Issuu on Google+

À Mesa de Natal

Os Cromos da Estrada Sérgio Luís

Paulo Oliveira

O simples acto de entrar num automóvel, pegar no volante e conduzir estrada fora, transforma um ser humano num outro ser absolutamente inesperado e até desconhecido para ele próprio. O homo sapiens vira homo mobile. Assim, podemos ver um pacato cidadão travestir-se num acelera perigoso, um doutor diplomadíssimo ser um nabo ao volante ou um peão indefeso transformar-se num motorista furioso. Depois de vários anos a circular nas estradas lusitanas é fácil agrupar os diferentes tipos de condutor por estilos de condução. É como coleccionar cromos e colá-los numa caderneta. Vamos ver então alguns desses cromos. O primeiro é o CONDUTOR DE DOMINGO. O condutor de domingo tem o carro na rua envolto numa cobertura plastificada, cor cinzenta, ou fechadinho na garagem por causa das intempéries. Quando chega Sábado, o popó vê finalmente a luz do dia. Então, com carinho e dedicação, o nosso condutor lava a viatura e de seguida limpa-lhe o pó do tablier e do cachecol da Selecção que envolve o encosto de cabeça. Por fim o esmerado condutor dá brilho à medalha de S.Cristóvão e aspira os tapetes e o carpélio que enfeita o vidro de trás. No Domingo mete a família toda no carrinho e vão dar uma volta aos arredores. Quando passa pelas ruas da cidade o nosso condutor conduz mais devagar (muito devagar) para a patroa poder ver as montras sem se apear. O condutor de Domingo gosta de parar nos cruzamentos e fazer de e 6 polícia sinaleiro. Sentado ao volante,

Aproxima-se mais um Natal. A nossa idade, também se mede pelo número de Natais vividos, tal como as árvores, pelo seu cerne, com os seus anéis de Verão / Inverno. Para mim, será o quadragésimo oitavo, já que nasci em 1961. Dos que me lembro, e dos que não me lembro, mas que me relataram, existem muitas diferenças físicas e materiais,

escassas, com poucas luzes e pouca oferta, em produtos que víamos e revíamos todos os dias, com o nariz colado aos vidros..., até ao dia que desapareciam da montra, milagrosamente, deixando um vazio imenso que não voltava a ser preenchido..., e esse vazio acompanhava-nos, até à Noite de Natal, na diminuta esperança de o desembrulharmos.

era sinal que o Pai Natal tinha vindo, e levado aquele rol de pedidos. Aconteceu num ano, em que me portei muito mal, que a dita carta voltou... Fiquei aterrado, o Pai Natal, face ao meu mau comportamento, havia devolvido a carta. O que fazer? Como remediar a situação? Foram longos dias de agonia, e excelente comportamento, na

mas poucas sentimentais e familiares. Há 40 anos, não havia “catedrais do consumo”, em que somos tentados por grandes prendas, em suaves prestações mensais, que nos farão lembrar, que o Natal será todos os dias do novo ano, todos os longos meses do ano novo, em que teremos de desembolsar um sofrido pagamento de uma tentação pontual, e da qual ainda nos poderemos vir a arrepender. Há 40 anos, as montras eram

A CARTA A escrita da Carta ao Menino Jesus, era um momento solene e íntimo, em que havia que justificar as boas acções ao longo do ano, para renderem algumas prendas para toda a família, em que o signatário deveria ter o maior quinhão. Após concluída, a carta era metida num envelope e colocada numa pia baptismal sobre a cama, sendo vigiada, dia após dia, até ao momento em que, misteriosamente, desaparecia...,

expectativa de recuperar a sua confiança..., que lá aconteceu, para meu alivio! A MINHA PRIMEIRA ÁRVORE A par do Altarinho ao Menino Jesus, com trigo e citrinos, havia o momento familiar da montagem e decoração da enorme árvore de Natal, que enchia por completo um canto da sala, com um ritual invariável: primeiro aprumada, depois rodada para o melhor ângulo, e e 15 de seguida

Deixa-te de brincadeiras

PUB.

O 1º Concurso de Banda Desenhada promovido este ano pelo jornal Avenida Marginal constituiu, não tenho sobre isso a menor dúvida, o momento mais alto na vida deste periódico. Coordenado pelo faialense Marco Filipe Fraga da Silva, professor na Escola Superior de Educação de Beja, este evento contou com o apoio daquela Instituição, da Bedeteca de Beja, da Cooperativa Cultural micaelense Mal amanhados, e ainda do Centro do Mar, na antiga Fábrica da Baleia, em Porto Pim, onde estará patente ao público, dentro de alguns dias, uma exposição dos trabalhos premiados. Com uma participação de noventa trabalhos, número excepcional para um concurso desta natureza, em ano de estreia, compraz-nos registar a adesão de alguns excelentes artistas que criaram sérios problemas aos elementos do júri na atribuição dos prímeiros lugares, pela qualidade do seu contributo. Os prémios atribuidos nesta primeira edição, conforme foi amplamente anunciado no regulamento do concurso, serão e constuidos por um diploma a atribuir 13

Chão Frio - Praia do Almoxarife Telef. 292 949 028

772

674


2

• Avenida Marginal • sexta feira 18 de Dezembro 2009

Estarrassaram o “Magalhães” Fernanda Trancoso Foi moroso e cansativo o processo burocrático de atribuição dos computadores Magalhães nas escolas básicas do 1º Ciclo devido à definição de prioridades ditadas pelo nível de rendimentos das famílias, mas já quase no final do ano lectivo transacto, foram entregues às crianças na presença dos Pais ou Encarregados de Educação, conforme foi noticiado na altura. Este tema tem sido amplamente explorado pelos bons, ou sobretudo, maus motivos. Relatou-me uma parente, professora do 1º Ciclo do Ensino Básico na Ilha de S. Miguel que, uma semana após a entrega dos referidos computadores, um pai a procurou perguntando: “Ó Senhora, o rapaz estarrassou o computador e o que é que eu faço agora? Os botões saltaram e não trabalha!!!” Outros, disse-me ela, venderam a bateria, pelos vistos os compradores não estavam interessados em “botões” e monitores, vá se lá perceber os objectivos deste negócio. Outros ainda, desinteressaram-se do equipamento porque os jogos eram “muito estúpidos”, tinham , ao que parece, apetência para um maior nível de dificuldade dos mesmos. Aqui no Faial não tive conhecimento de episódios semelhantes devido provavelmente ao facto de eles terem sido entregues mesmo nos últimos dias de aulas do ano lectivo. A nível nacional, foi-me assegurado por uma professora do continente e parece que até foi noticiado na televisão, que os aparelhos estão a ser vendidos em feiras. No primeiro caso era previsível que surgissem situações desse tipo, os equipamentos, não são, em geral, à prova de maus tratos e atitudes dessas são , infelizmente, muito comuns. Pude testemunhar, ao longo de vários anos de trabalho na Escola Secundária Manuel de Arriaga , em particular nos últimos anos, um crescente desprezo pelo património pessoal e de todos nós, pela maneira descuidada e até agressiva com que os jovens manipulam os materiais de trabalho, em particular os aparelhos – atiram-se para o chão, para a mesa ou para a cabeça dum parceiro, as mochilas recheadas de livros, cadernos, calculadoras e telemóveis e se admoestados pelos professores, são rápidos a afirmar que não há mal, se avariarem, compram-se outros novos. As novas e atractivas instalações desta Escola apetrechadas com renovados equipamentos que constituíram uma relevante valorização em termos tecnológicos, pedagógicos e culturais para a Ilha do Faial e há muito reivindicada, foram alvo de vandalismo - destruição e danos em mobiliário, pequenos roubos e danos especificamente no que concerne aos computadores postos à disposição dos alunos, para trabalho. Lamentavelmente o acesso aos locais de utilização dos equipamentos informáticos passou a ficar condicionado a determinados horários, tudo sob a fiscalização rigorosa de funcionários e professores, com evidente transtorno para muitos alunos. Caberá a todos nós incutir nas crianças e jovens o sentido da responsabilidade, o sentimento de pertença a uma segunda casa que é a escola, bem como a valorização e preservação do património.

O Magalhães é reciclável...

O que eu não cheguei a contar à Marília Lúcia M. de Mello Serpa Conheço a Marília desde os quinze anos de idade quando ambas começávamos o 6º Ano do antigo Liceu Nacional da Horta. Nessa data o Manuel já estava fora da ilha, levado pela crueldade das condições sociofamiliares que separava precocemente os filhos que não queriam ficar-se pelo trabalho das terras e cujo recurso passava quase sempre pelo Seminário de Angra do Heroísmo. Só uns bons anos depois me cruzei com o Manuel, na Faculdade de Letras de Lisboa onde completámos os estudos. Acabámos na mesma profissão e na mesma Escola durante 30 anos, até à sua reforma. O Doutor Manuel Faria de Castro, façanhudo e exigente, era um pedagogo nato. Para ele, ensinar, sempre foi uma arte que ultrapassava o estudo da História e o âmbito da sala de aula.

hora, o Faria, optimista até dizer chega, saía-se sempre bem: O Faria viajou para a Itália com um grupo de alunos, sem documentos (acabara de perder a carteira), conseguiu cumprir todo o roteiro da viagem ludibriando a Segurança, com tanta sorte que quando regressou a Lisboa já alguém tinha encontrado e entregue a carteira (é preciso assinalar que nunca lhe passou pela cabeça defraudar as expectativas dos alunos nem perturbar a euforia da viagem por tão azarado percalço.); o Faria, no último dia do prazo de entrega do Relatório para a sua mudança de escalão telefona-me: “Estou na Arménia. Vim ver um jogo de futebol. Ajuda aí a Marília, junta meia dúzia de documentos para ela entregar na Escola.” Mas o Faria tinha o seu “lado Solar”. E tratava os que ele considerava amigos com extremo carinho e afecto. Não

Marília, minha amiga. O teu Manel, aquele chato que viajava sem te avisar para onde ia, que me telefonava a desoras só para me perguntar “ Quando é que te reformas? Deixa isso, e se perderes 300 Euros de penalização, vais de certeza ganhar muita qualidade de vida”. (Sábio Faria, é isso mesmo que eu vou fazer!). O teu Manel, um dia, não há muito tempo, veio confidenciarme: Já ouviste aquela canção do Roberto Carlos “Amor sem limite”? (ele sabia que era uma das referências musicais da minha adolescência) Eh pá! É linda! Ouve e repara na letra. Era aquela canção que eu gostava de dedicar à Marília! Eu ri e ameacei: “Pois, dizes isso a mim, mas tens de lhe dizer é a ela!” Não sei se ele te chegou a dedicar a canção, Marília, mas podes ter a certeza que ele te amava profundamente e muitas

Todo o acontecimento que fosse a notícia do dia tornava – se o tema de debate da aula que ele inteligentemente explorava , se possível relacionando-o com factos históricos. Habilmente, aproveitou todas as oportunidades para participar em congressos, encontros, fóruns, assegurando sempre, em trocas com colegas, que os seus alunos não ficassem prejudicados. Por uma enorme e cruel ironia do destino todos nós, colegas, invejávamos a sorte que o bafejava, pois apesar dos seus improvisos e arranjos de última

passou um ano sem que ele me viesse bater à porta, trazendo, ora um frasco de mel, ora uma dúzia de ovos, laranjas, limões e poucos dias antes do seu trágico fim ofereceu-me uma garrafa de vinho doce que acabara de ser feito na sua adega da Praia do Norte. Isto tudo, para dizer que o Faria, muitas vezes inoportuno e insuportável, era também uma pessoa afectuosa e com uma qualidade pouco reconhecida: a solidariedade. Contudo o que eu quero mesmo contar à Marília não é nada do que atrás disse. Que isso ela já sabia.

vezes confirmou a imensa admiração que sentia pela generosidade com que o “aturavas”. Ouve a canção, Marília! Meu Amigo Manuel Faria de Castro, tirando os que não gostavam de ti, são muitos, muitos mais, aqueles em cujas vidas deixaste marca e que nunca te esquecerão. Horta, Setembro de 2009


sexta feira 18 de Dezembro 2009 • Avenida Marginal •

3

Turquia para principiantes, como eu era Frederico Cardigos Nas vésperas do novo ano aqui fica a minha sugestão de ano novo: Visite Istambul! Seguindo o meu conselho, suponha o leitor que é um potencial turista que irá visitar a Turquia em breve. Portanto, sorte sua, irá, a partir deste momento, beneficiar dos conhecimentos de um experiente ex-turista que esteve em Istambul durante seis dias! Quando eu parti, não tinha lido esta crónica e, por isso, tive enormes dificuldades. E passo já a justificar o exposto com um ensinamento Oriental que aprendi no ”Museu de História da Ciência e da Tecnologia do Islão “ de Istambul. Segundo as sábias palavras de Ibn Magid (proeminente navegador dos séculos XV e XVI), existem três tipos de profissionais: os que aplicam sem cogitar (marinheiros), os que pensam e melhoram a sua profissão (mestres) e os que partilham o que aprenderam. Apenas estes últimos ascendem à excelência do seu metier. Portanto, aqui estou eu, turista reformado de Istambul, a partilhar a minha nova sapiência. Primeiro ensinamento. Escusa de trocar dinheiro em Portugal. As flutuações do mercado financeiro, as conversões mais favoráveis e os muitos gabinetes de câmbio aconselham a trocar dinheiro in loco. Atenção, não troque nos bancos porque a conversão é menos favorável e, como em Portugal, têm um horário mais reduzido. Ensinamento sobre transportes. Viaje nos transportes públicos. Eu optei pelo chamado JetOn e por andar a pé. É uma óptima e saudável combinação. Não compre o bilhete (uma pequena moeda que se insere à entrada de uns torniquetes) a qualquer funcionário que esteja por ali perdido. Quando o fiz, fui enganado em 30%. Compre nos guichets que se encontram, habitualmente, a 20 metros dos torniquetes. Ensinamentos sobre comércio. Não sorria, você vai ser enganado nas compras que fizer. Mesmo assim, aqui vão algumas indicações. Nunca pergunte o preço. Perguntar o preço é um sinal de fraqueza. Das três uma: o preço está assinalado (o que não significa que não seja negociável, mas, normalmente, corresponde a um bom preço); você sugere o preço demons-

trando um enorme saber e uma enorme confiança ou, se perguntar, será enganado. Em Istambul há mais de uma dezena de sinagogas, mais de uma centena de igrejas e milhares de mesquitas. Parece um número elevado, não é? No entanto, por cada um destes monumentos, eu vi dezenas de lojas. Aqui há uma tradição de enganar o próximo (leia-se, negociar) com centenas de anos. Não será você que irá fazer quebrar esta tradição. Se lhe venderem um produto é porque está a perder dinheiro. Um vendedor em Istambul, se estiver a perder dinheiro, não vende. Não há amizade ou galanteio. Dou três exemplos: 1) Reparei, quando entrava no Palácio Topkapi, que vendiam duas garrafas de água por meio euro (vou referir-me a euros para situar, embora o comércio seja feito habitualmente em liras turcas). Quando saí, encontrei um vendedor que pedia meio euro por garrafa. Mostrei-me irredutível e disse-lhe que apenas pagaria um quarto de euro. Ele mandou-me passear com um belo “então, não bebe! “. Apenas 50 metros à frente, lá estava um vendedor com o preço certo. Ou seja, apenas porque não estaria a enganar-me o suficiente, o primeiro vendedor não vendeu a água. 2) Perto da enorme basílica de Santa Sofia, agora um museu depois de ter sido uma mesquita, estava um vendedor daqueles tradicionais chapéus árabes. Por sugestão, resolvi utilizar a aproximação marroquina e ofereci metade do preço, disposto a subir 20%. O vendedor olhou para mim como se eu o estivesse a ofender - ”eu seria lá capaz de o enganar “. Como planeado, ofereci um pouco mais de metade e dispus-me a comprar três chapéus. Grande negócio, pensei eu... Tinha acabado de comprar três chapéus por 17 euros e meio. Uma bagatela! Mais tarde visitei a Meca do comércio em Istambul, o Grande Bazar. Aí, pude ver os meus três chapéus por 3 euros... 3) Com as experiências anteriores, eu não poderia ser mais enganado. Agora sabia tudo sobre o comércio na Turquia. Um autêntico profissional da sociologia local. Engano. Enganado! À porta da Mesquita de Süleymaniye resolvi

comprar postais. Estava na altura de escrever à família e tinha que “queimar tempo “ porque estava no período das orações (em que os turistas não devem entrar nas mesquitas). Fui até à loja mais próxima e siderei-me por um lindo postal vermelho com a simbologia turca. Como estava um pouco carcomido do Sol achei que obteria um bom preço. Perguntei, o dono respondeume, “meio euro “. Tinha de

seios. Ao final da tarde vá até à beira do Bósforo. O vento térmico é mesmo agradável e refrescante. Se estiver na zona dos barcos verá uma das maiores confusões, com milhares de seres humanos a cruzarem-se a velocidades incríveis para terem a certeza que não falham o último barco. Todos são o último, pelo que vi. Por falar em Bósforo. Dê um passeio de barco pelo Bósforo. Às 15 horas, à entrada

memória que um postal em boas condições, aqui, custaria cerca de 5 cêntimos e,por isso, sentime verdadeiramente enganado. Com um misto de repulsa pelo vendedor e orgulho por ter escapado, coloquei o postal no lugar e fui à minha vida. Ele ainda gritou “quantos quer? “, mas era tarde. Fui-me! Já ao anoitecer passei numa loja que anunciava “10 postais por meio euro! “Eh, eh... Aqui estava. Dirigi-me ao escaparate, escolhi e paguei. No final, a um turista que tinha acabado de chegar, ainda disse “os postais mais baratos da Turquia “. Que tolo eu sou... Nem 10 passos à frente estava outra loja que anunciava “12 postais por meio euro! “... Mesmo que não compre, ficará sempre frustrado. Porque é que ficará frustrado sem comprar? Porque, há realmente produtos muito baratos e, se não comprar qualquer coisa, ficará com a sensação de que perdeu uma excelente oportunidade. Em súmula das questões de compras, veja primeiro, tome notas e vá para fora dos centros turísticos. Vá até aos locais em que os turcos compram. Eu fiz isso e pareceu-me que eram preços mais concorrenciais, não me sentindo mais inseguro por estar fora das zonas turísticas. Ensinamentos sobre pas-

do Museu de Santa Sofia irão prometer-lhe um passeio de barco por 15 liras. Na realidade, depois de estar dentro do barco, o preço transforma-se em 15 euros, mas vale a pena. Para além dos Guias serem de uma enorme gentiliza e simpatia, dominam inglês, francês, espanhol e italiano. Fiquei impressionado com a sua fluência e conhecimentos. Para além disso, uma paragem de 30 minutos no outro lado dá um pequeno sabor a Ásia que fica bem a qualquer viajante que se preze. Tenha também em atenção que à ida para o barco irão levá-lo de minibus, mas à volta estará por sua conta. Aproveite para ver o Bazar das Especiarias que fica ali perto. É imperdível. O Expresso do Oriente, que terminava em Istambul, foi esquecido. Hoje em dia há apenas umas fotos numa parede de um restaurante e dum hotel homónimos. No entanto, não consegui encontrar um belo museu que replicasse o luxo, o bom gosto e as aventuras desse marco dos séculos XIX-XX. Talvez tenha sido a minha maior desilusão nesta viagem. Considerações finais. Este país, sucessor da influência grega e dos Impérios Romano, Bizantino e Otomano

é um colosso que não está a dormir. A Turquia representa uma das 20 maiores economias mundiais e é também uma potência regional localizada num local estratégico na ligação entre o Norte e o Sul e entre o Ocidente e o Oriente, com uma cultura original e bem preservada. O seu exército é o segundo maior da NATO com mais de 1 milhão de homens. Para este país, fundamentalmente modernizado em 1923, antevejo grandes passos em direcção a uma democracia plena (neste momento apenas os partidos com mais de 10% dos votos podem estar representados no Parlamento). Esta é uma terra orgulhosa dos seus. A título de exemplo refiro que os vencedores dos simples jogos escolares locais têm a fotografia exposta no liceu em cartazes com vários andares de altura. A cidade de Istambul tem mais de 8 mil anos de História para contar. As maiores civilizações europeias passaram por aqui e isso reflecte-se numa cultura diversa e disponível a quem quiser visitar. O visitante, apesar de permanentemente assediado por vendedores, sente-se bem recebido. Existem diversas formas de aferir o nível de uma civilização. Entre elas, a forma como tratam as crianças e os animais. O número de vezes que o meu filho David foi acarinhado, sem qualquer razão especial, apenas é comparável ao número de gatos. Estes omnipresentes animais são alimentados por toda a gente, especialmente pelos varredores de rua que assim se livram dos restos de comida. Não se admire se, por baixo de uma mesa de restaurante, aparecer um gato a roçar-lhe nas pernas. É que esta é uma cidade de gente de bem. O que gostaria de ter feito e não fiz? Gostava de ter fumado um daqueles cachimbos de água. Gostava de ter tomado um banho turco e de ter viajado para o interior da Turquia. É bom não ter esgotado as opções, assim tenho mais razões para voltar! Obviamente, estes conselhos são dados por alguém que esteve apenas seis dias na Turquia, somente numa cidade. Portanto, manda o bom senso, siga o seu.


4 • Avenida Marginal • sexta feira 18 de Dezembro 2009

Oh barbeiro!!! Gustavo M. Ramos da Silveira

Feteira, Setembro de 1957 Ângelo Andrade

Era assim, com voz forte, que o Honorino Andrade lançava pelo ar o seu boa tarde dirigido ao Francisco Jacinto de Oliveira (o Barbeiro), enquanto passava pelo passeio do lado do Mercado a caminho do trabalho, na loja de ferragens dos srs. Macedos. Do outro lado da rua, na loja da casa do sr. Viana, a malta que enchia a barbearia do Francisco todo o santo dia da 1 às 2 da tarde, aceitava o cumprimento como se fosse para todos. O Chico correspondia com um ligeiro aceno de mão e um sorriso amigo, até porque, mesmo que quisesse retribuir, sua voz jamais conseguiria atravessar a Rua Direita, abafada que seria pela barulheira que áquela hora tomava conta do salão. Com meia dúzia de cadeiras, uma mesinha cheia de revistas e jornais versando obviamente sobre esporte, o bengaleiro, o móvel com material de

costas duma cadeira virada ao contráriom o “São Pedro” (Neves) participava ativamente das discussões, normalmente mais criticando do que concordando. E de repente, no meio da conversa, chegava o António Jorge com “as últimas em primeira mão”. Era ele começar a falar e a turm logo se escangalhava de dar risada. Ele tinha o dom de fazer graça e piada, mesmo quando queria contar alguma coisa séria! De vez em quando os irmãos Pinheiro (João e Ludgero) também espreitavam à porta para marcar a presença dos sportinguistas, mas logo tinham que voltar para a farmácia. Sempre tinha alguém querendo comprar remédios. A “assistência”, de forma displicente, sentava-se até nos degraus que davam da porta da rua para dentro do salão e, para entrar, a gente tinha que pedir licença enquanto ia apartando os

trabalho, tudo pintado de branco, mais a indispensável cadeira giratória de barbeiro, assim era o ambiente no local onde todos nós, em algum momento iriamos “entrar na tesoura” do Chico. Ah! E na parede várias fotos de momentos gloriosos do futebol e do hóquei do Fayal Sport – o Chico logicamente era dos verdes – e uma foto maior, especial, do Misto Fayal/Sporting que um dia logrou ganhar do Barreirense, que foi ao Faial, quem sabe, pensando que seria fácil ganhar “daqueles mornaças das ilhas”... Deram-se mal! Ainda lembro bem do memorável jogo. No barbeiro, a gente analisava, discutia, criticava ou elogiava tudo sobre esporte, fosse o local, o do continente ou internacional. O “Bebé” Sarmento brincalhão que só ele, auto-elogiava-se, comparando o seu estilo de futebolista ao do Di Pace, jogador do Uruguai, por aqueles tempos campeão do mundo. Tudo isso era motivo para brincadeira e o importante mesmo era rir e ficar bem disposto. Todo o mundo era “especialista” em tudo e sempre tinha na ponta da língua uma opinião, para botar mais lenha na fogueira! Sentado, com os braços apoiados nas

sentados. Quando dava um quarto prás duas começava a debandada de volta ao trabalho. As pendências ficavam para o dia seguinte. À mesma hora. Uma vez mais ainda no Barbeiro, marco inesquecível e referência amiga das nossas vidas daqueles bons tempos! Uma dele: na esquina da Praça da República, perto do cartaz que anunciava o filme do Teatro Faialense – o Romeu amarrava-o bem ali numa árvore – estava um “Banha da Cobra” vendendo unguento que curava desde dor de barriga até unha encravada. Em volta, um magote de curiosos atentos aos convincentes argumentos do “artista” preparava-se, quem sabe, para comprar um daqueles potinhos milagrosos... Sentei-me na cadeira para cortar o cabelo e comentei com o Chico como era possível ainda haver gente que acreditava naquela conversa. Segurando a tesoura numa mão e apoiando a outra no meu ombro ele disparou: “oh Gustavo, o mundo tá cheio de tolos. Só precisa é saber achá-los!” O Barbeiro sabia das coisas... Valeu Chico! São Paulo, 11/09/09

O verão terminou e, com ele as festas. Volta-se à rotina usual da época: faina do mar se o tempo o permite (estamos na época dos ciclones) apanha do milho e do tremoço nas terras. As pessoas andam inquietas; é que a terra começou a tremer. Um sismo ocasional, logo seguido por outros de maior intensidade lançam o pânico nas populações. Até os animais se recusam a entrar nos estábulos à noite. Como sempre, procura-se a ajuda divina e as orações do entardecer na igreja têm maior número de fiéis. A crise sísmica, aparentemente igual a tantas outras, não diminui, pelo contrário, intensifica-se. A população tenta seguir a sua rotina diária mas a perturbação é cada vez maior. Os próprios mestres das embarcações que regularmente se fazem ao mar á força de seis remos movidos cada um por um homem, tendo como únicos meios de navegação alguns pontos de referência em terra, como comunicações sinais emitidos com um trapo atado na ponta de uma cana e que tal como escreveu Raul Brandão… orientam-se por vaga…, dirigindo contudo com precisão as suas embarcações à “marca da Feteira”, decidem ir somente “ali fora” apanhar um “pexinho para comer”. Relembro a propósito, entre outros verdadeiros lobos-do-mar, “Mestre João Vieira”, “Mestre Manuel Bacalhau”, “Mestre Manuel Ratinho”, “Mestre Belmiro”, “Mestre Manuel da Panela”, etc. E no dia 27 surge a notícia. Rebentou um vulcão nos Capelinhos. Lembro-me perfeitamente deste dia. As ruas da freguesia somente frequentadas pela “urbana” dos Farias e pelo “carrão do Malhado” passam a ter um trânsito inusitado. Na nossa casa apercebemo-nos que algo de anormal se passa. Mas é a vizinha Maria Júlia que mete a cabeça entre os bardos e dá a novidade aos meus Pais. Fico estarrecido, não pelo fenómeno em si, mas pela ânsia demonstrada pelos meus Pais. Apesar de me ensinarem na escola as vias-férreas, rios e seus afluentes de Portugal Continental e Ultramarino (ex – colónias), não sei o que é um vulcão. Tal palavra não faz parte do meu vocabulário. Mas a postura dos meus Pais leva-me a concluir que algo de muito grave se passa. Decorrem os dias: do mar nasce uma ilhota precedida de fumarolas e de uma zona avermelhada no mar. Sucedem-se os sismos e a ilhota continua a crescer. As cinzas, nuvens negras e explosões, sugerem um espectáculo verdadeiramente dantesco. Diz-se que até na ilha Terceira se ouvem. À noite o espectáculo é mais aterrador: algo semelhante a trovoada que tudo parece desfazer. Quedamo-nos à janela da nossa casa virada a poente com o meu Pai, cuja

presença não dispensamos e não damos um passo sem ele. A fraca luminosidade dos candeeiros a petróleo e as sombras projectadas tornam o cenário ainda mais sinistro. Muitos cientistas e vulcanólogos deslocam – se à ilha, destacando-se o Eng.º. Frederico Machado que sempre esteve presente. Um dia corre a notícia. O vulcão apagou-se e a ilhota desapareceu. O meu tio Francisco (que vivia na Praia do Norte) apareceu na nossa casa como sempre montado na sua velha bicicleta (que jamais permitia que eu a utilizasse apesar de todas as minhas artimanhas) e, garantiu que esses senhores teriam dito, e jamais esquecei as suas palavras “ que o vulcão ainda era um menino” Hoje entendo o que queria dizer; que ainda não tinha atingido a sua fase mais explosiva: E assim aconteceu. Na noite de treze de Maio de 1958 a terra tremeu constantemente. A freguesia da Praia do Norte e o lugar do Canto do Capelo foram literalmente arrasados. Diz-se que o Governador Civil estabeleceu planos para a evacuação geral do Faial. O meu Pai decidiu enviar-me com a minha Mãe para casa de uns tios em S. Jorge, na velha traineira “Urzelina”. Os meus irmãos ficaram por motivos profissionais. O meu pai acompanhou-nos a S. Jorge e logo regressou. Durante muito tempo não percebi porque o fez. Várias vezes lhe perguntei sem obter contudo, uma resposta precisa. Foi o pior verão da minha vida. Sentiame desenraizado no meio, a falta da minha Família, dos meus amigos e companheiros de vivência do porto, e do mar sempre presente. Aos poucos tudo volta á normalidade. Não tudo! Adopta-se a política de facilitar a imigração como forma de obviar os problemas decorrentes da crise. Consequentemente inicia-se o processo de redução populacional do Faial. Acredito que foi nessa época que o Faial a sua economia e a sua relevância a nível do arquipélago entrou em declínio. Uma política errada e mediática que ainda hoje impõe as suas marcas e consequente aproveitamento, e que deveria servir de reflexão para todos. (Recordações numa tarde de Outono no calhau algures entre o porto da Feteira e a pedra da Velha)


sexta feira 18 de Dezembro 2009 • Avenida Marginal •

5

A História dos Bombeiros em Portugal Hélio Pamplona aquisição permanente de muitas competências, de muitas horas de treino e de muita formação. Para além dos bombeiros entende-se que todo e qualquer voluntário tem de ter a humildade de perceber que tem de preparar-se para o exercício das suas missões. Hoje ninguém pode agir sem os saberes inerentes ao que faz, mesmo que na situação de voluntário. É também fundamental, digo,

acudissem, sempre na heróica e atabalhoada faina de lhes valer. Por volta de 1850, o Governador Civil oficiou à Câmara pedindo providências a este respeito: aquela situação de abandono ante o lavrar do fogo era uma desumanidade. A Câmara responde (of. de 4 de Março (Tombo da Câmara da Horta, liv.XXVI, fls. 111) que lhe não era indiferente o caso; mas assoberbada por múltiplas

Passados 614 anos, a história dos bombeiros portugueses é caracterizada pelo empenho e dedicação, de sucessivas gerações de portugueses, à causa da preservação da vida e dos bens dos seus concidadãos. Hoje existem no país 434 Corpos de Bombeiros detidas por Associações Humanitárias de Bombeiros, e 27 Corpos de Bombeiros detidos por municípios, que são anualmente responsáveis por mais de 1 milhão de serviços de emergência em património de serviço público de grande dimensão. O Lema VIDA POR VIDA, ou seja a plenitude do Compromisso, de cada homem para com os seus irmãos, na plenitude dos valores então assumidos na prática quotidiana dos cidadãos. A plenitude do ser, do saber ser e do saber fazer. O lema que orienta um voluntário nos Bombeiros é: Voluntário por opção! Profissional na acção. Ora este lema conjugado com o lema que citou e que é comum a todos os bombeiros, conduz-nos à conclusão óbvia de que o bombeiro voluntário não pode ser amador. O exercício da missão de bombeiros pressupõe a

essencial que as entidades promotoras de voluntariado promovam o reconhecimento social dos seus voluntários. É com este objectivo que anualmente se elegem, e se reconhecem o mérito ao Bombeiro, ou seja, o bombeiro ou equipa de bombeiros que por qualquer acto de coragem e abnegação, no exercício da sua missão, possam ser apontados à sociedade como exemplo. A sociedade deve reconhecer aqueles que através de actos, se assumem como referência colectiva de valores. É urgente que na próxima legislatura o poder político defina uma estratégia consistente de desenvolvimento e valorização do voluntariado na sociedade portuguesa. Chega de retórica. São precisas medidas efectivas, alicerçadas na convicção do valor do voluntariado como instrumento de formação de melhores cidadãos. Esta é a posição de Duarte Caldeira, Presidente da Liga de Bombeiros. Nós por cá, ainda durante o século passado, nenhuma espécie de serviço de incêndios havia na Horta. As casas ardiam muito à vontade, do princípio ao fim, embora numerosas pessoas

despesas obrigatórias e falha de recursos, nada podia fazer. Já em 1848 o administrador do concelho expusera o problema, reclamando utensílios para a extinção de incêndios, e então, como agora, fora-lhe impossível remediar. Em todo o caso não foi lembrança deitada em saco roto, porque, daí a quatro anos, esses utensílios foram adquiridos e a autoridade administrativa informada do armazém onde estavam arrecadados (2). Eram uma pequena bomba manual e alguns baldes. De novo (1875) em consequência do grande incêndio que destruiu a casa de Roberto Augusto de Mesquita,

na esquina da Rua de Jesus, o Governador Civil solicita à Câmara a adopção de medidas eficientes. Mas, que fazer, se a penúria municipal era sempre a mesma ( Tombo da Câmara da Horta, liv.XLV, fls 35). Em sessão de 21 de Maio de 1877 a Câmara estabeleceu o seguinte: uma gratificação de 4.800 Réis a cada um dos primeiros oito homens que acudissem com a bomba aos incêndios.2800 Réis a cada um dos primeiros doze homens que se apresentassem com cestos ou potes (Tombo da Câmara da Horta, liv XLVI, fls 148). Não foi de todo vã a deliberação, porque criou no público o incentivo do socorro. Pelo menos havia quem quisesse valer. Faltava, porém, a instrução adequada, o método; sobretudo faltava água. Anos depois( sessão de 8 de Fevereiro de 1882) é elaborado e aprovado um regulamento para o serviço de incêndios, criandose uma companhia de Bombeiros Voluntários, municipais (2). Louvável ideia; mas, praticamente, de nenhum resultado. As labaredas, quando se ateavam, lambiam tudo com a mesma anterior liberdade. O necessário era, antes de mais nada, obrigações legisladas, alguma pecúria para material e água de fartar para a bomba. O problema veio afinal a resolver-se com a criação do actual corpo de bombeiros voluntários, que obteve alvará de aprovação passado pelo Governo Civil, em 20 de Maio de 1912. Devidamente organizados e apetrechados, e tanto quanto possível conhecedores do ofício, os Bombeiros Voluntários da Horta, com o seu fim altruísta e serviços já prestados, bem

merecem do público incondicional simpatia e apoio. Creio que de facto assim sucede, porque à digna Associação concorrem subsídios (talvez ainda não tantos como era de desejar) de particulares e corporações. Com esse ofício a Direcção da Associação Faialense de Bombeiros Voluntários tem vindo nestes seis meses a beneficiar o actual edifício do Quartel. Incluindo a camarata pelo sector feminino, chamamos a atenção dos faialenses que na recruta a levar a cabo pelo corpo operacional, estão habilitados 23 cidadãos, sendo 14 do sexo feminino. Oportunamente a Direcção contactará os faialenses no sentido de propor medidas que irão ao encontro do bem-estar dos nossos «Soldados da Paz», que dispendem parte do seu direito ao lazer, depois de um dia de trabalho, a colaborar com a comunidade faialense. Com este editorial, pretende a Direcção da Associação Faialense de Bombeiros Voluntários, Instituição de Utilidade Pública, fundada a 16 de Maio de 1912, federada na Liga dos Bombeiros Portugueses, Cavaleiro da Ordem de Benemerência, e Medalha de Ouro duas estrelas da Liga dos Bombeiros Portugueses, dar a conhecer a todos os faialenses a história de tão prestigiada Instituição. Cientes de que estamos a contribuir para o engrandecimento dos nossos «Soldados da Paz», e respeitando o lema «Vida por Vida », damos à estampa a história de quase um século, a contribuírem para o bem estar dos faialenses, e de toda a Ilha do Faial.

PUB.

Foi a 25 de Agosto de 1395 pela carta régia de D. João I que, correspondendo a solicitações do Senado da Câmara de Lisboa, se estabeleceu as primeiras directivas escritas, sobre a tomada de medidas preventiva e de combate a incêndios. Assim nasceu a primeira forma organizada de prestação de socorro às populações, o mesmo é dizer, o primeiro corpo de bombeiros.


6

• Avenida Marginal • sexta feira 18 de Dezembro 2009

Os Cromos da Estrada 1 esbraceja para os outros condutores, que, coitados, não sabem o que andam ali a fazer. Normalmente, no fim do passeio (dos tristes, como se chama) mede o nível do óleo do motor com a vareta da praxe e faz a média do combustível gasto. O próximo cromo é o CONDUTOR PROFISSIONAL. Este condutor, que conduz uma carrinha de caixa fechada, está sempre com pressa porque segundo as suas palavras ele anda ali a trabalhar... não anda a passear. E anda sempre com pressa porque se bater é o patrão que paga. Paga o bate-chapas, paga o combustível e paga o seguro. Para dar um toque de modernidade usa sempre um CD pendurado no espelho retrovisor. Outro tipo de condutor profissional é o taxista. Conversador nato, tem sempre uma opinião sobre qualquer assunto mesmo que isso não interesse ao cliente. No entanto o futebol e a política são os seus pratos fortes. O mesmo não se pode dizer da geografia ou da matemática, já que ignora que a menor distância entre dois pontos é uma recta e não uma volta pelos subúrbios antes de chegar ao destino. Não tolera os erros dos demais utentes da estrada e distribui impropérios e gestos belicosos pela janela do táxi.

Fiat Panda e faz ultrapassagens perigosas porque gosta de mostrar a potência das suas centenas de CV. Outra coisa que o chateia muito são as multas que apanha só por estacionar em 3ª fila enquanto vai rapidamente assinar o expediente do conselho de administração de uma das suas empresas. Faz a autoestrada A1 a 200 Km/ hora, com os máximos ligados – como medida dissuasora – e sempre de telemóvel na orelha para ostentar o seu status. Costuma dizer, com um certo orgulho, que conduz por intuição e até já se esqueceu do Código da Estrada. A seguir vem um cromo muito conhecido: o MOTARD. Como todos os outros condutores de veículos de duas rodas o motard também anda sempre cheio de pressa. Com brutas máquinas de cromados reluzentes cavalgam o asfalto como verdadeiros cowboys na pradaria. Os motards são assim uma espécie de tribo que se veste com roupas de coiro negro, botas de montar e capacetes nazis. Reúnem-se em grandes aglomerações para beber, beber, beber, conversar sobre motas e celebrar não se sabe bem o quê. Depois destes ajuntamentos os motards partem estrada fora com excesso de álcool e excesso de velocidade e vão exigir às autoridades que coloquem protecções nas barreiras metálicas das estradas para não

Outro cromo que se vê muito nas ruas e estradas portuguesas é o CONDUTOR DE CHAPÉU NA CABEÇA. Este condutor já anda pela terceira idade e, com o seu chapéu na cabeça, conduz um daqueles carrinhos que parecem uma máquina de lavar roupa com 4 rodas. Estes microcarros têm a alcunha de “papareformas” ou “mata-velhos” porque são adquiridos por reformados que toda a vida conduziram uma Famel ou uma Zundapp e estão fartos de chuva e sol no capacete. Este condutor anda por aí a empatar o trânsito sem nunca perceber que quando circula por uma rua leva a trás de si um cortejo doutros condutores furibundos por não poderem passar dos 20 quilómetros à hora. Ele faz manobras perigosas com a maior das calmas e gaba-se de nunca ter tido uma multa na sua vida. Cuidado com os condutores de chapéu na cabeça. Um cromo da estrada, já antigo, é o EXECUTIVO. Conduz um automóvel de alta cilindrada bem lavado e bem polido. Anda na estrada como se ela fosse uma das suas propriedades. Chateia-se imenso por ter que parar para dar prioridade a um

se magoarem muito quando caem da mota que circulava só a 180 Km/hora. Um dos cromos mais recentes é o TUNING. Este condutor não tolera modelos de fábrica e então transforma um veículo automóvel numa loja de electrodomésticos. Além de querer mudar o visual do carro, aplicando ailerons e pára-choques amaricados, também lhe altera as características técnicas para ter mais centímetros cúbicos de show off. Para mostrar os seus níveis de QI e de adrenalina os tuners fazem concentrações em locais mais ou menos ermos e testam as suas máquinas a altas velocidades e em manobras altamente. Fora estas demonstrações ilegais os tuners passeiam os ailerons pelas ruas da cidade deixando atrás de si um TUM TUM TUM TUM que sai estridente das 18 colunas de som – caríssimas – montadas dentro do veículo, ocupando todo o espaço destinado ao banco traseiro e ao porta bagagens. Tal é o amor que os tuners têm aos seus carros que os podemos considerar verdadeiros moto-sexuais.

e

Inventário de Junho Mário Machado Fraião O livro de estreia de Teixeira-Gomes, Inventário de Junho, saiu em 1899, na fase final do «rotativismo», quando o rei D. Carlos já suportava mal as oscilações sucessivas entre os Ministérios regeneradores e os progressistas. Os republicanos afirmavam-se cada vez mais como a principal força de oposição ao bipartidarismo dominante, e alcançaram nesse mesmo ano, na cidade do Porto, um importante resultado eleitoral, posteriormente anulado porque o governo invocou a ocorrência de ilegalidades. Conclui-se agora um século e mais dez anos sobre o despontar da carreira literária daquele que seria o penúltimo Presidente da I República Portuguesa. A edição das Obras Completas de M. Teixeira-Gomes, empreendimento da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, teve o seu começo em Outubro de 2007. O primeiro volume inclui precisamente os três títulos iniciais deste algarvio errante, Inventário de Junho, Cartas sem Moral Nenhuma e Agosto Azul. A volumosa publicação, valorizada com prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, notas do mesmo, de Helena Carvalhão Buescu e Vitor Wladimiro Ferreira, coloca-nos perante o texto actualizado, de acordo com as emendas efectuadas pelo autor ao longo das diversas edições que tiveram lugar durante a sua longa existência. A capa é apelativa, uma irrepreensível reprodução do quadro de Marques d’Oliveira, o retrato do jovem Manuel, filho de abastado comerciante, aos vinte e dois anos de idade. No primeiro caso, este diletante admirador da natureza oferece-nos apontamentos de viagens pelo Mediterrâneo, numa escrita suave e luminosa como os dias longos desse mês prodigioso, o mês de Junho, mas também pequenos contos e crónicas do quotidiano. Enquanto, por outro lado, as Cartas, cuja primeira edição é de 1903, causaram, em função da insólita designação, apreensão e comentários jocosos entre aqueles que nem sequer as leram. Constam, no essencial, de coloridas descrições de um atento caminhante, algumas das quais nos fazem lembrar as pinturas naturalistas, acrescentadas de curtas experiências de ficção, de referências culturais e históricas, prova irrefutável do seu gosto pela epistolografia. Por último, em Agosto Azul, publicado em 1904, também a imaginação complementa os textos que descrevem a costa algarvia ou o sul de Espanha, e outros, como, por exemplo, «Sobre a Morte de Shelley», deambulação acerca do naufrágio, na costa de Itália, deste poeta romântico, amigo de Byron, ou ainda «Uma Cena Grega», quando a paisagem do Algarve, uma vez mais, sobretudo as rochas e o mar, lhe inspira variadas fantasias. De Inventário de Junho retivemos, por exemplo, as suas impressões da Itália por parte de um viajante sensível e

comovido: «A ascensão ao monte Coppola faz-se de carruagem, mas por verdadeiros caminhos de cabras, cortando a espessura frondosa dos castanheiros mansos, dos medronheiros e dos rosais silvestres, ou debruando abismos cavados em rochas que dominam de muito alto o golfo até Ischia e Prócida.» De igual modo as recordações de infância onde a proximidade da água, do vasto oceano em tempo de claridade é quase permanente: «O bote viajava ligeiro, apontando à barra que, suspensa das duas fortalezas desmanteladas, ondulava na imensidade azulada como balouço de espumas ali posto para recreio das ondinas; das vagas rebentadas soltavam-se umas efémeras aparências de corpos brancos bracejando a espaços, à tona de água. Nenhum outro movimento perturbava a serenidade tão absolutamente calma da manhã; fora da barra, o mar, sem viração, esmaltava-se de todo o anil do céu.» Ou ainda um conto breve, narrativa tão imaginosa como trágica, onde o autor se considera a si próprio ser responsável pela morte de um amigo: «Ali estava o meu amigo Tomás, amortalhado na capa de seminarista, cruzando as mãos roxas sobre o peito, como a imagem de um santo mártir inocente, porque devia ter sofrido muito quem tinha assim as feições transtornadas ou então tudo se transfigurara dolorosamente na imobilidade da morte.» Este livro espelha admiravelmente o que seria a produção literária de Manuel Teixeira-Gomes, uma escrita fragmentada, enriquecida pela diversidade, porque depois das impressionantes observações a propósito das terras por onde passava, tem lugar a escrita criativa, a elegante correspondência, os diálogos, a crítica do quotidiano, e outra vez a paisagem, o mar, as viagens.


7 PUB.

sexta feira 18 de Dezembro 2009 • Avenida Marginal •


8

• Avenida Marginal • sexta feira 18 de Dezembro 2009

As Feiticeiras António Francisco da Silva Terminadas as vindimas e o vinho já descansado nas pipas, era então a época alta das feiticeiras. “Pelo São Martinho, vai à adega e prova o vinho” Constava-se que uma vez, o meu avô materno que bem conheci, Manuel Amaro, convidou o seu amigo Armando Garcia da Rosa, mais conhecido pelo Armando da Lúcia, para irem à sua adega, na canada dos coxos. A certa altura, depois de bebidas uma valentes tigelas de vinho, fumados uns quantos cigarros do tabaco cultivado na horta da porta, e, quando o juízo começava a baralhar, normalmente entravam na conversa, as feiticeiras. Já a caminho de casa pela canada dos coxos fora, noite escura, meu avô que

muitos anos, e, “muitas delas eram então americanas”, por isso, eram mesmo verdade e muito mais importantes. Íamos para a casinha de palha de meu Avô na canada dos coxos, e, normalmente, quando a cena acabava, já ao anoitecer, estava-mos os dois a chorar, e com um medo terrível de ir para casa sozinhos. Os mais crentes, falavam das almas do outro mundo, de várias formas. Uns, imaginavam-nas como pessoas, outros como sombras, outros como barulhos, vozes, aragens, arrepios de frio, etc. O Tio José da Ribeira, velhinho carismático e sempre bem-disposto, quando bebia qualquer pinguinha a mais, contava muitas histórias sobre feiticeiras, que para ele eram mesmo verídicas.

“Os Bêbados” - Malhoa

era dado a umas certas baldas, abraçarase a um cepo seco duma faia que estava na berma do caminho, e grita: Armando… olha aqui uma feiticeira, chega-lhe Armando que eu tenho-a bem presa. Ora o Armando que não estava nada melhor e tinha uma pancada ainda maior que a do meu avô, deu-lhe... enquanto as mãos aguentaram. Ficou como um Cristo. Havia muito medo, especialmente durante a noite. Até o simples molho de cana ou espiga de milho que os pastores levavam madrugada cedo, às vacas, ao roçar nas pesadas canecas de madeira de cedro, já pareciam almas do outro mundo a atacar por todos os lados. Seriam boas? Seriam más? Era a dúvida. Os rapazes, contavam uns aos outros, histórias que ouviam em casa e aos mais velhos, do que tinha acontecido a este e àquele, que eram de arrepiar os cabelos e fazer pele de galinha. Meu primo Delfim, já falecido há muitos anos no Brasil, era um especialista nesta área. A mãe dele, minha tia Virgínia, tinha estado na América, onde nascera,

Dizia ele, que, uma bela noite, quando regressava da adega mais o filho Caetano, ali pela canada da Emília acima – uma vereda estreita onde só se passava a pé, que ligava o caminho do meio ou das adegas ao caminho municipal, a Rua dos Bagaços, que por sua vez ligava às outras ruas da freguesia, olhou para o cabeço da Prainha lá ao fundo, e, “elas” eram às dúzias. Umas para baixo, outras para cima, e até outras na direcção dele. As feiticeiras era descritas na maioria dos casos, como que em forma de luzes incandescentes, mulheres, burras, etc. Faltaram-lhe as forças nas pernas, deitou-se e mandou deitar também o Caetano no chão. Elas eram tantas, que só madrugada cedo, depois de até ter pegado no sono, quando levantou a cabeça e viu que já tinham desaparecido, puxou por um braço do filho Caetano e, enchendo-se de coragem disse-lhe: Caetano, agora é p’ra frente, morrer ou viver. Dava gosto ouvi-lo, todo convencido, a contar as suas histórias e cantar as suas canções muito antigas e, praticamente

únicas. O Frei João, a Nau-Catrineta, etc. Como já foi dito, naquele tempo, um dos principais divertimentos, era ir à adega com um petisco, em família ou com um amigo. Não havia electricidade, por conseguinte, também não havia iluminação pública. Quando saiam da luz da vela, da adega para a rua, viam-se muitas feiticeiras. Eram luzes por todos os lados. Alguns viam-nas sob as mais diversas formas. Contavam alguns, que, certo curtidor que ia vender a sua sola para os lados da Madalena, ao passar pela Taberna Daniel – “lugar muito perigoso” - ali no lugar do Campo Raso, às tantas da noite, vira uma burra atravessada no caminho com uma corda de rastos, presa ao pescoço. Pensou: este animal vai fazer prejuízo por aí esta noite. E resolveu apanhá-la para amarrar a uma parede, até que o dono aparecesse. Quando lhe ia pegar na corda, a burra dá uma valente gargalhada e transforma-se numa mulher que ele bem conhecia e era da sua freguesia, saltou-lhe para as costas, e obrigou-o a ir pô-la em casa dela, caso contrário, e ou a denunciasse a alguém, morreria. Com estas ordens, quem podia resistir. Foi pegar e andar, e, bico calado. Nota: A taberna Daniel, era uma taberna que ficava isolada das casas à beira da estrada, no lugar do Campo Raso. Era um lugar onde, diz a lenda, se assustava muita gente. Por estas e idênticas razões, está claro. Outro caso, fora passado com um indivíduo da vizinha freguesia de São Mateus, que namorava uma rapariga com quem casou em São Caetano. Certa noite quando regressava a casa já tarde da noite, encontrou-se no extremo das duas freguesias, também com uma feiticeira, em forma de abóbora, iluminada, com a forma de cabeça de pessoa humana. Ao tentar passar ao lado dela, esta transforma-se em mulher, e, como no caso anterior, obrigou-o a ir pô-la também em casa dela, com as mesmas exigências. Como as coisas mudaram?! Agora, com a malandrice que por aí prolifera, não sei se teriam tanta sorte.

1º Concurso de BD Avenida Marginal Geraldes Lino, responsável pelo blog Divulgando BD escreve assim no seu artigo “Concursos de Banda Desenhada - Subsídios para um estudo”: “Em 2009, no Arquipélago dos Açores, Ilha do Faial, surgiu, facto inédito, um concurso de BD para uma só prancha, sem limite de idade máxima, num jornal, gratuito, trimestral, intitulado Avenida Marginal. Que conste, esta terá sido a primeira publicação jornalística a colaborar em tal tipo de iniciativas.” O primeiro concurso de Banda Desenhada Avenida Marginal, para além de ser um caso de estudo, ultrapassou todas as expectativas. Foram enviados exactamente 90 trabalhos divididos por autores nacionais e outros regionais. Destes muitos trabalhos serão seleccionados os melhores para fazerem parte de uma mostra que será exposta em vários locais do País. A primeira exposição está já marcada para este mês de Dezembro no Centro do Mar, ilha do Faial. Desejo agradecer a todos os que tornaram isto possível, a todos os que participaram e a todos os que apoiaram esta iniciativa desde o início. Um muito obrigado ao Instituto Politécnico de Beja, à Bedeteca de Beja e ao Paulo Monteiro, ao Avenida Marginal e ao Jornal Fazendo, à Cooperativa Cultural Mal-Amanhados, ao Centro do Mar e à Sara Luís. Um especial obrigado aos membros do Júri e ao docente Jorge Soares que implementou no plano de estudos das suas turmas um trabalho de banda desenhada tornando possível que um maior número de potenciais futuros autores açorianos pudesse participar. A todos um feliz Natal e um próspero Ano Novo.

Título: Avenida Marginal

Periodicidade: Trimestral

Director: Heitor H. Silva

Editor e Proprietário: Heitor H. Silva

Tiragem desta edição: 2000 ex.

E-mail: avenida.marginal@sapo.pt

Morada para correspondência: Apartado 81, 9901-909 Horta Codex Impressão: Gráfica “O Telégrapho”, Rua Cons. Medeiros, 30, 9900-144 Horta Telef. 292 292 245 Registo ERC 125447 de 04 - 06 - 2008

(NIF 161921051)


Menção Honrosa para Autor Nacional - André Oliveira e João Ataíde

Primeiro Prémio Autor Nacional - Pedro Carvalho e André Oliveira

sexta feira 18 de Dezembro 2009 • Avenida Marginal •

9


Menção Honrosa para Autor Nacional - Carlos Rocha

Primeiro Prémio Jovem Autor Regional - Pedro Valim

10 • Avenida Marginal • sexta feira 18 de Dezembro 2009


Primeiro Prémio Mini Autor Regional - Angel

Menção Honrosa para Autor Nacional - Pedro Data

sexta feira 18 de Dezembro 2009 • Avenida Marginal •

11


Menção Honrosa para Autor Nacional - Marc

Primeiro Prémio Mini Autor Nacional - Catarina Calvinho

12 • Avenida Marginal • sexta feira 18 de Dezembro 2009


sexta feira 18 de Dezembro 2009 • Avenida Marginal •

13

Resquícios da escravidão no Brasil Manuel Oliveira XVIII, os escravos eram tratados da pior forma possível. Trabalhavam de sol a sol, recebendo em troca apenas trapos para se vestirem e uma alimentação de péssima qualidade. Passavam as noites nas senzalas, galpões escuros, húmidos e com pouca higiene, acorrentados para evitar fugas. Eram constantemente castigados fisicamente, sendo o açoite a punição mais comum. Eram ainda proibidos de praticar a sua religião de origem africana ou de realizar as suas festas e rituais, sendolhes imposta a religião católica pelos senhores de engenho e a adopção da língua portuguesa na comunicação. Mesmo com todas as imposições e restricções, não deixaram a sua cultura apagarse. Escondidos, realizavam os seus rituais e as suas festas, mantiveram as suas representações artísticas e até desenvolveram uma forma de luta, chamada capoeira, muito em voga hoje em dia. As mulheres negras também sofreram muito com a escravidão, embora os senhores de engenho as utilizassem principalmente para trabalhos domésticos. Eram cozinheiras, arrumadeiras e até mesmo amas de leite. No “século do ouro” (XVIII) no Brasil, alguns escravos conseguiam comprar a sua liberdade após adquirirem a carta de alforria. Iam juntando alguns “trocados” durante toda a vida e conseguiam tornar-se livres. Porém, as poucas oportunidades e o preconceito da sociedade acabavam por fechar as portas a essas pessoas. Muitos reagiram à escravidão, procurando uma vida digna. Eram frequentes as revoltas nas fazendas em que muitos escravos fugiam, formando nas florestas os quilombos. Aqui, os quilombolas podiam praticar a sua

cultura, falar a sua língua e exercer os seus rituais religiosos. O mais famoso foi o Quilombo de Palmares, em Pernambuco, comandado pelo chefe Zumbi que liderou o movimento negro há 300 anos. Formado em 1604 por um grupo de 40 negros foragidos, esse núcleo de resistência sofreu durante 100 anos diversos ataques dos portugueses e também dos holandeses que então se haviam instalado em Pernambuco. Consta que teve de matar o tio, antes de assumir a liderança do movimento, porque não aceitou o acordo feito por ele com os portugueses. Acordo esse que consistia em parar com o rapto de negros, ainda escravizados, aos fazendeiros da época. Acabou por ser morto em 20 de Novembro de 1695, sendo esse dia (20/11) celebrado no Brasil como o Dia Nacional da Consciência Negra. A actualidade: Para fazer o levantamento dos locais onde vivem comunidades remanescentes de quilombos, apoiá-los na luta contra a expropriação das suas terras e estudar este fenômeno foi criada a Fundação Palmares, nome dado em homenagem ao quilombo do chefe Zumbi. Estima-se que ainda existam mais de duas mil comunidades quilombolas[3], vivas e actuantes espalhadas pelo território brasileiro, lutando pelo direito de propriedade das suas terras, direito esse consagrado pela Constituição Federal Brasileira desde 1988.

Deixa-te de brincadeiras 1 aos vencedores nos diversos escalões etários, bem como por diversos livros de autores açorianos, ou abordando temática regional. Ser-lhes-á, igualmente, entregue a colecção “Toupeira” e “Venham + 5”, oferta da Bedeteca de Beja. Quanto aos livros que irão ser remetidos aos premiados, queremos fazer aqui um público agradecimento aos autores e às entidades que, correspondendo ao nosso apelo, contribuiram com cerca de uma centena de volumes, para que os “prémios” fossem verdadeiramente interessantes.

e

Clube de Filatelia “O Ilhéu” coordenado pelo professor Carlos Lobão (6), Faialentejo (6), Humberto Moura (3), Valente Araújo (6), Carlos Ramos Silveira (1), Câmara Municipal da Horta (26), Câmara S. Roque Pico (4), Câmara Municipal Praia Vitória (3), Direcção Regional Turismo (5), Assembleia Regional Açores (4), Direcção Regional Comunicades (48). A todos os nossos sinceros agradecimentos com votos de Boas Festas e um excelente Ano de 2010 PUB.

Numa viagem que fiz recentemente ao norte do Estado de Goiás, tomei conhecimento da existência de um quilombo[1] próximo da cidade de Cavalcante, denominado kalunga[2]. Enquanto a maioria das comunidades tem actualmente contacto permanente com a sociedade nacional, os kalungas de Goiás vivem uma situação especial. Até há pouco tempo atrás, apenas se conseguia chegar aos núcleos onde vivem depois de uma demorada viagem em lombo de burro por caminhos difíceis ao longo de um terreno acidentado. Os mais velhos, nalguns casos, nunca deixaram o antigo quilombo para conhecer as cidades. Mas a população mais jovem já começa a interessar-se pelo mundo à volta e alguns até participam em encontros com outros grupos, promovidos pela Fundação Palmares. A história: De acordo com dados históricos, o tráfico de africanos para o Brasil terá começado na primeira metade do século XVI, época em que teve início a produção de açúcar e em paralelo com o tráfico de europeus para África. Os escravos africanos que os portugueses comerciavam, passavam inicialmente por Portugal, onde alguns eram levados para outros países europeus e a maior parte destinava-se ao Brasil e às nossas ilhas. No caso dos que se destinavam ao Brasil, o transporte era feito nos porões dos navios chamados negreiros, amontoados em condições desumanas, onde muitos morriam antes de chegar ao destino, sendo os seus corpos lançados ao mar. O tráfico de escravos para o Brasil não era exclusivo de comerciantes brancos europeus e brasileiros, mas também pelos pumbeiros, que eram mestiços, negros livres e também ex-escravos, que não só se dedicavam ao tráfico de escravos, como controlavam o comércio costeiro, para além de fazerem o papel de mediadores culturais no comércio de escravos da África Atlântica. Nas fazendas de cana de açúcar ou nas minas de ouro do Brasil, a partir do século

[1] Local de refúgio dos escravos que conseguiam fugir aos seus senhores. [2] Denominação dada ao quilombo do município de Cavalcante (Goiás). [3] Denominação dada aos membros do quilombo.

Onde pode encontrar diversos artigos para o seu lar e muitas prendas para oferecer.

Ilumine o seu Natal com as velas da

Yankee Candle


• sexta feira 18 de Dezembro 2009

PUB.

14 • Avenida Marginal

Administração dos Portos do Triângulo e do Grupo Ocidental, SA

PUB.

A AFAMA - Associação Faialense dos Amigos dos Animais tem por objectivo a ‘defesa e protecção dos animais com vista a melhorar por todas as formas ao seu alcance, as condições de vida destes’. Esta associação criada em Maio de 1999 tem vindo a desempenhar um papel importante na defesa dos animais orientado por um plano de acção baseado sobretudo na angariação de fundos para as despesas de manutenção do canil, tais como a realização de actividades, bazares, feiras do livro, etc. São também consideradas prioridades as seguintes actividades: realização de acções que visem sensibilizar a população local para a problemática dos animais abandonados, accionando campanhas de sensibilização; promoção de campanhas de adopção de animais junto da população em geral, promoção de campanhas de sensibilização à população e controle populacional de cães e gatos na ilha do Faial

Como pode ajudar: Inscrevendo-se como sócio da AFAMA pagando uma quota anual de 12 euros (1 euro por mês); Inscrevendo-se como voluntário/ tratador de animais nas instalações da AFAMA; Inscrevendo-se como voluntário na recolha de alimentos; Colaborando nas actividades de angariação de fundos: peditórios, bazares, e feiras do livro Mensagem: Nunca abandone o seu animal. Ser responsável é o melhor caminho, o mais correcto e o mais justo para a convivência com os nossos amigos.

A Administração dos Portos do Triângulo e do Grupo Ocidental (APTO), S.A., formula a todos os seus trabalhadores e respectivas famílias, aos seus clientes e fornecedores, às instituições e autoridades com que trabalha regularmente, a toda a comunidade portuária e à população em geral votos de

FELIZ NATAL E BOM ANO NOVO PUB.

Associação Faialense dos Amigos dos Animais


sexta feira 18 de Dezembro 2009 • Avenida Marginal •

À Mesa de Natal 1

a decoração, com as luzinhas, os brinquedos, as bolas, os fios..., e lá ficava imóvel e enfeitada, a grande árvore de Natal, com mais de três metros de altura. À medida que os anos passavam, lá para a dúzia de anos, entendi que havia de fazer a minha própria árvore de Natal, com um metro de altura, também enfeitada, pedindo ao Pai Natal, apenas três presentes: um para mim, e outros dois para meus pais. Assim, aconteceu, e foi um dos Natais mais felizes, pois, felizmente, acreditei no Pai Natal, até muito tarde. Também a abertura das prendas, obedecia a um circuito obrigatório: primeiro na casa dos avós paternos, seguindo-se os primos, e por último os avós paternos. Hoje, outro circuito acontece: primeiro na nossa casa, depois nos sogros, e por último nos pais. Hoje, ainda tento acreditar no Pai Natal, mas é-me cada vez mais difícil manter a ingenuidade... A CEIA Invariavelmente, o Natal era na casa dos Avós maternos, e a Passagem de Ano na casa dos Avós paternos. Sempre assim foi, enquanto cá estiveram, e a ementa também foi sempre a mesma: Nas vésperas, sopa de legumes, bacalhau cozinho, com batatas, cenouras, ovos, grão e grelos muito bem cozidos. Nos dias, canja, galinha assada recheada, acompanhada com batata frita aos palitos, em que a ondulada, era feita e ensacada dias antes, para não amolecer ao ar... Não havia pacotes, nem microondas, e os frigoríficos eram escassos! Nas sobremesas, comum era a melhor salada de frutas (da qual herdei o jeito), com o tronco de Natal, pudim de coco, bolo d’argot, frutinhas e salame no Natal, ficando para a passagem de ano o bolo de coco, bolo de chocolate francês, bolo madeirense e pudim de bolacha. Uma constante, eram as enormes mesas elásticas, que se abriam para receber 12 ou mais familiares que a ladeavam, mas sempre com os avós anfitriões às cabeceiras. Na noite da passagem de ano, só um relógio era digno de confiança: o do tio António Mateus, mesmo quando desfasado das sirenes que anunciavam o Ano Novo. Este, foi o meu Natal e Passagem de Ano, durante os últimos quarenta anos, com a variável progressiva de que, os mais velhos vão dando lugar aos mais novos, que nem sempre conseguem encher a mesa, apesar

e

dos meus esforços, com uma ementa que se vai afastando das originais... Fica-me o consolo da memória vivida, e a enorme mesa, que fiz questão de herdar..., e que, agora, me cabe a mim encher no primeiro Dia do Ano o dia que me coube no circuito familiar, e que procuro honrar nos últimos dez anos. Por respeito, deixo as cabeceiras para o pai e para o sogro..., mas lá virá o dia, em que, “infelizmente” a cabeceira, será minha..., pela lei da vida! A ementa, varia, mas no Primeiro Dia do Ano, é sempre carne, e a sobremesa obriga a salada de fruta, bolo de chocolate francês, e uma inovação: maçãs assadas. Assim, cada casa da família mantém a sua imagem de marca, com uma ementa e com almoços ou ceias obrigatórias, no Natal e na Passagem de Ano. No Natal, e na Passagem de Ano, a nossa festa continua a fazer-se em família, e em casa! A FAVA DO BISAVÔ Meu bisavô era uma Santa criatura, muito calado, pachorrento, e nada o incomodava..., nada, menos minha bisavó, que andava sempre chamando: “Oh, António”, ao que ele respondia, invariavelmente: “O que é?” ao que Maria nada dizia... era uma espécie de confirmação da sua presença, a que ele já se habituara, como também se habituara a dizer “Está bem” aos seus conselhos, e a fazer o que entendia... No Natal, e no Ano Novo, uma das tradições era comer o BoloRei, todo, o que não era difícil, pois a mesa estava sempre cheia, e a boa salada de frutas pedia massa, para enxugar..., para ver quem era o bafejado com a sorte da prenda, e o que, apanhando a fava, era “obrigado” a comprar o Bolo-Rei seguinte. Houve um ano em que a prenda apareceu, mas a fava não... A dúvida instalou-se: ou o pasteleiro havia-se esquecido da fava, ou algum “forreta” havia escondido a fava, para não pagar o próximo bolo. Qual seria a verdade? A discussão já ia adiantada e acesa, pois com promessas não se brincam, quando o Bisavô Pacheco disse, com a maior naturalidade e ingenuidade: “Só se foi aquela fruta cristalizada mais dura, que comi!” Foi a gargalhada geral, perante o alivio de uma família, que assim via assegurada uma tradição de longa data. Que saudades tenho do passado da “minha” actual mesa. Boas Festas para todos, e um Próspero Ano Novo!

15

Com o cheirinho da canela e dos figos Isaura Rodrigues * Fazia frio, muito frio. Tanto frio que nem a manta de retalhos, acolchoada com sacas de serapilheira, nos aquecia a esperança de que o Natal estava aí, e queríamos que fosse diferente, nos alegrasse os corações e não fossem dias iguais aos demais. Este ano, uma luzinha ao fundo do túnel, ténue, ténue dava-nos a indicação que o Natal em casa pela primeira vez ia ser Natal. O meu pai tinha conseguido trabalho umas semanas antes, e como recebia semanalmente, fóra aquele que ficava na taberna com os amigos, assegurava quartilho e meio de petróleo para o candeeiro, duzentos e cinquenta gramas de açúcar para as papas, quinhentos gramas de sal, cem gramas de café de cevada, um alqueire de milho e pouco mais. A mãe disse-nos, sentada à mesa em frente de duas sardinhas salgadas e umas batatas doces cozidas dividido por todos nós, que estava deligenciando apurar as coisas necessárias para fazer um Pudim de Pão e que ia comprar uma corneta de lata para o meu irmão e que para mim me faria uma boneca de trapos. O meu tocante de sardinha, de repente, pareceu-me um manjar de reis. Na minha cabeça aquela conversa da boneca transformou-se num hino de alegria e de amor ao Natal, que eu queria que fosse, este ano, bem diferente. Entretanto aproximou-se o dia de Natal e já havia para o Pudim de Pão os figos, a canela, um pouco de cacau e algum pão que a mãe fora guardando da refeição do bebé, e o resto haveria de chegar quando o pai recebesse a féria. Os dias foram passando e o patrão esqueceu-se que o menino quando nasceu foi para todos o festejarem e que o S. Nicolau tambem visitava o lar dos mais pobrezinhos. Homem! Vai até aí fora, pode ser que o patrão te veja e se lembre de te pagar. Dizia a minha mãe.O meu pai contrariado saiu sabendo que nunca pediria o seu dinheiro ao patrão, mas quem sabe se ele o visse... Não. O patrão conversava sentado a uma mesa com outros homens, olhou o meu pai que entretanto se encostara à umbreira da porta da taberna e ali ficou hirto pelo frio, pelo cansaço e pela desilusão. Anoitecera. Lentamente foram

saindo da taberna, o patrão passou na frente do homem que o ajudava a ser rico e tomou o rumo do seu lar onde se cozeu massa-sovada, se assava galinhas e outras coisas boas que a nossa mente naquele tempo não era capaz de imaginar. Quando entrou em casa, o meu pai fechou a porta com a tramela e sentou-se no banco ao pé da selha de lavar os pés. Era ante-véspera de Natal. Nada? - perguntou minha mãe - Nada, respondeu. Olharam um para o outro e nada disseram. Na véspera de Natal, logo pela manhã, a minha mãe acordou-me, deu-me a roupa para me vestir, que de agasalho não tinha nada, e mandou-me ao posto do leite com uma caneca grande buscar leite desnatado que era dado pelos criadores de gado. Ferveu o leite, deitou por cima do pão desfeito e do cacau, e cortou os figos miúdos. Untou um tacho pequeno com banha e encheu o pudim que foi cozer a casa da vizinha que estava em dia da cozedura do pão. A corneta veio através do padrinho do meu irmão. A minha boneca estava bem vestida, mas tinha uns olhos tão arregalados e uma boca tão grande, que na altura fiquei com medo dela, mas

lá me fui habituando e por fim já gostava. Medi com um fio de lã a boca dela e a minha, a minha era muito maior. Não sabiamos o que era consoada. No dia de Natal, sobre uma mesa de madeira carcomida pelo tempo, havia uma toalha branca feita de pano de lençol com fios puxados coloridos e uma pontilha na beira feita pela minha mãe. Em cima da mesa um jarra partida, com um ramo de galhos de criptoméria e camélias brancas davam um cheirinho e uma frescura que contrastava com o cheirinho da canela e dos figos do pudim com que festejámos aquele Natal que apesar de tudo não foi dos piores. Outros já tinham sido, e outros viriam. Não éramos um família feliz porque a vida não deixava que o fossemos. Vivíamos num tempo que era nosso e não conhecíamos outro e aceitávamos, sem uma queixa, sem nenhuma revolta. Tanto trabalho. Tanta ingratidão. Tanta fome enquanto crianças, tanto frio, tanto frio, tanto.

* Proprietária do restaurante “A Àrvore”

Pudim de Pão 12 papossecos, ou outro pão na quantidade necessária Leite que baste, cacau a gosto, 1 colher de café de canela 1 pitada de noz moscada, 1 Kg de figos e raspa de limão ou laranja Açúcar a gosto: não convém que fique muito doce (se usar mel não precisa açúcar) 1 cálice de vinho do Porto 1 cálice de aguardente 4 ovos inteiros Pode levar sultanas, passas, nozes, etc Mistura-se no pão demolhado, depois de quase frio, todos os ingredientes Unta-se uma forma com margarina e polvilha-se de farinha e vai ao forno a cozer em temperatura média. Quando cozido desenforma-se e serve-se partido aos quadrados. Pode polvilhar-se com açúcar fino.


• sexta feira 18 de Dezembro 2009

Minha gente: não podemos viver neste mundo de olhos fechados. Temos que saber as linhas com que nos cosemos!!! Agora pergunto, é preciso enfiar p’los olhos adentro cenas que sabemos, mas que ao vermo-las se tornam quase... obscenas? Tem que haver estética na ética. Viver tem que ser uma obra de arte, nem sempre bonita, mas sempre bela...e às vezes até dói !!!

Margarida Madruga

PUB.

PUB.

PUB.

PUB.

PUB.

PUB.

16 • Avenida Marginal


sexta feira 18 de Dezembro 2009 • Avenida Marginal •

17

Ermida de São Pedro, na Feteira “ . . . e adiante da igreja da Feteira, perto de ¼ de légua, está uma ermida de S.Pedro, de muita romagem”. Gaspar Frutuoso Herberto Dart explorou a quinta anexa àquela propriedade. O Sr. Chico, como nós o tratávamos na nossa infância e adolescência, foi um

com a 1.ª Escola de Condução do Faial. Os miúdos daquele tempo, como eu, que por ali deambulavam, admiravam as lindas bicicletas, que desejávamos tanto

comerciante honesto e afável, com negócio na Horta, na Travessa do Poiso Novo, reparando e alugando bicicletas, depois também motoretas e mais tarde

possuir, depois alugávamos as motoretas e, quando já adultos, fomos alunos na condução que, com grande paciência, nos transmitia. Nasceu em 11.10.925 e

faleceu em 23.06.1995, tendo casado a 15.05.1945 com D.Albina da Conceição Rosa, falecida em 13.08.2007. Deixaram descendência hoje dispersa, nos E.U.A. a filha mais velha, no continente português a Maria Amélia, que é freira e o Francisco Manuel que nos visita frequentemente e que já tem também descendência assegurada. Desta Ermida, segundo o autor do manuscrito, apenas resta a imagem de São Pedro, em madeira com o seu resplendor de prata, que esteve na posse de Francisco António, residente à canada da Ribeira, na Feteira, o qual, na altura, informou, ter esta imagem ficado soterrada nas ruínas de uma casa, quando do terramoto de 1926, onde esteve por muito tempo. Ele próprio a encontrou, depois, mandando pintá-la e tendo feito as respectivas chaves, que a imagem tem na mão, pois as originais não foram encontradas. Ainda não tive ocasião de seguir a pista desta imagem, extremamente valiosa pela sua antiguidade e história, espero, no entanto, que não tenha sido adulterada e esteja em bom recato. Como esta, muitas ermidas foram desaparecendo ao longo dos tempos, como a de S.Tiago, da Boa Viajem, do Livramento e de Nossa Sr.ª da Nazaré, outras encontram-se bastante abandonadas e em vias de ruína. Seria conveniente olhar por elas e juntá-las às quatro ou cinco que, apesar de tudo, ainda subsistem e são património inestimável como registo da vivência dos nossos antepassados. PUB.

As fontes do conhecimento apoiamse na memória, registada de qualquer forma através dos tempos e transportada até aos nossos dias. É o caso do manuscrito que me chegou às mãos, há mais de 20 anos, oferecido por alguém, cujo nome infelizmente não recordo, e que veio confirmar a existência desta ermida, na antiga canada de São Pedro, hoje rua do mesmo nome. Marcelino Lima nada acrescenta nos seus Anais, naturalmente dado o pouco interesse que o assunto lhe suscitou. Este manuscrito, diz-nos que a Ermida da invocação de São Pedro, foi mandada construir, entre 1680 e 1720, por Jorge da Terra, na sua propriedade da Feteira, dotando-a com os seguintes bens: 13 ½ alqueires de terra lavradia, com uma casa coberta de palha e mais 24 alqueires de terra com outra casa de palha e ainda 1 pedaço de terra, tudo na Feteira. Tendo este Jorge da Terra, instituído uma terça, vinculada nos seus avultados bens, esta Ermida e sua fábrica, ficaram anexas á referida terça e na posse dos seus herdeiros. Mais tarde, José de Arriaga, com artimanhas jurídicas, em que era perito, conseguiu a posse desta terça, para seu tio, Amaro de Brum, e por morte deste, herdou-a, ficando possuidor das referidas Ermida, sua Capela e Fábrica. Decorridos vários anos passou á posse de António Silveira Bulcão e, por morte deste, ao filho Francisco Silveira Bulcão. Nesta Ermida, celebrou-se o casamento de Guilherme Street com D.Bárbara Nodim d’ Arriaga, no dia 16.0.1745, sendo D.Bárbara filha de João d’Arriaga, residente na Horta. O último acto religioso, praticado na Ermida, realizou-se em Janeiro de 1834. Encontrando-se muito arruinada, devido aos abalos de terra, foi demolida em 1839, pelo referido Francisco Silveira Bulcão, construindo, no mesmo local, casa de morada, para a qual utilizou a pedra da mesma, pois, junto à porta da cozinha viam-se pedras lavradas provenientes da ermida..Esse imóvel tem hoje o n.º 30, da Rua de São Pedro. Interessante verificar que a actual proprietária da referida casa, D.Maria Albertina Pereira da Costa, ainda se recorda de, na sua infância, se queimarem pedaços de madeira dourada, no forno da cozinha da família ( provávelmente talha do altar da referida ermida). Luiza Aurora Bulcão, filha de Francisco Silveira Bulcão, casou com José Pereira da Costa, sendo os pais de Francisco Pereira da Costa, casado com D.Amélia da Glória Goulart que residiram nesta casa, sendo filho deste casal Francisco Pereira da Costa, residente na Horta, mais conhecido por “Chico das Bicicletas”, que durante algum tempo


18

• Avenida Marginal • sexta feira 18 de Dezembro 2009

Receitas e Despesas Manuel Bernstein

Poderosas Burkas Invisíveis Carla Cook

O binómio receitas e despesas é essencial na gestão financeira de qualquer entidade, projecto, empresa, instituição ou sociedade. Direi mesmo que é o «Calcanhar de Aquiles»! Nos dias de hoje tem de existir capacidade de gestão para que haja viabilidade financeira e uma certa reengenharia na gestão do nosso activo patrimonial nas diversas vertentes para nos integrar na sociedade de mudança em que vivemos, a m da nossa própria sustentabilidade e qualidade de vida. Por isso, as receitas geradas e as despesas têm de ser devidamente efectivadas e controladas de forma sistemática. O meu querido avô que vai a caminho dos noventa disse-me várias vezes: «Caro neto quem tem dinheiro é quem o poupa e não quem o ganha». Esta máxima da vida vivida é repetida várias

ainda que aprender com as democracias menos jovens cujos mecanismos de geração e gestão das receitas, como também o controlo e contenção das despesas é realmente feito. Para mim, o mim o modelo escandinavo é aquele que tem os resultados mais promissores e reais. Altos impostos e apoios sociais que respondem aos problemas que vão surgido todos dias. Os maiores índices de desenvolvimento estão perto das latitudes boreais. É uma realidade insofismável! Vou expor uma situação que acho um verdadeiro tesouro deprimente e vai ao encontro dos gastos desnecessários. Existem cargos políticos em que os seus titulares têm casa de função para representarem os eleitores com a dignidade tida por conveniente evitando algum desperdício em termos de deslocações, para

vezes pelo meu avô a este seu neto. Aliás, o meu querido e estimado avô só tem a quarta classe e é doutor «honoris causa» pela universidade da vida, pelo serviço prestado à família e aos outros. Numa democracia a legitimidade do poder instituído só se verifica verdadeiramente se os eleitos do povo obterem receita de forma justa e legal e gastarem o bem público com parcimónia e necessidade. Muito mais importante do que a receita é a despesa dos dinheiros públicos. Qualquer orçamento seja em tempo de crise ou de crescimento deve conter medidas de controlo e contenção. O dinheiro é de todos os contribuintes, embora saibamos à partida que os gastos mal efectuados prejudicam todos aqueles que precisam duma ajuda estatal efectiva. Os que gastam de forma errada não têm em conta que não haverá suporte financeiro para ajudar os mais necessitados e os mais pobres. É pobreza de espírito e mais do que isso é delapidar as gerações futuras. Quando os gastos são supérfluos quem paga é sempre o «Zé Povinho». No panorama actual da nossa jovem democracia que está a dar os seus primeiros passos para se instalar, temos

além do respectivo gabinete de trabalho. E não só. Têm viatura e motorista. Numa casa de função recebem as entidades oficiais com maior dignidade e respeito. O que não compreendo é que alguns representantes do povo soberano, que somos todos nós, não tenham o discernimento de exercem as suas funções no local previsto e estipulado para exercerem essas funções. O que quero dizer com isto? Existem eleitos cujos cargos electivos são de alta importância institucional e exercem funções fora do local previsto porque a sua área residencial está distante, ou seja, duplicaram os gastos públicos. Aumentaram as despesas nas deslocações, nos funcionários e na criação de novos gabinetes de função. Mas mais grave do que isso, ainda não ouvi na praça pública qualquer comentário fedorento que denunciasse esta completa e descabida despesa pública com tiques dum despotismo saloio e boçal. Eis minha estupefacção perante estes casos em que existe uma hibernação protestativa e que condena a gestão da «coisa pública». Nós às vezes somamos poucos, maus uns para os outros e perfeitamente ridículos. A bem de Portugal das portuguesas e dos portugueses.

Este Verão, fomos – eu e a minha família - a Istambul. Teria sido uma viagem como outras se não nos tivesse marcado tanto. Em artigos que escrevi para o AO, onde mantenho uma coluna, falei, na época, dessa viagem de como foi poderoso estar nos sítios das mesquitas reservados apenas às mulheres, de como o meu filho me ensinou mais sobre como comunicação com outros povos do que quaisquer academias (e até da barbaridade que é os fraldários do aeroporto de Lisboa estarem dentro dos wc femininos porque não tenho de ser obrigatoriamente eu a limpar o rabinho da criança, perdoem-me este aparte). Mas, na verdade, quando regressei, lembrei-me de Sarah Mousavi, uma ex-aluna minha que usava um véu na cabeça. Era muito comum no Canadá haver uma enorme diversidade cultural, mas a Sarah foi a única muçulmana que ensinei que fazia questão de tapar os cabelos com um véu e as coxas com roupas largas. Embora a Sarah fosse bem aceite por todos, havia, ocasionalmente, algumas piadas menos simpáticas e imagino que, fora das aulas, a coisa se incendiava muito mais. A certa altura, por obrigatoriedade disciplinar, os alunos tiveram de escrever um texto sobre tradições culturais e este foi o texto da Sarah que - corrigido por mim é certo - segue aqui, para vossa reflexão. Acredito que toda a literatura deve acordar-nos e abrir-nos os olhos para o real, como se nos desse uma marretada na cabeça. Portanto, o que a Sarah escreveu, nesta óptica, é literatura. Antes de o transcrever, tenho de agradecer às centenas de alunos de tantos países que tive ao longo dos anos. Não sei quem mais aprendeu, se eu, se eles… “Uso um véu nos cabelos e interrogo-me porque é que os meus colegas pensam que isso me faz estar presa a seja o que for. Este uso é uma escolha minha, pessoal, ainda que condicionada pela minha cultura. Mas não é verdade que todos eles estão condicionados pelas suas culturas? Não é verdade que todos eles estão agarrados a conceitos que trazem do que lhes ensinaram os pais, os avós e até do que lhes disseram os amigos e vizinhos? Os meus pais não me obrigaram a usar hijab. Educaram-me dentro da filosofia da religião islâmica, é certo, mas eu podia ser islâmica e não usar

nenhuma espécie de véus, se quisesse. Sinto-me bem como estou e, sobretudo, como sou. O que sabem vocês do Islão? Provavelmente tanto ou menos do que eu sei do Cristianismo, do Judaísmo, do Hinduísmo. É fácil criticar quando somos ignorantes acerca de algo. Dizem-me “oh Sarah, como podes andar de burka?!” Mas eu não uso uma burka, uso um hijab. Há muitas formas de véus, desde a abaya (aqueles véus negros que tapam as mulheres completamente, só lhes deixando os olhos à vista) e muitas tradições de os usar. Aliás, hijab é também a palavra que usamos para definir a forma de vestir das mulheres muçulmanas. O meu propósito ao escrever este texto, porém, é outro. Gostava de fazer uma observação: todas vocês, minhas colegas e algumas até minhas amigas, usam burkas e não sabem. São burkas invísiveis e, por isso, são mais poderosas ainda. Algumas até usam abayas: estão tão tapadas que apenas os vossos olhos se vêem e, quando olhamos para vocês, baixamnos, envergonhadas de terem abdicado da vossa liberdade. Não têm mãos livres e a vossa cara está presa em negros véus. Eu sou um passarinho que voa em eterna Primavera perto das vossas gaiolas de grades douradas, por comparação. E sabem porquê? Vocês dizem-se livres e emancipadas, por serem mulheres estudantes. Isso também eu sou. A minha liberdade é a mesma – participo em todas as actividades, desportivas e culturais. Mas, ao contrário de vocês, eu não sofro de dupla personalidade. Não tenho de fazer o papel de leoa que dá nas vistas quando está na Universidade e no café, soltando urros para se fazer mais notada e caçando para alimentar o leão (sim, o leão, e não vocês próprias… pois vocês passam o tempo a satisfazer o macho egocêntrico e dizem-se mulheres livres). Tanta pintura, tanto creme e tanto gritinho não é para que se sintam bem… mas pura competição para que o preguiçoso e aborrecido leão – que pouco vos liga – vos dê um pouco mais de atenção do que tem dado ultimamente. Ou do que dá à leoa do lado. Eu não preciso disso. Ah, mas desculpem. Eu falava de dupla personalidade. Sim, porque ao pé do leão e dos

vossos pais, vocês são uns cordeiros. Enfiam a burka por completo. Fazem tudo o que lhes mandam. Sim, meu senhor, que mais quereis? Já estais satisfeito? Julgam que assim ele vos dará mais. Mais do quê? Mais ordens? Que prazer ou vantagens retiram vocês da vida, para além de uma minúscula prenda no Valentines Day, dada, com certeza, para que vocês continuem a obedecer? Ah sim, um sorriso… Pois, tenho notícias: todo o tirano, para ser bem obedecido, ordena com ar simpático. Não deixa de ser uma ordem categórica isso que ele vos dá. Já experimentaram ser rebeldes? Então porque me aconselham rebeldia?! Vocês não conhecem o significado da palavra. Fazem-me rir com os vossos conselhos sem sentido. Sou Sarah Mousavi. Consciente das minhas escolhas. Sempre a mesma, em qualquer situação. Feliz e confiante no meu Deus, na minha família, em mim própria. Não me minto. Não acredito em culturas perfeitas e não sou extremista em nada. Apenas quero sublinhar que eu vivo num mundo que conheço, do qual vocês pouco sabem (e inventam tolices como circuncisão feminina, que parvoíce!), e não tenho vergonha de ser como sou. Vocês dizem-se livres mas vivem na hipocrisia: vendem-se quase diariamente por dinheiro, por status e até algumas por uma cama quente ou por um bocadinho de atenção a que chamam amor. Amor é companheirismo, viver para um fim comum. Vocês vivem na obediência cega em vez de viverem na comunhão que prega o vosso Deus. Mas eu é que uso burka, segundo me dizem...”


sexta feira 18 de Dezembro 2009 • Avenida Marginal •

Retrato de um homem que desfiava grãos de areia

FRASES: umas feitas outras quase

Lídia Bulcão Por entre os dedos das mãos desfias contas de areia, dourada como os infindáveis sonhos que te invadem o pensamento, negra como os fugidios desejos que te atrofiam o coração. Desfias um punhado atrás do outro, numa sequência interminável que não se limita a matar o tempo, mas antes a escoá-lo numa rede minuciosa, construída para não deixar passar pedaço algum de coisa nenhuma. Desfias e voltas

mundo encharcado e triste. Agora, passas os dias à porta do café, sentado de frente para os sonhos dos outros e de costas viradas para esse mar, onde em tempos te achaste por inteiro e depois te perdeste, quiçá para sempre. Passaram muitos anos desde a última vez que sentiste na pele o rebentar das ondas. Já não mergulhas, nem entras num barco. Não ousas sequer

areia, nem vasculhas os grãos que não conseguiste segurar quando buscavas os teus momentos cintilantes. Hoje, desfias apenas garrafas de cerveja, umas atrás das outras, como se nelas fosses encontrar as respostas que não encontraste no mar. Continuas sem ligar a quem passa na rua e a não falar com os amigos de outrora, mas por toda a ilha se ouvem histórias

a desfiar, com a concentração que se exige a uma nobre tarefa, entregue só a quem não tenha medo de respingar o pedaço de praia deserta que outros frequentam. És um homem submerso. Pela água, pela vida, pela realidade. Nasceste com o azul no olhar, mas deixaste que a negridão te consumisse a alma com a velocidade das coisas de outro século, vagarosa e demoradamente. Enquanto os dias pesados te escorrem por entre os dedos, gastos pela vida e coçados pelo mar, vês em cada grão de areia o que podias ter sido e não foste. Analisas cada hipótese de caminho não percorrido com a minuciosidade das coisas programadas, esquecendo por momentos que o trajecto da hipótese é nada mais do que a queda perfeita no imenso areal onde ontem foste um menino feliz. Olhas a areia como se olhasses a perfeição. Como se dentro de cada grão encontrasses o sumo da vida que em vão procuraste no fundo do mar, onde as rochas e os corais se confundiam com os seres humanos e os humanos pareciam seres deslocados, forçados a entrar nesse teu

passear na tranquilidade da maresia que se desfaz na costa. Dizem que foges da água e de tudo o que ela representa. Sentado na soleira da porta, passas os dias na companhia da barba branca que esconde o teu sorriso amarelecido. A tua pele está encarquilhada e as costas curvadas, mas o olhar carrega ainda o peso da água que um dia te desaguou no peito. Já não desfias contas de

tuas. De vez em quando, até há quem diga que te voltou a ver no fundo do mar, mergulhado nos teus anseios mais profundos, perdido por entre corais e cores brilhantes. Não sei se são apenas histórias de mergulhadores ou quase alucinações, mas todos juram que desfiavas grãos de areia, sentado na escuridão que encharca o fundo do mar.

O Sol já se pôs A Luz dos meus olhos já se afogou com as lágrimas O Sol da minha infância já se pôs Amanhã não vai ser como era hoje Já não me podem ajudar as tuas mãos sábias Eu Da Do Do

guardo uma memória dentro de mim vida de criança que uma vez tive mundo protegido em que sempre estive teu abraço que sempre me guardou assim

O trabalho que mata a criatividade Que mata a minha originalidade Torna-me naquela que as crianças não se querem tornar Eu rezo para não me tornar Mas a minha infância já não vai poder voltar Nem tu, que sempre estiveste ao meu lado. Charlotte Oliveira Stewart

19

Manuel Tomás Gaspar da Costa Distância Estar mais perto não é estar à menor distância ente dois pontos, mas ter a vontade de lá chegar. Picaroto 1 Picaroto é quem vive o e no Pico e gosta do Pico; Picoense é quem diz gostar, mas não vive o e no Pico. Picaroto 2 Picaroto é nome de barco que jaz podre sobre o cais abandonado. Maroiço 1 Epopeia de pedra do homem do Pico. (António Duarte) Maroiço 2 Do maroiço, o mar… oiço e espreito o sabor do verde antes do pão e saboreio o veludo dos copos derramados no verdelho. Vida 1 Esta vida é muito penar para morrer à beira. Vida 2 Só se morre uma vez por ano. Vinho 1 É a penicilina que cura os homens, mas é o vinho que os torna felizes. (Fleming) Vinho 2 A vida é tão curta que não devia haver tempo para os maus vinhos. (Horácio) Vinho 3 Há mais filosofia numa garrafa de vinho que em todos os livros do mundo. (Pasteur) Bebedeira De meio canal para a terra e sem água no leme. Ser transparente Quando uma mulher bonita passa por um homem e já não o vê. Político 1 O político é como a cola de rato, quando levanta um pé, o outro fica preso. Político 2 Quem sabe desafinar é um grande cantor. Tempos difíceis As figueiras pelaram e os figos ficaram empenados que nem tirantes. (Com sotaque especial: [ As fieiras pelarim e os figos ficarim impnados que nem trantes]. Professor Quem repete constantemente inutilidades para si e utilidades para os outros. Educação A família educa. A escola ensina. Mas, há quem prefira fazê-lo com uma mão a dar e a outra a amaciar. Egoísta Egoísta é a pessoa que só pensa nos outros para que todos a vejam. Destino Uma teia tecida de tempo. Filosofia Não faças hoje o que podes deixar de fazer amanhã (BS/ FP), mas nem muito ao mar nem muito à terra, porque no meio também está o pecado e nem isso já é original, muito menos o nariz de Cleópatra, quando as ideias estafadas foram conservadas em latas de lustro político. Sócrates Há dois: o da ágora e o de agora... Moralista Os murais são morais ou imorais?, mas também há imorais moralistas e morais muralistas. Bíblia Se Saramago não tivesse lido a Bíblia, a sorte do Caim tinha sido outra.


• sexta feira 18 de Dezembro 2009 PUB.

20 • Avenida Marginal

Evocando Manuel Faria de Castro

A Junta de Freguesia da Conceição deseja a toda a população da freguesia, Entidades Oficiais e a todos em geral

Boas Festas e Feliz Ano Novo

Victor Rui Dores Aconteceu subitamente nos últimos alvores daquela manhã de 24 de Setembro. Manuel Faria de Castro soçobrou ao apelo das ondas no areal da Fajã da Praia do Norte… A notícia correu célere e, naquela fatídica quinta-feira, soubemos, da forma mais cruel e brutal, que a existência humana é, de facto, coisa efémera. A morte é sempre injusta, mas no caso do Faria de Castro foi absolutamente estúpida: é que não faz sentido nenhum morrer quando, aos 63 anos de idade, se está cheio de saúde… Faialense incontornável, homem carismático e voluntarioso, espírito intrigado e inquieto, o Faria de Castro estava em tudo quanto fazia e em tudo quanto dizia. Acima de tudo, mantinha

uma atitude de vigilância em relação ao que se passava à sua volta. Sabia, inteligentemente, gerar parcerias e trabalhar em grupo e em rede. Mas nem

sempre foi uma presença confortável, porque não era pessoa de deitar água a pintos… Gostava de contradizer e provocar… Tanto defendia causas como polémicas… Era controverso, subversivo, especulativo, imprecador, cínico q.b. com aquele olhar desafiador e aquele ar maroto… Tinha o dom da invectiva e utilizava o humor e a ironia como armas de arremesso. Mas também sabia ser delicado, generoso e afectuoso. E era homem de inusitadas paixões. Cada um de nós terá do Faria de Castro uma imagem sentida e privada. A que dele mais guardo é precisamente aquela desbragada ironia que tanto o caracterizava. Aliás, a minha amizade com ele foi selada no riso. E rir foi uma constante num convívio (de mais duas

décadas) nas escolas, nos palcos, nos espectáculos, nos acontecimentos sociais e em muitos outros estádios e arenas. De baixa estatura, e tendo no bigode

negro e farfalhudo a sua imagem de marca, o Faria de Castro era um homem simples, terra a terra, autêntico e natural, sem pretensões e sem snobismos. Mas era ferozmente teimoso quando se achava na posse da razão. E tinha uma admirável lucidez e uma genuína capacidade de ver o lado lúdico das coisas. Licenciado em História, aposentado da função docente da Escola Básica 1/ 2 António José de Ávila, exercia, desde 1985, o cargo de presidente da Associação de Futebol da Horta, e entregava-se, de alma e coração, à defesa de causas ambientais, sendo presidente da AZORICA, Associação de Defesa do Ambiente. Participava, com entusiasmo, em campanhas de limpeza de zonas poluídas, um trabalho para o qual motivava grupos de jovens. Seduzido pela beleza de certos espaços pouco conhecidos da sua terra, organizava excursões e passeios a pé por veredas do interior da ilha, nomeadamente as apetecíveis levadas. Recentemente havia assumido funções de responsável no Faial pela Delegação da ACRA, Associação de Defesa do Consumidor. Com o Faria de Castro privei de perto em muitas e múltiplas frentes. Estive com ele em inúmeras reuniões que,

quando dirigidas por ele, eram muito eficazes e eficientes, e sempre pautadas pelo humor e pela boa disposição. Este nosso malogrado amigo só na morte conheceu honras a nível nacional: em sua memória, a Federação Portuguesa de Futebol decretou um minuto de silêncio a anteceder as partidas das suas competições durante o último fim de semana. Por uma triste coincidência, Faria de Castro faleceu precisamente na manhã em que eu acabara de gravar, para a rádio, o poema “Testamento”, de Almeida Firmino, a propósito da recente reedição da colectânea “Narcose” (Câmara Municipal de São Roque do Pico): “Eu hei-de sepultar meu coração Numa fraga, junto ao mar, Vizinho da névoa e solidão, Onde as gaivotas, manhã alta, vão pousar. E o coração ao debruçar-se na água Verá o céu, falará com Deus, Que, afinal, a morte é como a vida, Não passa dum breve e sentido adeus”.

Sabemos (e sentimos) que o Faria de Castro está vivo dentro de nós. Mas como calar esta imensa e irreparável saudade?


Avenida Marginal 5