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Escola Manuel de Arriaga Pelo Centenário da (Res)pública! Após muitos anos de sucessivos e incompreensíveis adiamentos para a construção das novas instalações da actual Escola Secundária Manuel de Arriaga (ESMA), finalmente, a 12 de Setembro de 2005 foi lançada a primeira pedra, tendo sido inaugurada a 19 de Setembro de 2007, em cerimónias presididas pelo Presidente do Governo, Carlos César. Assumindo-se como herdeira centenária da instrução oficial no Faial, continuadora do antigo Liceu da Horta, que teve o seu decreto e 13 de constituição publicado em 1844,

João Fernando Castro * Abordar 100 anos da República Portuguesa, e a sua relação com a cidade da Horta, é ter a oportunidade de recordar Manuel de Arriaga, o que constitui motivo de especial orgulho e um privilégio. Em tempos de mudança, de

de 9 irmãos. Casou com Lucrécia Augusta Brito de Berredo Furtado e Melo, tendo sido pai de 6 filhos. Com 77 anos, faleceu a 17 de Março de 1917. Mais conhecido por Manuel de Arriaga, foi advogado, professor, escritor e político,

Estudantes da Universidade de Coimbra à opinião ilustrada do País”, afrontando a reitoria de então, num apelo à liberdade e à independência da academia. Adepto dos ideais da Democracia e do Republicanismo, defende valores

alteração sucessiva de referencias sociais, recordar Manuel de Arriaga, é registar um homem de elevada notabilidade, um homem de valores, um homem que integra, ao longo do seu vastíssimo curriculo, a capacidade de ser relembrado, imitado e amplamente reconhecido como, ‘um homem bom!’. Manuel José de Arriaga Brum da Silveira e Peyrelongue, nasceu na quinta do arco, na cidade da Horta, a 8 de Julho de 1840, sendo o 4º de uma família

destacando-se enquanto orador. Fez parte da conhecida geração de 70. Integrou o Partido Republicano Português do qual foi dirigente e um dos seus principais ideólogos. Passa a sua infância e juventude na ilha do Faial, de onde parte para Coimbra, inscrevendo-se em Direito, fazendo em sua casa, reuniões que ficaram célebres, de um grupo, que ficou conhecido pelo “Cenáculo”. Subscreve o “Manifesto dos

intemporais como a Liberdade, Igualdade e Fraternidade, a primazia da lei, o direito individual de intervir na feitura de leis e na administração pública, a inviolabilidade da consciência, a liberdade de manifestação, de pensamento, de ensino, de reunião, de associação e de trabalho, a gratuitidade da educação e da justiça assim como o ‘combate’ à pobreza e à miséria, nomeadamente com o términos e 8 dos impostos

Avenida Marginal

Eugénio Leal *

Catástrofes naturais: O papel dos voluntários e das ajudas mundiais

No dia 12 de Janeiro de 2010 o Mundo inteiro parou incrédulo perante as notícias que passavam na televisão. Um terramoto de magnitude 7,3 na Escala de Richter tinha abalado o Haiti, um pequeno país das Caraíbas pobremente encoberto pela beleza turística da sua vizinha República Dominicana. Com o terramoto instalou-se um cenário de caos e destruição nas ruas de Port-au-Prince, capital do Haiti. As primeiras horas, em qualquer catástrofe, são fundamentais e decisivas no salvamento de vítimas e, aqui importa referir o excelente trabalho e esforço da Cruz Vermelha Internacional. Logo nas primeiras horas que se seguiram ao terramoto os voluntários da Cruz Vermelha Haitiana desempenharam um papel e fundamental. Foram dos primeiros 6

John Phillips the Portuguee

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Regina Santos *

Américo Santos Silveira Nasci na aldeia natal de John Phillips The Portuguee, no Sul da ilha do Pico, o lugar das Terras, a três quilómetros da Vila das Lajes. Estávamos a meados da década de 50 do Século passado e vivia-se então com dificuldades de toda a ordem. A emigração para as terras do Tio Sam era a única hipótese de fugir à miséria da falta de dinheiro e do isolamento do mundo aqui no meio do Atlântico. Foi o que fez o senhor que dá o título a este artigo, mas cem anos antes. e Um pioneiro em terras americanas e 15

...o seu 4 estrelas na Horta... ...sempre...


2 • Avenida Marginal • sexta feira 30 de Abril 2010

Nota de abertura

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Ouço dizerem por aí, vezes sem conta, que existem demasiados canais de Televisão ao dispor dos telespectadores. Claro que não posso estar mais em desacordo com esta afirmação. Foi há cerca de um mês que cimentei, em definitivo, esta minha velha convicção. Estava eu sentado a ver, num qualquer canal generalista, pela quadragésima nona vez, as imagens da tragédia que se abatera sobre a ilha da Madeira quando começaram a passar, em rodapé, notícias sobre o sismo de 8.8 (oito ponto oito !!!) que acabara de sacudir o Chile. Claro que fiquei estarrecido com mais esta notícia e aguardei pelo dia seguinte, na expectativa de ouvir que os números sobre os danos materiais e humanos contabilizados no terreno fossem, no mínimo, devastadores. O “nosso” terramoto de 1998 pouco excedeu os 7 pontos na escala de Mercalli modificada e foi o que se viu. Deambulava eu nestas cogitações quando me veio à cabeça o ainda recente terramoto do Haiti com todo o seu cortejo de destruição e morte que nos foi servido, em doses absolutamente cavalares, por todos os canais durante semanas a fio, mais precisamente até ao dilúvio que quase submergiu a Madeira. E fiquei a pensar, comigo próprio, como foi possível que durante cerca de uma semana, que foi o tempo que mediou uma e outra catástrofe, nunca mais me tivesse recordado do Haiti… eu que até ouço os noticiários regularmente e que procuro acompanhar, de perto, o que se vai passando pelo mundo! Pura e simplesmente porque o Haiti deixara de ser notícia, desaparecera completamente dos telejornais. Agora havia que “esmiuçar”, até ao tutano, a tragédia madeirense enquanto outra não surgisse algures, em qualquer parte do mundo, para regozijo da maioria dos canais televisivos que, na ânsia de ganhar audiências, se alimentam destas desgraças com um despudor que roça, inúmeras vezes, uma quase insuportável pornografia mediática. Foi aqui que eu decidi rebobinar a cassete e visualizar, mentalmente, os acontecimentos mais marcantes que me lembrava terem ocorrido desde o início do ano. Pois fiquem sabendo que fiquei completamente aparvalhado com a extraordinária capacidade que o meu cérebro tinha de saltitar, de tragédia em tragédia, de processo em processo, absorvendo e comovendo-me com as novas imagens que me eram exaustiva e repetidamente oferecidas pelos canais generalistas RTP, SIC e TVI, bem como, de hora a hora, vinte quatro horas por dia, pelas suas estações satélite para a área da e informação: a RTPN, a SIC Notícias e a 16

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Arte subterrânea Mário Machado Fraião Nos nossos dias podemos beneficiar, nalgumas estações do Metro, com pinturas de Costa Pinheiro, Júlio Pomar ou Vieira da Silva. É como a luz na escuridão, cidades encantadas após uma viagem nocturna. A expansão da rede do Metropolitano de Lisboa trouxe diferentes possibilidades de transporte aos habitantes da periferia, distribuiu os seus utentes por uma extensão relativamente grande, abriu ainda uma nova linha e prolongou as restantes. Além disso os habitantes da capital, ou aqueles que a visitam, beneficiam de novas instalações, amplas, modernas, decoradas com obras de arte. O Metropolitano foi inaugurado em 1959 e quando entrou em funcionamento as suas linhas incluíam onze estações. Foi então considerado um grande acontecimento, não apenas por ser novidade entre nós, mas principalmente porque contribuía para a resolução dos famosos engarrafamentos nas artérias centrais da cidade numa época em que a circulação era mais concentrada, por isso mais demorada, não existiam semáforos e os locais mais procurados encontravamse nas grandes avenidas ou nas ruas da Baixa. Era uma alternativa para o emaranhado de automóveis, eléctricos e veículos de transporte de mercadorias em que não raras vezes se transformavam as ruas de Lisboa. No entanto, as estações eram frias e despidas, com a feliz excepção da estação do Parque, num estilo muito ao gosto do Estado Novo. A localização dos Ministérios, dos Bancos e das zonas de comércio apontavam para a utilização das tradicionais vias de comunicação por parte da maioria das viaturas, fossem ligeiros, motociclos ou pesados camiões. Recordemos que o grande fluxo do trânsito da capital passava inevitavelmente pelos mesmos itinerários, ou seja, o eixo Avenida da República, Fontes Pereira de Melo, que depois da Rotunda se prolongava pela Avenida da Liberdade, Restauradores, Rossio, Baixa. Ou então os veículos seguiam desde a Alameda através da Almirante Reis até alcançarem o Martim Moniz, espaço que mesmo após as obras dos anos quarenta, era palco de acesas e pouco recomendáveis discussões entre

taxistas, condutores de autocarros, peixeiras e outras personagens da cidade. Claro que o Metropolitano não pôde resolver o problema da circulação na cidade, tarefa ainda hoje difícil de enfrentar, até porque, inicialmente, o seu percurso era bastante limitado. Todavia, a maior procura do transporte subterrâneo pelos lisboetas, bem como, e principalmente, a abertura de novas estações nas diferentes linhas que entretanto se foram ampliando, a abertura da linha Vermelha que fez ligação à Expo, transformaram o Metro

questão angustiante de uma delinquência crescente, visível nas carruagens do Metro, mas pode contribuir para a melhoria de vida das populações. É claro que não nos vamos livrar tão facilmente dos sorridentes ciganos do leste que nos pedem dinheiro por canções de há mais de quarenta anos atrás, mas o mundo nunca será perfeito. Apreciámos especialmente as pinturas de Francisco Simões no Campo Pequeno, mulheres e touros, ou as esculturas das vendedeiras sentadas no chão. Igualmente bem sucedido foi Sá Nogueira que decorou com

num meio de transporte essencial nos dias que correm. Um habitante de Odivelas ou da Amadora pode seguir até à Baixa, bem como os turistas podem dirigir-se desde o Rossio até ao Parque das Nações sem grandes atropelos. Acresce que, felizmente, muitas das novas estações se encontram artisticamente decoradas com esculturas ou azulejos pintados por alguns dos mais talentosos artífices nacionais. Em viagens escuras, estas imagens que surgem inesperadamente, podem amenizar os pensamentos daqueles para quem a vida é um enorme fardo que transportam todos os dias. Daí que as coloridas representações de mulheres, homens ou animais consigam alegrar o monótono trajecto de quem se desloca ao emprego ou regressa a casa. Não será menos verdade lembrar que tudo isto é insuficiente para resolver a

imagens de sumarentos citrinos a estação das Laranjeiras. Eduardo Nery utilizou sugestivas pinturas das damas de Setecentos, com seus leques, como ornamento para os azulejos da estação do Campo Grande lembrando os solares às portas de Lisboa que a aristocracia habitava nos meses de Verão. Ou podemos ainda ser surpreendidos pelas exuberantes pinturas de Júlio Resende se passarmos no Jardim Zoológico. O volume de passageiros tem aumentado nos últimos anos de forma vertiginosa, mas aguardamos que a “moda” de conspurcar com grafitis as pinturas existentes e uma forma mais eficiente de conter os carteiristas, ou seja, mais atenta segurança, possa servir melhor os utentes de um meio de transporte que pretende continuar a sua viagem subterrânea.


sexta feira 30 de Abril 2010 • Avenida Marginal •

Luz! Câmara! Cliché! Sérgio Luís

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Recordações (5)

O Outono António Francisco da Silva

A arte do cinema tem sofrido uma evolução absolutamente alucinante desde a sua invenção pelos Irmãos Lumière, em 1895, até hoje. E digo até HOJE porque amanhã de certeza alguém vai estar algures a inventar mais uma técnica, mais um truque, mais uma estética. Das películas de 35 mm a 10 fotogramas por segundo do Cinematógrafo dos irmãos Lumiére, passou-se às películas de 35 mm a 24 fps, dos filmes mudos com um pianista ao canto da sala de cinema a providenciar música de acompanhamento evoluiu-se para as películas com uma banda magnética que permitia som, em 1922 o Technicolor transformou o preto-e-branco em relíquia, passámos de formatos de imagem de 4:3 para 16:9. Em 1940, com o filme Fantasia da Disney, introduz-se pela primeira vez o conceito de Surround Sound. Nos anos ’50 a explosão de cinema interactivo, com cadeiras de cinema a tremerem, as primeiras experiências com três dimensões, cheiros e até chuva dentro das salas. Nos anos 80 o Chroma Key surge como primeiro passo numa era de efeitos especiais que passaria pelo CGI, o bullet-time, o burly-brawl, o Massive, o motion-capture, o facialcapture. Recentemente até a película está a ser

… às vezes em sítios onde nem sequer há vegetação. Há outra cena que nunca falha. Quando um actor vai a conduzir um carro e liga o rádio já sabemos que vai ouvir uma notícia relacionada com o enredo e com a sua personagem em particular. E, claro, ouvida a notícia…desliga o rádio. Depois destes exemplos tenho a certeza que o leitor já se está a lembrar de outras cenas que já viu repetidamente no cinema e na televisão. Mas aqui vão mais… Alguma vez reparou bem naquela cena da porta de uma prisão a fechar-se? Este fechar de porta é sempre, SEMPRE, acompanhado de um fortíssimo estrondo metálico com ECO!... E nos filmes de acção (de cowboys ou de gangsters) quando o médico tem que extrair a bala do corpo do mau-dafita , ele tira a bala com a pinça e depois deixa-a cair SEMPRE numa pequena taça metálica para se ouvir aquele ruído tilintante do chumbo a cair. E se houver uma injecção para ser dada é fatal ver-se um grande plano da seringa a esguichar o primeiro líquido. E a cena do comboio que vai partir da estação? Invariavelmente esta cena começa com um grande

substituída pela gravação digital, que permite a alta definição com 1080p, facilitando a re-introdução de novas tecnologias de 3D e CGI foto-realista. E pelo andar da carruagem esta espiral evolutiva não vai parar nunca. No entanto, apesar de tanta evolução na sétima arte, os seus criadores/realizadores têm um fraquinho por velhas tradições inerentes à linguagem cinematográfica de que não conseguem, ou não querem, libertar-se. Refiro-me àqueles clichés que, de tão usados, funcionam como déjà vu. E dou alguns exemplos já a seguir. Digam lá, se forem capazes, quantas vezes já viram esta cena… Os actores estão a ver televisão ou a ouvir rádio. Depois de terem escutado o que interessa ao enredo desligam imediatamente o aparelho. NUNCA, mas nunca, deixam o aparelho ligado. Ou então uma cena filmada numa escola… Quando há uma cena dentro de uma sala de aulas, a aula está SEMPRE a terminar. Ouve-se uma campainha para a saída e os alunos abandonam a sala. Um cliché crónico até à exaustão é aquele da saída de uma pessoa de um carro. Para manter o clima de mistério, o realizador filma sempre, em grande plano, a parte inferior da porta do carro a abrir-se e depois… o pé do actor, ou da actriz, a pisar lentamente o chão. Deve haver milhares de cenas iguais a esta na história do cinema. Outro cliché que envolve carros é aquele do automóvel que vem a alta velocidade em direcção à câmara e depois ao passar, com a deslocação do ar, faz voar as folhas de árvore que estão na berma

plano das rodas da locomotiva a iniciar o movimento e depois um grande jacto de vapor a encher todo o ecrã. E o paquete que abandona o cais? Os realizadores caem sempre naquele cliché de filmar o próprio apito do barco para se ver um jacto de vapor a sair do tubo emitindo um silvo muito agudo. O apito de partida do navio podia ouvir-se com uma imagem geral do barco a largar amarras, mas não. Lá está o clichézinho a dar um ar da sua graça. Quando um actor abre a porta de um frigorífico, ou de um cofre, é infalível: vai ver-se a sua cara filmada de dentro para fora a observar o conteúdo do frigorífico ou do cofre. E já alguma vez repararam que os actores americanos quando fazem a barba numa cena, esta acaba SEMPRE com o actor a limpar os restos de sabão da cara com uma toalha… No cinema americano ninguém lava a cara com água depois da barba feita. Mas o cliché que mais versões tem, é aquele em que o actor é filmado às escuras. Não há luz que se apague que não deixe um raiozinho a bater precisamente nos olhos do actor. Pode estar escuro como breu mas lá vem, não se sabe de onde, uma claridadezinha a iluminar a expressão facial do artista. Eu quando fecho a luz do meu quarto para dormir nunca vejo essa luzinha a bater-me nos olhos. E há uns anos, quando fui à Califórnia, fiz a experiência. Logo na primeira noite que lá passei, ao deitar-me, apaguei a luz e … tudo escuro! Nada de foco direccionado à minha cara. Portanto, nem na Califórnia – paraíso do Cinema – esse fenómeno acontece. Só mesmo nos filmes!

O Verão acabou. Terminaram as férias. Abriram as aulas. Chegou o Outono. Caem as folhas das árvores. As temperaturas baixam. Assoalham-se as roupas próprias para a estação e para o inverno que se aproxima também. Outonam-se as terras, etc. Há quem diga que os tempos andam mudados, tenho dúvidas. No entanto, o tempo com o tempo se paga. O Inverno perguntou ao Verão: vais este ano? Este respondeu: ainda não tenho a certeza. Diz o Inverno: eu vou, de certeza. Os antigos diziam, nomeadamente os que viviam dos campos e dos mares, regulavam-se pelos astros, e pelo almanaque “O Seringador”, a “folhinha” como alguns o conheciam. Assim nasceram os Provérbios ou Adágios Populares. Cresci a ouvir esses adágios, que normalmente batiam certos. “Outubro, bois para o palheiro, barcos para trás do muro”. Recordo o dia 5 de Outubro de 1945, tinha então 5 anos. O dia amanheceu triste. Vento Sul muito forte, chuvas abundantes, mal se podia sair à rua. O mar alteroso, fronteiro ao porto de São Caetano, parecia querer engolir a terra. Eu e os meus irmãos estávamos por dentro duma janela observando aquele fenómeno da natureza, que mais parecia o fim do mundo À beira mar, ao lado do porto, havia uma rua com adegas, nomeadamente: os armazéns da D. Júlia com os seus alambiques, o açougue do Manuel Vigia, casas de aprestos das embarcações de pesca artesanal e ainda a do barco São Caetano, um barco de boca-aberta que transportava diversas cargas entre o Pico e o Faial nomeadamente lenha para alimentar a central eléctrica e achas para queimar nos fogões a lenha e que se encontrava varado na rampa do varadouro daquele porto. Vimos então formarem-se enormes ondas, que, à terceira, e em segundos, fizeram desaparecer por completo todo aquele casario que acima referi. O barco São Caetano com alguma dimensão e peso, não escapou à fúria do mar, que o foi deixar atravessado na ribeira existente ali ao lado. Era então aquele que ficou conhecido pelo ciclone de 5 de Outubro de 1945, cujas imagens recordo. Os prejuízos foram enormes, como se pode calcular, não só em São Caetano, como noutras paragens por onde o monstro passou. Assim é o Outono da vida, que também já conheço. Já sinto as folhas a cair. São os ciclos da vida, as regras da natureza. Quando se chega ao Outono, chegam também as recordações e saudades da primavera, do “ninho” e do Verão que se passou quase sem se saber como. Ficamos de certo modo a olhar para trás e a recear o Inverno para quem lá chegar. No entanto, quando se geram sementes para germinar novas Primaveras, sente-se a agradável sensação de dever cumprido.

Carro de bois - Fátima Madruga


4 • Avenida Marginal • sexta feira 30 de Abril 2010

O Salário Mínimo Pedro Bernstein

Pedro Rosa

reflexos na produção interna nacional. Quero ser claro e objectivo. Sou contra baixos salários e salários faraónicos. Em tempos de quebra e falta de vitalidade económica deve-se começar por cortar nos altos salários e nos extras salariais para dar um sinal inequívoco e exemplar à sociedade. Este corte deve ser no sector público (empresas públicas) e naturalmente nas empresas privadas. Dir-me-ão que o corte nos altos salários penaliza o mérito e pode levar ao desaparecimento dos quadros mais qualificados. Não existem imprescindíveis e alguns bons quadros em Portugal ainda não mostraram o seu real valor e, num Estado de Direito, a solidariedade deve ser um valor e um princípio que se deve cultivar e aplicar para bem de todos. A discrepância salarial leva à pobreza, que inevitavelmente gera insegurança com

e, imagine-se, ganha mais que o alto magistrado da nação – O Presidente da República. Não existem outras soluções? O Presidente da República anualmente tem um rendimento aproximado de 100 000 Euros e um administrador da PT, uma empresa com capitais públicos, tem um valor de rendimento anual mais de dez vezes! Quem tem maior responsabilidade?! Este diferencial no rendimento é imoral, escandaloso e socialmente penalizador das classes mais desfavorecidas. Não é admissível que alguém que ganhe de forma principesca e que evoca a competitividade faça a pedagogia do não aumento do salário do mínimo. É preciso ter lata! Primeiro que tudo deve haver contenção de custos, controlo da despesa, fiscalização, diminuição da carga fiscal e acima tudo bom senso. Marcus Tullius Cicero que foi

um político romano de excepção e talentoso orador na Roma Antiga afirmou: «O Orçamento Nacional deve ser equilibrado. As Dívidas Públicas devem ser reduzidas, a arrogância das autoridades deve ser moderada e controlada. Os pagamentos a governos devem ser reduzidos, se a Nação não quiser ir à falência. As pessoas devem novamente aprender a trabalhar, em vez de viver por conta pública». Os sábios da antiguidade já avisavam como deveriam ser as contas públicas. Temos de tirar lições do passado e sermos mais humildes e atentos. Sou um defensor da economia de mercado, sou a favor do mérito, não tenho inveja dos que são melhores, o que não quero é uma sociedade desigual, desumana, díspar e insegura. O capitalismo ganancioso não leva a economia a bom porto. Do ponto de vista da legalidade, a existência duma variabilidade salarial entre administradores e trabalhadores deve existir e é salutar, mas deve ser entre valores ou percentagens que não escandalizem o cidadão comum. Quem ganha 500 Euros não percebe e não entende o porquê dum administrador auferir 100 vezes mais! Pior do que isso é, em tempos de crise, o administrador evocar o congelamento de salários para manter a viabilidade económica da empresa, sem o próprio fazer sacrifícios! Uma empresa tem de essencialmente dar lucro, mas a sua responsabilidade social deve ser tida em conta. Devemos ter empregadores com ânsia e vontade de enriquecer, mas que não esqueçam daqueles que são infelizmente «o elo mais fraco» e são a razão principal e em número maior o capital mais importante da empresa. Exigese nos tempos modernos e no novo século um capitalismo solidário, sensível, com capacidade de mudança e respeitador da condição humana. Em tempos de recessão económica os primeiros a fazerem sacrifícios devem ser os ricos. É puro bom senso! Não tenho nada contra os ricos. Sou contra a ganância e a falta de preocupação social com os mais excluídos. A crise tem solução, o que não tem solução é a morte. O exemplo tem de vir de cima.

Decorrerá de 12 a 15 de Maio um Workshop de Escultura no Forte de São Sebastião, aberto a todos os interessados em experimentar ou aprofundar conhecimentos nesta área de expressão artística. O barro será o material eleito para esta incursão no campo da escultura, sendo a partir dele que os participantes poderão dar asas à sua criatividade. Esta formação será orientada por João Pedro Rodrigues, artista plástico sediado no Porto, onde dirige um espaço que congrega galeria, oficina, atelier de ensino artístico e a sua própria residência. Ao longo

da sua carreira a escultura sempre ocupou um lugar central, procurando com o seu trabalho dar vida aos materiais inertes, conferindo-lhes uma aura cativante e enigmática. Ao longo das 4 sessões do workshop os participantes moldarão as suas próprias esculturas, dando forma às suas ideias e criando objectos que conservarão para sempre a memória desta experiência. Esta iniciativa é uma organização conjunta da Iris Horta e de Pedro Rosa e conta com o apoio da Câmara Municipal da Horta e do Albergue Estrela do Atlântico. Datas e duração: de 12 a 15 de Maio (4 sessões de 3 horas cada, perfazendo um total de 12 horas) Local: Forte de São Sebastião Horário: de Quarta a Sexta-feira das 19h30 às 22h30 e no Sábado das 10h00 às 13h00 Custo da inscrição: 60 euros (com todos os materiais incluídos) Número de participantes: mínimo de 10 participantes e máximo 16 Inscrições na Câmara Municipal da Horta e no Atelier Iris Horta. Informações: 292 293 909 No final do workshop será entregue a todos os participantes um certificado de participação PUB.

o aparecimento de vários «Robin Hood». A sustentabilidade económica e a não pobreza permitem que a comunidade onde nos inserimos transborde de felicidade e qualidade vida. Quem propala aos sete ventos que o salário mínimo não deve ser alterado ou que os salários da classe média devem ser congelados, está a cometer uma tremenda injustiça. Pelo que sei alguns economistas defendem esta hipótese. Quanto ganham? O governador do Banco de Portugal ganha mensalmente 17 mil Euros! – O governador da Reserva Federal Americana ganha menos. Os administradores do Banco de Portugal aproximam-se desse valor. Será justo e moralmente aceitável pedir contenção quando o próprio governador ganha aproximadamente 40 vezes mais que o salário mínimo

Avenida Marginal

O salário mínimo em Portugal está próximo dos 500 Euros (475 Euros para o ano de 2010). O valor existente está directamente relacionado com a competitividade e a produtividade nacionais. Sejamos honestos e justos, quem aufere este valor não tem capacidade para viver com alguma qualidade de vida. A crise global e o desemprego fazem com que alguns «profetas» económicos não queiram um ligeiro incremento real na massa salarial face ao panorama vigente e pouco estável dos mercados. Embora não seja economista de carreira, a massa salarial deve ser interpretada como um investimento e não como um custo ou despesa, ou seja, o capital intelectual e produtivo duma empresa deve ser considerado uma mais-valia para catapultar o crescimento e o desenvolvimento microeconómico, com

Workshop de Escultura


sexta feira 30 de Abril 2010 • Avenida Marginal •

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Os Bombeiros no seio das comunidades

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Estamos a caminho de mais um DIA DO BOMBEIRO português, que este ano tem o seu ponto alto, nos dias 29 e 30 de Maio de 2010, na cidade de Lisboa, sendo a sua realização articulada com as comemorações do Centenário da República, e insere-se igualmente no programa do Centenário dos Bombeiros Voluntários Lisbonenses. No seu programa, incluir-seá a cerimónia de atribuição do Prémio do Bombeiro de Mérito 2009, bem como os 29º Concursos Nacionais de Manobras para Bombeiros, e os 28º Concursos Nacionais de Manobras para Cadetes que decorrerão no Estádio 1º de Maio, na capital, conforme consta do Programa Provisório, elaborado pelo grupo de trabalho que prepara o programa, e que é chefiado pelo vice-presidente do Conselho Executivo da Liga dos Bombeiros Portugueses, Dr. Rui Silva, pelo vogais António Araújo e José Ferreira, pelo Comandante Aníbal Réu Luís, Mara Jerónimo e Maria do Céu (LBP), pelo assessor Ricardo Almeida, em representação de Manuel Brito, Vereador da Câmara Municipal de Lisboa, pelo Chefe Francisco Carrondo, em representação do Regimento de Sapadores Bombeiros, pelo Vice-Presidente da Federação de Bombeiros do Distrito de Lisboa, pelo presidente e VicePresidente da Federação de Bombeiros do Distrito de Lisboa, Comandante António Carvalho e Rui Ferreira, e ainda pelo Professor Joaquim Carvalho, em representação do INATEL. Este dinamismo colocado em marcha por forma a dar a dignificação que deve ser reconhecida àqueles por amor à comunidade, dispendem muito do seu dia-a-dia a bem do próximo. A nível Açores, as associa-

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Hélio Pamplona

Homenagem ao Bombeiro Voluntário - Famalicão

ções de bombeiros, reuniram no passado dia 5 de Março, na ilha de São Miguel, para discutirem e aprovarem a constituição da Federação de Bombeiros da R.A.A. Esta proposta, oriunda da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada, e com a colaboração da Associação Faialense de Bombeiros Voluntários, tendo para o efeito sido realizadas reuniões prévias para o efeito. Esta ideia de constituir uma federação única, pondo fim ao regime então vigente de duas federações, conseguiu congregar as 17 Associações da Região Autónoma dos Açores, sendo integrada também pela Federação de Bombeiros do Grupo Oriental, deliberação que foi aprovada por unanimidade e aclamação. Esta é uma decisão proces-

sual realizada nos últimos dois anos entre as direcções e comandos das associações açorianas. Foi decidido de imediato, também por unanimidade, constituir-se em AssembleiaGeral da Federação e proceder às eleições dos seus corpos sociais. Assim, à presidência da Assembleia Geral da Federação de Bombeiros da Região Autónoma dos Açores, será a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada, através do Presidente da Direcção, Prof. Vasco Garcia. A Presidência da Direcção, pelo Senhor Luís Vasco Picanço da Cunha, Presidente da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários da Praia da Vitória. E o Conselho Fiscal será

presidido pelo Presidente da Direcção Associação Faialense de Bombeiros Voluntários, Hélio dos Santos Teles Pamplona. É objectivo da Federação Regional de Bombeiros dos Açores, pugnar para que todas as 17 associações de bombeiros da região tenham a mesma igualdade de tratamento por parte das entidades oficiais e particulares. É uma situação nova e dignificante para os nossos bombeiros e, generalizadamente, para todas as nossas populações que, em nossa opinião, devemos congregar-nos mais em redor dos seus bombeiros acompanhando-os, acarinhando-os, visitando os seus quartéis, questionando e dando opiniões, que serão benéficas para a constituição de “ um todo”. Não nos lembremos dos nossos bombeiros pelas piores razões possíveis! Pelo Faial, estamos bem, e recomenda-se, como é comum dizer-se! Há 14 meses a dirigir os destinos da Associação Faialense de Bombeiros Voluntários, o actual executivo desta tão nobre Instituição, tem desenvolvido várias actividades por forma a dignificar os longos 98 anos de caminhada em prol da sociedade faialense, modernizando-a, fazendo com que saia de algum marasmo a que estava votado. Para o efeito, criou o actual executivo uma dinâmica de

relacionamento com congéneres de todo o território nacional, para o efeito tendo promovido conjuntamente com a Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários do Pombal, a Geminação entre as seis associações que, em 2012, comemoram o seu centenário , e que são, além das já mencionadas, as de Vila do Conde, Ourém, Dafundo e Carnaxide. Já houve uma primeira reunião na cidade do Pombal, para delinear um documento conjunto a ser ratificado em data a combinar oportunamente. Igualmente foi ratificado uma Geminação com a Associação de Bombeiros de Portugal, na cidade de DELLE, em França. É esta a dinâmica que os dirigentes da quase centenária Instituição querem implementar com todos aqueles que assim o desejem, e que dará hipótese a salutares intercâmbios em várias vertentes. É uma forma de dar a conhecer ao mundo uma Instituição que fica na mais ocidental cidade do continente europeu, não descurando, claro, a valorização que isso trará para os Bombeiros Faialenses, para a Ilha, para os Açores, e para Portugal. E por agora fico por aqui, na certeza porém de que outras oportunidades aparecerão no sentido de dar a conhecer a actividade dos Bombeiros Voluntários.


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juntamente, com a PSP – PIPP e Ouvidoria da Horta, apoiassem nesta iniciativa. E assim foi. Nos dias 5 e 10 de Fevereiro realizou-se o evento solidário “Música pelo Haiti” na Cidade da Horta e Praia do Almoxarife, respectivamente. Outras freguesias do Faial quiseram também dar o seu contributo, como foi o caso da freguesia dos Cedros. Dia 19, sábado, o Centro Paroquial dos Cedros abriu as suas portas para uma noite de fados, e dia 20 foi a noite de baile que animou o Polivalente da Freguesia, contando este evento com o apoio da Delegação do Faial da Cruz Vermelha Portuguesa. Em ambos os eventos, realizados no mês de Fevereiro, a entrada era livre e cada um

mãos ao trabalho, procurando sobreviventes, dando-lhe água, transportando-os para os hospitais, fazendo-lhe os curativos não no corpo, mas também vagas de frio/calor, acidentes na alma daqueles que perderam ferroviários, deslizamento de tudo em segundos. terras, estas catástrofes podem Os voluntários da Cruz ocorrer a qualquer momento, Vermelha Haitiana, bem como quando menos esperamos, e todos os outros das várias nestas situações todos somos sociedades nacionais da Cruz vulneráveis. Vermelha tornam-se heróis Ainda o Mundo se acabara nestes episódios de calamidade, de recompor do choque da enaltecendo aqui o facto de não tragédia do Haiti, as televisões terem qualquer benefício próprio enchem as nossas casas de ou lucro resultante das acções noticias dando conta de enormes humanitárias em que se catástrofes como foi o caso do envolvem. temporal a Madeira a 20 de Por isso, numa última nota Fevereiro, o sismo de magnitude relativamente a este assunto: 8.8 no Chile sete dias depois, o voluntários precisam-se para que terramoto de 6.6 na Turquia em a nossa Humanidade consiga 8 de Março. Já em Abril foram prosseguir e erguer-se de novo notícia o sismo no México de depois de uma catástrofe. magnitude 7.2, bem como o Impera aqui também uma sismo na Ilha da Indonésia de reflexão sobre os Fundos de Sumatra que atingiu uma Emergência, que se tornam magnitude de 7.8. As últimas fulcrais na ajuda imediata às notícias dão-nos conta dos populações afectadas pelas

poderia contribuir com o valor que quisesse, tendo sido angariado um total de 5200,71 euros. O dinheiro angariado foi entregue à Delegação do Faial da Cruz Vermelha Portuguesa que reencaminhou os fundos para o Fundo Nacional de Emergência da Cruz Vermelha Portuguesa, de onde saíram as ajudas portuguesas para o Haiti. Relativamente ao Primeiro Evento “Música pelo Haiti” foi realizada uma cerimónia de entrega oficial dos fundos angariados na Escola Secundária Manuel de Arriaga, onde os alunos desta Instituição de Ensino entregaram um cheque simbólico à Presidente da Delegação local da Cruz Vermelha Portuguesa, contando esta cerimónia com a presença dos responsáveis pelas entidades envolvidas no evento. Terramotos, tempestades, pandemias, grandes incêndios, cheias, terrorismo, tsunamis,

estragos e vítimas das chuvas e deslizamentos de terras que ocorreram no Rio de Janeiro entre 5 e 6 de Abril. Só na última década, 2 biliões de pessoas foram afectadas por catástrofes naturais ou desastres provocados pelo homem, acidental ou intencionalmente. Perante os últimos acontecimentos, torna-se impossível ficar indiferente e reflectir sobre o papel dos voluntários e a sua fundamental e decisiva intervenção nestas situações. Ciente daquilo que representa para a Instituição que serve, o voluntário da Cruz Vermelha actua sempre de acordo com os princípios da Humanidade, imparcialidade, independência, neutralidade, voluntariado, unidade, universalidade e, só assim consegue ajudar quem precisa, no verdadeiro sentido da palavra. Há aqui que dar mérito aos que, apesar da dor perante familiares desaparecidos e mortos nos escombros, puseram

As catástrofes naturais 1

a actuar no local trabalhando dia e noite desde os primeiros minutos pós tragédia. Segundo informações oficiais lançadas na altura, no final de Janeiro tinham sido já enviados para o Haiti cerca de 400 trabalhadores da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. Além disso, foram enviadas ainda 160 Unidades de Resposta a Emergência, equipas de avaliação e coordenação no terreno. A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha libertou nas primeiras semanas que se seguiram ao sismo 338.880 Euros do seu Fundo de Emergência, destinados a suportar as operações de socorro, fornecimento de abrigo temporário, água e condições de saneamento e também na prestação de cuidados de saúde e apoio psicológico à população afectada. Para além disso a Cruz Vermelha forneceu cerca de 2.5 milhões de litros de água limpa e segura. Foram distribuídos 30.000 kits de saúde de emergência e 30.000 kits de abrigo, voluntários treinados deram apoio psico-social aos milhares de vítimas. Estima-se que foram removidos dos destroços cerca de 170.000 corpos e contabilizados 200.000 feridos. Contra todas as probabilidades, 12 dias após o sismo foram retiradas dos escombros pessoas ainda com vida, graças às equipas de salvamento que nunca desistiram Em Portugal, dois dias após o fatídico acontecimento, a Cruz Vermelha Portuguesa lançou a Campanha: Ajude o Haiti, Agora! A partir desse momento uma onda de solidariedade espalhou-se pelo país. Foram angariados milhares de euros vindos de empresas e particulares. A população do Faial também não ficou indiferente a tal acontecimento. Assim, uma turma da Escola Secundária Manuel de Arriaga decidiu então, organizar um Concerto com o grande objectivo de angariar fundos para enviar para o Haiti. Tendo conhecimento da existência da Delegação local da Cruz Vermelha Portuguesa na Ilha e do trabalho que esta Instituição Internacional tem feito desde os minutos que se seguiram ao terramoto, estes alunos com a ajuda dos seus professores contactaram a Delegação do Faial da Cruz Vermelha Portuguesa para que,

e

catástrofes. As horas, dias e até meses que se seguem a catástrofes sejam elas naturais ou provocadas pelo Homem traduzem-se em caos, infra-estruturas danificadas, aeroportos fechados. Desta forma torna-se muito difícil fazer chegar os géneros de apoio às centenas de milhares de pessoas presas no meio das infra-estruturas danificadas. O transporte das referidas ajudas desde o país dador até ao país onde aconteceu a catástrofe pode levar uma semana ou mais a vencer todos os estrangulamentos tornando-se pouco viável, pouco útil e extremamente dispendioso. Para além disso, nem sempre o que as pessoas doam é o mais adequado para cada caso em particular. Por exemplo, imaginando que uma catástrofe acontece num país com temperaturas elevadíssimas, as ajudas mais imediatas traduzemse em água potável, géneros de

vestuário adequados às condições climatéricas que se vivem e equipamentos adequados à envolvente e situação presente. Através dos Fundos de Emergência torna-se muito mais fácil e rápido fazer chegar as ajudas necessárias a quem precisa, uma vez que com esses fundos é possível adquirir os materiais e ajudas necessárias no próprio país em que acontece a catástrofe ou em países fronteiriços, reduzindo ao máximo despesas de transporte e a demora na entrega. A Cruz Vermelha Internacional integra nas suas equipas peritos especializados que nos casos de calamidades e catástrofes se deslocam às zonas afectadas para efectuarem um levantamento da situação vivida, das necessidades, não só a curto prazo mas também a médio e longo prazo. Desta forma é possível utilizar os fundos de emergência da forma mais rentável. Com pleno conhecimento das necessidades o dinheiro é canalizado exactamente para aquilo que é necessário. No caso na Cruz Vermelha Portuguesa existe o Fundo Nacional de Emergência da Cruz Vermelha Portuguesa. Cada um pode doar o que quiser através de depósito ou transferência bancária. De referir que no caso do Haiti, os donativos entregues pelos nossos portugueses seguiram para o Haiti através do Fundo Nacional de Emergência da Cruz Vermelha Portuguesa. Para além disso, é importante também salientar que os donativos feitos para este Fundo dedutíveis no IRS ao abrigo da Lei do Mecenato (Artº 62, nº 3, alínea B e Artº 63 nº1 do EBF) A história da Ilha do Faial é marcada também por grandes catástrofes naturais estando ainda bem viva na memória dos nossos Faialenses o grande sismo de 1998. O nosso povo, melhor do que ninguém, conhece as situações críticas que se vivem quando algo desta dimensão acontece. Por isso reconhecem também a importância de ajudar, de contribuir antes, para se conseguir ajudar depois. Desta forma, fica uma obrigado aos voluntários da Cruz Vermelha pelo espírito humanitário que os move na ajuda do próximo bem como um pedido para que se contribua para o Fundo Nacional de Emergência da Cruz Vermelha Portuguesa…Porque um dia poderemos voltar a precisar…

* Presidente da Delegação do Faial da Cruz Vermelha


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Pelo Centenário

Obama – as vozes e as nozes Onésimo Teotónio de Almeida

médica. E depois falou o Presidente do Haiti. Não há muito, num pequeno círculo de amigos vieram à baila as observações que fiz ao discurso de Barak Obama (State of the Union) na Voz da América. Como é sabido, a estação emite também em português para o mundo inteiro. Com alguma frequência pedemme comentários. Avisado de véspera, fiz por não perder a comunicação ao país do Presidente neste final do primeiro ano do seu mandato. Nessa conversa, alguns dias depois, perguntaram-me o que tinha dito. Reconstituí de memória as opiniões que formulei e, por sugestão deles, passei ao papel este resumo altamente simplificado, deixando-as no registo de oralidade em que brotaram: 1. Obama quis ser positivo e não insistir nas culpas da situação, mas a verdade é que herdou problemas sérios criados por George W. Bush. Os republicanos falam arrotando como se não tivessem grandes culpas sobre os ombros. 2. Obama e os democratas perceberam o aviso contido na

recente vitória do senador republicano Scott Brown, em Massachusetts, que lhe valeu o lugar de Ted Kennedy no Senado. A questão da cobertura de saúde é importante para o país (e defendida pelos democratas), mas quando as classes média e média-baixa perdem empregos ficam bem menos sensíveis ao facto de a classe mais pobre não ter cobertura médica. Pensam em si e no sustento das suas famílias. Empregos, empregos, empregos é o que lhes quebra a cabeça. 3. Foi por isso que Obama tocou pouco na política estrangeira (só falou nela ao fim de meia-hora). Os americanos estão preocupados com a situação económica nacional e pensam instintivamente na solução dos seus próprios problemas imediatos. 4. Diz-se que Obama é um grande orador, mas que não é tão bom a governar como a falar. Comparam-no a Jimmy Carter. Demasiado bom e pouco duro, excepto nas palavras - é a acusação. Deve ser verdade, mas obviamente é sempre muito mais fácil falar. O poder de um Presidente não é assim tão grande. Além disso, as pessoas esperavam demasiado deste, como se tivesse vindo de outro mundo para nos salvar. 5. Quando o General Dwight Eisenhower foi eleito presidente, alguém lhe disse: Se pensa que o Governo funciona como a tropa, está muito enganado. Na tropa o senhor tocava num botão e a cadeia de comando funcionava do alto até ao soldado raso. Em Washington, vai querer que lhe executem as decisões, mas verá que tudo terá que ser debatido e negociado. Não funciona com ordens de cima. 6. Os problemas económicos transcendem o poder do Presidente. Aprendi isso com um aluno meu que foi para a Casa Branca como assessor do Vce-Presidente Al Gore. Convidei-o um dia a falar numa aula e a sua intervenção resume-se assim: um Presidente não tem capacidade de alterar grandemente o rumo económico do país. É apenas um gestor de pressões. Aguenta-as de um

lado e de outro e tenta ser mediador entre as que lhes chegam de todos os flancos. Cede aqui, cede ali, não cede acolá. 7. Tive a confirmação disto em directo quando esteve durante cinco anos na Brown (passava uma temporada cada ano) o ex-Presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso. Dizia ele que um Presidente não tem grande espaço de intervenção no rumo da economia. Apenas dá umas injecções aqui e ali, umas mais acertadas do que outras. Muitas, porém, são apenas para aliviar dores. 8. Toda a gente sabe que as fábricas e os empregos de “colarinho azul” foram para a Ásia, sobretudo para a China. Os emigrantes chegavam a este país num dia e no outro iam para a fábrica ganhar por hora o que hoje ganham num dia no MacDonald’s ou a fazer limpeza num hospital. Isso é visível à vista desarmada nas cidades onde predominam as populações emigrantes. 9. Um ano vai-se num instante. Um dia voa. Os meus evaporam-se num ápice preenchidos com insignificâncias. Uma pequena complicação, um melindre ali ou acolá, e lá vão e-mails e telefonemas para um lado e para o outro, tentando solucionar o malentendido e, num repente, cai a noite e é outro dia. Imagine-se isso quando as crises são problemas internacionais. Um terramoto no Haiti. O Presidente não manda a tempo tropas para solucionar o caos, leva sova na comunicação social. Manda tropas, apanha também porque supostamente está a aproveitarse de uma tragédia para instaurar o controlo militar. 10. O excesso de comunicação hoje complica o processo. Tudo se sabe (o que é bom) mas, embora quase nada se saiba em profundidade, todos entram na zaragata. Toda a gente fala, toda a gente tem opinião e manda bocas, mesmo se mal informada. E até eu estou aqui a abusar fazendo exactamente o mesmo. Já falei demasiado. Fechei assim o meu comentário. Ao que parece não levei completamente a sério a decisão de me calar, pois ainda vim prolongá-lo aqui.

excelente forma de homenagear e imortalizar, este grande Faialense, na terra que o viu nascer. É com agrado que, passados 100 anos, constatamos, no quotidiano do nosso concelho, a presença e a memória, da República e de Manuel de Arriaga, nos mais variadíssimos contextos, como o Largo Manuel de Arriaga aonde se encontra a estátua de Manuel de Arriaga, a Praça da Republica, a Rua 5 de Outubro, a Escola Manuel de Arriaga ou mesmo nos Paços do Concelho, com a fotografia e o busto de Manuel de Arriaga, no Salão Nobre Municipal. Manuel de Arriaga relembranos que da nossa terra saíram ‘figuras’ de notabilidade inquestionável, referências nacionais, de amplo reconhecimento pessoal, institucional e intelectual. Manuel de Arriaga responsabiliza-nos por dizer ‘presente’ à sua memória, transmitindo às actuais e futuras gerações um sentimento ímpar de orgulho... afinal falamos de alguém que será inigualável na História de Portugal. O 1º Presidente da... (Res)pública Portuguesa! Avenida Marginal

Os tempos não vão de sol nem sorrisos. Mais de suor e lágrimas, felizmente que não de sangue. Pelo menos não muito. A luz no fundo do túnel continua sem aparecer. E os pessimistas – claro - insistem que, se ela vier, será a do comboio. De fartura, só tem havido água. Quase dilúvios. Também de problemas. Sobre a Casa Branca, eles chovem torrencialmente. E o humor, quando há, é negro. Como Jay Leno ainda há poucos dias no seu monólogo a dar a notícia da visita do Presidente do Haiti a Obama. O povo precisa de empregos, casas para se abrigarem e assistência

1 sobre bens de primeira necessidade. Após a proclamação da Republica, o governo provisório promove eleições, instalando-se a Assembleia Constituinte que elabora uma nova constituição, sendo eleito, Manuel de Arriaga, como o primeiro Presidente da República Portuguesa, a 24 de Agosto de 1911. A 16 de Setembro 2004, o restos mortais de Manuel de Arriaga, são trasladados, para o Panteão Nacional, passando a estar ao lado de outras figuras destacadas da vida de Portugal como o Infante D. Henrique, D. Nuno Álvares Pereira, Afonso de Albuquerque, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Luís de Camões, Almeida Garrett, João de Deus, Guerra Junqueiro, Humberto Delgado, Amália Rodrigues e Sidónio Pais. Neste contexto, o Concelho da Horta associa-se, com forte empenho, de diversas formas, nas presentes comemorações, quer pelo envolvimento de muitas das suas personalidades e instituições do presente, quer pela diversidade do programa que visa despertar toda a nossa

e

realidade para o momento, desde o lançamento de livros, a recreação de ‘quadros’ da época, poesia, espectáculos, teatro, palestras, ou mesmo a recuperação da “Casa Memória” de Manuel de Arriaga que constituirá certamente uma

* Presidente da Câmara Municipal da Horta


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Quem foi Manuel de Arriaga? Victor Rui Dores respectivamente. Em 1914 tem início a Primeira Guerra Mundial e os políticos portugueses dividem-se quanto à entrada de Portugal no conflito armado. Em Janeiro de 1915, na sequência de incidentes político-militares graves e consciente da sua falta de poderes para impor soluções adequadas – durante o seu mandato já empossara 7 governos -, o Presidente Manuel de Arriaga convida o general Pimenta de Castro para formar governo. Este é empossado a 23 de Janeiro, e o imediato encerramento do Parlamento e a amnistia a Paiva Couceiro justificou as acusações de ditadura e apoio aos monárquicos de muitos sectores políticos e militares. A 13 de Maio de 1915, militares da Armada demitem o governo e entregam-no ao dr. José de Castro. Manuel de Arriaga é obrigado a resignar em 26 de Maio de 1915. Um ano depois concluiu um livro sobre o seu mandato presidencial, intitulado Na Primeira Presidência da República Portuguesa, no qual procura apresentar justificações para o seu comportamento e as suas decisões. Foi ainda autor de contos e poemas reveladores de um pendor romântico e idealista, e publicou volumes de textos políticos e discursos. Faleceu, em Lisboa, no dia 5 de Março de 1917. PUB.

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Manuel de Arriaga Brum da Silveira Peryelongue nasceu no dia 8 de Julho de 1840, na cidade da Horta, ilha do Faial, oriundo da pequena aristocracia local. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra em 1865, foi professor de Inglês no ensino liceal e exerceu advocacia em Lisboa. Deputado pela ilha da Madeira a partir de 1882, propagou os seus ideais republicanos, tendo contribuído para o advento da República. Foi preso em 1890, durante uma manifestação contra o Ultimato Inglês, e fazia parte do directório republicano quando se deu a revolta de 31 de Janeiro de 1891. Depois da instauração da República, foi nomeado reitor da Universidade de Coimbra, tomando posse a 17 de Outubro de 1910. Foi eleito Presidente da República a 24 de Agosto de 1911, com 71 anos de idade, como solução de consenso entre as várias facções de republicanos. Presidiu ao país num período conturbado, sofrendo as dificuldades de conciliar partidos e ideais opostos. Logo no início do seu mandato, o Congresso do partido republicano, sob a liderança de Afonso Costa, imprime-lhe nova linha política e nova designação – Partido Democrático – e, logo em 1912, António José de Almeida e Brito Camacho saem e fundam dois novos partidos – o partido evolucionista e o partido Unionista,


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Liceu Nacional da Horta

Carla Cook

Paulo Oliveira abriram-se em “bocas de sino” ou “patas de leão”, e os sapatos cresceram em saltos altos e gordos. - Aquando da explosão de gás na cidade, estávamos na aula de educação física (penso ter sido numa manhã de sábado?), e caímos no chão, tal foi o impacto da deslocação de ar, e para virmos para os Correios, tivemos de subir a Cônsul Dabney e descer a Conselheiro Terra Pinheiro, estando os nossos pais nos CTT, a aguardarem notícias..., já que a cidade havia ficado “cortada” a meio, com as vidraças vizinhas partidas, invadidas por uma pasta pestilenta que voara em todas as direcções; - O terramoto de 1973 aconteceu após a saída para o almoço, e, quando a terra acabou de tremer, dei comigo, já com 12 anos, abraçado e ao colo de uma costureira, numa loja comercial... - Dos poucos carros que iam ao Liceu, havia um mini, no qual os ocupantes baixavam a cabeça para passar debaixo (?) das redes de voleibol, o que provocava a risota dos alunos que presenciavam o acto, nas arcadas do ginásio... ginásio, onde todos vestiam de branco – única cor permitida! Em 1976 iniciou-se a

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Em 1972, entrei no Liceu Nacional da Horta, atravessei o portão de ferro com o pé direito, para prosseguir estudos, após obter o diploma da 4ª classe, na prova geral de admissão aos Liceus. O medo, o novo, o desconhecido esperava-me, única forma de obter uma maior sabedoria e conhecimento. Desde logo a praxe, em que apanhei um chuto no traseiro, que me fez levantar os dois pés do chão de uma só vez. Escapei à medição do campo de jogos com um fósforo, e pinturas faciais, ainda não existiam. Depois o toque do sino, que nos fazia correr escada acima, para o anfiteatro, sala de aula fixa para a turma do 1º E. Uma curiosidade é que não existiam turmas mistas, o recreio era longe das meni-nas, as escadas eram separa-das (para não lhes vermos as pernas...), dando-se assim corpo a um ensino de apartheid, entre meninos e meninas. Em 1973-74 transitámos do edifício “velho” para o edifício novo, e ainda por cima com turmas mistas... mistas, uma ova, já que, apesar de estarmos na mesma sala, no 2º B as meninas sentavam-se á frente, e nós atrás, não havendo conversas, risos ou trocas de olhares, mantendo-se as aulas de

educação física em ginásios separados, as meninas no ginásio feminino dado por uma senhora professora, e nós no ginásio masculino com um professor. Relembro alguns aspectos marcantes de uma vida estudantil passada, que hoje em dia se assumem como quadros anedóticos: - O Livro de ponto, “subia” os três pisos do edifício novo puxado por um cordel, numa visão antecipada dos actuais elevadores; - Com a liberdade, os cabelos cresceram, as calças

Ups, a minha escola mudou

reforme educativa (até hoje...), e, fui fechando um sistema de ensino que, se perdesse algum ano, far-meia cair no novo... Em 1979, dando seguimento a essa malfadada reforma educativa, frequentei o único Ano Propedêutico, com aulas pela televisão, em que a recepção do sinal era tão má, que mal víamos os textos, muito menos as linhas dos desenhos... tínhamos que passar a escrito as aulas gravadas num enorme gravador de bobines, e às vezes contar com o privilégio

de termos um colega cujo pai era da televisão, e que nos conseguia algumas cassetes das aulas, que víamos e revíamos vezes sem fim. O dia a dia, iniciava-se logo pela manhã, com o grupo dos alunos da Conceição e das Angústias a caminho do Liceu, de casa em casa, de porta em porta, fazendo engrossar o bando de alunos, transmitindo à cidade um movimento crescente, que também recebia os autocarros das freguesias..., embora os tempos fossem outros para muitos dos alunos mais carenciados, que vinham para a cidade à 2ª feira, e só regressavam na 6ª feira às suas casas rurais. A estes, acresciam ainda alguns alunos das ilhas do Pico, São Jorge e Flores, que vinham prosseguir os estudos complementares. Quando acabavam as aulas, pelas 12H30, a cidade era invadida por centenas de estudantes que iam a casa almoçar, e que extravasavam a largura dos estreitos passeios (por sinal, ainda os mesmos de hoje em dia). Tive professores excelentes (os mais exigentes), bons e maus (os mais baldas...), mas na generalidade não me queixo do ensino que tive, apesar de muito do que aprendi, de nada me ter servido na vida real, mas contribuindo para a minha cultura geral, tão a gosto dos programas televisivos de hoje. Na minha altura, existiam três tipos de faltas: as de presença (a azul), as de material (a verde), e as disciplinares (a vermelho), contribuindo para alguma disciplina, respeito e autoridade que se viviam naqueles tempos. Havia exageros? Havia! Mas hoje não é a mesma coisa! Na minha área profissio-nal, grande parte do que sou hoje, devo aos meus professores que me transmitiram boas bases de português no ensino básico, e de matemática e desenho no ensino secundário. A eles, e ao Liceu / Escola Secundária da Horta, o meu obrigado! Contributos, para po.acp@mail.telepac.pt

À primeira vista, escrever um texto sobre a nossa Escola Secundária pode parecer fácil (para mim, nem tanto, porque andei em mais do que uma). Claro que, no caso presente, o que interessa é juntar a ideia da Escola à figura da Primeira República que foi Manuel de Arriaga, o que me complica muito as coisas, não em termos memorialísticos, porque acabei o chamado “Liceu” na escola com esse nome, mas porque de Manuel de Arriaga sei mesmo muito pouco! Portanto, decidi fazer um exercício entre algumas pessoas desse tempo – velhos e velhas que, como eu, já são trintinhos (quando tínhamos dezassete anos, um tipo de trinta já estava um bocado gasto…) e perguntar-lhes se sabem tanto da personagem como eu. Também respondi às perguntas, sem batota. Os entrevistados estão identificados só pelo nome, porque, nessa época adolescente, no bilhete de identidade não constavam cargos nem profissões, alínea que hoje anda muito in. Obrigada a todos os

que acederam responder, desde os telegraficamente sinceros aos que deram voltas sérias à memória e àqueles a quem ameacei que ia colocar uma fotografia daqueles tempos na net caso não colaborassem (é mentira, não cheguei a ser assim tão cruel ao ponto de torturar com a possível revelação da verdadeira cor capilar de cada um…). Aqui fica uma viagem no tempo, sendo que nem entre nós conseguimos acertar no ano em que a escola mudou de nome. Independentemente do pouco que sabíamos, a verdade é que, como alguém aqui disse, ninguém se lembrou de dar uma aula gira e apelativa sobre Arriaga às nossas mentes atarefadas de então. Eis o que pensávamos sobre o 1º Presidente da República. Questões: 1) Na altura que frequentavas a Escola Secundária, que sabias sobre Manuel de Arriaga? 2) E agora? Já aprendeste mais alguma coisa? 3) Fizeste parte da geração que estava na escola quando a Escola Secundária da Horta passou a chamar-se Escola Secundária Manuel de Arriaga. Isso teve importância na época? Manuel de Arriaga pareceu-te uma melhor escolha para o nome da escola que frequentavas? Respostas (entrevistados por ordem alfabética): Adolfo Fialho 1)Sabia aquilo que quase toda a gente sabe… que Manuel de Arriaga foi o primeiro presidente da República Portuguesa, aspecto que, associado ao facto de ser natural da Ilha do Faial, assumia alguma relevância na história da nossa localidade. 2)Pouco mais… apesar de ultimamente se estar a enfatizar o seu papel na história da nossa República, passados que estão quase 100 anos da sua constituição. Sei que estudou advocacia em Coimbra


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dou de nome! Manuel quê...? Escola Secundária Manuel de Arriaga de nome e tradição

me tinha passado completamente despercebida. Na altura, pareceume bem tal distinção e senti uma pontinha de orgulho por ter sido um faialense a tomar as rédeas da primeira república portuguesa. Continuo a achar que foi uma escolha acertada. Carla Cook 1) Sabia que tinha sido o Primeiro Presidente da República Portuguesa e que tinha nascido no Faial, naquela casa muito decrépita, perto da Rua do Arco. 2) Sinceramente, muito pouco. Apenas soube, pouco depois, que não era linear que tivesse nascido no Faial, porque havia a hipótese de ter nascido no Pico… Não sei até que ponto isto é verídico. De qualquer modo, em duas ilhas separadas por 4.5 milhas náuticas, a movimentação dos habitantes é, desde há muito, uma constante. Quanto à personalidade e feitos de Manuel de Arriaga, lamento dizer que sei pouquíssimo. 3) Não teve a importância que lhe atribuo agora. Mentiria se dissesse que sim. Sou de 77, penso que aconteceu no meu 12º ano, que foi uma época de muito estudo e muito namoro, aquela vida intensa, rápida e feliz, própria da idade. Estava ocupada e não pensava em Manuel de Arriaga. Além disso, tínhamos de escrever “Escola Secundária Geral e Básica Dr. Manuel de Arriaga, Horta”. Isso pareceu-me uma perda de tempo e de tinta por oposição a “Escola Secundária da Horta”, embora concordasse que era muito positivo dar à escola o nome de um homem da terra que tinha conseguido algo importante: é motivador para as gentes; logo, achei bem. Cláudia Pereira 1) Não tinha muita informação sobre Manuel de Arriaga. e Lembro-me que sabia que tinha sido 16

Fernanda Trancoso * Actualmente, reflectir sobre uma escola é tarefa complicada, as vertentes são tantas e tão diversificadas que, julgando dominar algumas delas, de repente surge uma situação que põe em causa aquilo que tínhamos como certo, inclusivamente o facto primordial de se ser professor (a). Considero, no entanto oportuno, reflectir sobre a escola onde leccionei vinte e um anos e indissociável daquele que lhe empresta o nome e dela foi patrono entre 1918 e 1947, voltando a sê-lo desde 1994. Aquele cuja imagem se destaca quando se passa no corredor, junto ao Conselho Executivo da Escola , aquele que dá nome a um largo ali junto ao mar e cuja estátua, virada para o Pico, contornamos frequentemente, aquele que aqui nasceu em 1840 e cujo percurso de vida difícil e recheado de vicissitudes, numa época de políticas muito conturbadas de finais do séc. XIX e início do séc. XX, foi pautado por ideais democráticos e de acção, granjeando grande prestígio pela sua integridade de carácter, pelo espírito superior, pelas qualidades inatas de orador, culminando no mais prestigiado cargo nacional – o de Presidente da Republica (o primeiro) de 1911 a 1915, deve constituir uma referência para todos os jovens que por esta escola vão passando. Porquê? Não é somente por ser faialense ilustre, não é somente pelo facto de ter sido o primeiro Presidente da República Portuguesa, mas sobretudo pelo facto de , no seu diversificado percurso de vida, em que a docência esteve incluída, como professor de Inglês do Liceu Nacional de Lisboa por volta de 1876, lhe ter permitido reflectir sobre a Instrução Pública (como na época se designava), lançando uma série de propostas de reforma do sistema de ensino secundário, que sendo polémicas e avançadas para a época não colheram a aprovação geral, bem como mais tarde, por volta de 1883 , ao criticar as reformas fragmentadas, apelando a uma reforma coesa do primário ao universitário e a um ensino para todos. A sua persistência e o enorme respeito que tinha pelos

professores fê-lo continuar a lutar pelas suas convicções em termos de educação, nos vários cargos que foi progressivamente assumindo, mesmo como Presidente da República. Um século passou e persistem estas questões recorrentes: a necessidade de reformas coerentes e coesas reclamadas pelos docentes que vivem penosamente as contradições do sistema educativo povoado de reformulações, reajustamentos e reorganizações curriculares . Diz-se que a Escola é aquilo que os Professores, Alunos, Funcionários e Comunidade querem que seja, mas não existem os necessários envolvimento e convergência na definição de objectivos para concretizar o que se pretende. Os objectivos são definidos num documento, aberto e fundamental, com a vigência de três anos – O Projecto Educativo de Escola. Claro que a Escola Secundária Manuel de Arriaga inserida que está no sistema educativo, está sujeita, como todas as outras, às leis em vigor, no entanto tem sabido cultivar na vertente extra-curricular um certo bairrismo e fazer honras à longa herança cultural e histórica desde a sua fundação em 1854. Sabemos que ela foi, ao longo dos tempos, importante e marcante não só para os Faialenses mas para tantos estudantes de outras ilhas que aqui vinham frequentar e concluir o então designado “Curso dos Liceus”. Reflectindo sobre o que de significante pude testemunhar quer como espectadora quer como participante, encontrei certamente muito de positivo -

Educativo, os Clubes Escolares – Filatelia, Teatro, Ciência , Desportivo Escolar, Inglês, Francês, Leitura, CA2 (uns já com larga tradição , outros mais recentes), os Encontros Filosóficos, os Projectos de variado tipo, os Concursos, os Prémios, o Jornal “O Arauto”, etc… coordenados por docentes cujo empenho e disponibilidade são reconhecidos , cativando dezenas e dezenas de jovens ao longo dos anos . Por lá têm passado um sem número de ilustres convidados, especialistas nas mais diversas áreas que dinamizam variadas sessões, muitas delas abertas à comunidade - palestras, conferências, workshops, sessões práticas, etc… constituindo uma mais valia para quem delas tem usufruído. A Escola lutou pela dignificação do ensino nesta ilha, reclamando novas estruturas e equipamentos e soube, até há bem pouco tempo, conviver razoavelmente com as poucas condições de que dispunha (chegou a ter mais de 1500 alunos). O corpo docente, nestes vinte e poucos anos quase triplicou e actualmente todos têm habilitação académica superior, o número de cursos quer de ensino básico, quer de secundário quer da via profissionalizante alargou-se consideravelmente e o número de alunos diminuiu para cerca de mil. Desejando terminar em tom de optimismo, gostaria de ver desvanecida a minha preocupação em relação à desmotivação de muitos dos jovens que frequentam a Escola, gostaria de os ver capazes de definir ideais e com persistência lutar por eles, deixando assim

culturalmente esta escola tem sido muito dinâmica pela diversidade de oferta de complemento curricular e extracurricular espelhada nos Planos Anuais de Actividades, como sejam as Actividades de Apoio

um testemunho positivo às gerações futuras, tal como Manuel de Arriaga o soube fazer cem anos atrás.

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e foi um dos grandes impulsionadores da causa republicana. Sei ainda que sucedeu a Teófilo Braga - outro açoriano, natural de Ponta Delgada - que então presidia um governo provisório, e que foi curiosamente sucedido por este, ainda antes da data prevista para concluir o seu mandato, que foi marcado por muitas controvérsias políticas… 3) Encontrava-me já na recta final dos meus estudos naquela instituição de ensino e lembro-me de estar concentrado noutros objectivos. Ainda assim, recordo-me vagamente de toda a agitação em volta do nome da escola e da importância histórica do seu novo patrono. Não me lembro de ter explorado muitos pormenores nas aulas, aspecto que me parecia importante, até para compreendermos a real importância de tal distinção. Lembro-me que houve uma grande movimentação em torno da estátua de Manuel de Arriaga, junto ao cais do porto da Horta, que até então

* Professora aposentada da ESMA


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Banda Desenhada da autoria de Ricardo Cabrita


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Escola Manuel de Arriaga 1 e o auto de constituição definitivo lavrado dez anos depois, mais concretamente a 15 de Maio de 1854. Este secular estabelecimento de ensino tem desempenhado ao longo da sua vida um papel fundamental não só na educação da colectividade faialense, como de toda a Região, tendo nele estudado jovens de todas as ilhas dos Açores, muitos deles que se confirmaram como figuras de grande prestígio nacional e até mesmo internacional, em diversos sectores de actividade. Em ano do primeiro centenário da República em Portugal, não podemos deixar de salientar quanto honra a comunidade educativa, e julgo que os faialenses em geral, ter como patrono o seu primeiro Presidente. Com efeito, foi em 1918 que o Liceu passou a designarse de Manuel de Arriaga, denominação que se manteve até 1947. Com o 25 de Abril a denominação de Liceu passou para Escola Secundária, tendo sofrido algumas alterações, tendo a partir de 1994 adoptado, nova e definitivamente, como patrono Manuel de Arriaga. Com a entrada em funcionamento das novas infraestruturas a ESMA passou a dispor de modernas, espaçosas e bem equipadas instalações, ocupando conjuntamente com o Complexo Desportivo, com Pavilhão, Salas de Ginástica, de Combate, piscina semi-olímpica com 8 pistas, campo de futebol sintético com 60x40 metros e um amplo recinto semicoberto - uma espaçosa área com cerca de 70 000 metros quadrados, numa das zonas de expansão para sul da cidade, com excepcional enquadramento para a vizinha ilha do Pico, Monte da Guia e contrastando o azul do mar com o verde da nossa paisagem agrícola. Este moderno estabelecimento de educação desenvolve-se por um total de três pisos, com 53 salas destinadas a actividades lectivas, das quais 5 são laboratórios - 2 de Biologia, 1 de Física, 1 de Química e 1 de Geologia - 4 de Artes Visuais e 3 de Informática, todas devidamente equipadas com o mais moderno equipamento da altura, nomeadamente quadros interactivos, com acesso à internet, e de secretária com computador integrado, permitindo não só a interacção com o mencionado quadro, como igualmente a utilização do programa informático “Infoponto”, em substituição dos tão conhecidos livros de ponto. A totalidade de computadores ao serviço da comunidade escolar atinge os 260, com o rácio de número de alunos/ computador muito próximo do da União Europeia. Dispõe ainda de uma Biblioteca, Centro Audiovisual e Multimédia Escolar (CAME) devidamente equipado, Museu e Auditório com capacidade para cerca de 200 pessoas, que é também utilizado por outras instituições. Existe ainda um gabinete para cada departamento curricular, Gabinete Médico, Serviço de Psicologia e Orientação, Presidentes dos órgãos de gestão e Coordenadores de Directores de Turma, Salas de Convívio e de

e

Trabalho dos Professores, dos Directores de Turma, de recepção aos Encarregados de Educação e de Estudo para os Alunos, todos estes espaços equipados com um ou mais computadores de acordo com as respectivas áreas e necessidades de utilização. De registar ainda a existência de uma Sala de Convívio para os Alunos que se distribui por dois pisos, havendo como serviços de apoio reprografia, papelaria, bufete, serviço de acção social escolar e refeitório, em edifício anexo ao estabelecimento escolar, a funcionar em regime de concessão a empresa do ramo alimentar. Pela descrição efectuada não será difícil concluir pela excelência das instalações, podendo afirmar-se estarmos perante um dos melhores estabelecimentos escolares a nível da Região e do país, pelo que é caso para dizer que os faialenses esperaram muitos anos pela sua nova escola mas que agora se devem orgulhar e aproveitar da que dispõem. No presente ano lectivo inscreveramse 1034 alunos, repartidos por 53 turmas, sendo 44 do ensino regular e 9 do não regular. A média de alunos das 27 turmas do 3.º ciclo do ensino regular, actualmente, é de 18,5, havendo apenas uma única com 23 e duas com 22 alunos. No ensino não regular é de 18 a turma que tem maior número de alunos. O número de professores é de 115, dos quais mais de dois terços pertencem ao quadro, enquanto o pessoal não docente se queda pelos 35, entre técnicos, administrativos e operacionais. Para além das actividades lectivas desenvolvem-se muitas outras e organizam-se eventos, alguns deles que já atingiram projecção a nível regional e nacional nas áreas cultural, científica e social, sendo de destacar o elevado número de clubes existentes, designadamente Sortes à Ventura, de Teatro, com mais de 20 anos de ininterrupta actividade, de Filatelia O Ilhéu, com 16 anos de intenso trabalho não só no domínio filatélico como na publicação de diversas obras cobrindo interessantes áreas da nossa vivência, da Ciência, dos Poetas Vivos, Desportivo Escolar, de Apoio aos Alunos, de Línguas, para além do Ecoescola, cuja bandeira verde tem sido atribuída nos últimos anos, demonstrando a preocupação ambiental existente por parte da comunidade educativa. Há 17 anos iniciaram-se os Encontros Filosóficos que, anualmente, com programas diversificados, têm permitido não só aos alunos como a toda a comunidade faialense assistir a intervenções e participar em debates com alguns dos melhores especialistas das diferentes matérias. De salientar, também, a publicação no final de cada um dos períodos lectivos do jornal Arauto, que está a completar 52 anos, tendo recentemente sido atribuída uma menção honrosa no concurso realizado a nível nacional pelo diário Público. Mediante a celebração de protocolo com o Município faialense está aberto ao público, nas instalações da antiga Escola Coronel Silva

Leal, um interessante Centro de Ciência com equipamento adquirido através do programa Ciência Viva, e por algum do equipamento existente nos laboratórios de Físico-Química das antigas instalações. A Escola tem participado em inúmeros eventos de âmbito regional e nacional, e organizado muitos outros que a têm projectado no exterior e criado importantes dinâmicas junto da comunidade escolar. Felizmente, os alunos têm sabido aproveitar as oportunidades surgidas, tendo beneficiado de interessantes deslocações das quais destaco, sobretudo pelo seu simbolismo, ao Parlamento Europeu e à Assembleia da República, para participarem no Euroescolas e no Parlamento dos Jovens, respectivamente. Tendo como missão um ensino de qualidade, desenvolvendo uma atitude crítica, consciente e participativa, diariamente a Escola organiza-se no sentido de atingir os seus objectivos, sendo que temos o princípio de que em várias situações será sempre possível fazer melhor. A Escola conhece os problemas existentes noutros estabelecimentos de ensino, quer regionais, quer nacionais, tendo como princípio de que só com disciplina se alcança o verdadeiro sucesso. E o Faial, infelizmente, já não é o oásis de outros tempos não muito longínquos. A nível de resultados e naquilo que é possível comparar, nas Provas de

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Avaliação Sumativas Externas (PASE) a nível regional, do 3.º ciclo, temos obtido resultados superiores aos da média regional a Língua Portuguesa, enquanto que a Matemática ainda não conseguimos descolar daquele indicador, pelo que nos situamos umas vezes acima, outras abaixo, mas sempre na sua vizinhança. Nos exames nacionais do ensino secundário, nos muito controversos “rankings” a ESMA tem-se posicionado, nos últimos anos, entre as primeiras 25 a 40% escolas, sendo que a nível das da Região coloca-se entre as 4/5 com melhores resultados. De destacar que a quase totalidade dos alunos tem conseguido colocação na primeira fase da candidatura de acesso ao ensino superior, sendo que a percentagem dos que conseguem ficar na primeira opção, tem sido muito superior à registada a nível nacional. Estamos convictos que, para além da elevada participação dos alunos em inúmeros eventos, os recentes primeiros lugares obtidos nos concursos regionais para a elaboração do poster sobre o Dia do Não Fumador e do vídeo relativo à prevenção e combate à Sida, vêm demonstrar a qualidade do trabalho desenvolvido neste secular estabelecimento de ensino.

* Presidente da Escola Secundária Manuel de Arriaga

Eugénio Leal visto por Eduardo Garcia


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John Phillips the Portuguee 1 um pioneiro na Diáspora açoriana. E é a Diáspora que preenche todo o meu imaginário de infância e de parte da juventude. Daquele pequeno recanto bucólico empoleirado num planalto entre o mar e a montanha partiram parentes, amigos e conhecidos para as terras férteis da Califórnia ou então para os frios Invernos de Toronto. Naquela época, Portugal ficava mais longe do que a América. Entre o saber de cor todos os rios e estações de comboio do rectângulo e o cheiro da roupa que vinha nas “encomendas”, a memória registava muito mais facilmente este último e lançava apelos à imaginação para lá do horizonte, mas sempre para Oeste... Era aquela roupa em segunda-mão, as “dolas” e relatos de abundância que preenchiam os sonhos dos que ainda esperavam a sua vez de partir em busca de um amanhã melhor. Sacas de roupa perfumada que eu associei sempre ao próprio cheiro da América. “Encomendas” que se ia levantar aos Correios e cuja abertura constituía um momento especial, com toda a família à volta. A minha primeira bola de futebol de borracha saltou de dentro duma saca daquelas e pulou pelo soalho de pinho. Era branca com estrelas pintadas da cor das da bandeira americana, coisa que só mais tarde percebi. “Stars and Stripes forever”, ou a dicotomia de ser, a meio do Atlântico, orgulhosamente português e sentimentalmente americano. Deve ser esta mistura, com uns pingos de ressalga, que faz um verdadeiro açoriano. Os filmes faziam, então, a aculturação americana. Cowboys, gangsters e pioneiros em luta contra os Peles Vermelhas. A vida dura e violenta do Far West era aproveitada também pela literatura barata que, no fundo, tinha a mesma função das actuais playstations. Nas noites de Inverno, metidos na cama, líamos, eu e o meu irmão Artur, à luz da lamparina de petróleo (querosene) sobre a “menistra”, as peripécias dos pioneiros americanos em livrinhos muito pequenos, de bolso, com uma ilustração aqui e ali a preto e branco mas de capa colorida. E as cenas tinham sempre um cavaleiro com os seus revólveres, que podia ser um ladrão de diligências ou o “Sheriff” com a sua estrela. Ou então líamos a banda desenhada, também a preto e branco, com as aventuras de Kit Carson, Buffalo Bill ou Daniel Boone. Nem mesmo o aparecimento das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, de que eu era assíduo “cliente”, interrompeu o fascínio desta literatura de cordel. Foi por esta altura que ouvi pela primeira vez falar de um emigrante das Terras que se havia tornado em herói americano da luta contra os Índios. John Portuguee Phillips. Meu pai contava que este parente aventureiro tinha feito uma visita à sua terra natal, onde terá sido protagonista de mais umas aventuras, nenhuma delas provada, mas recolhidas

e

da tradição oral pelo Sr. Comendador Ermelindo Ávila. John Phillips The Portuguee nasceu no lugar das Terras, freguesia da Santíssima Trindade das Lajes do Pico – hoje apenas Lajes do Pico - a 28 de Abril de 1832 e foi baptizado como Manuel Filipe Cardoso. Em 1850, tinha então 18 anos, emigrou para os Estados Unidos a bordo duma baleeira americana, com o objectivo de se dedicar à procura de ouro. Terá desembarcado na Califórnia, depois de passar o Cabo Horn. Refira-se que nessa altura a frota baleeira americana da Nova Inglaterra vinha até aos Açores mas actuava também no Pacífico, utilizando o porto de San Francisco e, segundo o investigador Eduardo Mayone Dias, cerca de um terço das tripulações era composto por açorianos e caboverdianos.

já casado e com filhos, tornou-se dono de um pequeno Hotel e de um rancho onde criava milhares de cabeças de gado. Foi uma cavalgada fantástica em circunstâncias muito difíceis que o tornou famoso ao ponto de ser considerado nos Estados Unidos um dos heróis da fronteira do Wyoming, a par de aventureiros como Daniel Boone, Jim Bowie, Kit Carson, “Buffalo Bill” Cody ou George Armstrong Custer. Faz parte, com estes pioneiros e outros, da galeria de heróis que a Kellog’s Sugar Frosted Flakes celebrizou em 1963, publicando nas suas caixas de cerais as suas fotografias e histórias. Mas consta também da História oficial dos Estados Unidos, principalmente no Estado do Wyoming, onde o seu feito e bravura são ensinados nas escolas. Na manhã de 21 de Dezembro de

Durante alguns anos ninguém sabe o que fez John Philips. A lenda, porém, fala de aventuras em acampamentos Índios, onde entrava a galope para libertar prisioneiros brancos amarrados a postes, gritando “Hello John”. Porém, só é possível documentar a sua presença no Oeste americano no ano de 1861, “data em que participa na busca ao ouro, no que se ia tornar o Estado de Idaho” segundo relata Donald Warrin. A associação americana “The Long Riders Guild Academic Foundation”, descreve Phillips como “uma combinação de batedor, caçador, combatente de Índios e versátil homem da planície. Um homem de média estatura e cabelo preto semiondulado, olhos pretos mas não profundos, e uma face forte e barbuda. O seu espaço eram as planícies do Norte, do território do Wyoming-DakotaMontana. A alcunha ‘Portuguee’ vem do facto de ele falar português […]. Mas os nomes dizem muito pouco acerca do carácter dos homens, ou da sua constituição física, ou da sua coragem”. No entanto John Portuguee Phillips não foi apenas um explorador aventureiro. Depois das suas aventuras,

1866, mais de dois mil Índios emboscaram uma coluna saída de Fort Kearney, no então território do Dakota, hoje Nebraska, e massacraram 79 soldados e dois civis comandados pelo capitão William Fetterman, no que ficou conhecido como o massacre Fetterman. Receoso de um ataque ao forte, o comandante, Coronel Henry B. Carrington, temendo pela vida dos noventa soldados que lá estavam e de muitos civis, incluindo mulheres e crianças, reuniu os seus homens e solicitou voluntários para irem pedir reforços ao Fort Laramie, a 380 quilómetros de distância. A partir daqui, há relatos contraditórios, mas é certo que John Phillips se ofereceu como voluntário e que chegou ao seu destino no dia 25 de Dezembro, depois de uma cavalgada sobre a neve e com temperaturas abaixo de zero em menos de quatro dias. Uns dizem que ia sozinho, outros que ia com Daniel Dixon. A lenda diz que o cavalo que levava era o do Comandante do forte e que caiu morto à chegada. Parece que terá cavalgado de noite para iludir os Índios e que inclusivamente pregou as ferraduras do cavalo ao contrário para

melhor os enganar. Mas faltam provas destes pormenores. O que está documentado é que Phllips entregou a mensagem depois de quase quatro dias de cavalgada através do trilho de Bozeman até Fort Reno e daí até Fort Laramie, em Horse Creek, Wyoming. Neste forte, hoje monumento nacional americano, há uma placa de bronze onde pode ler-se: “Aqui, em 25 de Dezembro de 1866, John ‘Portuguee’ Phillips acabou a sua corrida de 236 milhas para pedir tropas para libertar o Fort Phil Kearney depois do massacre de Fetterman”. E o que fazia John Phillips no Fort Kearney? Tinha chegado ao forte a 14 de Setembro de 1866, com um grupo de exploradores de ouro para se abrigar do Inverno. Mas parece que Phillips não era muito dado a usar a picareta ou a lavar areia no rio, pelo que preferiu ficar no forte contratado como aguadeiro, apesar de ser mais arriscado, devido às emboscadas dos Índios. Fort Kearney era na altura uma guarda-avançada dos brancos em território índio, e tinha sido construído no âmbito de uma série de postos militares que o governo decidira criar devido à intensificação da emigração para o Oregon. A intenção era proteger as caravanas de colonos, ameaçadas pelos Índios Sioux, Cheyenne e Arapahos. Um relato que encontrei em várias fontes parece consistente e serve para termos uma ideia da popularidade de Johnn Phillips. Em 1876 o General Ulysses Grant era recandidato à Presidência dos Estados Unidos e durante uma visita a Milwaukee avistou Phillips entre a multidão. Chamou por ele e fez questão de que subisse para a carruagem e desfilasse a seu lado. Robert A. Murray, no livro The John ‘Portuguee’ Phillips Legends, afirma que “Phillips transcendeu o carácter de pioneiro determinado e atingiu a mesma categoria mítica, impossível, a que os escritores guindaram Daniel Boon, David Crockett, Kit Carson ou muitas outras figuras da fronteira”. John Phillips morreu de nefrite em Cheyenne a 18 de Novembro de 1883, com apenas 51 anos. O Congresso americano aprovou um longo voto de pesar onde se pode ler a seguinte passagem: “Nos anais do heroísmo frente a extraordinários perigos, na América ou no mundo, poucos igualaram em valentia, em heroísmo, em devoção, em sacrifício e em patriotismo, a corrida de John Phillips.” P.S. Neste texto a palavra “Índios” foi escrita sempre com maiúscula. É a minha modesta homenagem aos verdadeiros americanos que foram espoliados das suas terras e enfiados em reservas. Muitos deles foram também verdadeiros Heróis.


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Ups, a minha escola mudou de nome! e 11 o primeiro Presidente da República, que era natural da Horta e que tinha nascido numa casa onde tive catequese e que se situa junto ao Ponto.com (restaurante). 2) Infelizmente, não. Talvez pelo facto de nunca ter sido uma figura que me despertasse muita curiosidade, apesar de ter dado o seu nome ao nosso liceu. 3) Sim, na altura foi muito falado. Pareceu-me uma boa escolha por ser faialense e pelo facto de se ter convertido num estadista. Na altura, fazia sentido. César Lima 1)Sabia que tinha sido o 1º presidente eleito da Republica Portuguesa, que era natural de cá, e que tinha nascido na Casa do Arco. 2) Agora sei um pouco mais, sei que foi advogado, professor, escritor e político (Partido Republicano Português),e foi deputado republicano da Madeira. Estudou direito em Coimbra, deu aulas de Inglês em Lisboa, e mais tarde foi reitor da universidade de Coimbra. Sei também que sentiu-se amargurado e injustiçado pelos próprios republicanos nos últimos meses do seu mandato, que morreu 2 anos depois de ter abandonado a presidência da República e que está sepultado no cemitério dos Prazeres. 3) Sim, estudava lá na altura, aliás concorri ao concurso para escolher o logotipo da escola. Acho que não só é um nome melhor para a escola como também é uma justa e honrosa homenagem a uma figura tão valorosa como ele foi. Dália Leal 1) Pouco. 2) Sim. 3) Na altura, teve pouca importância. Considero ser uma importante homenagem a um ilustre faialense. Filipe Pires 1) Na altura em que frequentei o “Liceu”, já tinha noção que Manuel de Arriaga tinha sido o primeiro Presidente eleito da República Portuguesa e que era faialense. 2) Sim, nos dias de hoje, já adquiri mais alguns conhecimentos. 3)Sim, acho que que fiz parte desse grupo, creio que foi em 1994. Na altura, apesar de saber quem foi Manuel de Arriaga, a mudança de nome da escola não fez grande diferença e sinceramente não atribuí grande importância, pelo menos do que me lembro. Joana Decq Mota 1) Sabia que foi o 1º presidente eleito da República Portuguesa, sucedendo ao Governo provisório; nasceu na Cidade da Horta, situando-se a sua casa na Rua do Arco na Matriz. 2) Soube mais tarde que estudou Direito em Coimbra. 3) Quando frequentei já se chamava ESMA há muitos anos, anteriormente Liceu Nacional da Horta. Acho adequado atendendo à importância que tem o facto de o 1º presidente da República ser açoriano, nascido no Faial. Penso também que a grande maioria dos faialenses mais jovens desconhece tal facto. Luís Campos 1- Sabia apenas que tinha nascido na Ilha do Faial e tinha-se tornado o primeiro Presidente da República Portuguesa. 2 - Não. 3- Acho que não, mas sinceramente acho bem melhor, assim sempre se dá ênfase a um grande nome das gentes do Faial. Nuno Ribeiro 1-Que tinha sido o 1º Presidente da República, e que tinha nascido na Cidade da Horta. 2- Que afinal existe uma polémica se ele nasceu mesmo no Faial ou no Pico. 3- Foi na minha altura. Achei um nome muito grande

Nota de abertura

(Esc. Sec. Geral e Básica Dr. Manuel de Arriaga), mas e 2 TVI 24, eliminando outras imagens ainda acho que foi uma excelente forma de homenagear uma bem recentes como se tivessem ocorrido há uma figura muito importante e marcante da História de imensidão de tempo ou jamais tivessem acontecido. Portugal. Depois de muito matutar cheguei à conclusão que efectivamente deverá existir uma estratégia qualquer, Pedro Taborda uma espécie de cabala mediática montada já não só 1 - Sabia que Manuel de Arriaga era natural da Ilha do a nível nacional mas planetária, a nível global (a Faial e havia sido o primeiro presidente da República. CNN, a SKY News, e todas as estações noticiosas Talvez por isso havia uma estátua em sua homenagem mundiais que eu conheço afinam pelo mesmo no cais da Horta. diapasão) para nos anestesiarem e prenderem ao 2- Desde então não aprendi mais nada que dissesse sofá horas sem conta, dias a fio, consumindo tudo o respeito a Manuel de Arriaga. que têm para nos impingir. 3 - Manuel de Arriaga é um nome ajustado para a Estou muito revoltado com tudo isto. É por isso Escola Secundária da Horta ainda mais pela importância que não concordo com aqueles que nos dizem que do cargo que este açoriano desempenhou. Só tenho pena há canais a mais na nossa Televisão. Pelo contrário: que a casa onde nasceu Manuel de Arriaga não seja na minha muito modesta opinião, deveriam existir , recuperada e se transforme num qualquer espaço de no mínimo, mais uma RTP2, mais duas ODISSEIA, utilidade pública. mais três ou quatro canais HISTÓRIA ou NATIONAL GEOGRAFIC, por forma a que Renato Silveira 1- Na altura, sabia que ele tinha sido o primeiro possamos escapar, com vida, a esta pseudopresidente da República Portuguesa e que era meu avalanche informativa (!!!?) com que nos submergem ciclicamente e preservar, dessa forma, conterrâneo, um faialense, e pouco mais. 2- Agora, e resumindo, sei que o mandato dele foi os poucos neurónios que nos restam para controlar envolto de muita controvérsia e que, apesar de ser o sentido da crítica e do discernimento. considerado um homem bom e integro, foi obrigado a Já agora não deixem morrer a RTP Açores. renunciar ao cargo devido a algumas polémicas Apetrechem-na urgentemente com os meios técnicos relacionadas com o General Pimenta de Castro, homem e humanos indispensáveis para que possa cumprir, que a dada altura foi escolhido por si para presidir ao com qualidade e isenção, o seu desígnio no governo. Saiu da presidência, como se diz na gíria, “pela panorama do audiovisual nos tempos que correm. porta pequena”, numa altura em que se viviam tempos Ela poderá ter um papel inestimável, e único, na agitados numa República ainda a dar os primeiros passos. 3- Quanto à alteração do nome ter tido importância, recolha e divulgação da nossas manifestações sinceramente já não me lembro bem, mas julgo que não culturais e das nossas tradições. A História não acaba foi assim muito relevante. Foi apenas uma alteração do aqui: precisamos de passar, às gerações futuras, o nome do Liceu (mas a minha memória pode estar a testemunho da nossa presença e das nossas realizações. A RTP Açores será, porventura, o atraiçoar-me). Se foi a melhor escolha? Não sei, mas foi uma escolha instrumento mais adequado para reforçar a unidade bastante adequada uma vez que, dado o seu passado e a identidade entre todos os açorianos, da ilha maior académico e relevância política para o país, foi uma forma à mais pequena, da cidade mais cosmopolita à mais bonita de homenagear este faialense. esquecida das nossas freguesias. Tendo sempre presente os que emigraram e que, na diáspora, Rosa Dart trazem o nome dos Açores gravado no coração. 1- Por acaso até sabia qualquer coisa... apesar de não dar a importância que dou agora às memórias da nossa terra. 2- Já. “Passei” por ele ao de leve no curso de Filosofia quando estudei Antero de Quental. Fiz também pesquisas sobre os honoráveis da Ilha e Manuel de Arriaga, incontornavelmente, era um deles. Claro que sempre fiquei a saber mais qualquer coisa. Aprende-se sempre. Cuspir para o chão vai passar a custar ao 3- Pois. Sou da fornada de 75! Não, sinceramente na cidadão comum que se atreva a fazê-lo, a partir altura não dei muita importância, se bem que agora acho das zero horas da próxima segunda feira, uma que o nome de Manuel de Arriaga ainda dá mais dignidade coima que poderá atingir os 498 euros. ao Liceu (que é como sempre lhe chamamos, pelo menos Esta medida que vem sendo defendida por os alunos de 75). nós há já alguns anos (reveja, a título de

Atenção!!!

Vanessa Santos 1- Anteriormente à mudança de nome da escola, nada. Depois, apenas que era Faialense e que era considerado uma figura importante. 2- Pouco. Mas este exercício despertou-me a curiosidade fazendo com que tenha pesquisado informação adicional. 3- Na altura não compreendi o porquê da mudança. De um ponto de vista mais prático, considerava que trazia complicações: por exemplo, a necessidade de decorar um novo nome, demorar mais tempo a preencher o nome da escola em fichas (por ser mais longo e por ter de me lembrar da ordem das palavras, mas penso que tinha outras coisas pelo meio, tipo “escola básica e integrada”), por vezes esquecer-me e preencher com o nome antigo (como acontece quando mudamos de ano). Agora, atribuo-lhe a importância devida. Respeito.

curiosidade, a notícia que publicámos no passado dia 4 de Abril de 1991 no extinto matutino faialense “O Telégrafo”), acaba de ser aprovada pela Assembleia Legislativa dos Açores na sua reunião ordinária do passado dia 1 de Abril do corrente ano. Numa primeira fase a lei prevê, “a título meramente excepcional” conforme nos garantiram as fontes parlamentares por nós contactadas, isentar desta medida os futebolistas e outros atletas de alta competição. Numa segunda fase a lei prevê, igualmente, alargar a medida de excepção aos pescadores das embarcações de boca aberta, aquando do exercício da faina em alto mar, bem como aos atletas de média, baixa e muito baixa competição.


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Uma história do tamanho de um cigarro

“A perseguição” Marco Rosa Numa tarde de quarta-feira, o engenheiro Levi passeava o seu labrador pela avenida, quando um estrondo e um clarão o deixaram petrificado no passeio. Bosco, o retriever, ladrava e saltava fazendo o seu dono estremecer para o conseguir segurar pela trela de pele castanha. A aproximadamente 30 metros do lugar onde eles estavam, planava uma coluna de luz que parecia sair do chão, dividida em anéis incandescentes em direcção ao céu. Levi sentia o calor na cara ao tentar puxar Bosco para si. Estou louco pensava, o que é isto? A única garantia que tinha de era real o que acontecia era o nervosismo de Bosco e a expressão pálida do condutor de autocarro que estava parado na estrada ao seu lado.

armas automáticas, com ar de preocupados e aos gritos uns com os outros. O veículo saiu rapidamente pela avenida, ao som de guinchos de pneus e de estanpidos de armas na direcção da traseira, como se alguém os seguisse. Um motociclista, fardado de polícia, já em queda, saiu do círculo de anéis atrás de Levi. A mota arrastava-se pelo asfalto fazendo faísca e saltando, por fim, às cambalhotas descontroladas até se imobilizar em frente ao restaurante. O seu ocupante rebolou por alguns momentos e levantou-se atordoado com a queda. De imediato, virou a cabeça e olhou para trás, enquanto saltava para o passeio evitando o contacto com um Alfa Romeu que saía

Desenho de Mário Alexandre Marques Silva

Alguns segundos depois, ouviu outro estrondo ao longe e olhando para trás, conseguiu ainda ver acompanhada de outro clarão, a formação de outra coluna de anéis luminosos a 100 metros de distância. Bosco estava louco, o condutor do autocarro acabara de fugir e Levi, lívido de espanto, assiste à saída de um automóvel verde azeitona, a alta velocidade da coluna de anéis de luz situada à sua frente. Viajavam no que lhe parecia ser um Mercedes S, dos anos 80, três sujeitos aos disparos, de

naquele mesmo momento da mesma coluna de luz. Era um automóvel antigo que também aparentava ser da polícia, devido às cores azul escuro e branco que o revestiam. Este, descontrolado, saiu pela avenida e os seus passageiros, de armas em riste, disparavam na direcção do Mercedes verde, enquanto aceleravam a toda a velocidade no seu encalço. Levi estava petrificado. E agora, que mais? O que tinha acontecido ali? Bosco ladrava incessantemente contra os anéis de luz.

Ao olhar ligeiramente para a sua direita via algumas pessoas na janela do restaurante, assim como, o motociclista, que havia saído da luz levantando-se rapidamente do chão e dirigir-se à sua mota. Levantou-a, olhou calmamente em redor, dando ignição ao motociclo. Sem dizer uma palavra, aquele polícia, de olhar gelado levantou a sua arma, puxou-lhe a culatra e voltou a colocá-la no coldre, antes de arrancar a toda a velocidade atrás dos automóveis estranhos saídos das colunas de luz. Levi sentou-se no muro, enquanto via as colunas de luz desaparecer e vários automóveis de socorro, estes bem conhecidos, gritarem na sua direcção. - O senhor viu o que se passou? Pode dizer-nos o que viu? perguntava-lhe um agente fardado, com uma cicatriz no olho direito. Como é que ele se ia explicar? O que é que ele tinha visto? As outras pessoas poderiam ter alguma explicação, algum pormenor, mas ele não, e Bosco não poderia ajudar em muito. Levi descreveu tudo aos agentes, várias vezes e se mais 4 pessoas não tivessem assistido a tais acontecimentos, Levi estaria internado num sanatório a mastigar Valium e a rir dos óculos do Goucha no programa da manhã. Mais tarde, vários anos depois, contactado pela polícia, disseram-lhe que até então não tinham conseguido explicar o evento, que as viaturas e os homens envolvidos nunca tinham sido encontrados apesar de cinco testememunhas terem observado o acontecido. Nos seus passeios de final de tarde pela avenida, o retriever Bosco ficava sempre muito nervoso ao passar pelo local do acontecimento e Levi sentia sempre um arrepio ao lembrar o estrondo e o aparecimento da coluna de luz. Algures no ano de 1982. - Segura o carro Santos, estes tipos vão escapar e tu vais ficar a ver! Escreves tu o relatório ao chefe! Que raio é aquilo alí à frente? De onde é que vem esta luz...

Título: Avenida Marginal

Periodicidade: Trimestral

Director: Heitor H. Silva

Editor e Proprietário: Heitor H. Silva

Tiragem desta edição: 1500 ex.

E-mail: avenida.marginal@sapo.pt

Morada para correspondência: Apartado 81, 9901-909 Horta Codex Impressão: Gráfica “O Telégrapho”, Rua Cons. Medeiros, 30, 9900-144 Horta - Telef. 292 292 245 Registo ERC 125447 de 04 - 06 - 2008

(NIF 161921051)

Blog: jornalavenidamarginal.blogspot.com

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Velha história, novo sonho Terra Garcia

Vim dum império distante que se remiu em Abril, fui colono e bandeirante nas campinas do Brasil.

Percorri todo o sertão, fiz-me à terra por amor, plantei fruto em qualquer chão, fui escravo e fui senhor.

Canto esta trova Como prova de amizade em que o sonho e a liberdade são da plebe, vestem ganga... E estou pronto para, com todo este povo, fazer ressoar de novo o grito do Ipiranga!

Assoprei no Pantanal um berrante de cow-boy; no Brasil e em Portugal fiz de Pedro o meu herói.

Trilhei sem rumo nem norte uma viajada errónea e joguei a minha sorte nos mistérios da Amazónia.

Vi horrores e maravilhas, tive solares e cabanas, pulei as modas das ilhas e amei lindas baianas...

Em S. Paulo e Salvador, no Rio – cidade luz busquei sortes e amor por Terras de Vera Cruz.

De Cabral até Vieira esqueci os meus parentes; em Minas ergui bandeira e apoiei o Tiradentes.

Nestas rimas em que canto minha vida, minha sina, toda a fé no Espírito Santo trouxe a Santa Catarina.


18 • Avenida Marginal

• sexta feira 30 de Abril 2010

Quarenta anos depois

Perdi um amigo achado Terra Garcia Álvaro, também natural de Fátima, que era dos alunos mais antigos da instituição e, como tal,

porém, terá emigrado e a um bom número deles perdi o rasto. O Hermínio Marto contava-se

exercia funções de chefia na orientação das equipas de futebol, nas saídas a passeio, etc. No entanto a figura franzina do Hermínio ganhava maior relevância aos nossos olhos, destacando-se entre os quatro colegas naturais daquela terra que considerávamos abençoada pelo Céu. Não sei se terá sido mesmo no fim desse ano, em que o Hermínio se estreara como seminarista, se no ano seguinte, que aconteceu a transferência do seminário de Ponta Delgada para Fátima, o que alegrou os quatro rapazes de que vos falei, como seria de esperar. Eu, porém, aproveitei as férias do Natal, que pela primeira vez passava em família desde que me fizera seminarista, para me desvincular daquela casa santa e mimosa de Deus. Nem meu pai, com o maior dos esforços, conseguiria juntar dinheiro para pagar uma viagem até Fátima… Esta foi uma breve etapa da minha vida, ainda inicial, que ficou para trás. A partir daí andei a rebolar no tempo, sempre metido em dificuldades, tentando, como todos, organizar a vida. Muitos dos antigos colegas e amigos do seminário foram, ao longo dos anos, ressurgindo circunstancialmente na minha vida. Acabei por encontrar alguns em missão de docência, outros em funções de direito, funcionários públicos, militares de carreira, políticos, bancários… Poucos, apenas dois que eu saiba, chegaram ao sacerdócio. A grande maioria,

entre aqueles de quem nunca mais tivera qualquer notícia. Cansado de Coimbra e do massacre contínuo da doença, resolvi aproveitar, tanto quanto possível, este domingo de sol e Dia de S. Martinho para ir, com minha mulher e um casal amigo, até Fátima. Da Cova da Iria só

se claramente do meu antigo companheiro. Disse-me o senhor Manuel: - Aquela casa que ali está à venda, na esquina, é deles. Eu, por acaso, já tinha reparado no letreiro aposto num pequeno e modesto edifício que ficava no percurso entre a casa de Lúcia e a dos primos. Comentara até o facto com minha mulher. Depois o senhor Manuel Rosa continuou a informação que eu lhe pedira: - Esse Hermínio emigrou para França, casou e teve dois filhos. Construiu casa, aqui em Fátima, e montou um café ou snack-bar no rés-do-chão. Vivia bem mas continuava a ir a França com frequência e, numa dessas viagens, teve um acidente e morreu. E completou: - A viúva vive, ainda, com os dois filhos, na casa que construíram. Se quiser visitálos é fácil. Fica logo à saída de Aljustrel, junto a uma bomba de gasolina que foi recentemente desactivada. Eu estremeci com a informação. Começara por estar tão perto do meu amigo, perdido há mais de quarenta anos, e agora sentia-o infinitamente distante.

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Avenida Marginal

Quantas pessoas se cruzam connosco ao longo dos anos da nossa existência terrena!? Algumas passam por nós sem que cheguemos a participar do seu convívio. De outras só nos fica o nome e pouco mais. Muitas povoam a nossa mente de boas e más recordações que jamais esquecemos e algumas permanecem na amizade, desde a infância até ao fim dos nossos dias. O Hermínio Marto foi um amigo que não se inclui nos conceitos atrás referidos. Incluilo-ei, de preferência, no grande número daqueles que connosco convivem durante um curto espaço de tempo e, depois, por circunstâncias ou imperativos que diremos do destino, desaparecem do nosso relacionamento, sem que deles nos chegue qualquer notícia. Foi exactamente o que aconteceu. Há mais de quarenta anos conheci o Hermínio. Estava eu no segundo ou terceiro ano do seminário quando surgiu, entre a trupe dos novos caloiros (1966?) um rapazinho aloirado, de pele muito clara e sardento como eu. Distinguia-o um permanente sorriso cândido que, de início, me pareceu exagerado uma vez que o não desfazia nunca, nem mesmo durante uma simples conversa de recreio. Poucos dias depois da sua chegada ficámos a saber que o nosso novo colega, Hermínio Marto, era primo segundo do Francisco e da Jacinta, pastorinhos a quem Nossa Senhora aparecera. Sua mãe, que agora sei chamar-se Amélia, era prima directa dos videntes. Possivelmente por influência desta revelação um grupo de internos, de que eu fazia parte, começou logo de encontrar afinidades fisionómicas entre o Hermínio e o falecido Francisco. Só que, para uns quantos, a figura do Hermínio Marto parecia mais cativante do que a do pastorinho vidente que apenas conhecíamos de fotos e estampas em que aparecia sempre com ar sisudo. O Hermínio, com os seus modos de agir e aquele sorriso fixo, ganhou rapidamente a simpatia de todos. Era sempre correcto e afável nos jogos, na sala de convívio… Recordo que naquele ano chegaram com ele mais dois companheiros, oriundos do lugar de Aljustrel, dos quais apenas lembro o nome do Eurico. Juntaram-se estes ao já veterano

não conhecíamos a nova e imensa Igreja da Santíssima Trindade, à Cruz Alta, que visitámos com gosto. Depois decidimos fazer o percurso dos Valinhos até à Loca do Cabeço. Neste trajecto visitámos as casas da família de Lúcia e dos primos Francisco e Jacinta, conservadas de acordo com a época em que os pastorinhos ali viveram. Nesta última, a dos irmãos videntes, tivemos a oportunidade de conhecer o senhor Manuel dos Santos Rosa, idoso que é sobrinho dos beatificados pastorinhos e toma conta da casa onde eles nasceram e viveram com a família e onde o Francisco acabou por falecer. Foi então que, em conversa com o senhor Manuel Rosa, me veio à lembrança o antigo colega e amigo Hermínio, natural daquele lugar e, possivelmente, aparentado com o meu interlocutor. Pedi-lhe informações a que o senhor Manuel respondeu também com uma interrogação: - Um homem baixinho e grosso?... E eu: - Não lhe sei dizer. Conheci-o quando tinha apenas dez ou onze anos… Então o senhor Manuel Rosa falou-me de um parente um tanto afastado cuja mãe, D. Amélia, era prima directa dos videntes. E quando citou o seu nome completo – Hermínio Henriques Marto – não tive mais dúvidas. Tratava-

A Tabacaria da Sorte informa os seus estimados clientes que aceita encomendas de livros escolares, do 2º ciclo, 3º ciclo e secundário, para a época de 2010/2011 de 1 a 28 de Julho de 2010

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sexta feira 30 de Abril 2010 • Avenida Marginal •

Habitante das margens do canal... Margarida de Bem Madruga Entardecia quando zarpamos do Pico, em barco à vela. Apenas íamos da ilha do Pico para o Faial. Vela erguida sussurrando brisas neste trajecto que prometia ser doce. Nem uma núvem no céu... De pé, virei-me para trás e olhei o Pico no seu lento afastar. Limpo, límpido como o ar que respiravamos, cores lavadas que o sol-pôr ia esbatendo, escurecendo gradualmente da base para o cume. Teimosamente

E inebriei-me com o Faial enegrecido recortado na luz do sol a definhar, caindo num céu sem núvens. O silêncio instalou-se. Não houve uma única palavra, um único som daquela dúzia de criaturas extasiadas. Era o cenário perfeito. O vento sussurrava nas velas e afastava das faces algum cabelo teimoso. As ondas embatiam docemente no casco que fendilhava

travessia deste canal nas lanchas “Calheta”, “Espalamaca” ou “Velas”, quando o tempo estava ruim, o mar bravo e mestre Simão, descalço, não queria ninguém junto a si... O meu olhar esgotou-se na emoção deste privilégio de estar e habitar aqui, nestas 2 ilhas supremas que ladeiam este lindo canal... e libertei a minha comoção numa lágrima que a brisa desprendeu e levou p’ró mar.

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Haiti No gesso das palavras Mórbidas sílabas Persistem na memória Sem relógios de Dali. O sol escoa-se Em sangue No relincho de cavalos lusitanos. A identidade embriegada Na morgue das bocas. A terra aberta como uma morte fotográfica. Sem o mar de Nietzche Os corpos jazem como cristos crucificados. Deus espantado com a própria humanidade.

Madeira

aquela ponta continuava cor de fogo, enquanto o resto da montanha enegrecia. Lindo, tão lindo que congelei aquela imagem no Tempo!... Mas, não! Era preciso virarme e olhar de frente. Eia, que beleza!

as águas já negras. Nem mais um som... Respirava-se devagar e de mansinho, não fosse o encanto acabar... Pousei os olhos no infinito e... vi-me criança! Mergulhei na lembrança dos tempos difíceis de meus Pais, na

O tempo parou... A noite caíu e... ...agradeci a Deus sentir-me pertença destas 2 ilhas, AS MARGENS DESTE fantástico CANAL!!!

No lodo estrelícias encantadas. Como se os deuses grávidos desse verde chorassem amordaçados nas crateras dessa luz aprisionando rostos anónimos de chuva como se a dor desse mar basáltico também fosse nossa. Somos a equação vulcânica de ilhéus a memória perdida dos descobridores o silêncio dos garajaus. Na infância das pedras ei-la a ilha ressuscitada como se Zarco a tivesse beijado... Rosa Maria Castro Neves

Contos Marginais:

O velho que amava uma sereia Lídia Bulcão Ficavas sentado nas pedras da praia como quem espera um sinal divino para despertar para a vida. Permanecias imóvel, olhando as ondas, como se esperasses um navio de carga preciosa ou uma alma generosa que te arrancasse daquela dormência quase etérea. Olhando de repente, parecias uma casca de molusco deixada para trás, pousada ao acaso nas areias da vida, aguardando que a maré te levasse de vez. Olhando uma segunda ou terceira vez, com persistência e atenção, notava-se que os teus lábios mexiam. E quando a brisa colaborava, ouviam-se sons e murmúrios arrastados pelo vento, ainda que me fugissem mais do que chegavam, sem que percebesse sequer o que diziam. Conheci-te assim toda a vida e sempre pensei que falavas com a tua própria existência, como se procurasses no

Nau da Carreira da Índia Graça Silva

passado as parcelas que faltavam para conseguires acertar as contas do presente. Como se conversando contigo próprio procurasses ouvir o que te vai na alma, de modo a torná-la mais leve e suportável. Ontem, juraram-se que não. Juraram-me que não falavas sozinho, nem carregavas pesos mortos nessa alma de outros tempos. Que se os teus lábios se mexiam em frente ao mar é porque cantavam. E que esses murmúrios não são mais do que melodias de outros tempos e sons que já não se fazem. Mas porque cantaria um velho perdido em frente ao mar? Porque ficaria horas a olhar o que ninguém parece ver, alheado do mundo inteiro e das vidas que o rodeiam? Respondem-me que és um homem agradecido à vida que existe debaixo de água e que já nada consegues fazer sem repetir os sons que lá ouviste

cantar. Pormenores, ninguém os sabe, ninguém se atreve a revelar. Mas circulam de boca em boca relatos de uma tragédia que não chegou a ser, do dia em que caíste ao mar e sobreviveste para dizer. Quem te ouviu primeiro já cá não está, mas quem ficou sempre vai contando que foi obra de uma sereia desconhecida. E que desde que te salvou passas os dias assim, embevecido a cantar a sua essência perdida. De repente percebi que a vista não me enganara. Enquanto trilhavas a voz e acertavas o compasso com o mar, esperavas de facto que o tempo te devolvesse uma existência roubada. E que a tua alma generosa é uma sereia perdida, porque quem te apaixonaste sem saber, numa clarividência da vida.

Senhora da penosa escalada, Caminhas lado a lado comigo. Reparo em ti: estás adornada com fios de oiro, eles envolvem-te em névoas de fantasia e confiança. Abres a porta e reparas na abertura que te dá acesso ao piso térreo. Estendes a mão, tocas na fechadura que está trancada. Do lado de dentro ouves os fantasmas e sabes que se escondem nos seus espólios. Entras e deslizas leve, leve, leve no soalho de madeira desenraizado de uma nau da carreira da Índia. Vagueias entre múltiplas portas e sentes as mãos generosas que te tocam, dolentemente, para que te abandones, senhora minha, a estes malfadados passos do teu destino. Na janela espalhas a tua beleza quinhentista à sorte e ao infinito. Lá longe, senhora, vês as naus minúsculas de chusma que buscam novas farturas. Naquele solar que te abençoa e protege ouves o eco do teu canto como uma libertação da alma. Desejas partir agora! Numa nau da carreira da Índia.


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20 • Avenida Marginal • sexta feira 30 de Abril 2010

As alegrias do cinema Victor Rui Dores Foi através da 7ª arte que despertei para o conhecimento das cois as, da vida e do mundo. A viver nos estreitos limites de uma pequena ilha (Graciosa), sem acesso à televisão, eu era uma criança bisonha para quem o cinema era o fascínio e o sortilégio que me restavam. Recordo, com nostalgia profundamente sentida, esses tempos em que, de calção, me entregava às cinefilias e descurava os trabalhos da escola… O cinema era, então, uma experiência de sonho, uma entrada no reino da fantasia, que não residia apenas nas histórias que via no écran, mas nos próprios instrumentos que davam vida às imagens. E quem me ajudou a cimentar esse amor pelas fitas foi o sr. Belchior, projeccionista da velha casa de espectáculos da vila da minha infância. Havia, entre nós, uma grande cumplicidade e uma estima profunda e recíproca. Eu faltava à escola só para o ver, na sua oficina, enredado em fitas e bobines, a rebobinar o filme que havia passado na noite anterior. De vez em quando a fita rebentava e era preciso cortar e depois colar os fotogramas. Eu guardava, religiosamente, os que caíam no chão, coleccionando-os numa caixinha de supositórios da minha avó. Homem generoso, que fazia do seu ofício um apostolado, o sr. Belchior, em noites de cinema, deixava-me entrar na cabine de projecção. Aquele era um espaço sagrado, onde se destacava a valiosíssima máquina de

projectar, cujas entranhas causavam em mim um profundo espanto. O sr. Belchior, com gestos meticulosos, fazia deslizar a fita por labirintos de prismas, espelhos, lentes, obturadores, diafragmas, rodas e rodinhas… Depois fechava a portinhola e ouvia-se o trac-trac do movimento circular da fita. Apagavam-se as luzes, rompia um sururu na sala. Com truques de mágico, o sr. Belchior capri-

chava na focagem. E aquele tremelicante feixe de luz que saía da lente exercia em mim um imenso fascínio. Era então que eu subia para um banco para chegar ao postigo e, deslumbrado, regalava-me com os murros do John Whayne, os tiros do Humphrey Bogart, os sorrisos de Clark Gable, os músculos de Charlton Heston, os olhos de Kim Novak, os beijos de Ingrid Bergman… A maior parte desses filmes não era para a minha idade. O sr. Pacheco polícia andava de olho em mim... Mas eu, bene-

ficiando da cumplicidade do sr. Belchior, enfiava-me na cabine de projecção uma hora antes do filme começar… O meu pai fazia vista grossa a tais desmandos. A minha mãe afligiase com as minhas frequentes “escapadelas” às fitas… Era mais forte do que eu: o cinema, sendo a minha curiosidade maior, fora a minha iniciação. Com o passar do tempo, a inocência do meu olhar foi dando lugar a sorrisinhos marotos, sobretudo quando no écran apareciam aqueles perversos e deliciosos beijos na boca… Às vezes eu saía subrepticiamente da cabina e, no escuro, escondia-me nas pregas de reposteiros sorumbáticos, para acariciar, com dedos sonhadores, partes baixas em ebulição… Na catequese, o senhor padre Genuíno Madruga alertava-nos para os inimigos da alma e para os perigos do cinema… Era preciso rezar muito. E todos éramos obrigados a decorar as quatro virtudes: prudência, justiça, fortaleza e temperança… O celulóide enlevava-me. Os filmes de aventuras, de capa e espada, enchiam-me a vida, transportavam-me para uma outra dimensão; por umas duas horas transformava-me no Zorro ou no Cavaleiro Solitário, cumpriam-se todos os meus sonhos: por arte de magia, o bom recuperava-se da mazela e das feridas, soltava-se das amarras e dos cepos e ficava com a rapariga, os dois a beijarem-se em primeiro plano enquanto nas

suas costas brilhava o sol ou a lua e uma orquestra de cordas e sopros fazia ouvir música lânguida. Eu não resistia aos “westerns” (em que os índios eram quase sempre os maus da fita), pois nesse tempo o mau era sempre vencido pelo bom e pagava os seus crimes com a morte ou com a prisão. Eu e o Arnaldo, meu amigo de infância, tornámo-nos irmãos de sangue: um dia ferimos os pulsos com um canivete, atando-os depois um contra o outro, com um lenço, como os índios nos filmes. Eu era o “cow boy”, Arnaldo, o apache… E depois havia os filmes de Charlot que despertava o riso e o choro. E havia o Buster Keaton, os Três Estarolas, o Bucha & Estica… E foi assim, empoleirado numa cabine de projecção, que aprendi a descobrir e a inventar o mundo. Um dia percebi que, afinal, a vida não era como o

cinema. Nesse dia chorei perdidamente, mas em mim nunca mais se perdeu o encanto do celulóide. Fiz-me homem e alguns filmes mudaram a minha vida (incluindo um em que me revi como protagonista: Cinema Paraíso, de Giuseppe Tornatore…). Continuo a lançar muitos e múltiplos olhares às cinefilias com o mesmo gozo com que, de calção, espreitava pelo postigo da cabine de projecção da velha casa de espectáculos da minha infância. Ou seja, continuo a acreditar no cinema – essa poderosíssima máquina dos sonhos. E saio dos filmes reconciliado com a vida, mesmo que o real da rua me devolva o sentido da realidade. Todos os sábados vou ao cinema. Por catarse: pois preciso de um écran que projecte quase tudo o que me falta para tornar ilusoriamente plena a minha vida sem história, sem glória e sem mérito.


Avenida Marginal nº6