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economia

CHINA 2.0 PARA “DUMMIES”

POR FABIO KANCZUK

A RECENTE “TERCEIRA PLENÁRIA DO 18º CONGRESSO DO PARTIDO” MARCOU O LANÇAMENTO DO NOVO MODELO DE CRESCIMENTO CHINÊS. EM LONGO DOCUMENTO, SEUS LÍDERES TRAÇARAM AS DIRETRIZES ECONÔMICAS PARA OS PRÓXIMOS DEZ ANOS. A ÚLTIMA VEZ QUE ISSO OCORREU DE FORMA TÃO RADICAL FOI EM 1978, QUANDO A CHINA ABRIU-SE AO MUNDO. ASSIM COMO DA OUTRA VEZ, É DE SE ESPERAR QUE AS TRANSFORMAÇÕES SEJAM LENTAS E GRADUAIS, PORÉM PROFUNDAS. EIS A LISTA DOS PRINCIPAIS PONTOS ABORDADOS: 1. LIBERALIZAÇÃO DA TAXA DE JUROS Soa estranho, mas é isso mesmo. Atualmente na China as taxas de juros são controladas, e mantidas em nível artificialmente baixo. Para evitar o problema da inflação, o Banco Central força os bancos a não emprestarem, restringindo o volume de crédito na marra. Claro que isso não funciona direito, e faz com que algumas empresas, as escolhidas, tenham fundos baratos, e acabem investindo demais. Com a mudança, esse problema diminuirá. E ainda por cima, com a subida das taxas de juros, as famílias terão melhores retornos sobre suas poupanças financeiras. Dessa forma, o crescimento chinês será mais balanceado: menos exportações e investimentos, e mais consumo interno. 2. LIBERALIZAÇÃO DOS FLUXOS DE CAPITAL Atualmente é proibido para um estrangeiro investir na maioria dos ativos financeiros chineses. Da mesma forma, um chinês não pode livremente comprar ativos fora da China. Essa limitação permite ao governo manter a taxa de câmbio em patamar artificial, distorcendo as alocações produtivas. Para corrigir o problema, o plano é criar zonas de livre comércio, com propriedades similares às atualmente presentes em Hong Kong. Dentro dessas, o Renminbi será plenamente conversível em Dólar. As empresas poderão ter contas em Dólar e, simetricamente, os estrangeiros poderão comprar ações dessas empresas. Aos poucos, essas zonas irão ficar maiores e, eventualmente, englobarão todo o país. 3. NOVO SISTEMA DE AVALIAÇÃO POLÍTICA Hoje em dia a avaliação dos governantes das províncias é quase totalmente baseada no crescimento econômico. Isso faz com que eles tenham incentivos para investir em grandes obras, criar grandes

empresas, poluir à vontade, ignorar o bem-estar da população. No novo sistema, a avaliação conterá itens tais como a saúde e educação da população, o endividamento do estado, a destruição de recursos naturais etc. 4. LIBERDADE DE MIGRAÇÃO No atual sistema de registro – conhecido como Hukou – os chineses não podem livremente largar o campo e ir para as cidades. Quando fazem isso perdem direito à educação e seguridade social, além de receberem salários bem mais baixos, já que se tornam “ilegais”. A liberdade de migração levará a maiores salários e consumo, ajudando no rebalanceamento econômico. 5. ESVAZIAMENTO DAS ESTATAIS As poderosas estatais chinesas têm elevados lucros que não podem ser distribuídos, e acabam sendo mal investidos. É comum, por exemplo, que esses recursos acabem servindo para a compra de imóveis em cidades fantasmas, criando bolha imobiliária. Com as reformas, uma fatia elevada dos lucros das estatais será transferida para o governo central. Esses recursos passarão a fundear o novo sistema de seguridade social, mais generoso e inclusivo. 6. MANUTENÇÃO DO SISTEMA ESTATAL COMO PRINCIPAL PILAR ECONÔMICO O governo continuará controlando as atividades consideradas estratégicas, provendo bens e serviços por meio de suas empresas, decidindo o futuro dos projetos de infraestrutura. Seria demais imaginar que haveria grandes privatizações. Ainda assim, as diretrizes do governo chinês parecem mais capitalistas que as do brasileiro...

Fabio Kanczuk é engenheiro pelo ITA, PhD em Economia pela UCLA com pós-doutorado em Harvard, além de professor titular do departamento de Economia da USP

36 · JAN.14

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