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No aconchego do sofá DOP/Universidade Açores O sofá veio preencher o nosso vazio cultural. Nos tempos que correm, a cultura vigente parece ser a das telenovelas, dos reality shows, do futebol, das pipocas e do cervejame… Quanto tempo desperdiçado em frente dos écrans da televisão, do computador e do telemóvel… Quanta passividade e bocejo! Quanto conformismo e mornaça! Não questiono a importância das novas tecnologias da informação e da comunicação, mas desconfio das suas bem aventuranças… A propósito: um grupo de investigadores da Universidade Duke, na Carolina do Norte, concluiu, recentemente, que as escolas em que mais tinha aumentado o uso da internet e foram aquelas em que 13

(onde o gosto pelo conhecimento do mar se aprofunda) Ricardo Serrão Santos Objectivos e Missão O Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (DOP/UAç) foi criado em 1976 no âmbito do então Instituto Universitário dos

científico, a conservação da vida marinha e o uso sustentável do Oceano Atlântico na Região dos Açores”. Este lema tem sido partilhado com as sucessivas “gerações” de investigadores e estudantes em ciências do mar

funcionários envolvendo pessoal técnico e administrativo, perfazendo um total de 25 pessoas. Este número representa menos de um quarto do pessoal que está efectivamente envolvido nas actividades de Investigação

que aqui têm estudado e trabalhado.

e Desenvolvimento do DOP. A equipa inclui actualmente 26 doutorados de diferentes nacionalidades e cerca de vinte doutorandos também de diferentes nacionalidades. Para além destes o DOP tem ao seu serviço diversos técnicos e graduados 10

Departamento de Oceanografia e Pescas - Universidade dos Açores

Victor Rui Dores

Banco Condor ( uma abordagem pioneira )

Os bancos e montes submarinos suportam uma elevada diversidade biológica e são áreas de pesca importantes nomeadamente em regiões insulares como os Açores. As pescas em montes submarinos (MS) reflectem em geral a maior produtividade destas áreas, mas o conhecimento dos processos pela qual, esta produtividade é gerada, de que modo é mantida, e quão “resistentes” são as suas comunidades biológicas à perturbação e exploração humana, permanecem ainda pouco conhecidos. À escala global, o conhecimento da biodiversidade dos montes submarinos é ainda diminuto já que, foram relativamente e poucos os montes submarinos 12

Nós e laços Carla Cook “Natal é a festa da família”, toda a gente sabe. Mas “família”, hoje em dia, é um vocábulo que não significa o mesmo que significava antigamente e negá-lo seria mais ou menos como dizer que o Menino Jesus é mais conhecido que o Pai Natal. O que faz com que tantas pessoas suspirem por estar sozinhas no Natal e outras tantas suspirem por ter de aturar (literalmente) os familiares que, por azar genético, lhes couberam em sorte, durante esta quadra? Como não sou antropóloga – e logo não sei o que, de modo transversal, culturalmente se entende por família hoje em dia – lembrei-me de ir espreitar os últimos estudos feitos sobre a dita. Sem surpresa, verifica-se que hoje andar na escola e ser filho de pais divorciados ou de famílias monoparentais não é incomum; incomum é aquele miúdo cujos pais ainda vivem juntos (note-se a utilização do advérbio “ainda”, que prevê uma fatalidade não muito distante). Cada vez mais usual, é aquele menino que tem várias famílias: a da mãe, a do padrasto, a do pai, a da madrasta, a do exnamorado da mãe de quem ficou amigo (veja-se a acumulação de avós que vai aqui… e de prendas natalícias!). Qual é a única coisa que vale a pena investigar aqui? e Precisamente: porque é que, 17

Açores e tem desde essa altura a sua sede na cidade da Horta. Actualmente é uma das unidades orgânicas da Universidade dos Açores e o seu Campus na ilha do Faial. Desde a sua fundação que o DOP assumiu como lema contribuir para “o conhecimento

Composição e Organização O DOP/UAç é composto por um pequeno quadro permanente, constituído por 10 doutorados e cerca de 15 outros

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Gui Menezes e Eva Giacomello


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• Avenida Marginal • quinta feira 23 de Dezembro 2010

A casa digladiam para ocupar o cargo de proprietário? Quem é que quer desesperadamente governar uma CASA que está em ruínas? Quem? !

de todos os seus valores. Todos. Os senhorios têm levado da CASA tudo o que podem e depois quando estão satisfeitos passam a CASA ao próximo

e janelas, armários e electrodomésticos, cortinados e lençóis, plantas e brinquedos. E agora andam a levar as torneiras,

A resposta só pode estar no recheio da CASA. Os senhorios têm levado, aos poucos, todo o recheio da CASA. Os senhorios têm despojado o inquilino

senhorio. Começaram por levar as pratas e os ouros, depois os castiçais e as baixelas, os mármores e os cristais, as jóias e as tapeçarias. Depois passaram a coisas mais frugais como os quadros e as esculturas, os móveis e os candelabros, as carpetes e os candeeiros, as loiças e os enxovais, os bibelots e os livros. Quando se acabaram dentro de CASA as coisas de valor voltaram-se para aquilo que podia ser vendido cá fora e render algum dinheiro, tal como, portas

as canalizações da água e até os cabos da electricidade. É que, num ferro velho, o chumbo e o cobre ainda dão uns euritos! E faz-se tudo descaradamente. Não é preciso ocultar a face para desventrar a CASA. E o inquilino? Ah, o inquilino está entretido a ver a telenovela e o futebol sentado no chão, porque já lhe levaram o sofá velhinho.

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A CASA é muito antiga. A CASA já vem lá do tempo dos Afonsinhos e está visivelmente degradada. Está muito caída. Aliás, a CASA sempre teve um aspecto desconchavado a pedir uma restauração de baixo acima. Desde a fundação, diga-se. No telhado faltam telhas, o que no Inverno provoca grandes inundações. Todos os anos é a mesma coisa. As paredes estão a ruir e já não há estacas que as sustentem. Já não tem portas nem janelas e os soalhos estão gastos e esburacados. Tinta nas paredes… nem vê-la. A CASA está num estado de decadência absolutamente deprimente. O único atractivo que a CASA tem é a sua vista para o mar! Mas isto é muito pouco para quem vive na CASA. E quem vive na CASA? A CASA, ao longo dos anos, teve sempre o mesmo inquilino. Sempre o mesmo. Mas, em contrapartida, já teve centenas de senhorios. Senhorios que só quiseram receber a renda e nunca se preocuparam em fazer obras. Senhorios que foram sempre aumentando a renda deixando o inquilino cada vez mais pobre. E o que faz o inquilino da CASA? O inquilino protesta, reclama e ameaça que vai fazer isto e aquilo. Mas depois lá vem a hora da telenovela e do futebol, e senta-se no seu velhíssimo sofá a ver televisão. E acomoda-se conformado. E habitua-se à degradação da sua CASA. Mas, estando a CASA assim neste estado, porque é que os senhorios se sucedem constantemente e até se

Administração dos Portos do Triângulo e do Grupo Ocidental, SA

A Administração dos Portos do Triângulo e do Grupo Ocidental (APTO), S.A., formula a todos os seus trabalhadores e respectivas famílias, aos seus clientes e fornecedores, às instituições e autoridades com que trabalha regularmente, a toda a comunidade portuária e à população em geral votos de…

FELIZ NATAL E BOM ANO NOVO DE 2011

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Sérgio Luís


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quinta feira 23 de Dezembro 2010 • Avenida Marginal •

Extracção de areias nos Açores

Lucas da Silva pequeno sismo, analisam-se os ecos, e, a partir daí, conseguem-se identificar as lagoas de areia que existem sobre o fundo rochoso do mar. Infelizmente, para poderem circular perto de terra, os navios utilizados têm de ter pouco calado e a possibilidade de manobrar em pouco espaço. Em súmula, têm de ser pequenos navios… honestamente, lanchas. A embarcação escolhida foi então o “Águas Vivas” ou outros equivalentes. Também infelizmente, os circuitos eléctricos emissores de som, o tal grande barulho, têm de ser independentes dos que fazem a análise do seu eco. Ou seja, para cada sistema é imprescindível ter um gerador diferente. Somando tudo, para além dos dois motores da lancha, havia a bordo três geradores, sendo um deles dedicado a provocar um “grande barulho”. Tudo isto em onze metros de barco. Tenhovos a dizer que este não foi o pior trabalho que jamais fiz, mas andou muito perto… Para poder aguentar todo aquele barulho, colocávamos auscultadores e dentro destes os leitores de música no máximo, ou perto disso. Foi, realmente, um trabalho muito difícil e, à conta disso, ainda hoje odeio barulho. Felizmente, não ficámos surdos, mas pouco deve ter faltado. Depois de termos andado a transportar esta maquinaria em volta da maioria das ilhas dos Açores, desenhamos os mapas que hoje servem para definir as

Ainda se pode ouvir a sinfonia dos pássaros, que inclui o nosso canário da terra, como flautista, e o pombo torcaz no baixo. É divino! Temos o mar aos pés, onde se apanha uns pares de peixes para um agradável caldo. A mãe natureza presenteou-nos com um monstro, para nos recordar que é soberana. Durante o dia estou em contacto com as plantas, que transmitem força e esperança na vida. À tarde, no porto do Comprido, assisto maravilhado ao “ballet” acrobático dos garajaus rosados. À noite têm uma quietude que nos faz repousar… Não é necessário mais nada para se viver em paz, connosco e com os outros.

Avenida Marginal

e do que é gerado pela degradação das rochas seja no leito das ribeiras ou nos chamados “rolos” junto ao mar. Daí a sua cor escura, ao contrário da coloração mais esbranquiçada das areias continentais. Em termos estatísticos, cerca de 90% da areia dos Açores é oriunda directamente dos eventos vulcânicos, 9% das escorrânicas das ribeiras e 1% da abrasão costeira. Portanto, o grande fornecedor de areia do nosso arquipélago tem estado improdutivo e ainda bem. A escassez de areia, essencial para a construção civil, pode, em última análise colapsar a edificação e, consequentemente, grande parte dos investimentos estruturais e, pelo menos, os empregos directos que a actividade gera. Por tudo isto, ficou claro que tínhamos de ir procurar onde estavam localizados os depósitos de areias no mar dos Açores, tentar contabiliza-los e definir os locais que não deveriam ser explorados por questões relacionados com a sensibilidade ambiental. Aprendemos com os colegas do então Instituto Geológico e Mineiro que o princípio para procurar areias é extraordinariamente simples. Com aparelhos sofisticados provoca-se um grande barulho à superfície do mar, um autentico

Viver no Capelo é viver num pequeno retalho do paraíso. Para quem ama a natureza, possui uns lindíssimos verdes. Avenida Marginal

Frederico Cardigos Ao rever os artigos que já publiquei, constatei que nunca toquei num assunto que já me fez sofrer um bom bocado: a extracção de areias. No final dos anos 90, surgiu o desafio para que o DOP fizesse a avaliação das areias existentes em volta das ilhas dos Açores. À primeira vista parecia um desafio inovador, porque nunca tinha sido feito nos Açores, e era necessário organizar muito trabalho de mar. Tinha o meu nome! Já não me recordo se me ofereci ou se fui voluntariado... O que é certo é que, em conjunto com uma belíssima equipa, lá me meti a organizar as expedições. Diga-se neste ponto, em abono da verdade, que quando comecei não entendia nada, mesmo absolutamente nada do assunto. Pior do que isso, como tinha tido uma cadeira de geologia e outra de sedimentologia na universidade, pensava que sabia… Erro… Porque a modéstia fica bem, falei com alguns colegas mais sabedores do que eu e, em conjunto com o Fernando Tempera, lá fomos alicerçando o conhecimento e o engenho necessário para debelarmos o desafio. Nas primeiras conversas, com colegas do Departamento de Geociências, ficamos a saber que, de facto, nos Açores a areia é um bem escasso e valioso. Pelo facto de não haver areia biogénica (formada pela degradação das conchas) a areia dos Açores resulta apenas do que é emitido pelos vulcões

Capelo

áreas e os volumes de areias exploráveis no arquipélago dos Açores. Certo dia, nas Flores, depois de trabalhar durante duas semanas a fio, já meios surdos, decidimos que iríamos descansar no Domingo. Era justo e, também, se não o fizéssemos, provavelmente, fugiríamos dali. Já ninguém aguentava mais um minuto de geradores… Mal sabíamos nós que havia uma disposição nas posturas municipais de Santa Cruz das Flores que, apenas aos Domingos, permitia, que em plena Vila, se matassem porcos de forma tradicional. Ao sofrimento do animal, expresso nos guinchos agudos e penetrantes, acrescia o nosso desespero. Foi o ponto mais baixo de um dos mais difíceis trabalhos que tive na vida. Felizmente, terminou! À parte da violência da tarefa e do contexto que envolveu alguns dos seus momentos, este foi mais um contributo que os investigadores, técnicos e marinheiros do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores deram para o desenvolvimento sustentável da nossa Região. Ter participado nisso, deixa-me verdadeiramente orgulhoso.


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O poço do Varadouro Herberto Dart épocas de menor pluviosidade, necessitaria de água abundante para os seus governos e daí a escritura de venda, que lhe fez Manuel Francisco da Rosa, por indisponibilidade de seu pai Gabriel Francisco da Rosa, de 40 centiares ou 8 braças quadradas de terreno, tendo recebido 4.000 reis /moeda insulana) pelo referido terreno. Este poço prestou relevantes

embora já não o utilize. Os locais públicos de abastecimento, eram extremamente importantes para as pessoas e, mesmo na cidade, havia diversos, colocados estrategicamente. Junto à Igreja da Conceição, na Praça da Republica, na Matriz, em frente ao solar dos Bruns, hoje CTT, no Pasteleiro e, para abastecimento da navegação, no cais de

O poço actualmente

de veraneio, adega e vinhas, muito perto do local escolhido para a implantação do poço. Embora possuísse ampla cisterna, naturalmente que, em

serviços, antes da existência do actual chafariz, não só aos veraneantes, como aos pescadores e a quem por ali passava. Lembro-me de lá ir buscar

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água, com parentes e empregadas da casa de Joaquim Bettencourt, meu bisavô, sendo tão pequeno que, como não podia com a chamada “lata de petróleo”, utilizada para o efeito, davam-me um pequeno púcaro de barro, para transportar pouco mais do que um copo da preciosa água que, nesse tempo, já era um pouco salobra, mas ninguém se importava com isso.

Herberto Dart

o gado, fixando distâncias e penalizações para os prevaricadores. Essas medidas demonstram o elevado grau de higiene que se pretendia para tão importante, quanto indispensável liquido. É o caso do Poço do Varadouro, mandado construir em 1895, pela Câmara Municipal a pedido de Joaquim Silveira Bettencourt, o qual possuía casa

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Desde o povoamento da ilha do Faial, a incessante procura de água, por parte das populações, foi factor decisivo nas condições de vida dos seus habitantes, influenciando a sua fixação e a localização dos povoados, bem como a tipologia das habitações, os meios de armazenagem do precioso líquido e, finalmente, os sistemas de abastecimento das referidas populações. Essa história está ainda por contar, mas espero, que um dia, um dos nossos especialistas, e temos bons, faça essa pesquisa e respectiva comunicação. Ainda no tempo dos capitães donatários, já as populações foram-se fixando ao longo dos pequenos e temporários cursos de água existentes, construindo acessos de molde a utilizarem plenamente as potencialidades que a água lhes fornecia, cavando mesmo poços, no fundo dos seus leitos, para preservarem, o mais tempo possível, a água que, em alguns períodos do ano, ali escasseava, Á medida que o número de habitantes e o cultivo da terra já desbravada foi aumentando, foram também surgindo as cisternas, os poços, de maré ou de abóbada, bem como a captação de nascentes, apesar das grandes dificuldades de transporte e armazenamento. Posteriormente, a Câmara iniciou o abastecimento público, com a construção de reservas de água, chafarizes e poços, incentivando os particulares a colaborarem na sua captação, mas controlando a utilização através de Posturas, nas quais se proíbem a lavagem de roupa, linho ou vimes, bem assim como

F ot o Jo vial Fot oto Jovial sempre a pensar em si...

Na verdade, este tipo de extracção de água, dependia muito do nível do lençol de água doce e da maré alta ou baixa, daí o nome de poços de maré, que também algumas casas particulares possuíam, quando localizadas em zonas baixas e perto do mar. Na nossa casa do Varadouro, a água era primeiro fervida e depois passada por um pano antes de ser utilizada para se beber ou confeccionar as refeições. Sendo guardada num recipiente de barro, para mantêla fresca. Um dispositivo engenhoso permitia retirar a água da cisterna com um balde de madeira, despejando-a logo ali numa abertura de pedra que comunicava directamente com a cozinha por um tubo, através da parede e a deitava num grande talhão de barro, com tampa de madeira, sem ser necessário qualquer esforço. Ainda hoje conservo este equipamento,

Stª. Cruz. Este último era proveniente de uma enorme reserva subterrânea junto às Obras Públicas, aliás uma construção muito interessante e digna de ser mais conhecida. Este poço de maré do Varadouro era dotado de uma interessante peça de ferro fundido, a bomba, muito bonita e decorativa, que faz falta, como se pode verificar pela foto anexa. Também os mecanismos da Matriz e da Praça da Republica, deveriam ser repostos no local de onde foram retirados, pois eram pedaços da história da nossa cidade, dignos de serem apreciados como acontece por essa Europa fora, mesmo que não funcionassem ou que a sua água não fosse potável.


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Recordando alguns amigos Hélio Pamplona

(MAIS) UMA OPORTUNIDADE (DE CULTIVO E EXPORTAÇÃO)PERDIDA? que é melhor não se mexer muito na coisa! Ser-se dono e senhor do seu umbigo, pelo facto de não se ser muito de balanços! E muitos casos faz com que a Ilha do Faial tenha um marasmo que se torna arrepiante, fazendo ao mesmo tempo com que não evoluamos, o que dá azo a que sejamos ultrapassados por outras sociedades, mais afoitas e decididas, como os nossos vizinhos da Ilha Montanha que daquele basalto todo conseguem transformar, e fazer coisas lindas! E isso nota-se quando frequentamos o nosso Mercado Municipal, e não vemos os “Guilherme da Cova”, as “Marias Alto”, as “Marias de Jesus”, as “Castigo”, além de noutros tempos termos a

sabe Deus, confeccionadas como e com quê! Mas aos olhos de todos e “como somos muito ricos a comer com os olhos”, e como vêem muito bem embaladinhos, em vácuo, lá passa! Mas temos uma dúvida! Foram inspeccionados devidamente? Quem pergunta, não ofende! Enfim, que uns dedos (com unhas) é que “tocam viola”! Quanto a mim, só sei tocar campainhas de porta... e quando elas não estão muito altas! Mas raio, este meu feitio de divagar muito, quando o assunto era vocacionado para uma análise de “genica”, “teimosia”, “saber”, “iniciativa que Heitor H. Silva sempre tem demonstrado ao longo da sua vida, e eis o ter posto em marcha o “Avenida

Avenida Marginal

Na última edição do jornal “Avenida Marginal” li, com alguma atenção e parcimónia, o meu amigo Santos Silveira dissertando sobre algumas das peripécias perpretadas pelo “David” que, sozinho, enfrentou os Golias que abundavam pelo lado norte da cidade da Horta, fazendo lembrar, para ser “mais limpo”, os da “vila de baixo” e os da “vila de cima”. É uma comparação um tanto ao quanto vocacionada para a “limpeza”, mas que produziu os seus efeitos, como no anúncio da televisão. No que concerne ao caso narrado pelo Silveira, e que se mostrou eficaz com o nosso “David”, não tenhamos a mínima dúvida. E isto porque o tal “David”, ou seja o nosso Heitor H. Silva, teve, e continua a ter o

EM LISBOA A 14,32 O KILO! IMPORTADOS DA COLÔMBIA! POR ONDE ANDARÃO OS NOSSOS “EXÓTICOS”TOMATES CAPUCHO?

Pergunta a Yolanda Corsépius

Sopa dos amigos

arreganho, a força, a vontade, e a iniciativa de “agarrar o boi pelos cornos”! Salvo seja, é que não estou a fazer uma análise depreciativa da pessoa, ou pessoas, que se tentaram degladiar com o nosso “David”. Até porque, como compreenderão, não a(s) conheço. Estou, isso sim a constatar e a comentar um episódio que se passou com um picaroto, que como tantos outros, um dia demandou a Ilha do Faial, para frequentar anos a fio o Liceu Nacional da Horta Hoje, passadas mais de quatro décadas, é gratificante ouvirmos estas historietas de alguns cidadãos, que viveram as peripécias duma sociedade que tem a particularidade de ser muito “senhora do seu nariz”! Continua-se a ter a ideia de

simpática presença do “senhor Gilberto”, o homem que, embora analfabeto, se tornava num dos homens mais letrados que conheci! Quanto não valia a sua postura, a sua seriedade! São eles, e elas, os actuais, que homenageiam aquelas figuras incontornáveis que, como seus cestos e açafates, traziam e trazem à sociedade faialense, e a quem sazonalmente nos visita, sobretudo na época estival, o mel, a uva, os figos, as batatas doce e branca, a massa malagueta, o perrogil, o bolo e o pão de milho, além de outras iguarias, que os primeiros já não dispensam. E, até há pouco tempo, a linguiça que, por imposiçao comunitária, deixou de ser comercializada sendo substituída por idênticas, embora julgo, que de pior qualidade e,

Marginal”, colocando algumas questões que afectam os faialenses que sentem verdadeiramente a sua, e nossa terra! Há outros, que não ligam a nada destas coisas! Até nem conhecem que circula pela Ilha do Faial (gratuitamente) um jornal que se preocupa com os verdadeiros problemas que esta terra enfrenta! É esta a história verídica, passada na “Torre do Relógio” com o nosso “David”, e presenciada pelo meu amigo Santos Silveira, pessoa que ainda hoje continua a dar o seu melhor no Gabinete de Imprensa do Representante da República junto do Governo da Região Autónoma dos Açores.

Avenida Marginal

Numa panela grande coloque um quilo de carne de vitela, um quilo de carne de porco, duas linguiças, um bocado de toucinho de fumeiro, uma couve esfarrapada, quatro cenouras e duas cebolas cortadas grosseiramente. Tempere com sal e deixe cozer muito bem. Por fim junte batata branca cortada aos quadrados, uma batata doce, um frasco de feijão branco cozido e um pouco de macarrão. Verifique a quantidade de caldo e sirva a sopa acompanhada pelas carnes.

Tarte de maçã Descasque cinco maçãs reinetas, corte em gomos finos e deite num tacho com duas colheres de sopa de açúcar, duas colheres de chá de canela e duas colheres de sopa de água. Leve ao lume durante dez minutos. Na forma de tarte, já forrada com a respectiva massa, deita-se o preparado, que se cobre com uma folha de massa ajeitando os bordos com um garfo. Pica-se a cobertura com o garfo de modo a libertar o vapor. Vai a cozer em forno não muito quente até ficar loura. Carmina Moniz Dart


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• Avenida Marginal • quinta feira 23 de Dezembro 2010

Pausa no trabalho António P. B. Viana mão terá de se mover ao longo de uma distância de dez centímetros, o que permite diluir o esforço e fazer o mesmo serviço mais devagar. Por aqui se vê que não é muito justo nem estimulante sermos pagos por horas ou meses de trabalho. Realmente podemos, ou fazer o trabalho de uma vez por todas, agarrando no pedregulho e erguendo-o do chão, ou ir fazendo isso pouco a pouco, usando a dita alavanca. Recebendo ao mês, tanto ganhamos de uma maneira como da outra. Daí que, como poderia ter escrito Gil Vicente na sua breve comédia, o gordíssimo TODO O MUNDO deseje

indivíduos são masoquistas, capazes de transformar em fonte de prazer o que, por si, é doloroso. Ou que se diga que quem sente prazer trabalhando, não está verdadeiramente a trabalhar, mas sim a praticar um desporto que o diverte. Marx escreveu também que quem se habitua a viver do trabalho dos outros nunca mais se acostuma a viver do próprio. Alguns maoístas acreditavam porém na possibilidade de reeducação : punham monges, proprietários, prostitutas e outros parasitas a fazer estágios de trabalho junto das massas. Alegam até ter conseguido recuperar para o trabalho útil um antigo Imperador da China que,

autor se exprimia, “maluco”. Ao abrir o jornal topei-me, por coincidência, com o fascinante artigo “Pausa” de Carla Kook sobre a “ergomania”. Foi então que perguntei a min próprio: Será que o trabalho é mesmo algo de maluco? A unidade CGS de trabalho e de energia (que são afinal o mesmo, apesar de tutelados por Ministérios diferentes) é o erg ou seja a força de um dine actuando na distância de um centímetro. Ora são precisos tantos ergs de trabalho (ou de energia) para elevar um pedregulho de 1 cm, quer isso seja feito directamente, quer com uma alavanca. Se esta tiver o fulcro dez vezes mais perto do pedregulho do que a mão do trabalhador estiver do dito fulcro, essa

empregos e que o magricela NINGUÉM queira trabalhar. Ninguém... excepto os ergomaníacos. Certos filósofos têm ideias curiosas acerca do trabalho, embora sem a límpida clareza das ideias dos cientistas da Física sobre o mesmo tema. Assim, por exemplo, Bertrand Russel dizia haver dois tipos de trabalho: 1.º Mudar a posição dos corpos materiais. 2.º Dizer aos outros que façam isso. Esta segunda forma de trabalho seria mais cómoda, mais segura e melhor remunerada do que a primeira. Karl Marx, por seu lado, sustentou que o trabalho é, por sua natureza, penoso, exigindo como compensação um salário. A “ergomania” desmente tal afirmação, pois há quem trabalhe por gosto... A menos que se argumente que esses

na perspectiva deles, teria sido o parasitamór do Celeste Império. Estas citações parecem mostrar que os pensadores políticos, ao invés de recearem a “ergomania”, se preocupam muito mais com a moléstia que ocupa o extremo oposto, a “ergofobia”, ou seja, um horror patológico ao trabalho. E isso não é de hoje. Há mais de seis séculos, El-rei D. Fernando I, que Deus tem em Sua santa glória, promulgou a Lei das Sesmarias, com o louvável intuito de erradicar do seu Reino a fome e a miséria. Tinha havido a peste negra, muitos lavradores tinham morrido e grande parte das terras do país estavam abandonadas. Os poucos trabalhadores sobreviventes exigiam salários elevados. Alguns tinham herdado, de parentes afastados,

Avenida Marginal

Estava folheando um livro americano de divulgação da Física por Asimov, quando o carteiro me trouxe o Avenida Marginal. Tinha diante dos olhos a fórmula w = f . d quer dizer, o trabalho ( w de work) equivale à força vezes a distância. Mas acontece que f = m . a ou seja, a força equivale à massa multiplicada pela aceleração. Da conjugação das duas equações resultava w = m.a.d isto é, o trabalho corresponde ao produto da massa pela aceleração e pela distância. Esta conclusão óbvia estava a fazer-me sorrir, pois mad significa, na língua em que o

propriedades extensas, julgavam-se ricos, já não queriam trabalhar e esperavam que outros o fizessem por eles. Muitos homens diziam-se fidalgos ou clérigos, ou eram falsos cegos, surdos, paralíticos, etc. , sendo, no fundo, verdadeiros vadios. A Lei régia dispunha que os salários fossem tabelados. Os proprietários que não pudessem cultivar tudo o que possuíam, com a sua mão ou com assalariados que arranjassem, eram obrigados a arrendar, por rendas tabeladas. Se o não fizessem, as terras ao abandono, tivessem ou não dono, seriam dadas a quem as trabalhasse. Os vagabundos eram compelidos a trabalhar. As ideias pareciam boas. Mas, segundo alguns historiadores (ex: Damião Peres), na prática, não funcionaram. Os trabalhadores que restavam já não trabalhavam de boa vontade pelos salários tabelados. Dantes olhavam o trabalho como uma benção. Com a nova Lei, o trabalho surgia-lhes como uma maldição. E quem sustentaria as famílias dos proletários enquanto estivessem desbravando terras incultas, lavrando, semeando e esperando pelas colheitas? Mal por mal, os autênticos trabalhadores foram-se conformando com os salários miseráveis impostos pelas autoridades, que já não resultavam de um livre ajuste entre patrão e obreiro, regulado apenas pelo jogo da oferta e da procura. Um ou outro espertalhão, com alguns meios e ajudas, terá conseguido arrendar boas terras por uma bicharia ou até tornar-se proprietário. Alguns terão mesmo arranjado maneira de passar a viver sem trabalhar. Quanto aos vagabundos, que já não gostavam do trabalho, ficaram a detestá-lo ainda mais. A maior parte terá tido artes de se furtar ao trabalho obrigatório, fugindo para as cidades, roubando ou pedindo clandestinamente, o que terá sido facilitado pelas desordens e guerras que infestaram a época. E é claro que o pouco trabalho extorquido a algum vadio, apanhado por azar nas malhas da Lei, não terá sido rentável. Era prestado a contra gosto, por pessoas que não sabiam, não queriam e não costumavam trabalhar. Na minha modesta opinião, formada pelo pouco que aprendi de História e de Física, parece-me que os homens podem ser persuadidos ou estimulados a trabalhar (ou a descansar). Obrigados não. D. Fernando, o Formoso, tentou obrigar os vagabundos a trabalhar, mas falhou. A fome e a miséria não desapareceram. Agravaram-se. Acho até que dá mais trabalho forçar um vadio a trabalhar do que fazer o serviço que lhe compete.


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quinta feira 23 de Dezembro 2010 • Avenida Marginal •


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Saramago, o Bicho Harmonioso Crise? Qual crise? Onésimo Teotónio de Almeida

Maria José Alemão

na teimosia de chamar a atenção para a literatura produzida nos Açores - e esquecida no Rectângulo sempre que o autor se deixou a viver por lá, no meio do Atlântico. Ela tinha, afinal, sido captada pelo radar de Saramago. O nosso último contacto pessoal acontecera meio-ano antes. Saramago aparentava um ar frágil mas o seu espírito transcendia o corpo. Nessa altura Saramago queria homenagear José Rodrigues Miguéis, com quem manteve uma intensa troca epistolar enquanto fucionário da Estúdios Côr, a editora do escritor luso-americano que vivia em New York. Pediu-me que organizasse um painel, e eu compu-lo com os estudiosos que me pareceu terem algo de novo sobre esse não devidamente lembrado romancista. Um deles foi José Albino Pereira que em Salamanca elaborara uma tese de doutoramento sobre Miguéis, para a qual fizera pesquisa no espólio do escritor, na John Hay Library da Brown University, em Providence, Rhode Island. Em anexo à tese, incluíra a correspondência entre Miguéis e Saramago e o autor, da qual leu uma amostra na referida sessão, que teve lugar na Casa do

- peças da mais genuína crítica literária de um leitor sem traquejo académico, desprovido de jargão, mas provido de argúcia, de espírito crítico e de um vernáculo que se lhe soltava da pena como da nascente do mais cristalino rio. Assentou-se ali que sim, era altura de levar ao prelo essa correspondência. Ela aí está, de facto, recentemente chegada às livrarias (José Rodrigues Miguéis - José Saramago. Correspondência, 1959-1971. Coordenação de José Albino Pereira, Caminho, 2010), um naco antigo de um Saramago sabendo a novo, que bem vale a pena ler a avagarar o tempo. Dois exímios cultores do nosso vernáculo, conversando no anonimato, agora na praça pública das letras lembram-senos ao vivo. Fico cá eu com a minha curiosidade agora impossível de se ver satisfeita. Nessa sessão “açoriana” em Lisboa, que por razões irrelevantes ficou adiada, o nosso Nobel ia falar de Nemésio e do seu Bicho Harmonioso. Apesar da fragilidade física que lhe notara em Junho, Saramago e a morte não eram substantivos combináveis. Pelo menos não

que não será obstáculo para a eficácia) da literatura açoriana. Creio que seria uma novidade para muita gente que presume de estar a par. […] Quando era de pensar que do Saramago, sujeito a sobreexposição mediática, se sabia tudo, chega esta revelação a contar do impacto nele de um livro de poesia de Nemésio. Mais ainda: o impensável há três dúzias de anos, quando comecei

Alentejo, em Lisboa em Junho de 2009. Eu já havia sugerido a Zeferino Coelho a publicação dessa correspondência, pelo valor dela e, particularmente, pelas cartas de Saramago. Um Saramago virgem, quase anónimo (ou só José), que lia gostosamente os livros de um autor da editora para que trabalhava, mas lia deveras, como devem ser lidos os bons livros, e nas cartas dava magnífica conta dessas leituras

pareciam. Foi só por não querer importuná-lo que, nos vários emails que trocámos sobre o referido painel, eu nunca perguntei: Mas afinal, diga-me um pouco mais sobre a sua leittura de “O Bicho Harmonioso”. Tivesse-me eu atrevido, aposto que o bicho harmonioso Saramago se teria dado à paciência de ma resumir num golpe luminoso e na sua elegantíssima prosa que nem nos e-mails deixava de sê-lo.

Decidi abraçar a crise! Estou farta de ouvir falar na crise, de como iremos, nós, portugueses, ficar com a crise, de como a crise nos afectará, a crise, a crise, os sacrifícios que nos irão ser exigidos, em nome da crise... Cansei-me! A crise deprime-me! Ouvir falar na crise deprimeme ainda mais. Por isso, e como resolução para o(s) próximo(s) ano(s), decidi não pensar na crise. Não falar na crise. Não ouvir falar na crise. Pode ser que a crise tenha vergonha na cara e decida recuar para outras paragens, que aqui já foi chão que deu uvas. Avenida Marginal

A esta hora, Saramago ou sabe onde está, ou não tem mais hipóteses de saber nada, como aliás dizia crer. Nós portugueses, ideologias à parte, sabemos que perdemos uma referência fundamental das nossas letras e um rosto de Portugal no mundo que se interessa por algo mais do que a bola e Ronaldo. Tudo já foi ou será dito por outrem. Tentarei por isso acrescentar algo que pelo menos ainda não esteja muito repetido. O meu último contacto com José Saramago ocorreu via Internet, numa série de e-mails, anunciando o intento de fazer na sua Fundação uma homenagem pública a Nemésio. Era assim o primeiro deles, em Janeiro último: […] Boas entradas, bom ano novo em companhia de todos os seus, ainda quando estejam longe. Que me diz a fazermos em Fevereiro uma sessão sobre o Vitorino Nemésio, de quem se continua a falar, mas que já poucos lêem. Pessoalmente, não esquecerei a impressão que me causou, há tantos anos já, a leitura de “O Bicho Harmonioso”. […]A minha ideia seria aproveitar a ocasião para uma panorâmica, forçosamente breve (o

Colectiva de Arte - Avenida dos Aliados, Porto

Como parte desta importante resolução, deixei de ver os telejornais, deixei de ler os jornais bombásticos que põem em grandes parangonas a crise disfarçada na primeira página... Títulos como “Choque Fiscal” e outros na mesma linha já não me afectam. Quero dizer, afectam-me, agora dão-me vontade de rir. E quando me falam na crise, eu pergunto com os olhos arregalados “qual crise?”. Pode ser que a dita se desencoraje mesmo... Em França atiram-se pedras, fazem-se greves, adere-se à violência gratuita em nome da crise. Nós, por cá, todos bem! A crise passa-nos ao lado. E, convenhamos, é perfeitamente ridículo gerar violência em nome da crise... Pergunto eu: a crise passará assim? As medidas anunciadas deixarão de ser tomadas? Pareceme que a resposta é um evidente NÃO! Outra coisa que não entendo (mas também não procuro entender, logicamente!) é o medo irracional que as nossas entidades ilustres têm assumidamente do FMI... Porquê, senhores? Na minha humilde e modesta opinião, quem não deve não teme... Serei só eu a pensar assim???? Afinal o que é que o FMI poderá fazer-nos? Aumentar-nos os impostos de forma igualitária e equilibrada? Obrigar-nos a prestar contas mensalmente dos pequenos passos que formos dando? Dizer-nos que estamos como a Grécia? Alô???? Qual é a novidade???? Tanto medo faz-me pensar que talvez tenhamos muitos podres a esconder... Daqueles que não convém mesmo que ninguém saiba, tais como despesas descontroladas por parte do Estado, colocação de altas individualidades (ou filhos/amigos/afilhados de tais individualidades) em postos vitalícios de inércia excelentemente recompensada com salários que nos dariam vontade de rir se não fossem dramáticos... Ou “coisas escondidas” no âmbito do nosso querido banco central (vulgo Banco de Portugal), que tão “ingenuamente” tem sido gerido por senhores da alta esfera, que nada sabiam, nada viram, nada perceberam do estado da nação... Mas que foram devidamente recompensados pela ingenuidade, e até foram ser ingénuos para outro lado... Mas eu tenho assumidamente mau feitio, e maus pensamentos. Por isso, e só por isso, não me vou MESMO preocupar com nenhuma crise. Aqui fica a minha resolução para, pelo menos, a próxima década. Crise? Qual crise? Há alguém em crise? Não, nós por cá todos bem!


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Falando um pouco sobre

Aquicultura/Maricultura… nos Açores Eduardo Isidro

Cracas

Então e os Açores? Como se posicionam neste sector e no contexto insular do qual fazem parte? É certo que todas as ilhas apresentam, genericamente e em termos de desenvolvimento de diversas actividades económicas, desvantagens iniciais relacionadas quer com o seu afastamento em relação aos Continentes, quer com a sua própria dimensão. Ambientes naturais mais expostos às intempéries e acção do mar, transportes menos regulares e mais caros, mercados locais pequenos e consequente dificuldade em desenvolver economias de escala, dificuldades na mobilização de investimentos privados e, frequentemente, dificuldades em mobilizar o conhecimento técnico e científico que suporte e catalise as actividades mais tecnológicas, pertencem à lista de desvantagens frequentemente apontadas às ilhas. Contudo, é bem certo que há também algumas vantagens, uma vez que as ilhas apresentam linhas de costa relativamente grandes, água com boa qualidade, menores riscos de poluição e de doenças, assim como uma imagem naturalmente atractiva que pode ser utilizada para promover os seus produtos. Há, também, desvantagens que podem ser transformadas em vantagens, como por exemplo o caso da maior exposição às intempéries e acções do mar que, podendo ser tecnologicamente ultrapassadas, promovem uma excelente renovação da água e dissipação de produtos (restos de alimentos, por exemplo) que, concentrados, poderiam ser poluentes ou ambientalmente impactantes. No contexto das ilhas da Macaronésia (Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde), a opção das Ilhas Canárias foi clara e, tendo começado, há pelo menos vinte anos atrás, a desenvolver investigação neste domínio, produzem actualmente cerca de 26% de toda a dourada e robalo de Espanha, a qual, por sua vez, é o terceiro maior produtor mundial destas duas espécies. Actualmente as Canárias possuem infra-estruturas, conhecimentos e um tecido técnico-empresarial que lhes permite evoluir e apostar na diversificação de espécies. A ilha da Madeira, pelo seu lado, começou há cerca de catorze anos atrás, a tes-

tar as primeiras jaulas oceânicas e há cerca de 10 anos planeou e construiu o Centro de Maricultura da Calheta, para nele desenvolver investigação e fornecer formação técnica de apoio à

boração da empresa SeaExpert e que se espera que seja continuada num futuro próximo; apoiou um pequeno projecto para estudo e estabulação de ouriços (também com a empreDOP - Universidade dos Açores

do a apresentar, nos últimos vinte a trinta anos, uma taxa de crescimento extraordinariamente elevada. Actualmente produzse, entre peixes, moluscos e crustáceos (i.e. excluindo algas), cerca de 68 milhões de toneladas anuais. Esta produção começa, pois, a rivalizar com a obtida pela pesca, que se cifra em cerca de 91 milhões de toneladas/ano (FAO 2010). Estes números, sendo, na sua relação, fiéis indicadores da realidade mundial e da importância da aquicultura como fonte de alimento, escondem grandes assimetrias, uma vez que a produção em países localizados na Ásia e na América do Sul é maior e tem crescido muito mais do que na Europa. Na Europa, o crescimento da produção tem sido mais tímido, embora considerável (crescimento com cerca de 5% ao ano). Curiosamente, Portugal, que é considerado como o país Europeu com um dos maiores consumos de peixe per-capita (cerca de 57kg/ano, versus uma média europeia de 21,4kg - Eurostat, 2008) é um dos países com a menor taxa de crescimento neste sector: em 1986 produzia-se cerca de seis mil toneladas de peixes e moluscos e em 2008 cerca de oito mil toneladas.

DOP - Universidade dos Açores

A aquicultura, definida como sendo o processo de produção de organismos aquáticos (incluindo peixes, moluscos, crustáceos e algas), passou, no século vinte, de uma quase arte, para uma ciência multidisciplinar, em que a tecnologia se articula com a biologia e alguns dos seus ramos (nutrição, saúde, fisiologia, etc.). De facto, embora a aquicultura seja uma actividade com uma origem que se perde na memória e na história de várias civilizações, nomeadamente a civilização romana que se supõe ter introduzido esta actividade na Península Ibérica, só a partir dos anos setenta do século vinte, após os primeiros colapsos de alguns mananciais pesqueiros julgados inesgotáveis, se lhe começou a dar a urgência e a responsabilidade de fornecer, à humanidade, alimento em qualidade e quantidade apreciável. Para além disso, tem desempenhado também um papel relevante na mitigação de danos causados pelo próprio homem, estando na base de diversos programas de repovoamento de locais/espécies/populações sobreexploradas ou em risco de desaparecimento. Não será, pois, de surpreender, que a aquicultura tenha vin-

Octopus vulgaris

actividade. Actualmente a Madeira produz, de uma forma intensiva, no mar e em terra, cerca de quatrocentas toneladas de dourada (espécie introduzida), exportando parte desta produção para o mercado continental. Mas e os Açores? Os Açores, para além de parecerem partilhar o aparentemente grande cepticismo de Portugal continental relativamente à aquicultura, apresentam, de facto, algumas, ou muitas das desvantagens iniciais acima listadas. E embora se possa dizer que a aquicultura nos Açores é praticamente inexistente, creio que se começa a sentir a sua falta, tanto mais que alguns dos recursos pesqueiros dão sinais de algum depauperamento. O DOP, embora timidamente e com poucos recursos e infra-estruturas adequadas para este tipo de investigação, tem-se esforçado, nos últimos quatro a cinco anos, para acender esta chama. Assim, em colaboração com a LOTAÇOR, efectuou uma primeira experiência para a engorda de polvo; deu início a uma experiência para o cultivo de cracas, que foi posteriormente ampliada com a cola-

sa SeaExpert); e iniciou um estudo sobre a lapa-burra, com a colaboração de uma outra empresa local. Além disso, promoveu, em 2008, uma reunião internacional para que, conjuntamente com vários peritos de renome, se começasse a discutir e a entender qual o tipo de aquicultura e de modelo de desenvolvimento que melhor poderá servir os Açores. Esta discussão está longe de estar terminada, mas já existe um desenho conceptual para a construção de uma pequena estação experimental de aquicultura que, a avaliar pelo exemplo que nos chega de outras regiões, poderá ser determinante neste processo. A minha percepção geral é a de que embora as ilhas e os ambientes insulares apresentem desafios e problemas únicos, os Açores não poderão deixar de se preparar para um jogo que, neste campo, me parece inevitável. Criar e usar as suas próprias ferramentas e entender quais as suas vantagens naturais, mesmo que escassas, parece-me importante e urgente. E os leitores, que acham?


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DOP/Universidade Açores 1 e não graduados, pessoal de navios e outro pessoal administrativo, perfazendo um total de cerca de 110 pessoas para o ano de 2010. A massa crítica técnica e científica envolvida no DOP/UAç é tornada possível dado o sucesso na obtenção de projetos de investigação nacionais e internacionais, em especial no âmbito dos Programas Quadro de Investigação da Comissão Europeia e da Fundação para a ciência e Tecnologia. Na generalidade os membros graduados da equipa conheceram distintos enquadramentos académicos em Portugal e no estrangeiro (Europa e EUA) onde tomaram conhecimento de diferentes ambientes científicos. Tem havido ao longo dos anos um enorme interesse por parte dos membros mais seniores desta equipa em tornar a Universidade dos Açores numa instituição nacional/internacional conhecida pelos seus estudos oceânicos. Por isso, os seus membros sentem a necessidade de investir num trabalho de equipa multidisciplinar e de formação internacional. Também por esta razão se tem cultivado a cooperação internacional e a participação em redes. O DOP/UAç participa, desde 1991, na rede de investigação IMAR- Instituto do Mar, de que a Universidade dos Açores é membro fundador, e desde 2001 no Laboratório Associado (Institute of Systems Research on Sciences, Technologies and Policy) em consórcio com o ISR (Instituto de Sistemas e Robótica) e o IN+ do Instituto Superior Técnico e o CREMINER da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Desde 1996 que participa na rede europeia Marine Association of Research Stations, em cuja direção tem assento, e, desde mais recentemente, no portal EurOcean e nas Redes de Excelência Europeias MarBEF (European Network of Excellence on Marine Biodiversity and Ecosystem Functioning) e ESONET (European Seas Observatory Network). De particular referência são também as participações de investigadores do DOP nos Steering Committees de três das grandes iniciativas do programa Census of Marine Life (CoML): ChEss (Biogeography of Chemosynthetic Ecosystems), MAR-ECO (Patterns and Processes of the Ecosystems of the Mid-Atlantic Ridge) e CenSeam (A Global Census of Marine Life on Seamounts). No caso do projecto MARECO um dos investigadores é também o representante dos países do Norte na extensão da iniciativa ao Atlântico Sul. O DOP participa ainda na iniciativa internacional OTN (Ocean Tracking Network). O DOP/UAç tem ao seu serviço o N/I ARQUIPÉLAGO e outras embarcações mais pequenas, entre as quais a L/I “Águas-Vivas. Estes constituem uma boa vantagem na organização de cruzeiros anuais e do trabalho de equipa. A localização do Departamento junto ao porto da Horta,

e

e o fácil acesso ao Oceano constituem também uma vantagem para os estudos oceânicos. O DOP/UAç tem mantido uma intensa colaboração internacional e tem sido um vector do crescimento da actividade de navios de investigação, submersíveis e ROVs no mar da Região Autónoma dos Açores (RAA). Os investigadores do DOP/UAç têm participado em muitos dos principais cruzeiros científicos que têm ocorrido no Atlântico Norte nas duas últimas décadas, e a maioria dos navios passaram a aportar ao porto da Horta

DOP/UAç e o GRA no âmbito da implementação de políticas públicas para o mar e ecossistemas marinhos sustentadas na melhor informação científica. Os investigadores do DOP/ UAç têm sido assim chamados a aconselhar o Governo Regional, mas também o Governo da República e a Comissão Europeia, relativamente à prossecução de políticas nos domínios das pescas, do ambiente e da investigação científica. O DOP/UAç cultiva, desde há mais de duas décadas, uma relação de proximidade com a sociedade, através

sobre os ecossistemas hidrotermais quimiossintéticos de grande profundidade sendo, no quinquénio 2006-2010, a 9ª instituição a nível mundial no que diz respeito a número de publicações científicas internacionais, estando assim a contribuir para colocar Portugal no 8º lugar entre os países do mundo nesta importante e difícil área de investigação (análise efectuada no âmbito da Web of Knowledge). Em 2007 o DOP foi referido pela revista Research*EU: Magazine of the European Research Area, publicada pela Direcção Geral de Investigação da

onde o departamento tem a sua sede. Desde a sua fundação que o DOP/ UAç tem sido um parceiro privilegiado do Governo da Região Autónoma dos Açores (GRA), em especial nas áreas do ambiente e das pescas. Neste sentido a investigação tem sido conduzida com o objectivo suplementar de verter resultados para as necessidades das políticas públicas, a gestão de recursos bióticos dos oceanos e o desenvolvimento económico. São neste âmbito de particular relevo os protocolos entre o

de acções de formação e de divulgação científica. Tem produzido programas de televisão de carácter divulgativo, kits didácticos, artigos de divulgação em revistas de grande circulação, acções de formação e divulgação junto de escolas e outros sectores da sociedade (e.g. séniores, turistas, pescadores, etc.), Centros de Interpretação (2), Videos, DVDs, CDs, etc. De realçar que o DOP/UAç se tornou um dos principais departamentos universitários no âmbito da investigação

CE como um dos “principais pilares da excelência oceanográfica Europeia” (...) “...estabelecendo elevados standards” em ciências oceânicas e também como um dos “centros que orgulham a UE”1.

(Footnotes) 1 (Special Issue December 2007- Maritime Policy: The State of the Ocean. P. 3 and p. 42:


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CEPROPESCA ( um projecto para a valorização das Pescarias Sustentáveis dos Açores ) Carla Dâmaso Ecossistemas. Nas ilhas dos Açores a pesca é uma actividade intrínseca dos seus habitantes, datando dos primórdios da colonização. Na Zona Económica Exclusiva dos Açores, a maior da Europa, a frota pesqueira açoriana, composta maioritariamente por pequenas embarcações, continua a praticar uma

cerco ou o arrasto de fundo, este último proibido nas nossas águas. Esta proibição é exemplo da grande preocupação com a conservação dos recursos marinhos, que passa não só pela protecção dos recursos marinhos com interesse comercial, mas também pela adopção de medidas mais abrangentes, como a criação de Áreas Protegidas Marinhas

da riqueza dos nossos oceanos. Uma forma de o fazer passará, sem dúvida, pela valorização e promoção das boas práticas na pesca, em detrimento de práticas destrutivas características das grandes pescarias, altamente extractivas e com grandes impactos negativos nos

pesca marcadamente artesanal e tradicional, que visa a sustentabilidade ambiental, com menor impacto no meio ambiente marinho e efectuada essencialmente com aparelhos de linha e anzol, muito selectivos quando comparados com artes de pesca como o

que podem beneficiar um grande número de espécies e habitats. Embora não pareçam existir evidências de que as populações locais estejam sobre exploradas, há que agir cautelosamente em relação às populações atlânticas, como é o caso dos atuns, que embora

DOP - Universidade dos Açores

Actualmente encontramo-nos perante um cenário pouco favorável, catastrófico segundo alguns, para as pescarias globais e para a conservação das espécies marinhas com interesse comercial. É urgente tomar medidas que permitam inverter a tendência que testemunhamos, se queremos assegurar que as gerações vindouras, tal como nós, possam usufruir

sejam explorados de forma tradicional pelos pescadores locais, quando passam pelos Açores na sua rota de migração, são alvo de grande pressão por parte de outras pescarias noutros locais do Atlântico e Mediterrâneo. É neste contexto que surge o projecto CEPROPESCA – Certificação e Promoção de Pescarias e Produtos de Pesca dos Açores. Numa primeira fase, obteve-se a certificação da pescaria demersal dos Açores com o rótulo “Friend of the Sea”, que advém da sua sustentabilidade ambiental. Esta certificação já existia para a pescaria de atum, como consequência do trabalho desenvolvido no âmbito do POPA – Programa de Observação das Pescas dos Açores. A partir daqui desenvolveuse uma campanha promocional cujo mote foi “Peixe dos Açores – Peixe de qualidade, capturado de forma sustentável”, tendo sido criada uma série de produtos de divulgação, dos quais se destaca o “Guia do Consumidor dos Peixes Açorianos”, com duas edições e oito mil exemplares distribuídos por todo o mundo. A segunda fase do CEPROPESCA pretende-se mais inovadora, apostando no recurso a novas formas de divulgação, mas também novas técnicas de produção, para a promoção das Pescarias Sustentáveis dos Açores e dos seus produtos. As campanhas a desenvolver incidirão sobre a necessidade da existência de boas práticas ambientais, dando ênfase às medidas ambientais implementadas nos Açores e ao actual estado das populações localmente exploradas. Os principais alvos serão os profissionais do sector e os consumidores. Os primeiros, através de uma campanha de sensibilização visando alertar para práticas ambientais menos correctas, para as vantagens da utilização de artes de pesca amigas do ambiente e para a importância da valorização do pescado, permitindo assim aumentar a sua qualidade, diminuindo as quantidades capturadas. No que respeita aos consumidores, pretendemos fornecerlhes as ferramentas necessárias para que possam fazer escolhas informadas. O futuro dos recursos marinhos não depende exclusivamente das leis e das políticas de pesca. Os consumidores, através das suas escolhas individuais e responsáveis, também têm um papel indispensável na protecção dos oceanos.

http:// jornalavenidamarginal.blogspot.com


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Observatório científico do banco Condor ( uma abordagem pioneira ) 1 estudados (menos de 300 em 100.000 grandes MS estimados). Os montes submarinos são estruturas geológicas comuns na ZEE dos Açores, estimando-se a existência de 63 grandes MS e 398 pequenos montes ou elevações menores. Na região, mais de 60% das pescas demersais e de profundidade são efectuadas em montes submarinos, sendo por isso ecossistemas importantes em termos económicos, que interessa gerir de forma sustentável. Ao longo dos anos o Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) tem realizado um importante esforço de investigação nesta área, sendo actualmente uma instituição reconhecida internacionalmente no estudo destes ecossistemas. Com vista a aprofundar o conhecimento acumulado foi implementado o projecto multidisciplinar CONDOR (Observatório para o estudo de longo-prazo e monitorização dos ecossistemas de montes submarinos nos Açores), o qual se iniciou em meados de 2008. Este projecto liderado pelo DOP, é co-financiado por fundos do programa EEA-Grants (suportado pela Islândia, Liechtenstein e Noruega), e tem como parceiros o Instituto Nacional de Investigação das Pescas e do Mar (IPIMAR) e o Institute of Marine Research da Noruega (IMR). A escolha do banco Condor para a realização deste estudo deveu-se a vários factores: a sua proximidade ao Faial (possibilitando visitas regulares e rápidas ao local), o seu tamanho (aos 400 m de profundidade a área é sensivelmente igual à área da Ilha do Corvo – 20 km2) que permite uma cobertura de amostragem total do banco e a amplitude de profundidades existentes (180 – 1000m) cobrindo várias gradientes biológicos importantes. O projecto CONDOR pretendeu estabelecer uma estação científica de observação de longo prazo no banco Condor, com observações e recolha de dados em permanência e recolha e inventariação do maior número possível de organismos que ali ocorrem. As observações permanentes “in situ”, permitem detectar e medir a variabilidade temporal de várias variáveis oceanográficas e biológicas à escala de horas e de meses, fornecendo um conjunto completo de medições e observações relevantes para uma melhor compreensão destes ecossistemas. Assim, no decorrer do projecto foram já fundeados no banco vários equipamentos, de registo de temperatura, de correntes oceanográficas, de sons, ou de armazenamento de imagens acústicas da coluna de água. Outros equipamentos fundeados permitem igualmente a recolha do material que vai sendo depositado no fundo (sedimentos). As várias campanhas para recolha de dados e organismos já realizadas, cobriram diferentes áreas de investigação, tendo sido utilizados os navios de investigação Arquipélago,

Noruega, Gago Coutinho e a lancha de investigação Águas Vivas. Para a recolha de imagens de organismos e paisagens submarinas a profundidades ainda mal conhecidas, foram já utilizados os ROV Luso e o pequeno ROV Sp do DOP (ROV - Veículo Operado Remotamente), encontrado-se ainda em desenvolvimento uma estrutura para recolha de imagens, equipada com câmeras capazes de atingir os 3000 m de profundidade. Até ao momento, marcaram-se mais de 500 peixes demersais com interesse comercial, e implantaram-se cerca de 29 marcas electrónicas em gorazes, que nos permitirão perceber os movimentos e migrações dos animais, ou o tempo de residência no local. O projecto, tem vindo assim a utilizar metodologias de amostragem muito diversas, e tem vindo a realizar um levantamento exaustivo da biodiversidade do local, desde os vírus e bactérias dos fundos marinhos do banco, até às espécies de cetáceos e grandes pelágicos

de total interdição à pesca de fundo. Para além da pesca comercial, está igualmente a ser realizado um levantamento dos vários usos do banco (e.g. pesca turistíca, observação de cetáceos, etc) com o objectivo de se obter de forma mais abrangente, o real valor económico desta área e dos montes submarinos da região em geral. Para já, foi possível estimar que entre 1998 a 2008, foram capturadas mais 1000 toneladas de algumas espécies de peixes demersais (goraz, abrótea, boca negra, alfonsim, cherne, imperador, congro, bagre), que renderam, em valores de primeira venda em lota, mais de 5,3 milhões de euros. Foi igualmente já apurado que o banco Condor representou neste período em média, cerca de 3% das capturas totais anuais dos Açores, e cerca de 16% em média da pesca efectuada anualmente pelas embarcações de pesca da ilha do Faial; que são aquelas que mais utilizam o banco. Conhecer o historial de pesca neste banco é importante para melhor percebermos quais os níveis de

que o visitam para se alimentar, passando pelos peixes demersais, pelo fitoplâncton, zooplâncton, ou corais de profundidade, encontra-se agora numa fase mais intensa de análises laboratoriais e de análise de dados. O observatório tem permitido estudar as condições hidrológicas, a dinâmica oceanográfica; a biodiversidade do local, a variabilidade espacial e temporal nas abundâncias de alguns organismos que ali ocorrem; bem como obter mapas topográficos de elevada resolução que permitem caracterizar os diferentes habitats existentes em grande detalhe, e perceber melhor a distribuição dos organismos e a estrutura ecológica deste banco. O projecto deverá também fornecer dados importantes sobre o actual estado de exploração das espécies de peixes de fundo do banco Condor, e permitirá perceber quais as alterações nas abundâncias que deverão ocorrer depois de um determinado período experimental

exploração mais adequados e sustentáveis. O projecto dividiu-se em várias componentes entre as quais a disseminação pública e educacional sobre os montes submarinos. Nesta última componente destaca-se realização de um documentário televisivo de 2 episódios, um sobre os montes submarinos em geral e outro sobre o projecto CONDOR em particular, em colaboração com a RTP Açores e que se espera finalizar em Abril de 2011. O carácter inovador deste projecto, reflecte-se não só no potencial de descoberta científica que lhe está associado mas também, na abordagem experimental de longo prazo que é proposta e no seu carácter multidisciplinar, envolvendo mais de 40 pessoas, entre investigadores, estudantes e técnicos. O observatório Condor, está a permitir a criação de um cenário de experimental abrangente e inovador,

DOP - Universidade dos Açores

e

criando assim oportunidades de implementação de outros projectos de investigação complementares. Os Açores, dadas as suas características naturais, é provavelmente um dos poucos locais do mundo onde seria possível realizar uma investigação deste tipo e com esta abrangência. A importância económica dos montes submarinos para a região justifica que se faça este esforço de investigação já que, os benefícios internos indirectos que são esperados, serão certamente reflectidos numa melhor compreensão geral dos recursos marinhos da região. Não seria possível no entanto cumprir com os objectivos deste projecto se o banco Condor não fosse fechado a actividades de pesca. Por isso desde Junho de 2010 que as actividades de pesca não são permitidas no banco Condor. A necessidade de implementar estas restrições, prenderam-se com duas razões principais da qual dependia o êxito científico desta investigação. Por um lado, evitar que os equipamentos fundeados no banco fossem danificados pelas as artes de pesca, o que acarretaria elevados prejuízos e riscos para o projecto. Por outro lado, a correcta interpretação dos resultados só poderia ser conseguida se fosse garantido que não houveria actividades extractivas que podessem influenciar significativamente os processos naturais em estudo, comprometendo também irremediavelmente o projecto. Conscientes de que o projecto iria colidir com os interesses imediatos de alguns dos utilizadores do banco Condor, o assunto foi discutido com todos os utilizadores (“stakeholders”) e com o Governo Regional, existindo um consenso alargado para que o projecto prosseguisse. Saliente-se aqui aliás, a compreensão dos pescadores e armadores, principalmente do Faial, que desde o início apoiaram o projecto e reconheceram a sua importância e interesse, disponibilizando-se desde logo para com ele colaborarem. Com a publicação da portaria que proibe as actividades de pesca no local até 30 de Abril de 2012, e com a continuação dos trabalhos de investigação em curso no banco através de vários projectos complementares entretanto aprovados e que utilizarão também a área, podemos dizer que este é certamente um dos projectos mais abragentes, e mobilizadores que o DOP implementou até agora. Pelo seu carácter único em termos mundiais, este projecto é um exemplo da relevância e da universalidade da ciência que por cá se vai fazendo, utilizando as diversas competências técnicas do DOP, e contribuindo mais uma vez para o desenvolvimento e projecção dos Açores no contexto das ciências do mar.


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Vacas e abacates Nos últimos dias tenho lido com frequência que a pecuária intensiva é uma das maiores causas do buraco do ozono. Que o gas metano é 23 vezes pior para as alterações climáticas do que o tão falado CO2. Já lá vai o tempo em que as vacas faziam parte da família, com direito a nome e tudo - há 13 anos, encontrei o senhor Carlos, numa aldeiazinha do Sabugal, passeando a sua vaca, que baptizara de Formosa!... Hoje, a nível Global, as vacas são mais que muitas, são «coisas». A Fundação Brigitte Bardot edita uma revista denunciando a indústria de carnes, onde os animais sofrem horrores no decorrer de todo o processo. Para a sua expansão calculista e insensata destróise, por exemplo, o pulmão do mundo, a Amazónia. Cientistas preocupados com a dimensão do problema, através de estudos, chegaram à conclusão de que a pecuária e seus subprodutos geram

prejudica outras actividades bem melhores, como seja a agricultura biológica, a fruticultura e o turismo ambiental. Mas vou-vos falar de mais que tenho lido. Do ABACATE, essa «pêra» legume extraordinária que se dá tão bem no nosso clima e não custa nada ou quase nada cultivar, sem despesas nem canseira. A pêra abacate, que se crê originária do Peru, onde seria já cultivada há oito ou nove mil anos, é uma pérola na alimentação saudável. Tem doses consideráveis de gordura mono-insaturada, tal como o azeite, sem engordar, protegendo contra o cancro, doenças do coração e tromboses. Muito rica em vitamina E e B e potássio, cuja deficiência conduz à depressão e fadiga. O abacate é ainda rico em proteínas e vitamina A, sendo considerado também um dos antioxidantes mais poderosos - informações obtidas no Guia

“Vento” ( pormenor ) - Fátima Madruga

32.564 milhões de toneladas de CO2 equivalentes por ano - informação extraída online de Livestock and Climate Change. - mais de metade de toda a produção de gazes prejudiciais à camada de Ozono - ! E por aí fora. Nos Açores, a criação de gado só enriquece alguns e

da Alimentação Saudável, de Michael Van Straten. O Guacamole é a receita mais usada para o abacate que, comido ao natural, não é muito agradável. Para um abacate maduro - quando fica mole e larga bem a casca sumo de meio limão, dois dentes de alho pisados, uma pitada de sal e alguma erva

aromática a gosto bem picadinha ou pimento. Esmaga-se bem a polpa deste e mistura-se com os restantes ingredientes. Se guardarem, devem cobrir com azeite, para não oxidar. Com pão ou tostas ou como substituto da maionese, é uma delícia. Cá em casa usamos Guacamole com quase tudo. Há quem use abacate em receitas doces também. Para rematar, começa-se a dizer que o consumo regular de carne bovina e leite favorece o cancro - já deixei de consumi-la, mas principalmente por questões ambientais. Se o abacate previne contra as mais comuns e graves doenças da nossa gente, favorece o equilíbrio ambiental, nos põe mais jovens, se dá bem nos Açores, é muito produtivo e custa 2,49 euros o quilo...é questão de fazer as contas ao futuro e trocar vacas por abacates...

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No aconchego do sofá

e 1 os resultados escolares mais diminuíram… Pois é. Os decisores da governação teimam em não enveredar por políticas que tenham, por base, a educação pela arte, pela qualificação e pela cidadania. E o resultado salta à vista de todos: vivemos num país que, a pouco e pouco, vai deixando de produzir homens com ideias; hoje Portugal já só fabrica tecnocratas em série, doutores e engenheiros a granel, arquitectos e economistas a eito e, sobretudo, burocratas, ó sim, muitos e desvairados Consciência e ousadia. burocratas… Estamos atolados no império do despacho e do decreto-lei. As hierarquias, o carreirismo e os colarinhos engomados são os principais objectivos dos videirinhos do poder… Numa altura em que a crise económica e financeira serve para explicar e desculpar tudo, não há tempo para a criatividade. A cultura, essa, instalou-se definitivamente no aconchego televisivo do sofá. E assim temos a cultura telenovesca do sentimentalismo piegas e das emoções de chita. A cultura da coscuvilhice de “pivots” que viram escritores de aviário. A cultura carunchosa dos opinadores de serviço e a cultura caturra de académicos enfatuados. A cultura do palavreadinho banalíssimo de gente ligada ao desporto de toda a hora. A cultura elegante, rendilhada e maneirista das revistas corde-rosa. A cultura do Facebook, do Twitter, do Skype, do MYspace, do Hi 5, do MSN, do YouTube, dos blogues e de outras futilidades internéticas… Tudo isto só revela, caros leitores, o imenso “provincianismo mental” contra o qual Fernando Pessoa tanto se insurgiu. O orçamento que Portugal destina à cultura é apenas de 0,4%. Logo é por demais evidente que, entre nós, as actividades de natureza artística trazem às pessoas poucas ou nenhumas compensações. Numa terra de cinzentismos, a cultura é, por assim dizer, um desperdício e a arte, coisa despicienda e decorativa; por isso se tratam os que se lhe dedicam com o desprezo que se sabe; por isso se enjeita a cultura com a inconsciência que se conhece… Há uma densa floresta de alheamento que nos rodeia… Salvo as honrosas excepções, ninguém parece falar de nada, ninguém parece pensar em nada, a não ser na vidinha, na bola, na telenovela e no sofá. Obviamente que existem alternativas ao sofá. Pelo menos há ainda gente que, entre nós, luta contra a maré da indiferença – nas artes de palco, nas escritas, na música, na pintura, nas cinefilias… Há ainda quem não se conforme com a pérfida conjuntura e lance Abraços desta sempre pedradas no charco do nosso modo funcionário de viver. Mas esses, vossa. já se sabe, são os suspeitos do costume… Ah, como é infinitivamente bom a languidez de um sofá! Haverá melhor cultura que a das pantufas? Fátima Madruga


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Deseja a todos os seus clientes

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Boas F estas Festas eP rósper Prósper rósperoo Ano Novo

A Junta de Freguesia da Conceição deseja-lhe

Boas Festas e Feliz Ano Novo

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quinta feira 23 de Dezembro 2010 • Avenida Marginal •

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Outra perspectiva das aprendizagens Fernanda Trancoso elaborei especificamente para essa disciplina e nomeadamente a questão que se referia aos motivos por que se tinham optado por esta área, percebi que para além da natural curiosidade em experimentar algo de novo (a quase totalidade das pessoas embora já tivesse ouvido falar, desconhecia a prática), estava sobretudo patente a necessidade de convívio bem como o reconhecimento de que o sedentarismo estava a ser prejudicial à saúde. Em termos gerais pude ouvir o testemunho de muitos “alunos” que realçaram a importância da implementação da Unisénior e do enriquecimento pessoal que esta lhes veio proporcionar através da diversificada oferta curricular. O primeiro ano de funcionamento constituiu sobretudo uma explosão de sentimentos positivos, de

Universidade Sénior – quebrar o isolamento de muitas pessoas permitindo consequentemente encontrar pólos de interesse que as agregue e motive. Como aluna, por razões várias só pude frequentar uma disciplina, Cultura Musical. Tenho melhorado gradualmente os meus conhecimentos musicais, a minha ignorância no que concerne à música clássica foi atenuada e sinto que já consigo entendê-la melhor. Como não podia deixar de ser, o ano lectivo é quebrado por “férias” e por momentos de convívio animado - Natal, Carnaval e Encerramento. Neste último, todos recebem um Diploma de Frequência nas diversas disciplinas em que se matricularam, seguido de momento cultural e de jantar. E cá estamos no terceiro ano de frequência. Como me dizia com graça um “colega” desta Universidade,

cumprimento de programas pré-estabelecidos e da avaliação), na Universidade Sénior da Ilha do Faial e com dupla função, a de professora e a de aluna. Tendo conhecimento, há largos anos, de iniciativas deste tipo na Cidade do Porto , através de pessoas amigas, com relatos entusiasmantes de novas experiências que me despertaram o interesse de um dia ter o gosto de vivenciar , não hesitei em aceitar o convite para leccionar na Unisénior que me foi endereçado pela Comissão Instaladora desta em Setembro de 2008 , estava eu ainda com um pé dentro da escola de onde saí no final de Outubro desse ano. Foi pois com grande entusiasmo e simultaneamente com alguma expectativa e apreensão na vertente professora, que iniciei em Outubro de 2008 a minha actividade docente perante um grupo de pessoas que, na maioria eu não conhecia e em área bastante diversa da minha “especialidade”, concretamente o Yoga , uma prática que exerço há largos anos e que me tem proporcionado o gosto de partilhar com dezenas de pessoas. A transição da docência de largos anos com jovens para a de adultos com mais de cinquenta anos de idade implica uma reflexão, fui investigando e ouvindo falar um pouco sobre as aprendizagens com os mais velhos, fiz o meu caminho de ajustes sucessivos à realidade presente em cada aula e fiquei satisfeita com o bem estar espiritual e benefícios físicos que em conjunto conseguimos alcançar através desta prática milenar, bem como provas de amizade mútuas. Lendo as respostas a um pequeno questionário que

boa disposição, de amizades e convívio. Todos louvaram a iniciativa, e a surpreendente adesão em crescendo que se tem verificado, demonstra e reforça o impacto positivo na população faialense. Mais um ano lectivo decorreu, pela minha parte com o mesmo entusiasmo, ou até mais, porque, para além do Yoga, abalancei-me noutra aventura igualmente gratificante e exigente, a de leccionar Inglês, uma área também da minha preferência e que me proporcionou a fuga para o mundo das letras bem diverso das equações e outras complicações. Fiz à Comissão Instaladora uma proposta que foi aceite, de leccionação da língua inglesa condicionada ao nível de iniciação porque, embora tenha obtido formação nesta área a par da minha formação de base, sentia lacunas sobretudo na ausência de prática de conversação. Tive o apoio duma classe motivada - os meus “English Students” são duma persistência e entusiasmo exemplares - as dificuldades/limitações mútuas foram naturalmente resolvidas em clima de descontracção e penso que o balanço foi muito positivo. Literalmente afoguei-os em fichas de vocabulário e gramática básica (deformação profissional, provavelmente) mas não tive reclamações, pelo contrário, trabalho por concluir era assumido por muitos como “tpc” e na aula seguinte era apresentado orgulhosamente, nalguns casos realizado em grupo. Este aspecto pareceu-me deveras interessante pois foi ao encontro de um objectivo fundamental de uma

no final deste ano lectivo estaremos, de acordo com o processo de Bolonha, Licenciados. E concerteza não ficaremos por aqui, partiremos para Mestrados e PósGraduações, quem sabe… Este ano consigo ser mais aluna do que professora, as expectativas são óptimas. É bom voltar aos tempos de estudante e explorar outras áreas do nosso interesse. Quando ex-colegas me questionam se estou bem, se sinto a falta da Escola respondo que efectivamente sinto a falta do contacto com os jovens e colegas, sinto a falta do trabalho na minha área de formação, a Matemática, mas estas lacunas estão em boa medida colmatadas com os meus novos alunos e os novos desafios que abracei, como professora. Um factor relevante, essencialmente para os que exerciam actividade docente, é o prazer de não estarmos condicionados a orientações programáticas, o prazer não haver avaliações nem retenções. Assim a aprendizagem decorre ao ritmo possível, num ambiente relaxado e de amizade. Passados que foram dois anos e pouco do início das actividades da Unisénior quis aqui deixar um testemunho pessoal positivo desta iniciativa e creio que nele posso englobar o sentir daqueles com quem tenho convivido. Existirão outras sensibilidades? É provável que sim mas em todo o caso espero que este meu testemunho constitua um incentivo para futuras adesões a este projecto.

Vitor Pacheco

Agora é que estás bem, dizem-me ex-colegas da ESMA, é só boa vida, não fazes nada e livraste-te desta escravatura em que se transformou o Ensino Público. O Professor Dr. Laborinho Lúcio, o último Ministro da República para os Açores, uma personalidade cativante com quem tive o grande gosto de privar apreciando a sua enorme disponibilidade para colaborar com a ESMA em diversos momentos, a qualidade e pertinência das suas intervenções e a simplicidade com que se dirigia aos jovens, costumava dizer que estava aposentado mas não reformado. Concordando em absoluto com essa afirmação e cometendo o abuso de fazer minhas as suas palavras, assim estou eu aposentada mas não reformada, enveredando pela descoberta de outras práticas de ensino e aprendizagens (sem os constrangimentos do


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Ilha das Flores (re)visitada Heitor H. Silva

(1) Subo ao Monte das Cruzes, pelo lado da emoção, e sentome no ponto mais alto do mirante. Com os olhos persigo as poucas embarcações que regressam ao Porto Velho com a tardinha, carregadas de chernes e gorazes. Escrevo Sol ou sal? O Sul permanecerá redondo e intacto para lá do pego? Fixo-me nos garajaus que sobrevoam os rochedos na espera de um Outono adivinhado. Efémera esta beleza? Permaneço sentado mais alguns instantes enquanto a Oeste, como se de novo um qualquer vulcão acordasse no fundo das Caldeiras, o azul tinge-se de sangue – carne de novilha entremeada de anil | sombra da ilha – e canto Roberto de Mesquita com a voz embargada e o rosto afiado ao vento.

(2) A Fajâ do Conde é logo ali, à saída de Santa Cruz. Asa delta em queda livre, soletro o verde obsessivo do queiró, tinjome nos derradeiros amarelos da canaroca. Eis-me em Setembro. Para trás ainda o Corvo com o seu chapelete de brumas desabado sobre o Caldeirão. Depois são as muitas curvas e contra-curvas que me levarão, de novo, à pequenina e pitoresca Vila das Lajes. Pelo caminho, plantadas a esmo pelos desfiladeiros, ficaram-me tão só, represadas na memória, as enormes rochas brancas que o Carlos – ele que é natural de Bragança – diz ter visto apenas para lá do Marão. A terra desentranha-se em verdura e água. Os vales sucedem-se, abruptos. Titânicas mãos os hão erguido dos abismos oceânicos para espanto do visitante. A seguir à Ribeira Funda, antes de dobrarmos a quadragésima curva, há um moinho de água, de pedra, de pé entre o silêncio e o verde. Passa-lhe a ribeira por baixo, dizemnos os melros. Varado pela beleza extrema que me cerca transponho o passadoiro e, levando à boca a corneta de canaroca improvisada, tranquilamente acordo o vale, até às encumeadas da serra, com o sentimento turístico de quem encontrou na Terra o Paraíso.

O tempo dos homens De frente para o tempo dos Homens a escarpa é um lugar sentado, olhando os ponteiros da vida e os sons desse mar prateado. Vejo cores de outros seres e gargalhadas de dias maiores, memórias que não se escrevem à espera de sentimentos melhores. Nas pedras, o rosto dorido, Na terra, a dor que não sente. É urgente tirar essa capa e retocar o estuque por dentro.

Lídia Bulcão

Uma história do tamanho de um cigarro!

“O pintor de sonhos” Marco Rosa

Ângelo era pintor morava num pequeno sótão da casa de uma senhora viúva, muito simpática, que vivia nos subúrbios de Valeflor. Órfão desde muito cedo, fora criado no orfanato de Cova de Lobo e ao ganhar a sua independência, aos 18 anos, fazia alguns trabalhos de restauro em móveis para ganhar o sustento que não conseguia com os quadros que pintava. As suas obras faziam lembrar paisagens lunares ou marcianas, tudo muito vago e muito estranho, a causa da falta de vendas provavelmente. Um dia Ângelo depois de um serão de várias horas a acabar de pintar outro quadro para colocar na prateleira do pequeno sótão adormeceu mesmo vestido estendido na sua pequena cama de mogno. O que sonhou iria mudar a sua vida. Estava no cimo de uma montanha sentado numa cadeira branca, tão branca que parecia ser feita de luz e ao seu lado, no galho de uma enorme árvore dourada balança-se de vestido de seda branco a mulher mais bonita que alguma vez tinha visto, mesmo em sonhos. Era uma loira magnífica, de olhar cor de céu de Verão e o seu corpo de formas redondas aveludadas parecia não ter peso nem massa, era apenas brisa e sol. Olhava para ele com um olhar terno e um sorriso sereno temperado de uma expressão materna e compreensiva. “Ângelo, seu idiota só sabes pintar planícies e pedras lunares”. A voz que lhe dizia isto era meiga e parecia sair de dentro do coração da terra. “ Não sei pintar mais nada, não consigo aperfeiçoar mais nenhuma técnica”, disse o tipo ainda sentado na cadeira de luz. Ao descer graciosamente da árvore, a mulher mais bonita do sonho de Ângelo apanhou uma flor de um galho da árvore e colocou-a no cabelo. Como se flutuasse caminhou para ele enquanto muito subtilmente desprendia o magnífico vestido de seda dos ombros. “Sorte dos pintores, terem uma musa inspiradora para os colocar no caminho certo da

arte” disse a bela mulher enquanto despia o resto da roupa. Ângelo de boca aberta olhava para aquele corpo divinal que se aproximava e desejava ser poeta para poder descrever o que via. Sentia o coração bater tão depressa que parecia que ia rebentar. Um misto de excitação e alegria corriam-lhe o corpo todo como se uma droga muito má lhe corresse nas veias. Miau…Miau…Ron-ronron…. Acorda assim o pintor, com a gata da senhoria a rebolar por cima dele. Com um rabo de pêlo cinzento a passar-lhe pelo nariz, Ângelo amaldiçoa a sua sorte e não deixa de pensar que não era bem aquele rabo que estava a pensar naquele instante. “Saí daqui Alberta…como é que entraste aqui?...Já sei.” Diz o jovem ensonado ao olhar para

uma clareza fotográfica que o artista ainda não tinha a certeza de como tinha conseguido realizar. Foi o quadro mais visto da exposição que Ângelo conseguiu que um amigo lhe organizasse na biblioteca local. Todos queriam comprar o belo quadro e apesar de todas as outras obras terem sido muito bem vendidas o autor não quis vender o retrato da sua bela musa por nenhum preço. Ao encerrar a exposição Ângelo não pode deixar de parar em frente do seu grande quadro e enquanto sonhava com a sua musa inspiradora uma voz grossa de fumador atirou nas suas costas: “Gosto muito da sua obra, você está de parabéns. No entanto se me permite, gostaria saber de onde é que você conhece a minha mulher!”

Ilustrado por Mário Alexandre Marques da Silva

a janela aberta que deixava entrar a luz da madrugada. Vários meses depois Ângelo tinha um quadro pintado. Os cabelos loiros, as linhas generosas, o sorriso divino e os olhos de mar estavam novamente na sua frente, com


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Lúcia Maria de Mello Serpa “ Não force uma criança a aprender. Antes, oriente-a através daquilo que mais estimula a sua mente, para que se sinta melhor preparada para descobrir com segurança a tendência para a genialidade que existe em cada uma.” – Platão, 348 A.C. “ A criatividade é tão importante na educação como a literacia. Devíamos tratá-la com a mesma consideração.” TED Conferences 2006, Sir Ken Robinson, Emérito Professor da Univ. de Warnick, UK

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A aluna tímida e insegura que eu fui, sempre se sentiu angustiada com o paradoxo de ser “obrigada “ a redigir um texto de tema “livre”.Talvez porque isso nos dá poder. O de escolher entre um tema de profunda reflexão, como “Que Portugal teremos com um sistema de ensino sem chumbos? “ e os temas das redacções da Guidinha de Luís Stau Monteiro , deliciosamente ditas por Mário Viegas : “ Eu gosto muito da Primavera porque há flores e a minha mãe põe muita pimenta nos bifes e o meu pai zanga-se”. Ou, quem sabe, a causa do meu receio fosse o trauma que me ficou da redacção obrigatória que invariavelmente surgia da 2ª à 4ª classe, “ A Vaca”. Ao longo do ano lectivo vivia atormentada à espera do dia em que teria de discorrer sobre os mansos e pachorrentos animais sem os quais parecia não sermos capazes de sobreviver. Passado esse dia, até as aulas ganhavam outra graça e tornavam-se mais leves. As frases da redacção do ano anterior acabavam por se repetir: “ A vaca dá-nos a carne e o leite. O leite serve para fazer o queijo e a manteiga… E que mais podíamos afirmar se as vacas passam o tempo a fazer a mesma coisa? . Actualmente haveria outras possibilidades, falaríamos também dos iogurtes, do leite condensado, do leite reforçado com vitaminas ,etc. Até podíamos salientar que há vacas que riem… Na verdade, o meu desejo foi sempre ultrapassar aquele discurso convencional e divagar: “ A vaca quando vai à praia usa biquini. Obviamente um biquini com vários pares de copas, desenhado por estilista especializada. Será que usa wonderbras quando vai ao baile ? As vacas e os bois verdes só podem comer erva vermelha. Todos eles vão deixar de ruminar porque um laboratório lançou recentemente uma pastilha digestiva – a Omepravaca. Os bois sofrem todos de impotência sexual -Será que algum turista está a olhar?- São animais verdadeiramente dignos da nossa simpatia. Senão vejamos: -Com que sonha um boi quando levanta os olhos e descobre os seus cornos de cornudo?”.Estou a citar Jacques Brel em Les toros. Finalmente : “ Como os bois não sabem as cores e para não correrem o risco de tomar algum comprimido amarelo em vez do tal azul, inventou-se a inseminação artificial “… Hoje, acho que foi a visão impressionista destes ruminantes verdes que me levou, inconscientemente a adquirir um quadro da Fátima Madruga que tenho lá em casa, em lugar de destaque, onde se vê, numa paisagem basáltica, uma vaca verde de enormes olhos esbugalhados e melancólicos. Terão sido redacções como “ A vaca “ ou “ A Primavera” um obstáculo à criatividade dos alunos? Talvez não. O que esteve sempre mal foi o facto de o professor não admitir que se pudesse fugir ao discurso convencionado como sendo o correcto, dando por exemplo voz à vaca e deixá-la reivindicar os seus direitos.

Nós e laços 1

mesmo sabendo que a família - enquanto instituição é aquilo que podemos chamar uma empresa falhada, porque motivo se casam hoje as pessoas? Tal como eu, também uma equipa do Pew Research Center (em Washington) colocou a mesma questão. Aparentemente, segundo o PRC, até há algumas gerações atrás (o estudo incide apenas sobre os últimos cinquenta anos), as mulheres casavam para terem dinheiro e os homens casavam por razões sexuais. Hoje em dia, visto que a esmagadora maioria das mulheres trabalha e tem um estatuto económico independente dos homens, não precisa de casar para sobreviver; do mesmo modo, actualmente, dada a liberação sexual, ninguém espera pelo casamento para ter relações sexuais, portanto os homens não precisam de casar para garantir esse bónus. Aliás, acho esta conclusão do estudo do PRC muito curiosa: se os homens casavam pelo sexo e as mulheres por dinheiro, o que era o casamento senão a prostituição legalizada? Mas voltemo-nos para os dias de hoje, para não ofendermos os nossos familiares mais velhos. As pessoas, actualmente, não acreditam no casamento e, o que é mais, acham que enquanto modo de vida está condenado à extinção. Mas casam. É fácil de perceber a primeira parte da premissa. São pessoas que já conhecem os casamentos desfeitos dos pais (não raro os segundos casamentos desfeitos de um lado e doutro), sendo que a maior parte também já se “descasou”. Porque raio querem voltar a dar o nó? Diz este estudo que o casamento é a medalha de mérito da nossa sociedade, a única forma de se mostrar que se é bem sucedido. Por outras palavras, um solitário é seguramente visto como um outsider e alguém que falhou. Pode ter muitos amigos e ter a mamã e cem namoradas (podem construir a frase no feminino que dá igual), mas não teve quem lhe quisesse fazer canja de galinha quando estivesse doente. Looser. Ou seja, paradoxalmente, os não-casados não são casáveis. Não são atraentes para o sexo oposto, pelo menos a longo termo. E eles sabem disso (ora não!). Com quem (alguns cínicos dizem contra quem…) casam as pessoas? Isso também mudou. Até há pouco tempo, os homens

e

casavam sempre com mulheres que sentissem ser intelectualmente inferiores ou que ocupassem uma posição social menos visível. Ex: Médicos ligavam-se a enfermeiras, executivos a secretárias, comandantes a hospedeiras. Hoje, as pessoas tendem a casar dentro da mesma faixa (por assim dizer), por acharem que assim há mais complementaridade na união. Também é interessante que os segundos casamentos optem mais por este modelo do que os primeiros, nos quais se verifica ainda uma grande necessidade de domínio – inclusivamente no aspecto social - de um parceiro sobre o outro. Eu diria que nas uniões seguintes também, só que a necessidade

Mecânico e pouco romântico? É o mundo que temos. A propósito, o motivo pelo qual os casais mais discutem são “outros familiares”, sejam filhos ou pais. Se calhar, o melhor casamento foi mesmo o de Adão e Eva, que consta só terem começado a dar-se mal quando apareceu um terceiro elemento, pois enquanto estavam só os dois viviam mesmo no Paraíso. Há notas importantes a retirar deste estudo. Primeiro que as pessoas independentes – num sentido lato, tanto material como emocional, leia-se: os que não têm necessidade de andar na sombra de outro - têm muita dificuldade em encontrar parceiros e formar relações estáveis, sendo ironicamente as que dão

de domínio tem vergonha de se exteriorizar porque não é politicamente correcta – afinal, estamos na era da igualdade! Claro que estou a deixar de lado questões importantes como a idade. Antes, o casamento era a entrada na idade adulta. Agora, as pessoas casam cada vez mais tarde e com um grau cada vez maior de educação. Neste drama etário entram duas questões: primeiro os filhos, depois as finanças (again!). Embora não considerem ter filhos uma razão para casar, as pessoas colocam “ser bom pai/boa mãe” como um dos primeiros items para continuar com o parceiro. Mas após o/a deixarem, consideram os próprios filhos “uma pressão” – eufemismo para “fardo” - na sua (nova) vida: ou seja, é um nó que não conseguem desembaraçar e para o qual ainda se vêem socialmente pressionados a dispensar tempo e dinheiro (os mais simpáticos ou hipócritas até dispensam uma ou outra conversa para além do “tens tido boas notas?” e “estás bem de saúde?”). Em relação às finanças, a crise parece motivar casamentos: muitos jovens adultos consideram não ter dinheiro para fazer vida sozinhos, mas a junção de duas vidas já permite pagar uma renda e livrar-se dos pais.

melhores duplas, por serem mais confiantes e logo mais capazes de dar de si. Segundo, que a nossa sociedade deu direitos legais à união de facto… mas culturalmente não a respeita como um compromisso, nem sequer em termos de fidelidade: “Temos novas regras de intimidade, mas não sabemos bem quais são. Não se respeita uma coisa que não se aprendeu” diz o estudo do PRC “As pessoas não têm expectativas quanto à união de facto e por isso se portam como solteiros, coabitando como casados.” Complicado de entender? Imaginem se fossem vocês as criancinhas dos ditos. Afinal, porque se casam as pessoas? Como diz um amigo: “Para se poderem divorciar com o mínimo de impacto social a seguir. Tem mais estilo do que sair de casa apenas!”

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A vaca

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*** Leiam mais em: Pewsocialtrends.org/family: The Decline of Marriage and Rise of New Families. E não se esqueçam de comprar prendas para os irmãos dos vossos irmãos que não são vossos irmãos mas que também fazem parte da vossa família. Complicado? Muito comum até. Se vocês não têm um, já estão na prateleira dos antiquados! Vamos lá a ver se resolvem esse assunto em 2011.


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...e Deus não criou o Universo? Margarida de Bem Madruga não colidem, elas apenas existem (isto não é bem assim, mas vamos supôr que sim) O problema que as pessoas pôem em relação à criação do Universo por Deus, é simplesmente porque se pensa que Deus é menos do que Ele é. As pessoas reduzem-no a uma figura com dimensão para-humana, e isso é que torna tudo isto incompatível. Acham que Deus tem de ter dimensão material. Temos que saber e ver Deus com uma condição super dimensionavel. Ele é Soberenatural, isto é , não é materializável, mas pode e deve manifestar-se em dimensões perceptíveis pela Humanidade, em condições humanas (por isso o Seu Filho). Ele é Tudo o que existe não material, Ele é a matriz da Vida, seja ela cósmica, seja ela humana. Temos que olhar para Ele como o Princípio e Fim de Tudo, porque a Sua dimensão é infinita e eterna, porque Ele, sendo matriz, é inequivocamente a Grande Alma, a Alma do Universo. E mais, A ALMA CÓSMICA. Neste turbilhão quântico, tudo é harmonia, tudo é equilíbrio, mesmo o caos, e tudo se resume à Grande Obra em que se manifesta a existência imaterial de Deus. E eu, ser infinitamente pequeno, convivo nesta imensidão de multidimensões, tendo consciência de que vivo engrandecendo o Grandioso, simplesmente porque tenho consciência disso.

Margarida Madruga

Acabo de ler um artigo na revista Focus, sobre este tema. Stephen Hawking está a estudar uma teoria sobre a criação do Universo e diz que Deus não foi p’ráqui chamado!!!. É interessante a evolução matemática ou evolução do pensamento à luz da matemática, a única linguagem universal, sem dúvida. A ciência, a física baseiamse fundamentalmente na matemática. Não tenho conhecimentos aprofundados, mas tenho, acima de tudo, a capacidade de criar, a capacidade inventiva de entender o não entendível. Segundo Stephen Hawking, o espaçotempo, começou do nada, duma pequena faísca que, num turbilhão exponencial libertou, no célebre Big-Bang, o universo conhecido e outros universos que concomitantemente existem, por isso paralelos, sem podermos vê-los, apenas sabêmo-los pela gravitação e expansão quântica. P’ra mim, que consigo pensar em várias dimensões ao mesmo tempo, porque a arquitectura não é 2 mais 2 dimensões, mas sim 3 dimensões, consigo entender as várias existências dimensionadas em paralelo. A gente sabe que a electricidade anda por aí; a gente sabe que o magnetismo anda por aí; a gente sabe que a gravidade anda pr aí; a gente sabe que as ondas hertzianas andam por aí...e por aí fora. Anda tudo por aí, ao mesmo tempo e no mesmo espaço. Elas

Título: Avenida Marginal Periodicidade: Trimestral Director: Heitor H. Silva Editor e Proprietário: Heitor H. Silva Tiragem desta edição: 1100 ex. E-mail: avenida.marginal@sapo.pt Morada para correspondência: Apartado 81, 9901-909 Horta Codex Impressão: Gráfica “O Telégrapho”, Rua Cons. Medeiros, 30, 9900-144 Horta Registo ERC 125447 de 04 - 06 - 2008 (NIF 161921051)

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Evocando Mário Machado Fraião Victor Rui Dores Aconteceu em Novembro, mês dos crisântemos. O poeta Mário Machado Fraião não resistiu a um acidente vascular cerebral e, da forma mais cruel e brutal, ficámos a saber que a existência humana é, de facto, coisa efémera. O seu desapare-

retroactiva, sendo a Horta o epicentro do seu imaginário, isto é, o seu roteiro sentimental e afectivo, disso dando conta as obras que nos deixou: Todas as filarmónicas perdidas e um poema por dizer (1980), As cordas e os metais, o sabor da paisagem (1985), Enquanto

cimento físico representa, para quem com ele privou de perto, um profundo rombo no casco deste navio simbólico em que fazemos a viagem da vida. Não farei aqui o seu elogio fúnebre até porque foi em vida que lhe dei a devida atenção: recenseei todos os seus livros. Foi através da mão amiga do saudoso António Duarte que, em 1982, me foi dado conhecer os primeiros poemas de Mário Machado Fraião. Revelavam esses poemas a iniciação de alguém que, sentado num dos bancos do Largo do Infante, e com os olhos encharcados de luz marítima, se punha a adivinhar horizontes, distâncias e promessas de outros mundos para lá das ilhas do Pico e São Jorge. Nascido na cidade da Horta, ilha do Faial, em 1952, Mário Machado Fraião cedo aprendeu o sonho da viagem, um pouco à semelhança de sua tia, Otília Fraião, que no Faial poetou e que, fugindo à clausura da ilha nos idos anos 50 do século passado, partiu para longe, já que a errância foi o seu destino e a sua forma de perseguir a felicidade e o sonho. Mário Machado Fraião também deixou a ilha e a sua poesia é, à sua maneira, desejo de aventura, aspiração de fuga, de viagem. Trata-se de uma poética que descobre no mar a essência da visão do mundo. A ilha do Faial deixou, neste autor, uma memória indelével e

o mar se renova (1987), Os navios no horizonte (1988), As ruas demoradas (1989), Poemas do mar atlântico (1991), Os barcos levam nomes de mulheres (1995) e o seu livro de crónicas Cartas de marear (2008). Encontra-se representado em várias antologias de poesia açoriana. Vivendo em permanente estado de desassossego criativo, Mário Machado Fraião tinha a candura de um ar maroto. Mas o seu sorriso escondia uma secreta melancolia. Atento observador do real, era homem autêntico, minucioso e distraído, solidário e solitário, isolado e incompreendido, insubmisso e insolente. Acima de tudo, era poeta de agudíssima sensibilidade e apreciáveis recursos sensoriais. Mestre em História Regional e Local pela Universidade de Lisboa, era professor do ensino secundário. Nos últimos anos dedicava-se à crónica e à recensão literária, sendo colaborador regular do suplemento cultural “Vento Norte” (Diário Insular) e desta “Avenida Marginal”. É certo que os poetas só morrem se deixarmos de os ler. Mas, para já, como calar esta imensa e irreparável saudade?


quinta feira 23 de Dezembro 2010 • Avenida Marginal •

três poemas de Mário Machado Fraião Aqui tudo está por dizer ainda e depois do poema o poema ainda por dizer as palavras sossegadas a nossa conversa prolongada nossa conversa de entardecer então disseste quem me dera fugir mas isso era no tempo de riscar os nossos barcos na areia no tempo em que as palavras eram frescas como as uvas e por dizer o choro a chamarrita e um rumor de guitarras na tua conversa por dizer o que disseste e nas tuas mãos abertas o poema todo inteiro e nas tuas mãos inteiras o entardecer dos barcos e a distância os homens que viajam nos bancos do jardim porque tu me disseste – quem me dera em Boston e depois choraste. Todas as filarmónicas perdidas e um poema por dizer (1980)

Por esses dias a fúria dos telégrafos devia ser coisa de endoidecer Os alemães tiveram que fazer as malas apressadamente Parece que partiram durante a noite Os outros ficaram Dançava-se o swing e as fitas era todos os dias Silenciosas paixões com janelas abertas até mais tarde elegantes devaneios a Western Union e as partidas de futebol avivaram nessa altura uma aliança fria ou talvez um pouco estranha A doca não comportava todos os navios os imensos desejos as fantásticas ambições Restou-lhe aquele guindaste enorme senhor de muitas mercadorias imóvel a sentir-se inútil Um choro lento sem se ouvir foi sendo colorido conforme as estações E não se conhece outra muralha no Vasto Império onde as pinturas sejam poemas feitos de pedra e de saudade. Enquanto o mar se renova (1987)

Ilustrado por José Lúcio

Onde as ruas adormecem Outra vez estas imagens na televisão os grandes iates atravessando o porto brancos luzidios uma doca onde as pinturas sobrevivem com as peças dum cenário Era uma cidade onde as ruas adormeciam mais as suas casas os dias do Senhor Espírito Santo sob um céu sombrio triste foi o nosso andar em volta do jardim as promessas de namoros a liberdade que há-de vir Mais promissores seriam os meses do Verão os barcos regressavam pela meia-noite altura das palavras lentas e dos amantes protegidos Foi um tempo de horas desacertadas batidas pela Torre do Relógio que fora dum convento frustes escapadelas aos bailes da freguesia do vinho ficavam as nódoas na madeira fresca e um Teatro apodrecia todas as semanas Onde as ruas adormecem mais as suas casas. Poemas do mar Atlântico, 1991

Ilustrado por José Lúcio

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O candidato presidencial

Avenida Marginal

Portuguesas e portugueses, numa época em que o país vive uma das crises mais graves da sua história, onde se perfila no horizonte a data para eleger o mais alto representante da Nação, decidi apresentar à vossa apreciação a minha candidatura a sufrágio. Não foi uma decisão fácil de tomar. Para aqui chegar arrostei com a oposição determinada de toda a minha família. E dos amigos mais chegados apenas sete me manifestaram a sua inabalável vontade de apoiar a candidatura até ao fim, “desse por onde desse!” As principais críticas que têm sido dirigidas à minha candidatura prendemse, essencialmente, com a minha alegada falta de experiência política para ocupar um cargo de tal relevância. Chegaram a aconselhar-me a começar por me candidatar à presidência da Junta de Freguesia ou do Município onde resido.

Acenaram-me, inclusive, com uma candidatura ao Parlamento Regional ou à Assembleia da República… E os outros candidatos, pergunto-vos eu? Quem conhecia Alegre antes da sua voz emergir da clandestinidade da rádio de Argel ou de ter imortalizado Nambuangongo nos seus poemas? E Cavaco? Quem dava um tostão furado por aquele estudante franzino, com cara de figo passado algarvio, antes de se filiar no partido de Sá Carneiro? E o Nobre, digam lá meus amigos, em consciência, quem conhecia este cavalheiro antes de o vermos a distribuir garrafões de água potável pelos campos de refugiados do terceiro mundo?!!! Não, não aceito que condenem a minha candidatura pelo facto de não possuir qualquer tipo de experiência política. Afinal o cargo de Presidente da República pode ser levado a bom porto,

com eficácia e competência, se o mesmo souber exercer uma influência positiva sobre os principais intervenientes na coisa pública… Se o mandato presidencial é de apenas cinco anos para quê perdermos demasiado tempo ou consumirmos as nossas energias em demandas e processos que a própria Justiça demora décadas para investigar e levar a julgamento? Quando leva. Quando julga. Não, não vou por aí. Agora é que sinto chegada a hora de dar ao meu País o meu contributo. Daqui por cinco anos poderei ter que enfrentar candidatos bem mais difíceis: António Guterres e Marcelo Rebelo de Sousa já andam por aí, na sombra, a tecer estratégias e a afiar espadas para se digladiarem e medirem forças em próximas contendas. Dali poderá sair, quem o saberá, o presidente que se segue. A Nação há-de agradecerme, um dia, este gesto de extrema generosidade e autêntico patriotismo. Não advogo da vida política uma visão egoísta e centrada nos interesses pessoais e mesquinhos dos seus intérpretes. Como tal comprometo-me a não aceitar auferir um vencimento superior a 24.990 euros mensais, (subsídio de almoço já incluído), e a distribuir pelos pobres ou pelas

instituições que promovem, duas vezes por ano, algum tipo de caridade tudo aquilo a que, por lei, venha a ter direito. Já só me faltam sete mil quatrocentos e noventa e três assinaturas para poder formalizar, oficialmente, esta candidatura. A todos aqueles que lerem este manifesto, e porque o tempo de entrega das mesmas termina dentro de algumas horas, agradeço que manifestem rapidamente o vosso apoio através do email avenida.marginal@sapo.pt ou deixem nota do vosso sentimento no blog do jornal que sustenta a minha candidatura: http://jornalavenidamarginal.blogspot.com. No ano em que se comemoram os cem anos de implantação da República, onde o faialense Manuel de Arriaga foi uma personalidade incontornável e de enorme prestígio, é chegada a hora de outro faialense assumir, com toda a frontalidade, uma nova e inspiradora candidatura à presidência de Portugal. Conto convosco. Servir o meu País numa época de enormes constrangimentos é um desafio, mas também um desígnio, que abraço com firmeza e entusiasmo. Sem tabus.

Heitor H. Silva


Avenida Marginal nº 8