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Aqueles que não acreditam em meras coincidências dirão que o universo já havia trabalhado para que o encontro acontecesse. “Quando comecei a contar a história ele se surpreendeu e disse que conhecia meu avô. Era fã de criança do negócio e ia a Veneza tomar o picolé”, narra Leandro, ganhando naquele momento um mentor que o ajudou de perto para recriar a marca Diletto no Brasil. Scabin permaneceu na Itália a convite do seu novo mentor, que ensinaria tudo que ele precisasse para colocar o negócio de pé. Foram dois anos, 23 viagens de Milão a São Paulo, e muitos testes para encontrar a receita perfeita. De volta ao Brasil, Leandro construiu uma pequena fábrica na Granja Viana, em São Paulo, e recebeu dois italianos para acompanhar a fase de testes. “São duas partes: a estrutura química, que estava pronta e calibrada, e o processo, que precisava ser feito aqui. Deu tudo absurdamente errado. O picolé não congelava”, lembra. O problema era simples: falta de frio no Brasil. Por conta disso, seria necessário utilizar um equipamento de dois milhões de euros. Entre muitas idas e vindas, a solução encontrada foi utilizar uma fábrica em Pouso Alegre, Minas Gerais, para o processo de congelamento. “O picolé nasceu perfeito”, comemora Leandro, que estava ansioso para descobrir a reação do consumidor. “Afinal, eu queria vender um picolé de 7 reais em um país onde custa 1”, explica. Na hora de lançar, Leandro procurou o publicitário Washington Olivetto e ganhou um sócio, o Fábio Meneghini, diretor de criação e sucessor do ícone da publicidade brasileira. Depois de um pré-lançamento em Trancoso, no Réveillon do ano de 2008 para 2009, a Diletto montou um estande no espaço Veja São Paulo na Riviera de São Lourenço, no litoral paulista. Com filas constantes, foram vendidos 11 mil picolés em nove dias. “O evento tinha

30 dias, mas o picolé só durou nove. Sentei com o Fabio e decidimos que teríamos 40 pontos de venda até o final do ano”, afirma Leandro, acrescentando que o objetivo sempre foi alcançar escala. No mês de maio, já eram 400 pontos. “As pessoas ligavam enlouquecidas querendo ter nosso produto para vender”. Não demorou para a marca sair na capa do jornal Valor Econômico, atraindo a procura de fundos de investimentos. Nesses cinco anos de Diletto, foram duas entradas de capital, sendo que a última foi feita pelo fundo Innova, cujo um dos sócios é Jorge Paulo Lemann. Fechando 2013 com mais de três mil pontos de venda em todo o Brasil, o grande diferencial do picolé do urso polar é a qualidade da matéria-prima. Diferente de muitas marcas disponíveis no mercado, a gordura vegetal não entra na receita, que apresenta baixo valor calórico e ingredientes importados da Itália. “Uma frase boa do mentor é que se o pistache virar pó, nunca mais vai virar pistache”, conta o neto de Vittorio, que seguiu os passos do avô e conseguiu fazer da distribuição sua estratégia de sucesso. Entregando um picolé de características artesanais em todo o país, o objetivo da marca é virar global. “Nosso benchmark é Haagen-Dazs, Mövenpick e Ben & Jerry’s. Mas antes de sairmos do Brasil precisamos consolidar a Diletto. Outra frase do mentor é que você não pode ir para um país onde vai ser copiado antes de ser percebido”, argumenta Scabin. Considerando a linha de crescimento que a empresa vem apresentando, esse sonho não é de longo prazo.

#42 - Antonio Fagundes