PALAVRAS E LOCUÇÕES QUE COMPÕEM o F A L A R DO POVO CAIÇARA DO LITORAL N O R T E DE S Ã O P A U L O COMPILAÇÃO D E : PETER SANTOS N É M E T H


Dados Internacionais de Catalogação na Publkação (CIP) (Câmara Brasileira do Ltvro, SP, Brasil)

COMPILAÇÃO DE: PETER SANTOS N É M E T H

Németh, Peter Santos Glossário caiçara de Ubatuba : pequeno vocabulário de palavras e locuções que compõe o falar do povo caiçara do litoral norte de SãQ Paulo / Peter Santos Németh. -- São Paulo : AU Print Editora, 2010.

1. Caiçara - São Paulo, Litoral norte 2, Caiçara - São Paulo. Litoral norte • Usos e costumes 3. Caiçaras - Ubatuba (SP) 4. Expressões idiomáticas 5. Palavras e locuções I. Título.

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GLOSSÁRIO C A I Ç A R A

CDD-305.50981612

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UBATUBA

índices para catálogo sistemático: Caiçaras: Litoral norte paulista : Expressões idiomáticas : Glossários

305.50981612

P E Q U E N O VOCABULÁRIO DE PALAVRAS E LOCUÇÕES QUE COMPÕEM o FALAR DO POVO CAIÇARA DO LITORAL N O R T E DE S Ã O P A U L O

Al I hPRINT ALU E D I T O R A


GLOSSÁRIO CAIÇARA DE UBATUBA Copyright ® 2010

by Peter Santos Németh

O c o n t e ú d o d e s t a obra é de responsabilidad do autor, proprietário do Direito Autoral. Proibida a venda e r e p r o d u ç ã o parcial ou t o t a l sem a u t o r i z a ç ã o .

Projeto Gráfico: Estefânia

Lorenzetti

Capa: "Giró V e l h o "

S e b a s t i ã o Guiraud e Otacílio Giraud Praia da Enseada

1950

(arquivo Família Prochaska)

IflOGWJMOi: *çAa cm TJfiAi. DO EST*PO M 5*0 PAULO

GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO

ALUPRINT

I l u s t r a ç õ e s originais " H a n s S t a d e n " - 1 5 5 7 -

Dantes Editora

"A linguagem desses hahitantes das costas ocupados da pesca e vivendo dela, tem um tipo especial que me impressionou logo ao ouvi-los. Descritiva em geral, ela recebeu o rápido esboçar dos quadros das súbitas tempestades; o tnorno embater das vagas sonolentas na praia deu-lhes um tal ou qual cadência nas palavras, e o hábito deste silêncio prolongado da pescaria tornou esses homens algum tanto pensativos". Vrecho de: "A Massanibit"; Duarte Paranhos Schutel, 1861.

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Apoio:

ALL PRINT EDITORA E GRÁFICA LTDA www.alLpnnteditora.com.br

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2478-3413

PESCADORES DA ENSEADA

UNDART 5


P a r a a N a รง รฃ o C a i รง a r a , e m e u s Mestres d a Praia da Enseada em Ubatuba.


SUMÁRIO

NOTA M E U CHAMEGO A , B C D E F G H I J L M N O P Q R

S T U V X Z M U I T O OBRIGADO ANOTAÇÕES BIBLIOGRAFIA

i i 13 17 25 33 50 54 63 67 72 73 75 77 80 88 90 92 102 104 108 113 119 120 122 123 124 127 9


NOTA

Esta pequena compilação surgiu, em sua maior parte, da convivência diária com a comunidade de pescadores tradicionais da Praia da Enseada em Ubatuba, litoral norte de São Paulo. Este glossário nem de longe abrange ou pretende alcançar a totalidade do universo de expressões e palavras usadas no falar característico do povo Caiçara. E apenas o resultado de curtos 7 anos de convivência íntima com alguns dos últimos guardiões da antiga tradição Caiçara local, tradição que hoje se detecta tão somente por este falar característico recheado de arcaísmos, palavras e expressões forjadas no linguajar ibérico e tupi, que a nova geração já não usa mais. É a tentativa de justamente preservar ao menos alguns ecos do "tempo antigo", ainda que muito já se tenha perdido, a f i m de registrar, preservar e recompor este modo de vida ancestral, perfeitamente independente em sua incomparável ligação simbiótica com o mar e a exuberante natureza do nosso litoral. Arreia! P.S. Atualizações, acréscimos e correções ficarão para uma edição futura. Sugestões de novas palavras podem ser enviadas para: (12) 3842-4518, (12) 9769-2233 bambuluz@yahoo.com.br ou Rua Eduardo Graça 51 Praia da Enseada Ubatuba-S.P. i' Í Cep 11.680-000

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M E U CHAMEGO

o m e n i n o , Roberto P r o c h a s k a . P r a i a d a E n s e a d a - 1956. ( a r q u i v o F a m í l i a Prochasl*.a)

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Foram meus avós que começaram tudo. N u m tempo em que se demorava 8 horas pra vencer a serra de jipe willys e na Praia da Enseada havia apenas meia dúzia de casas de "turista", eles já eram queridos pela turma. Nosso rancho, o Meu Chamego, era o ponto de encontro onde no serão, caiçaras e turistas se juntavam para ouvir as famosas estórias e brincadeiras de meu avô, o Dr. Mário e do General Tricta meu tio-avô. A moçada reunida se deleitava com os jogos regados a refrescos e bolinhos feitos por minha avó. Dona Helena e sua irmã a Tia Biá. Tempos áureos do lampião a gás e do arrastão de praia, serões inesquecíveis pra criançada caiçara que ali fazia contato com outro mundo, enigmas, danças, mímica, adivinhações, poesia, que os fazia vibrar de contentamento; mais tarde pude saber, dos homens que aqueles meninos se tornaram. Depois veio a luz elétrica, a estrada de asfalto, e o encanto se desfez: na praia iluminada nem arrastão, nem peixe, nem lua prateada. E foi esta a Enseada em que cresci, e aqueles meninos hoje adultos, no início comigo arredios, me testando e medindo, aos poucos me foram aceitando, pois era eu quem agora vibrava com os contos de outro mrmdo, assombrações, ouro encantado, mistérios, aventuras e pescarias; "só podia ser neto do Dr. Mário". Assim f u i guardando palavras, falares e histórias da tradição que me abraçou, tornei-me aprendiz, perfiei, encabecei, remendei, chamei água, encontrei, matei tainha, garoupa e parati. Do mar v i v i e aprendi u m bocado, felicidade que em menino jamais havia sonhado. Hoje, os "novos turistas", querem tirar canoa e rede da praia, dizem que é feio, bom é condomínio fechado, trator na areia puxando iate bacana, arrancar o jundú e plantar grama. 13


E o caiçara: "Esse aí, é arrogante e mal encarado, só cria problema pro nosso lado"; pois à beira-mar não se passa fome, por isso nunca vai haver pescador amansado. Já, enquanto eu viver, no " M e u Chamego" vai ter sarau, aqui canoa vai ter sombra e rede vai ter varal, vai ter banco pra ouvir história e brasa pra carapau. Viverá sempre comigo a glória do tempo antigo. Peter Santos Németh, O Alemão; Praia da Enseada - Outono de 2007.

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P r a i a d a E n s e a d a - 1950 {arquivo Família Prochaska)

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"Atingimos a caiçara, uma fortificação semelhante a uma cerca de lardim, feita de estacas grossas e longas posicionadas em torno do conjunto de cabanas. É usada pra evitar os ataques dos inimigos". ^ ^

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I l u s t r a ç õ e s originais " H a n s S t a d e n " - 1 5 5 7 - D a n t e s E d i t o r a


A "As aldeias costumam ser protegidas do seguinte modo: em torno das cabanas ergue-se uma cerca feita com troncos cortados de palmeiras, com mais ou menos uma braça e meia de altura e tão grossa que nenhuma flecha possa penetrá-la. Há nela pequenos buracos pelos quais atiram suas flechas... Em volta dessa cerca erguem ainda unta outra, feita com varas longas e grossas, presas não muito próximas umas das outras, restando no meio uma separação que não permite a passagem de um homem. Em algumas tribos, é costume espetar a cabeça dos inimigos comidos em estacas, na entrada da aldeia". TrecJio de:" Verdadeira e airta narratwa sobre todos os usos e costumes dos Tupinainbá, como os presenciei durante o tempo de meu catimro em seus domínios. Eles moram na América e sua terra fica a 24 graus de latitude sut, fazendo fronteira com a região da embocadura do Rio de }aneiro";de Hans Staden, 1557; ilustração da edição original; tradução Pedro Siissekind, limo! Dantes Editora „..;.., •• i . - n • •Í;^',:-, V-

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À bem dizer - expressão usada para deixar uma opinião bem clara, significando, melhor dizendo, na verdade, realmente; " À bem dizer, a culpa f o i m i n h a " . A estrela mudou de lugar - diz-se de estrela-cadente. À garné - de qualquer jeito, espalhado; "Não tem onde por; põe à garné". À la sueste - tipo de vento constante que sopra de sueste quase sempre trazendo chuva fina constante. A maré torro - diz-se de maré muito seca. À rodo - expressão que significa muita quantidade, "Deu espada à rodo". À rola - diz-se do barco deixado à deriva, ao sabor da maré; "Pescamos à rola"; também significa muita quantidade; "Tem corvina à rola." À sobrepau - modo de se assar a tainha, direto na brasa sobre galhos de goiabeira verdes ou talos de folha de bananeira, o mesmo que moquém. > , , ^ , ••4 Às canha - ao contrário, com a mão canhota. Abestalhado - diz-se da pessoa que não se integra ao grupo, pessoa r u i m , u m besta. Abotoar a rede - ato de se prender uma rede a outra ou uma rede ao rodo de cerco, através do botão de rede. Abraçar - o mesmo que abarcar, abranger, agarrar; "Se abraquemo com aquilo tudo!". Abricó - pequeno fruto do abricoeiro, bem redondo e amarelo, usado como ceva para caçar pacas. Abricoeiro - árvore de médio porte muito comum no litoral, cujos ramos com folhas nas festas de junho são lançados numa fogueira produzindo sonoros estalos. A b r i r água - expressão que significa sair, afastar-se, ir embora; " O cação sumiu, então a tainha abriu água".

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Aceiro - a faixa de terra limpa de mato, feita para impedir que a frente de fogo avance. Acoitar - o mesmo que hospedar, receber visita. Acostar - o mesmo que encalhar na praia. Acostumar com a rede - diz-se do cardume que, no cerco à tróia, se acostuma com o tamanho e posição da rede e não v a i na malha; "Tem que bater a pedra logo se não o peixe acostuma com a rede, fica rodando e não malha". Adonde - o mesmo que onde. Adormentar - o mesmo que colocar um bordado numa canoa; "Coloquei u m dormentozinho na canoa". Adufe - instrumento musical, o mesmo que pandeiro. Adular - o mesmo que fazer carinho; "Tá adulando". Afeiçoar - talhar ou esculpir algo até o formato desejado, "Afeiçoei a madeira até ela encaixar no buraco". Afichar - apertar, prender; "Tem que apertar bem se não, não aficha o nó". Afogar - o mesmo que encher d'água; " A canoa já tava afogando". Água leste - correnteza do mar que corre rumo ao leste, também "águas a leste". Água sul - correnteza do mar que corre rumo ao sul, também "águas ao sul". Aguagem grossa - mudança da cor e textura da superfície d'água ao tremer pela agitação de u m cardume de peixe, indica o local e o tamanho do cardume; "Olha a aguagem grossa que vai lá". Agulha de palombá - agulha grande de ferro, meio arcada, usada para fechar o saco de lona em que se transportava o peixe seco. Agulha de pesca - instrumento de madeira ou plástico com o qual se costura a rede de pesca. Ai ai ai - expressão falada com inflexão e sotaque inimitáveis, é a que mais simboliza o autêntico falar nativo caiçara, muito usada solta, no início ou final de uma frase, significando, espanto, admiração, lamento ou lástima; outra variação, "iai iai".

Alba - o mesmo que estragada, passada, com relação à carne de peixe; "Essa carne tá meio aíba". Aíbo - expressão usada pelos ilhéus da Vitória que significa triste, tristonho; "Você está meio aíbo hoje". Ajutório - o mesmo que troca de dia, costume de ceder um dia de trabalho para o mutirão, esperando ser retribuído quando necessário for. Alagar - afundar n'água, virar a canoa; " A canoa fazia tanta água que quase se alaguemo!". Alanhar - ato de se fazer cortes paralelos profundos no peixe limpo, preparando-o para a salga, lanhar. Alaúza - algazarra, alarido, bagunça; " U m a alaúza só!" Alcatrão - líquido viscoso destilado de carvão mineral, antigamente era derretido no fogo e usado para pintar e conservar a madeira das canoas. Alegre - tipo de faca arcada em meia-lua, para dar acabamento em carpintaria e artesanato. •»'.i ^; " i r: Alfange - tipo de foice, igual a da "morte". Alfavaca - tipo de erva aromática excelente como tempero para peixe. Alferes da bandeira - o responsável pela corifecção da bandeira a ser colocada no mastro das festas católicas. Alojar - ficar quieto, parar; "Se aloja aí!". Alteia - o mesmo que sobe; "Quando alteia aqui, afunda lá". Aluir - bambear, afofar, afrouxar; " A árvore alui e caiu"; "Alói u m pouco que a estaca sai". Alumiar - iluminar, clarear; "Alumeia aí". Alvaiade - carbonato ou sulfato de chumbo triturado formando u m pó branco usado como pigmento, antigamente as canoas eram remendadas com uma mistura de alvaiade, gesso e óleo de peixe que depois cobria-se com uma chapa de cobre toda pregada. Alvorada - o mesmo que procissão de santo. Amadrinhar - o mesmo que puxar o saco, bajular. Amarar - o mesmo que sair mar a fora, tomar o rumo do mar, navegar; "Amarou-se".

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^ Glossário C a i ç a r a de Ubatuba

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Amarradilha - o mesmo que nó ou maneira de se amarrar algo; "Faz a amarradilha do seu jeito". Amarrando - diz-se do gosto de cica das frutas verdes, " O suco desceu amarrando". Amarrio - amarração; " C o m a embaúba se faz corda de amarrio". Ambuta - tipo de cipó abortivo utilizado pelos ilhéus da Vitória; "Cozinha aquilo, toma, e o sangue jorra". Ameaçado - diz-se quando a leitura do tempo dá sinais de mudança; " O tempo tá ameaçado". Âncora de cerco - âncora feita de duas forquilhas de árvore bem amarradas uma em oposição à outra, com uma pedra grande no meio das duas. Andar da rede - sequência ou caminho correto das malhas de uma rede; "Pra remendar tem que procurar o andar da rede". Andejo - O mesmo que andar muito, não parar. Anel do lagarto - assim chamados os anéis de couro secos do rabo do lagarto que eram usados como remédio para chio no peito. Anequim - tipo de cação, existindo u m tipo branco e outro azul, sendo o branco mais perigoso. Anóga - fruto redondo e pequeno muito oleoso, de casca dura como uma noz, que extraído da casca era antigamente espetado em u m arame e usado como lamparina, queima por uns 20 minutos, também é comestível. Ansiado - o mesmo que enjoado; "Tô ansiado". .IÍÚ, . Anuzinho - tipo de dança tradicional. Água de pomba - diz-se do local de pesca poluído, muito próximo da praia onde já não existem mais peixes como antigamente; alusão ao xixi de mulher; "Pescar o que nesta água de pomba?". Antonte - o mesmo que antes de ontem, 2 dias atrás. Aonde...? - expressão muito usada pelos ilhéus da Vitória sigiúficando, impossível, nem pensar, jamais. '• • Aos tento e contento - expressão que significa tempo bom e pescaria boa, usada na pesca de traineira. Apara - tipo de pescaria em que se capturam com canoas, os peixes que p u l a m para fora do lanço. 20

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Apartar - separar, afastar, morrer. Apertar o remo - remar mais forte ou mais rápido; "Aperta o remo antes que o vento caia!". Apoitar - o mesmo que ancorar, fundear. Apiaco - o mesmo que triste; "Que cê tem, que tá apiaco?". Apiá - o mesmo que chegar, descer em terra; " A l i é lugar bom de apiá". A p i n h a d o r cheio, com m u i t o , lotado, " A rede está apinhada de peixe". Apinxar - o mesmo que jogar; " A p i n x e i a âncora". Apitou - expressão usada quando uma rede de pesca lançada chega ao limite de sua altura e fica ora afundando ora boiando; "Lá por fora das Palmas tem 11 braças de fundura, uma vez eu larguei u m tresmalho de 11 braças de alto e a rede apitou". Aquele peixe - expressão usada quando não se pode falar o nome do peixe, principalmente jangolengo e roncador, que se está pescando ou vai pescar novamente, pois acredita-se que falando o nome do peixe ele some e não aparece mais. Ar - o reflexo do sol através de u m espelho; "Pára de jogar ar menino atentado!". Arceiar - colocar numa alça, prender com força para que não escape; "Arceia o peixe se não foge!". , , Aragem - vento fraco, corrente de ar. Araltec - Cola de resina epóxi que misturada c o m serragem é excelente para o conserto de canoas. Aranhola - tipo de siri do fundo do mar com pernas muito compridas, acredita -se transmitir febre. Arataca - tipo de prensa de espremer mandioca que consiste numa madeira apoiada sobre o tipiti onde se ia colocando pedras em cima até sair todo o caldo. Arcala - parte do entralhe de uma rede onde cada malha do pano de rede fica presa dentro de un\ laçada à tralha, cada laçada é uma arcala, cada arcala tem a medida do comprimento entre nós opostos de uma malha, cada arcala geralmente prende 1, 2 ou 3 malhas dependendo do feitio e função da rede. Areia - comando dado para se remar à ré, ciar. Glossário C a i ç a r a de U b a t u b a

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Arco de pua - ferramenta manual de se fazer furos em madeira com uma broca. Ardentia - luminescência azulada da água do mar causada por plânctons e visível nas noites sem lua. A r d i d a - diz-se de madeira ou coisa podre ou ressecada pelo s o l " A canoa tá meio ardida"; " A rede tem uns panos meio ardidos já". Areado - parte rasa próximo da costeira com fundo de areia bom para pescar certos peixes. Arejamento - o mesmo que derrame cerebral. Arfar - diz-se quando a canoa passa por cima de uma onda; " A r f o u a onda". Argau - irrstrumento feito de u m pedaço de bambu lascado deixando-se uma parte do gomo inteiro na parte inferior, usado para se tirar u m pouco de pinga de u m barril para experimentar; " M e dá u m argau de pinga". Argelho - assim chamada a argola de u m anzol. Arguêro - assim chamado u m cisco que cai no olho; "Tô cum arguêro no olho!". Armador - assim chamado o galho bem alto onde a gaiola era içada para caçar passarinho. Arrasar - assim chamada a primeira etapa do feitio de uma canoa, quando o tronco é pré-escavado; também significa encher d'água; "Arrasou de água a canoa". Arrastão - o barco de pesca de camarão ou sua própria rede de arrasto. Arrastão de praia - rede artesanal lançada por canoas e puxada para a praia através de longos cabos, às vezes demorando horas devido ao peso da rede. Arregaçar com o peixe - matar muito peixe; " A i ai ai, arregacemo com o peixe!". Arreiêra - assim chamada a corda amarrada atrás de u m corte de canoa, com finalidade de frear o tronco durante a puxada numa região íngreme. Arreia - expressão usada lamentando -se algo perdido o u que não se quer perder; "Arreia!, perdemo tudo!". 22

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Arremedar - fingir, imitar o assobio de passarinho com o intuito de atrair outro para a armadilha. Arriar - colocar na água, "Amanhã vamo arriar o cerco". Arriba - o mesmo que voltar, -"Vai arriba... então arribai, arribai". Arribada - pedaço de cabo de umas 20 braças, usado para se fechar a boca da rede de cercar á tróia, caso a rede não chegue e o lance fique aberto; o popeiro amarra a arribada na ponta da rede e rema até a bóia, então o proeiro segura a bóia firme enquanto o popeiro puxa a arribada até fechar a boca da rede. Arrodiar - cercar, dar a volta em tomo;" Arrodiamo aquilo tudo". Arrufada boa - alusão ao ronco que o remo faz na água quando a remada é executada com vigor. Arruinar - diz-se quando vai haver mudança brusca de tempo, " O tempo vai arruinar". Artimá - nem grande nem miúdo, meio a meio; "Esse ano o camarão tá artimá". Arvejo - espuma branca que as proas das embarcações levantam quando andam rápido ou estão carregadas; "Alá o arvejo que vem na proa!". Asseia! - comando de remar para trás. ,, .i Arvisleiro - diz-se de animal que vai bulir em tudo o que vê; " O macaco é u m bicho arvisteiro, buliçoso". Asa - assim chamadas as duas paredes da boca de u m cerco flutuante. Assoalhar a rede - ato de se estender a rede aberta e plissada no chão para secar. Assobiar guaiá - ato de ir caçar guaiá durante a maré baixa do dia, munido de u m pedaço de pau com u m naco de peixe amarrado, se enfiava o pau na toca assobiando o assobio de chamar guaiá, e ia atraindo o guaiá pra fora da toca devagarinho enquanto assobiava, até pegar com a outra mão. Assobiar santola - ato de ir caçar santola na maré baixa do dia com a mesma técnica do guaiá só mudarrdo o tipo de assobio e o modo de pegar a santola. Assombração - o mesmo que fantasma, aparição ou qualquer tipo de fenómeno sobrenatural. Glossário C a i ç a r a de Ubatuba

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Até o cepo - expressão usada quarido algo penetra fundo, até o talo; "Entrou até o cepo no meu dedo". i Até umas hora - expressão usada para algo que demorou muito, d u r o u até tarde; " O n t e m remendei minha rede até umas hora". Ateador - gravetos menores colocados verticalmente no centro de uma fogueira para dar ignição ao fogo. Atentar - provocar, insistir para se fazer algo errado ou que não se quer fazer; " O diabo de menino atentado!"; "Olha... n u m me atenta...". Atochar - encher além da conta, tampar bem tampado, deixar bem preso; "Atochei bem de graxa lá dentro"; "Fiz u m tufo de madeira e atochei bem lá dentro". ' Atonta - tipo de dança onde os pares nunca eram fixos, sempre se revezavam. Atopetar - encher ao máximo, completar; "O balde amanheceu atopetadinho de água", .i o , - • r Atracar a rede - assim se dizia quando o arrastão de praia chegava na areia; "Uma vez demo u m lance que quando atraco a rede na praia, era aquele barulhão de cruvina, tanta que tinha". Atraso - forma de armar a rede de arrasto de camarão branco, para que o branco não fuja nadando por cima da rede ao senti-la; " A rede do branco tem que ter atraso na cortiça se não ele foge por cima". Auréola - o início do entralhe de uma rede. ; j, ' -l Aviamento - assim chamado o conjunto dos equipamentos de se fabricar a farinha; o tipiti, o fuso, a prensa, etc. Avião - qualquer tipo de veículo aéreo motorizado, até helicóptero. Azedado - o mesmo que perdido, ferrado; "Quando ouvi roncar a trovoada, pensei, tâmo azedado!". Azinabrado - oxidado por zinabre, podre por oxidação esbranquiçada como nos pólos de uma bateria. A z u l - m a r i n h o - prato tradicional onde a banana-verde cozida é adicionada ao ensopado de peixe numa panela de ferro.

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Baba do anzol - assim chamado o resto de isca que fica no anzol, era guardado para engodar o pesqueiro. Bacupari - t i p o de fruta pequena e amareladinha, o mesmo que abiu. Badofe - tipo de pirão duro feito de feijão com farinha. Badrame - o mesmo que muro, barranco. Baiaco - o mesmo que baiacu, tipo de peixe que infla a barriga quando pescado, acredita-se ter o fel venenoso, sua dentada pode arrancar u m dedo. Baita - diz-se de algo grande; " U m a baita onda". Baixio - local de pouca profundidade. Balanceoso - diz-se do mar com ondas grandes; " O mar tá meio balanceoso hoje". Baldiar - mudar, transportar, mover de u m local para outro; "Bardiamo tudo aquilo n u m instantinho". Baleeira - pequena embarcação de madeira geralmente sem casaria e com a popa igual a proa. Balieira - planta medicinal boa para curar machucados e contusões. Balsada - diz-se de canoas amarradas paralelamente com vigas para transportar grandes cargas. Banana de mico - flor da imberana que quando madura, se comida, deixa a pessoa tonta. Banana ferro - qualidade de banana boa para cozinhar azul-marinho. Banana -verde - banana já gorda, mas não madura, usada cozida para acompanhar ensopados e pirões. Banco da proa - o banco de madeira da proa de uma canoa. Banco do meio - o banco de madeira do meio de uma canoa. Bandalho - diz-se de pessoa ou coisa suja, rasgada. Bandeira da rede - pedaço de isopor trespassado verticalmente por u m bambu, com uma bandeira na parte superior e ,

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u m contrapeso na inferior, para sinalizar a posição de uma rede no mar. Bandeja - assim chamado o trançado base do começo de u m cesto, samburá ou jacá onde se espetam os esteios, para depois serem passados os teçumes. Bangiiê - saco de pano ou cesto de bambu pendurado, onde se depositam bananas estragadas que ao fermentarem e apodrecerem vão pingando u m líquido dentro de uma garrafa, este líquido é o vinagre de banana. Banha de galinha - era remédio, usado contra chio no peito e nariz entupido. Banha de lagarto - era bebida e esfregada na ferida para curar uma picada de cobra. Banquear a canoa - é a arte de fazer e instalar os bancos em uma canoa. Banzeiro - mar m u i t o agitado com ondas fortes; "Pegamos u m banzeiro!". Barana ~ tipo de peixe bicudo, fino e comprido. Barata da pedra - pequeno crustáceo que existe em grande quantidade na costeira, usado como isca, é capturado na maré cheia quando fica encurralado nas gretas da pedra, o mesmo que lígia do mar. Bardiar - o mesmo que descarregar, lançar fora, retirar. Barra manteiga - tipo de brincadeira infantil onde u m cantava, "Barra manteiga na teta da nega que lá vai 1, 2, 3!", depois saía pra pegar os outros que, ao término da canção, tinham que ficar onde estavam. Barrado de nuvem - diz-se de n u v e m do tipo cirrus e cirrostratus que ao longe no horizonte, prenuncia mudança de tempo; "O tempo vai arruinar, olha o barrado que tá lá embaixo". Barrear - ato de se rebocar as paredes de uma casa de paua-pique com barro, geralmente em mutirão. Barriga-verde - assim se autodenominava o caiçara, por comer muita banana verde.

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Barro de pito - o mesmo que argila, usado para se fazer o pito de cachimbos. Barrote - tipo de eixo de madeira quadrado com as extremidades roliças onde se encaixam as rodas, assim também chamadas as escoras de madeira colocadas dentro de uma canoa cheia d'água, forçando os bordos para alargar a boca da canoa. Baruí - tipo de borrachudo minúsculo que dá na costeira; " O baruí tá comendo gente!". Baruísa - tipo de peixe pequeno da costeira, é preto com uma barbinha em baixo da boca o mesmo que maria luisa ou furão. !'.-'i Batatinha - assim chamada somente a batata inglesa. Bate - gaiola com alçapão para se capturar passarinhos; " A r m e i o bate lá na capoeira". Bate-bate - tipo de pescaria; igual bater poita. Bate-pé - tipo de dança tradicional, o mesmo que xiba. Batela - tipo de gamela redonda de madeira. Batelada - grande quantidade, "Tiramos uma batelada de peixe". .'* • •••••'^ •-.í-.ir^-.m Batelão - tipo de canoa bem larga utilizada para carga. Batendo a boca - expressão usada para se dizer que o peixe ainda está vivo; " L i m p e i o peixe ainda batendo a boca". Bater a pedra - ato de se jogar uma poita na água repetidas vezes, espantando o peixe para que malhe na rede. Bater costa - tipo de pesca em que se cerca u m pedaço de costeira com a rede e bate a pedra para que o peixe fugindo assustado malhe na rede. ' ' » Bater linha - ato de se marcar u m tronco de árvore com u m barbante tingido com pó de carvão, a f i m de traçar as linhas base para se esculpir uma canoa. Bater o calafeto - ato de calafetar uma embarcação batendo o calafeto para dentro de u m vão de tábua com u m martelo e uma talhadeira chata; também alusão ao ato sexual. r•••<•.

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Bater poita - tipo de pesca em que se cerca u m eito d'água e se bate com a poita na água para o peixe assustado maltiar na rede. Batera - pequena embarcação de fundo chato. Bateu pijuco - diz-se de madeira que pegou cupim. Beiçuda - o mesmo que garoupa. Beliscar a isca - ato dos peixes mordiscarem o anzol. Bendito - tipo de oração cantada da folia do Divino que se pede que cante antes de oferecer uma esmola. Bentrecha - assim chamada a parte dos "ombros" do peixe, o mesmo que encontro. Benzedeira - mulher de fé e pensamento fortes, conhecedora de rezas e plantas específicas para curar diversas doenças atribuídas à mau- olhado. Biata - a ponta do cigarro, bituca; " M e dá a biata aí!". Bicheiro - gancho preso a u m cabo de madeira usado para se embarcar u m peixe grande; "Pega o bicheiro que esse é grande!". Bicho canjica - tipo de ascídia que envolve as pedras submersas da costeira formando uma camada esbranquiçada macia e escorregadia com pequenos gominhos parecendo canjica. Biju - produto obtido da secagem do polvilho. Bimbarra - o mesmo que alavanca; "Faz uma bimbarra que você ergue essa pedra fácil". Bingunde - assim chamado o caldo fermentado e cru da cana, preparado para se destilar a cachaça. Biruanha - mosca verde, o mesmo que mosca varejeira; " A biruanha comeu o peixe tudinho". Birote - nome da laçada que se dá na ponta de uma vara onde se fará a amarração da linha, também a tabuleta de madeira onde se enrola a linhada de pesca de mão, ou a própria linhada de mão. Bisgana - diz-se de coisa pegajosa, grudenta; " A canoa f i cou bisgana, a cola não secou direito".

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Bissaca - tipo de bolsa pequena feita da ponta de uma perna de calça velha, usada para guardar as pedras do estilingue e os passarinhos caçados. Bitana - do árabe albitntw, tipo de tresmalho entralhado com três panagens justapostas paralelamente, sendo as duas de fora de malha grande e a do meio de malha menor, o mesmo que orbitana ou feiticeira. Bitola - pedacinho de madeira ou bambu usado como régua, para se medir o comprimento entre os nós da arcala, ao se entralhar uma rede. Bobajada - muita bobagem, besteira, conversa fiada. Boca - assim chamada a medida da largura interna de uma embarcação. Em uma canoa, essa medida equivale a VA do diâmetro da árvore e vai determinar o comprimento da canoa. Uma canoa equilibrada terá 7 bocas de comprimento; "Essa madeira vai dá uma canoa de 3 palmos de boca". Boca-aberta - tipo de embarcação sem convés e casaria. Boca da noite - o mesmo que, início da noite, noitir\ha. Boca de encrenca - alusão ao órgão sexual feminino. Boca de glória - tipo de peixe, espécie de cocoroca da boca vermelha. • i : „; >i Boca do cerco - abertura estreita por onde o cardume entra no cerco. Boca do f o r n o - tipo de brincadeira de criança igual " t u d o que seu mestre mandar", na qual quem perdia levava u m coque na mão. Bocarra - tipo de peixe, espécie de cocoroca da boca branca, a mais c o m u m delas. Boça - cabo usado para amarrar uma embarcação ou servir em caso de reboque. Bodocado - o mesmo que arcado, encurvado; "Depois de velho foi ficando bodocado". Bodoque - tipo de arco de madeira feito para se lançar pedras com o qual se caça. Bóia da rede - pedaço grande de isopor amarrado à ponta de uma rede de cercar, a f i m de que o popeiro visualize onde Glossário C a i ç a r a de Ubatuba

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está o começo da rede para conseguir, mesmo de noite, feciiar o lance. Boiado - diz-se do peixe ou cardume que costuma estar no fundo, mas está na superfície d'água. Boião - tipo de peixe, espécie de bonito. Boiero - que flutua muito, "Esse pau é boiêro". Boitatá - bola de luz ou fogo que "anda" no escuro, tipo de assombração. Bojo - a parte lateral arredondada do corpo de uma canoa ou embarcação. Bola de peixe - cardume geralmente de tainha ou parati que nada junto formando uma bola; "Cercamo uma bola de peixe, mas coou tudo!". Boleado - o mesmo que arredondado; "Faz bem boleadinho". Bolo - tipo de farinha extraída do polvilho, boa para culinária. Bolso - a parte do pano do traquete que fica estufada pelo vento. Bom de malha - diz-se do peixe que, após cercado, se prende na rede facilmente. Boneca - nó provisório dado n u m buraco grande da rede para o peixe não escapar, "Faz uma boneca nesse buraco aí". Borda - a parte superior das laterais de uma canoa. Borda falsa - o mesmo que bordado ou bordadura. Bordado - a borda falsa de uma canoa, feita para se aumentar a capacidade de carga ou proteger o bordo do desgaste da rede. Bordadura - o mesmo que bordado; " V o u fazer uma bordadura nova na minha canoa". Bordo - a parte lateral ou os lados de uma embarcação; também manobrar lateralmente uma embarcação; "Demos u m bordo rumo à praia". Borracho - assim chamado uma espécie de broto do cacho de banana que aparece junto às folhas da bananeira antes de virar o cacho; " A bananeira deu borracho". Botão - pedaço curto de cabo com mão, preso ao rodo do cerco, no qual se ata a rede do cerco; cadilho. ÍVI'Í-^,',>,

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Botar a cortiça no f u n d o - matar muito peixe a ponto de afundar a rede; "Botemo a cortiça no fundo!". Botar rede - o mesmo que largar o lanço da rede de arrastão; "Antigamente a gente botava rede na praia, na costeira, aqui era muito bom pra peixe". Botar pedaço - arte de remendar u m grande buraco numa rede de pesca botando u m pedaço pronto de rede ao invés de se fazer malha por malha. Botar reparo - o mesmo que prestar atenção, olhar. Boto - todo e qualquer tipo de golfinho. Bracuí - tipo de madeira muito boa para fazer canoas. Braça - unidade de medida muito usada pelos pescadores, equivale a mais ou menos 1,75 metro. Braço de Reis - espécie de cipó usado para amarrar lenha. Branco da madeira - assim chamada a parte da polpa de um tronco que não é o cerne, geralmente tem a cor mais clara que o cerne; "Esse é o branco da madeira". Brando - assim chamada a parte bamba ou barriga de uma corda ou cabo; "Tirei o brando do cabo". Brasido - o mesmo que braseiro, calor intenso. Breu - assim chamada a resina extraída dos nós de algumas madeiras de lei como o pinho-de-riga. Brizado - tipo de mar manso com leve brisa, " O mar tá brizadinhozinho". Brizado de chuva - tipo de mar amansado por chuva de \'oráo, "Amanheceu brizado de chuva". B r i z o u - diz-se do vento que começa a soprar; " B r i z o u o sul!". Brucuíva - tipo de árvore boa para se fazer canoas. Buçada - o mesmo que bolsada, parte do bojo externo e arredondado da proa de uma canoa ou embarcação que fica acima da linha d'água e corta frontalmente as ondas do mar. Bulha - mexer nas coisas fazendo barulho; "Tá fazendo bulha menino!". Buliçoso - o mesmo que intrometido, assanhado.

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Bulir - o mesmo que mexer, provocar, atiçar; " N u m bóie comigo não!". Burgal - assim chamado o cascalho do f u n d o do mar entre a costeira e a areia, também uma toca de pedra, b u raco, sumidouro. Butaca - o mesmo que grande. Buzina da rede - instrumento sonoro que era tocado antigamente, chamando a turma para cercar o cardume de tainha que encostasse na praia. Buzo - pedaço de chifre o u garrafa cortada através do qual se soprava para emitir u m som alto para dar alarme. Também chamado de buzina da rede, era usado antigamente para se avisar a todos da chegada de u m cardume grande de tainhas; talvez o nome venha de búzio, concha usada para o mesmo f i m nas ilhas polinésias.

Cabaça de pescoço - planta que dá u m fruto oco e redondo com u m bico em uma das extremidades, tem a casca m u i to dura e fina e miolo bem macio. Cabeça d'água - maré muito alta formada pela junção da maré de sizígia com a entrada de uma frente fria. Cabeça de maré - aumento repentino da ondulação do mar causada por forte correnteza, "Entrou uma cabeça de maré". Cabeça de pedra - tipo de peixe, o mesmo que corvina. Cabeça do vento - o começo do vento, momento em que ele é mais forte e perigoso. Cabeço - parte mais alta ou cume de u m parcel; também o cepo fixado na proa de uma embarcação onde são presas as amarras principais. Cabo! - grito de comando usado na pesca de arrastão de praia; cada rede tinha em cada ponta 12 cabos de 30 braças emendados, a cada emenda os puxadores gritavam "cabo!", para avisar os puxadores da outra ponta, que deveriam aliviar ou acelerar o ritmo para que o cabo fosse sempre puxado por igual até o f i m . Cabo de imbé - tipo de corda muito resistente, usada no tempo antigo; u m tipo feito com a casca do cipó da imberana, o cabo preto e outro com as fibras do miolo do cipó, o cabo branco, que afunda. Cabo verde - diz-se de pessoa que tem u m sotaque "trem i d o " , jeito de falar " t r e m i d o " característico. Caboclo - espécie de cipó vermelho que dá no mato. Caçãozinho ai ai ai - tipo de peixe, espécie de cação. Caceio - tipo de pesca em que se deixa a rede à deriva no mar, ao sabor da maré, à rola; "Deixei minha rede pescando de caceio". Cachorro - parte que apoia uma viga n u m telhado de casa de taipa, o mesmo que mâo-francesa.

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Cachorro do mato - dança tradicional, o xiba. Cacique - tipo de engodo, chamariz, usado para atrair os peixes, também chamado enguiço; "Põe cacique no anzol, põe cacique...". Caco - p r o d u t o da secagem do polvilho nos tachos formando cacos translúcidos de polvilho. Caçoa - a fêmea do sanhapê, uma espécie de tubarão de grande porte, também chamada de mangona. Cadaste - peça da mesma madeira que a quilha onde é feito o furo do eixo de uma embarcação, é fixada à ré entre a quilha e a roda de popa. i Cadilho - o mesmo que botão de cerco. Café burro - café com pouco açúcar ou amargo. Café de cana - bebida feita do café fervido com a garapa da cana. Café de goma - papa feita com o café de cana engrossado com o polvilho de mandioca. Café de gozo - tipo de planta que dá pequenas flores amarelas e uma vagem cujas sementes eram usadas como café na ilha Vitória; " V a i dar lula, o café de gozo abriu tudo no mato". Café do mato - tipo de arbusto cujos galhos são m u i t o resistentes, e eram utilizados para o feitio dos arcos que mantinham abertos os puçás com os quais se capturava camarão arrastando à remo em canoas. Café íntirume - café puro, sem comida. Cafula - tipo de camarão de água doce de cor preta. Caga-sebo - tipo de passarinho de cujo coco nasce uma planta parasita que ataca as árvores. Cagaço - u m medo muito grande. Caíco - pequena embarcação usada como apoio ao barco principal. Caieira - lugar em que se fabricava a cal queimando-se conchas de ostras, mariscos e sapinhauás. Caiqueiro - pescador que ficava no caíque das traineiras durante o cerco. 34

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Cajuja - tipo de árvore que dá madeira igual a uma cortiça. Calão - tipo de nó m u i t o utilizatio na pesca; também a parte final das pontas de uma rede ou o bastão de madeira atado a esta ponta n u m picaré. Calão de fora - a ponta da rede ou o bastão do picaré p u xado na parte mais funda do lagamar. Calão de terra - a ponta da rede ou o bastão do picaré puxado na parte mais rasa do lagamar. Calafate - profissional especializado em calafetar. Calafetar - vedar as gretas entre as tábuas de uma embarcação com o calafeto, piche ou outro material vedante como massa wanda, araltec, etc. Calafeto - cordão de sisal torcido, usado para vedar o vão entre as tábuas do casco ou convés de uma embarcação, ou qualquer outro local a ser vedado. Calça de mescla - calça usada no tempo antigo, confeccionada em tecido parecido com brim. Calhéu - pedra grande da costeira, geralmente usada como ponto de referência. Cambada - o mesmo que fieira de peixe. , , , i , Cambaia - diz-se de pessoa que tem as pernas arcadas para trás ou os joelhos virados para dentro. Cambará - tipo de arbusto que dá uma florzinha branca e perfumada que o pintassilgo come, sua madeira é especial para matar cobras, é uma cacetada só; sua folha (também se usa a folha de batata), é colocada sobre a picada de cobra após a ferida ser chupada com a boca cheia de fumo mascado. Cambará de facho - tipo de árvore boa para o fogo, a madeira é torta, de cerne, e queima até mesmo verde. Cambau - tipo de ferramenta composta de uma madeira com três manivelas paralelas onde eram torcidas as cochas para se fazer cordas, cambixo; também, qualquer tipo de empunhadura. Cambau de linha - assim chamada a tabuleta onde se enrola a linhada de mão. ' • '

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Cambeba - espécie de tubarão c o m cabeça e m forma de "V, o mesmo que cação-martelo. Cambiava - o mesmo que transportava, mudava; "Tirava o peixe da rede e cambiava pra canoa". Cambira - tipo de peixe, robalo de costas mais arcada, o mesmo que robalo peva. Cambixo - instrumento de torcer as cochas e fazer cordas, cambau. Camburú - tipo de peixe, o mesmo que moréia. Caminho do cerco - "parede" de rede que vai da costeira até a boca do cerco, responsável por desviar o cardume para dentro do cerco. Campanha - assim era chamado o mutirão feito para se matar a tainha que encostava nas praias. M' Camundá - tipo de assombração relacionada à água doce, bicho d'água. Can-can - diz-se de algo bem feito, bonito; "Você quem fez isso? Ficou can-can hein!". Cana de leme - haste de madeira que movimenta o leme e governa o barco. Cana do reino - tipo de bambuzinho usado para se fazer gaiola para periquito, pois ele não come esta madeira que tem que ser furada com ferro quente. Cana-verde - tipo de dança, música e ritmo tradicional. Canal - passagem de mar estreita. Candeia - árvore de madeira excepcionalmente durável usada em cercas; lamparina, candeeiro; também espécie de siri muito saboroso, siri-candeia. Candiêro - assim chamadas as lamparinas e candeeiros. Canela pulva - diz-se de pessoa reles, insignificante; "Tava lá andando com aquele canela pulva!". Canema - tipo de erva medicinal, o mesmo que erva de santa maria. Cangoá - pequeno peixe parecido com a corvina que faz cantoria no fundo do mar.

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Cangulo - tipo de peixe-porco que geralmente surge em grandes cardumes, cuja pele seca era usada como lixa para madeira e quando torrada como remédio para bronquite. Canguru - tipo de cobra do mar com as costas azuis. Caninana - tipo de cobra não venenosa, de dorso marrom e barriga amarela, muito mansa e facilmente domesticável. Canoa - embarcação tradicional esculpida em u m só tronco de árvore com o enxó pelo mestre canoeiro; também u m tipo de dança tradicional. Canoa da boca - canoa média utilizada para se visitar u m cerco e responsável pelo fechamento da boca do cerco evitando que o cardume escape. ''• Canoa de apara - canoa preparada para pescar de apara, tinha que dar o terço da tainha pescada para o mestre da rede. Canoa de carregar farinha - diz-se de canoa que não faz água, que não vaza, está sempre enxuta. Canoa de voga - tipo de canoa muito grande com u m ou dois mastros, também movida a remos por vários remadores, era utiUzada antigamente para se levar e trazer mercadorias e passageiros quando ainda não existiam as estradas, as maiores levavam 5 toneladas. Canoa louca - diz-se de canoa com pouca estabilidade, o mesmo que canoa ligeira. Cantareira - móvel específico onde se colocava o pote d'água. Cantoria de peixe - barulho que certos tipos de peixe fazem ao escurecer no fundo do mar, parecido com a cantoria das rãs. Capelar - diz-se da condição de mar em que as ondas formam cumes agudos; " O mar capelo e quebrou". Capelo - assim chamado o arremate do cume de u m telhado de sapé; também a formação de nuvens cobrindo o horizonte. Capiá - tipo de planta parecida com u m milhozinho com cujas sementes se fazem terços e colares.

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Capim membeca - tipo de capim com o qual se faziam os primeiros colchões. Capitão da fogueira - responsável numa festa junina católica pela feitura da fogueira. Capitão da rede - assim chamada a bóiazinha presa numa cordinha que marcava o meio da rede de u m arrastão de praia, quando boiava, mostrava se a rede vinha centrada no copio ou tinha que centrar puxando mais u m dos cabos. Capitão do mastro - responsável numa festa católica pela feitura do mastro da bandeira do santo. Capóra - coisa feia ou bicho feio; "Parece uma capóra". Capororoca - tipo de árvore de folhas compridas e bem verdes que dá u m cacho no tronco, cujas sementes os passarinhos apreciam, mais o sabiá-preto. Capororocuçú - tipo de capororoca cujo tronco é mais grosso e as frutinhas u m pouco maiores. Cara de gato - tipo de peixe parecido com o carapau, o mesmo que vento-leste. Cara de tempo - diz-se do tempo r u i m que se vê ao longe; " V a i chover, a cara de tempo que v e m lá!". Carácantanha - tipo de peixe da costeira, o mesmo que tirúúna ou sinhá-rosa. Caraminguá - diz-se de pouca coisa, resto; "Só esse caraminguá?". Carangueja - espécie de guindaste feito de madeira que erguia o sarico nas traineiras; pau de carga. Cardume fechado - diz-se de grande quantidade de peixes formando u m só cardume. Carápirá - tipo de ave, assim chamada a fragata. Careta no pau - diz-se de qualquer tipo de trabalho artesanal artístico esculpido em madeira; "Tá fazendo careta no pau?". Cargueira - diz-se de canoa ou embarcação que comporta muito peixe ou peso. Carobinha - arbusto medicinal de cuja casca e folhas se faz u m chá curativo para sarna e coceiras, sua madeira é boa 38

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para o feitio de cabos de ferramenta, ficando preta e como envernizada; ver tarobinha. Carpi pro trecho! - expressão que significa sair correndo; o mesmo que: "dei no pé", "me mandei". Carregação - o mesmo que nuvem; " Ó como ta puxando a carregação". Carregar com tudo - modo violento que a garoupa e outros peixes atacam a isca; também quando o peixe arrebenta a liiiha e o anzol; "Carregou com tudo!". Carrera - assim chamada a rampa onde os barcos são p u xados para manutenção. Carrinca - tipo de carretinha usada antigamente de u m só eixo que se encaixava através de uma cunha na garra da canoa para tirá-la e colocá-la na água, feita toda de madeira das rodas ao eixo; assim também chamado o ressalto com furo no fundo da proa da canoa onde se encaixa o mastro do traquete. Carruagem de onda - assim chamada a sequência de ondas fortes, ou série, que ocorre próximo à praia; "Entrou uma carruagem de onda depois do jajigo". Carvo do dia - o mesmo que claro do dia; "Salmo no carvinhododia". >•• .m.,., Casa de farinha - local onde acontece todo o processo de j ' . ,

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tdbrico da farinha de mandioca. Casa do pouso - assim chamada a casa onde a folia do Divino passa a noite. Casaria - a parte coberta e fechada dos lados de uma embarcação, a "casinha" do barco. Castanha - o mesmo que cunho, peça por onde passa o cabo de fundeio antes de ser amarrado no cabeço. Cataia - planta cuja folha é anestésica. Catarina - assim chamado qualquer pescador de Santa Catarina. Catarinense - tipo de motor à gasolina de 1 cilindro muito usado antigamente em canoas. Catraia - pequeno bote, o mesmo que caíco. Glossário C a i ç a r a de U b a t u b a

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Caturra - expressão que designa uma qualidade de café e de banana que se caracterizam pelo pequeno porte das plantas e dos frutos. Caubi - tipo de árvore boa para se fazer canoas. Cava de casa - lugar plano cortado na terra onde se constrói uma casa, ou onde já existiu uma casa antigamente e se pode ver seus vestígios. Cavação - assim chamada a etapa do feitio de uma canoa na qual o miolo do tronco começa a ser escavado do meio para as extremidades. Cavaco - pedaço ou apara de madeira; " M e t i o machado e foi só cavaco de pau que voava!". Cavalo de mar - alteração da linha do horizonte que fica ondulada com o mar bravo lá fora, cada pico de ondulação visível é u m cavalo de mar; "Cada cavalo de mar lá foral, o mar deve tá puto!". Caverna - como se fosse cada "costela" de uma embarcação, armadas perpendicularmente à quilha e responsáveis pelo formato do casco. Cavername - o conjunto montado de cavernas, quilha, roda de popa e roda de proa de uma embarcação a ser construída; o esqueleto de u m barco; " C o m p r e i u m cavername de barco". Caxaca - pássaro bicudo que se alimenta de peixes, o mesmo que martim-pescador. Caxeta - tipo de árvore do mangue, de madeira leve, m u i to explorada para confecção de artesanato, rabecas, violas, tamancos e lápis, boa para se fazer remos embora não seja muito resistente. Caxetal - local onde existem muitas árvores de caxeta. Caxinguelo - tipo de esquilo silvestre, caxinguelê. Cedro fedido - árvore cuja casca tem u m cheiro forte de química e o chá era usado como abortivo; os galhos, em baixo da cama, espantavam as pulgas. Cepa - base, talo ou parte mais rente ao chão de uma árvore; Cortemo bem na cepa da árvore". \ 40

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Cepilhar - ato de se aplainar a madeira com u m cepilho, "Depois tem que cepilhar a pá do remo". Cepilho - tipo de plaina manual usada em carpintaria. Cepilho goiva - tipo de cepilho de fundo curvo, como u m mata-borrão, usado para aplainar superfícies côncavas como a pá do remo. Cepo - pedaço de u m tronco de árvore, talo, a base de uma haste; " O arpão entrou até o cepo". Cerco de rampa - tipo de cerco flutuante utilizado pelos pescadores de Toque-Toque Grande em São Sebastião, que se caracteriza pelo caminlio possuir uma " r a m p a " de rede que conduz os cardumes de grande profundidade para dentro do cerco. Cerco flutuante - tipo de petrecho composto por rodo do cerco, caminho do cerco, boca do cerco, asa, filho, retinida, mindingo, visitador, sacador e âncoras, fundeado próximo à costeira formando u m tipo de curral de rede em forma de saco onde grandes cardumes entram e são capturados de uma só vez. Cerenga - faca muito velha ou estragada, com dentes, sem cabo; "Isso não é faca, é cerenga!". - •!;, Cerquemo - o mesmo que cercamos. Cerra-baile ~ tipo de dança tradicional. Ceva - lugar ou picada aberta no mato onde são jogados alimentos para se atrair o peixe o u a caça; "Ficamo na ceva mas a paca não apareceu"; "Joga o resto da isca pra cevar o peixe". Chaco - pequena âncora ou garateia feita com cimento e quatro ou mais pernas de vergalhão de ferro. Chama - passarinho cantador colocado junto à armadilha para atrair outros passarinhos. Chama água! - comando dado para o remador puxar a água com o remo de encontro ao bordo a f i m de manobrar uma canoa. Chamegão - o mesmo que assinatura. "Só farta pôr o chamegão aí". Glossário C a i ç a r a de U b a t u b a

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Chancra - o mesmo que pé grande. Chapado - com a carga máxima, cheio, carregado; "Voltemo chapado de corvina!". Chapar - encher ao máximo, carregar totalmente. * Chapéu - tipo de dança como a dança da vassoura, quem está de chapéu, põe na cabeça de outro e tira a dama dele para dançar. Charuto - o mesmo que pepino do mar, mija-mija. Chegar - verbo usado para convidar a entrar e também no lugar de atear fogo; "Vamos chegar.", "Chega fogo no mato". Cheiro de tainha - odor característico da tainha que às vezes pode se sentir de u m cardume próximo, e que a distingue quando miúda, de peixes muito semelhantes como os paratis. Cheiros - assim chamadas as ervas de uso culinário; "Faz u m caldo com os cheiro e põe o peixe". Chiar - arrastar lateralmente u m grande peso depois de suspenso por uma alavanca; "Chia agora, chiai". Chiando - diz-se do barulho que o mar faz quando a correnteza é forte na beira da praia; "Olha o mar como chia!". Chiba - falir, minguar, sofrer, não dar conta; "Que vantagem comprar u m monte de pano de rede pra largar no barco e chiba!". Chibanca - o mesmo que alavanca, bimbarra, " A g o r a é só dá uma chibancada e colocar a pedra no lugar". Chicote - estropo já preparado com os giradores e anzóis para a pesca de vara e molinete. Chile - tipo de madeira resistente, muito utilizada para encabar ferramentas. ' Chumbeira - a tralha do chumbo da rede; ou o pedaço de chumbo que se coloca dentro da tralha da rede, responsável por fazer a rede afundar, antigamente era feito de barro cozido ou saquinhos de lona com areia grossa. ' '^ Chumbeleiro - pescador que manipula a tralha do chumbo numa canoa ou embarcação, chumbeiro.

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Ciando - ficar chamando água com o remo rodando sem sair d'água, pra canoa se manter no lugar, ou o mesmo procedimento para a canoa manobrar à ré. Cica - nome do gosto que "trava" a língua em certas frutas e seivas, algumas vezes a própria seiva; " A cica da bananeira ó boa pra curar cortes". Cintado - faixa de tábua pregada horizontalmente de fora à fora nas cavernas de uma embarcação ao cor\struí-la, ser\indo para reforço da estrutura. Cinza - "graxa" que o guete deixa na água quando foge assustado, que confunde o pescador a noite pois brilha na ardentia mas não é o cardume; " N ã o cerca que é a cinza, é a cinza!". Cinzeiro - mudança da cor da superfície d'água causada pela agitação de u m cardume de peixe, indica o local e o tamanho do cardume, "Olha o cinzeiro que vai lá!". Cira - ferramenta utilizada para extrair mexilhões da pedra, também faca sem corte; "Eh! A faca tá que é uma eira!". Ciranda - tipo de dança tradicional. Cisqueiro - monte de cisco, lixo; "Joga no cisqueiro". Clara - diz-se de água cristalina; " A água tá clarinha". Claro - assim chamado o período de 14 dias em que a lua está luminosa e no qual antigamente não saía embarcação alguma para pescar; " N o claro ninguém pescava porque não tinha ardentia". • . . Claro da lua - período do quarto crescente ao quarto m i n guante, no qual as noites são claras de lua. Claro de peixe - luminosidade causada pela agitação de u m cardume na água, nas noites de ardentia; "Demo com u m claro de peixe tão grande que incendiou o mar". Claro do dia - diz-se quando ainda não anoiteceu ou já está amanhecendo; " A i n d a era claro do d i a " ; "Já era claro do d i a " . Cobreiro - tipo de doença em que a pele descama, atribuída a mau-olhado, benzia-se com a pessoa parada sob o batente da porta e a benzedeira perguntando: "Que tendes Glossário C a i ç a r a de Ubatuba

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Pedro?"; o doente respondia: "Cobreiro Senhor."; ela batia em cruz com u m machado sobre a cabeça no batente e perguntava: "Corta Pedro.", ele: " C o m que Senhor?", ela batia ao lado no batente, rezava e depois batia do outro lado e no chão, por três vezes e depois com u m ramo de arruda ou guiné molhado, benzia por três vezes o local afetado. Coça - apanhar muito, surra, perder n u m jogo por muito; "Tomemo uma coça!". Coçar o peixe - o mesmo que escamar. Cocha - cada u m dos tufos de fibras torcidas, c o m os quais se confecciona uma corda ou cabo. Coco pindóva - pequena palmeira anã que dá pequenos cocos, em cachos rente ao chão. ' • Coco preto - pequena palmeira de tronco espinhudo que dá pequenos cocos em cachos, o mesmo que brejaúva. Codóis - assim chamado o local mais manso entre uma ponta de costeira e a praia. •' Coentro grande ~ erva utilizada como tempero, o coentro de folhas largas e compridas. Coentro pequeno - erva utilizada como tempero, o coentro de folhas miúdas como a salsinha. ,^ Coivara - assim chamado o amontoado de galhos e paus que se faz após a primeira queimada de u m roçado, a segunda queima, a das coivaras, é feita u m mês antes do plantio. Colar na chapa - diz-se quando se acelera ao máximo uma embarcação motorizada; "Colemo na chapa e despinguelemo mar abaixo!". Colo - parte da rede depois da manga, ou curva da rede de cercar após a manga. ^ Com a viola em caco - expressão usada quando algo deu errado ou aconteceu u m acidente, algo r u i m ou inesperado; "Fulano se viu com a viola em caco!". Combaca - tipo de peixe, espécie de bagre inchado, atarracado e roliço de no máximo 2 quilos. Combalida - diz-se de peixe estragado; "Trazia a tairúia combalida, escalava tudo e vendia de novo". 44

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Começo - assim chamada a peça que inicia u m trançado, é composta pela bandeja onde se espetam os esteios; "começo de jacá", "começo de samburá". Comendo gente - diz-se de algo em grande quantidade; " A espada tá comendo gente". Comeu tudo - expressão muito usada no sentido de destruir, devastar; " A maré veio e comeu tudo"; "Comeu tudo a tainha"; "Comeram o dinheiro tudo". Comidio - peixes miúdos em grandes cardumes que atraem peixes predadores maiores. Comilação de peixe - agitação peculiar na superfície d'água causada por cardumes de peixes grandes atacando e comendo cardumes de peixes menores ou comidio. Comilando - diz-se do peixe o u cardume que está comendo na superfície d'água; " O peixe tava comilando". Companheiro de pesca - o parceiro numa pescaria: " T ô sem companheiro, vamo matá u m parati na minha canoa?". Concha de poço - alusão ao antigo costume de se jogar conchas do mar bem lavadas, até forrar todo o fundo do poço, para clarificar a água. Conde - o mesmo que o valete do baralho; "Tnico esse conde!". Conheceu papudo! - expressão utilizada retrucando ao se vencer uma discussão. Contínuo do mundo - expressão usada em alusão às forças invisíveis que regem a natureza, ao sobrenatural e inexplicável; " É o contínuo do m u n d o " . Consertada - bebida alcoólica feita com açúcar queimado dissolvido com cachaça e temperado com cravo, canela e p i cumã, tradicional nas festas juninas. Consertar o peixe - o mesmo que limpar o peixe, tirar escamas e vísceras. Consoante - do mesmo modo, parecido, igual; "Fizemo consoante os antigo". Contra banco - pedaço de tábua colocado no fundo da canoa usado como assento, toma a navegação muito mais estável. Glossário C a i ç a r a de U b a t u b a

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Coou - diz-se quando o peixe é muito miúdo e atravessa a mallia da rede, escapando do cerco; "Coou tudo!". Copiar a rede - ato de se pisar no cliumbo e levantar com as mãos a cortiça da rede quando o lanço se aproxima da praia, para evitar que o peixe fuja por cima da rede quando estiver no rasinho. Copio da rede - a parte do meio da rede de cercar para a praia; também assim chamado o sacador da rede. Cordão de peixe - diz-se do cardume que está em m o v i mento rápido; "Fez u m cordão de peixe e s u m i u " . Coroanha - semente de casca dura de u m tipo de trepadeira, ou o nome desta trepadeira, o mesmo que olho-de-boi. Corote - tipo de barril pequeno. ! • -i Corpinho - assim chamado antigamente o sutiã. Corre costa - tipo de peixe, assim chamado o robalão em alusão ao seu processo migratório. Correição - assim chamado u m carreiro de formigas. Correnteza - a força da maré, o deslocamento da água do mar em certo rumo. Correr a rede - o mesmo que visitar a rede. -; ' Correr coxia - andar à toa, fazer nada. Correr de maré - o mesmo que correnteza, o deslocamento da água do mar. Correr em árvore seca - diz-se da navegação feita em canoas, utilizando u m vento tão forte que dispensa o uso do traquete. Correr totoa - brincadeira na qual uma grande totoa de palmeira é usada como trenó, sentando-se dentro dela para se deslizar morro abaixo. Corricar - pescar com a isca a reboque do barco, geralmente isca artificial. Corrico - tipo de pesca em que se arrasta a isca com a embarcação em movimento. Cortar água ~ qualidade do desenho da proa de uma canoa ou barco, bem projetada para navegar com facilidade, "Canoa boa tem que cortar água".

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Cortar caxumba - simpatia para curar caxumba, n u m quarto com pouca luz, o pai ia atrás e à frente ia o filho, os dois dançando na diagonal em direção aos cantos cantando: "Caxumba mala caxumba, caxumba não te devo nada, tomate lá no canto, e toma uma umbigada"; então contava-se sete envaros de baixo pra cima com o pé e depois regressivamente até em baixo, repetia-se a dança três vezes por três dias. Cortar íngua - ato de benzer a íngua rezando e passando uma faca no local afetado para curá-la perguntando: "Corta L[ue corta?"; o doente responde "íngua."; por três vezes. Cortar copiando - técnica de tirar o lanço na costeira sem a rede enroscar nas pedras que consiste em puxar o chumbo primeiro formando o copio e depois arrastar por cima das pedras o "saco" formado. Cortar pedra - ato de desmontar uma pedra com marreta o ponteiro para se fazer paralelepípedos. Corte de canoa - assim chamado o tronco cortado para fazer uma canoa ou mesmo a canoa semi-acabada. Corte de madeira - assim chamado o pedaço de madeira cortado que servirá para entalhe ou canoa, "Escolhemo o pau, escavemo mais ou menos com o enxó e eu voltei remando no corte". Cortiça - pedaço de isopor ou plástico preso na tralha da rede por uma arcala e responsável pela flutuação da rede, antigamente feito de cortiça. Cortiça pesada - raiz do corticeiro que era extraída para se fazer a cortiça das redes, depois de fundeada a cortiça absorvia água e afundava, tinha que passar o dia no sol para secar e boiar de novo. Corticeiro - árvore de pequeno porte e madeira leve característica do jundú, cujos frutos são redondos. Corundó - tipo de molusco, o mesmo que saquaritá. Cosiderá - tirar u m cochilo com a intenção de resolver u m problema difícil; " T ô cosiderano". Costado - é a parte exterior do casco de uma embarcação. Cote - tipo de nó o u laçada bem simples. Glossário C a i ç a r a de Ubatuba

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Cotejar a rede - ato de medir o eritralhe da cortiça com o entralhe do chmnbo para verificar se estão alinhados e simétricos. Covanca - a parte mais inclinada de u m grotão n u m morro. Covo - armadilha em forma de cesto, feita de bambu, para se capturar peixes e crustáceos. Coví - tipo de madeira preta e dura com a qual se constrói canoas parece brejaúva. Craguatá - o mesmo que bromélia, gravata, caraguatá. Craquinchenta - diz-se de coisa cheia de cracas, velha. Criquincho - o mesmo que anão ou pessoa pequenina. Crisciúma - espécie de capim de talo fino e comprido que enrosca na roupa e lanha a pele chegando a ferir. Croça - tipo de nó que aparece quando se torce muitas vezes u m cabo, " A corda ficou cheia de croça". Croque - espécie de gancho feito para se pegar, de cima de u m barco, u m cabo de poita ou outro objeto na superfície d'água; também o cascudo dado com os nós dos dedos na cabeça de alguém. Cruvina - tipo de peixe, o mesmo que corvina. ' Cu da agulha - parte de baixo da agulha de pesca onde é passada a linha: "Aperta o nó com o cu da agulha que não corta o dedo". Cubitinga - tipo de árvore cuja madeira é boa para a confecção de remos, rolos de canoa e lenha. Cuchicholo - lugar pequeno, apertado; "Também, fica morando aí nesse cuchicholo!". Cuia - instrumento com o qual se esgota a água da canoa, antigamente feito com metade de uma cabaça de pescoço ou uma gamela pequena, imprescindível numa canoa; "Não deixa a cuia virada com a boca pra baixo na canoa que dá azar". Cuí - coisa que sobra, resto, pouca coisa; "Só esse cuí!". Cuíca - brincadeira que consiste em fazer u m ruído de cuíca, abrindo e fechando as pétalas de uma flor chamada bico-de-papagaio. Cumbú - tipo de ratoeira de madeira usada para caça. j

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Cunha de aperto - pedaço de madeira encaixado de modo a travar a emenda recortada em duas vigas, para u n i las definitivamente. Cunho - peça de madeira ou metal, geralmente fixados na proa de uma embarcação, servindo de guia para passar o cabo de fundeio, também chamado de castanha. Curriola - turma, bando de gente desocupada. Currupã - t i p o de peixe, assim chamado o xaréu quando pequeno. Cunimba - o mesmo que coveiro, " V a m o leva p r o curumba enterra!".

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D Dále-dále - fazer algo com afinco, com força; "Pegou o remo e dále-dále atrás do peixe". Dança da fita - tipo de dança tradicional onde 12 pessoas dançam fazendo evoluções ao redor de u m mastro, cada qual com uma fita colorida na mão atada ao topo do mastro, até que o mastro fique todo envolto por u m trançado colorido, que é depois desfeito, simbolizando todo o ciclo da terra, desde o arar até a colheita. Trazida de Santos para Ubatuba pela comunidade da Enseada nos tempos das canoas de voga, hoje dançada somente pela comunidade do Itaguá que resgatou seu simbolismo original. Dar a letra - o mesmo que ajudar, entregar o jogo, trair; "Alguém deu a letra pro ladrão". Dar um fogo - rachar u m a pedra c o m pólvora, também embebedar alguém. De croque - o mesmo que de cócoras. De esguelha - de lado, atravessado; "Ficou me olhando meio de esguelha". De jornal - o mesmo que diariamente, por dia; " E u recebo de jornal". De largo - longe da praia o u da costeira; " O peixe tá grosso, só que bem de largo". De mar lascado - expressão que define condição de mar bravo com ondas que arrebentam e m função de vento forte; "Pro lado de lá, tá de mar lascado!". De primeiro - expressão usada para evocar os costumes do passado, o tempo antigo; "De primeiro não era assim não!". De vez - o mesmo que maduro; " O bambu já está de vez". Defensa - tipo de amortecedor próprio ou pneu, utilizado para se proteger o bordo de uma embarcação durante uma atracação.

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Defeso - período em que a pesca ou captura de determinada espécie é proibida por lei para que procrie. Defruço - o mesmo que resfriado; "Tá cum defruço". Deixa na maré - alusão ao ato de largar uma canoa na areia da praia, pouco acima da linha da maré mais alta do dia, pois logo vai sair pra água novamente. Dejahoje - o mesmo que ainda à pouco, agorinha. Delindado - o mesmo que revelado, decifrado, resolvido; "Só agora o caso foi delindado". Derrotar - expressão usada no sentido de devastar, destruir; "Se liberar a pesca de rede na Ilha, vão derrotar que nem aqui, acabar com t u d o " . •",'<•;".;. .1 Derruba isso! - expressão usada no sentido de comer o último pedaço, acabar com u m resto de comida. Desacorsoado - descontente, insatisfeito, triste. Desarvorado - perdido, sem rumo, desesperado. Descaída - desnível, inclinação; "Tá com pouca descaída". Descamar - escamar, tirar as escamas do peixe. Descanso - ato de deixar o mato roçado secando. Desempeçar - ato de desemolar u m cabo ou corda que esteja empeçado. Desencantar o ouro - ato de rezar para que o ouro encantado encontrado, ao ser tocado, não desapareça na forma de carvão, pedra ou pequenos animais. Desgovernar - perder o controle, " O barco desgovernou". Desgracento - diz-se de pessoa ou coisa r u i m . Desgrama - o mesmo que desgraça; "Mas que desgrama!". Desgramado - o mesmo que desgraçado. Desmalhar - ato de tirar o peixe da malha da rede; "Foi tanto peixe que viemo desmalhá em terra". Desmazelado - que não tem cuidado ou asseio, descuidado, relaxado; "Mas que sujeito desmazelado!". Desmazelo - falta de cuidado, falta de asseio, relaxo. Despedida - tipo de cantoria da folia do Divino cantada em troca de esmolas para a igreja. tvi' '••rj^} r,-.:

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Despertar - diz-se quando o vento começa a soprar e vai aumentando de intensidade; "Despertou o vento!"; " C o m o encher da maré vai despertar o vento". Despescar - o mesmo que desmalhar. Despinguelar - correr, sair rápido, fugir rapidamente. Destrambelhado - maluco, doido, desastrado, não muito certo da cabeça. Desvaziar - o mesmo que esvaziar; "Desvaziemo tudo a água do pote". Devezando - o mesmo que amadurecendo; " O cacho de banana está devezando". Deu tábua! - expressão que significa o mesmo que levar u m fora de uma moça. '. Dia das arma - alusão ao dia 2 de novembro que geralmente marca o início do tempo quente; "Depois do dia das arma é assim mesmo, trovoada". Dia santo - referência à sexta-feira santa, dia em que do meio dia da quinta-feira até o meio-dia da sexta-feira santa não se pode fazer qualquer trabalho, cortar cabelo, varrer a casa, pescar, existem muitas histórias de acontecimentos sobrenaturais ocorridos com quem desrespeitou esta tradição. Dibicá - o mesmo que inticá, provocar, atentar; " U m qué dibicá o o u t r o " . Dicuada - nome dado à "água de cinza" ou soda cáustica, extraída ao se filtrar a água através de u m saco cheio de cinza de fogueira, usada para se fazer o sabão artesanalmente. Didá - o mesmo que dedal, de costurar. Digêro - rápido, ligeiro; " A n d e digêro menino!". Dilatamento - parte da estrutura de uma embarcação que sustenta e dá o toso ao convés. Dobrado em dois - diz-se de u m cabo ou corda quando amarrado não pelas pontas, mas pelo seio, ficando dobrado ou duplo; "Passa o cabo dobrado em dois." Dormento - tipo de bordadura de canoa utilizada pelos caiçaras do Bonete da Ilha Bela é feito u m encaixe no dormen-

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to que é pregado por dentro da borda para deixá-la mais alta e resistente. Dormir um sono - expressão que sigmfica o mesmo que dormir; " V o u pra casa, dormir u m sono". Duchada de rede - diz-se de certa quantidade de panar e m de rede; " U m pano dá umas 10 duchada".

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É gente de quem? - expressão que determina grau de parentesco; " O Antenor, o James, é gente do Zé G i l " . É treis tatu e quatro rabo! - alusão a algo muito rápido, vapt-vupt. Êh! - expressão muito característica usada pelo caiçara, falada quase como uma "tosse seca", significando algo como "minha nossa!"; - " T e m tainha no largo?" - " Ê h ! se tem!". Eitão - assim chamada a cumeeira de uma casa, geralmente a parte abrigada sob a cumeeira do telhado; "Deixava as tábuas secar no eitão da casa". Eito - distância, pedaço, área; "Roçamos u m eito!". Emaleí - colocar na mala, acondicionar, embalar; "Emalei o peixe e levei pra cidade". Embaciado - o mesmo que embaçado, turvo. i Embandeirou - diz-se quando a tainha pula em quantidade por cima da cortiça da rede; "Embanderô a rede todinha, nem se via a cortiça". Embarcado - diz-se do pescador que está registrado como empregado em uma embarcação. Embarcar - ato de se trazer algo para dentro de uma embarcação; "Embarquemo a rede". Embarêdesô - tipo de planta medicinal de folhas amareladas e uma batatinha na raiz, com a qual se fazia meizinha para o estômago e bicheira. Embate - diz-se de local abrigado b o m para fundear uma embarcação a f i m de dormir ou fugir de uma tempestade; "Fundeia naquele embatezinho lá". Embaúba - tipo de árvore muito comum que é oca, tem por dentro da casca uma fibra que depois de lavada e seca era usada para fazer cordas.. , Embebedar - usado com o mesmo significado de encharcar; " O coco seco n'água demora a embebedar". 54

Embeber - técnica de se aumentar gradativamente o número de malhas em u m perfio de rede de arrasto de praia a f i m de deixá-la em forma de saco. Embebeste? - diz-se quando se faz u m remendo de rede com 5, 6 malhas juntas provisoriamente para apressar o serviço; "Já terminou a rede!; embebeste?". Embiêis - o mesmo que torto, em viés; "Ficou embiêis". Embira - qualquer fibra de casca ou cipó usado para amarração ou confecção de cordas; também assim chamada um tipo de taturana esverdeada que provoca queimaduras. Embirotó - tipo de árvore que dá uma frutinha amarela, usada para se fazer remos ou canoas. Embirrado - diz-se de algo r u i m de crescer. Embiruçu - tipo de paineira cuja paina dá em u m fruto parecido com u m cacau. E m b o n d o - o mesmo que misturar, embolar, enlear; "Embondô t u d o ! " . ^ : i r , ' i . ' , ; , • í fiv.s-fi„ Emborcado - virado de boca pra baixo. Emborcar - virar de boca pra baixo, virar a canoa dentro d'água. Emendar o imbé - o mesmo que emendar duas redes; "Nóis emenda o imbé e vai cercar robalo". Empalamado - pessoa sem coragem, comedor de barro que fica amarelado e sem força. Empanzinado - com a barriga cheia, satisfeito. Empate - nó dado para se atar o anzol à linha de pesca. Empate ilhéu - forma de empate feito nas ilhas no qual o anzol é preso com u m arame de cobre. Empeçada - enrolada numa peça só, mais usada para cabos e cordas; " D e i de cara com uma jaracuçú empeçada!". Empeçar - ato de eru"olar uma corda ou cabo para que não embarace ao ser guardado; quem empeçava o cabo do lanço tiiiha direito a meio quinhão; "Empeça esse cabo aí". Empena da casa - parte triangular de alvenaria que sustenta e dá o caimento do telhado. Glossário C a i ç a r a de U b a t u b a

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Empencada - diz-se quando malham muitos peixes juntos no mesmo local do pano de rede; " A rede veio empencada de peixe". Empenhei - expressão usada quando a pescaria não f o i suficiente para se pagar as despesas da saída. Empreitada de sapé - assim chamada a medida correspondente ao comprimento dos feixes de sapé a serem usados na cobertura do telhado de uma casa, se os feixes metiem 1 metro e o telhado tem 3 metros, serão usadas 3 empreitadas de sapé naquele telhado. Encabeçar a rede - ato de emendar u m pano de rede a outro, costurando-se malha por malha de modo a desaparecer a emenda entre elas e mantendo o desenho das malhas contínuo como se fosse u m só pano de rede, mais difícil de fazer que o perfio. Encarangado - diz-se de quem está torto, deformado, entrevado ou encolhido por doença ou nascença. Encascá a linha - técnica antiga de dar resistência a uma linha de algodão para pesca, esfregando-se a casca da aroeira bem madura, na linha esticada entre duas árvores; "Encascá a linha pra ela ficar dura". Encatrusado - o mesmo que encolhido, apertado. Encher a agulha - carregar de fio a agulha de pesca. Enconha - assim chamadas as frutas que nascem geminadas, grudadas como se fossem uma só. Encontra! - comando dado ao remador para que ele com o cabo do remo encostado ao bordo, faça movimentos seguidos de alavanca, afastando a água do bordo da canoa a fim de manobrá-la. Encontro - nome da parte ou posta do peixe onde estão as nadadeiras laterais próximas à cabeça. Encurralando - expressão que caracteriza uma trovoada ou tempo r u i m que se forma no horizonte; " O tempo tá encurralando, já-já ele vem com t u d o " . Enfastiado - entediado, aborrecido. '

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Enferruscado - diz-se do tempo enfumaçado, com bruma; "Ó Dito o tempo enferruscou, vai arruinar". Enfiar a cara no cambará - correr, f u g i r , esconder-se no mato. Enfistulado - muito ruim, pior não pode ser, uma desgraça. Enforquilhar - armar a entrepara na canoa de apara com duas forquilhas encaixadas uma em cada banco; " N o banco já tinha o f u r i n h o d a forquilha". Engaçar - ato de engatar uma rede a outra, (São Sebastião). Engambelar - enganar, iludir, enrolar numa negociação. Engasopado - engasgado, travado; " O motor engasopou de u m jeito que não pegou mais". Engatar - ato de prender, encaixar, acoplar, alusão ao ato sexual. Engodar - ato de se alimentar ou atrair o peixe com o engodo. Engodar formiga - ato de se colocar galhos de jacatirão de madeira no carreiro de formiga para que ela não vá comer a plantação. Engodo - restos de peixe jogados geralmente no mesmo local rente à costeira para atrair outros peixes, principalmente a garoupa, "Foi pescar no meu engodo seu safado!". Engolofado - o mesmo que egoísta, "esfamiado". Engorolado - sobra de feijão misturado com farinha que se levava para comer nas pescarias. Engraziado - diz-se de madeira cujas fibras são entrelaçadas em vários sentidos; " T e m aquele ingá que é todo engraziado, aquele que é bom pra canoa". Enguiço - tipo de chamariz para atrair o peixe, engodo; também algo que desperta a atenção, atrai o olhar. Enleado - embaraçado, enrolado, preso, entrelaçado; " O peixe se enleou na rede". Enlear - enroscar, embaraçar, ficar preso. Enramar - diz-se quando planta ou árvore dá uma florada excepcional; "Esse ano o cambucá enramo ".

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Enripar - ato de se prender horizontalmente as ripas de bambu, duas por fora e uma por dentro, nas varas de uma casa de pau a pique, antes de barrear. Ensacilado - diz-se de pessoa com o saci no corpo. Entafulhar - afundar de uma vez; "Entafulhei n'água". Enterrada de proa - expressão usada quando, de terra, se avista uma canoa ou embarcação retornando da pesca bem carregada de peixe, o que faz a proa ficar afundada n'água; "Acho que mataram bastante peixe, olha a canoa como vem enterrada de proa". I Enterrar o entrudi - comemoração do último dia de carnaval, onde as brincadeiras eram mais agitadas a ponto de destruir o boi e botar fogo nas fantasias. J Enterume - desjejum constituído só de café puro; "Hoje tomei café enterume". Entocar a poita - ato de prender uma poita de rede o u de embarcação numa greta de pedra. 1 Entocou - diz-se quando o peixe ferrado, leva o anzol para dentro da toca e fica preso. Entralhar - ato de se fazer uma rede, de prender o pano de rede à tralha. Entralhe - técnica ou tipo do feitio de uma rede para determinada pescaria; "Pra rede ficar pesqueira, o entralhe tem que ser bem feito", " M e u entralhe vai ser de 3 em 3 pra render o serviço". Entralhe de terço - forma de entralhe onde a arcala mede u m dedo a menos que o tamanho da malha. Entrar e sair da lua - é o nascer e o pôr da lua, é quando o tempo embaça, faz uma cara feia e ameaça ventar; também quando a lula começa a pegar. Entrar no lance - dizia-se quando a tainha estava numa posição perto o suficiente da praia, já ao alcance das redes, para ser cercada; " O espia seguia o cardume dia e noite até ela entrar no lance". Entrepara - assim chamada a rede entralhada especifica- ^ mente para aparar tainhas na pesca de apara, era feita sob 58

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medida para cada canoa, enforquilhada nos dois bancos e até com uma espécie de rufo que amortecia o impacto da tainha; "Tiiiha tainha que baha e quase virava a canoa". Entrudi - o mesmo que carnaval, entrudo. Envarar - ato de se colocar as varas na estrutura de uma casa de pau a pique. Envaro - nome das ripas ou varas de bambu colocadas horizontalmente numa casa de pau a pique. Enxada - tipo de peixe, o mesmo que parú. Enxó - ferramenta cortante de cabo curto, utilizada no feitio de canoas para escavar a madeira. Esbirrado - o mesmo que d u r o ; " O calafeto tem que entrar esbirrado". , ,i ^^ • Esbudegar - esborrachar, destruir, se acabar. Escaladeira - mulher especializada em preparar o peixe para a salga, na beira de u m rio, abriam o peixe pelas costas, tiravam toda a tripa e sangue e lanhavam. Escalado - diz-se do peixe salgado e seco ao sol; "Esse peixe escalado é uma delícia". Escalar - técnica de salgar o peixe para conservação, mergulhando-se o peixe aberto pelas costas em salmoura e estendendo em varais ao sol, virando-os até estarem totalmente secos. Escardado - escaldado, caldo de peixe ou frango jogado muito quente sobre u m prato com farinha de mandioca, fazendo u m tipo de pirão. Escardado de frango - caldo de frango, jogado quente num prato com farinha de mandioca que tradicionalmente se ia comer na casa das mulheres que tinham garúiado bebé. Escoa - assim chamado cada recorte vazado rente à tabica feito na primeira tábua do bordo acima do convés de uma embarcação, por onde a água que cai no convés escoa para o mar. Esconso - diz-se de algo meio torto ou fora do esquadro; "Ficou meio esconso". Glossário C a i ç a r a de Ubatuba

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Escota - assim chamada a parte maior do pano do traquete de uma canoa a vela, a partir do mastro. Escuro da lua - período de aproximadamente 14 dias entre o quarto minguante e o quarto crescente da lua, quando as noites são escuras o suficiente para a ardentia ser visível possibilitando a pesca; " N o tempo anhgo só se pescava no escuro da lua, e nos claro a gente remendava as rede, hoje com sonda e sonar, o peixe não tem mais sossego e vai acabar". Escuro da noite - diz-se quando já está noite fechada; "Cerquemo no escuro da noite". Escuro de peixe - diz-se de u m cardume muito grande de peixe; "Cerquemo u m escuro de peixe!". Escutar o peixe - técnica de se discernir no escuro que tipo de peixe está fazendo barulho n'água; "Escuta u m cadinho pra ver se é tainha ou espada". Esfachear - o mesmo que lascar, " F u i fazer u m remo de canela, mas a madeira esfacheia muito no machado". Esfamiação - expressão usada no sentido de ambição, avareza ou cobiça; "Tava numa esfamiação pela tainha que acabou virando a canoa". Esgotar - tirar a água, esvaziar; "Esgotemo a água da canoa coma cuia". Espanar - ato do peixe, principalmente o parati, bater rapidamente a nadadeira caudal à flor d'água, fazendo u m barulho muito característico, "trrréc"; " T e m parati espanando aí". Esparrela - tipo de armadilha feita com u m laço amarrado a uma vara vergada; também usado no sentido de armar uma cilada para alguém. Espelho - diz-se do mar m u i t o calmo e manso; " O mar tá u m espelho". Espelho de popa - peça única de madeira com a qual se constrói a popa de uma embarcação. Espeque - assim chamada na ilha Vitória qualquer alavanca feita de pau.

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Espetou - diz-se de quando uma embarcação enfrenta Je proa uma onda ou marola m u i t o grande que invade o convés a ponto de quase afundar. Espia ~ pescador responsável por seguir u m cardume de tainhas, às vezes por dias, até que o cardume entrasse no lance, ou seja, estivesse ao alcance das redes de cercar; tinha o direito a dois quinhões; "Antes de se repartir o peixe se separava os dois quinhões do espia". Espiar tainha - ato de se ficar observando o mar procurando sinais de onde está u m cardume de tainha, geralmente u m salto fora d'água. Espinha - o esqueleto do peixe o u seus espinhos. Espinhaço - o esqueleto do peixe. Espinhei - petrecho de pesca constituído de vários anzóis, 30, 50,200 ou mais, cada anzol atado a u m estropo, e cada estropo atado a u m cabo ou corda em intervalos de no mínimo uma braça, podendo ser de fundo ou superfície dependendo do tipo de peixe; espinhei de garoupa, espinhei fino. Espinhei fino - espinhei feito com anzóis pequenos. Espinhelada boa - diz-se de boa quantidade de peixes capturados de uma vez só n u m espinhei. Esteio - tora de madeira que sustenta u m telhado ou estrutura; também as hastes principais do trançado com o qual se inicia u m samburá, cesto ou jacá. Estiva - estrutura de madeiras colocadas paralelas umas as outras de modo a formar uma plataforma onde as canoas eram puxadas sobre as pedras da costeira. Estivado - diz-se do cardume em que os peixes estão m u i t o juntos uns dos outros; "Tava estivado de peixe, igual u m monte de pauzinho boiado". Estouro - barulho forte que o peixe grande faz dentro d'água com a nadadeira caudal quando se assusta e dá o arranque para fugir rápido. Estrafegada - ato de morder e chacoalhar; " A caçoa patolô e deu aquela estraf egada no braço dele".

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Estragação - o mesmo que desperdício; "Era uma estragação de peixe muito grande". Estrela de rabo - o mesmo que cometa. Estrondar - rachar, lascar; "Tem que virar a canoa no chão de uma vez só, se não estronda ela". Estropo - pedaço resistente de linha ou arame onde são empatados os anzóis. Estrova - estorva, atrapalha. Exalar - palavra usada no sentido de atrair, causar alvoroço; "Antigamente a festa exalava, viroha gente de todo lugá." Experimentar o peixe - expressão que significa testar u m pesqueiro para saber se o peixe está comendo a isca, ou que tipo de peixe está pegando. r ^ , ,'[,/:•• •

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Facear - colocar face a face, " p e r f i a r " u m pano de rede faceado a outro. Fachear - lascar, cortar dividindo ao meio; "Facheou o dedo"; também tipo de pesca na qual se usa uma lanterna na proa da canoa para atrair o peixe. Facho - preparo de gravetos secos para se começar a atear fogo. Fagulho - o mesmo que cisco; " C a i u u m fagulho no meu o l h o " . Fandango caiçara - assim chamado o baile ou função que acontecia nas casas durante as festividades ou mutirões. Era estruturado para durar até de manhã com uma seqiiência de danças e ritmos como o xiba, a cana-verde, o recortado e a tontinha. Farinha d'água - tipo de farinha feita com a mandioca deixada de molho até soltar a casca, quase azeda. Farinha da terra - tipo de farinha de mandioca mais fina e bem forneada, usada no dia a dia. Farinha lisa - diz-se de farinha crua ou velha. Farrancho - diz-se de u m grupo de pessoas que festejam; " U m farrancho de bagunceiros". Fateixa - tipo de âncora pequena. Fazer lixo - diz-se de algo abundante, farto; "Era tanta lata de azeite, que fazia lixo na costeira". Fazer a lenha - diz-se quando a pescaria é farta, " E m cinco ininuto fizémo a lenha!". Fazer um regaço - fazer algo com eficiência exagerada, seja para destruir, matar peixe, roçar o mato, ganhar no jogo, brigar; "Fizemo u m regaço muito grande". Feijão da praia - tipo de vegetação do jundú. Feiticeira - tipo de rede de pesca, entralhada com três panos de malhas diferentes, o mesmo que bitana. 63


Feitio - confecção, construção, desenho, forma; "Essa canoa tem o feitio lá do U b a t u m i r i m " . | Fexo de sapé - tipo de tocha feita de u m feixe de sapé, usada quando não existia querosene. Ferrada - o mesmo que fisgada. Ferrar o peixe - fisgar com anzol; "Ferrei!". Ferrão - espinho venenoso de certos peixes. Ferro - o mesmo que âncora; " O ferro do barco". Fieira - pedaço de cipó, arame o u corda que prende os peixes peia guelra, para transportá-los mais facilmente, o mesmo que pindurico. Fieiro d'água - o mesmo que redemoinhos ou lugar onde a água corre fazendo redemoinhos. Fifó - tocha feita de bambu, palha ou jornal para se queimar as rebarbas do calafeto ou iluminar o caminho, também o mesmo que pau alegre. Figueira da escura - tipo de madeira boa para canoas. Filho - parte de u m cerco flutuante, rente à "boca", é a sobra da asa onde é amarrado o caminho do cerco. Fisga - tipo de arpão utilizado na pesca. Fio de arcala - fio de nylon seda branco ou azul usado para se entralhar o pano de rede na tralha. Fio de ponta - tipo de linha de nylon seda que vinha em meadas e era utilizado no feitio das primeiras redes de tresmalho para tainha, cada meada tinha muitos pedaços curtos, portanto muitas pontas. Fio Fonte Limpa - nome da marca do novelo de fio de algodão que era usado antigamente para se fazer os tresmalhos, era u m fio marrom bem grosso, uns 3mm, a rede durava uns 2 anos, mesmo secando ao sol todo dia para não apodrecer. Flecha - tipo de peixe, o mesmo que robalo flecha, tem a barriga mais pra dentro. Flechar - ato do peixe pular para fora d'água quando está caçando peixes menores; "Flechou que nem espada"; " T e m sororoca flechando no largo".

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Flechinha de ubá - planta cujo caule comprido de suas liores é usado no feitio de gaiolas de flecha. Fogo de rabicho - tipo de foguete feito com flechas de guapuruvu, usado antigamente nas festas de São Pedro. Folha do craguatá - folha de bromélia cuja parte branca do pé da folha era usada, após recortada no formato de u m peixinho, para se corricar; "Era três corricada com folha de craguatá, três cavala!". Folheto - paralelepípedo cortado à mão, com pouca espessura, mais ou menos 30x25xl0cm, para se fazer o piso ou calçamento. Folia - o mesmo que folia do Divino. Folia do Divino - assim chamado o g r u p o que percorre os bairros, em l o u v o r ao D i v i n o Espírito Santo, onde a bandeira e os cantadores são recebidos nas casas c o m comida, bebida e doações para a festa d o D i v i n o . Forcada - corda curta amarrada pelo meio cujas duas pontas são amarradas a uma rede fazendo uma forcada em forma de " V " . Formão - instrumento cortante para se entalhar madeira. Formiga quém quém - tipo de formiga muito voraz. Forneada - quantidade total de farinha que f o i torrada, também alusão ao ato sexual; "Forneada boa". Fornear - ato de torrar a massa de mandioca fazendo a farinha. Forquilha - galho de árvore com as duas pontas simétricas em forma de " Y " . Fortum - cheiro forte de coisa podre ou algo não identificado; "Que f o r t u m mais forte!". Fracassar - diz-se quando o volume de peixe pescado diminui; "Fracassou a corvina". Fragata - tipo de gaivota grande e de penas pretas que plana em grandes alturas, inclusive em noites de lua, também chamada tesoureiro ou carapirá. Frato - tipo de tremedeira involuntária dos músculos. Glossário C a i ç a r a de U b a t u b a

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Frente de fogo - é a onda de fogo intencional que percorre o roçado até o aceiro, é feita na hora mais quente do dia. Fuá - o mesmo que confusão, bagunça, gazarra. Função - o mesmo que baile, folia, bate-pé. ; Fundear - o mesmo que ancorar, apoitar. Fundeio - ato ou local de se ancorar uma embarcação. Fundo de agulha - tipo de anzol antigo de aço duro e quadrado; era bem arcado e tinha o furo de agulha. Fundo de telha - tipo de feitio de canoa cujo fundo externo é menos bojudo, deixando-a mais "ligeira". Furão - tipo de peixe pequeno de costeira, ver baruísa. . Furou a trovoada - diz-se quando uma trovoada ameaça vir com força, mas chega fraca. Furtum - fedor, cheiro forte ou " f o r ç a " de uma substância; "Se d i l u i r m u i t o perde o f u r t u m " . . Fuso - peça de madeira esculpida em parafuso para espremer a massa de mandioca numa prensa de fuso. Fuzá - ato de se tecer u m fio para usar em costura, o fio era torcido em u m fuso feito com uma vareta espetada em uma coroanha que se girava no chão. Fuzilando - diz-se quando a trovoada está relampejando ao longe; "Já v e m ela fuzilando!".

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Gabola - pessoa que fala muito, sabichão. Gadanhar - andar com as mãos no chão, engatinhar, andar de quatro; "Saí gadanhando". Gadanho - assim chamado o ancinho de rastelar. Gaf êra - tipo de ferida na pele, alergia ou pereba que n i m ca sara. Gaiola de chão - tipo de armadilha para pegar passarinho no chão, de 1 ou 2 portas ou alçapões. Gaiola de flecha - grande gaiola feita de flechinha de ubá e varetas de bambu, geralmente com alçapão, onde os passarinhos vão caindo até enchê-la. Gaiola de grilo - tipo de brinquedo que consistia em construir uma mini-gaiola com as hastes do capim-gordura trançadas entre os dedos da mão, fazia-se até o alçapão, tudo igualzinho a uma gaiola de verdade. Gaiolada - resultado de uma grande captura de passarinhos; "Antigamente era gaiolada de 300 sabiás! A gente comia tudo!". Gaiúta - compartimento pequeno na proa de uma embarcação utilizado para se guardar objetos, ou assim também chamada a escotilha de uma embarcação. Galeio - movimento de sobe e desce que uma embarcação faz ao passar pelas ondas. Galha - as nadadeiras do peixe, principalmente as dorsais. Calhando - diz-se quando o peixe nada lentamente com as nadadeiras dorsais fora d'água. Galho - assim também chamado o tangone. Galhudo - tipo de cação muito pescado antigamente. Gambito - o mesmo que perna fina. Gamboa - assim chamada uma área alagada, u m brejo. Gamote - u m amontoado ou pilha de peixes. Gamela - tipo de bacia entalhada em madeira. 67


Gamelão - grande recipiente entalhado em madeira onde se deixava a mandioca de molho. Ganchada - assim chamada uma forquilha de árvore cortada para servir de sobreproa ou sobrepopa em uma canoa. Gancho - assim chamada, a meia volta que se faz c o m a rede de cercar, na frente de u m cardume que v e m de encontro ao lance, quando o peixe entra no gancho, a canoa já está fechando o lance por trás do cardume e ele já não tem por onde escapar mais; "Capricha no gancho que o parati vem louco!". Ganiçando - diz-se do cão que está com o faro no rastro da caça. Garatear - ato de se procurar algo perdido no fundo do mar arrastando-se uma garateia até ela se enroscar no objeto procurado; tipo de pesca onde o peixe que nada na superfície, é fisgado pelo lombo arremessando-se uma garateia por cima do cardume e puxando-se rapidamente até fisgar. Garateia - âncora feita com vergalhão de ferro, com três ou mais pernas; ou anzol de três pernas. Garatuja - diz-se de uma assinatura mal feita, garrancho. Garoupa-brava - o mesmo que peixe-pedra ou mamangava, peixe com ferrão venenoso. Garoupa-xita - tipo de garoupa média, toda pintadinha de preto e molezinha. Garra - assim chamadas, as duas extremidades inferiores de uma canoa; "Canoa n u m tem quilha, tem garra!". Garramar - ato de surfar uma onda com uma canoa a remo até a praia, provavelmente de agarrar o mar. Gastura - fome, queimação de estômago. Gatear - significa colocar os gatos ou grampos numa canoa para consertá-la, " O Tião gateou minha canoa, agora não abre mais". , , . Gato - o mesmo que grampo, para consertar canoas. Gavião - assim chamada, a parte curvada dos cantos laterais da goiva o u enxó goivado.

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Gaviete - peça composta de u m cepo com uma roldana no meio, fixada na proa de uma embarcação para puxar cabos sem danificar o cabo e o bordo do barco. Gazarra - o mesmo que bagunça, baderna. Geme - unidade de medida, é a distância entre a ponta do dedo indicador e aponta do polegar, bem esticados, com a mão em forma de "revólver", "Esta canoa tem 3 palmos e 1 geme de boca". Gerivau - tipo de petrecho usado para se pescar camarão, é como u m saco de rede que fica atado à canoa enquanto a correnteza vai empurrando o camarão para dentro. Ginga - tipo de remo que se rema pela popa do caíco sem tirar a pá do remo da água. Girau - tipo de plataforma feita no galho de uma árvore para se espreitar a caça numa ceva. Gitana - rede entralhada com três panos para se matar robalos, o mesmo que feiticeira ou bitana. Goderô - botou olho gordo, secou; "Goderô tanto o Santos, que perdeu de virada." Goga - o mesmo que gosma; " O cação viola deixa aquela goga na rede". .• - • - Í G o i t i - árvore boa para se fazer canoas. Goiva - ferramenta cortante parecida com o enxó, só que encurvada nas laterais. Golejo - o mesmo que gargarejo, bochecho. Gonguito - tipo de peixe, uma espécie de bagre pequeno. Gorda - diz-se de banana granada ou peixe bom para comer; " A tainha tá gorda hein!". Gorgominho - assim chamada a região interna da garganta, o mesmo que grugumilo. C o r p i n h o - o mesmo que gole; " V ô toma u m gorpirúio de água". Goto - o mesmo que garganta; " O anzol entro no goto". Governar - dirigir, manobrar, pilotar, controlar; "Quem está no governo da embarcação?". Gracai - tipo de passarinho de assobio marcante. Glossário C a i ç a r a de Ubatuba

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I

Grampo - haste fina de cobre ou latão vergada em " U " , usada pregada e depois colada, para impedir que uma rachadura numa canoa continue abrindo. Gravatinha - pedaço de madeira em forma de gravata borboleta que é encaixada, colada e depois pregada, bem no meio de uma rachadura na canoa para evitar que ela continue abrindo. Graxa do peixe - é o muco que o envolve. Greta - qualquer vão ou rachadura, lugar muito estreito. Greta de pedra - vão, buraco, rachadura ou valo em uma pedra. Grugumilo - assim chamado o "caroço" da garganta. Grumixé - tipo de banana boa para azul-marinho. Guacá - árvore de madeira avermelhada e resistente, excelente para o feitio de remos, dá uma fruta redonda comestível, parecida com u m mamão, yt—' ,, . Guaçatonga - planta cujas folhas o lagarto come e se esfrega como antídoto para uma picada de cobra. Guachada de água - jato de água, "A lula deu aquela guachada de água". - V:,V';*Í Guaerana - tipo de árvore cujos frutos parecem bolas e de todos os galhos saem forquilhas perfeitas. De madeira macia e branca, era muito usada para se fazer rabecas e violas. Guaiá - tipo de caranguejo cor de vinho com garras bem gordas, capturado na maré baixa. Guaiá pini - tipo de guaiá pequeno, branco e pintado de amarelo usado como isca para sargo. Guaiá soldado - tipo de caranguejo muito pequenininho de cor escura que vive nas pedras. Guaiamum - caranguejo que vive no mangue e se esconde em buracos na lama. Guanandi - árvore m u i t o resistente usada para canoas e mastros. Guanchuma - tipo de arbusto característico do jundú que cresce formando uma barreira muito fechada e cuja casca era muito usada para se fazer fieira de carregar peixe, seus ga70

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lhos são extremamente resistentes podendo ser arcados ponta com ponta ou torcidos fortemente sem que se quebrem. G u a p u r u v u - árvore frondosa de madeira leve e pouco durável, muito utilizada no feitio de canoas. Guarabebê - peixe prateado da família do pampo com longas pontas negras nas nadadeiras, o mesmo que pampo do alto. Guarassuma - tipo de peixe, assim chamado o xarelete grande de cara e lombo escuros. Guarda -mancebo - assim chamada toda a parte acima do bordo de uma embarcação que proteja o marmheiro de cair nágua. Guaretá - madeira m u i t o resistente usada para encabar ferramentas. Guaruçá - sirizinho amarelado que faz toca na areia das praias. Gumichama - arbusto que dá uma frutinha preta comestível parecida com jabuticaba. Gurupé - assim chamado qualquer tipo de extremidade em que alguém esteja, correndo o risco de cair, no gurupé do barco, no gurupé do galho, no gurupé da proa da canoa; "Tá lá no gurupé". Gusano - tipo de verme aquático que se alimenta de madeira e rói completamente por dentro a madeira submersa de uma embarcação, é a causa de muitos naufrágios.

Glossário C a i ç a r a de U b a t u b a

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Hortelã gorda - o mesmo que hortelã de pato, tem as folhas peludas, usada para temperar peixe. " H o j e é dia de lanço g r a n d e " - alusão aos dias Santos, principalmente 29 de junho, dia de São Pedro, no qual de acordo c o m a fé do pescador no Santo de sua devoção, sua rede mataria grande quantidade de peixes. O maior peixe do lanço, o u Tara, era então separado para ser oferecido ao Santo.

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lai iai... - expressão muito característica do falar nativo caiçara, usada solta com inflexão inimitável, denotando espanto, admiração ou entusiasmo, variação de ai ai ai. Içador - varinha flexível usada em armadilha, para armar e desarmar a porta de uma gaiola de chão. Igual gaiola de chão - expressão usada quando alguém fica visitando a rede sem parar, igual ao alçapão no qual caem passarinhos à toda hora. Imbé - planta parasita de médio porte e folhas largas com longas raízes parecidas com cipó, o mesmo que imberana, diz-se que, se for pronunciada a palavra "imbé" antes de cortar o cipó, ele não se rompe. Imbé - m i r i m - tipo de imbé cujo cipó é mais fino que o da imberana. Imberana - tipo de planta, cuja flor, chamada banana-demico, se comida, causa vertigem, o mesmo que imbé-guaçú. Incêndio de tainha ~ diz-se do cardume avistado à noite em alusão ao clarão causado pela ardentia. Indez - ovo que é deixado no ninho como chamariz para a gaUnha continuar a fazer a postura. Ingaço - assim chamada a haste do cacho de banana ou de coco, onde as pencas estão fixadas; " V o u tirar as pencas e deixar só o ingaço". Injeitar - o mesmo que recusar, rejeitar. Injuriado - o mesmo que chateado, magoado, adoentado; "Hoje tô meio injuriado". I n q u i z i l a d o - sem sorte, desaventurado; "Não pesco mais com esse inquizilado!". Inspetor de quarteirão - espécie de sub-delegado, antigo responsável pela lei e ordem nos bairros. Inticar - provocar, atentar; "Tá inticando...".

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íntirume - diz-se de café tomado p u r o ; "Hoje tomei café Íntirume". Intizicado - pequenino, pouco desenvolvido, fraco. Irara - tipo de animal silvestre parecido com a lontra e a fuinha. Isqueiro de pedra - antigo isqueiro feito com uma pedra branca e u m bambuzinho com u m chumaço de algodão já chamuscado, que batendo com uma faca na pedra, as faíscas acendiam o algodão. Itapeceríca - assim chamado todo costão f o r m a d o por pedra única e u n i f o r m e . Izipra - doença de pele, o mesmo que erisipela, acreditase ser curada facilmente com benzimento.

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Jacá - cesto de cipó ou taquara usado para transportar carga em mulas. Jacatirão de madeira - tipo de árvore de tronco esguio cuja madeira é excelente para se confeccionar esteios. Jacatirão de tinta - tipo de árvore, o mesmo que quaresmeira, cuja casca é extraída e cozida para se extrair uma tinta marrom com a qual se escurecem os panos de rede de fio branco, cozinha-se a rede junto com a casca numa banheira de ferro para conservar a rede e para que, ficando escura, o peixe não a veja; muito usada em rede de cerco flutuante. Jajigo - também jazigo, breve intervalo de calmaria entre uma sequência de ondas fortes na beira da praia; "Tem que esperar o jajigo pra chegar ou sair com a canoa". Jambrar - desestabilizar, vibrar; "Remo bom é remo que não jambra na mão". Jambuí - vegetação arbustiva muito densa típica do jundú, que resiste bem à força das marés. Jangalhar - balançar; "Tá jangalhando muito!". Jangolengo - tipo de peixe vermelho da costeira, de couro como lixa, muito gostoso; não se pronuncia seu nome durante a pescaria se não ele some. Jaracuçú - tipo de jararaca escura e amarelada muito venenosa. Jarová - tipo de palmeira, jerivá, cuja bainha do cacho de coco era usada para brincar de correr totoa. Jasmim - chá feito com coco de cachorro embrulhado n u m pano e mergulhado n'água quente, que acreditava-se, ser bom para curar o sarampo. Jaú - coisa estragada, passada; "Isso aí já tá jaú". Joga caco - tipo de jogo no qual eram utilizadas seis conchas de sapinhauá; jogavam-se as conchas, e se contavam os

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pontos de acordo como caíssem; "Juntava aquele m u n d o de gente pra joga caco". Judiêra - o mesmo que judiação, maldade; " N u m faz uma judiêra dessas!". Jugada - a própria linha de pescar de mão, ou o nome deste tipo de pescaria de mão. J u n d i á - t i p o de peixe, bagre c o m p r i d o da barriga amarela e costas azuis. Jundú - assim chamado o conjunto de vegetação da faixa encontrada na areia das praias e estendendo-se até onde a maré mais alta alcança nos dias de ressaca, vegetação característica da beira da praia crescendo sobre a areia e resistente à água salgada do mar. Junina - tipo de peixe, assim chamado o roncador miúdo.

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Lá pras bandas - indica lugar, local geralmente longe; "Foi lá pras bandas da Ilha". Lagamar - área d'água próxima à areia da praia; " M a t e i aí no lagamarzirúio memo!". Lagartixa - o bicho bem torrado, era remédio para sarampo. Lage - aglomeração de pedras à flor ou acima d'água, quase sempre, total ou parcialmente visíveis. Lais de guia - u m dos nós mais utilizados em marinharia, nunca solta e é fácil de desfazer. Lambarú - tipo de cação com a Hxa do couro bem grossa que vive na areia, cação de lixa. Lambreta - tipo de isca artificial metálica com alguns t u fos brancos ou vermelhos, para matar anchova. Lampear - brilho do peixe ao refletir o sol dentro d'água; "Lampeou naquela oraça lá em baixo". Lampejo - o mesmo que rápido, ágil; "Essa merúna é m u i to devagar, tinha que ser mais lampeja". Lampiana - assim chamada uma faca de aço brilhante. Lance - o mesmo que lanço, ou o número de vezes que se cercou; "Matei três tabuleiros em dois lances". Lançar - o mesmo que vomitar; "Acode que vai lança!". Lanço - o cerco de u m cardume, antigamente u m grande cerco com várias redes abotoadas e depois puxadas para a praia, hoje pequenas redes de tainha e parati principalmente, da pesca à tróia. Langiiiça - tipo de peixe, assim chamada a cocoroca pelos ilhéus da Vitória. Lanhar o peixe - ato de abrir cortes paralelos no dorso ou filé de peixes limpos, para pegar o tempero ou sal. Lapa - grande, enorme; "Feguemo uma lapa duma tairúia qui divia d i tê uns seis quilo!".

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Laranja cravo - assim chamada pelos caiçaras a mexerica "verdadeira". Larga! - comando dado pelo popeiro para o proeiro largar a ponta do chumbo no cerco à tróia. Largar o pano - ato de abrir a vela de uma canoa. Largo da ilha - expressão usada para determinar uma distância de 1 milha ou pouco mais da Ilha Anchieta; "Tava pescando no largo da ilha". Lavar a rede - ato de lavar a rede para tirar o lodo. Lavrar - técnica de se aparar u m tronco deixando suas faces retas e paralelas com o uso de u m machado. Lavreia - ato de se lavrar u m tronco de árvore; "Lavreia no machado". Legítimo - adjetivo que usado ao lado do nome de u m peixe significa que aquele tipo, entre todos os da espécie que tem o mesmo nome, é que é o verdadeiro; "Galo legítimo"; "Bonito legítimo". Léi! - Olha!, veja! (São Sebastião). Lengada - quadrado de rede feita com cordas, utilizado para içar cargas para dentro de embarcações. Levantar o pano socado - ato de se socar o pano do traquete embaixo do banco da canoa antes de içar a verga, quando o vento está muito forte, diminuindo assim o tamanho da vela, o mesmo que rizar. L e r o - l e r o - o mesmo que conversa fiada, indecisão; "Você tá de lero-lero". Lestada - vento forte e constante ventando de leste que mantém o tempo firme. Ligado - diz-se quando o mar está parado, imóvel, parado; " O mar tá ligado, o tempo vai arruinar". Ligeira - diz-se de canoa com pouca estabilidade. Limão cravo - variedade deliciosa de limão cuja casca e polpa são alaranjadas. L i m b u i a - tipo de anfíbio, o mesmo que rã. L i m o - o mesmo que alga, qualquer tipo de alga m a r i nha o u de água doce. 78

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L i m o bravo - tipo de limo marrom abundante nas pedras Ja costeira, o mesmo que sargaço. L i m o de pirajica - tipo de alga larga e escura que em certas épocas cresce na ilha Vitória e é usada em culinária oriental do mesmo modo que o n o r i . L i m o do pote - tipo de limo que se formava no fundo dos potes em que se guardava água dentro de casa antigamente, usado como remédio para o cobreiro. L i m o m i n g a u - tipo de limo muito fino e avermelhado encontrado no fundo de areia, é sazonal aparecendo em grande quantidade quando a água esquenta, muito difícil de tirar das redes. Limpa - diz -se de água não poluída. L i n h a d'água - altura máxima que a superfície da água atinge no casco de uma embarcação, geralmente marcada com uma linha pintada ao longo do casco. Linha de cinta - lirúia marcada em cada bordo externo de uma canoa, no ato de sua construção, que determina o início da curva de seu bojo. Linha de mão - tipo de pescaria sem utilizar vara ou caniço. Litro - unidade de medida muito usada para a farinha. L i v i a n i n h o - o mesmo que muito leve, levíssimo. Lodo - tipo de plâncton amarronzado que gruda nas redes deixando-as m u i t o sujas; "Empesteou minha rede de lodo, que peixe que vai malhar!". Louro - tipo de madeira boa para construir canoas, muito leve e macia, possui veios escuros e bonitos. Lua nova com trovoada, seis meses de molhado - acredita-se que caso ronque trovoada no primeiro dia de lua nova, irá chover durante os próximos 6 meses. Luzerna de fogo - labareda m u i t o grande o u luminosa de fogo.

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Macaco de nuvem - formato de n u v e m característica de cúmulo-nimbo, que precede uma trovoada. Maçãzinha - variedade de banana. Maçonaria - conta-se que era uma religião que alguns caiçaras antigos da Enseada seguiam não se sabe se seriamente ou por divertimento, "Tinha uma lei que eles seguiam, que quando u m encontrava com o outro, c u m p r i mentava colocando o dedão na ponta do nariz c o m a mão espalmada, o outro que vinha com a mão cheia de coisa, t i nha que responder na hora, cruzando os braços, dando uma banana, e tocando com u m dos joelhos no chão. Caía tudo no chão, peixe, compra, balaio, mas tirúia que responder, todos seguiam, era u m divertimento!" Machete - tipo de viola pequena, feita com uma tábua, as cordas de arame amarelo e uma cabaça como caixa acústica. Machote - tipo de peixe, espécie de cação assim chamado o galha preta de mais ou menos 4 quilos. í Madornar - tirar uma soneca, cochilar após o almoço; "Passei uma madorna boa ontem". M a d r i n h a carregadeira - a madrinha que antigamente na cerimónia do batismo carregava a criança; tinha poderes de mãe e de combater o saci se preciso. Madrinha de imbigo - a parteira que corta o umbigo. Mãe-do-£ogo - assim chamada a madeira de cerne colocada em uma fogueira com a função específica de fazer com que o braseiro atravesse de u m dia para o outro para que o fogo seja reaceso. Mãe do ouro - tipo de assombração cuja presença indica a existência de ouro no local; boitatá. Mão do pilão - haste roliça de madeira resistente, com duas extremidades rombudas, com a qual se soca o pilão, , para fazer paçoca ou moer grãos. J 80

Magote - cardume de peixe, geralmente formado da d i v i são de u m cardume maior em vários magotes. Magra - diz-se de banana não desenvolvida ou peixe fraco e doente; "Banana magra não presta pra pirão". Mal pisado - lesão na sola dos pés causada por se pisar de mau jeito, ou ato de se pisar em falso. Malandro - cabo que vai atado da porta do arrastão até o meio do sacador para se puxar a rede a bordo. Male má - o mesmo que "mais ou menos". Malefício - tipo de pingente de madeira que se usa ao pescoço ou pulso como proteção. Malha - cada pequeno losango de uma rede formado por 4 nós; também jogo onde tenta-se derrubar u m pino distante mais de 30 metros, arremessando cada jogador alternadamente, 4 discos de metal maciço chamados malha. Malha por malha - técnica de perfio em que as malhas são perfiadas uma por uma, sem embeber. Malha corrida - deformidade no formato da malha de uma rede causada por grande esforço ou tensão que ocasiona o deslizamento dos nós. • ' ' ' Malhão - tipo de rede feita com fio de nylon seda geralmente escurecido com jacatirão e malha grande, especial para matar cação. Malhar - ato do peixe se prender na rede; ficar preso na malha; " M a l h o u pelo rabo". Mamangava - peixe exótico comestível com ferrão venenoso, o mesmo que peixe-pedra ou garoupa brava; também espécie de inseto parecido com abelha, porém grande e preto, cuja picada dói muito. Mamar a isca - modo que a espada quando está manhosa ou é miúda morde a isca no anzol. Mamucha - forma de cortar uma laranja, retirando-se apenas o topo da casca, de modo a permitir que se esprema e sugue o suco cientro da própria casca. Mancha de peixe - o mesmo que cardume.

Glossário Caiçara de U b a t u b a

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Mandacaru - tipo de cacto c o m u m na costeira que dá u m fruto comestível parecido com uma maçãziniia. Mandioca -brava - variedade venenosa de mandioca quando crua, podendo ser comida a sua farinha. Mandiqtiera - sumo venenoso extraído através da prensagem da mandioca -brava ralada, no tipiti. Mandrião - diz-se da pessoa preguiçosa, acomodada, vadia. Maneirinho - com jeito, cuidado; na medida; leve; "fiz a rede bem maneirinha de chumbo". Manga d'água - assim chamado o redemoinho que, numa tempestade, suga a água do mar para depois despejar tudo de uma vez numa tromba d'água. Manga da rede - assim chamada a parte das pontas de uma rede de pesca, " M a l h o u tudo na manga!". Mangericão - tipo de dança tradicional. Mangona - tipo de peixe, o mesmo que caçoa, a fêmea do sanhapê. Mangorra - tipo de peixe, o mesmo que jangolengo. Mangue - tipo de vegetação pecuhar das áreas geralmente próximas de rios, que se alagam com a maré cheia; também espécie de árvore frondosa de flores arroxeadas excelente como lenha para fogão, cuja casca grossa, por dentro, é vermelha com pintas brancas igual a u m salame, e serve também como tinta de cerco. Manguezal - área característica de mangue. Manta - o mesmo que filé. Manteia - o mesmo que fazer o filé; "Manteia! Manteia uma isca de bonito aí, se não vou perder a garoupa". Manta de peixe - o mesmo que cardume; "Era uma manta de peixe muito grande!". Mão à prumo - assim chamada a parte da porta de uma casa de taipa que hoje corresponde aos batentes. Mão de cabo - trançado feito na ponta de u m cabo em forma de argola para amarração. Mão do fuso - parte da cabeça do fuso de uma prensa de mandioca onde era passacia a verga para acochar. I'eter Santos N é m e t h

M a r abaixo - ir embora, se mandar, ir longe. ' • M a r de vento - tipo de agitação do mar cujas ondas quebram na praia sem uniformidade, ondas de pico. M a r grande - o mesmo que mar bravo ou de ressaca. M a r novo - assim chamado a porção do mar muito profundo e distante da costa onde a água passa ter uma coloração azul cobalto, o mesmo que mar azul. Mar puto - mar bravo, com ondulação forte ou maresia, o mesmo que mar grande. Marão - diz-se do mar com ondas muito grandes. Marcação - ponto de referência em terra usado para se localizar u m pesqueiro ou parcel no mar; "Você conhece a marcação do parcel de sueste?". Maré boba de São José, não me molha o pé - conjuro que acredita-se fazer com que o mar fique bravo. Maré de cordão - o mesmo que maré de quarto ou maré testada, que não sobe nem desce. • "•í'-" Maré de lua - assim chamadas as marés fortes que ocorrem durante as luas cheia e nova. Maré de quarto - a maré do quarto crescente ou minguante da lua, que é testada, não sobe nem desce. Maré do dia - a maré alta do dia. Maré da noite - a maré alta da noite, geralmente maior que a do dia. Maré testada - maré que não sobe muito nem desce muito ao longo do dia. Maresia - revolta de mar com grandes ondas e maré alta, o mesmo que ressaca; também o cheiro característico do mar ou seus vapores corrosivos. Maria Luisa - tipo de peixe, ver baruísa e furão. M a r i a peidorreira - planta de fruto redondo e cascudo. Marisco m i r i m - minúsculo mexilhão preto das pedras que não cresce. Marmandado - o mesmo que desobediente. Marola de vento - pequenas ondulações produzidas na superfície do mar por u m vento constante. Glossário C a i ç a r a de U b a t u b a

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Marracho - tipo de cação da cabeça chata. Marrafa - tipo de dança tradicional. Marrenlo - o mesmo que teimoso, cabeça dura. Marruada - o mesmo que arrebentada, partida; "Usemo u m bocado de pedra marruada da costeira". Martelo - antiga unidade de medida equivalente a V4 de garrafa ou 166.6 m l . Mas nem u m rabo de peixe pra cumêl - expressão usada quando a pescaria fracassa. Massaranduba - tipo de árvore, de sua casca sai u m leite, que os antigos diziam, substitui o de vaca. Mataguêra - diz-se de mato alto ou matagal. Matar no peixinho - pescar com isca artificial. Matar o bicho - tomar uma pinga antes das refeições. Matar peixe - o mesmo que pescar, mesmo se o peixe v i v o for solto depois; "Matei duas garoupinhas, mas soltei". Mate - assim chamado pelos pescadores de Toque-Toque Grande em São Sebastião, o perfio que une o fundo do cerco flutuante com a parede do mesmo. Mau-olhado - energia negativa lançada através do pensa-1 mento capaz de causar doenças à uma pessoa. Maxuxo - o mesmo que xuxu, (São Sebastião). Meia água - nem muito raso, nem muito fundo; " A lula está pegando à meia água". ! Meia jorna - no meio do caminho; "Ferrei o peixe e quan-' do tava em meia jorna, escapuliu!" i M e i z i n h a - assim chamado qualquer tipo de chá mediei- i nal; " V o u preparar uma meizinha". ! Membeca - tipo de peixe, espécie de pescada. Mestre - aquele que comanda u m barco de pesca. Mestre da rede - como era chamado o dono da rede de tainha. ,' :, ; , j Mete a mão! - comando dado para se recolher a rede o' mais rápido possível. Mete o remo! - comando para se remar forte e rápido.

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Mezena - tipo de velame utilizado nas canoas de voga, geralmente triangular, também u m pequeno cabo preso à proa da canoa que estica o pano do traquete, permitindo que a canoa navegue ligeiramente orçada. M i j a - m i j a - tipo de ascídia que expele u m jato d'água quando tocada, este jato possui toxinas que provocam coceira insuportável, assim também chamado o pepino do mar. M i j u a d a - tipo de rede pequena ou pescaria em que se emprega u m pedaço de rede. M i n d i n g o - assim chamados os quatro pedaços de rede triangulares, que dão o formato de saco ao sacador de u m cerco flutuante ou ao copio de uma rede. M i o l o do craguatá - parte central comestível da bromélia; "Se não matar nada, vai ter que comer o miolo do craguatá!". Miserento - miserável, pessoa r u i m . Misgalhar - o mesmo que esmigalhar. ^ ' M i s t u r a - peixes miúdos que são capturados e têm p o u co valor comercial. M i u d a r - diminuir, acabar; "Já tá miudando". M i u d e z a s - assim chamadas as diversas danças do fandango caiçara, tais como: ciranda, recortado, canoa, cerrabaile, tontinha, cana-verde, manjericão, vilão de lenço, v i lão de mala, anuzinho, marrafa e canoa; " N o fandango caiçara, a primeira dança era sempre o xiba, depois viriham as miudezas". • • Mocho - tipo de banco com três pernas. Mocó - lugar de esconderijo. Mocosar - esconder, ocultar n u m mocó. Moedo - mistura de argila e cinza que socados, constituía m o assoalho das casas de taipa de mão. M o k a - o mesmo que café; "Vamo toma u m moka". M o l h a r a rede - dar u m lance, lançar a rede n'água; " N e m molhemo a rede!". M o l e d o - pedra grande de rio ou de barreiro. Moquear - técnica de sapecar na brasa a carne rapidamente para conservá-la provisoriamente, usada em caça. Glossário C a i ç a r a de U b a t u b a

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Moqueca - tipo de comida feita com sardinha-mole misturada com farinha molhada e embrulhada em folha de bananeira, depois enterrada sob a brasa de uma fogueira. Moquecado - o mesmo que encolhido, deitado cheio de cobertas; "Tá moquecado?"; "Já moquecou-se?". Moquém - grelha de madeira verde feita sobre uma fogueira para se assar caça ou peixe. Mordeu é! - expressão usada quando se conta algo absurdo que alguém tenha dito ou feito, ou quando se vence uma discussão, o mesmo que " t o m o u ! " . Mordeu o berne - expressão que originou e significa o mesmo que " m o r d e u é!". i Morgar - expressão usada no sentido de encolher, deformar; "A tábua tá morgando pra dentro". Morrinha - catinga, cheiro forte, fedor. ' Mortinha - diz-se da rede bem entralhada que não fica esticada como uma parede, "Rede boa tem que ficar bem mortinha". Moura - assim chamada a mistura acumulada em potes, do sal derretido do processo de salga dos peixes, o mesmo que salmoura. ...r 'V:. i r I Movida - que não se desenvolveu, atrofiada, pequena, magra. Muito grande demais - expressão muito usada pelo caiçara para dar ênfase maior ao acontecido numa narrativa, "Pesquemo u m peixe muito grande demais!"; "Era uma fome muito grande demais!". Mujarrona - assim chamada a vela de uma canoa grande; "Largar o pano era numa canoa pequena, traquete era a vela da canoa média e mujarrona era a vela da canoa grande". Mulata - tipo de peixe, espécie de cocoroca, a maior delas e mais gostosa; "De primeiro a gente ia matar camarão com puçá nas Toninhas pra depois ir a remo matar cocoroca m u lata na Ilha".

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Mulato velho - assim chamado o bagre escalado. Mundéu - tipo de armadilha onde u m tronco pesado cai sobre a caça.

Mundéu pique - tipo de armadilha onde uma vara vergada e retesada, ao ser desarmada dá uma lambada que mata Cl bicho. Muntuêra - o mesmo que monte, pilha; "Fazia aquela muntuêra de tainha na praia". M u r a - assim chamada a parte menor d o pano do traquete de uma canoa a vela, a partir do mastro. Murchão - parte mais alta de u m charco de taboa que d i f i cilmente alaga, local preferido para moradia do caiçara antigo pela fertilidade do solo, exceto para a laranjeira. M u r u n d u m - u m amontoado, uma aglomeração. Mutacanga - assim chamada a cabeça do cação com as guelras com a qual se cozinha u m tipo de mocotó, (São Sebastião). Mutirão - costume antigo de trabalho em grupo não remunerado, usado para u m roçado, plantio ou barreamento das casas, geralmente terminava em u m grande almoço coletivo e u m fandango às custas do dono da roça ou da casa. Muzarrato - t i p o de caramujo comestível da pedra, o mesmo que rosca.

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uue traz chuva, m u i t o respeitado e temido, muitas vezes chamado apenas por "ele". Diz-se que é o único vento que iunta cisco. j„ ' Norte - vento forte, breve e com rumo, que cai sempre de norte; "Se é norte, é pouco, mas é forte". ,_ Nanicão - qualidade de banana que não serve para cozinhar azul-marinho. Naniquinha - qualidade de banana. Não ai - o mesmo que não tem; "Hoje, peixe não a i " . Nas grimpa - lá no alto, no último galho; " O caga-sebo tá lá nas g r i m p a " . Negaciar - técnica de caçar periquitos usando-se duas varas compridas de bambu, uma com u m periquito e uma banana amarrados na ponta, usado como chama, o outro bambu com o laço; agitava-se o bambu com o chama que ao bater as asas atraía os outros periquitos para perto da banana quando então eram laçados com o outro bambu; "Ficava o dia inteiro negaciando". Negoaço - pessoa albina ou muito branca com feições físicas negras; também assim chamada, a pessoa que não suporta enxergar ou trabalhar sob a luz forte do sol ou se acostumou a trabalhar somente de manhãzinha e de tardezinha e prefere andar à noite. Nem palombeta! - expressão que significa conseguir pouca coisa, pescar nada, fracassar. Nesga - corte, faixa ou dobra em sentido diagonal em uma rede de pesca. "Cortei em nesga". Nitinga - tipo de mosquitinho esbranquiçado que voa em quantidade; "Olha o tanto de nitinga na toca, é sinal que o tatu ta lá dentro!". No tempo dos antigo - expressão muitíssimo usada no início de uma narrativa que evoca u m caso ou acontecimento do passado. Noroeste - vento forte e quente que cai em refregas súbitas e violentas quase sempre trazendo chuva. O noroeste pode não ter r u m o definido, é o nome do vento quente

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o O quá! - o quê!, expressão de espanto, (São Sebastião). O que é isso vosso! - expressão de espanto, (São Sebastião). O rei tem chifre! - Conta-se a história de que u m rei precisava cortar o cabeio e u m barbeiro muito simples foi lá para cortar e descobriu que o rei tinha chifre, mas ele foi proibido de contar para as outras pessoas, então hoje quando as crianças brincam com u m apito feito com o caule do taquari, u m tipo de capim parecido com u m bambuzinho, gritam: " O rei tem chifre!", para as pessoas ficarem sabendo. O tempo carrega - expressão usada para explicar porque u m cardume some depois do mar engrossar. O tempo tá se levantando - expressão usada para indicar que o tempo nublado está abrindo. Obra-morta - assim chamada toda a estrutura de uma embarcação situada acima da linha d'água. O b r a - v i v a - assim chamada toda a estrutura de uma embarcação situada abaixo da linha d'água. Ofender - o mesmo que estragar ou quebrar por esforço ou mau uso; "Ofendeu a garra da canoa". Óleo - tipo de árvore de madeira pesada, utilizada no feitio de canoas.

Oraça - assim chamado o rastro das ondas concêntricas formadas na superfície d'água quando se joga uma pedra, pula u m peixe ou se realiza u m movimento na água, também qualquer diferença na cor da água que se perceba ao longe, causada por vento ou correnteza; " P u l o u lá perto daquela oraça". Os antigo - expressão muito usada para designar os ancestrais, os antepassados; " N o tempo dos antigo..." Oquéquié - tipo de assombração que fazia barulho nos caminhos e jogava pedras nos telhados. Orraca - tipo de aro de arame grosso ou vergalhão trabalhado e enleado com corda que era atado à verga e preso ao mastro para impedir que o vento forte afastasse o pano do traquete do mastro. Ouro - variedade de banana típica do litoral, muito doce e miúda que se dá melhor na sombra. O u r o encantado - tesouro que no tempo antigo era benzido antes de ser escondido e que quando encontrado, se não fosse desencantado, se transformava em carvão, pedra ou bichinhos. Ova branca - assim chamados os sacos que contém o esperma do peixe macho, geralmente da tainha. Ova movida - diz-se da ova de peixe que não se desenvolveu, está pequena e com coloração diferente da normal.

Olhado - tipo de mau-olhado mais poderoso que o quebranto pois era pinchado com muito ódio e raiva, causava doenças sérias e até a morte, não era qualquer benzedeira que cortava o olhado. O l h o - d e - b o i - assim chamado o arco-íris quando só se pode ver u m pedacinho dele e não o arco todo; assim também chamada a semente da coroanha. O l h o de cão - tipo de peixe, o mesmo que jangolengo. Onda goivada - diz-se de onda bem cavada ou curvada como uma goiva, quase quebrando.

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p Pá de meia - o mesmo que pé de meia; "Antigamente a gente encliia o pá de meia de dinheiro e guardava". Pacau - qualquer tipo de cigarro feito à mão. Pacote de rede - diz-se quando a rede embola ao sair da canoa; "Fez u m pacote de rede!". Pafunço - sujeito bandido, jagunço; "Cara pafunço!". Pai Antônio - tipo de peixe parecido com a sinhá rosa só que mais gordinho e azulado. Paina - árvore que dá u m fruto de onde sai uma paina amarela com uma semente muito oleosa, comestível crua o u torrada, é tida como afrodisíaca. Paiquipita - tipo de peixe, o mesmo que tiiuúna. Palamento - o conjunto do equipamento de carregar uma espingarda de caçador; a pólvora, o chumbo e a vareta de socar pela boca do cano. Palombeta - tipo de peixe miúdo muito comum. Panã-Panã - tipo de borboleta das asas azuis faiscantes, muito comum nas matas de Ubatuba. Panagem - o mesmo que pano de rede, também a parte da rede sem as tralhas. Panaguaiú - tipo de peixe, peixe -agulha. Pandeco - refeição acondicionada para viagem, embornal de comida; "Deixa que eu levo o pandeco". Panear a rede - ato de repassar uma rede já armada, com as mãos, a f i m de reposicioná-la, verificar sua integridade ou visitá-la na despesca de u m cerco flutuante; "Paneia a rede aí agora!". Paneiro - pedaço de tábua que retém o peixe na proa de uma canoa ou no porão de u m barco. Panga - assim chamado o caíco de uma traineira.

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Fano - assim chamada a vela de uma canoa pequena, antigamente feita de sacos de pano branco costurados u m ao outro depois entralhados na verga, geralmente quadrada. Pano de rede - porção de rede que se compra em panos geralmente com 100 metros de comprimento por 5 de altura, para se confeccionar uma rede de pesca que pode ter 1, 2, 3... panos de altura por 1, 2, 3... panos de comprimento. Pantarroão - erva medicinal para dor de dentes. Pantola - tipo de siri da costeira, o mesmo que santola. Papa -isca - assim chamados os peixes miúdos das pedras que roubam a isca de garoupa, quando eles param é sinal que a garoupa grande está perto. Papel manilha - tipo de papel usado antigamente para encapar cadernos e fazer cones de amendoim, podia ser amarelo, rosa ou vermelho-claro. Parafusar - o mesmo que pensar; "Tô parafusando". Parati-guaçú - tipo de peixe, assim chamado o parati quando fica grande como uma tainha. Parati-puã - tipo de peixe, o mesmo que parati barbudo, raro hoje em dia. Parcel - aglomeração de pedras no f u n d o do mar, sempre submersas. Parcelada - grande extensão de pedras no fundo do mar, " A l i é uma parcelada só". Parte - quantidade à que tem direito u m pescador na partilha do total pescado, de acordo com a sua função na pescaria, existindo u m conjunto de convenções que definem o direito às partes. Parú - tipo de peixe grande que nada em cardumes, é cinza com listras escuras, o mesmo que enxada. Passar a rede - ato de se abrir e estender a rede da canoa ou embarcação de modo a verificar seu estado de conservação ou para guardá-la; " M e ajuda a passar a rede?". Passarinho - diz-se de qualquer espécie de pássaro marinho, gaivota, trinta-réis, fragata, etc. Glossário Caiçara de U b a t u b a

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Passarinho de banana - assim chamado qualquer passarinho que se aUmente de banana, tiê, sanhaço, saíra, e que para aprender a se alimentar na gaiola deve ser obrigado a comer à força u m pedaço de banana, se não morre. Patesca ~ haste de metal semi-curvada, geralmente com uma roldana na ponta, que fica nos bordos do barcti para p u xar u m cabo de rede. Pati - espécie de palmeira nativa de folhas amareladas. Patieiro - local onde existem muitas palmeiras chamadas pati. ^ Patolô - o mesmo que pegou, apertou; " A caçoa patolô o braço dele". Patrão de pesca - o comandante encarregado de u m barco, o patrão do barco. Pau alegre - o mesmo que fifó, tocha feita de bambu e uma mecha embebida em azeite de nogueira ou querosene, tapado com uma rolha, usada para iluminar o caminho. I Pau-a-pique - técrúca de construir casas com paredes de barro e estrutura de madeira, o mesmo que taipa. Pau de cerne - o mesmo que madeira de lei. ^ Pau de lixa - o mesmo que crisciúma, tipo de capim que arranha muito a pele. Pau de querosene - assim chamado o cambará de facho, tipo de madeira que queima até mesmo verde. Pau gorpeado - assim chamado o toco de caule pontiagudo resultante de uma roçada, após sofrer o golpe da foice; "Caiu em cima de u m pau gorpeado". Pé de caverna - assim chamada cada extensão das cavernas de uma embarcação, imediatamente após as cavernas e parafusadas a elas. j Fé-de-cevá - pedrinha mágica tirada da placenta da égua, A pedra se "alimenta" com agulhas virgens e depois realiza todos os desejos de quem a possui. ] Peça - diz-se da unidade de peixe ou camarão que foram pescadas; " U m quilo do branco graúdo dá umas 17 peça".

Peça de cabo - assim chamada a unidade contínua de cabo c)U corda; "Comprei uma peça de cabo nova". Pedir um Reis - costume antigo em que ao se ouvir a primeira cigarra da temporada cantar, pedia-se uma festa, u m Reis, à primeira pessoa que encontrasse. Pedra - medida de gelo correspondente a uma caixa ou 20 quilos; "Quantas pedra vai querer?". Pedra-moledo - tipo de rocha quebradiça de saibro. Pegadeira - expressão usada quando fica abundante a pescaria de anzol; "Tava uma pegadeira de lula!"; "Deu uma pegadeira de espada depois parou". Pegador - local no fundo do mar onde as redes se enroscam e que não é parcel, geralmente u m barco afundado; "Não sabia deste pegador e perdi a rede!". Peiral - espécie de vala profunda que ocorre na arrebentação das praias do mar bravo, onde a pessoa perde o pé e se afoga. ' '"' " ' '•••<"* Peixe aboiado - diz-se do peixe que está na superfície d'água, "Fizemo a rede pra matá peixe aboiado". Peixe bravo - assim chamados todos os peixes que correm ou não são de costeira, possuem o rabo em forma de " V " , rabo de corrida; tainha, bonito, carapau, sororoca, etc. Peixe de arribada - assim, chamadas as espécies migratórias quando retornam da migração. Peixe de corrida - assim chamadas as espécies migratórias quando iniciam a migração, geralmente gordas e ovadas. Peixe de f u n d o - diz-se das espécies de peixe que v i vem no f u n d o do mar. Peixe de l i n h a - qualquer peixe que se captura com linha de mão ou jugada, " V o u matar peixe de linha". Peixe manso - assim chamados todos os peixes de toca ou de costeira, possuem o rabo redi^ndo, em forma de " C " ; corvina, garoupa, pirajica, pescada, etc. Peixe moído - diz-se de peixe estragado, podre; " O peixe já tava querendo ficar moído".

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Peixe-reis - o mesmo que manjubinha, aletria. Peixe-tapa - o mesmo que linguado. Peixinho - o mesmo que isca artificial; " M a t e i u m robalão no peixinho". Pelote - assim chamadas as bolinhas de barro que eram secas ao sol para usar nas atiradeiras e bodoques. Pequiá - tipo de árvore cujas pontas dos galhos formam forquilhas perfeitas que era muito usada na confecção de agulhas de pesca. Perdi o chumbo! - expressão usada quando a tralha do chumbo escapa da mão ao ser embarcada. Perdoega - tipo de planta rasteira típica do jundú cujas bagas são comestíveis. Perfiar - ato de se costurar u m pano de rede a outro unindo as malhas através de uma laçada contínua chamada perfio, deixando-se perceber a emenda, no entanto, sendo mais rápido de se fazer e desfazer, se necessário trocar u m dos panos da rede. Perfio - o fio com o qual a rede está perfiada ou a própria costura do perfio; " A rede rasgou no perfio". Perna - qualquer tipo de ponta ou extremidade; o número de vitórias n u m jogo; "Perna da garateia"; " O remendo começa, da malha que tem três pernas"; " A primeira perna quem ganhou fomo nóis". Perna de aranha - assim chamado o remendo de rede mal feito no qual sobra luna pema na hora do arremate; "Terminou em pema de aranha". Pema de ova - assim chamado cada u m , dos dois sacos de ovas do peixe; "Matei uma tainha com cada perna de oval". Pescar de corrico - pescar com a isca a reboque da canoa ou barco em movimento. Pescar de jugada - o mesmo que pescar de linha de mão. Pesqueira - diz -se dá rede que é boa, bem feita e sempre mata peixe; "Essa rede é pesqueira demais!". Peta - tipo de peixe, assim chamado o marlim-azul.

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Piaco - o mesmo que adoentado; "Tô meio piaco". Picaré - tipo de rede, com umas 30 braças de comprimento e 3 de alto, atada à duas varas, que se arrasta na arrebentação da praia por duas pessoas. Piche - tipo de farinha feita com milho torrado socado no pilão com amendoim, para acompanhar o café, assim também chamado u m tipo de puxa-puxa feito do melado de cana bem apurado. Pico - o mesmo que forte coceira no corpo; " M e deu u m pico no c o r p o ! " . Picumã - fuligem do fogão à lenha que se acumula no f u meiro, usada como remédio. Pijucando - o mesmo que começando a apodrecer. Pijuco - diz -se quando a madeira está fofa e amolecendo por podridão; "Esse pau tá meio pijuco". Pilastra - paralelepípedo cortado à mão para se fazer m u ros, com mais ou menos 40x30x30 cm. Pilão - tora curta de madeira escavada em formato cónico, dentro da qual se soca a paçoca ou grãos. Pinchar - o mesmo que arremessar, lançar fora, jogar. Pindá - o mesmo que ouriço do mar. Pindaíba - má sorte, maré r u i m ; também vara de pesca improvisada; " A h uma hora dessa com uma pindaíba em cima da pedra hein...". Pindurico - o mesmo que fieira, pedaço de cipó ou arame que se passa através da guelra e da boca dos peixes para carregá-los mais facilmente. Piranguêro - assim chamado o turista que desce para a praia vindo de Taubaté e região. Pirão - caldo de peixe, principalmente da cabeça, engrossado com farinha de mandioca. Piriricado - arrepiado; " O mar p i r i r i c o u em cima da laje e quase q u e b r o u " . Pirrixiu - tipo de raiz comestível encontrada no jundú.

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Piruã - a moela da tainha, da qual cozida, era extraído urr óleo para as lamparinas. ' Pisar o rolo - manobra feita travando -se com o pé o rolo da canoa, para mudar a direção em que se está rolando a canoa; "Pisa o rolo, pisa o rolo!". Pissango - nome do peixe parati, quando pequeno. Pita - espécie de planta parecida com o sisal da qual se extraem fibras e também u m tipo de sabão. Piteira - local onde crescem muitas pitas, "Saco da piteira". Pititinga - o mesmo que camarão branco. P i t i u - fedor, cheiro r u i m , cheiro forte. Pito - tipo de cachimbo pequeno, feito de barro. ' j Pito saci - tipo de inseto, o mesmo que libélula. > ' ^ Pitu - tipo de camarão da água doce. Pixirica - tipo de fruta v e r d i n h a que dá em cachos parecidos com o de uva. Podão - assim chamado u m tipo de foice utilizado para podar árvores. Põe o lenço! - dizia o dono da casa em que se realizava uma dança, ele mandava pôr u m lenço sobre o lampião quando u m rapaz insistentemente tirava a mesma dama para dançar, com o lenço no lampião, só as moças podiam escolher o par para dançar, era para verificar se a moça queria ou não dançar com o rapaz insistente. Poita - pedaço pequeno de cimento o u pedra amarrado a uma corda para se ancorar uma rede, canoa ou para se espantar o peixe jogando-a na água; também u m grande pedaço de concreto, com uma alça de aço bem forte, jogado no fundo do mar para se amarrar uma embarcação com segurança. Por terra - assim chamada a porção de água mais próxima da terra; " O peixe tá mais por terra". Pote d'água - vasilha de barro cozido, especial para armazenar água dentro de casa; nunca lavado, o limo que crescia dentro tinha poder de cura. Pomba - alusão ao órgão sexual feminino.

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Pomboca - tipo de cação miúdo, também usado em alusão ao órgão sexual feminino. Ponhamos - o mesmo que pusemos, colocamos; "Ponhemo tudo pra c i m a " . Ponhei - o mesmo que pus, coloquei. Ponta do chumbo - assim chamada a primeira braça da tralha do chumbo em uma rede de pesca. Porfia - o mesmo que disputar, competir; "Vâmo porfia?". Posta - pedaço de peixe cortado em toletes no sentido perpendicular ao seu comprimento. Postear - cortar u m peixe em postas; "Quer posteado?". Pouco - expressão muito usada antes de u m adjetivo querendo significar exatamente o oposto a pouco, ou seja, muito; "Pouco grande o meu peixe!"; "Pouco pesada essa canoa!"; "Pouco gostoso o pirão!". Pousio - método de cultivo agrícola tradicional caiçara no qual uma roça é explorada por ciclos de 15 anos deixando que a mata se regenere e refertilize o solo. Pra s a m b i q u i r a - diz-se quando a calça de alguém está abaixo da cintura, quase caindo; "Tá c o m as carça pra sambiquira!". ,. , ,. , Praia de tombo - tipo de praia que possui uma vala profunda dentro d'água, bem próximo da areia. Praiado de peixe - diz-se de u m grande cardume de peixe; "Perdemo u m praiado de peixe!". M , : , , Ofi ( Pranchando - diz-se do cardume, principalmente de paratis, que v e m espanando e saltando repetidas vezes na flor d'água. Pregoaba - tipo de molusco bivalve que dá na areia, possui conchas grandes brancas ou cinzas. Preguaí - tipo de caramujo pequeno e comestível de concha alaranjada, muito comum no fundo do mar próximo das praias e costeiras. Preguiça? Manda pra embaúba! - usa-se em resposta para quem reclama que está com preguiça. Alusão ao fato Glossário C a i ç a r a de U b a t u b a

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das folhas da árvore da embaúba serem o alimento preferido do bicho-preguiça. y ' Prensa de fuso - tipo de prensa de espremer a massa da mandioca antes de fazer farinha. Preparo - material ou petrecho de pesca para realizar a pescaria de u m peixe específico; preparo pra lula, preparo pra anchova, "Achei o peixe, mas estava sem o preparo". Primeira rasada - assim chamada a primeira etapa do feitio de uma canoa, onde a parte de cima da tora é retirada, delimitando a largura da boca. Prosa - bate-papo, conversa; "Senta aí, vamo proseá u m bocadinho". Puçá - tipo de petrecho de pesca que consiste n u m tipo de f u n i l de rede que era arrastado por canoas à remo para capturar camarões. Pulô! - expressão dita no momento exato em que a tainha salta inteira para fora d'água, denunciando onde está o cardume, de noite escuta-se quando ela cai na água após o salto; "Pulô!". Pulvo - diz-se de cor indefinida, mesclada ou de cor de sujeira; "Comecei a esfregar e o casco ficou p u l v o " . Punho - assim chamado o reforço triangular costurado nos cantos do pano do traquete. Puxada - assim chamado o mutirão realizado a f i m de arrastar pela mata u m tronco de árvore arrasado ou não com o qual se fará uma canoa, ou a própria canoa pronta que tenha sido feita no meio do mato. Puxador - assim chamados os camaradas que ajudavam a puxar o cabo da rede de arrasto; também o nome do petrecho feito com u m saco de estopa amarrado nas pontas e neste nó é trançado u m pedaço de corda com u m nó cego na ponta; punha-se o saco de estopa em volta da cintura e a corda com o nó era laçada com u m cote no cabo da rede de cercar pra praia, ficavam oito pessoas puxando cada cabo, quando chegavam atrás, soltavam o cote e corriam pra frente laçando o cabo novamente até o lanço atracar na praia, as vezes das 4 100

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da manhã até as 10 horas do dia, o pessoal trazia café e comida para os puxadores que comiam sem parar de puxar, cada puxador tinha direito a u m quinhão. Puxar uma tarimba - tirar u m cochilo, dormir.


Que nem folha de abricoeiro - expressão usada para descrever o barulho que faz u m grande cardume de tainha, que estala como folha de abricoeiro jogada na fogueira; "A tainha vinha que nem folha de abricoeiro". Que nem um siri na lata - expressão usada quando se conta que alguém ficou muito bravo; "Fulano tava que nem u m siri na lata". Quebranto - tipo de mau-olhado causado por inveja inocente, sem maldade ou intenção de prejudicar. Queijo - parte da prensa de fuso onde a massa de mandioca era espremida formando u m bloco. Queimada - tipo de xarope feito de açúcar queimado, p i cumã, pinga e gengibre usado no pós parto. Queimado de noroeste - diz-se do tempo quando se vê no horizonte uma vermelhidão do ar característica de m u dança de tempo com vento forte e quente. Queimar na ardentia - expressão usada quando o peixe malhado o u em cardume, brilha intensamente com a luz da ardentia; "Rodemo a ilha toda e não q u e i m o u nada na ardentia!". Quer um peixe pra comer? - expressão m u i t o usada entre u m pescador que chega do mar e outro que está na praia e faz parte da turma que sempre se ajuda; quase que uma lei entre companheiros que se prezam, uma regra de "etiqueta" caiçara. Querrequincha - tipo de peixe de escamas duras, r u i m de se comer. Quidéli - expressão usada pelos ilhéus da Vitória significando, cadê, onde está; "Quidéli o peixe?". Quilha - peça de madeira forte, que corre longitudinalmente no fundo de uma embarcação.

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Quinhão - parte correspondente numa partilha dos peixes de um lance ou pescaria; "Antes mesmo de se d i v i d i r as partes do dono da rede, se separava do total, os dois quinhões para o espia". Quinhão do Santo - a maior tainha escolhida de cada cento capturado por u m lance de praia, leiloadas antigamente na festa de São Pedro, o mesmo que tara. Quirera - torrões mais grossos da farinha crua de m a n dioca que não passam na peneira, usado para alimentar as galinhas. Quita - tipo de caroço que existe no f u n d o da garganta de certos peixes como corvina, tainha, parati, que se come cozido.

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R Rabeca - tipo de violino rústico muito tradicioncil. Era construído com a caxeta ou com a guaerana e colado com sumbarê. Rabo azedo - tipo de peixe, assim chamado o xarelete miúdo. Rabo de bujú - tipo de planta, usada antigamente para confecção de cordas, o mesmo que guanxuma. Rabo de galo - tipo de nuvem, cirrus, que precede em alguns dias a mudança de tempo com frente fria. Rabo torcido - tipo de nó embaraçado que alguns tipos de peixes deixam na rede após se malharem; " M i n h a rede ficou cheia de rabo t o r c i d o " . Raça - grande quantidade de coisas jimtas, pessoas ou animais; "Eh! Tem raça!". Rancho - local coberto onde são guardadas as canoas e tralhas de pesca; também a provisão de mantimentos de uma embarcação que sai para pescar. Raposa - assim chamado o gambá pelo caiçara. Rasa - o mesmo que cheia ao máximo; " A canoa ficou rasa de água que quase afundemo!". Rebenga - alusão ao órgão sexual feminino. Rebojo - o revolver da água pelo deslocamento de algo nela; " O rebojo do barco"; também assim chamado o vento sul com chuva. Reboleira - à volta, ao redor de algo, sentar -se em círculo; "Pra comer, cada u m tinha seu banquinho, e fazia aquela reboleira em volta do caldeirão". Recalmão do meio-dia - diz-se da trégua que a chuva fina de sueste dá, por volta do meio-dia. Recarmão - diz-se do mormaço quente e abafado depois de uma chuva de verão; "Deu recarmão". Recortado - tipo de dança tradicional que se dançava junto com o xiba; "Antes é o xiba, depois cana-verde, depois de manhã, a tontinha, o recortado é o f i m " . 104

Rede banzeira - diz-se de rede que fica balançando de u m lado para o outro. Rede de apara - pequena rede colocada verticalmente em cima de uma canoa de modo a capturar as tainhas que saltam fugindo da outra rede que está na água, elas batem, ao saltar, na rede de apara e caem dentro da canoa. O terço desta pescaria era dado ao dono da rede de cerco. Rede de gancho - modo de se fundear u m tresmalho u t i l i zando várias garatéias, deixando-a em zig-zag. Rede iscada - rede de meia água com sacos de cebola contendo 4,5 pedaços de bonito, amarrados à tralha do chumbo, para matar cação. Rede lassa - diz-se de rede de malha grande. Rede morta - diz-se da rede que fundeada, não fica esticada como uma parede, ficando mais fácil do peixe malhar; "Fiz a rede bem mortinha". Redeiro - mestre especialista no feitio e cor\serto de redes de pesca. Refrega - lufada de vento forte, repentina e intermitente difícil de romper, momento em que o vento sopra mais forte; "Caiu uma refrega de vento que quase se acabemo!". Reinar - aventurar-se, fazer travessuras. Relampear - assim chamado o brilho que o peixe faz dentro ou ao saltar fora d'água quando suas escamas refletem a luz do sol; "Relampeou u m peixe lá fora!". Relógio - tipo de siri pequeno meio amarronzado e todo trabalhado, cheio de pontas e recortes. Remanchar - ato de se martelar a ponta de uma haste o u parafuso deformando-a para que não saia mais. Remo de voga - remo com 22 palmos de comprido que era usado nas canoas de voga, em cada banco sentavam-se dois remadores, cada u m remando com u m remo para cada lado. Reponto da maré - ponto em que a maré pára de subir ou de descer, antes de mover-se de novo no sentido contrário.

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Resfolho - movimento de água na superfície causado por agitação como o rabo de u m peixe, u m remo ou o hélice de u m barco; "Resfolhou u m peixe ali!". Resingado - o mesmo que revolto, bravo, batido; " O mar tá resingado". Resma - assim chamado o muco prateado que sni da pele do peixe-espada, a tinta da espada; diz-se também do rastro que a lesma deixa no chão. Responso - tipo de reza ou simpatia feita com uma vela ou carvão de fogueira junina para se encontrar u m defunto perdido, saber quem roubou alguma coisa ou descobrir se alguém está morto ou vivo. Resposta - assim chamada a onda que se forma em sentido contrário após bater n u m costão de pedra. Retinida - cabo responsável pela ancoragem do cerco. Reverendo - tipo de peixe, o mesmo que gudião azul. Ricochete - dose de pinga, "Põe u m ricochete aí." Ripado - diz-se da embarcação o u canoa que está carregada de peixe, com só uma ripa pra fora d'água, " A canoa tá ripada de peixe"; " O barco vem ripado". Roda de mão - roda de madeira revestida por uma chapa de metal cheia de furos, onde é ralada a mandioca para o fabrico de farinha. Roda de popa - peça de madeira que dá reforço à popa onde é pregado o cadaste de uma embarcação . Roda de proa - peça da mesma madeira da quilha que dá forma à proa de uma embarcação. Rodo de cerco - petrecho composto por duas ou três varas de bambu grosso amarradas em feixe, responsável pela flutuação do cerco, sendo necessários mais de 20 rodos para u m cerco. Rodrigo - madeira de lei cuja casca é cheia de veios e por dentro vermelha, seu cerne é roxo escuro. Rolo de canoa - tora cilíndrica de madeira com aproximadamente 1 metro de comprimento, usada para se rolar uma canoa.

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Rolão - o mesmo que peixe-lua, peixe gigante e mar\so com quase 1 tonelada, que dorme boiando à flor d'água; é comum algum barco se chocar com u m rolão dormindo. Rolo de cruz - forma de deixar os rolos de uma canoa u m cruzado sobre o outro, que acredita-se, trazer má sorte; "Rolo de cruz não presta". Romper o vento - expressão usada no sentido de atravessar ou enfrentar u m vento contrário; "Tava u m vento tão forte, quase não rompemo até a rede". Roncou trovoada - diz-se ao ouvir o estrondo de u m trovão que precede uma chuva de verão. Rosário - tipo de cantoria de folia do Divino cantada a troco de esmola ou doações. •' •' * • ' Rosário de cortiça - espécie de penca de cortiças atado à ponta da rede que era arremessado no convés da traineira para fechar a rede durante o cerco. Roxo forte - bebida feita de café misturado com pinga. Rucega - instrumento feito com u m cano de bambu atado à u m peso que era usado para desentocar a linha da pedra, passava -se a linha de garoupa por dentro do cano que era baixado até a toca pela outra linha atada a ele e agitado até desentocar o anzol; também u m instrumento feito de uma pedra amarrada numa corda, que era usado na pesca da sardinha, colocava-se a rucega dentro d'água na boca da rede e agitava-se a corda para fazer ardentia e espantar a sardinha para dentro do copio da rede; também u m tipo de garateia pequena usada para encontrar coisas no fundo do mar. Rufo - parte abaulada rente a chumbeira de uma rede ou tarrafa onde os peixes se prendem. ' R u i m de malha - diz-se do peixe ou cardume que cercado, mesmo com muita pedrada, não vai, na malha da rede. Rumo - o mesmo que rumor, " A trovoada tá roncando, tá dando estalo, tá fazendo rumo!".

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s Sabão de pita - tipo de sabão extraído antigamenle da folha da pita, b o m para curar doenças da peie de cachorro e também lavar roupa. Sacador - parte de alguns tipos de rede e m forma de saco onde os peixes são concentrados para facilitar seu embarque. Saci - tipo de assombração ou espírito que faz pequenas maldades; "Fulano tá virado o saci." Saco de lona - saco utilizado antigamente para se transportar 60 quilos de peixe seco. Sacola de mescla - sacola feita de lona usada no tempo antigo. Safar - o mesmo que salvar; "Foi ela que me safou"; também usado quando algo é pego; "Safei a genoa". Safo - esperto, inteligente; "Fulano é safo!"; também usado para algo resolvido, entendido; "Está safo?". Sagrado - assim chamado o mar; "Vô pisa no sagrado". Saião - erva medicinal cujas folhas gordas, aquecidas ao fogo, eram espremidas nas frieiras dos pés. Salga - lugar onde os peixes eram salgados e secos ao sol em grandes varais de bambu. Salgadeira - mulher especializada em salgar o peixe já l i m p o e lanhado, mergulhando-o por u m dia na salmoura, e estendendo-o ao sol por 2 a 3 dias. Salseirou - diz-se quando u m vento m u i t o forte levanta a água do mar numa nuvem de água. Salseiro d'água - diz-se quando a água do mar levanta vários metros de altura quase n u m redemoinho impelida por uma refrega muito forte de noroeste. Samburá - tipo de pequeno cesto tecido com cipó, usado para se guardar o peixe durante a pescaria. Sanapismo - tipo de tratamento para uma dor muito i n tensa em que durante 3 ou 4 dias se bebia u m chá quente de folhas de mostarda socada e, nas pernas, se colocava u m 108

monte de folhas sapecadas no fogo e as prendiam enroladas com uma faixa de pano; " N u m tem mais jeito, vamo passa u m sanapismo". Sanhapê - assim chamado o macho da caçoa. Sanhura - diz-se de pessoa assanhada. Santola - tipo de siri vermelho com enormes garras, m u i to comum na costeira, o mesmo que pantola. Sapatear - encontrar dificuldade, concluir com esforço; "Sapateei pra tirar minha rede, mas tirei". S a p é - espécie de c a p i m que seco é usado para se cobrir telhados. Sapecar - queimar ou tostar rapidamente com chama de fogo. Sapecado - levemente queimado de fogo; o mesmo que bêbado. Sapezal - local onde existem muitos pés de sapé. Sapinhauá - o mesmo que berbigão ou vôngole, molusco bivalve que vive enterrado na areia. Sapintanha - tipo de sapo grande que ronca forte. Sapotiabeira - arbusto com grandes espinhos, característico da vegetação do jundú. ' Sapresar - deixar o peixe lanhado com sal de u m dia para outro, a f i m de perder água e pegar gosto. Sapreso - diz-se do peixe que está temperando com sal de u m dia para o outi^o, " O peixe tá no sapreso"; "Deixei o peixe sapresando"; originado provavelmente de sal preso. Sapucaia - tipo de árvore cuja casca era usada no feitio de cordas, também o fruto é comestível. Saquaritá - espécie de caramujo encontrado nos costões junto com o mexilhão, o mesmo que corundó. Saquaritá de féu - tipo de caramujo da pedra, tem a concha comprida e deixa u m fel vermelho e fedido nas mãos, usado como isca para sargo. . -, Sará-sará - tipo de formiga. Saraco - instrumento feito de uma foice cortada ao meio, utilizada para tirar marisco daGlossário pedra. C a i ç a r a

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Sarambeque - diz-se de criança arteira. Sardinheira - o mesmo que cinzeiro ou tremido, mudança da cor da superfície d'água causada pela agitação de u m cardume de peixe, indica o local e o tamanho do cardume. Sargear - técnica de se tirar as escamas do peixe cortandoas paralelamente ao couro com uma faca bem amoUida, geralmente feito em peixes grandes; "Sargeei a garoupa todinha, ficou branquinha!". Sargento - ferramenta utilizada em carpintaria para se prender uma madeira à outra antes de uni-las com prego ou cola definitivamente. Sari - tipo de bagre pequeno do ferrão mole. Saricar - ato de se hrar os peixes presos dentro de u m cerco ou de u m lance com u m sarico. Sarico - arco redondo de ferro com uma rede em forma de saco feito para tirar os peixes aos poucos de dentro de u m cerco ou de u m lance. Sartio de peixe - diz-se quando u m cardume grande pula repetidas vezes fora d'água, geralmente tainha ou parati; "Demo com u m sartio de peixe tão grande que minha mãe do céu!". Sarvar - o mesmo que saudar; "Sarve!". Savelha - tipo de peixe, o mesmo que sardinha chata. Se servir - o mesmo que defecar; "Sabe como o caiçara antigamente se servia?...era no mato". I Sentir a rede - ato do peixe ou cardume perceber uma rede próxima e fugir no sentido contrário; " O peixe sentiu a rede e saiu do lance". Serão da noite - o início do anoitecer. 1 Serãozinho - o lusco-fusco do entardecer; quase noite; noitinha. Serpente do guaecá - alusão à serpente que muda do guaecá quando o tempo v a i arruinar. .{ Serventia - diz-se de algo que tem utilidade. Sevar - ato de ralar a raiz de mandioca para se fazer a farinha. 110

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Simpatia - prática supersticiosa feita geralmente para se alcançar a cura ou alívio de algumas doenças, também para conseguir algum benefício pessoal ou obter respostas em questões misteriosas. Sinal - diz-se de fenómeno anormal e espetacular que ocorre no céu, tido como presságio, como a aparição de uma imensa ix>la de luz nascendo do horizonte no mar como se fosse a lua, mas em noites sem lua. ; " Sinhá-rosa - tipo de peixe miúdo de costeira com listras pretas e amareladas, o mesmo que paulistirúia, carácantanha ou tiniúna. Sobejar - o mesmo que sobrar; "Sobejou u m pouco". Sobre curta - assim chamada a canoa cujo comprimento é de 6 vezes e Vi a sua boca. Sobre proa - pedaço de madeira, geralmente uma forquilha de árvore, esculpido para se encaixar sobre a proa de uma canoa, aumentando sua altura. Sobrenício - pedaço de madeira para se consertar canoas, esculpido e afeiçoado para se encaixar perfeitamente no buraco a ser tampado; "Fiz u m sobrenício na canoa que ficou que nem nova!". Sobresane - pedaço de madeira pregado sob a quilha de uma embarcação para protegê-la do gusano. Socó - tipo de ave, o mesmo que garcinha branca, quando aparece é sinal de tempo frio. Solapa de pedra - diz-se de local com grandes pedras expostas como numa caverna ou passagem estreita. Solapo - diz-se de grande corte feito horizontalmente; "Olha o solapo que tem aí". Solecado - diz-se do cabo de amarração que esteja bambo, frouxo; "Deixa o cabo solecado". Soleira - tronco de árvore lavrado sobre o qual eram construídas as paredes de uma casa de pau-a-pique. Sondando - observando com cautela, olhando com atenção, analisando com precaução; "Eu fiquei só sondando pra ver o que ele ia fazer". Glossário C a i ç a r a de U b a t u b a

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Sondo - assim chamada a rede arrastão de praia utilizada pelos pescadores de Toque-Toque Grande em São Sebastião, pois a rede vai sondar o peixe. Sopa d'água - tipo de pirão feito no prato, derramando-se água quente o u fria sobre a farinha de mandioca e pedaços de peixe seco. jjp, Sororoca de bicho - tipo de peixe, assim chamada a sororoca, que quando pequena, fica vulnerável a u m tipo de parasita. Sudoeste - vento forte e com rumo, que cai sempre de sudoeste, precedendo uma frente fria com tempo r u i m . Sudunga - ou sudungo,ventania sudoeste com chuva, o mesmo que toca-burro. Súcia - bagunça, orgia; "Tava uma súcia de gente!". Sueste das alma - assim chamado o vento sueste que traz friagem e garoa e que se dizia só parar depois do d i a das almas. Sujou a cara? - expressão usada para perguntar se tem peixe na proa da canoa; se o pescador da canoa matou alg u m peixe. Sumbarê - tipo de cacto cuja seiva, após ele ser sapecado no fogo, serve para colar madeira. .. Suréco - diz-se de qualquer coisa sem o rabo. Suspensório - assim chamada pelos pescadores de Toque-Toque Grande em São Sebastião, a corda que prende o cerco flutuante à uma pedra da costeira. Sutar - ato de ajustar a face do corte de uma madeira, para que se encaixe à outra, passando-se u m serrote entre as duas faces bem encostadas uma contra a outra; " T e m que sutá a v i g a " . ,

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T Tá até roxo! - diz-se de u m grande cardume que dentro d'água fica com a cor arroxeada. Tá de barranco! - expressão que significa algo em grande quantidade; "Vamo matá lula que tá de barranco!". Tá grosso! - diz-se quando se encontra algo em grande quantidade; " O peixe tá grosso!"; " A lula tá grossa!"; " O limo tá grosso!". Tá uma égua - expressão usada quando o mar está muito calmo e manso; "O mar tá uma égua!". Tabica - assim chamada a tábua que arremata o convés com os pés de caverna de uma embarcação. Tabuleta - pedaço retangular e chato de madeira usado para se fazer uma rede de pesca manualmente, cuja largura da placa é a medida entre nós da malha que se deseja fazer; ou pedaço de placa de madeira onde é enrolada a linha de pesca para se pescar de linha. Taburutaca - espécie de crustáceo muito feio cujas pernas torradas e moídas eram usadas como anestésico para dor de dentes. Tacuruba - tipo de fogão improvisado com três pedras dispostas em triângulo com a brasa no centro. Tainha caxetêra - assim chamada a tainha que se cria perto da terra; "Isso é tainha caxetêra, peixe que cria aí mesmo". Tainha de agosto - diz-se da tainha de arribada, ou seja, que já desovou e está magra e desbotada . Tainha facão - diz-se da tainha muito magra. Taioba - vegetal comestível de folhas largas e talo grosso, muito preparado com peixes. Taipa - técnica de construção usando barro e capim picado misturados, o mesmo que pau a pique; assim também chamada uma plaquinha de madeira pregada na parede onde se pendurava a lamparina; também assim chamada, a chapa de ferro que ia sobre o fogão à lenha. 113


t.lhTr^^'* ' "^^"^ir^' modo; "Ele não tem aque talho de andar"; "Talho da canoa" ^

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Teneiraço - medida ou p r u m o tirado a olho. Tenso - fio de linha que dá forma ao rufo das tarrafas ou ies de fundo.

Talisca - tipo de régua de madeira comprida e estreita usada na construção e reforma de embarcações, feita p a r j Ter leitura - o mesmo que ter estudo, saber ler; "Prá gente medir e marcar a largura e comprimento de uma tábua q u A deva ser cortada com precisão. i jue n u m tem leitura, fica mais difícil". Terço da rede - a parte da pescaria a que tem direito o Tangone - espécie de braço d u p l o nos quais é atada a redt iono da rede, mesmo sem ter i d o pescar, corresponde a 33% de arrastar camarão, uma de cada lado. Tanheirão - erva medicinal cuja batata amarelada é re ,io total pescado; "Vamo tirar o terço da rede". médio para bicheira. Terço de capiá - alusão ao terço de reza, confeccionado Taóca - o mesmo que formiga. om a semente do capiá.

Tapera - buraco de morro ou lugar r u i m de passar noj I Terralão - tipo de vento que cai sem r u m o podendo ser mato; "Vamo enfrenta aquela tapera!". quente ou frio dependendo de onde venta. Tapína - despenhadeiro ou pedra muito comprida e ínTerralão de oeste - tipo de vento forte que após a entrada de greme; " Q u e m aguenta uma tapina destas!". frente fria apruma de oeste, deixando a água muito suja e l i m Taquari - tipo de capim que parece u m bambuzinho bem pando o tempo, pára durante o dia mas recomeça ao anoitecer. fininho, com o qual se faz u m apito para brincar. Terreiro - assim chamado o " q u i n t a l " das casas antigas, Tara - o quinhão do santo, tainha grande que se leiloava geralmente de terra bem carpida e varrida. nas festividades; "De cada cento se tirava uma tara que era Teso - tensionado, esticado. doada para São Pedro". Testo - o mesmo que tampa de panela. Tarimba - cama antiga feita de madeira ou bambu, sem Tição - pedaço de madeira de lei em brasa, agitada para se colchão, no máximo uma esteira. iluminar o caminho no escuro. Tarioba - tipo de molusco bivalve que vive enterrado na Tiguera - capoeira ou matagal que u m dia foi roça; "Romareia, dizem que gosta de comer defunto. pemo uma tiguera brava que dava medo", i • ' .',«.• Tarobinha - tipo de planta medicinal da qual se extrai a raiz do lado do sol e se faz u m chá para alergia. Timão - diz-se de remo forte de cabo grosso e comprido Tece-tece - o mesmo que entra e sai; "Lá e m casa tá u m da canoa de voga, ou u m instrumento com o qual se governe tece-tece!". : u m barco. Tecido de dois - tipo de trançado utilizado na confecção Timbale - tipo de peixe comprido parecido com u m panade cestas. Teçume - assim chamadas as fibras com as quais se vai tecendo u m cesto, samburá ou jacá. Tempo antigo - alusão ao passado tradicional, época dos antepassados; " N o tempo antigo era assim". Tendal - tipo de estrutura de bambus onde os peixes são postos para secar ao sol depois de salgados.

guaiú só que maior, o mesmo que xibano. Timbuíba - árvore cuja madeira é excelente para o feitio de canoas. T i m b u p e v a - tipo de cipó muito usado tanto para amarrar quanto para tecer cestos e samburás. T i n g i r o cerco - ato de se ferver o pano de rede do cerco com a casca do jacatirão de tinta.

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'

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Glossário a r a de dar Ubatuba 115 Tinguejada - o mesmo que cercarC àa i çtróia, u m lance

rápido; "Vamo dá uma tinguejada nela?".


Tiniúna - tipo de peixe, o mesmo que sinhá-rosa. Tinta - a casca da quaresmeira, mangue o u aroeira, que cozida serve para se tingir redes de pesca. Tinta de cuia - assim chamada a tinta do jacatirão. Tinta do peixe - o muco prateado da pele de certos peixes bravos, o mesmo que resma ou resina. Tipioca - subproduto da feitura do polvilho de mandioca geralmente dado para as galinlias. Tipiti - tipo de cesto de cipó timbupeva trançado, usado para se espremer a massa de mandioca ralada a f i m de extrair seu sumo venenoso, ou mandiqúera, antes de torrá-la para se fazer a farinha.

Toldado - a parte coberta de uma embarcação, o mesmo que tolda. , ,^1 - , -, Tombeiro - tipo de petrecho utilizado antigamente na Vila de Picinguaba, usado para retirar o peixe de dentro do lanço, consistia em uma rede pequena que se armava dentro do lanço e que era içada para dentro das canoas através de duas varas em cada extremidade, que eram torcidas até trazer os peixes para a superfície que eram então tombeados para as canoas, era utilizada em locais de fundo de pedra que impedia o arrasto até a praia. Toninha - pequeno cetáceo marinho menor que a baleia e

Tique-tique - modo de limpar sardinha, alusão ao som da faca deixando as espinhas bem picadinhas. Tira-vira - instrumento utilizado para se torcer u m cabo para prender algo ou fazer a "cocha" do cabo de imbé; também u m tipo de peixe.

Tontinha - tipo de dança e ritmo tradicional, era dançada já de manhãzinha, ao f i m do fandango.

Tirar canoa - ato de se fazer uma canoa; " O Baéco me disse que tá hrando duas canoas lá no mato". Tirar o teneiraço - o mesmo que medir no olhômetro, usa-se quando se olha de longe o traço ou pintura pra ver se está no prumo ou alinhado; " V o u tirar o teneiraço pra ver se está bom." Tirar tinta - ato de se buscar no mato a casca de alguns t i pos de madeira como o jacatirão de tinta, aroeira, para tingir o pano de rede do cerco. . . Tiriba - espécie de periquito verde. ,. Tiriça - o mesmo que hepatite. Toca - buraco sob as pedras onde o peixe se esconde. Toca da pedra - qualquer vão de pedra numa costeira; " L i m p e i o peixe na toca da pedra". Tocamento de viola - ato de tocar viola em festas. Tocando buzo - diz-se quando alguém faz estardalhaço ou u m cardimie grande está "dando sopa" na beira d'água; "Fulano chegou tocando buzo"; " O parati tá tocando buzo no lagamar". Tolda - a parte que cobre uma embarcação, o mesmo que teto, cobertura. 116

parecido com o golfinho.

Torrado - diz-se de pessoa bêbada, embriagada; "Você parece que já tá meio torrado?". Toso - curvatura responsável pelo bom desenho, beleza ou desempenho de uma canoa ou embarcação; "Que canoa bem tosadinha!"; " O toso do convés ficou bom, não empoça água". Tosse comprida - tipo de doença, coqueluche. Totoa - bainha larga que protege o cacho de coco, a pamonha do coco, de alguns tipos de palmeira, usada pelas crianças brincarem de trenó morro abaixo; "Vamos correr totoa". Traçador - tipo de serrote em formato de meia-lua, manuseado por duas pessoas, uma de cada lado. Tralha - o cabo de uma rede no qual se entralham os panos, também os petrechos e equipamentos de pesca; "Já comprei a tralha da rede"; "Levei minha tralha de pesca toda pro barco". Trancada ~ muita quantidade capturada numa rede; de peixe ou qualquer outra coisa como algas, águas-vivas ou lixo; "Demo uma trancada de tainha!". Tranchudo - bonito, elegante; "Tá tranchudo!". Tranquei - peguei muito, capturei em grande quantidade; "Tranquemo a rede de l i m o ! " . Tranqueira - pessoa r u i m , mau elemento; "Isso aí é tranqueira!".

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Glossário C a i ç a r a de U b a t u b a

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Traquejado - o mesmo que acostumado. Traquete - tipo de vela das canoas, que só permite navegar com vento em popa, assim chamado o conjunto de mastro, verga, e pano das canoas a vela. Trebuzana - assim chamada uma trovoada muito forte. Treme-treme - tipo de arraia miúda parecida com u m peixe que dá choque quando tocada. Tremido - mudança do brilho da superfície d'água que treme, causada pela agitação de u m cardume de peixe, indica o local e o tamanho do cardume; "Tem u m tremido de peixe aU". Trescoto - unidade de medida, equivale a medir a braça da ponta inicial do cabo, até o queixo ou ombro oposto ao início; "Mede uma braça e trescoto". ,!!,;.,« Tresontonte - o dia antes de anteontem, 3 dias atrás. Trevar da lua - o mesmo que pôr da lua; "Pode ser que vente no nascer ou no trevar da lua". Trinta réis - tipo de ave marinha pequena e de penas brancas. Tripé - cantador que faz a terceira voz numa cantoria de folia, geralmente toca o tambor. Tróia - tipo de pesca em que u m cardume é completamente cercado e fica preso dentro de u m círculo feito com a rede, o mesmo que pesca de trolha; "Pescar à tróia". Tromba d'água - fenómeno meteorológico que despeja violentamente de uma só vez a água do mar sugada por u m redemoinho formado numa tempestade. Trovoada - chuva de verão, forte e passageira. Trúce - o mesmo que trouxe, pronúncia do português arcaico. Trupicão - tropeção, tropeço. Tufo - pedaço roliço de madeira, afeiçoado de modo a tampar e vedar u m furo.

U Ubatubana - tipo de dança tradicional; também assim chamado em Paraty, u m tipo de feitio de canoa. U m cadinho - o mesmo que u m bocadinho, u m pouco, brevemente; "Experimenta u m cadinho só". U m peixe pra comer - expressão muito utilizada ilustrando u m tipo de pesca de subsistência ou então pouca quantidade de peixe; "Vô larga a rede pra vê se mato u m peixe pra come"; "Hoje só matei u m peixe pra come", "Qué u m peixe pra come?". Urrando - diz-se quando o cardume de tair\ha ou parati, assustado, salta todo junto para fora d'água seguidas vezes, f u gindo de algo; "Aquilo vinha urrando"; "Sentiu a rede e urrou". Urrou - diz-se quando o cardume salta todo junto para fora d'água, assustado por u m boto ou rede. Urtiga brava - tipo de planta cujas folhas causam urticária e queimação se roçarem na pele e cujo chá serve para banhar a pele e curar sarna e outras doenças cutâneas. Urucum - árvore que dá u m fruto cujas sementes soltam u m pigmento vermelho forte usado como tinta ou condimento culinário, antigamente se usava pintar as canoas com urucum.

Turma - assim são denominados os companheiros de uma comunidade que sempre ajudam uns aos outros; " T u r ma da Enseada"; " T u r m a do Cerco". i

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V a i à borra! - expressão que significa "dane-se", usada antigamente por não se poder falar " p o r r a " . V a i C h i b a - o mesmo que v a i sofrer, penar e não dar conta; "Coitado, v a i chiba como pescador". Valei-me mãe d'água, não deixa seus filhos morrer de sede! - expressão dita ao se sentir iniciar o sopro de u m noroeste, em alusão à chuva subseqiJente. Vanga - ferramenta de metal chato, com cabo de madeira usada para coletar mariscos na costeira. Varal - estrutura de bambu ou local onde se estende a rede para remendar. Vassourinha - tipo de erva perfumada do mato que era retirada para o feitio de vassouras, tiravam somente os talos novos, que deixavam u m cheiro mais forte. Vela de ponta - assim chamada a vela traseira de uma canoa de voga de dois mastros. Velhaca - variedade de banana, dá uma banana enorme boa para cozinhar, depois de u m ou dois cachos a touceira seca e morre, é necessário sempre estar tirando mudas para não perder a touceira. Vento-leste - tipo de peixe parecido com o carapau, o mesmo que cara de gato. Vento de chicote - tipo de vento que cai sem rumo. Vento de guachada - diz-se de vento que cai sem rumo, o mesmo que vento de chicote. Verde - antigamente não se pintava por fora, uma canoa de verde, pois atraía o ataque de cações. Verdugo - peça de madeira fixada longitudinalmente ao bordo externo de uma embarcação, logo abaixo do nível do convés, para proteger o costado de impacto.

Verga - bastão de madeira amarrado ao mastro que sustenta a vela ou pano de uma canoa; também barra com a qual se girava a prensa de fuso. Vergalha - o pênis de boi seco, usado como chicote. Vermelho que nem guaiá cozido - expressão usada para dizer que alguém ficou m u i t o vermelho por esforço físico ou nervosismo. Verruma - ferramenta usada para se fazer pequenos f u ros, parecida com u m saca-rolhas. Vilão de lenço - tipo de dança tradicional. Vilão de mala - tipo de dança tradicional. Vinagre - variedade de banana, boa para cozinhar e fritar, o mesmo que banana marmelo. Vinagre de banana - líquido extraído de bananas fermentadas que apodrecem n u m banguê. V i n h o quinado - fortificante feito com u m ferro em brasa mergulhado numa caneca de vinho;"Esquentava bem o ferro e quinava o v i n h o " . V i o l i n h a - plantinha rasteira de folhas bem redondas, característica do jundú. V i r no pano - o mesmo que velejar; "Antigamente se t i vesse vento vinha no pano, se não vinha no remo". V i r a - argola presa no fundo de u m sarico onde era atado u m cabo usado para virar o sarico no porão das traineiras. Viração - vento moderado com rumo definido que fica incomodando, pode ou não trazer tempo ruim; "Essa viraçãozinha vai dar em nada". Visgo - seiva pegajosa da jaqueira que espalhada em u m poleiro serve para se apanhar passarinhos. Visitar a rede - ato de ir até a rede ver se tem peixe, ou expressão usada quando outra pessoa rouba o peixe da rede de alguém; "Visitaram minha rede esta noite"; "Vamos visitar o cerco". Visse? - o mesmo que: viste? V i u só?

120 Glossário C j i ç a r a de U b a t u b a

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Xarelete - tipo de peixe, o mesmo que carapau. Xaréu - tipo de peixe. Xiba - tipo de dança tradicional onde teiam com tamancos feitos de caxeta. Xibano - tipo de peixe, o timbale de cor Xingiió - t i p o de sardinha que parece que as costas são pretas; "Tinha aquela em quantidade!".

Ml

os homens sapaescura. u m peixe-reis só sardinha xinguó

Zagarelha - cano curto de ferro, preso a uma linha, usado para desentocar a linha de garoupa, passa-se a linha de garoupa esticada por dentro do cano que é baixado até a toca pela outra linha atada a ele; o mesmo que rucega. Zagarelho - isca artificial especial para matar lula. Zanzar - andar sem rumo, de u m lado para outro. Zinabre - camada esbranquiçada que se forma sobre metais, causada por oxidação; "Desmontei a peça e tava tudo azinabrado por dentro". Zoada - tipo de trovoada fraca que só faz barulho. Zóio de nego - tipo de fruta preta e redondinha que deixa a línguaazul. »• ••• níi Zóio de anequim - diz-se de olhar traiçoeiro, fingido.

123


M U I T O OBRIGADO.. Minha família; Pai, Mãe, Avós, Tati, Nicó, Leila, Lígia, Sérgio e em especial Lili, minha inspiração e meu porto. Agradeço a todos os Mestres Caiçaras que generosamente compartilharam comigo suas artes, histórias, sabedoria, conhecimentos, técnicas e famílias, recebendo-me como a u m filho ou irmão, fazendo-me sentir realmente pertencer a algo tão grandioso quanto a Tradição Caiçara: Antenor dos Santos e fanulia, que muito me ensinou artes, técnicas e nomes tradicionais de todo o território pesqueiro da Enseada e Ilha Anchieta e quem me ensinou a pescar de canoa no "escuro da l u a " ; Nelson de Góis e família, que me ensinou a cercar o parati de madrugada fazendo o "gancho" e quase alagando a canoa de tanto peixe; Sebastião Giraud e família, que tanto me ensinou palavras e costumes antigos, técnicas e tradições; James Jardim da Graça e família, que me mostrou como "matar tainha" e sempre ajudou em tudo; Sebastião Lourenço e família, que me ensinou a arte do "sobrenício" e muitas lendas, simpatias e histórias fantásticas do tempo antigo. Todos os netos de Dona Maria Parú: Ico, Paulinho, Lagarto, Chico, Midirúio, Geninho, Zezinho e Sidney, que sempre ajudam a todos em qualquer situação; Ditanha, que sempre observa o mar como a u m velho companheiro; Seu Elídio da Trindade, que me deu a primeira l i ção de remendar rede, ensinando o "andar da rede"; Pedro Costa da Ilha Vitória e família, grande artesão, que sempre tem a técnica ideal pra resolver u m serviço difícil; Seu Dito e Sandro, cujo falar ilhéu da Vitória, sempre me leva ao passado; Roberto Prochaska e famíUa; u m dos primeiros a ganhar o respeito e ser agregado fraternalmente pela comunidade tradicional da Praia da Enseada; Edgar Prochaska e família; que tentou manter o pescador tradicional inserido dentro do Parque Estadual da Ilha Anchieta; Manolo, Henrique e Hilda Casalderey que mesclaram as tradições litorâneas da Galícia 124

com a Caiçara; Eduardinho Graça, u m dos poucos que ainda domina as artes do cerco flutuante; Pedro Lopes, pescador antigo de quem muitas histórias de pescarias ouvi contar. Zé Luis Petrit, do Bonanza, u m especiaHsta que me ensinou muito sobre as técnicas do arrasto de camarão; Élvio Damásio, grande mestre guardião da cultura tradicional de todo o litoral de Ubatuba; Seu Gino da Barra Seca, que zela pela Tradição e sempre tem uma palavra amiga; Seu íris M i guel, que tantos conhecimentos tradicionais guarda, prezando o valor da Cultura Caiçara; Pipoca e Célia, casal lindo que mora n u m paraíso e as Comunidades da Caçandoca, Pulso, Peres, Bonete, Fortaleza, Lázaro, Sete Fontes, Flamengo, Ribeira, Perequê-Mirim, Enseada, Toninhas, Itaguá, Ilha dos Pescadores, Perequê-Açú, Barra-Seca, Ubatumirim, Almada, Picinguaba e Cambury; onde fiz amigos e sempre f u i muito bem recebido. Em São Sebastião, Maurício Rubio, ferrenho defensor das causas Caiçaras e Antônio Sergio Fernandes, o Toninho Pescador, u m legítimo Caiçara que luta pela perpetuação da sua Cultura. Esta coleção de palavras, falares e saberes Caiçaras é de todos vocês que a compartilharam comigo, que fique registrada como u m legado para as futuras gerações. Peter Santos Németh, O Alemão; Praia da Enseada - Outono de 2008.

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Em honra aos ancestrais

Glossário C a i ç a r a de U b a t u b a

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ANOTAÇÕES

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BIBLIOGRAFIA

Diegues, A.C.S. & Fortes Filho, Paulo. Enciclopédia Caiçara Volume li Falares Caiçaras. São Paulo: Hucitec - Nupaub Cec/Usp, 2005. Schutel, Duarte Paranhos. A Massamhu. Ed. Da UFSC

Florianópolis. SC:

Guerriero, Nícia e Xixico. Carnpirás: entendendo o peixe de Boiçiicanga. São Sebastião. SP: Via das Artes, 1994. Rizzo, Carlos. Falnr Caiçara. Ubatuba: Editorial Carlos Rizzo. Houaiss Antônio e Villar, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro; Objetiva, 2001. Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio. Rio de Janeiro: Nova Fronteira 2^ edição, 1986. Staden, Hans. A verdadeira história dos selvagens, nus e selvagens devoradores de honiens. (1548 - 1555)/Hans Staden; tradução: Pedro Siissekind. - Rio de Janeiro: Dantes, primeira edição, 1998; segunda edição, 1999. Langovski,Vera Beatriz. Contribuição para o Estudo dos Usos e Costumes do Praieiro do Litoral de Paranaguá, 1973. Dias, Carlos Malheiros. História da Colonização Portuguesa no Brasil: Litografia Nacional, Porto, 1926.

129


Ilustrações originais "Hans Staden" - 1557 - Dantes Editora

"características próprias quanto à pronúncia das palavras, muitas das quais ele emprega com significado diverso da acepção exata que possuem, criando neologismos... bem cotno utilizando-se de uma infinidade de palavras indígenas de uso obrigatório cm sua vida, pois os peixes, as aves, os animais selvagens, os instrumentos de caça e pesca, os utensílios domésticos conservam até hoje as designações que lhes deram os índios". Vera Beatriz Laiigovski, Cofitribuição para o Estudo dos Usos e Costumes do Praieiro do Litoral de Paranaguá, Í973.

131


Peter Santos Németh, 37 anos, é u m colecionador de palavras. Formado em comunicação social, tornou-se pescador por afinidade e aprendiz de Caiçara por opção. Pesquisador

autónomo

em

cultura Caiçara, vivenciou usos e costumes antigos na faina diária com os pescadores tradicionais locais. Estes saberes e fazeres foram registrados ao longo de sete anos de convivência, tempo em que

aprendeu

a valorizar e

respeitar ainda mais este fantástico modo de vida em extinção. Atual presidente da Associação

Pescadores

cia

Enseada,

A.P.E., foi chefe de fomento à maricultura da Prefeitura de Ubatuba e integrou o conselho

4^ E D I T O R A www.allprintedito ra.com.br info [Sal IpHntedi tu ra.com. br Fone: ( l l j 2478-3413

gestor da A P A Marinha do Litoral Norte de SP, onde trabalhou ativamente

para

que

fossem

reconhecidos e respeitados os direitos dos pescadores aos seus territórios

pesqueiros

ances-

trais, sem os quais não serão capazes de exercer e perpetuar sua tradição cultural.


Ilustrações originais "Hans Staden" - 1557 ~ Dantes Editora " A peculiaridade do falar caiçara não está só assentada na originalidade dos seus termas, mas, sobretudo, no gestual, na entonação da voz que acompanha o seu falar, na sua postura, nas nuanças do olhar. O caiçara não apenas fala, ele fala e, ao mesmo tempo, representa. O seu falar obedece a um ritual elaborado e desempenhado nos mínimos detalhes. A s palavras, quase sempre, são proferidas, ora escandindo na primeira sílaba, ora escandindo na última, produzindo variações sui generis na entonação da fala. O falar do caiçara é um falar cantado, melódico e harmonioso, em sintonia com a natiueza, fazendo contraponto com o marulho das ondas e a musicalidade do sussurro da brisa, numa suave canção de ninar..." Enciclopédia Caiçara Volume I I Falares Caiçaras Antonio Carlos Diegues e Paulo Fortes Filho

GLOSSÁRIO CAIÇARA DE UBATUBA  

Esta pequena compilação surgiu, em sua maior parte, da convivência diária com a comunidade de pescadores tradicionais da Praia da Enseada em...

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