Page 40

Biografia

O

pai era engenheiro elétrico; a mãe dona de casa. Sem referências comerciais em casa, Leandro Scabin parecia ter nascido com um gene diferente. Desde pequeno, brincava de vender e trocar, sempre fazendo bons negócios. Aos 16 anos durante uma viagem para os Estados Unidos com o pai, viu um aquário gigante com um tubarão. Não era o parque de diversões Sea World, mas sim uma loja. Encantou-se e trouxe a ideia para o Brasil. Era seu primeiro empreendimento ganhando vida, chamado Hobby Fish. Um ano depois, desenvolveu um projeto para um restaurante de São Paulo com essa proposta. “Eu tinha 17 anos e ganhei um milhão de reais. Trabalhei cem horas sem dormir. Foi o maior aquário da América Latina durante três anos”, lembra Scabin. A alegria durou uns quatro anos. O jovem empresário quebrou, mas teve a ajuda financeira do pai para reerguer-se. A segunda fase do negócio foi mais intensa e contou com a abertura de uma grande loja na Alameda Lorena, no bairro Jardins, em São Paulo. “Quebrei vertiginosamente. Meu pai havia falecido e dessa vez passei necessidade”, conta. Sem abalar-se ou desistir, ele deu a volta por cima. “A sensação de reerguer-se é espetacular, a melhor de todas. As pessoas têm um medo absurdo de quebrar, mas isso te deixa menos eficiente. Perdi o medo e fiquei mais agressivo. Afinal, se der errado tento de novo”, reflete Leandro, que não apenas teve sucesso como vendeu a empresa por um valor capaz de garantir sua independência financeira para o resto da vida. Em vez de esperar os anos passarem tranquilamente, Scabin decidiu ir atrás de um antigo sonho, guardado com carinho num canto da mente. Durante anos ele ouvira o avô Vittorio contar sobre sua marca de picolés Diletto, fundada em 1922 no Norte da Itália, no pequeno vilarejo de Sappada, a 15 km

da Áustria. A invenção do avô fora colocar o sorvete no palito, mantendo a consistência, o preparo artesanal e a seleção de ingredientes saudáveis e de qualidade. Com excelente tino comercial (provavelmente essa é a fonte do talento de Leandro para os negócios), o Sr. Vittorio contrariou o óbvio e criou um modelo de distribuição que fugia das tradicionais sorveterias da época. O picolé ia até a pessoa – e não o oposto. A marca virou sucesso. Mas a Segunda Guerra Mundial fez com que o avô viesse para o Brasil, abandonando a Itália após a invasão de Hitler à Áustria – país muito próximo de sua cidade. A virada de página na vida deixou a Diletto no passado italiano. “Cresci ouvindo as histórias dele. Quando eu viajava, percebia que no mundo inteiro o picolé era um produto mais barato ou para criança, aqueles que pintam a língua de azul. Não havia qualidade nesse formato de consumo. Vi uma oportunidade”, relata Leandro, que aproveitou para idealizar tudo que ele já acumulara de referências ao longo dos anos. Decidido, embarcou para a maior feira de sorvetes do mundo, realizada sempre no início do ano na cidade de Rimini, na Itália. “Minha ideia era encontrar um pequeno produtor de matéria-prima de sorvete que me ensinasse a fazer um produto bacana. Eles me ignoraram dizendo que não tinham operação no Brasil”, afirma Scabin, que foi vendo suas opções esgotarem, restando apenas os estandes das empresas maiores. Depois de muitos “nãos” e bastante andança durante quatro dias de feira, Leandro chegou à uma indústria gigantesca cujo forte é chocolate, mas com um braço de matéria-prima para sorvete. “Contei minha história para um diretor da América Latina. Ele achou bacana e pediu para eu voltar no dia seguinte para expor ao CEO, na época o homem mais rico da Europa. Eu teria cinco minutos de conversa”, diz.

#42 - Antonio Fagundes