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^^FORMAS DE VIDA^^:

SIGNIFICADO

E FUNÇÃO NO PENSAMENTO !,,

WITTGENSTEIN Werner

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o

DE

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Fac.

Filosofia

Spaniol

CES-SJ

(BH)

a r t i g o trata d e u m i m p o r t a n t e c o n c e i t o n a o b r a d e W i t t g e n s t e i n e m s u a

fase posterior. Procura elucidar a n o ç ã o de 'formas de v i d a ' e m s u a f u n ç ã o para a inteira c o n c e p ç ã o wittgensteiniana da l i n g u a g e m e da filosofia. A s formas de v i d a s ã o relacionadas c o m outro conceito central das Filosóficas:

o d e seguir

uma

regra.

Investigações

Procura-se mostrar como as formas

de

v i d a , ao c o n s t i t u í r e m a v e r d a d e i r a b a s e p a r a o f u n c i o n a m e n t o d a l i n g u a g e m , d e a l g u m m o d o f a z e m parte d e s t a ú l t i m a . F i n a l m e n t e i n d i c a - s e b r e v e m e n t e c o m o e s t a c o n c e p ç ã o n ã o s ó c o n f e r e ao p e n s a m e n t o d e W i t t g e n s t e i n u m a p o s i ç ã o e s p e c i a l e m face d a s d i v e r s a s correntes f i l o s ó f i c a s , m a s t a m b é m l h e dá

u m s i g n i f i c a d o para outras áreas d o conhecimento e da v i d a h u m a n a .

T h i s article deals w i l h an important concept w h i c h occurs i n Wittgenstein's later w o r k s . It c o n c e m s t h e ' f o r m s of l i f e ' w h o s e r e l e v a n c e w e try to c l a r i f y w i t h i n t h e p e r s p e c t i v e of W i l t g e n s t e i n ' s u n d e r s t a n d i n g of l a n g u a g e

and

p h i l o s o p h y . W e t h e n r e l a t e the ' f o r m s of l i f e ' to the c o n c e p t of ' f o i l o w i n g a rule',

a quite important

concept

i n the

Philosophical

IitvesHgations.

By

d e m o n s t r a l i n g that the ' f o r m s of l i f e ' i n a c e r t a i n s e n s e are a p a r t o f the l a n g u a g e , w e a l s o s h o w that t h e y are its v e r y b a s i s . F i n a l l y w e m e n t i o n l h e i m p l i c a t i o n s of t h i s c o n c e p t b o t h i n W i t t g e n s t e i n ' s t h o u g h t a n d i n a v a r i e t y of f i e l d s i n w h i c h t h e y are r e l e v a n t .

Introdução

A

• 1, f i i .

e x p r e s s ã o ' f o r m a i s ) d e v i d a ' [Lebensform(en)]

nas In-

vestigações filosóficas o c o r r e nos p a r á g r a f o s 19, 23, 2 4 1 ,


e nas p á g i n a s 173 e 218 d a s e g u n d a p a r t e ^ Esta o c o r r ê n c i a é relativamente rara, m o r m e n t e q u a n d o comparada c o m outras e x p r e s s õ e s c o m o , p o r e x e m p l o , ' j o g o d e l i n g u a g e m ' . Este fato, a l i a d o ao teor das p r ó p r i a s f o r m u l a ç õ e s , parece d e i x a r c l a r o q u e Wittgenstein não atribui importância maior à expressão como tal. O m e s m o já n ã o se pKxle a f i r m a r d o conceito t r a d u z i d o p>or esta e x p r e s s ã o , b e m c o m o d a f u n ç ã o deste m e s m o c o n c e i t o n o p e n s a m e n t o d e W i t t g e n s t e i n . A o b s e r v a ç ã o : " O q u e precisa ser aceito, o d a d o — poder-se-ia d i z e r — s ã o formas de vida" ( I F p . 218)^ parece a l u d i r a u m a f u n ç ã o básica. E N . M a l c o l m , filósofo e a m i g o pessoal d e W i t t g e n s t e i n , escreve q u e d i f i c i l m e n t e se p o d e exagerar a i m p o r t â n c i a d a q u e l a n o ç ã o n o p e n s a m e n t o d e W i t t g e n s t e i n ( N . M a l c o l m , 1963:91).

1. A s páginas das Jntwsftgai;ões filosóficas, aqui bem como ao longo da nossa expo5Íi;ào, referem-se à tradução publicada pela Abril Cultural, São Paulo, 1979, 2* ed. O texto desU tradução deve ser usado com precaução por conter uma série de incorreções.

2. Para a explicação da sigla IF, e de outras que serão usadas parada identificação de textos de Wittgenstein, veja a lista bibliográfica no final.

N o momento, porém, de querermos explicitar a noção e a função das formas de vida, n ã o s ã o p e q u e n a s as d i f i c u l d a d e s a s e r e m e n f r e n t a d a s . Isto p>orque as passagens e m q u e a e x p r e s s ã o aparece e s t ã o entre as m a i s obscuras das Investigações. A l é m disso, se é v e r d a d e q u e o conceito d e forma de vida o c u p a u m l u g a r c e n t r a l n o p e n s a m e n t o d e W i t t g e n s t e i n , sua c o m p r e e n s ã o parece e n v o l v e r , d e a l g u m m o d o , a c o m p r e e n s ã o das Investigações c o m o u m t o d o . A p e r c e p ç ã o deste fato l e v o u - n o s à idéia d e a p r o x i m a r o c o n c e i t o d e forma de vida d e u m o u t r o conceito-chave das Investigações, a saber, o conceito d e seguir uma regra. De fato, a a n á l i s e deste ú l t i m o conceito o c u p a c o m o q u e o l u g a r c e n t r a l das I n v e s t i g a ç õ e s ( I F § 185-242), e u m a das o c o r r ê n c i a s d a e x p r e s s ã o forma de vida insere-se neste c o n j u n t o ( I F § 241). Se está c o r r e t o o q u e d i s s e m o s até a q u i , apresentar a n o ç ã o d e forma de vida i s o l a d a m e n t e d e sua f u n ç ã o parece, d e u m l a d o , m a i s o u m e n o s inútil o u s u p é r f l u o , d e o u t r o , d e v e r i a ser tarefa n a d a fácil, s e n ã o i m p o s s í v e l . Se, apesar disso, o fazemos, é m a i s p o r r a z õ e s d i d á t i c a s . Deste m o d o , nossa e x p o s i ç ã o a p r e s e n t a r á a s e g u i n t e e s t r u t u r a : I . a n o ç ã o deforma de vida, 11. o conceito d e seguir uma regra, I I I . a f u n ç ã o das formas de vida.

/. A noção de forma de vida .1

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W i t t g e n s t e i n p o d e r i a t e r t o m a d o a e x p r e s s ã o formas de vida (Lebensformeii) d e u m a o b r a m u i t o c o n h e c i d a d e E. Spranger, c o m o sugere S. T o u l m i n (1969:71). O u e n t ã o , a sua o r i g e m estaria antes e m O . Spengler, c o m o p r e f e r e m G . P. Baker e P. M . S. H a c k e r (1980:47). Seja q u a l f o r a sua o r i g e m , o certo é q u e W i t t g e n s t e i n empresta u m significado próprio à expressão. Por o u t r o l a d o , e m n e n h u m m o m e n t o ele p r o c u r a d e f i n i r o conceito. A s s i m

[K2


s e n d o , o q u e t e m o s à d i s p o s i ç ã o s ã o as p o u c a s o c o r r ê n c i a s d a e x p r e s s ã o e m seu r e s p e c t i v o c o n t e x t o . C o m base nesses d a d o s é q u e t e n t a m o s e x p l i c i t a r a l g u n s aspectos d o conceito.

3. Aqui é importante oljservar que no manuscrito aparece o lermo Lebensformen como variante para fatos da vida {Tatsachen des Lebens).

4. O problema que se revela aqui será retomado quando do exame do conceito de seguir uma regra.

1 . T a l v e z o m e l h o r pronto d e p a r t i d a para esse t r a b a l h o f>ossa ser e n c o n t r a d o nesta a n o t a ç ã o d e 1947-48: " E m l u g a r d o i n d e componível, específico, indefinível: o fato de agirmos assim e a s s i m ; p o r e x e m p l o punimos certas a ç õ e s , estabelecemos a s s i m e a s s i m o estado d e coisas, damos ordens, fazemos relatos, descrev e m o s cores, i n t e r e s s a m o - n o s f>elos s e n t i m e n t o s d o s o u t r o s . O q u e precisa ser aceito, o d a d o — poder-se-ia d i z e r — s ã o fatos da v i d a " (RPP I § 630)-'. A q u i , a l é m d e e x e m p l o s d a q u i l o q u e W i t t g e n s t e i n e n t e n d e p o r formas de vida, t e m o s a i n d i c a ç ã o d e q u e se trata d e m o d o s d e a g i r o u atividades. Esta característica relaciona as formas de vida c o m os jogos de linguagem, n u m d o s s i g n i f i c a d o s desta e x p r e s s ã o : " C h a m a r e i t a m b é m o c o n j u n t o d a l i n g u a g e m e d a s a t i v i d a d e s c o m as q u a i s está i n t e r l i g a d a d e o ' j o g o d e l i n g u a g e m ' " (IF § 7). Estas a t i v i d a d e s q u e f a z e m p a r t e d o j o g o d e l i n g u a g e m , m a i s a d i a n t e s ã o relacionadas e x p l i c i t a m e n t e c o m a forma de vida: "A e x p r e s s ã o 'jogo d e l i n g u a g e m ' d e v e a q u i salientar q u e o falar d a l i n g u a g e m é p a r t e d e u m a a t i v i d a d e o u d e u m a ' f o r m a d e v i d a ' " (IF § 23). Se as formas de vida s i t u a m - s e n o nível d o a g i r , elas, c o n t u d o , n ã o se i d e n t i f i c a m s i m p l e s m e n t e c o m d e t e r m i n a d a s a t i v i d a d e s . Neste s e n t i d o é e n g a n a d o r a a d e s c r i ç ã o : " O s gestos, as exp r e s s õ e s faciais, as p a l a v r a s e a t i v i d a d e s q u e c o n s t i t u e m o apiedar-se d e e c o n s o l a r u m a pessoa o u u m c ã o s ã o u m b o m exemplo d o que Wittgenstein entende p o r 'forma de v i d a ' " ( N . M a l c o l m , 1963:91). C e r t a m e n t e ter pena d e a l g u é m e c o n s o l á - l o e n v o l v e e l e m e n t o s d o tipjo d o s e n u m e r a d o s p o r M a l c o l m . M a s será q u e ter pena e consolar c o n s i s t e m nestes elementos? Para fjerceber q u e n ã o é a s s i m , basta c o n s i d e r a r o s e g u i n t e e x e m p l o . I m a g i n e m o s q u e " d u a s pessoas, pertencentes a u m a t r i b o q u e n ã o conhece jogos, sentem-se d i a n t e d e u m t a b u l e i r o d e x a d r e z e e x e c u t e m os m o v i m e n t o s p r ó p r i o s deste j o g o , e m e s m o c o m t o d o s os f e n ô m e n o s m e n t a i s c o n c o m i t a n t e s " ( I F § 200). O b v i a - ' m e n t e estas p>essoas n ã o e s t ã o j o g a n d o x a d r e z , u m a v e z q u e n a q u e l a s i t u a ç ã o t a l j o g o n ã o existe. A a n a l o g i a c o m o ter pena e consolar parece ó b v i a . O u seja, o q u e c h a m a m o s " t e r p e n a " e " c o n s o l a r " n ã o consiste s i m p l e s m e n t e n u m c o n j u n t o d e e l e m e n tos d o tipo d e s c r i t o p>or M a l c o l m ^ . 2. S e g u n d o a l g u n s i n t é r p r e t e s (ver, por e x e m p l o , S. K r i p k e 1982:96-98), e x i s t i r i a u m a ú n i c a forma de vida característica d a nossa e s p é c i e , a l g o c o m o a forma de vida humana. E m c o n s e q ü ê n c i a , se seres d i f e r e n t e s d e n ó s t i v e s s e m u m a l i n g u a g e m . 13'


esta seria ininteligível p a r a n ó s : "Se u m l e ã o p u d e s s e falar, n ó s n ã o p o d e r í a m o s e n t e n d ê - l o " (IF p . 216). P o r é m , se o l h a r m o s p a r a os d i f e r e n t e s textos d e W i t t g e n s t e i n , parece c l a r o q u e as formas de vida s ã o múltiplas e variáveis. D e u m l a d o , W i t t g e n s t e i n fala c l a r a m e n t e d e formas de vida n o p l u r a l (RPP I § 630; I F , p . 218). A l é m disso, ao associar a n o ç ã o d e forma de vida c o m a d e 'jogo d e l i n g u a g e m ' (IF § 23), o o b j e t i v o d e W i t t g e n s t e i n é c h a m a r nossa a t e n ç ã o p a r a a m u l t i p l i c i d a d e e d i v e r s i d a d e d o e m p r e g o d e p a l a v r a s e frases. T a m b é m este aspecto das formas de vida se tornará m a i s c l a r o n o m o m e n t o d e a b o r d a r m o s a sua f u n ç ã o . 3. A l i a d o ao e q u í v o c o d e u m a única forma de vida, apresenta-se o u t r o , a saber, a idéia d e q u e se t r a t a r i a d e a l g o d e n a t u r e z a p u r a m e n t e b i o l ó g i c a . T a m b é m p a r a isso p o d e m c o n t r i b u i r textos d e W i t t g e n s t e i n e m q u e ele se refere à " h i s t ó r i a n a t u r a l d o h o m e m " ( I F g§ 25, 415). É v e r d a d e q u e a l g u n s e l e m e n t o s chamados "naturais" por Wittgenstein, como, por exemplo, gritar o u g e m e r d e d o r , f a z e m p a r t e da d i m e n s ã o biológica o u i n s t i n t i v a . M a s há t a m b é m o u t r o s q u e s ã o c l a r a m e n t e d e n a t u r e z a cultural, c o m o , p o r e x e m p l o , c o n t i n u a r a série d o s n ú m e r o s n a t u r a i s , a s s i m : " 1 0 0 1 , 1002, 1003...". D e resto, o p r ó p r i o c o n ceito d e " h i s t ó r i a n a t u r a l d o h o m e m " é p r e d o m i n a n t e m e n t e c u l t u r a l ( B G M 65, 352). A l é m disso, n u m a f o r m u l a ç ã o paralela a " i m a g i n a r u m a l i n g u a g e m s i g n i f i c a i m a g i n a r u m a f o r m a d e v i d a " (IF § 19), W i t t g e n s t e i n h a v i a d i t o n o t e m p o d o Brown Book: " P o d e m o s f a c i l m e n t e i m a g i n a r u m a l i n g u a g e m (e i s t o s i g n i f i c a n o v a m e n t e u m a c u l t u r a ) " (BB 134). De f a t o , o t e x t o a c i m a c i t a d o d e RPP I § 630, b e m c o m o a lista d e jogos de linguagem d o § 23 das Investigações referem-se a d a d o s essencialmente c u l t u r a i s . 4. Se as formas de vida n ã o s ã o d e n a t u r e z a s i m p l e s m e n t e b i o lógica, mas antes d e n a t u r e z a c u l t u r a l , t a m b é m n ã o s ã o p r o d u t o d e u m a a t i v i d a d e consciente e r e f l e x i v a (F 391) o u d e raciocínio ( Ü G 474). E n q u a n t o e s t ã o " p a r a a l é m d o q u e é j u s t i f i c a d o o u i n j u s t i f i c a d o " ( Ü G 359), as formas de vida n ã o s ã o a d q u i r i d a s a t r a v é s da e x p h c a ç ã o o u e n s i n o p r o p r i a m e n t e d i t o s , mas antes a t r a v é s d e treinamento: " A s c r i a n ç a s s ã o t r e i n a d a s p a r a executar essas a t i v i d a d e s , para u s a r essas p a l a v r a s ao e x e c u t á - l a s , e p a r a r e a g i r assim às p a l a v r a s d o s o u t r o s " (IF § 6; v e r t a m b é m IF § § 86,198; B G M 333). E q u a n t o ao t e r m o " t r e i n a m e n t o "

(Abrichtung),

W i t t g e n s t e i n observa: " E s t o u u s a n d o a p a l a v r a ' t r e i n a m e n t o ' d e u m m o d o estritamente análogo àquele e m que dizemos que u m a n i m a l é t r e i n a d o p a r a r e a l i z a r certas a t i v i d a d e s . T a l t r e i n a m e n t o se faz p o r m e i o d e e x e m p l o s , r e c o m p e n s a , castigo e coisas s e m e l h a n t e s " (BB 77). P o r t a n t o , as formas de vida assemelham-se 14


antes a r e a ç õ e s o u c o m p o r t a m e n t o s i n s t i n t i v o s d o q u e p r o p r i a m e n t e r a c i o n a i s e r e f l e x i v o s . T a m b é m este aspecto das formas de vida t e m u m a i m p o r t â n c i a f u n d a m e n t a l p a r a a l i n g u a g e m h u m a n a , c o m o se m o s t r a r á a d i a n t e .

//. O conceito de seguir uma

regra

A o t e m p o d o Tractalus, W i t t g e n s t e i n h a v i a c o m p a r a d o a l i n g u a g e m c o m " u m c á l c u l o d e a c o r d o c o m regras d e f i n i d a s " ( I F § 81), a i n d a q u e tais regras p e r m a n e c e s s e m " o c u l t a s n o ' m e i o ' d a c o m p r e e n s ã o " ( I F § 102). Já nas Investigações, a c o m p a r a ç ã o é c o m os jogos, c o m p r e f e r ê n c i a p a r a o j o g o d e x a d r e z (ver, p o r e x e m p l o , I F § § 3 1 , 33, 108, 197, 199, 205, 337). D e resto, esta c o m p a r a ç ã o c o m os jogos está i n c o r p o r a d a na própria e x p r e s s ã o jogos de linguagem ( I F § 7).

5. Ainda que o uso do termo gramática (e gramatical) por parte de Wittgenstein seja amplo e variado, pode-se dizer que, de modo geral, ele é equivalente a lógica.

C e r t a m e n t e na base desta c o m p a r a ç ã o encontra-se o fato d e t a n t o a l i n g u a g e m c o m o o j o g o p o s s u í r e m regras, e q u e f a l a r u m a língua o u jogar u m j o g o e q ü i v a l e a s e g u i r tais regras. C o n t u d o , n ã o é nesta constatação q u e reside o interesse filosófico p r i n c i p a l . Este se v o l t a antes p a r a a q u e s t ã o : c o m o se estabelece a c o n e x ã o entre u m a regra e a q u i l o q u e a l g u é m faz, o u s i m p l e s m e n t e , " c o m o posso s e g u i r u m a r e g r a ? " ( I F § 217). Esta q u e s t ã o e q ü i v a l e a p e r g u n t a r : o q u e é a q u i l o q u e c h a m a m o s seguir uma regra, o u , q u a l é o conceito d e seguir uma regra? O u e n t ã o , na term i n o l o g i a das Investigações, trata-se d a p e r g u n t a pela "gramática da e x p r e s s ã o ' s e g u i r u m a r e g r a ' " ( I F § 199)^. À p r i m e i r a v i s t a o c o n c e i t o d e seguir uma regra parece n ã o apresentar p r o b l e m a s especiais. D e u m l a d o , p o r q u e se trata d e d a d o s q u e " e s t ã o c o n t i n u a m e n t e p e r a n t e nossos o l h o s " (IF § § 129, 415), nas iniámeras a t i v i d a d e s d i á r i a s d e s e g u i r regras. E, p o r o u t r o l a d o , q u a n d o i n t e r r o g a d o s a respeito, temos à m ã o t o d a u m a série d e e x p l i c a ç õ e s q u e p a r e c e m d e c i d i r a q u e s t ã o . S ã o essas e x p l i c a ç õ e s q u e W i t t g e n s t e i n s u b m e t e a u m a p r o l o n g a d a e e x a u s t i v a " a n á l i s e t e r a p ê u t i c a " ( I F § § 138-242). A p r e s e n t a r e m o s , e m f o r m a sintética, a l g u m a s dessas e x p l i c a ç õ e s , apenas p a r a s e r v i r e m d e c o n t e x t o p a r a a resposta apresentada p o r Wittgenstein. »' Para s i t u a r a m a i o r i a d e tais e x p l i c a ç õ e s , p o d e m o s t o m a r c o m o referência o e x e m p l o seguinte. U m professor q u e , t e n d o ensin a d o a u m a l u n o a série d o s n ú m e r o s n a t u r a i s (IF § 143), passa a e n s i n a r - l h e o u t r a s séries, c o m o , p o r e x e m p l o , a série "+ 2". A o d e i x a r o a l u n o c o n t i n u a r esta série para a l é m d e 1.000, ele 15


escreve: "'1.000,1.004,1.008,1.012...'. N ó s d i z e m o s : ' O l h e o q u e faz!'. — N ã o nos c o m p r e e n d e . D i z e m o s : ' V o c ê d e v i a a d i c i o n a r dois; o l h e c o m o v o c ê c o m e ç o u a série'. — Ele r e s p o n d e : ' S i m , n ã o está correto? Pensei q u e era a s s i m q u e deveria fazê-lo'. — O u s u p o n h a q u e ele d i g a , a p o n t a n d o para a série: ' M a s e u c o n t i n u e i d o m e s m o m o d o ' . — N ã o nos a j u d a r i a e m n a d a d i z e r : ' M a s v o c ê n ã o vê que...?' — e r e p e t i r os v e l h o s e x e m p l o s e as velhas e l u c i d a ç õ e s " ( I F § 185). T u d o isso m o s t r a q u e p a r a nós está c l a r a m e n t e d e t e r m i n a d o q u a i s s ã o os passos corretos a p ó s 1.000. M a s q u a l é o critério para d e c i d i r o q u e é c o r r e t o , o u " c o m o se d e c i d e q u a l é o passo c o r r e t o e m u m p o n t o determ i n a d o ? " (IF § 186). 1 . U m a p r i m e i r a t e n t a t i v a d e resposta p o d e r i a ser: " O passo c o r r e t o é a q u e l e q u e se c o n f o r m a à o r d e m — tal c o m o esta f o i significada igemeint)" (IF § 186). M a s o p r o b l e m a é e m q u e consiste este significar d a o r d e m . S u p o n d o tratar-se d e a l g u m t i p o d e a t o mental*", a e x p l i c a ç ã o se t o m a a b s u r d a : n i n g u é m q u e r e r á d i z e r q u e o professor, n o m o m e n t o d e d a r a o r d e m , d e v e r i a ter f e i t o m e n t a l m e n t e aquelas t r a n s i ç õ e s na série, e n ã o s o m e n t e aquelas, mas todas, o u seja, u m n ú m e r o i n f i n i t o d e t r a n s i ç õ e s .

6. A respeito de significar como ato mental ver W. spaniol 1989, cm especial, a segunda parle.

2. Q u a l q u e r s i n a l e, p o r t a n t o , t a m b é m o início d e u m a série d e n ú m e r o s , p o d e ser e n t e n d i d o d e d i f e r e n t e s m a n e i r a s ( I F § 8486). D e f a t o , n ó s d i r í a m o s q u e o a l u n o e n t e n d e u a o r d e m " + 2 " d a s e g u i n t e m a n e i r a : " A d i c i o n e 2 até 1.000, 4 até 2.000, 6 a t é 3.000 e a s s i m p o r d i a n t e " ( I F § 185). E a s s i m , d i a n t e d a incap a c i d a d e d e fazer e n t e n d e r ao a l u n o o q u e é c o r r e t o a t r a v é s d a e x p l i c a ç ã o , p o d e r í a m o s d i z e r q u e , para a c o m p r e e n s ã o correta, é n e c e s s á r i a u m a intuição (IF § 186). M a s se a i n t u i ç ã o " f o r u m a v o z i n t e r i o r — c o m o sei como d e v o segui-la? E c o m o sei q u e ela n ã o m e engana? Pois se ela p o d e m e c o n d u z i r c o r r e t a m e n t e , t a m b é m p o d e m e e n g a n a r " ( I F § 213). E n q u a n t o fosse a l g o c o m o u m a " v o z i n t e r i o r " ( i n d e p e n d e n t e d a sua n a t u r e z a e s p e c í f i c a ) , a i n t u i ç ã o n ã o seria m a i s d o q u e u m o u t r o s i n a l , e m r e l a ç ã o ao q u a l o p r o b l e m a p e r m a n e c e o m e s m o . Daí j x x l e r m o s d i z e r : " A i n t u i ç ã o , u m a d e s c u l p a d e s n e c e s s á r i a " (IF § 213). 3. A l g o s e m e l h a n t e se p o d e r i a d i z e r d o r e c u r s o a u m a imagem. P e r g u n t a d o s " q u a l a cor q u e a l g u é m d e v e escolher q u a n d o o u v e a palavra 'vermelho', poderíamos responder. ' M u i t o simples: ele d e v e t o m a r a cor cuja i m a g e m l h e v e m ao e s p í r i t o ao o u v i r a p a l a v r a " ( I F § 239). Ou e n t ã o , se o u ç o a l g u é m p r o n u n c i a r a p a l a v r a " c u b o " e a c o m p r e e n d o , isto p o d e r i a s i g n i f i c a r q u e " u m a i m a g e m p a i r a n o m e u espírito. P o r e x e m p l o , o d e s e n h o d e u m c u b o " ( I F § 139)^. M a s a i n d a q u e tais i m a g e n s p o s s a m " v i r à m e n t e " , e m e s m o p o s s a m ter u m a f u n ç ã o , esta, c o n t u d o , n ã o 16

7 Entender e aplicar corretamente uma palavra é, na verdade, um exemplo de seguir uma regra. O u seja, este último nào é um conceito isolado, mas diz respeito a toda a questão da linguagem e do conhecimento.


p o d e ser a d e d e t e r m i n a r o q u e é c o r r e t o . Pois, " c o m o p o d e ele saber q u a l é a cor 'cuja i m a g e m l h e v e m ao e s p í r i t o ? ' É necessário a i n d a u m o u t r o critério p a r a isso?" (IF § 239). P o r t a n t o , c o m o g u i a para a c o m p r e e n s ã o e e x p l i c a ç ã o correta d e u m a p a l a v r a a i m a g e m , q u e , p r e s u m i v e l m e n t e n o s v e m ao espírito, é inútil e m e s m o d u v i d o s a . 4. P o d e r í a m o s d i z e r q u e u m a fórmula c o m o "a^ = n^ + n - 1 " ( I F § 151), o u e n t ã o o início d a série " + 2 " ( I F § 185) d e t e r m i n a as passagens a s e r e m feitas (na série), "antes m e s m o q u e eu as faça p o r escrito, o r a l m e n t e , o u m e s m o e m p e n s a m e n t o " ( I F § 188). CXi m e s m o p o d e r í a m o s d i z e r q u e "as passagens já f o r a m f e i t a s " ( I F § 219). D e m o d o s e m e l h a n t e d i z e m o s q u e " a p r e e n d e m o s t o d o o e m p r e g o d a p a l a v r a d e u m só g o l p e " ( I F § § 191, 197). C o m o é p o s s í v e l t a l coisa, se o e m p r e g o da p a l a v r a é a l g o e s t e n d i d o ao l o n g o d o t e m p o ? P o d e s u r g i r a q u i a idéia d e a l g o c o m o u m "mecanismo e s p i r i t u a l " ( I F § 689; cf. I F § 191-196), m i s t e r i o s o e o c u l t o , q u e d e t e r m i n a d e m o d o causai t o d a s as f u t u r a s a p l i c a ç õ e s d a p a l a v r a o u da f ó r m u l a . Desta m a n e i r a , à é p o c a d o Tractatus, W i t t g e n s t e i n h a v i a p r e s u m i d o q u e o nosso pensamento, c o m o que v a i a d i a n t e da nossa l i n g u a g e m ordinária vaga e realiza t o d a s as o p e r a ç õ e s precisas, e x i g i d a s p o r u m s i m b o H s m o exato e r i g o r o s o (cf. T L P 4.0002). M a s n ã o t e m o s " n e n h u m m o d e l o desse fato i n c o m u m " ( I F § 192). N a v e r d a d e , trata-se d e u m a e s p é c i e d e h i p ó t e s e referente a a l g o desconhec i d o e o c u l t o . Por o u t r o l a d o , é c l a r o : t u d o o q u e pjertence à d e t e r m i n a ç ã o d o s e n t i d o e, pjortanto, à lógica, d e v e ser c o n h e c i d o d a q u e l e q u e usa a l i n g u a g e m . P o r t a n t o , o recurso ao " m e c a nismo e s p i r i t u a l " para determinar o que é correto não é mais d o q u e u m a " m i t o l o g i a d o s i m b o l i s m o " ( I F § 221). 5. Precisamente p o r q u e q u a l q u e r s i n a l a d m i t e d i f e r e n t e s i n t e r p r e t a ç õ e s , p>oder-se-ia p>ensar q u e a c o m p r e e n s ã o dep>ende d a interpretação correta. A s s i m , n o e x e m p l o d o § 185, d i r í a m o s q u e o a l u n o i n t e r p r e t o u d e m a n e i r a e r r a d a a o r d e m d o professor. M a s " u m a i n t e r p r e t a ç ã o é a l g o d a d o a t r a v é s d e s i n a i s " (F 229), o u seja, u m a i n t e r p r e t a ç ã o é apenas a " s u b s t i t u i ç ã o d e u m a e x p r e s s ã o da regra p o r u m a o u t r a " (IF § 2 0 1 ; cf. IF § 85-86). Por isso se q u i s é s s e m o s d i z e r "cada s e n t e n ç a necessita d e u m a i n t e r p r e t a ç ã o " , isso s i g n i f i c a r i a : " N e n h u m a s e n t e n ç a p o d e ser e n t e n d i d a sem u m a d i t a m e n t o " (F 229). M a s " t o d a v e z q u e i n t e r p r e t a m o s u m s í m b o l o desta o u d a q u e l a m a n e i r a , a i n t e r p r e t a ç ã o é u m n o v o s í m b o l o acrescentado ao a n t e r i o r " (BB 33). C o m isso se t o m a c l a r o q u e "as i n t e r p r e t a ç õ e s sozinhas n ã o d e t e r m i n a m o s i g n i f i c a d o " p o i s "cada i n t e r p r e t a ç ã o j u n t a m e n t e c o m o i n t e r p r e t a d o , p a i r a n o a r " ( I F § 198). C e r t a m e n t e p o d e h a v e r i n t e r p r e t a ç ã o , mas, e n q u a n t o esta é m e r a a s s o c i a ç ã o d e


sinais, ela n ã o p o d e d e t e r m i n a r o q u e é c o r r e t o , e, p o r t a n t o , n ã o pode fixar o significado. P o d e r í a m o s d i z e r q u e a c o n c l u s ã o d o fracasso das d i f e r e n t e s t e n t a t i v a s d e e x p l i c a r a c o n e x ã o entre u m a regra e u m a t o d e segui-la o u aplicá-la é u m a e s p é c i e d e c e t i c i s m o : seguir uma regra n ã o se f u n d a m e n t a e m r a z õ e s . A s r a z õ e s ( I F § 211), b e m c o m o as justificações (IF § 217) e as e x p l i c a ç õ e s (IF § § 1 , 5, 87) p r e c i s a m t e r m i n a r e m a l g u m p o n t o ( I F § 485). N e s t e s e n t i d o , " s i g o a regra cegamente" ( I F § 219). M a s " u s a r u m a p a l a v r a s e m justificação n ã o s i g n i f i c a usá-la s e m r a z ã o " (IF § 289), o u seja, existe u m critério para o q u e é c o r r e t o o u i n c o r r e t o . Q u a l é este critério? D i a n t e d a s u g e s t ã o cética "seja o q u e f o r q u e e u f a ç a , está, p o i s , de acordo c o m a regra?" Wittgenstein propõe u m m o d o diferente d e a b o r d a r a q u e s t ã o : " P e r m i t a - m e p e r g u n t a r : o q u e t e m a v e r a e x p r e s s ã o d a regra — d i g a m o s o i n d i c a d o r d e d i r e ç ã o — c o m m i n h a s a ç õ e s ? Q u e e s p é c i e d e c o n e x ã o existe aí? — O r a , t a l v e z esta: f u i t r e i n a d o p a r a r e a g i r d e u m a d e t e r m i n a d a m a n e i r a a este s i g n o e agora reajo a s s i m " ( I F § 198). Perante a o b j e ç ã o d e q u e c o m isso se " i n d i c o u apenas u m a r e l a ç ã o causai, apenas se e x p l i c o u c o m o aconteceu q u e n ó s a g o r a n o s o r i e n t a m o s p o r u m i n d i c a d o r d e d i r e ç ã o " , W i t t g e n s t e i n insiste: " N ã o , e u i n d i q u e i , a l é m disso, q u e a l g u é m se o r i e n t a p o r u m i n d i c a d o r d e d i r e ç ã o s o m e n t e na m e d i d a e m q u e haja u m u s o r e g u l a r , u m h á b i t o " (IF § 198). O alcance desta resposta p o d e f a c i l m e n t e passar d e s p e r c e b i d o . T e m o s a q u i a referência a u m a c o n e x ã o c o n c e i t u a i o u " g r a m a t i c a l " : o p r ó p r i o conceito d e seguir uma regra ( n o caso, o i n d i c a d o r d e d i r e ç ã o ) , existe s o m e n t e " n a m e d i d a " e m q u e existe u m u s o r e g u l a r , u m h á b i t o . O u seja, é logicamente i m p o s s í v e l a l g u é m " o r i e n t a r - s e p o r u m i n d i c a d o r d e d i r e ç ã o " sem q u e haja u m u s o r e g u l a r d e i n d i c a d o r e s de d i r e ç ã o . É o q u e nos p o d e m o s t r a r m a i s c l a r a m e n t e este e x e m p l o : "Pode-se n a t u r a l m e n t e i m a g i n a r q u e d e n t r e u m p o v o q u e desconhece jogos, d u a s pessoas se s e n t a m d i a n t e d e u m t a b u l e i r o d e x a d r e z e e x e c u t e m os lances d e u m a p a r t i d a d e x a d r e z ; e m e s m o c o m t o d o s os f e n ô m e n o s m e n t a i s c o n c o m i t a n t e s . Se nós v í s s e m o s isto, d i r í a m o s q u e elas j o g a v a m x a d r e z " ( I F § 200). É q u e para nós, q u e c o n h e c e m o s jogos e p o s s u í m o s o u s o r e g u l a r q u e c h a m a m o s " j o g a r x a d r e z " , a e x e c u ç ã o d o s lances a p r o p r i a d o s se c o n s t i t u i ( n o r m a l m e n t e ) e m "jogar u m a partida de xadrez". M a s obviamente estaríamos e q u i v o c a d o s e m nosso j u í z o r e l a t i v o ao c o m p o r t a m e n t o d a q u e las pessoas. N ã o h a v e n d o , n a q u e l a s i t u a ç ã o , o h á b i t o d e " j o g a r x a d r e z " , o u n ã o e x i s t i n d o o j o g o d e x a d r e z , é logicamente i m p o s 18


sível q u e tais pessoas " j o g u e m u m a p a r t i d a d e x a d r e z " , i n d e p e n d e n t e d e t u d o o q u e possa o c o r r e r na m e n t e das pessoas. O v e r d a d e i r o critério p a r a o m o d o c o r r e t o d e c o n t i n u a r a série "+ 2" é s i m p l e s m e n t e o nosso u s o r e g u l a r d a técnica d e c o n t a r , a m a n e i r a c o m o f o m o s e n s i n a d o s a c o n t a r ( I F § § 190, 692). Esta é a r a z ã o p o r q u e o p r o f e s s o r sente-se i m p o t e n t e ante a r e a ç ã o d i f e r e n t e d o a l u n o . E p o r q u e o critério da c o r r e ç ã o se e n c o n t r a n o u s o r e g u l a r , é possível e n t e n d e r t a m b é m o p o r q u ê d o f r a casso das t e n t a t i v a s d e e x p l i c a ç ã o a c i m a e x a m i n a d a s .

8. É o que se poderia dizer do modo como se expressam G . P. Baker e P. M. S. Hacker 1985:235, 251.

P o d e r í a m o s t a m b é m d i z e r q u e a existência d o u s o h a b i t u a l d e i n d i c a d o r e s d e d i r e ç ã o é u m pressuposto para a l g u é m " o r i e n t a r -se p o r u m i n d i c a d o r d e d i r e ç ã o " . C o n t u d o , este m o d o d e falar facilmente pode levar a u m mal-entendido". D o p o n t o de vista l ó g i c o , q u e é o q u e está e m d i s c u s s ã o , n ã o se trata p r o p r i a m e n t e d e duas coisas (a saber, o u s o h a b i t u a l e o f a t o d e a l g u é m se o r i e n t a r agora p o r u m i n d i c a d o r d e d i r e ç ã o ) , u m a das q u a i s seria o p r e s s u p o s t o p a r a a o u t r a . U m a dessas coisas s i m p l e s m e n t e n ã o existe s e m a o u t r a : n ã o p o d e h a v e r u m u s o h a b i t u a l sem e x e m p l o s (desse uso), d a m e s m a f o r m a q u e n ã o p o d e h a v e r e x e m p l o s s e m o u s o h a b i t u a l . M a i s u m a v e z , o fracasso das e x p l i c a ç õ e s a c i m a e m t r a n s p o r o h i a t o e n t r e a regra e a sua a p l i c a ç ã o p r o v é m d o f a t o d e c o n s i d e r a r e m u m a coisa separada d a o u t r a . O q u e c h a m a m o s seguir uma regra o u a p l i c a r a regra é simplesmente u m a exemplificação d o uso h a b i t u a l , o u então, o q u e c h a m a m o s seguir uma regra e " i r c o n t r a e l a " m a n i f e s t a a nossa c o n c e p ç ã o desta regra (IF § 201). P o r causa desta c o n e x ã o c o n c e i t u a i entre u m u s o h a b i t u a l e a a p l i c a ç ã o d a regra p o d e m o s d i z e r : " S e g u i r u m a r e g r a , fazer u m a c o m u n i c a ç ã o , d a r u m a o r d e m , jogar u m a p a r t i d a d e x a d r e z s ã o hábitos (costumes, instituições)" (IF § 199). E o t e r m o " h á b i t o " aqui

deve

ser

e n t e n d i d o n o seu

significado ordinário

de

c o m p o r t a m e n t o regular. N ã o i n c l u i , p o r t a n t o , d i r e t a m e n t e , o conceito d e u m a c o m u n i d a d e , c o m o pensa S. K r i p k e (S. K r i p k e , 1982:79), n e m o conceito d e tradição, c o m o sugere C . M c G i n n (C. M c G i n n , 1984:37-38). É o aspecto d a r e g u l a r i d a d e n o u s o , c o n t i d o na n o ç ã o d e " h á b i t o " , q u e t o m a i m p o s s í v e l q u e " a p e nas u m a pessoa tenha u m a ú n i c a v e z s e g u i d o u m a r e g r a " (IF § 199; cf. IF § 204). E o q u e está e m j o g o n ã o é u m a i m p o s s i b i l i dade fatual (por exemplo, de o r d e m psícossocial), mas

lógica,

ou " g r a m a t i c a l " (IF § 199). A i n d a p o r causa da m e s m a c o n e x ã o c o n c e i t u a i (entre u m a regra e o q u e está d e a c o r d o c o m ela) pode-se d i z e r : " ' S e g u i r u m a r e g r a ' é u m a p r á t i c a " ( I F § 202). T a m b é m o t e r m o " p r á t i c a " é I

Í9l


e n t e n d i d o a q u i n o seu s i g n i f i c a d o n o r m a l d e fazer ( a l g o ) , u m a a t i v i d a d e . N e s t e s e n t i d o , o q u e se e x c l u i é q u e seguir uma regra possa ser a l g o d o â m b i t o i n t e r n o o u m e n t a l : "Acreditar s e g u i r a regra n ã o é s e g u i r u m a r e g r a " (IF § 202). A p a r t i r d a q u i t a m b é m se e n t e n d e q u e " p a r a estabelecer u m a prática n ã o b a s t a m regras, mas s ã o n e c e s s á r i o s t a m b é m e x e m p l o s " ( Ü G 139). Por isso, a p r e n d e r u m a l í n g u a ( n o s e n t i d o e m q u e a criança a p r e n d e a língua m a t e r n a ) , antes q u e e x p l i c a ç ã o , exige u m treinamento (IF § 6). A s s i m , p o r e x e m p l o , ao a p r e n d e r o u s o d e n o m e s a c r i a n ç a n ã o a p r e n d e apenas p a l a v r a s e sua o r d e m g r a m a t i c a l , mas t a m b é m o q u e é u m n o m e . CXi seja, a criança n ã o a p r e n d e apenas os n o m e s d o s objetos, m a s t a m b é m a técnica o u a prática q u e chamamos "denominar".

///. Função a. A s formas

das formas de vida

de vida f a z e m p a r t e d a l i n g u a g e m

Realizar u m a p a r t i d a d e x a d r e z e n v o l v e certas a t i v i d a d e s ( p o r e x e m p l o , m o v i m e n t a r as p e ç a s n o t a b u l e i r o ) , e m e s m o a t i v i d a d e s e processo m e n t a i s . C o n t u d o , " j o g a r u m a p a r t i d a d e x a d r e z " n ã o consiste s i m p l e s m e n t e n a q u i l o q u e d u a s pessoas f a z e m , n e m n a q u i l o q u e o c o r r e n o nível m e n t a l (cf. I F § 200). Jogar u m a partida de xadrez é possível somente "sobre o pano d e f u n d o " d e u m h á b i t o o u prática r e g u l a r , o u seja, o l u g a r q u e o jogar x a d r e z o c u p a na nossa v i d a . O que vale para jogar xadrez vale para a l i n g u a g e m e m geral: " A l i n g u a g e m , q u e r o d i z e r , refere-se a u m modo d e v i d a " ( B G M 335). A s s i m , por e x e m p l o , u m a a f i r m a ç ã o , u m a p e r g u n t a , u m comando não consistem simplesmente de palavras e d a q u i l o q u e acontece n o nível m e n t a l das pessoas q u e f a z e m u m a a f i r m a ç ã o , e t c , m a s d e p e n d e m d a f u n ç ã o q u e tais coisas d e s e m p e n h a m e m nossa v i d a . N e s t e s e n t i d o , a " a f i r m a ç ã o " se refere a u m " m o d o d e v i d a " : "Para descrever o f e n ô m e n o da l i n g u a g e m é preciso descrever u m a prática, n ã o u m ú n i c o a c o n t e c i m e n t o , seja de que tipo for" ( B G M 335). P o r isso, a a p r e n d i z a g e m o u ensino d e q u a l q u e r j o g o d e l i n g u a g e m (e d a l i n g u a g e m c o m o t a l ) , exige t r e i n a m e n t o . E a c o m p r e e n s ã o o u o d o m í n i o d e u m j o g o de l i n g u a g e m avalia-se p e l o fato d e o a l u n o r e a g i r a s s i m e assim. M a s , c o m o n o caso d o j o g o d e x a d r e z , e m q u e as d i f e rentes a t i v i d a d e s s o m e n t e r e p r e s e n t a m o q u e c h a m a m o s " j o g a r u m a p a r t i d a de x a d r e z " c o n t r a o p a n o d e f u n d o d o h á b i t o d e jogar xadrez, da m e s m a f o r m a as r e a ç õ e s d o a l u n o s i g n i f i c a m que ele d o m i n a u m j o g o d e l i n g u a g e m s o m e n t e e m certas c i r 20

I


c u n s t â n c i a s : " M a s isto é i m p o r t a n t e , a sal>er, q u e esta r e a ç ã o , que garante para nós a compreensão, pressupõe, c o m o cont e x t o , d e t e r m i n a d a s c i r c u n s t â n c i a s , d e t e r m i n a d a s formas de vida e d e l i n g u a g e m . ( A s s i m c o m o n ã o existe u m a e x p r e s s ã o facial s e m face) (este é u m passo i m p o r t a n t e na m a r c h a d o pensam e n t o ) " ( B G M 414). Q u a l seja esta i m p o r t â n c i a p o d e ser e l u c i d a d o a p a r t i r d e u m o u t r o t e x t o . A p ó s o b s e r v a r q u e , d e u m l a d o , "a m a t e m á t i c a é d a m a i s a b s o l u t a certeza" e, d e o u t r o , é i m p o s s í v e l e n c o n t r a r u m f u n d a m e n t o p a r a esta certeza, W i t t g e n s t e i n acrescenta: " O q u e precisa ser aceito, o d a d o — poder-se-ia d i z e r — s ã o formas de vida" ( I F p . 218). O nosso conceito d e "certeza m a t e m á t i c a " d e r i v a d o l u g a r q u e o c a l c u l a r o c u p a e m nossa v i d a . A s s i m , p o r exemplo, o que chamamos a concepção matemática da prop o s i ç ã o '13 X 14 = 182' " e s t á H g a d o c o m a especial a t i t u d e q u e n ó s a d o t a m o s e m r e l a ç ã o à a t i v i d a d e d e calcular. O u a p o s i ç ã o especial q u e o cálculo... o c u p a e m nossa v i d a , e m nossas restantes a t i v i d a d e s . O j o g o d e l i n g u a g e m n o q u a l ele se s i t u a " ( B G M 390).

9. Para a questão da origem

LtfiSaSveTw^Spr nioi 1989, terceira parte.

O q u e c h a m a m o s l i n g u a g e m é, p o r t a n t o , i n s e p a r á v e l da forma de vida: " I m a g i n a r u m a l i n g u a g e m s i g n i f i c a i m a g i n a r u m a f o r m a d e v i d a " ( I F § 19). Neste s e n t i d o pode-se d i z e r q u e as formas de vida f a z e m p a r t e d o f e n ô m e n o d a l i n g u a g e m . E se e n t e n d ê s s e m o s p o r l i n g u a g e m p r i m a r i a m e n t e o u s o das p a l a v r a s e frases, p o d e m o s o b s e r v a r u m a certa i n v e r s ã o neste m o d o d e v e r : " O t e r m o 'jogo d e l i n g u a g e m ' d e v e a q u i salientar q u e o falar d a l i n g u a g e m é parte de u m a a t i v i d a d e o u f o r m a de v i d a " (IF § 23). Palavras e frases p a s s a m p a r a o s e g u n d o p l a n o , e m face das " a t i v i d a d e s " e n v o l v i d a s n o f e n ô m e n o d a l i n g u a g e m . E p o r q u e n o r m a l m e n t e n ã o a t e n d e m o s a estas a t i v i d a d e s , já q u e estão s e m p r e d i a n t e d e nossos o l h o s (IF § 126), somos l e v a d o s aos " p r o b l e m a s filosóficos"^. A s s i m , p o r e x e m p l o , p o r q u e c o n s i d e r a m o s ó b v i o d e m a i s q u e " a l g u é m possa c o m u n i c a r a l g o " , e s q u e c e m o s as a t i v i d a d e s e n v o l v i d a s n o c o m u n i c a r :

"Isto

é,

estamos tão a c o s t u m a d o s c o m a c o m u n i c a ç ã o a t r a v é s d a fala, e m conversa, q u e nos parece q u e t o d o o essencial d a c o m u n i c a ç ã o reside n o fato d e u m o u t r o a p r e e n d e r o s e n t i d o d e m i n h a s palavras — algo m e n t a l — , de recebê-lo, p o r assim dizer, e m seu espírito. Q u a n d o ele, a l é m disso, faz a l g u m a coisa, isso já n ã o pertence m a i s à f i n a l i d a d e i m e d i a t a da l i n g u a g e m " ( I F § 363). E m o u t r a s p a l a v r a s , a l i n g u a g e m seria u m m e i o d e t r a n s f e r i r idéias o u p e n s a m e n t o s d e u m a m e n t e p a r a o u t r a . C o n c e p ç ã o s i m p l e s d e m a i s , p o r q u e esquece as a t i v i d a d e s e o l u g a r q u e " f a z e r u m a c o m u n i c a ç ã o " o c u p a e m nossa v i d a , o u seja, esquece o j o g o d e l i n g u a g e m d o c o m u n i c a r . A o m e s m o t e m p o I

21]


é u m a c o n c e p ç ã o p o r d e m a i s c o m p l e x a , na m e d i d a e m q u e s e r ã o e x i g i d a s teorias sofisticadas p a r a e x p l i c a r este processo d e t r a n s f e r i r idéias d e u m a m e n t e p a r a o u t r a . T u d o isto se t o m a d i f e rente tão l o g o t o m a m o s c o n s c i ê n c i a da i n c l u s ã o das formas de vida n o f e n ô m e n o da l i n g u a g e m . A i n c l u s ã o das formas de vida na l i n g u a g e m situa esta ú l t i m a m u i t o p r ó x i m o d e a t i v i d a d e s c o m o c o m e r e beber: " C o m a n d a r , p e r g u n t a r , contar, tagarelar p e r t e n c e m à nossa história n a t u r a l , a s s i m c o m o a n d a r , c o m e r , beber, j o g a r " ( I F § 25; cf. IF § 415). O s d i f e r e n t e s jogos de linguagem (cf. I F § 23) e n v o l v e m a t i v i d a d e s q u e o c u p a m u m l u g a r d e t e r m i n a d o e m nossa v i d a , r a z ã o p o r q u e p o d e m ser c h a m a d a s " n a t u r a i s " , o u pertencentes à nossa "história n a t u r a l " . •'•:•••<•• T a m b é m pode-se e n t e n d e r a g o r a c o m o as formas de vida r e s p o n d e m pela d i f e r e n c i a ç ã o d a l i n g u a g e m e m jogos de linguagem, o u , pelas " i n ú m e r a s e s p é c i e s d i f e r e n t e s d e e m p r e g o d a q u i l o q u e c h a m a m o s ' s i g n o s ' , ' p a l a v r a s ' , 'frases'" ( I F § 23). N o nível das palavras o u dos "sinais", u m p e d i d o e u m c o m a n d o p o d e r i a m ser r i g o r o s a m e n t e i g u a i s . M a s " p e d i r " e " c o m a n d a r " p o s s u e m cada q u a l a l g o d e e s p e c í f i c o , o u seja, cada q u a l está l i g a d o c o m d e t e r m i n a d a s r e a ç õ e s o u f o r m a s d e c o m p o r t a m e n t o q u e lhes d ã o u m l u g a r p r ó p r i o e m nossas v i d a s . D e m o d o s e m e l h a n t e , "posso estar t ã o certo d a s e n s a ç ã o d o o u t r o c o m o d e q u a l q u e r fato. M a s , c o m isso, as frases 'ele está m u i t o d e p r i m i d o ' , '25 x 25 = 625', e ' t e n h o sessenta anos d e i d a d e ' n ã o se t o m a r a m i n s t r u m e n t o s s e m e l h a n t e s " (IF p . 216). T a l v e z d i s s é s s e m o s q u e se trata d e " e s p é c i e s " d i f e r e n t e s d e certeza. M a s o q u e i m p o r i a é perceber q u e "a e s p é c i e d a certeza é a e s p é c i e d o j o g o d e l i n g u a g e m " ( I F p . 217). C a d a u m a d a q u e l a s certezas t e m a l g o de "específico", mas " o n o v o (espontâneo, 'específico') é sempre u m j o g o d e l i n g u a g e m " ( I F p . 217). E p o d e r í a m o s agora d i z e r q u e esse c a r á t e r " e s p e c í f i c o " d e cada u m a das r e f e r i d a s certezas p r o v é m das " a t i v i d a d e s o u d a f o r m a d e v i d a " c o m q u e e s t ã o l i g a d a s , e n f i m , d o l u g a r q u e cada certeza o c u p a e m nossas v i d a s . E, n o m o m e n t o e m q u e c o n s i d e r a r m o s este l u g a r d e cada u m a das certezas, a d i v e r s i d a d e v o l t a a r e i n a r o n d e "as r o u p a s d a nossa l i n g u a g e m t o m a r a m t u d o i g u a l " ( I F p . 217). A g o r a t a m b é m é m a i s fácil perceber a r e l a ç ã o e n t r e os conceitos d e seguir uma regra e deforma de vida. Falar u m a língua s i g n i f i c a s e g u i r regras. M a s seguir uma regra é u m h á b i t o o u u m a prática. C o n s e q ü e n t e m e n t e , saber f a l a r u m a l í n g u a n ã o é s i m p l e s m e n t e u m a q u e s t ã o d e saber u s a r as p a l a v r a s e frases, a c o m p a n h a d a s d e a t i v i d a d e s e processos m e n t a i s , mas é t a m b é m , e s o b r e t u d o , " d o m i n a r u m a t é c n i c a " (IF § 199). E na m e d i d a e m q u e a l i n 22


g u a g e m se d i v e r s i f i c a e m i n ú m e r o s jogos de linguagem, p o d e r í a m o s f a l a r d o d o m í n i o d e i n ú m e r a s técnicas. O r a , o conceito d e forma de vida apresenta, basicamente, a m e s m a f u n ç ã o , o u seja, s i t u a r a l i n g u a g e m n o nível d o a g i r , d o c o m p o r t a m e n t o . Esta p o d e r i a ser a r a z ã o p o r q u e " f a z e r u m a comunicação" e " d a r u m a o r d e m " , que são enumeradas como formas de vida (RPP I § 630; cf. IF § 23), n o § 199 s ã o colocadas l a d o a l a d o c o m seguir uma regra. C o n t u d o , o conceito d e forma de vida d e s e m p e n h a t a m b é m u m a f u n ç ã o u l t e r i o r . O u seja, ao r e s p o n d e r pela d i v e r s i f i c a ç ã o da l i n g u a g e m e m jogos de linguagem, o conceito d e forma de vida r e s p o n d e t a m b é m p e l o caráter específico d e cada j o g o d e l i n g u a g e m . N e s t e s e n t i d o a forma de vida d á a c o n f i g u r a ç ã o o u a f o r m a concreta ao h á b i t o d e seguir uma regra.

b . A c o n c o r d â n c i a n a forma

de

vida

Para e x i s t i r o nosso conceito d e seguir uma regra (e t a m b é m o p r ó p r i o conceito d e regra) d e v e e x i s t i r u m a certa c o n c o r d â n c i a a r e s p e i t o d o q u e é c o n f o r m e o u n ã o c o m a regra: "E d a m a i o r i m p o r t â n c i a q u e entre as pessoas p r a t i c a m e n t e n ã o s u r g e n u n c a u m a d i s c u s s ã o se a cor deste o b j e t o é a m e s m a d a q u e l e ; o c o m p r i m e n t o desta vara é o m e s m o d a q u e l a etc. Este consenso a m i g á v e l é o a m b i e n t e característico d a p a l a v r a ' i g u a l ' . E a l g o s e m e l h a n t e é preciso d i z e r e m r e l a ç ã o a o p r o c e d e r d e a c o r d o c o m u m a r e g r a . N ã o se chega a d i s c u t i r se a regra f o i o b e d e c i d a o u n ã o . N ã o se chega, p o r e x e m p l o , a v i o l ê n c i a s p o r causa d i s s o " ( B G M 323; IF § 240). A s s i m , se n o caso das cores " u m a pessoa chamasse v e r m e l h a a f l o r q u e o u t r a c h a m a a z u l etc. e t c , já n ã o p o d e r í a m o s chafnar as p a l a v r a s ' v e r m e l h o ' e ' a z u l ' destas pessoas c o m o s e n d o nossas p a l a v r a s p a r a c o r e s " ( I F p . 218). É v e r d a d e q u e , s u p o n d o o nosso u s o d o s t e r m o s p a r a cores, p o d e , o c a s i o n a l m e n t e , h a v e r d i v e r g ê n c i a s q u a n t o à a p l i c a ç ã o deste o u d a q u e l e t e r m o na d e s c r i ç ã o d e cores. M a s se as d i v e r g ê n c i a s n ã o f o s s e m a exc e ç ã o , " n ã o existiria nosso conceito d e c o r " (F 351). N u m a t a l s i t u a ç ã o ( e m q u e a d i v e r g ê n c i a se t o m a s s e a r e g r a ) , t e r m o s c o m o ' v e r m e l h o ' o u ' a z u l ' p o d e m significar q u a l q u e r coisa, c o m o também p o d e m não significar nada. E>e m o d o s e m e l h a n t e , t a m b é m na m a t e m á t i c a "'lances falsos' só p o d e m o c o r r e r c o m o e x c e ç ã o . Pois, se o q u e agora c h a m a m o s a s s i m se t o m a s s e a r e g r a , o j o g o n o q u a l s ã o lances falsos estaria s u p r e s s o " ( I F p . 219). Estaria a b o l i d a "a d i f e r e n ç a entre c o n c l u i r e r r a d o e n ã o c o n c l u i r , entre s o m a r e r r a d o e n ã o s o m a r " ( B G M 23


352). I s t o p o r q u e " p a r a o h o m e m p o d e r e r r a r ele já precisa j u l g a r e m c o n f o r m i d a d e c o m a h u m a n i d a d e " ( Ü G 156). D e u m l a d o , é correto d i z e r q u e " u m a coisa é descrever o m é t o d o de m e d i r , o u t r a coisa é e n c o n t r a r e estabelecer r e s u l t a d o s d e m e d i ç õ e s " (IF § 242). M a s , se as pessoas todas, q u e r e a l i z a m m e d i ç õ e s , chegassem a r e s u l t a d o s os m a i s d e s e n c o n t r a d o s , o nosso conceito d e " m e d i r " , o u e n t ã o o " m é t o d o d e m e d i r " , já não existiria. P o r t a n t o , v a l e o seguinte: " O q u e c h a m a m o s ' m e d i r * t a m b é m é d e t e r m i n a d o p o r u m a certa c o n s t â n c i a nos r e s u l t a d o s das m e d i ç õ e s " ( I F § 242). C o n s i d e r a n d o q u e e m t o d o s estes casos se trata d a e x i g ê n c i a d e u m a c o n c o r d â n c i a nos j u í z o s , p o d e m o s d i z e r : "Para u m a c o m u n i c a ç ã o p o r m e i o da l i n g u a g e m é necessária n ã o apenas u m a c o n c o r d â n c i a nas d e f i n i ç õ e s , mas t a m b é m ( p o r e s t r a n h o q u e pareça) u m a c o n c o r d â n c i a nos j u í z o s " (IF § 242). E agora t a m b é m está clara p a r a n ó s a r a z ã o desta e x i g ê n c i a : s e m a c o n c o r d â n c i a n o s j u í z o s n ã o e x i s t i r i a u m hdbito o u prática r e g u l a r ; e s e m esta n ã o t e r í a m o s o q u e c h a m a m o s seguir uma regra e, c o n s e q ü e n t e mente, não haveria l i n g u a g e m . M a s se a própria existência d e nossos conceitos, e, p o r t a n t o , d a l i n g u a g e m exige u m a certa c o n c o r d â n c i a n o s j u í z o s , parece q u e esta m e s m a c o n c o r d â n c i a d e c i d e a v e r d a d e o u f a l s i d a d e d e nossas a f i r m a ç õ e s . O u seja, a v e r d a d e ( o u f a l s i d a d e ) já n ã o seria m a i s u m a q u e s t ã o r e l a t i v a aos fatos, m a s m e r a q u e s t ã o

de

consenso. D e f a l o , se a l g u é m a f i r m a " I s t o é v e r m e l h o " parece-nos q u e é a c o n c o r d â n c i a e n t r e os h o m e n s q u e d e c i d e se ele t e m r a z ã o . " M a s a p e l o p a r a esta c o n c o r d â n c i a nos m e u s j u í z o s r e l a t i v o s a cores? E n t ã o o q u e acontece é assim; d e i x o q u e u m certo n ú m e r o d e pessoas o l h e p a r a u m objeto; a cada u m a delas o c o r r e u m certo g r u p o d e p a l a v r a s (os c h a m a d o s ' n o m e s das cores'); se a p a l a v r a ' v e r m e l h o ' o c o r r e à m a i o r i a das pessoas (eu n ã o preciso p e r t e n c e r a esta m a i o r i a ) , o p r e d i c a d o ' v e r m e l h o ' pertence ao objeto d e d i r e i t o " (F 429). U m a t a l técnica p o d e r i a ter u m a f i n a l i d a d e , m a s é c l a r o q u e n ã o é a c o n c o r d â n c i a entre as pessoas q u e decide o q u e é v e r m e l h o . O u seja, esta q u e s t ã o n ã o é d e c i d i d a p o r u m apelo à m a i o r i a , n ã o f o m o s ensinados a d e t e r m i n a r a cor desta f o r m a (cf. F 431). D a m e s m a f o r m a , n ã o é p o r u m a e s p é c i e d e v o t a ç ã o d e m o c r á t i c a q u e se d e c i d e q u a l é a f o r r h a correta d o modus ponens. C o m o é possível então h a r m o n i z a r a concordância c o m a obj e t i v i d a d e d a v e r d a d e ? U m a resposta p o d e ser e n c o n t r a d a nesta f o r m u l a ç ã o : " O nosso j o g o d e l i n g u a g e m s ó f u n c i o n a , e v i d e n t e m e n t e , se p r e v a l e c e r u m a certa c o n c o r d â n c i a , mas o c o n c e i t o d e

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c o n c o r d â n c i a n ã o e n t r a n o j o g o d e l i n g u a g e m " (F 430). A v e r d a d e (e f a l s i d a d e ) d i z respeito ao q u e é a f i r m a d o dentro d o j o g o de l i n g u a g e m : " V e r d a d e i r o e falso é a q u i l o q u e as pessoas dizem" ( I F § 241). E, c o m o "a c o n c o r d â n c i a n ã o é a f i r m a d a n o j o g o d e l i n g u a g e m " ( B G M 365), a v e r d a d e n ã o é m e r a q u e s t ã o d e consenso. Para s i t u a r m e l h o r esta c o n c o r d â n c i a , r e t o m e m o s ao t e x t o : " V e r d a d e i r o e falso é o q u e as pessoas dizem; e na linguagem as pessoas c o n c o r d a m . I s t o n ã o é u m a c o n c o r d â n c i a nas o p i n i õ e s , mas na f o r m a d e v i d a " ( I F § 241). A d i s t i n ç ã o , a q u i i n d i c a d a , entre " l i n g u a g e m " e " f o r m a d e v i d a " , d e u m l a d o , e " o p i n i ã o " , d e o u t r o , n ã o é d e fácil c o m p r e e n s ã o . C o n s i d e r e m o s u m e x e m p l o : " T o d o s a p r e n d e m o s a m e s m a t a b u a d a ' . Isto b e m p o d e r i a ser u m a o b s e r v a ç ã o sobre o e n s i n o d e m a t e m á t i c a e m nossas escolas, — m a s t a m b é m u m a c o n s t a t a ç ã o sobre o conceito d e t a b u a d a " ( I F p . 219). E n t e n d i d a n o p r i m e i r o s e n t i d o , a p r o p o s i ç ã o seria u m a p r o p o s i ç ã o e x p e r i m e n t a l , i s t o é, referente a u m f a t o ; e n t e n d i d a n o s e g u n d o s e n t i d o , a p r o p o s i ç ã o se refere ao conceito d e t a b u a d a , isto é, ao nosso sistema d e calcular. A m e s m a d i s t i n ç ã o p o d e ser e l u c i d a d a a p a r t i r d e u m e x e m p l o d e m u l t i p l i c a ç ã o : " A j u s t i f i c a ç ã o d o j u í z o 25 x 25 = 625 é, o b v i a m e n t e , esta: a q u e l e q u e f o i t r e i n a d o a s s i m e a s s i m , e m c i r c u n s tâncias n o r m a i s , na m u l t i p l i c a ç ã o 25 x 25 o b t é m 625. M a s a p r o p o s i ç ã o m a t e m á t i c a n ã o e x p r i m e isto. Ela é u m a p r o p o s i ç ã o e x p e r i m e n t a l c o m o q u e p e t r i f i c a d a e m regra. Ela d e t e r m i n a q u e a regra f o i s e g u i d a s o m e n t e se a q u e l e f o r o r e s u l t a d o da m u l t i p l i c a ç ã o . Ela é, p o r t a n t o , subtraída ao c o n t r o l e p o r m e i o d a e x p e r i ê n c i a , m a s serve agora c o m o p a r a d i g m a p a r a j u l g a r a e x p e r i ê n c i a " ( B G M 325). N a m e d i d a e m q u e a p r o p o s i ç ã o '25 x 25 = 625' é s u b t r a í d a ao c o n t r o l e a t r a v é s d a e x p e r i ê n c i a , e neste s e n t i d o se refere ao p r ó p r i o conceito d e m u l t i p l i c a ç ã o , a nossa c o n c o r d â n c i a e m relação à m e s m a n ã o é u m a c o n c o r d â n c i a " n a o p i n i ã o " ( B G M 353; IF § 241), isto é, u m a tese o u a f i r m a ç ã o q u e fosse discutível. M a s , na m e d i d a e m q u e se t r a t a d e u m a c o n c o r d â n c i a r e l a t i v a ao nosso sistema d e m u l t i p l i c a r , o m o d o c o m o n ó s m u l t i p l i c a m o s , p o d e m o s f a l a r d e c o n c o r d â n c i a na " l i n g u a g e m " o u na forma de vida. Consideremos ainda u m o u t r o exemplo. Suponhamos que eu veja c l a r a m e n t e à m i n h a f r e n t e u m objeto d e cor v e r d e . N e s t e caso "posso estar a b s o l u t a m e n t e seguro d e que a cor deste objeto é c h a m a d a ' v e r d e ' pela g r a n d e m a i o r i a das pessoas q u e o enxerg a m " ( B G M 342). P o r isso, se, nas c o n d i ç õ e s i n d i c a d a s , e u dissesse ' I s t o é v e r d e ' , n ã o se t r a t a r i a d e u m j u í z o q u e p u d e s s e ser v e r d a d e i r o ( o u falso). A n t e s , o q u e v a l e neste caso é o s e g u i n t e : " A t r a v é s d a verdade d e m i n h a s a f i r m a ç õ e s avalia-se a 25


m i n h a compreensão destas a f i r m a ç õ e s " ( Ü G 80). " I s t o é: se faço d e t e r m i n a d a s a f i r m a ç õ e s e r r ô n e a s torna-se i n c e r t o se e u as e n t e n d o " ( Ü G 81). A s s i m se, nas c o n d i ç õ e s a c i m a , e u dissesse 'isto é v e r m e l h o ' , n ã o se d i r i a q u e e r r e i , mas antes se d u v i d a r i a d o m e u d o m í n i o das p a l a v r a s p a r a cores. CXi seja, o e n u n c i a d o ' i s t o é v e r d e ' , nas c o n d i ç õ e s descritas, n ã o t r a d u z u m a ' o p i n i ã o ' , mas antes se trata d e u m e n u n c i a d o cuja v e r d a d e " f a z p a r t e d o nosso sistema d e r e f e r ê n c i a " ( Ü G 83). N e s t e s e n t i d o a nossa c o n c o r d â n c i a n a q u e l e j u í z o é u m a c o n c o r d â n c i a " n a linguagem", o u " u m a c o n c o r d â n c i a na f o r m a d e v i d a " ( I F § 241) c h a m a d a 'descrever cores' (RPP I § 630).

c.

A c o n c o r d â n c i a n a forma de vida e o f u n d a m e n t o da l i n g u a g e m

A p a r t i r d a o b s e r v a ç ã o d e q u e a c o n c o r d â n c i a e x i g i d a para o f u n c i o n a m e n t o da l i n g u a g e m é u m a c o n c o r d â n c i a na forma de vida é p o s s í v e l e n t e n d e r c o m o esta c o n c o r d â n c i a , l o n g e d e s u p r i m i r a lógica, r e d u z i n d o - a a u m a s i m p l e s q u e s t ã o d e c o n senso, é a q u i l o q u e apenas t o m a p o s s í v e l o p r o c e d e r d e a c o r d o c o m regras. Se e n t r e m a t e m á t i c o s , p o r e x e m p l o , reinasse a m a i s a b s o l u t a c o n f u s ã o , "se cada q u a l calculasse d e m o d o d i f e r e n t e , e o r a deste m o d o , o r a d a q u e l e , a i n d a n ã o e x i s t i r i a u m c a l c u l a r " ( B G M 356). D e fato, " n ã o surge n e n h u m a controvérsia (entre m a t e m á t i cos, p o r e x e m p l o ) se a regra f o i s e g u i d a a d e q u a d a m e n t e o u n ã o . N ã o se chega p o r isso a atos d e violência. Isto p e r t e n c e ao a r c a b o u ç o (Gerüst) a p a r t i r d o q u a l nossa l i n g u a g e m a t u a , ( p o r e x e m p l o , dá u m a d e s c r i ç ã o ) " (IF § 240; v e r t b . B G M 323, 356). A metáfora d o 'arcabouço' incorpora duas idéias importantes. O p r i m e i r o destes aspectos é o q u e se p o d e r i a c h a m a r d e d i f e rença entre u m sistema c o n c e i t u a i e o seu e m p r e g o ( G . H a l l e t t , 1977:303). C o m o os e x e m p l o s a c i m a , r e l a t i v o s à m a t e m á t i c a e às cores, m o s t r a r a m , e x i s t e m e n u n c i a d o s q u e , d e u m p>onto d e vista p u r a m e n t e f o r m a l , são proposições experimentais. M a s quanto à sua f u n ç ã o p e r t e n c e m ao " s i s t e m a d e r e f e r ê n c i a " ( Ü G 83). Isto s i g n i f i c a q u e a v e r d a d e d e tais e n u n c i a d o s n ã o e s t á e m d i s c u s s ã o , na m e d i d a e m q u e t o d o s estamos d e a c o r d o e m r e l a ç ã o aos m e s m o s . E s e m a nossa c o n c o r d â n c i a e m tais j u í z o s n ã o e x i s t i r i a , p o r e x e m p l o , o nosso conceito d e cor (F 351). S o m e n t e d e n t r o d o 'sistema c o n c e i t u a i ' a s s i m c o n s t i t u í d o é p o s s í v e l fazer a f i r m a ç õ e s ( v e r d a d e i r a s o u falsas) r e l a t i v a s à d e s c r i ç ã o d e cores. N e s t e s e n t i d o p o d e r í a m o s d i z e r q u e a lógica situa-se dentro d o j o g o d e l i n g u a g e m . E na m e d i d a e m q u e a nossa c o n c o r d â n c i a 26


na forma de vida apenas estabelece o sistema c o n c e i t u a i e n ã o faz p a r t e d o seu e m p r e g o , esta c o n c o r d â n c i a pertence ao ' a r c a b o u ç o ' a p a r t i r d o q u a l nossa l i n g u a g e m a t u a , e p o r q u e n ã o i n t e r f e r e na a p l i c a ç ã o das regras, n o e m p r e g o d o sistema c o n c e i t u a i , t a l c o n c o r d â n c i a n ã o s u p r i m e a lógica. A e l u c i d a ç ã o desta d i f e r e n ç a e n t r e u m sistema c o n c e i t u a i e o seu e m p r e g o p o d e a j u d a r a r e v e l a r o s e m - s e n t i d o d e a f i r m a ç õ e s c o m o esta: " N u n c a v e m o s r e a l m e n t e o q u e j u l g a m o s v e r " (B. Russell, 1956:71). A q u i l o q u e Russell i n t e r p r e t a c o m o s e n d o u m a ' t e o r i a d a v i s ã o ' , i n c o r p o r a d a e m nossa l i n g u a g e m o r d i n á r i a , pertence ao p r ó p r i o conceito d e ' v e r ' . D a m e s m a f o r m a c o n s t i t u i u m e q u í v o c o d i z e r q u e o e n u n c i a d o 'isto é u m l i v r o ' representa u m p r e s s u p o s t o p a r a a a f i r m a ç ã o 'o l i v r o está s o b r e a mesa' ( A . K e l l e r , 1982:134). O p r i m e i r o e n u n c i a d o n ã o é u m p r e s s u p o s t o p a r a o s e g u n d o , m a s faz p a r t e d o s e n t i d o deste ú l t i m o . . f , .. E m s e g u n d o l u g a r , a m e t á f o r a d o ' a r c a b o u ç o ' i n c l u i a referência a a l g o c o m o u m a base o u e s t r u t u r a d e a p o i o o u d e s u s t e n t a ç ã o . " O p r o c e d e r d e a c o r d o c o m u m a regra repousa sobre u m a c o n c o r d â n c i a " ( B G M 393), e esta é u m a " c o n c o r d â n c i a n o a g i r " ( B G M 342). N o m o m e n t o e m q u e c h e g a m o s a esta c o n c o r d â n c i a na a ç ã o a t i n g i m o s a ' r o c h a ' , e t u d o o q u e p o d e m o s d i z e r é: " S i m p l e s m e n t e é isto q u e f a ç o " (IF § 217), o u e n t ã o : "joga-se este jogo de linguagem" ( I F § 654). E p o r q u e a c o n c o r d â n c i a na forma de vida serve, neste s e n t i d o , d e base d e s u s t e n t a ç ã o para t o d o o nosso p r o c e d e r d e a c o r d o c o m regras, pode-se d i z e r : " O q u e precisa ser aceito, o d a d o — poder-se-ia d i z e r — s ã o formas de vida" (IF p . 218). C o n t u d o , esta base "a p a r t i r da q u a l nossa l i n g u a g e m a t u a " (IF § 240) n ã o se c o n s t i t u i n u m f u n d a m e n t o n o s e n t i d o lógico d e justificação. E m p r i m e i r o l u g a r , c o m o v i m o s , a c o n c o r d â n c i a na ação, na forma de vida, n ã o é s e p a r á v e l d e u m a certa c o n c o r d â n c i a t a m b é m n o s j u í z o s . Se n ã o c o n c o r d á s s e m o s na t a b u a d a o u e m j u í z o s c o m o 'isto é v e r m e l h o ' , s i m p l e s m e n t e n ã o e x i s t i r i a m o 10. Aqui é de capital importância ler presente a nossa análise do conceito seguir uma regra.

nosso c a l c u l a r n e m o nosso conceito d e 'cor'^°. Por o u t r o l a d o , se é e v i d e n t e q u e existe justificação, esta precisa ter u m f i m , p o i s "se n ã o o tivesse, n ã o seria j u s t i f i c a ç ã o " (IF § 485; Ü G 192). " C o n t u d o , o f i m n ã o é o p r e s s u p o s t o i n f u n d a d o , mas o m o d o d e a g i r n ã o f u n d a m e n t a d o " ( Ü G 110). A forma de vida, e m sua f u n ç ã o para a l i n g u a g e m , já n ã o é f u n d a m e n t a d a o u j u s t i f i c a d a : ela precisa ser aceita c o m o a l g o d a d o . I s t o s i g n i fica q u e a l i n g u a g e m n ã o p o s s u i u m f u n d a m e n t o p r é - n o r m a t i v o . A nossa l i n g u a g e m n ã o r e p o u s a sobre d a d o s ' i n e f á v e i s ' o u I

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fatos d a n a t u r e z a (cf. IF p . 221), n e m sobre certezas o u i n t u i ç õ e s i n d u b i t á v e i s . O f u n d a m e n t o ú n i c o d a l i n g u a g e m reside n o ' a r c a b o u ç o ' c o n s t i t u í d o p o r nossas formas de vida. E estas situam-se "para além d o que é justificado o u injustificado" (ÜG 359). N e s t e s e n t i d o a l i n g u a g e m é s i m p l e s m e n t e a u t ô n o m a à semelhança d o jogo.

Conclusões A i n c l u s ã o das formas de vida n o f e n ô m e n o d a l i n g u a g e m p e r m i te e n t e n d e r c o m m a i s f a c i H d a d e u m o u t r o aspecto f u n d a m e n t a l d o p e n s a m e n t o d e W i t t g e n s t e i n , a saber, q u e a sua f i l o s o f i a é essencialmente descritiva. W i t t g e n s t e i n n ã o se cansa d e i n s i s t i r neste p o n t o (ver, p o r e x e m p l o , I F § § 109,124-28, 486, 496). Esta parece ser u m a c o n c l u s ã o ó b v i a t ã o l o g o t i v e r m o s presente a f u n ç ã o das formas de vida. Já n ã o se t r a t a d e ' e x p l i c a r ' a l i n g u a g e m n o s e n t i d o d e f u n d a m e n t á - l a o u justificá-la. T u d o o q u e é p o s s í v e l e o q u e é p r e c i s o fazer é descrever o u 'colocar s i m p l e s m e n t e a í ' os d i f e r e n t e s jogos de linguagem, e a s s i m l e v a r - n o s a t o m a r consciência d e seu f u n c i o n a m e n t o , o u d e sua 'gramática'. A q u i t a m b é m p o d e r i a estar a r a z ã o pela q u a l W i t t g e n s t e i n , a p ó s referir-se às t e n t a t i v a s fracassadas d e apresentar seus r e s u l t a d o s e m u m a f o r m a s i s t e m á t i c a , e t u d o o q u e conseguia escrever e r a m " a p e n a s a n o t a ç õ e s f i l o s ó f i c a s " , acrescenta q u e " i s t o c o i n c i d i a , na v e r d a d e , c o m a n a t u r e z a d a i n v e s t i g a ç ã o " ( I F Pref.). E a m u l t i p l i c i d a d e d o s jogos de linguagem, e m suas c o m p l e x a s i n t e r - r e l a ç õ e s e sua c o n e x ã o c o m as formas de vida, q u e se t o m a u m obstáculo para o d e s e n v o l v i m e n t o sistemático. A l g o semelhante p o d e r i a v a l e r t a m b é m para a t e n t a t i v a d e e x p o r e m f o r m a s i s t e m á t i c a u m t e m a c o m o as formas de vida. C e r t a m e n t e n ã o foge à f>ercef)ção d o l e i t o r o caráter r e p e t i t i v o d e nossa e x p o s i ç ã o . E m g r a n d e p a r t e i s t o p o d e ser a t r i b u í d o à l i m i t a ç ã o d o a u t o r , M a s p o d e t a m b é m estar r e l a c i o n a d o c o m a p r ó p r i a n a t u r e z a d o t e m a . Este é t a l q u e , n u m a e x p o s i ç ã o s i s t e m á t i c a , leva-nos o u a g e n e r a l i z a ç õ e s falsas, o u à r e p e t i ç ã o d o q u e parece ser ó b v i o . 0 e m b a s a m e n t o nas formas de vida m o s t r o u q u e a l i n g u a g e m é a u t ô n o m a (à s e m e l h a n ç a d o j o g o ) , n ã o s e n d o n e m p r o d u t o d e raciocínio, n e m necessitando d e j u s t i f i c a ç ã o o u f u n d a m e n t a ç ã o . Isto confere ao p e n s a m e n t o d e W i t t g e n s t e i n u m a p o s i ç ã o s i n g u lar e m relação aos diferentes 'ismos' d a história d a filosofia. T a n t o se p o d e r i a d i z e r q u e W i t t g e n s t e i n é c o n v e n c i o n a l i s t a c o m o t a m b é m q u e ele é essencialista; o u e n t ã o , q u e ele é cético, c o m o t a m b é m q u e é d o g m á t i c o . Neste s e n t i d o poder-se-ia d i z e r q u e 1 28

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seu p e n s a m e n t o " a b s o r v e t o d a s estas t e n d ê n c i a s s e m a d o t a r n e n h u m a d e l a s " (S. C a v e l l , 1979:16). O u e n t ã o , q u e ele segue u m c a m i n h o i n t e r m e d i á r i o entre c o n v e n c i o n a l i s m o e essencial i s m o (cf. G . H a l l e t t , 1977:743ss.). I s t o p o r q u e , ao a p o n t a r para as formas de vida c o m o a base d a U n g u a g e m , consegue m o s t r a r q u e os f u n d a m e n t o s , p r o p o s t o s p o r u m a d o u t r i n a e negados p o r o u t r a , d e fato s ã o u m a q u i m e r a . M a s q u e n e m p o r isso a l i n g u a g e m e, c o n s e q ü e n t e m e n t e , o c o n h e c i m e n t o se ressente desta f a l t a d e f u n d a m e n t a ç ã o . D a q u i p o d e r i a d e r i v a r u m a f u n ç ã o i m p o r t a n t e para o pensamento de Wittgenstein no contexto da discussão h o d i e m a e m t o m o d o s fundamentos da racionalidade. D i a a d i a cresce o c o n senso, t a n t o n o nível e s p e c u l a t i v o - f i l o s ó f i c o c o m o n o n í v e l científico, e m t o m o d a i m p o s s i b i h d a d e d e u m a f u n d a m e n t a ç ã o ú l t i m a . N a e x p r e s s ã o d e B. S t e w e n s observa-se a q u i u m a ' f u g a d o f u n d a m e n t o ' (B. Stewens, 1985:213). P o r o u t r o l a d o , p a rece c l a r o q u e esta f a l t a d e f u n d a m e n t a ç ã o n ã o afeta o f u n c i o n a m e n t o das ciências. M a i s u m a v e z , a i n c l u s ã o d e formas de vida n o f e n ô m e n o d a l i n g u a g e m p o d e r i a d a r conta de a m b o s estes aspectos. D e u m l a d o , revela como a l i n g u a g e m e, p o r t a n t o , o c o n h e c i m e n t o , d e fato f u n c i o n a ; e, p o r o u t r o , m o s t r a c o m o a ausência de u m f u n d a m e n t o último não significa a a u s ê n c i a d e t o d o e q u a l q u e r f u n d a m e n t o . Deste m o d o o pensam e n t o de Wittgenstein poderia servir como altemativa para a r e s i g n a ç ã o cética. C o s t u m a - s e classificar o p e n s a m e n t o d e W i t t g e n s t e i n c o m o ' f i l o s o f i a h n g ü í s t i c a ' , o u f i l o s o f i a d a l i n g u a g e m . D e f a t o ele t r a t a d e p a l a v r a s , frases, conceitos. M a s , d e v i d o à c o n e x ã o c o n c e i t u a i e n t r e u m a prática r e g u l a r o u forma de vida e o e m p r e g o d e u m a p a l a v r a o u a a p l i c a ç ã o d e u m a r e g r a , tal f i l o s o f i a a d q u i r e u m c a r á t e r p e c u l i a r . Ela é essencialmente i n v e s t i g a ç ã o c o n c e i t u a i , l ó g i c a . M a s , p r e c i s a m e n t e p o r ser t a l , ela nos o b r i g a a t o m a r c o n s c i ê n c i a d e nossos m o d o s d e a g i r e pensar. N e s t e s e n t i d o trata-se d e f o m e c e r o b s e r v a ç õ e s sobre a nossa " h i s t ó r i a n a t u r a l " (IF § § 415,25). Trata-se d e r e v e l a r as bases d e nossa c u l t u r a , o t i p o d e seres q u e somos. Deste m o d o a i n v e s t i g a ç ã o conceit u a i c o m o q u e se t r a n s f o r m a n u m a 'espécie de antropologia' ( N . M a l c o l m , 1970:22). T a l v e z seja esta a r a z ã o p o r q u e , à m e d i d a q u e a v a n ç a m o s nestas investigações, e x p e r i m e n t a m o s a s e n s a ç ã o d e d e s c o b r i r a l g o sobre n ó s m e s m o s . N ã o a l g o n o v o , m a s a l g o q u e já s a b í a m o s , e n o q u a l n ã o r e p a r a m o s p o r estar " s e m p r e d i a n t e d e nossos o l h o s " ( I F § § 129, 415). Desta f o r m a , a q u i l o q u e é rigorosa i n v e s t i g a ç ã o c o n c e i t u a i t o r na-se, ao m e s m o t e m p o , u m a c o n t r i b u i ç ã o p a r a as m a i s d i v e r 29


sas c i ê n c i a s relacionadas c o m a nossa c u l t u r a , e m especial, aquelas l i g a d a s c o m a e d u c a ç ã o . À m e d i d a q u e esta f i l o s o f i a m e o b r i g a a c o n f r o n t a r os critérios, q u e a m i n h a c u l t u r a m e a p r e senta, c o m m i n h a s p a l a v r a s e a m i n h a v i d a , a s s i m c o m o e u as p e r s i g o o u i m a g i n o , esta m e s m a f i l o s o f i a se t o m a u m a e s p é c i e d e e d u c a ç ã o (dos a d u l t o s ) .

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SÍNTESE N O V A F A S E 51

(1990):

11-31

Endereço do autor Av. Cristiano Guimarães, 2127 31710 — Belo Horizonte — MG

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"FORMAS DE VIDA": SIGNIFICADO E FUNÇÃO NO PENSAMENTO DE WITTGENSTEIN  

Werner Spaniol. RESUMO:o artigo trata de um importante conceito na obra de Wittgenstein em sua fase posterior. Procura elucidar a noção de '...

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