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REVISTA LABORATORIAL DO CURSO DE JORNALISMO/ULBRA-CANOAS/RS

babel JULHO DE 2008

ANO 2

NÚMERO 4

NA MIRA DO OLHAR VIAJANTE PÁGINAS 6 e 7

SERIADO AMERICANO CONQUISTA O BRASIL PÁGINA 10

MENORES E MELHORES, DEZ ANOS DEPOIS PÁGINA 16

RIVAIS PARA TODA A VIDA PÁGINAS 18 e 19

SEBOS A BOA OPÇÃO DE LIVROS


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EDITORIAL Em boa companhia

Reitor Ruben Eugen Becker Vice-reitor Leandro Eugênio Becker Pró-reitor de Administração Pedro Menegat Próreitor de Graduação da Unidade Canoas Nestor Luiz João Beck Pró-reitor de Graduação das Unidades Externas Osmar Rufatto Pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação Edmundo Kanan Marques Capelão Geral pastor Gerhard Grasel Ouvidoria Geral Eurilda Dias Roman Diretora de Comunicação Social Sirlei Dias Gomes Coordenador de Imprensa Rosa Ignácio Leite Diretor da área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas Sérgio Roberto Lima Lorenz (RPMT/RS 9250) Coordenador do curso de Jornalismo Douglas Flor (RPMT/RS 7384) Jornalista responsável Rosane Torres (RPMT/RS 5141) Projeto Gráfico Jorge Gallina (RPMT/ RS 4043) Revista produzida pelos alunos da disciplina de Produção Jornalística II: Arnildo Munchow, Bianca Zuchetto, Daiane Morim Novo Wolk, Edson Vladimir Torres, Janaína Teixeira de Souza, Julia Leal da Veiga, Mariana Romais, Simone Bassani, Thiago Nery Pandolfo Fotografia: Leonardo Lenskij. Revisão: Carlos Nunes.

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Em um país como o Brasil, com desigualdades sociais aterradoras, ler impressos – sejam jornais, revistas ou livros – é um luxo para muitas pessoas. Dados de pesquisa divulgada pelo Instituto Pró-Livro sobre o comportamento do leitor no país mostram que a média de livros lidos é de 4,7 por habitante/ano e apenas 1,2 livro por habitante/ano é comprado. Nos EUA, a média de leitura é 10 por habitante/ano e em países como Suécia e Dinamarca, 15. No que se refere a hábito de leitura, estamos longe de ser exemplo. Embora o Brasil responda por 50% da produção de livros da América Latina, 89% dos municípios brasileiros não têm livrarias. A rede de distribuição no país é péssima, os livros são caros e as pessoas alegam não ter motivação, paciência ou tempo para ler. Por conta desses entraves, nas horas de lazer os brasileiros preferem ficar diante da TV. A falta de estímulo à leitura está sedimentada, também, por outras circunstâncias, que certamente ajudam a explicar a performance do brasileiro quando se avalia sua relação com os livros. Muito além da falta de exemplo dentro de casa, da falta de dinheiro, da falta de tempo, há uma falta de vontade política por parte dos atores que deveriam cultivar junto à população o gosto pela leitura desde a fase da alfabetização, há uma cultura de não valorização do livro e da função civilizadora da leitura. Com 190 milhões de habitantes, o Brasil conta somente com 2,7 mil livrarias, uma para cada 70 mil habitantes. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) recomenda que haja uma livraria para cada 10 mil pessoas. Acredito que não seja novidade para ninguém que o índice de leitura cresce na mesma proporção da renda familiar e do grau de escolaridade. Em se tratando de Brasil, este dado ajuda a entender a preferência inabalável dos brasileiros pela televisão, uma vez que a renda do grosso da população é baixa e altíssimo o contingente de analfabetos. Não pense, no entanto, que somente as classes com baixas renda e escolaridade buscam canais de entretenimento (e conhecimento) de fácil assimilação. Entre os 77,1 milhões de não leitores existentes hoje no Brasil, temos – acredite! – 1,3 milhão com formação superior. Nesta edição da revista Babel, a matéria de capa trata de um dos canais de mercado para acesso a livros mais procurados no Brasil, os sebos. Aqueles locais onde estão os livros de segunda mão colocados à venda por preços mais acessíveis. Na característica desordem dos balcões e das estantes dos sebos (a origem do nome, dizem, é anterior à energia elétrica, quando se lia livros à luz de velas), sempre encontramos boa companhia: raridades, livros esgotados, clássicos ou best sellers. Para aqueles que achavam que os sebos tinham sucumbido frente ao avanço da internet e consequente facilidade de baixar conteúdos, Babel cumpre seu papel de informar que Porto Alegre mantem suas lojas de usados. No Brasil de leitores desmotivados por razões diversas, pode estar nas ofertas dos sebos o estímulo que faltava para aproximar leitor e livro. Boa leitura.


ÍNDICE

4e5

Famílias de Guaranis e Caigangues se deslocam para Porto Alegre todos os fins de semana para expor seus produtos na Redenção

IDIOMA Ao contrário do que se pensa, o brasileiro fala bem o português

11 TRÂNSITO Jovens são os que mais se envolvem na violência das estradas

12 e 13

Scholz: trabalhando com as letras

15

Um sonho na forma de um Chevrolet Impala vermelho

16 LIÇÃO DE VIDA História de força e determinação para ultrapassar obstáculos

17 PALESTRA

20 e 21

Lanche de primeira na Capital

22 e 23

Ração: cuidado que não pode faltar

Os desafios da comunicação organizacional

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COMPORTAMENTO

Restou o asfalto para guaranis e caigangues Arnildo Münchow O ditado que afirma ser melhor prevenir do que remediar é bastante usado e por certo tem suas aplicações práticas em muitos casos. Mas nem sempre isso é possível, então uma alternativa é tentar amenizar os efeitos. O desenvolvimento industrial e econômico, o avanço populacional ocupando regiões cada vez mais amplas trouxe consigo algumas conseqüências nem tão agradáveis. Povos foram extintos, outros espalhados devido ao progresso da humanidade ao longo da história. Quem chegar ao Parque Farroupilha aos sábados ou domingos vai encontrar, além de outras tantas variedades artesanais que o famoso Brique da Redenção oferece, aquele grupo de vendedores ali perto do posto de combustíveis, na entrada pela Osvaldo Aranha. Entre balaios, colares, pulseiras e brincos; ou ainda machadinhas e outros artefatos e esculturas em madeira, estão sentados, geralmente em pequenos grupos familiares, índios guaranis e caingangues. Eles chegam cedo, em conduções coletivas, de carro ou até mesmo a pé. Para estes ocupantes históricos do estado, o progresso tal-

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vez não tenha sido tão generoso assim. Desalojados de seu habitat ou espremidos em reservas cada vez mais restritas e descaracterizadas, para muitos a alternativa foi tentar a sorte (ou o azar) na cidade grande. A história da maioria é parecida com a de Alípio Mineiro, um dos índios vendedores do brique. – Nós éramos de Nonoai, mas lá a agricultura não dava direito, a venda do artesanato não rendia e a dificuldade era grande. Aqui não iria ser pior, mas melhor, porque dava para vender artesanato mais fácil – relata. Como Alípio e sua família, chegados há dois anos, outros vieram antes e foram parar nas ruas de Porto Alegre, espalhados de sua gente, isolados de seus costumes e tradições. Em vista desse processo, que trazia conseqüências para os índios e para a cidade, é que desde 2003 a Prefeitura Municipal, através da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Segurança Urbana (SMDHSU), criou o Espaço de Sustentabilidade, localizado na Lomba do Pinheiro. Ali em torno de 40 famílias caingangues possuem um local de moradia, com escola, posto de saúde e centro cultural. Naquele local a atividade artesanal e cultural dos indígenas pode ser mantida e passada adiante. – O espaço ajudou a consolidar os laços de parentesco e a rearticular seus aspectos sociais, religiosos e políticos – lembra a coordenadora de políticas públicas para os povos indígenas da prefeitura, a antropóloga Ana de Castro Freitas. Tendo um local fixo de moradia e convivência, de fabricação do seu artesanato, os índios precisavam de um espaço onde comercializar seus produtos.


Índios são incentivados a produzir artesanato em cerâmica para diversificar o trabalho

Neste sentido, o Brique da Redenção é o ponto principal para esta atividade. O convívio entre si e a atenção aos visitantes do local mostram que, se não estão no lugar dos sonhos, pelo menos encontram uma forma de sobrevivência e manutenção de sua cultura através dos produtos que ali expõem. – Antes faltava dinheiro até para comer, mas agora a coisa mudou. A vida ficou um pouco mais fácil – confessa a índia Rosa Ribeiro. E eles são bons negociantes. Dispõem-se a falar ou permitem fotos, quase sempre com a condição de que se leve alguma coisa da banca. Incrementaram seu artesanato com produtos não só da sua cultura, mas os que vendem mais, como miçangas, tiaras e outros adornos da moda. – Mudamos um pouco para ter o que os brancos gostam mais de comprar. Também variamos as cores, não só o verde e o vermelho que são as cores da mata, mas o azul, rosa, amarelo. Assim vende mais – conclui Dionélio Alves. Em média o preço dos produtos varia entre três e 10 reais, podendo haver aquela tradicional “choradinha” na hora de fechar o negócio. O faturamento por banca oscila bastante e depende principalmente das condições do tempo, podendo ficar entre 30 e 80 reais por final de semana. O material usado para a confecção de artesanatos menores e peças de adorno, é trazido do interior do estado, de reservas indígenas como a de Nonoai, Planalto, Tenente Portela e outras. Já para fazer os balaios, o cipó é retirado das matas de preservação da Prefeitura e de municípios vizinhos como Viamão e Guaíba. Isso tem provocado alguma resistência de grupos preocupados com a preservação destas matas próximas a capital. Por isso a prefeitura tem incentivado, junto aos grupos indígenas, cursos de artesanato em cerâmica, resgatando técnicas ancestrais de fabricação, tendo como matéria prima o barro obtido na região do Lago Guaíba. O objetivo é diversificar o trabalho e reduzir o impacto ambiental nas matas. Segundo a prefeitura, as iniciativas desenvolvidas em benefício dos indígenas da capital visam tornar as famílias indígenas auto-sustentáveis, responsáveis pela coleta e comercialização das peças artesanais. Conforme Ana, locais como o comércio no brique servem como oportunidade de promover uma reflexão a respeito da sustentabilidade indígena pelo artesanato. Além da variedade de produtos em exposição, um passeio pelo brique proporciona o contato com pessoas que, como os indígenas, a seu modo e condições, amenizam as conseqüências do que a sociedade ‘moderna’ lhes impõe.

O Brique da Redenção é o principal ponto de venda do artesanato produzido pelos indígenas

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FOTOGRAFIA

Objetivo dos passeios é desenvolver a prática fotográfica, integrar os grupos e valorizar o patrimônio

Imagens para descansar o olhar Mariana Romais Vontade de viajar e uma câmera na mão. É assim que apaixonados por fotografia descobrem novos lugares e registram tudo o que vêem através de um projeto da escola de fotografia Câmera Viajante, de Porto Alegre. Com inspiração em Aristóteles, que dava aulas ao ar livre na Grécia Antiga, a escola começou aos poucos, realizando viagens com o objetivo de retratar uma mesma paisagem através de diferentes olhares. Se você se interessa por fotografia e não tem muita técnica, não se preocupe. Segundo Gerson Turely, diretor administrativo da Câmera Viajante, qualquer pessoa que goste de fotografia, independente do conhecimento que tenha sobre o assunto, pode participar. Ele afirma que é nessas viagens que pessoas inexperientes têm oportunidade de aprender e desenvolver a apuração do olhar: – Todos os passeios são acompanhados por um professor de fotografia e, na grande maioria, também pela psicóloga, com o objetivo de facilitar a relação que vai se estabelecendo no grupo. A escola cresceu e virou uma agência de fotografia. Segundo Rogério do Amaral Ribeiro, diretor de ensino e comunicação da Câmera Viajante, a divulgação do trabalho é tão ampla que já serviu para atender clientes de lugares como Paris e Zurique. Mas a essência da escola, de viajar e tirar fotos, permanece. Ribeiro afirma que o objetivo dos passeios é a prática fotográfica, a integração do grupo e a valorização do patrimônio histórico, cultural e do meio ambiente do local: – É o prazer em fotografar como um meio de melhorar a qualidade de vida. Com o tempo percebemos também a valorização dos lugares fotografados, tanto para a comunidade local como para o grupo de fotógrafos.

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Os destinos escolhidos para as viagens são os mais variados. Segundo Karla Nyland, diretora de projetos, as questões culturais e ambientais da cidade, a estrutura para receber um grupo e o potencial fotográfico do lugar são levados em conta na hora de decidir o passeio. A maioria deles é realizada dentro do Rio Grande do Sul, graças a seu potencial turístico, pela facilidade de deslocamento e baixo custo. Outros destinos, entretanto, não estão fora da pauta da escola. – Fazemos passeios para o Uruguai e, neste ano, fotodocumentamos o Corpus Christi em Tiradentes, São

O programa de passeios da Escola Viajante prevê que todas a


Fiel a sua essência de viajar e fazer fotos, escola estimula pequenas incursões com destinos bem variados João Del Rei e Ouro Preto, em Minas Gerais. Para o próximo ano, estamos planejando uma viagem ao Equador – relata Karla. Além dessas realizações, o Câmera Viajante desenvolve projetos ambientais e sociais. Turely explica qual o papel ecológico da fotografia: – O olhar de quem fotografa começa a perceber e selecionar vários ângulos ao seu entorno, denunciando ou valorizando o ambiente onde está inserido. O fotógrafo, ao perceber o meio de outra maneira, sob outro ângulo, valoriza uma determinada imagem conforme sua percepção. Ela tanto pode mostrar algo que colabore com um mundo melhor como denunciar a destruição do meio ambiente. Quanto ao projeto social, a idéia se baseia na educação fotográfica de crianças e adolescentes de comunidades carentes. Parece estar dando tão certo que alguns já planejam seguir a carreira de fotógrafos, numa oportunidade única de ascensão social e profissional.

Câmera Viajante desenvolve projetos ambientais e sociais com foco na educação fotográfica

s as saídas de grupo são acompanhadas por um professor de fotografia e, às vezes, até por uma psicóloga REVISTA BABEL - JULHO DE 2008

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SEBOS

Território das letras Arnildo Münchow

Uma das dicas, frente à aflição de muitos na tarefa de escrever ou interpretar um texto, é a de que não existe receita, mas um ingrediente fundamental: leitura. Alguém disse certa vez que ler é evitar que a alma infarte. Para quem envereda pelos caminhos do jornalismo, então, a leitura é simplesmente indispensável. Como se apropriar da arte de escrever um bom texto? Ricardo Noblat afirma que escrever é “habilidade adquirida”, não é dom. E prossegue na resposta em como adquiri-la: “Lendo muito. E sempre. Lendo tudo – de bons a maus livros, de prosa a poesia, de receita de bolo a bula de remédio. Leiam o que lhes reforce as convicções. E não deixem de ler tudo que as contrarie.” O Brasil é considerado um país de poucos leitores. Uma das causas é a impossibilidade de comprar livros, bons livros custam caro, face à situação econômica da maioria dos brasileiros. Diz-se que o Brasil é o país dos jeitinhos, dos atalhos diante dos obstáculos que por vezes a vida impõe. Se não for possível comprar um carro novo, o jeito é dar uma Nos corredores apertados da Aurora (acima), em Porto Alegre, olhada ali em Sapucaia, ou na Ipiranga onde as lojas de usados se concentram. Sempre é possível encontrar um bom negócio. Com o livro acontece algo parecido. Se os novos estão fora do alcance do orçamento, a solução pode estar na Rua General Câmara ou na Riachuelo, ou ainda no Os sebos podem ser visitados pela internet Bom Fim, onde está em sites como wwww.estantevirtual.com.br grande parte dos livros ou www.traca.com.br. Nas lojas virtuais, é usados da capital gaúcha. possível pesquisar, comprar ou vender livros Das mais de 700 livrasem sair de casa rias registradas em Porto Alegre, ao menos 30 são casas de venda, compra e troca. São os chamados sebos, que tem esse nome derivado de uma prática antiga, antes da invenção das cópias atualmente conhecidas, quando os alunos da Universidade de Coimbra reproduziam suas matérias em litografias conhecidas como sebentas, devido ao processo que usava uma tinta graxenta. Os sebos são uma alternativa cada vez mais utilizada por pessoas dos mais diferentes perfis, porque além da economia, que pode chegar a 70% em relação ao livro novo, ainda é possível encontrar aquele livro, revista ou gibi perseguido há tanto tempo. Tudo indica que, depois de uma certa resistência, o público descobriu que vale a pena comprar, trocar e vender livros e revistas usadas. Em Porto Alegre se pode encontrar desde lojas que trabalham exclusivamente com pontas de estoque, até os sebos mais tradicionais como a livraria Aurora

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Detalhes como o autógrafo do autor, a edição ou o ano podem determinar o valor de um livro

gre, é possível encontrar bons exemplares de usados Almansa (E) afirma que o público é eclético e os sebos oferecem relíquias como uma Bíblia ilustrada, ao lado

e a Martins Livreiro, que têm mais de 50 anos de tradição no ramo. – O perfil dos clientes é eclético, desde o engraxate que vem comprar um gibi, até desembargadores, ministros de Estado, que já compraram aqui na loja – ressalta Ivo Alberto Almansa, proprietário da Martins Livreiro. Almansa salienta que o mercado consumidor de livros usados aumentou nos últimos anos, mas as lojas que atuam no setor se multiplicaram ainda mais. Isto criou, segundo ele, um problema relacionado aos livros de mais valor, as preciosidades, quando, por não identificar uma raridade, os sebistas vendem a obra como outra qualquer. E ele exemplifica: – Uma coleção sobre a Guerra do Paraguai, em três volumes, foi comprada por um conhecido meu por R$ 28 numa loja aqui na cidade. Ele conhecia a obra e logo veio aqui me oferecer os livros por R$ 1.000. Eu acabei negociando com ele por R$ 700. Dali a pouco tempo eu vendi os três volumes por R$ 1.500. O valor de um livro usado pode variar muito, dependendo de alguns detalhes, como, o autógrafo do autor, a edição, o ano, enfim. Quem entrar num sebo disposto a gastar no máximo cinco reais, com certeza não sairá de mãos vazias. Por outro lado também é possível investir as economias numa raridade, como Dona Mystica, de Alphonsus Guimaraens, autografado, de 1889, ao preço de R$ 11.000. Ou quem sabe sair com uma bíblia ilustrada, pagando por ela R$ 40.000. O estoque dos sebos é mantido pela aquisição de pontas de estoque e principalmente pela aquisição de bibliotecas particulares. A compra de livros avulsos também acontece, mas algumas livrarias compram somente a partir de um número mínimo de volumes, tentando restringir a revenda de furtos, praticados em bibliotecas, bancas e livrarias. Carlos Alberto Verri, da Livraria Nova Roma, relata que algumas raridades entram nos sebos de maneira inusitada, quase por acaso, como aconteceu com uma primeira edição de Machado de Assis, que chegou pelas mãos de um catador de papel que, antes de levar o material para reciclagem, resolveu verificar se o livro poderia lhe render algum dinheiro. O livro está avaliado em mais de dois mil reais. Entre valiosas raridades e os mais diversos exemplares da atualidade, é possível encontrar de tudo num sebo. O cheiro dos livros e os corredores apertados parecem um refúgio nestes tempos pósmodernos. Uma espécie de volta ao passado. Mas isto não significa que os sebos são coisa do passado. Cada vez mais organizados e atualizados, são uma alternativa muito eficaz contra um dos grandes males da sociedade. REVISTA BABEL - JULHO DE 2008

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TV

Viciados em... seriados! Mariana Romais É cada vez maior o número de fãs brasileiros de seriados norte-americanos. No passado, somente acessível a um grupo segmentado, através da TV a cabo, os sitcoms (como são chamados nos Estados Unidos) viraram febre tão grande que chegaram também à televisão aberta. A rede social mais conhecida no Brasil, o orkut, tem centenas de comunidades dedicadas a séries de televisão, a personagens e até mesmo determinados episódios ou piadas dos sitcoms. A cada semestre, emissoras de televisão dos EUA lançam dezenas de novos seriados, já que a popularidade desse tipo de programa é equivalente ao sucesso que as novelas fazem no Brasil. Alguns se perpetuam, podendo ficar anos no ar, e outros não dão certo, devido à fraca recepção do público. Público, aliás, fiel e exigente: existem até mesmo pessoas que se denominam series addicted, viciados em séries de TV, que não perdem um episódio do seu programa Humor rápido, com tiradas inteligentes, conquista brasileiros favorito. fessora de inglês Carolina Pagani é testemunha da O que faz os seriados conquistarem cada vez mais diferença na fluência do idioma entre alunos que telespectadores fanáticos no Brasil? A estudante assistem seriados de TV dos que não acompanham universitária Luana Limas, fã de carteirinha de mais este tipo de programa. de 15 séries, tem uma explicação: – Como o contato com a língua é maior, as pessoas – O humor nos Estados Unidos é muito diferente do que assistem aos seriados têm mais facilidade de humor no Brasil. Lá ele é mais rápido, as tiradas são entender diálogos e de formular frases. Muitos dão mais inteligentes e sarcásticas. Aqui, geralmente, as um salto no nível de inglês depois que começam a pessoas precisam estar vestidas ou falar de um jeito assistir os sitcoms norte-americanos – avalia ela. bizarro para que arranque uma risada de alguém. Luana comprova essa teoria: Outra diferença clara é o tipo de ambiente em que – Aprendi inglês vendo Friends (seriado humose faz humor: os seriados norte-americanos mostram rístico considerado o mais bem-sucedido de todos os o dia-a-dia, criando uma expectativa sobre o que vai tempos da televisão norte-americana). acontecer no futuro dos personagens. Aqui, o humor Além da parte lingüística, os pode ser na rua, com a participação sitcoms podem influenciar muito de pessoas comuns, ou num mais do que se imagina. Alguns estúdio, com situações e cenários Opções de seriados não saem de casa ou perdem parte diversificados. na TV a cabo e aberta de suas vidas sociais para acomUma tentativa tupiniquim desse panhar os episódios de suas séries tipo de emissão foi realizada pelos Canal Sony preferidas. Outros incorporam o escritores Fernanda Young e The Nanny – Segunda à sexta, 11h Seinfeld – Segunda à sexta, 23h e terça Alexandre Machado, através de Os a sábado, 3h humor ou a personalidade dos personagens: Normais, que fez sucesso entre o – Como comecei a ver Friends público e mostrou forte influência Warner Channel das comédias americanas. Emis- Friends – Segunda à Sexta, 20h muito nova, aprendi a fazer piadas terça-feira, exibido às rápidas, com muita ironia. Sou soras brasileiras passaram a com- (exceto 23h30min) muito como o Chandler Bing prar os direitos de exibição de al- Two and a Half Men – Segunda à sexta, guns sitcoms, mas com dublagem 19h e 19h30min e terça-feira, 20h30min (personagem mais humorístico do Friends, interpretado por Mat– ao contrário do que acontece na Gilmore Girls – Segunda à sexta, 16h thew Perry) e aplico várias frases TV a cabo. Para Luana, as versões The New Adventures of Old Christine – Sexta, 20h30min (começou nova em português perdem muito do ori- temporada dia 9 de maio) do seriado no meu dia-a-dia. Só me entende quem sabe inglês ou ginal: assiste como eu – afirma Luana. – Não achei a mesma graça. É SBT (dublados) difícil traduzir humor, as piadas Eu, a Patroa e as Crianças – Segunda à Se você ainda não conhece nesexta, 13h45min e 18h25min (My Wife nhum seriado, ligue a TV e divirtanunca são iguais. and Kids, também apresentado no canal se: o único problema que você pode Os series addicted brasileiros afir- Sony) mam que assistir a seriados é mui- Um Maluco no Pedaço – Segunda a ter é não querer mais sair da frente da tela! to mais que uma diversão. A pro- sábado, 21h30min

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LINGUAGEM

Português descomplicado Mariana Romais Você acha que o brasileiro fala mal a sua língua? Quando ouve alguém menos instruído, pensa que ele “assassina” o português? Acredita que foi à escola para aprender a Língua Portuguesa corretamente? Para os cientistas da linguagem, os lingüistas, você pode estar enganado. Os brasileiros aprendem desde cedo que falar certo é falar como se escreve, falar como manda a gramática da época do colégio. A língua parece ser algo complicado, com regras e exceções a serem cumpridas para que se faça bom uso dela. É aí que a Lingüística – a ciência da linguagem – entra em cena para desmistificar o senso comum de que só fala corretamente quem estudou, quem sabe a gramática dos livros. Em primeiro lugar, é preciso esclarecer os tão recorrentes “erros de português” cometidos pelos falantes da língua. Para lingüistas, não há certo ou errado do ponto de vista da fala. O que existe são variações lingüísticas: maneiras diferentes de expressar a mesma coisa. Segundo Escola é responsável por mudanças, diz Schwindt o Luiz Carlos Schwindt, professor doutor do Departamento de Lingüística e Filologia da Ufrgs, a Lingüística não Para muitos, a Língua Portuguesa é um verdadeiro opera com parâmetros julgadores de correto ou incorreto: pesadelo. Mas por que ela parece ser tão difícil se é nossa – Não consideramos ‘feio’ ou ‘bonito’ dizer ‘tu fez’ em língua materna? A escola pode estar desempenhando um lugar de ‘tu fizeste’, por exemplo. O que importa é que, do importante papel para que os falantes sintam-se inseguros ponto de vista da competência lingüística, não se espera quanto à proficiência do idioma. Uma possível ênfase que um falante nativo de português, rico ou pobre, esexcessiva nas regras e normas do português serviria como colarizado ou não, diga algo como ‘tu fiz’. Se o fizer, estará repressor das idéias e pensamentos criativos dos alunos, ‘errando’, mas, certamente, este erro de performance tem desestimulados por verem apenas erros naquilo que uma motivação de natureza extralingüística (social, psiproduzem. cológica ou mesmo fisiológica). O que tem sido tomado como difícil, diz Solange, não é Outra crença comum entre a população é a de que a língua em si, mas algo disfarçado de língua, que é devemos basear nosso jeito de falar de acordo com a ensinado na escola: escrita, que parece ser mais correto e mais respeitoso às – Um objeto homogêneo, ‘quadraadinho’, passível de regras da língua. Segundo professora dissecação e cheio de etiquetas, que da UFRGS, doutora em Letras e pesdevem ser decoradas e aplicadas à mequisadora de Análise do Discurso, talinguagem. O brasileiro fala mal? Solange Mittmann, tem uma explicaAcrescenta que, além disso, há um Ao contrário do que muitos pensam, não é ção: terrorismo, patrocinado por uma – Até hoje, apesar de toda evolu- em Portugal que se fala corretamente o parcela da mídia e alguns estudiosos português. O brasileiro usa bem a língua, ção pedagógica e de estudos lingüís- embora de forma diferente daquela da linguagem, que é o da inacessibiliticos, encontramos textos do século idealizada pelos livros. Ele consegue dade de um saber que é vital para al19 como exemplos/modelos de bem comunicar-se através dela, e essa é função cançar o sucesso profissional. Quer diescrever. Não temos a fala como mo- básica e principal de uma língua. Segundo zer, há coisas que só alguns sabem, mas os indivíduos têm capacidade delo para a fala, mas temos a escrita Schwindt, que todos teriam obrigação de saber. para falar sua língua, independentemente de como modelo para a escrita e, even- instrução ou escolaridade: – Daí a multiplicidade de progratualmente, também para a fala. mas de televisão, colunas em jornais - Mesmo falantes analfabetos, se em Basear a fala na escrita, em prin- condições normais, serão proficientes no e revistas, cursos, que prometem cípio, não faz sentido, alerta Sch- seu idioma. salvar o cidadão das gafes lingüísticas. A hipótese equivocada, em termos windt: O que temos aí é uma imagem de científicos, de que o brasileiro fala mal tem – A fala é anterior à escrita tanto origem numa concepção de prestígio: língua como algo apartado do sujeito, na história quanto no desenvolvi- - ‘Falar bem’, nessa concepção, é usar a como um instrumento, com suas peças mento humano. Por outro lado, não norma culta, que é o dialeto usado, em geral, e engrenagens devidamente etipela classe média urbana escolarizada. O podemos negar que falantes que vão que acontece é que, em função das quetadas e cada uma com sua função à escola, ao longo do tempo, mesmo diferenças sociais, menos pessoas têm bem definida, num conjunto que sem perceberem, mudam sua forma acesso à norma culta, e isso dá a impressão funciona sempre da mesma forma. de falar em alguns aspectos. É um de que muita gente fala mal o idioma. Em – Qual é o cidadão que não vai achar outras palavras: pré-conceito! efeito retroalimentador da escrita. difícil saber tudo isso? – pergunta. REVISTA BABEL - JULHO DE 2008

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TRADUÇÃO

Alma de escritor Arnildo Münchow

Teólogo e consult or da SBB, Sholz ressalta q ue as edições mais recent es da Bíblia são as mais conf iáv eis consultor que recentes confiáv iáveis

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Traduzir é uma arte. Arte que envolve, dentre outras coisas, o risco de um equívoco, uma palavra mal empregada que pode comprometer a credibilidade de um trabalho. Os italianos já diziam: tradutore, traditore; ou seja, tradutor, traidor. Invariavelmente, um traidor à medida que a tradução nunca substitui o original. De uma ou de outra forma, alguém sai traído. Ou o autor que não vê todo seu texto reproduzido na tradução; ou o leitor que não tem toda informação e, ao ler, fica sem entender alguma coisa. O livro mais traduzido e distribuído no mundo é a Bíblia. É possível encontrar versões completas ou porções dela em mais de 2,4 mil idiomas. Mas, onde estão os originais deste livro, ou coleção de livros como o nome sugere, escritos há dezenas de séculos? A resposta é que não se tem mais estes manuscritos, elaborados pela pena dos autores. Todos se perderam. E, se ainda estivessem disponíveis, não seria das tarefas mais gratas se aventurar na leitura dos textos, pois foram escritos, originalmente, em hebraico, aramaico e grego. A primeira tradução da Bíblia foi feita entre 200 e 300 anos antes de Cristo, quando os textos do Antigo Testamento foram vertidos do hebraico para o grego. A primeira tradução para a língua portuguesa ocorreu no século XVII quando, em 1681, foi publicado o Novo Testamento, traduzido por João Ferreira de Almeida. Traduzir para comunicar melhor e com maior alcance para os mais diferentes povos. Com este objetivo foi fundada em 1804, na Inglaterra, a Sociedade Bíblica Britânica, a primeira das 141 que existem atualmente, formando as Sociedades Bíblicas Unidas (SBU). Em 1948 nasceu a Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), que desde então já produziu e distribuiu mais de 67 milhões de exemplares. O teólogo e Consultor de Tradução da SBB, Vilson Scholz, garante que traduzir é uma atividade dinâmica e desafiadora: Babel: O que faz exatamente um profissional da sua área? Scholz: O consultor, como o nome diz, presta consultoria para os diferentes projetos, seja de revisão ou tradução, para o que se constitui uma comissão própria. No caso de línguas indígenas seriam os falantes daquela língua, os próprios indígenas, assim também, no caso de línguas de imigrantes, seriam os falantes dessa língua. E o consultor entra nesse grupo como um especialista no texto bíblico. Então, se os tradutores têm dificuldades com o texto ou inclusive para serem treinados ou terem alguma orientação sobre o trabalho de tradução, se faz uma oficina, uma semana de estudos sobre aquele assunto para que os tradutores estejam mais bem preparados para o trabalho. Dentre a variedade de dialetos no Brasil, muitos deles não têm escrita; qual o processo de tradução nessas situações? Quando a língua ainda não tem registro, normalmente o trabalho é iniciado por uma sociedade lingüística, formada por lingüistas profissionais. Estes entram em contato, passam a morar na comunidade lingüística e aprendem a língua, registram, criam um dicionário, formam uma gramática e depois ensinam a escrita e a leitura para os falantes. Estes se tornam, potencialmente,

O livro mais traduzido e distribuído no mundo é a Bíblia, com versões em milhares de idiomas

os melhores tradutores da língua. Antigamente as pessoas que vinham de fora, os especialistas, aprendiam a língua e faziam a tradução. Mas sempre era uma tradução esquisita, porque era feita por um estrangeiro. Hoje, o procedimento é diferente. Na medida do possível, os próprios falantes, os próprios indígenas, por exemplo, são os que fazem a tradução, porque são os que melhor conhecem a sua língua. A SBB finalizou, em 2001, uma tradução para o português, chamada Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH). Quem fazia parte da comissão de tradução neste projeto? Era um grupo formado, dentre outros, por um especialista em Novo Testamento, que era também o consultor, havia um especialista em Antigo Testamento, um especialista em linguagem popular e um especialista em lingüística, no caso a gramática da língua portuguesa. O projeto da NTLH teve a duração de 20 anos, que é o tempo ideal que se leva para fazer uma tradução nova. São cinco anos para o Novo Testamento e 15 anos para o Antigo Testamento. Quais os textos que serviram de base para esta tradução? Dentro das Sociedades Bíblicas o procedimento é que se façam as traduções a partir das edições mais recentes dos textos bíblicos, tanto do hebraico do Antigo Testamento, como do grego do Novo Testamento. As edições mais recentes são consideradas as mais confiáveis, porque estão baseadas nas últimas pesquisas, nos desenvolvimentos mais recentes da ciência e da crítica textual, que têm acesso às últimas descobertas arqueológicas referentes ao texto bíblico. O senhor falou em equipe com habilidades diferentes. Para traduzir não basta saber o grego e ou o hebraico? Que habilidades são indispensáveis? A língua escrita e mesmo falada é parte de um contexto maior de comunicação. O registro lingüístico que ficou é apenas uma fatia de um todo bem maior que é a cultura, a sociologia, a antropologia, enfim. Então conhecer, ser especializado, ter alguma noção nessas áreas, por parte dos tradutores, especialmente em traduções para línguas majoritárias, como o português, é muito importante. Muita gente acha que traduzir para outra língua é apenas uma questão de substituir palavras. Isso é uma visão totalmente ingênua, porque se tem todo um processo maior de comunicação envolvido. A tradução é fazer com que aquele texto antigo fale, praticamente, como se ele fosse um texto de hoje. REVISTA BABEL - JULHO DE 2008

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TRADUÇÃO

996 o, Scholz, 52 anos, é consult or de tradução desde 1 estament or em No Teólogo e dout consultor 1996 estamento, Novvo TTestament doutor

Trabalhando nos textos do Senhor questão da pregação moderna. Unindo estas duas Aos 52 anos, ele passa grande parte do tempo em coisas, chegou ao campo da tradução bíblica, onde atua. frente ao seu computador portátil, acompanhado de Poderíamos dizer que ele “se sente em casa” naquilo um chimarrão, em sua casa, num bairro tranqüilo de que faz. São Leopoldo. Mas quem pensa que a tarefa é das mais A leitura é uma das principais ferramentas para fáceis ou descansadas, logo muda de opinião ao saber desenvolver sua tarefa e, para não restringí-la ao seu das atividades que compõem a função de consultor de campo de trabalho, Scholz aproveita o tempo das tradução, exercida por Vilson Scholz desde 1996. Além viagens, especialmente de avião, para outras leituras, de prestar consultoria aos projetos de tradução em saindo um pouco da rotina que o envolve. Ele não andamento na Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), o que dispensa estar informado sobre o cotidiano e, para isso, exige muitas viagens, envio e recebimento de textos e um dos seus companheiros é o seu anotações, ele se dedica ao preparo de radinho, sempre ao alcance. materiais de apoio, revisões e pesquisas Sholz afirma que o Scholz gosta de futebol e, vez por relacionadas ao texto bíblico. Ainda outra, pode ser visto no campo do leciona no curso de Teologia da Ulbra e interesse pelo que faz é Seminário Concórdia, atuando pelo na Faculdade de Teologia do Seminário fruto de sua formação lado direito da defesa. Não esconde Concórdia de São Leopoldo. sua preferência pelo time do coração, A rotina deste teólogo, mestrado e e da constante o Grêmio, no que não encontra unanidoutorado em Novo Testamento, com treipreocupação com a midade na família. Ele também namento especial na área de tradução, maneira de pratica tênis, outro esporte preferido. também envolve preparo de palestras, Casado e pai de três filhos, precisa cursos de treinamento para os tradutores, comunicar, com a dosar o tempo com responsabilidade, além da necessidade de atualização questão da pregação pois, segundo ele, trabalhar em casa constante na área, através da participação tem suas vantagens, mas exige em congressos internacionais e encontros moderna. organização. de consultores das demais sociedades – Existe o risco, da parte de quem bíblicas espalhadas pelo mundo. trabalha em casa, de não conseguir distinguir o que é O interesse pelo que faz é fruto de sua formação trabalho do que é lazer e, às vezes, o trabalho se biblista e da constante preocupação com a maneira de transforma numa espécie de lazer – lembra. comunicar, de passar adiante este conteúdo, ou seja, a

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CARROS

Irresistível Impala Thiago Pandolfo

“Apaixonado por carro, como todos os brasileiros.” O slogan que a Ipiranga utiliza em seus comerciais desde a década de 90 não foi escolhido em vão. A paixão do povo brasileiro já foi tema de livros, novelas e músicas. Falando em música, quem não se lembra da Brasília Amarela dos Mamonas Assassinas, ou do calhambeque de Roberto Carlos, sem falar do fuscão preto de Almir Rogério. Alcemar da Silva, brasileiro como o próprio sobrenome diz, também tem sua paixão: o Chevrolet Impala vermelho 1960. Porém, diferente da grande maioria, para conseguir seu carro, Alcemar não comprou em uma revenda ou Viajar no automóvel antigo era uma aventura para a família Silva foi contemplado em um consórcio, teve que ir além. sonhado Chevrolet Impala. Não aquele marrom, – Fui até visitar um presídio em Curitiba para mas um verde do mesmo ano e modelo que tentar achar esse carro. encontrou na cidade de Santa Cruz do Sul. Em 1969, quando servia ao exército, apaixonouAlcemar conta que o seu sonho era levar noivas se por um Impala marrom 1960 de um taxista em para casamentos com o carrão. Santa Cruz do Sul e decidiu: aquele carro tinha – Uma vez eu levei uma até a igreja, mas não que ser seu. consegui sair da igreja para a festa porque o carro Porém, o tal taxista foi preso e transferido para enguiçou no meio do caminho. uma penitenciária no Paraná. Obcecado pela idéia Comprar o veículo foi apenas o primeiro de comprar o automóvel, em 1971 Alcemar juntou problema encontrado. Como o carro era antigo e dinheiro e foi até Curitiba atrás do dono do veículo. estava com muitos defeitos, foram necessários vários Sem conhecer a cidade e, apenas com o nome consertos para deixá-lo funcionando. Desde que do taxista preso, iniciou uma procura pelos precomprou o Impala, Alcemar começou a reformá-lo. sídios da capital paranaense. Após percorrer três Sua primeira mudança foi pintar o veículo de penitenciárias, foi informado de que o taxista podia vermelho. Porém o seu maior problema sempre foi estar no presídio Piraquara, no interior do Paraná. o motor. Como o original estava irrecuperável, ele – Fui até o presídio e havia só um agente já tentou adaptar os mais diversos motores, só que penitenciário para 700 presos. Ele procurou e não até agora não obteve sucesso. achou o nome do taxista na lista, mas disse que – Eu até já mandei comprar o vidro dianteiro aquela lista estava desatualizada e eu podia ir até o no Uruguai, mas aí o cara me trouxe um traseiro, pátio e ver se encontrava o preso. Eu aceitei apesar agora pelo menos tenho um sobressalente – lembra. de não lembrar o rosto dele, sorri. O filho mais velho, Jocelito, recorda das avenA sensação de estar no pátio de um presídio com turas que eram as viagens em família. 700 presos e sem segurança nenhuma, não é uma – Uma das minhas lembranças da infância era das melhores lembranças de Alcemar. da gente indo pra praia, todo mundo dentro – Eu acabei ficando muito nervoso quando os daquele carro. O problema é que sempre ficávamos presos começaram a pedir cigarros e me olhar de um jeito estranho, então disse para o agente no meio do caminho porque o carro estragava. penitenciário que não conseguia identificar o preso Na família a opinião é unânime: o carro, que que eu estava procurando porque todos estavam hoje está parado em uma garagem, já tinha que ter muito barbudos. sido vendido há muito tempo, mas seu Alcemar Desanimado por não ter conseguido o sonhado reluta. carro, voltou para sua cidade. Mas não desistiu de – Eu já disse para o Jocelito escrever a história seu sonho. para aquele programa de TV. Quem sabe um dia Assim, em 1980 conseguiu comprar seu tão eles vêm aqui e deixam o carro novinho em folha. REVISTA BABEL - JULHO DE 2008

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TRÂNSITO

O inferno é aqui Daiane Morim Novo Wolk A violência no trânsito produz números assustadores. Por dia, mais de 100 pessoas morrem em acidentes, totalizando 36 mil vítimas por ano no Brasil, isso sem contar os milhares de feridos. Os jovens são os que mais se envolvem nessa violência. Transformam seus automóveis em armas. A negligência e a imprudência são as principais características desses motoristas. O que eles querem, na verdade, é mostrar que podem quebrar barreiras, ultrapassar limites, exibir-se para os amigos e, principalmente, se iludem, julgando-se imortais. Mas o resultado dessa ousadia às vezes acaba de forma trágica. O dia 20 de setembro de 1996 marcou para sempre a vida de um jovem residente em Guaíba. Adão José Ribeiro Neto, o Dango, retornava com amigos de uma festa, quando se envolveu em um acidente de trânsito. O jovem, que na época tinha 22 anos, estava no banco de trás sem o cinto de segurança, o motorista estava alcoolizado e em alta velocidade. – Só lembro de ter gritado e pedido para o meu amigo ir mais devagar. Quando acordei já estava hospitalizado – conta Dango, lembrando o acidente. Dango reconhece que um dos momentos mais tristes de sua vida foi receber a notícia de que ficaria tetraplégico. – Apesar de precisar de ajuda para me locomover, descobri que a deficiência não é o fim da vida, pois a minha continua – afirma. Aos 34 anos, Dango trabalha como voluntário na Fundação Vida Urgente, contando um pouco de sua história de vida para outros jovens, além de ministrar

palestras em transportadoras e hospitais. – Ainda tenho a esperança de um dia voltar a andar – diz. Segundo a coordenadora de educação do DetranRS, Ana Bernardes, a solução para que se tenha uma cultura de paz no trânsito é buscar um caminho trilhado por um novo cidadão que manifeste também no trânsito valores e atitudes éticas como o respeito, a solidariedade, a tolerância, a prudência, a cooperação e a responsabilidade. Isto se dará pela educação. – A posição do Detran-RS é de buscar a participação e o envolvimento de órgãos do Sistema Nacional de Trânsito, de instituições dos sistemas de ensino e da sociedade em geral para que as ações de educação para o trânsito surtam efeito na conscientização sobre a importância do papel de cada um para que se tenha um trânsito mais seguro e humanizado – ressalta. Já a presidente e criadora da fundação Thiago Gonzaga, Giza Gonzaga, acredita que sem a mobilização da sociedade não será possível reduzir esta estatística. A não ser que seja colocado um policial a cada quilômetro de estrada e um “azulzinho” em cada esquina da cidade. Segundo ela, a fiscalização eficiente das autoridades conta muito, mas o mais importante que isso é a sociedade se mobilizar e se organizar para mudar essa verdadeira guerra que é o trânsito no Brasil: – É claro que isso gera alguns acidentes, mas 90% dos acidentes são por falha humana e das imprudências que têm nome: bebida, velocidade e comportamento humano. Por isso é que acredito que a questão do trânsito é mais que uma questão de polícia rodoviária, é uma questão de mudança de educação.

Grande parte dos acidentes de trânsito é resultado da imprudência do motorista aliada ao alcoolismo

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HISTÓRIA DE VIDA

Reaprendendo a viver Thiago Pandolfo Roque da Luz tem 33 anos e vive como qualquer outra pessoa de sua idade. Faz faculdade de Química à noite, trabalha com suporte por telefone durante o dia, joga basquete na quadra próxima a sua casa com freqüência, pratica exercícios físicos todas as manhãs, dá aulas de química, física e matemática em escolas três vezes por semana e aulas particulares nas horas vagas. Porém, ao contrário de que se pode imaginar, ele é um portador de deficiência física desde os 14 anos de idade. Sua história, como a de muitos outros deficientes, é marcada por tramas, superação e muita força de vontade. Em 1989, após seis anos de treinamentos, o garoto descoberto nas competições municipais entre centros comunitários e disputado por grandes clubes de Porto Alegre, como o Grêmio Náutico União e o Lindóia Tênis Clube, via o sonho de se tornar nadador profissional começar a se concretizar. – Eu tinha ganho as preliminares do campeonato gaúcho e teria que fazer uma única prova para disputar o brasileiro de natação – comenta. Para alguém que era acostumado a ganhar todas as competições municipais, chegando a atropelar com mais de meia piscina o segundo colocado, aquela parecia uma prova fácil. Eram seis meses de treinamento puxado, que davam ao menino um porte avantajado de atleta. Mas para ele aquilo era motivo de diversão. Pular na piscina diariamente para buscar o sonho de ser atleta profissional era prazeroso. Faltavam poucos meses para a prova decisiva e seu tempo estava dois centésimos mais baixo que o primeiro colocado na sua categoria, o que garantia a certeza de participar do brasileiro de natação daquele ano. Porém, o dia 25 de julho marcou sua vida para sempre. – Era uma tarde chuvosa de domingo, eu e meus amigos fomos a um galpão do pai de um deles, próximo ao depósito da Coca-Cola, na Av. Sertório. O pai de um de meus amigos era policial civil. Neste galpão ele guardava uma arma. Este meu amigo estava mexendo na arma e, sem querer, puxou o gatilho. Eu estava a um metro e meio dele e a bala me atingiu, perfurou meu pulmão, meu fígado e ficou alojada na minha coluna. O socorro precário por um carroceiro, a falta de assistência a sua família e a descrença dos médicos com sua recuperação só aumentaram sua revolta com a paralisia de suas pernas. – Aos 15 anos eu perdi o sentido da vida (...) ficava indignado em pensar que tanta gente má vivia correndo por ai, enquanto eu estava condenado a viver em uma cadeira de rodas. Eu fiquei durante muito tempo só me alimentando com água de arroz – lembra.

Devido ao bom condicionamento físico, Roque resistiu à grave lesão no fígado, mas com a parada brusca na intensa atividade física, acabou sofrendo graves atrofias musculares. O processo de reabilitação só obteve resultados, quando sua família decidiu levá-lo ao Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, um dos melhores centros de reabilitação do país. Devido à falta de recursos, foi necessário que seu pai dobrasse a carga de trabalho como motorista de ônibus, e sua mãe pedisse auxílio aos familiares para ficar perto do filho. Durante os três meses e meio de tratamento, Dona Maria Salete, mãe de Roque, ia a Brasília com freqüência e hospedava-se em um colégio de freiras. Foi em uma destas visitas da mãe que Roque conheceu a mulher com quem se casaria. – Minha mãe não sabia se locomover em Brasília, então uma menina sempre a acompanhava ao hospital. Um dia, antes de a minha mãe ir embora, eu me fiz de coitadinho e pedi para a menina vir me visitar durante a semana. Para eu não ficar sozinho, entende. Aquela menina era a Glauci – relembra às gargalhadas. Meses depois Glauci veio morar com Roque em Porto Alegre. – Foi um momento difícil, a gente era muito novo e ela não tinha ninguém aqui. Eu tinha que trabalhar puxado para sustentar a casa. O relacionamento com Glauci foi importante, mas não determinante para que Roque visse que seu estado físico não o impedia de ter uma vida normal. A convivência com outros deficientes com dependências muito maiores do que a sua fizeram com que ele visse que sua condição era limitada, mas não o impedia de fazer muita das atividades de uma pessoa sem deficiência física. Hoje ele se considera independente, possui um carro adaptado e vê um vasto mercado de trabalho disponível. – Eu sei que não posso ficar me locomovendo para todos os lados, mas nada impede que eu execute as mesmas tarefas que sem deficiência. Hoje trabalho com atendimento por telefone. O que me impediria de executar minha atividade? Apesar de estar adaptado a suas limitações, Roque nunca aceitou sua paralisia. – Não posso ficar conformado. Se eu ficar, nunca vou tentar mudar. Eu sonho em um dia voltar a andar novamente, mas não é por isso que preciso ficar parado esperando este dia chegar. Eu aprendi a conviver com a minha deficiência. O próximo obstáculo será voltar às piscinas. – A Glauci sempre insistiu para que eu voltasse, mas eu sempre relutei. Vai ser duro para mim porque muita coisa vai “voltar ”, entende? Eu tenho que estar preparado para lidar com o meu psicológico. Acho que no meio do ano talvez eu arrisque. REVISTA BABEL - JULHO DE 2008

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TECNOLOGIA

Tocadores estão menores e melhores Edson Torres

Há 10 anos, em Hanver, na Alemanha, surgia o primeiro MP3 player no mercado. Ele não tinha as mesmas características e muito menos as utilidades dos aparelhos que hoje disputam a preferência popular, mas ficou gravado na história por iniciar uma evolução tecnológica que não cessa de avançar, surpreender e conquistar consumidores. Lançado durante a feira de tecnologia Cebit, em Hanver, o MPMan F10, foi o primeiro equipamento portátil capaz de rodar arquivos de MP3 (formato de compressão de áudio que gera arquivos até 12 vezes menores do que no formato padrão do áudio dos computadores, o WAV). O protótipo, de fabricação coreana, media 16,5 cm de altura e tinha a capacidade de armazenamento de 32MB, o suficiente para comportar oito músicas. Em apenas dez anos, os aparelhos de MP3 player mudaram consideravelmente. Hoje, eles diminuíram de tamanho e ficaram mais potentes, com capacidade de mais de 100 GB (gigabytes) de memória. Além de ter reduzido seu tamanho e crescer em memória, os players agregaram diversas funções ao longo do tempo como rádio e o acesso à internet sem fio. A evolução chegou a um nível tão avançado, que atualmente há aparelhos do tamanho de uma caixa de fósforos. O técnico de informática, Ronaldo Dornelles, de 21 anos, acompanhou esta evolução. No início da adolescência, o jovem utilizava o aparelho de toca-fitas da família para fazer suas próprias coletâneas de músicas, com canções gravadas do rádio. Não demorou muito, o jovem adquiriu um walkman e conseguiu autonomia para escutar as bandas de rock preferidas sem incomodar a família. Logo depois, comprou um discman e aposentou o tocador de fitas.

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Hoje, além de não desgrudar do seu Foston Vídeo de 1 GB de memória e capacidade para 350 músicas, não se imagina mais carregando estojos de CDs e muito menos fitas. – Os tocadores de mp3 inovaram o modo de ouvir música ao trazer praticidade às pessoas. Agora, ninguém mais precisa carregar na mochila inúmeros CDs para escutar seus artistas preferidos – conclui. Mesmo após ter adquirido o seu primeiro MP3, em 2006, e baixar constantemente músicas da internet, Dorneles continua comprando CDs, mas não com a mesma proporção de antigamente. Na época do seu discman, o jovem comprava pelo menos um por mês. Atualmente, não passam de três ao ano. Essa diminuição na compra de CDs não faz parte somente da realidade do técnico em informática e sim de toda a indústria fonográfica. Com a popularização do formato MP3, as gravadoras e os produtores de músicas estão tendo que buscar novas alternativas para manter seu sustento, com a constante queda da venda de CDs.


Os profissionais da indústria acusam a pirataria como principal causa da crise, mas novas oportunidades de negócio despontam na internet, como é o caso da música digital. Em 2007, as vendas de música digital cresceram 40%, movimentando cerca de US$ 2,9 bilhões no mundo, ou seja, 15% das receitas totais da indústria fonográfica. Para o produtor musical canoense, Ricardo Medeiros, 35 anos, a indústria precisa rever seus conceitos e apostar em novas formas de trabalhar a música e não somente o CD. Para ele, a venda de música digital não pode ser ignorada e deve ser muito bem estudada, para sites, portais de internet e gravadoras obterem cada vez mais lucro. Medeiros destaca que atualmente as bandas e os artistas não estão se prendendo a grandes gravadoras e estão divulgando seu trabalho e até lançando seus álbuns diretos na internet, no formato Mp3. – Hoje a internet proporciona às bandas uma nova forma de divulgação de seus trabalhos, seja através do e-mail, MSN ou pelo Orkut. Muitos artistas chegam a colocar suas músicas na WEB de forma gratuita, para conquistar o público e lucrar a partir da venda de ingressos de show MP3 não é o único ou de produtos como camisetas, e não mais o formato de música CD como foco prinpresente nos players cipal – explica o produtor. e na internet Quando o Mp3 começou a se popularizar, a primeira reação da indústria fonográfica foi denunciar o download de músicas como um processo ilegal e associá-lo à pirataria. Uma das ações da indústria foi em 1998, quando a RIAA (sigla, em inglês, da Associação Americana de Indústria de Gravação), conseguiu na Justiça a proibição da venda do Rio, tocador de Mp3 da Diamond, que começava a despontar nas vendas. O Naspster – programa que foi o pioneiro no compartilhamento de MP3 – fechou em 2001, devido aos inúmeros processos das gravadoras. Hoje, os sites P2P(compartilhamentos entre usuários) e programas como Emule, Kazaa e Donkey são o alvo da vez. Apesar do grande sucesso, o Mp3 não é o único formato de música presente nos players e na internet. Em alguns modelos de Ipods, é usado o AAC e na rede há outros padrões de música, como o próprio AAC (da Apple), o WMA (da Microsoft) e o OGG (não-proprietário). Atualmente, existe também o formato denominado MP4, que ao invés de música é vídeo. Apesar da concorrência, o MP3 mostra que não está perdendo espaço e, se depender dos milhões de internautas que utilizam diariamente o formato, ainda durará muito tempo e irá incentivar o lançamento de novos modelos de tocadores.

A EVOLUÇÃO DO MP3 1998 O primeiro player de MP3 foi o MPMan F10, e foi lançado em março de 1998. Produzido pela Korea’s Saehan Information System,o MPMan F10 foi o primeiro tocador portátil produzido capaz de rodar músicas em formato MP3. O pai dos players atuais possuía 32M de memória para gravação – o suficiente para suportar oito músicas que, para serem armazenadas no seu interior, fazia uso de uma porta paralela a ser conectada em um computador.

1999 Surge o Napster, programa para compartilhamento de música na rede que populariza o download de MP3. Através dele milhares de usuários trocaram seus arquivos pessoais, aumentando suas discografias. Por causa disso, o software sofreu pressão da indústria fonográfica e foi fechado dois anos depois 2001 A Apple lança o Ipod, tocador com o disco rígido de 5GB, tornando-se o player com maior capacidade de memória. Outro destaque do aparelho foi o seu design, moderno e atrativo ao público jovem.

2006 A Microsoft entra na briga dos players digitais e lança o Zune, tornando-se concorrente direta da Apple.

2007 A Apple sai na frente mais uma vez e coloca no mercado o Ipod Touch, dotado de tela sensível ao toque e com acesso à internet.

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ALIMENTAÇÃO

Bom e barato Thiago Pandolfo

Comprar cachorro quente em carrocinhas é hábito de muitas pessoas, principalmente nas grandes cidades. Trabalhadores e estudantes apressados, e que procuram um alimento bom e barato, encontram no cachorroquente uma solução para a sua fome. Se esses “apressadinhos” são os maiores consumidores deste tipo de fast food, como explicar, então, as enormes filas, especialmente aos domingos, diante de uma singela carrocinha, instalada em uma esquina de Porto Alegre? Quem mora na capital sabe a resposta. O melhor lanche da cidade tem sobrenome e endereço: é o cachorro-quente do Rosário, na frente do colégio de mesmo nome, esquina da Independência com a Praça São Sebastião. Gerente há mais de 30 anos do ponto, seu Rúbio tem uma explicação singela para este fenômeno gastronômico que “atrai multidões”. – Nosso sucesso é resultado do respeito que temos pelos nossos clientes, utilizando apenas produtos de primeira qualidade, higiene impecável e um bom atendimento, além do nosso famoso molho especial – comenta. A carrocinha, instalada em frente ao colégio em

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1962, quando Osmar Ferreira Labres, vindo de Bom Retiro do Sul, conseguiu um alvará da prefeitura para explorar o ponto, já foi matéria dos principais jornais da capital e apontada pela revista Veja como a responsável pelo “melhor cachorro-quente” da cidade. Também é de Veja uma das mais felizes definições daquele pão com salsicha (ou lingüiça): “A fusão de pão (com massa exclusiva), molho vermelho, mostarda, ketchup, salsa, queijo ralado, azeite de oliva e maionese resulta em uma iguaria impossível de ser apreciada sem que a pessoa se lambuze”. A fama deste lanche não é exclusiva entre os anônimos. Famosos como Serginho Moah, da banda Papas da Língua, e o ator global Tarcisio Meira Filho freqüentam, ou já freqüentaram, o local. Embora o nome “Cachorro-quente do Rosário” esteja na boca do povo, Rúbio explica que, atualmente, o nome oficial do mais famoso lanche da cidade é “Cachorro-quente do R”, em razão de uma pendenga judicial com outra empresa que utiliza o nome “Rosário” para vender seu produto. Para quem tem fome, pressa, ou simplesmente foi seduzido pelo lanche generoso produzido pela turma do seu Rúbio, o que importa mesmo é que aquele cachorro-quente continue bom como sempre foi.


Produtos de primeira qualidade, higiene impecĂĄvel e bom atendimento sĂŁo parte do segredo do sucesso

Por conta de uma pendenga judicial, o lanche mais famoso da capital se chama Cachorro-quente do R

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PETS

Élen não levou em conta as idades dos cães na hora de alimentá-los e teve de consultar um veterinário

Consumidores exigentes, cardápio caprichado Edson Torres

Alimentar um bichinho de estimação parece tarefa fácil, mas com a variedade de rações disponíveis no mercado, pode se tornar uma ação bem trabalhosa. Hoje, supermercados e pet shops oferecem inúmeros produtos destinados a cães e gatos das mais diferentes raças e tamanhos. Há alimentos especialmente produzidos para animais peludos, para os sem pêlo, para castrados, para os que precisam perder peso, para os vegetarianos, alérgicos, os de porte pequeno e grande. Com tantas opções, muitos consumidores acabam se precipitando e comprando rações que não atendem às necessidades de seu mascote, acarretando sérios problemas de saúde ao animal. Este foi o caso da estudante de Publicidade e Propaganda da Ulbra, Élen Pereira, que adquiriu um cachorro da raça Cocker com um mês de vida e o alimentou com a mesma ração de Billy, o cão adulto da família. Com o

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passar dos dias, o filhote acabou adoecendo e apresentando sinais de cansaço, fraqueza e constante falta de apetite. A primeira atitude da estudante, de 21 anos, foi levá-lo ao veterinário. – Fiquei preocupada, pois não sabia o que tinha acontecido com ele. Até pensei que poderia ser a ração, mas ele sempre demonstrou gostar do alimento – analisa. Para a veterinária e coordenadora clínica do Hospital Veterinário da Ulbra, Carla Koeche, este é um erro muito comum cometido pelos donos de animais, que acreditam que o seu cão ou gato possam comer qualquer tipo de alimento. Ela explica que neste caso, o filhote ficou doente por se alimentar de uma ração imprópria para a sua idade e seu porte, e por não conter a quantidade ideal de proteínas e nutrientes como cálcio e ferro, fundamentais para o desenvolvimento saudável de qualquer animal em fase de crescimento. Carla destaca ainda que antes de comprar determinada ração, os consumidores devem estar


Donos de animais devem ficar atentos à marca e à qualidade das rações

atentos à marca e à qualidade do produto, além das características do animal. Procurar auxílio veterinário também é fundamental. – O mais importante na escolha da ração é consultar um bom veterinário, pois é ele que poderá indicar, com precisão, o alimento que atenda de maneira ideal às necessidades nutricionais, físicas e estéticas do animal – afirma. Nas prateleiras dos supermercados e pet shops de todo o país, rações são comercializadas em forma de alimentos secos (embalagens plásticas) ou úmidos (latas). A gama de produtos é tão numerosa que somente em 2007, a indústria brasileira do setor produziu 1,8 milhão de toneladas de alimentos para cães e gatos, segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Alimentos para Animais de Estimação (Anfal-Pet). Hoje, o Brasil é o principal produtor de rações na América Latina. Conforme a associação, o potencial do mercado brasileiro está muito além dos resultados conquistados, pois há cerca de 31 milhões de cães e 15 milhões de gatos em todo o país, um consumo potencial de 3,96 milhões de toneladas/ano. Se hoje a indústria de ração produz toneladas e fabrica as mais diferentes composições de alimentos, há 20 anos a situação era bem diferente. Somente a partir do início dos anos 90, com a chegada de grandes empresas multinacionais, como a Pedigree e a Whiskas, é que começava a ser introduzido no país, o conceito de alimentos completos para animais domésticos. Com tanta abundância de alimentos nas prateleiras “caninas”, muitos consumidores, especialmente os mais jovens, esquecem ou desconhecem como era trabalhoso alimentar e manter seu animal saudável há cerca de duas décadas, em uma época em que não existia ração com nutrientes e proteínas balanceadas. Carla se lembra muito bem deste tempo. Na época, ela ainda estava na faculdade e para manter bem nutridos os seus dois cães pastores, tinha que ir periodicamente ao veterinário e solicitar uma lista de alimentos que iriam compor as refeições dos animais. – Eu ainda me recordo quando comprei meu primeiro pacote de ração. Foi um momento maravilhoso, porque até então, tinha que gastar

muito dinheiro comprando os alimentos indicados, que na maioria das vezes, azedava no pote do cachorro – relembra a coordenadora. Com a chegada da ração, os consumidores, além de economizarem, ganharam praticidade e qualidade em um único produto. Mesmo com tantas facilidades, certas pessoas ainda insistem em alimentar seus bichinhos com restos de comida, o que acaba dificultando a digestão dos mesmos e interferindo no metabolismo do cão. Segundo especialistas, animais de raça estão mais propícios a ficarem doentes ao comerem sobras de comida, porque possuem um organismo mais sensível que os vira-latas. Caso fiquem doentes e não forem levados ao veterinário o mais breve, os animais “refinados” podem piorar seu estado de saúde e morrer. Portanto, uma coisa é certa: não importa a raça, idade, tamanho e nem mesmo a “classe social” do bicho. O importante é que o mascote receba atenção especial e o cuidado de estar se alimentando de uma ração apropriada, tendo assim, garantias de uma vida saudável e cheia de energia.

Está na mesa! RAÇÕES PARA CÃES

Pedigree Sensitive

1 kg

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Alimento completo para cães adultos com pele sensível

Pedigree Júnior

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Pedigree Adulto

1 kg

R$ 9,50

1 kg

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Alimento completo para cães adultos

Pedigree equilíbrio natural

Alimento completo para cães adultos e sênior

Premier Ambiente Interno

1 kg

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Alimento completo para cães adultos que residem em ambientes

Royal Canin Poodle

1 kg

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Alimento completo para cães adultos e maduros da raça Poodle RAÇÕES PARA GATOS

Whiskas light frango com legumes 1kg

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Alimento para gatos de baixa caloria

Whiskas carne e leite

500g

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400g

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Alimento completo para filhotes

Premier pêlos longos salmão

Alimento especialmente produzido para adultos com pêlos longos

Premier gatos castrados

1,5kg

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Alimento especial para gatos castrados de 7 até 12 anos

Cat Chow Light Nestlé / Purina 3kg

R$ 31,20

Alimento para gatos adultos acima do peso

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QUALQUER NOTÍCIA BOA...

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Jornal Boca de Rua O jornal Boca de Rua completou oito anos em agosto. Produzido por pessoas que “vivem em situação de rua” em Porto Alegre, sob a coordenação de jornalistas profissionais, o jornal circula a cada três meses e pode ser comprado nos pontos de grande circulação de pedestres, nas

sinaleiras e na banca da República. O Boca é um dos tantos projetos desenvolvidos pela ONG Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação (Alice), com o objetivo de dar voz a quem não tem, discutir a comunicação e educar para a comunicação. (Bianca Zuchetto)

Estilo próprio – Estava em Minas, transmitindo um jogo. Na hora de gritar gol, olhei para a torcida que estava tomada por bandeiras. Daí saiu o “tremulando, tremulando, tremulando”. Acabou pegando. (Haroldo de Souza, 63 anos, narrador esportivo e vereador em Porto Alegre, explicando como surgiu o bordão que tem marcado as transmissões de jogos da rádio Guaíba.)

O Rio Grande em capítulos Quem quiser saber um pouco (mais) da história do Rio Grande do Sul pode sintonizar a rádio Guaíba, de segunda a sexta-feira. A trajetória de personalidades ou fatos que marcaram o cenário político-social dos gaúchos são condensados em cerca de três minutos. Rio Grande em Capítulos foi ao ar pela primeira vez em 2007. Hoje, está sob o comando da dupla Fabiane Christaldo, na produção, e de Vinícius Sinott (foto), na apresentação. Os temas abordados são: Erico Verissimo, Padre Roberto Landell de Moura, Mario Quintana, Getúlio Vargas, José Lutzenberger, Giuseppe Garibaldi, Antônio Augusto Borges de Medeiros, Origens de Porto Alegre,

Revolução Farroupilha, A enchente de 1941, Sepé Tiarajú, Ramiro Barcelos, Josué Guimarães, Jacobina Mendes Maurer, Imigração e Colonização do Rio. (Bianca Zuchetto)

Dá uma moedinha.... Se não é o principal ponto de concentração de crianças de rua, certamente a avenida Ipiranga, em Porto Alegre, é a via pública preferida dos menores que passam horas sob as sinaleiras à espera de uma moedinha. Em troca, muitos deles fazem malabarismo com pedaços de pau, com bolas ou aros de bicicleta. Outros fazem pequenos serviços, como limpar os vidros dos carros. O menino M. F., 12 anos, conhecido como Chambinho, tem quatro irmãos menores e há cinco complementa a

renda da família com seu “trabalho” de rua. Munido com cabos de vassoura, faz malabares das 10h até de madrugada, e ganha R$ 10 por dia. Segundo a conselheira tutelar da 8º Micro-região de Porto Alegre, Rose Walfrid, a rede de atendimento não está preparada para dar conta desta realidade, pois faltam políticas públicas, investimentos na educação fundamental que garantam escolas de qualidade para receber essas crianças. (Daiane Morim Novo Wolk)


Boa teoria, na prática Arnildo Münchow Nada mais prático do que uma boa teoria. Em outras palavras é o que acredita a coordenadora do curso de Relações Públicas da Escola de Comunicação da Universidade de São Paulo ECA/USP, professora doutora Margarida Maria Kunsch. Para ela, o momento atual da profissão exige que se conheçam as perspectivas do público e como isso afeta a formação e a atuação do profissional de relações públicas. Presente no 4º RP em Evidência, promovido pela Ulbra, e que discutiu a comunicação organizacional no Brasil, a professora e pesquisadora destaca que as exigências atuais remetem cada vez mais ao fundamento teórico como base de legitimidade da função. – O mercado exige profissionais pensantes e não simples técnicos – afirma. Com base num resgate histórico, ela verifica uma necessidade cada vez maior do RP em proporcionar o encontro da organização/empresa com o seu público e o meio onde está inserida. Não se trata de uma relação simplesmente comercial, mas precisa estar fundamentada no que ela considera um tripé, onde é preciso olhar para o desenvolvimento econômico, social e ambiental. – A atual complexidade e incerteza global, os processos de mediações políticas, econômicas, culturais e sociais proporcionadas pela mídia, denotam o poder dos meios de comunicação. E isso exige das organizações uma adaptação aos diferentes meios que existem hoje – completa a professora. Diante dessa perspectiva, a professora considera que não bastam ações individuais e isoladas dentro das organizações em busca de um contato e integração com o público interno e externo, assim como não basta criatividade em propor simples ‘tentativas’. – Existe a necessidade do profissional de RP conhecer os pressupostos teóricos de Comunicação Organizacional e Teorias da Comunicação – afirma. Para a professora da USP esta é a única forma de atuar no mercado de modo transparente e socialmente responsável. E ela vai além quando afirma que é preciso, mais do que nunca, haver da parte do profissional de RP, bem como de todos os que atuam na comunicação aquilo que chama de visão de mundo, visão estratégica de negócios. – O que quero dizer é que se faz necessário saber planejar tática e estrategicamente a comunicação, é imperativo ter capacitação teórica para poder sair da fragmentação e do vazio conceitual para uma base técnica, humanística e conceitual – resume. Margarida Kunsch faz questão de reafirmar a importância do profissional em RP na empresa, seja ela qual for. O mercado de trabalho em grandes empresas está bastante saturado, mas segundo ela, é no setor público e no terceiro setor que estão os nichos ainda pouco explorados pela atividade de RP. No entanto, ela considera que às vezes ocorre uma supervalorização do profissional de marketing, em detrimento do RP, por razões próprias da tendência economicista atual, onde quantidade está colocada acima da qualidade, e, onde os resultados objetivos e imediatos estão sobrepostos ao investimento mais amplo e a longo prazo.

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PALESTRA

LIVROS dica de

mestre GUSTAVO HASSE BECKER

Crise de imagem Em tempos de crises como as vividas pelas companhias aéreas Gol e TAM, decorrentes dos acidentes que dizimaram centenas de passageiros há não muito tempo, assim como a que recentemente acometeu o Senado Federal, que teve seu presidente envolto em denúncias que resultaram na implantação de uma CPI para investigá-lo, nada mais oportuno que voltar nossas atenções ao tema crise de imagem. Neste sentido, um livro que pode em muito contribuir para esta reflexão é A síndrome de Aquiles: como lidar com as crises de imagem, de Mário Rosa (São Paulo: Gente, 2001, 249 páginas). Com larga experiência em consultoria de imagem junto a empresas de grande porte, assim como com um significativo trânsito por campanhas políticas, o autor, que é jornalista, tem muito a dizer e ensinar com esta obra. Trata-se de um livro de fácil e convidativa leitura, que nos conduz a uma reflexão sobre o que são crises de imagem, por que elas acontecem, quais são os seus alvos preferenciais, como agir para que elas não aconteçam ou, ao menos, para que seus efeitos sejam minimizados. Tudo isso regado por uma gama de bons exemplos que perpassam acontecimentos envolvendo empresas, políticos, corporações ou personalidades do mundo econômico e empresarial. O autor é oportuno quando lembra que a crise bate indiscriminadamente à porta, seja de organizações e personalidades sabidamente vilãs, seja daquelas sérias e respeitadas, cujo comportamento jamais daria margem a suspeitas. Partindo desta premissa, Rosa recomenda: “A melhor forma de agir é incorporar os preceitos de administração de crises, montando um sistema capaz de detectar previamente focos desses eventos e trabalhar duro para que eles não aconteçam”. Em suma: “É melhor prevenir do que remediar!”. Este continua sendo, se não o melhor, o único caminho para que ninguém seja apanhado desprevenido. Então, por que será que é tão difícil incorporar tal procedimento? O tema é complexo! Vale, realmente, a leitura da obra, para que compreendamos melhor o assunto. Gustavo H. Becker é professor e coordenador do curso de Comunicação Social, habilitação em Relações Públicas. REVISTA BABEL

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ESPORTE

Rivalidade e emoção Mariana Romais Copa do Mundo, ranking da Fifa, qualidade dos jogadores... Qual o critério para definir o melhor futebol do mundo? Quando o debate envolve brasileiros e argentinos, a resposta ainda é mais difícil de ser única e correta. O Brasil é pentacampeão do mundo; a Argentina é bicampeã, mas muitas vezes ultrapassa o Brasil como melhor equipe do mundo no ranking da Fifa. Afinal, o melhor futebol do mundo joga ao som do tango ou do samba? Para o jornalista esportivo argentino Franco Javier Rabaglio, da Rádio Belgrano de Buenos Aires, definir que uma equipe é melhor que outra é bastante relativo. Os brasileiros são melhores no aspecto “seleção” e a Argentina nunca conseguiu confirmar todo o bom desempenho que obtém em competições menores, como a Copa Libertadores da América. Já no desempenho dos atletas, afirma que o Brasil, da metade do campo para frente, é mais explosivo e dinâmico que a Argentina, priorizando a individualidade em

relação à coletividade. Os argentinos, em contrapartida, são mais lentos e não se desesperam para conseguir o objetivo. Profissional de Comércio Exterior e Ciências Contábeis, Roberto Alexis Alvarez, também argentino, diz que os atletas de seu país se diferenciam dos brasileiros pela entrega e a mentalidade de que o jogo nunca está perdido, independentemente de como está o placar. Do lado tupiniquim, o editor de esportes do jornal Zero Hora, David Coimbra, afirma que o futebol daqui continua sendo um futebol em que o atacante tem muita criatividade e habilidade. O argentino joga na marcação, é mais catimbeiro, marca mais o jogo, tem mais malícia para jogar e sabe bater no adversário de um jeito que não vai levar cartão amarelo. Refuta, entretanto, o mito de que o time brasileiro é bom porque tem craques: – O futebol argentino tem grandes estrelas: Messi e Riquelme, por exemplo, são jogadores que fazem diferença, sabemos que são craques. Se pegarmos os cinco maiores jogadores da história do futebol do mundo, Pelé vai estar lá, Garrincha talvez. Mas dois argentinos certamente farão parte da lista: Maradona e Di Stefano – opina.

Uma discussão que nunca acaba A discussão ganha mais fôlego quando o assunto é o melhor jogador do mundo: Pelé ou Maradona? Para David Coimbra, não há dúvidas: – Pelé é melhor, é incontestável. O Pelé tem 1300 gols marcados, por exemplo; o Maradona deve ter uns 500. O Pelé é tricampeão do mundo, foi bicampeão pelo Santos, construindo uma história de títulos, de números e de cartel inigualável. Ele cabeceava muito bem e chutava com as duas pernas. Maradona não cabeceava e chutava apenas com a esquerda. Além disso, Pelé era mais atleta. Maradona era um grande jogador de futebol, mas não era um atleta. Pelé era um caretão, não fumava, não bebia... O único vício dele era mulher – brinca. Alvarez diz que é lógico que cada país defenda seu ídolo, mas o que diferencia ambos é a época em que atuavam. Segundo ele, nos tempos de Maradona, o futebol já era muito mais rápido e violento. A diferença maior,

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segundo ele, é que o argentino jogava sozinho, sem parcerias à sua altura: – Ele estava sempre rodeado de jogadores de menor qualidade, enquanto Pelé jogava com atletas quase tão bons quanto ele, como Garricha, por exemplo. Afirma, ainda, que Maradona competia por clubes pequenos, como o Napoli, e que sua qualidade fez o time italiano vencer equipes como Juventus, Milan, Inter de Milão e Roma. Independente da opinião sobre quem é mais eficiente no trato da esfera de couro, se os verde-amarelos ou os alvi-azuis, a rixa entre brasileiros e argentinos seguirá eterna. Enquanto isso, os torcedores de ambos os lados continuarão a apreciar o que há de mais artístico, belo e criativo nesse esporte, porque continua residindo entre o samba e o tango a magia encantadora do melhor futebol do mundo.


FUTEBOL

O poderoso Javali Thiago Pandolfo Apelido, todos temos. Alguns são carinhosos, íntimos, sigilosos, outros são extravagantes, exagerados, engraçados, marcantes. Faz parte da cultura brasileira apelidar as pessoas. Aqui até o presidente da República, ao invés de ser chamado de Sr. Inácio da Silva, como naturalmente seria chamado se fosse presidente de qualquer outro país do mundo, é simplesmente Lula. Quando o assunto é futebol, então, nem se fala. Basta pensar nos maiores jogadores do mundo de todos os tempos que a gente já tem uma noção disto. Ferenc Puskas, Hungria, ou simplesmente Puskas. Em Portugal Eusébio da Silva Ferreira era chamado de Eusébio. Diego Armando Maradona, sempre foi Maradona. Já no Brasil temos Pelé, Garrincha, Tostão, Zico, e por ai vai. Nada contra os apelidos, bem pelo contrário, sou na verdade um curioso. Adoro entender a origem deles. Acho que apelido conta um pouco da vida das pessoas e, muitas vezes, se incorpora ao nome. É o caso da Maria das Graças Meneguel, a Xuxa, Renato Gaúcho, Jô Soares, Chico Anísio, e tantos outros. Isso faz me lembrar a história de um ex-colega de serviço, o Javali. Ele era daqueles que se você chamasse pelo nome ninguém conhecia. Não por ter um feio ou complicado, afinal tinha nascido Eduardo dos Santos, mas se transformou em Javali antes dos 20 anos, mas o motivo ele escondia a sete chaves. Todos diziam que o apelido era pelo seu porte físico e pelo seu jeito de jogar futebol. Apesar de ser baixinho, tinha um corpo forte, pescoço largo, olhos avermelhados, cara de bravo e um arranque que lembrava um animal enfurecido. Nas peladas do final de semana era o camisa 9. Ficava enfiado no meio dos zagueiros esperando a bola chegar. Não era de muita movimentação, mas quando recebia a bola era um abraço. Ele girava em cima do marcador e partia para cima da defesa adversária sem piedade, parecia mesmo um javali atrás de sua preza. O Jarbas, goleiro da equipe de desenvolvimento, nossos principais rivais, disse várias vezes que chegou a ter pesadelos com aquela cena. Realmente tudo levava a crer que o apelido tinha mesmo esta origem, mas, como sempre me interessei pelo assunto, resolvi tirar a história a limpo Certa vez, em um happy hour, daqueles que se estendem até a madrugada, não tive dúvida. Coloquei-o contra a parede e perguntei: – Afinal, de onde vem esse apelido, Javali –? Para minha surpresa, aquele cara sisudo e mal encarado que metia medo em qualquer zagueiro, desandou a chorar. Eu, meio sem jeito, tentei acalmar o rapaz. Disse para ele esquecer o assunto, afinal não era tão importante assim. Mas ai ele desabafou. O tal apelido não tinha nada de glorioso, ou exaltava uma característica futebolística, mas sim era fruto de uma história triste e desesperadora. O Javali me contou que quando tinha 17 anos era a grande promessa de um grande time do futebol brasileiro. Naquela época todos o apontavam como uma pérola de valor incalculável. Acontece que toda aquela badalação mexeu com sua cabeça. Ai, como muitos outros diamantes do futebol brasileiro, ele jogou toda a sua carreira fora, graças ao álcool, as drogas e as más companhias. Assim, quando deixou de ser uma pérola e passou a ter que trabalhar duro para sustentar a família, os amigos o apelidaram de Já Vali, ou seja, ele já havia valido alguma coisa, mas hoje não é mais ninguém. REVISTA BABEL

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Revista Babel nº 4