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"Viva independente do que te aconteça": A educação transformando vidas

No espaço escondido entre uma das ruas de Porto Alegre, atrás de muros coloridos repletos de gravuras, habitam histórias que se fundem em único sentimento: a esperança. A Escola Porto Alegre, carinhosamente conhecida como EPA, está localizada na rua Washington Luis, número 203, na região central da capital gaúcha e recebe em torno de 120 alunos em vulnerabilidade social principalmente em situação de rua. “A gente tem chuveiro, eles chegam e podem tomar banho. Temos aulas extraclasse, que nós chamamos de integralização, aí eles mesmo fazem fotos, oficinas, etc,” explica o diretor Renato Farias dos Santos, formado em pedagogia, mestre em educação e psicopedagogo. A escola conta com um total de 28 pessoas na equipe, entre elas professores e funcionários e uma renda calculada em torno de R$14 mil reais ​trimestrais; valor esse que aumentou desde do ano passado onde estipulava-se em média R$5 mil, ofertados pelo governo. Com um elevado número de estudantes, a Escola Porto Alegre possui em sua grande maioria alunos com média entre 30 anos que comparecem por vontade própria em busca de uma vida nova.

Foto: Bárbara Cepeda. Painel feito por alunos e professores da Escola Porto Alegre


Foto: Bárbara Cepeda. Interior de uma das salas onde são feitas as oficinas oferecidas aos alunos

“Não somos todos iguais”: A superação independente de pré-conceitos

Esse é o exemplo de Paulo Ricardo da Silva. Com olhar longe, sentado sozinho em um dos bancos da instituição, vestindo peças do seu time do coração, o Sport Clube Internacional, ele comemorava essa nova etapa de sua vida. Com 51 anos, Paulo mora desde os seus nove na rua e no início de 2017 conheceu a EPA através de outros moradores. A partir daí nunca mais deixou de frequentar a escola e viu sua vida sofrer grandes mudanças. Atualmente cursa a terceira série do ensino fundamental e em seis meses pretende avançar para a quarta. “Eu gosto muito de frequentar a escola. Quando o cara tá aqui ele pelo menos tá em uma sala de aula, ocupando a cabeça e não tá usando drogas, não tá na rua só caminhando para lá e pra cá”. Paulo está a três anos sem utilizar qualquer tipo de substância química e mesmo que timidamente se orgulha de ter tomada a iniciativa por vontade própria, sem necessitar de ajuda de centros de apoio. Apesar de sua enorme força de vontade e com o constante sonho de sair das ruas, ele ainda enfrenta diversas dificuldades principalmente em relação a visão que as pessoas têm dele: “É muito preconceito. Como nós somos moradores de rua, eles pensam que todo mundo é drogado, que estamos todos em um pacotinho mas não é. Sempre respeitei as pessoas, cada um no seu quadrado”, afirma.


Foto: Bárbara Cepeda. Paulo Ricardo da Silva sentado em um dos bancos da Escola Porto Alegre.

“Se tu quiser usar drogas tu vai usar mas se tu não quiser, mesmo morando na rua, vai procurar o caminho do bem.” Paulo Ricardo da Silva, morador de rua e ex-usuário de crack.

Além de frequentar as classes regulares, Paulo é um dos colaboradores do jornal “Boca de Rua” e demonstra uma paixão pela escrita: “Depois que eu aprendi a ler e a escrever, meu Deus. Não parei mais, gosto muito de escrever”. O grupo se reúne uma vez por semana nas dependências da escola para discutir novas pautas e matérias que surgem; o jornal tem o intuito de dar a voz às comunidades carentes e causas sociais a margem da sociedade que lutam por direitos iguais para todos. É um grito de desabafo feito para e por moradores de rua em parceria com a ALICE - Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação. O periódico surgiu em agosto de 2000 e conta com ​textos, fotos e ilustrações que são elaborados durante oficinas semanais. É vendido a R$2,00 reais e o dinheiro arrecadado constitui uma fonte alternativa de renda para eles.


Unidos por um sentimento: a Esperança E as histórias se misturam. Rogério, 50 anos, natural de Lages, Santa Catarina, veio há 16 anos para a capital Gaúcha em busca de novas oportunidades mas acabou novamente nas ruas. Aposentado após sofrer uma série de derrames, a EPA entrou na sua vida de uma forma inusitada. Através do “Banho Solidário”- projeto que visa oferecer banhos de chuveiro com água quente para as pessoas em situação de rua em Porto Alegre - Rogério conheceu Jaque, a vice-diretora da instituição. Jaque viu o trabalho executado por ele com lixos secos e o estimulou a participar de uma das atividades que a EPA desenvolve que tem o intuito de oferecer bicicletas aos alunos no final do ano, em parceria com a prefeitura da cidade. Rogério recicla materiais que encontra na rua e muitas vezes consegue transformar em novos objetos. Após 35 anos sem frequentar uma escola, ele decidiu então dar o pontapé inicial para uma mudança significativa na sua vida, vencendo grandes preconceitos e inúmeras barreiras: “Eu fiquei com muito medo do preconceito mas a Jaque me disse que aqui não existia preconceito, que somos todos iguais. Daí vim conhecer e já estou aqui a seis meses graças a Deus, estou gostando muito; agora quero terminar meu ensino médio”. Quando jovem, completou até a sexta série mas com quinze anos largou a escola e decidiu viver nas ruas. “As professoras judiavam muito da gente, botavam nas tampinhas, no milho, naquela época não existia ainda os direitos humanos daí isso me correu da escola”. Já nas ruas, Rogério acabou se envolvendo com o crack mas há seis meses, desde que retornou a frequentar a escola, está limpo, motivo esse que o enche de orgulho.

Foto: Bárbara Cepeda. Rogério no horário do intervalo entre as aulas da EPA.


Praticamente, em toda a sua vida morou em albergues e sempre trabalhou para se sustentar. Contudo, acabava retornando às ruas pois tinha grande parte de seus pertencentes furtados pelo alto número de albergueiros, em sua grande maioria usuários de drogas. O brilho no olhar de Rogério não consegue esconder seu desejo. Hoje, ele busca conquistar seu sonho de sair das ruas e terminar os seus estudos porém ainda sofre com a repressão da sociedade: “Ainda existe muito preconceito. Quando a pessoa vê um morador de rua já se esconde mas não é todos, é alguns.” desabafa.

“Mas tá melhorando, a sociedade tá melhorando com os moradores de rua, ainda bem” Rogério, morador de rua, 6 meses sem usar drogas.

Faces da vida: O retrato das ruas Carlos Eduardo Cruz da Silva, 31 anos, é o fotógrafo da instituição. Por intermédio de um dos muitos projetos oferecidos pela EPA, Carlos descobriu seu talento com imagens. Durante algumas visitas que faz a vários pontos da cidade de Porto Alegre, ele registra os momentos através de belas fotografias que são então revertidas em uma forma de renda e um motivo de orgulho para ele. Empolgado com seu trabalho e o rumo que sua vida está tomando, ele esbanja sorrisos pela instituição. Morador de rua desde os 13 anos, Carlos não teve uma infância fácil. Residente do bairro Nonoai na capital gaúcha, perdeu sua mãe cedo devido a problemas com bebidas alcoólicas e acabou entregue às ruas em razão de uma rivalidade da sua área com facções do bairro Cruzeiro. Carlos foi então encaminhado ao ​Centro de Atendimento Sócio-Educativo Padre Cacique (Case PC) onde permaneceu por um tempo. Lá é executado o programa estadual com medidas socioeducativas oportunizando a reinserção social dos adolescentes, em parceria com a sociedade. Já adulto frequentou o albergue próximo a rodoviária da cidade e atualmente está em liberdade condicional do Presídio Central de Porto Alegre. Sem faltar um dia, ele comparece há mais de um ano a EPA e é grato por toda a assistência recebida, acredita que sem ela, talvez, não fosse possível conquistar uma vida melhor.


“Minha mãe andava comigo no colo bebendo cachaça. Eu dizia que já estava grande, para ela me largar no chão que eu queria caminhar.” Carlos Eduardo, morador de rua.

Foto: Bárbara Cepeda. Carlos Eduardo com sorriso estampado após receber as fotografias que tirou da cidade.

A EPA é um dos muitos exemplos de como a educação pode transformar vidas. Mesmo estando apenas há nove anos em atividade, ​atendendo jovens em vulnerabilidade social a partir dos 15 anos de idade​, a instituição provou que é capaz de provocar grandes mudanças e reintegrar muitos indivíduos em sociedade com muito pouco. O prédio em que está instalada, era para ser provisório mas se mantém o mesmo até os dias de hoje ocasionando problemas estruturais e principalmente de segurança. De toda forma, a escola procura disponibilizar toda a assistência necessária para os alunos e conta com programas como o SAIA - ​Serviço de Acolhimento Integração e Acompanhamento, no qual visa-se acolher, acompanhar e investigar a realidade individual e social dos adolescentes e jovens estudantes da Escola Porto Alegre. “A gente não tem muita segurança, enfrenta casos bem delicados, até mesmo de doença mental grave. Mas possuímos o SAIA para darmos um acompanhamento a eles fora das salas de aula também” reforça o diretor, Renato.


A educação ainda enfrenta enormes problemas no Brasil mas histórias como essa são apenas alguns dos exemplos que provam como a esperança deve permanecer e o ensino pode transformar vidas.

"Viva independente do que te aconteça": A educação transformando vidas  

A escola Porto Alegre recebe em média 120 alunos em vulnerabilidade social, especialmente, em situações de rua.

"Viva independente do que te aconteça": A educação transformando vidas  

A escola Porto Alegre recebe em média 120 alunos em vulnerabilidade social, especialmente, em situações de rua.

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