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Amor de pai Por Pedro Henrique Araújo

RAPPER CARIOCA DE LEVE INICIA UM RETORNO AOS PALCOS E PLANEJA UM DISCO NOVO PARA 2014. NÃO SERÁ DESTA VEZ QUE O “RAP LARGADO” PERDERÁ SEU PRINCIPAL REPRESENTANTE.

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á mais de uma década o carioca de Niterói, Ramon Moreno de Freitas e Silva, aparecia para o rap. Ainda moleque, carregou no peito um estilo “largado” de rimar que tem seus frutos até hoje em grupos como a Cone Crew Diretoria, também do Rio de Janeiro. Com o Quinto Andar, lendário coletivo do início dos anos 2000, De Leve, hoje com 32 anos, fez uma pequena e independente revolução no cenário da música. Tiveram apenas um registro, o clássico “Piratão”, de 2005, que culminou também no ponto final do coletivo. Em carreira solo, De Leve também tem seus trunfos. Em 2001, lançou um álbum virtual, coisa atípica na época, acredite se quiser. Fazer download de um disco no início do século era coisa complicada, ainda mais num mundo musical dominado por grandes gravadoras. De Leve deu um passo a frente e disponibilizou todas as faixas de seu EP, “Introduzindo De Leve”, no hoje moribundo Napster. Dois anos depois, o CD “Estilo Foda-se” mantém a provocação aos estereótipos com muito bom humor e ironia, duas das grandes características do cantor.

aulas de pedagogia na Universidade Federal Fluminense e pelo volante do táxi do pai, que não dirige o automóvel durante a manhã. O filho de Ramon, o pequeno Juan, hoje com cinco anos de idade, foi diagnosticado com autismo quando tinha um ano e meio. Na mesma época, o cantor foi alvejado com a notícia da morte do amigo Speedfreaks, assassinado em março de 2010. As duas notícias pesaram algumas toneladas em suas costas. “Minha vida, digamos, virou de cabeça pra baixo. Como digo na minha nova música ‘Estalactite’. ‘É como morcego, de cabeça pra baixo, mas com asas pra voar’. É assim que tento manter minha vida, pois ter um filho com necessidades especiais no Brasil, onde você não tem apoio financeiro ínfimo por parte do governo e nem uma terapia disponível pelo SUS não é fácil. Ou você se vira trabalhando para poder prover estes tratamentos ou, se vira. Não há outra opção”. E completa. “Além da responsabilidade natural de quando chega um filho, chegou até a mim também a responsabilidade de aprender como lidar com ele e tentar ajudá-lo a viver da melhor forma possível neste país com a sua deficiência”.

Em 2006, veio o “Manifesto ½ 171” e, em 2009, o “De Love”. Na bagagem, Ramon carrega algumas pérolas do hip hop como “Rolê de Camelim”, “Feipa”, “Largado” e “Eu Rimo na Direita”. O jeitão, as letras de tiração de sarro e a postura estão longe de agradar a gregos e troianos. De Leve explica: “Nunca fiquei muito preocupado com isso não, não fico muito focado em quem não gosta da música, foco mais em quem a curte”. Procure saber, caro leitor. Você vai, no mínimo, dar boas risadas com os versos improváveis de De Leve.

De Leve está preparando novos voos. Aqui e acolá voltou a fazer shows, a maioria em lugares pequenos, para pagar as contas e retomar sua carreira. A sala de aula e o banco do táxi já não são mais parte da rotina. “Estou cantando, gravando e compondo. Voltei sim. Mas as contas tão caras e nem sempre dá, fico devendo e com nome no SERASA. Depois de 5 anos sai, tá tranqui”, brinca. Ao lado da mulher e do filho, o cantor chegou a fase adulta de sua vida. Passou por momentos delicados e hoje se emociona com um simples sorriso ou alguma peripécia de Juan. Ele ainda sabe fazer rir, mantém o estilo largado de Nikiti e está preparando um novo disco para o ano que vem. Mais maduro, mas sem perder a irreverência jamais, ele ainda tem muita coisa a dizer.

Entre 2009 e 2010, De Leve deu uma sumida. Os palcos ficaram carentes de seu largadismo e o rap quase perdeu um de seus grandes talentos. A lenda que rezou por aí confere. O MC trocou os palcos pelas

avianca em revista

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#42 - Antonio Fagundes