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Herberto Dart Hoje, dia 1 de Abril de 2011, pelas 04 h (hora de Lisboa), o Parlamento Europeu, através da Deliberação nº.1001/2011, tomou uma decisão de extraordinária importância:”Baseandose na uniformização de critérios para os países da EU e, tendo em conta aqueles que prescindem da Ajuda Externa, delibera que deverão ser actualizadas todas as Pensões, Reformas e Salários, estabelecendo o mínimo de 900,00 euros mensais e máximo de 5.000,00 mensais. Todos os que forem superiores a este último montante, serão a ele reduzidos sem quaisquer excepções. Esta deliberação foi tomada por unanimidade e aclamação por todos os senhores euro-deputados.

O nome de Colombo e a sua origem (Transcrição de duas folhas manuscritas que se pensa terem pertencido às Saudades da Terra do Dr. Gaspar Frutuoso) Daniel de Sá Dos grandes marinheiros que Portugal teve, um há que é mais famoso do que merece e nem sequer tido como filho desta pátria, talvez porque pesasse na consciência dos que deveriam tê-lo muito estimado que o não houvessem feito, porque, por sorte de errados cálculos foi dar a uma terra que se diz que há-de ser glória do mundo e luz das nações, tal é a fama das imensas riquezas que se julga haver nos quatro cantos dela. E só lá foi depois de haver proposto que a viagem fosse por conta de Dom João Segundo, rei forte que, se muito acertou em algumas coisas, errou tão duramente e em outras que, por não lhe agradar 6

Notícias breves I Todos os bares e restaurantes da Região Autónoma dos Açores vão passar a estar equipados, já a partir do próximo mês de Maio, com uma daquelas maquinazinhas utilizadas pela Polícia de Segurança Pública para medir o grau de alcoolémia dos condutores. Esta norma que acaba de ser aprovada pela Assembleia Legislativa Regional, com apenas 26 votos contra, visa, no dizer dos seus promotores, promover uma cidadania “consciente e responsável” bem como incentivar os automobilistas açorianos às boas práticas, enquanto conduzem, prevenindo e desmotivando a condução sob o efeito do alcoól. A medida agora implementada irá constituir, garantiu-nos fonte parlamentar que pediu o anonimato, um duro revés para aqueles agentes que, madrugada adentro, semana após semana, de maquineta em punho esgrimem diante do olhar esgazeado dos automobilistas o respectivo “balão”, consolando-se em aplicar pesadíssimas coimas aos condutores alcoolizados. Da Madeira e chega-nos entretanto a notícia 5

Américo Santos Silveira Toda agente se lembra da polémica que envolveu a saída de Fernando Meneses do cargo de Presidente da Assembleia Legislativa Regional dos Açores. O distinto faialense continua a afirmar que ficou ofendido com a forma como foi informado de que não continuaria no cargo, quando em 2008 o PS voltou a ganhar as eleições regionais. Depois do excelente desempenho que teve naquelas funções, terem-lhe telefonado às três horas da manhã para lhe dizerem que limpasse as gavetas, é uma coisa assim a modos que violenta, mesmo em política, pois que diabo, não estamos na Líbia. Isto é o que transpirou para a opinião pública e publicada, ficando toda a gente com a impressão de que o destronamento de Meneses tinha sido uma falta de lisura e de ética, que as coisas mesmo em política, onde não há amigos nem inimigos, não deviam ser assim, etc.. Só que por vezes as coisas não são o que parecem. O que aconteceu de facto é algo que só agora começa a ser comentado à boca pequena nalguns mentideros da política regional, onde às vezes se fala verdade: o próximo Presidente do Governo Regional será Fernando Meneses, se o PS ganhar as próximas eleições regionais. Pelo menos será o candidato que o partido socialista vai indicar.

Pois segundo algumas fontes, César já nessa altura andaria a pensar em como descalçar a bota de não poder fazer mais nenhum mandato. Portanto tinha que arranjar atempadamente uma solução para que quando chegasse a altura o poder dentro

do partido não “caísse na rua”, isto é, o pessoal não começasse aos “chutos e pontapés” para ver quem é que conseguia chegar-se à frente para liderar o partido e consequentemente ser o candidato do PS a Presie dente do 13 PUB.

Última Hora

O próximo Presidente do Governo Regional


2 • Avenida Marginal • sexta feira 01 de Abril 2011

Facebook Nasce “pá cueca”! Marcus Anónimus O Facebook, tal como todas as grandes invenções do Homem, nasce “pá cueca”. O Homem na sua infinita vontade de acasalar e possuindo um grande cérebro começou desde cedo a magicar formas inovadoras e criativas de saltar à cueca do sexo oposto, isto ainda antes da invenção da cueca. Percebemos isso, desde logo, com a sua primeira invenção – a moca – com que o nosso ancestral mocava com critério e rigor no topo da cachimónia da fêmea para de seguida a arrastar pelos cabelos até à gruta mais próxima. Rapidamente o Homem percebeu que isto de arrastar uma fêmea desmaiada de cada vez era pouco viável e demorado. Quis acelerar o processo e inventou a roda. Desta forma podia mocar várias fêmeas e levá-las para a sua gruta do amor. As fêmeas depois de acordarem eram parceiras exigentes e o homem foi obrigado a controlar o fogo de forma a aquecer o interior da gruta, tornando-a mais agradável. Deparou-se entretanto com outro problema: as grutas passaram a estar iluminadas. Consta que as fêmeas ficavam desiludidas com a falta de gosto no design de interiores da gruta. Não apreciavam a falta de decoração e a excessiva rusticidade. Assim o Homem inventou a Arte. Aprendeu a criar e a manipular vários pigmentos, compreendeu a estrutura de todas as formas vivas e desatou a pintar cenas de caça viris e

perigosas para impressionar as fêmeas. Foi aqui que o Homem inventou a mentira. O Homem rapidamente percebeu que a vida de caçadorrecolector lhe consumia muito tempo e que corria demasiados riscos a correr atrás de mamutes e bisontes. Esta vida nómada fazia com que passasse muito tempo fora da gruta e longe das suas queridas fêmeas. E o Homem inventou a agricultura e a pecuária. A sua vida sedentarizou-se e agora já podia passar mais tempo a constituir a sua prole. Inteligente como era convenceu a fêmea de que eram precisos muitos rebentos para ajudar na lida da gruta, da terra e dos animais. A fêmea retorquiu – “Esta gruta é pequena demais!”. E o Homem inventou a arquitetura e tornou-se mais humano. Desde o início da nossa inteligente verticalidade e depois do advento do polegar oponível não temos feito mais nada a não ser inventar novas formas de saltar à cueca. O Facebook surge assim como a mais recente, moderna e bem sucedida plataforma de engate. Nasceu da mente de jovens criativos com as hormonas aos saltos que passavam muitas horas em frente ao computador. Assistimos nos dias que correm ao crescente surgimento de comunidades sociais no virtual mundo da internet, era de esperar que o Homem puxasse pela sua sapiência e inventasse uma nova ferramenta que o auxiliasse a desbravar esse maravilhoso mundo novo. O Facebook é a resposta! I like.

O Gonçalinho Lembram-se de mim? O Gonçalinho das redacções… Não se lembram? Eu escrevia umas redacções lá na escola que depois eram publicadas no Jornal O Telégrafo (já desaparecido). Não se lembram mesmo? Bom, já lá vão uns anitos. Foi em 1983. É natural que já tenham esquecido. Mas se eu vos falar daquelas redacções pode ser que alguma coisa vos espevite a memória. Por exemplo, lembram-se da redacção “A Vaca”? Não? E aquela redacção que tinha por título “A comissão”? Também não? Então vai aqui uma fotocópia do Telégrafo para se recordarem. E havia a redacção do cão, e a redacção do gato, a redacção da televisão e a redacção do Natal. Havia uma redacção sobre as boas acções e outra sobre a poluição. Tinha uma redacção que falava da minha casa e outra que falava da minha escola. Durante os primeiros 3 meses de 1983 foram publicadas 20 redacções sempre com a assinatura de GONÇALINHO. Com o acordo do Senhor Rogério Gonçalves, Director do Telégrafo, as minhas redacções eram publicadas sem os leitores conhecerem o seu autor. E foi tal o sucesso destas redacções do Gonçalinho que começaram a chegar cartas ao Telégrafo a aplaudir a iniciativa do jornal. E até houve quem escrevesse outras redacções parecidas com as minhas. Eram as redacções de um tal Arnestinho e de um tal Pedrinho, que o jornal também publicou. Mas o sucesso foi total quando o Jornal concorrente do Telégrafo, o Correio da Horta (também desaparecido), começou a publicar uns versos muito ressabiados, assinados por “Mabel”, a deitar abaixo as redacções publicadas no Telégrafo, e em especial as do Gonçalinho. As minhas. Ora bem, passados estes anos todos decidi dar-me a conhecer aos leitores deste jornal. Assim como assim muitos dos leitores do Avenida Marginal foram leitores do Telégrafo… e do Correio da Horta. E pronto cá estou eu. O miúdo Gonçalinho cresceu. Agora é um homem de 38 anos. Mas é um homem que tem sério um problema existencial. É que o homem não existe. Isto

é, existe, mas na imaginação do seu criador. Pois é, eu, o Gonçalinho, não passo de um personagem inventado por um tipo que escreve umas coisas para os jornais. Eu, e mais uns quantos como eu, que ele já criou, só fazemos o que ele manda. Só fazemos o

que lhe dá na gana. Mas desta vez vou vingar-me. Finalmente consegui fugir do armário e corri para aqui para o Avenida Marginal para revelar, em primeira mão, o nome do verdugo que me tem enclausurado há 28 anos.

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sexta feira 01 de Abril 2011 • Avenida Marginal •

A terapia do riso – O bem que faz uma boa gargalhada! Lúcia M. de Mello Serpa

Há muito tempo atrás Filipa Seguro

Se é incontestável que nas últimas décadas a medicina percorreu um vertiginoso avanço, em grande parte devido ao progresso da tecnologia, não é menos verdade que se assistiu igualmente a uma enorme e apelativa oferta de processos alternativos para a cura de todos os males. Até a medicina convencional já não fecha completamente as portas a algumas terapias paralelas que, bem conjugadas, podem potenciar favoravelmente o efeito dos medicamentos. Que “rir é o melhor remédio” já ouvimos todos, embora nunca lhe tenhamos atribuído muita credibilidade. Mas parece que sim! E eis que surge a risoterapia , divulgada a partir da América por um médico que começou a dar consultas fantasiado de palhaço, com nariz vermelho e cabeleira colorida. O

encontrar e com quem não perdemos tempo se ficarmos a conversar um bocado. Há algum tempo atrás era muito frequente ver no Mercado Municipal, aos Sábados de manhã um grupo de compradores, de sacos na mão, mas sem pressa de voltar a casa, à volta de alguém que, pelo jeito natural de falar, atraía o grupo e provocava empolgantes gargalhadas. Como essa pessoa se reformou o grupo da boa disposição matinal dispersou-se e já não os vejo no sítio habitual. Todos conhecemos este tipo carismático de pessoa sem a qual os serões ou as festas de família se tornam insossas e entediantes. Dos vários casos de que me lembro, e alguns bem que podiam abrir clínicas para sessões de riso, tão inesgotável é o

Doutor Hunter Adams. Os resultados foram surpreendentes sobretudo nas crianças. Os doentes sentiam-se menos deprimidos e isso acelerava o processo da cura. A propósito refiro que em Portugal se encontram implementadas desde 2007 sessões de terapia do riso na Associação Oncológica do Algarve. Em termos científicos (mas muito aligeirados por mim) a explicação será esta: o bom humor e a gargalhada estimulam o cérebro a sintetizar as endorfinas que têm propriedades analgésicas, semelhantes à morfina. Daí que a diminuição das dores físicas proporcione uma sensação de relaxamento e por consequência um bem-estar mental e emocional. Serve esta introdução para falar daquelas pessoas que têm um sentido de humor tão genuíno que não conseguimos estar perto delas mais de 10 minutos sem soltar uma boa gargalhada. Não me refiro aos humoristas profissionais, que os há muito bons. Estou a pensar nas pessoas comuns da nossa terra que dá gosto

seu reportório de anedotas, vou relembrar uma figura que me impressionou, da minha juventude passada nas Angústias e de quem muita gente ainda se lembrará, o Moscatel. Se vivesse actualmente seria o mais próximo que eu conheço do “galã safado mas com muita pinta”. O simpático reguila que ganha para gastar e depois logo se vê. Sedutor bem sucedido com as moçoilas e sempre bem-humorado, o que lhe concedia um charme irresistível. De notar que era pescador, habitante do chamado bairro da lata, situado onde agora se encontram as instalações da APTO (ex -Junta Autónoma do Porto da Horta), e muitas vezes andava descalço, não por excentricidade, mas por falta de sapatos. Conta quem estava presente que altas horas da noite, ali junto ao ex-Banco de Portugal, o Moscatel, de guitarra em punho e muitos copos bebidos, dava largas à sua euforia cantando e tocando, sem querer saber de quem aquela hora descansa. Depois de várias reprimendas, o Polícia que fazia vigilância ao Banco

interveio – “ Chega! Agora vai ter que me acompanhar!”- Responde o Moscatel com boas maneiras: “ Com certeza, Sr. Guarda, quer que o acompanhe em Dó ou em Sol?”. Não tenho a certeza se esta anedota foi criada pelo Moscatel ou se já existia. De qualquer modo, vale pelo à vontade e arrojo perante o agente de autoridade que na época impunha muito respeito. Ainda o mesmo protagonista em formato de reality show, numa das cenas mais trágico-cómicas de que já ouvi falar. Depois de uma noitada na antiga Discoteca do Hotel Faial, Moscatel & Amigo decidiram dar um mergulho na piscina do hotel. Apesar de alertados para a hipótese de a piscina estar vazia, o optimismo prevaleceu - “A gente vai ver.” Ou não viram por causa da falta de luz ou porque a visão estava demasiado toldada. Alegremente o mais temerário atirouse. Ensanguentado e meio tonto pela pancada na piscina avisa o Moscatel -” Ó pá. Não mergulhes muito fundo porque eu bati com a cabeça. Este diabo é baixo! “ O Moscatel alonga o corpo e sossega o amigo. -” Ai é? Não te preocupes que eu vou mas é de costas! “ Os dois amigos acabaram a noite no serviço de urgência do Hospital. Para rematar este texto não posso deixar de contar uma cena ocorrida recentemente e como os protagonistas estão bem vivos e activos, não mencionarei os nomes verdadeiros: Todos os dias se encontravam no mercado às compras. E todos os dias o Tavares sugeria:” Ó pá, dava-me jeito era que tu me desses uma boleia até casa.” O amigo disfarçava, fazia mais umas compras e o Tavares lá seguia caminho a pé. Uma manhã, já feitas as compras, encontraram-se fora do mercado junto aos carros ali estacionados. O Tavares insiste no pedido. O amigo, reparando que o carro mais perto (que não era o seu) tinha as portas destrancadas, finalmente aceita: “Está bem! Entra aí que eu vou só ao Bico Doce e já te levo a casa.” O Tavares ajeitou-se rapidamente no assento da frente, não fosse o amigo mudar de ideias, respirou fundo e esboçou um sorriso matreiro “ Desta vez ele não vai ter como escapar!” Oxalá o Tavares não tenha esperado toda a manhã e que o verdadeiro dono do carro tenha rido à gargalhada quando o Tavares lhe teve que explicar o que é que fazia ali sentado sem ter sido convidado para tal! O amigo, sei eu que riu com gosto e que faz rir toda a gente a quem conta esta história!

Há muito tempo atrás, numa época de turbulência marítima, um naufrágio aconteceu. 500 pessoas faleceram e os sobreviventes não resistiram ao tormento mais tarde. Uma criança sobreviveu: um rapaz de 5 anos foi parar a costa ao fim de 10 dias do sucedido. Esse rapaz apareceu nas areias limpas da praia sem uma única mácula, apenas cansado e esfomeado, mas exalando uma calma extrema. Como se nada lhe tivesse acontecido. O seu olhar era vivo e os seus braços fortes para uma criança tão pequena; o seu tronco, uma rigidez de musculação. Era um corpo estranho para tal tamanho, mas mesmo assim, a família que o

recebeu tratou-o como um igual, ignorando o silêncio total que o encerrou durante meses. Todos os dias olhava para o oceano e ali ficava horas sem se mexer. Um dia, algo aconteceu... o rapaz entrou dentro de água, nadou 10 metros e parou no meio do oceano. O mar estava calmo, nem uma pequena ondulação. Inesperadamente, uma baleia surgiu em frente ao rapaz e este apenas tocou com um dedo no meio dos olhos do grande animal. Ficaram parados, e o toque parecia interminável... até que o poderoso animal desceu pelas águas e nunca mais foi visto. A criança nadou até a areia, saiu e desde esse momento falou como se sempre o tivesse feito, e as suas costas e braços eram de uma criança de 5 anos novamente. Sobre o naufrágio, os meses seguintes e o momento da baleia, nada se ouviu...

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Finalmente concretiza-se o negócio José Costa dos Açores que se encontra a meio caminho entre a costa Leste da América e a Europa. A posição que actualmente já ocupa com a base das Lajes será reforçada e provavelmente resultarão muitos postos de trabalho, para os habitantes locais, com as valências que ali serão instaladas. O porto oceânico da Praia da Vitória será também utilizado como base naval dos Estados Unidos complementando assim a base aérea das Lajes. Como já é conhecido, há

projectos que os Estados Unidos têm para os Açores mas existem outros que abrangem quase todos os sectores da economia açoriana nomeadamente nos transportes aéreos, na cultura da vinha, na produção de leite e carne e seus derivados, no ensino, na assistência médica etc. Ainda não está marcada a data para a cedência aos Estados Unidos das belas ilhas dos Açores, mas prevê-se que durante o corrente ano estejam ultimados todos os processos burocráticos de transferências

Avenida Marginal

Quando do vinte cinco de Abril de setenta e quatro e nos anos subsequentes constou que os Estados Unidos estariam interessados em governar os Açores e, nalgumas esferas regionais, a ideia não parecia descabida. Falava-se então que uma eventual independência dos Açores estaria intimamente ligada a uma supervisão americana à semelhança do que acontece com algumas ilhas das Caraíbas, nomeadamente Porto Rico que, embora usufrua duma

O monocarril da Avenida Margarida de Bem Madruga Não quero acreditar… não posso acreditar! O que eles fazem para ganhar dinheiro!!! E à custa da gente!!! E… nem sei como o vão fazer… Quem não gosta de passear na nossa Avenida? Adoro passear na Avenida. É o sítio mais “IN” do nosso Faial. Toda a gente passeia na Avenida. Há quem faça “Jogging”. Há quem simplesmente passeie. É tão agradável passear ao luscofusco, ou até mesmo à noite, na nossa Avenida. Encontramos gente simpática que anda por ali fazendo o mesmo que nós, isto é, mantendo o corpo e a mente saudáveis. Que bem que faz. Que bem que sabe, calcorrear aquele…quê?...1, 5 km?. Acreditam que não sei quanto é do Largo do Infante até à Alagoa? Acho que não tem 2 km, pois não? Faço aquilo mais ou menos em 15m... Ah, pois é!!! Encontro sempre alguém… e importam-me mais as pessoas do que saber qual a minha média a andar. Até porque nem sei qual a distância… …mas há quem saiba. Mas há quem já tenha feito as contas! Agora, com o novo porto, vai ser preciso transportar gentes, muita e muita gente. Os táxis não dão vazão. Então, já andam para aí estudos para planificar um meio de transportar as pessoas. Pelo que ouvi dizer, dão primazia a um meio de locomoção mais viável: o monocarril. Agora pergunto, onde querem as criaturas colocar tal “viatura”? Do lado de cima da avenida não pode ser. Tem muitos atravessamentos. Só pode ser do lado do mar, mas onde? 1 – na zona de estacionamento dos carros? Meu Deus, onde pôr tanto carro que estaciona ou pára por ali? E as pessoas que gostam de ficar dentro dos carros para ver a paisagem e também quem anda por ali?

Centro Comercial Colombo - Fevereiro de 2011

autonomia desde 1952, continua a ser território dos Estados Unidos da América. Passaram muitos anos e a ideia desvaneceu-se. No entanto, e com a actual conjuntura económica de crise que grassa pelo mundo e onde Portugal ocupa neste momento um lugar de destaque como sendo um dos países à beira da bancarrota, a ideia de que os Açores poderiam ser a salvação da economia fragilizada do País, voltou à baila e obteve um parecer positivo por parte do governo de Obama. Apesar da crise também afectar os Estados Unidos, a dimensão do País e a sua política externa permite que o negócio com a eventual compra dos Açores seja apenas a concretização de um dos planos que aquele País tinha para a expansão da sua área de jurisdição, especialmente no Atlântico Norte. No Oceano Pacífico os EUA estão presentes em algumas ilhas de grande orientação estratégica, faltava, pois, no Oceano Atlântico uma posição que lhe permitisse um contacto mais próximo do Velho Mundo e nada melhor que o arquipélago

muito os Estados Unidos possuem na montanha do Pico equipamentos de previsão meteorológica pois sendo esta uma montanha que se ergue do mar até aos quase 2500 metros de altitude no meio do Atlântico, torna-se, por isso, um observatório privilegiado para as variações atmosféricas que se fazem sentir em todo o Atlântico Norte. Será necessário, segundo alguns comentadores ligados à meteorologia, melhorar os acessos à montanha o que se traduzirá a curto prazo na construção de um teleférico a ser usado especialmente pelos técnicos para transporte de material e que futuramente será também utilizado para fins turísticos. Está previsto melhorar os portos dos Açores ou construir alguns novos para que todo o arquipélago possa ser visitado pelos grandes navios de cruzeiro que, actualmente, apenas podem acostar em São Miguel. Será assim dado um passo importante para que todas as ilhas possam usufruir de um negócio emergente como o é o turismo de cruzeiro. Estes são apenas alguns dos

de serviços para a jurisdição americana. Sabe-se que algumas destas matérias são melindrosas, especialmente aquelas cujas tutelas estão sediadas em Portugal Continental, no entanto será dado aos trabalhadores a possibilidade de serem transferidos para os mesmos cargos no continente ou virem a ocupar cargos semelhantes em serviços a criar com as mesmas características. Os dividendos arrecadados por Portugal com este negócio serão suficientes para pagar toda a dívida externa e ainda ser criado um pacote de incentivos para a economia portuguesa para que a taxa de desemprego desça até ao zero e o nível de vida dos portugueses passe a ser um dos melhores da Europa. Este será um grande passo para Portugal e obviamente uma melhoria para o povo Açoriano que há dois séculos mantém um relacionamento estreito com os Estados Unidos. Sabe-se que os Açorianos emigrados nos Estados Unidos mesmo sem ir à terceira geração são mais do dobro do que os actuais residentes.

2 – na zona do passeio? E nós? Não temos direitos? Tratamnos assim? A Avenida é nossa, não há direito de no-la tirarem. Temos direitos adquiridos. É dos sítios mais belos da Horta. É o nosso passeio, é o nosso parque de diversões, é a nossa sala de visitas, é o nosso ginásio, é o nosso entretenimento. Não há direito!!! Não podemos aceitar que nos tirem este privilégio de fruir da marginal da nossa cidade. Não, pelo amor de Deus, tudo, menos isso. 3 – na lateral do passeio, na zona das árvores. Terão que arrancar todos os salgueiros? Ai é? Há quem fique contente por ter a vista p’ró Pico, mais limpa, sem obstáculos. Pois é, andam alguns a plantar de verde o nosso Faial e outros a dar cabo de tudo. Já viram? O que eles fazem, a cata de mais uns trocos. E nós aqui, sem voz activa, simplesmente desabafando… que é o que nos resta. Será?


sexta feira 01 de Abril 2011 • Avenida Marginal •

A carta

Notícias breves

Flávio Silva

e

Há cerca de dois anos passei uma temporada na biblioteca nacional a pesquisar biografias de Martinho da Boémia, essa figura incontornável que muitos faiais teimam em não dar conta do real valor. Na altura, depareime acidentalmente com uma carta que me prendeu a atenção pelo seu aspecto deteriorado, e achando-a um caso raro de burlesco na correspondência entre as ilhas e o continente, decidi partilhá-la aqui convosco. É seu autor o ilustre cirurgião Feliciano de Almeida, outrora médico do Marquês de Aguiar,

facto, tudo começou em vésperas da Quaresma quando o viúvo João Veiga decidiu trazer-me o cão à enfermaria de Xabregas. Por mais coisas que vejamos em vida, tem Nosso Senhor a capacidade de nos surpreender mais que a imaginação, nunca pensei ter de vir a dar tracto a cães. A troco da insólita terapia quis-me oferecer moios e palóios - mais amor parecia revelar ao bicho que à própria mãe -, e vendo a sua genuína aflição acabei

Ilustrado por Gonçalo Cabaça

que se auto-prescreveu a aposentar na freguesia do Capelo no início do século XVIII, por “ser muito o ar sano que aqui se respira e estar a terra feita de boas termas”. Para facilitar a leitura, adaptei a carta à ortografia dos nossos dias. Uma cópia do original pode ser encontrada na Biblioteca Pública e Arquivo Regional da Horta sobre o código C008898. Boa leitura.

“Honrado Isidoro dos Santos, muito prezado amigo Sabei que não é mentira o ditado de o povo acrescentar pontos aos contos, e por isso muito me apraz esclarecer a história que vos hei mencionado na missiva anterior. De

por lhe fazer a vontade. Só mais tarde compreendi o motivo de recorrer aos meus serviços com tamanha ansiedade. Enfim, estava debruçado sobre o bicho quando notei soltar-lhe o pus das orelhas e, somando ao fedor acre, diagnostiquei-lhe com facilidade a gangrena - as orelhas tinham mesmo de sair. Vai então, soltou-se-me o coração aos murros nas costelas, como se de repente os olhos vissem melhor o que ali estava diante de mim, e sem saber como reagir à inquietação, deixei a boca fazer o resto, “que aconteceu às orelhas da criatura?!”, perguntei. O homem

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inchou as vistas e com a mão trémula apontou à costura na base auricular do bicho, para logo se entregar à choradeira. Havia um par de anos que o animal se arrolhara surdo como a sogra, palavras suas, obrigando o homem à estafa dos dias em que passava as tardes a chamá-lo até à noite. Vai daí em desespero forçou o bagaço nas guelras do bicho (até o dar inanimado), para depois cortar-lhe as orelhas pela raíz e coser-lhe umas novas no lugar, julgando com isto dar conserto à moléstia. Quanto à origem das ditas orelhas, não me atrevi a questionar, ainda que o seu formato alongado me levasse a pensar em lebres do mato. Assim está feito o mundo em que vivemos prezado Isidoro, querem as gentes fazer de Deus nos seus trabalhos. E quando os vizinhos viram o cão sair da enfermaria sem orelhas, não se pouparam em conjurar sussurros maliciosos. Porém, em resignação resolvi guardar silêncio no assunto e não lançar mais lenha para o lume, pois se viesse o Santo Ofício a investigar o caso e tomar conhecimento da costura profana do Veiga, perseguidos que se sentem pelas bruxarias, logo o teriam penitenciado ao churrasco do auto-da-fé. Sabei que mil vezes o tornaria a salvaguardar, porquanto ao Purgatório chegarei ao lado dos fracos e indigentes - nenhuma outra doutrina me ensinou os valores divinos que nos regem a alma. No entanto, faço aproveitar aqui a oportunidade de limpar o meu nome. Agora que João Veiga já não se encontra neste reino, confio em vós esta tarefa.

Com a graça de Deus sobre os vossos me despeço.

Ilha do Faial, 23 de Abril de 1711

Vosso eterno amigo

1 que Alberto João ordenou que se constituísse, rapidamente,

uma delegação parlamentar para estudar a aplicação prática nas estradas açorianas desta lei “revolucionária e histórica”, no dizer do próprio, com vista à sua futura implementação naquele arquipélago.

II

Santa Cruz das Flores, Madalena do Pico e Velas de São Jorge deverão ser elevadas à categoria de cidades dentro de dois anos, apurou o Marginal junto de meios autárquicos bem informados que citaram fontes ligadas ao planeamento e ordenamento do território. Com efeito nos próximos dois anos o orçamento regional reservará para aquelas Vilas uma fatia suplementar substancial por forma a que os três municípios vençam, num prazo recorde, os atrasos estruturais com que se confrontam. Às novas cidades estará reservado, a fazer fé nas nossas fontes, o papel de motor para o arranque imparável destas três ilhas rumo ao desenvolvimento, por forma a que o mesmo se faça numa relação mais justa e equilibrada com o todo regional. As restantes vilas sediadas nas referidas ilhas não verão diminuídas as suas competências, garantiram-nos as mesmas fontes, adiantando, contudo, que às novas cidades exigir-se-á um empenho renovado como pólos aglutinadores de esforços e capacidades na resolução dos problemas comuns a cada uma das ilhas em que se situam. Nada será como antes, afiançaram-nos. Às novas cidades poderão estar cometidos, para além do vencer os bairrismos ancestrais que tanto tem entravado o desenvolvimento harmonioso daquelas três ilhas, um papel importantíssimo na captação de meios económicos, humanos e infra-estruturais que lhes possibilitem fazer face às questões mais graves, nomeadamente no abastecimento de água e saneamento básico, estradas e caminhos de penetração, habitação e urbanismo, qualidade de vida e preservação ambiental.

III

Todas as casas de banho dos serviços públicos, ou de empresas participadas pelo estado, vão passar a estar equipadas, dentro de três meses, com uma extensão telefónica e terminal de computador ligados à rede em permanência. Esta medida, “corajosa” no dizer dos seus pares, foi apresentada na última terça feira em conselho de ministros pelo secretário adjunto para as finanças e planeamento, Alcides Pomposo, visando contribuir para “o combate ao flagelo do absentismo” que vem minando o nosso país e que tão graves consequências vem causando à economia nacional. Cada português “desperdiça”, em média, cerca de 27 minutos diários nas diversas vezes que, ao longo da sua jornada de trabalho, se desloca à casa de banho para, “alegadamente”, ali efectuar as suas necessidades fisiológicas. Isto representa para cima de mil milhões de horas perdidas anualmente constituindo, por isso, um sério revés para a promoção da produtividade e da competitividade que o aprofundamento da crise e os tempos modernos a todos exigem. Assim a partir de Maio, quando qualquer empregado se deslocar à casa de banho avisa as respectivas chefias pelos meios informáticos, que registarão a hora da ausência do seu posto de trabalho. A partir desse momento passa a estar contactável no terminal alternativo montado nas instalações sanitárias podendo, enquanto ali permanecer, continuar a despachar, recebendo e enviando emails, estudando as últimas directivas emanadas das respectivas direcções comerciais ou, e isto se a permanência na casa de banho se prolongar por mais de meia hora, fazer todo o tipo de contactos telefónicos que se revelem úteis para o cumprimento dos objectivos e ao adequado funcionamento dos serviços e bom desempenho do grupo de trabalho. Como medida suplementar a implementar num futuro próximo Pomposo prevê ainda apresentar, em próxima reunião do Conselho, uma adenda a este projecto de lei onde estará previsto colocar uma “espécie” de pulseira electrónica nos quadros superiores das empresas sempre que estes aleguem ter de sair para “visitar clientes” ou ir a uma “reunião inadiável”, por forma a poder reconstituir, se necessário, os seus movimentos e para que não aconteça, como inúmeras vezes tem vindo a ser detectado, que essas saídas sirvam apenas para levar a mulher às compras ou o cão ao veterinário.

Feliciano de Almeida” O Marginal


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O nome de Colombo e a sua origem Farinha do mesmo saco como em seu testamento deixou escrito. Esse Colombreiro era muito apegado a sua mulher, e por isso teve tantos filhos dela que o Infante, como em outra parte deste livro tenho dito já, o comparou a um colombreiro, ou cogombreiro, que é o pepineiro, tão abundante a produzir pepinos como a mulher dele a parir filhos por via do muito amor que ambos se tinham. Ora sendo muito pobre o Colombreiro, mais por causa da alargada geração do que pela culpa das curtas posses, bem difícil lhe foi arranjar ofício para os filhos e casamento para as filhas. Uma destas, de nome Ana, acompanhou a Santa Maria um seu irmão cujo nome não alcancei saber, mancebo de ânimo valente que veio servir como bombardeiro naquela ilha, que então se tinha como terra de abundância, o que o foi enquanto os homens não gastaram a força dela para evitar a fraqueza do corpo que, quando bem não come, assim fica. E foi por uma fraqueza própria da natureza humana, que se manifesta muito forte quando a tentação surge e que o próprio Cristo por isso mesmo bem soube desculpar, conforme nos conta São João a respeito da mulher de Samaria e da adúltera de Jerusalém, que Frei Gonçalo das Pias se enamorou da dita Ana, e não se sabe se ela dele também, pois pode ser o caso que mais pela necessidade do corpo que pelos desejos dele se tivesse a moça deixado cair na mesma tentação que a Frei Gonçalo subverteu, pois não tinha ela meios para bem sobreviver dependendo só dos rendimentos do irmão. Desse

amor ou paixão carnal nasceu um menino, a que foi dado o nome de Cristóvão Colombreiro Cabral, supondo-se que não lhe ficou o de Velho para que nisso não fosse mais claramente visto de quem era filho além de o ser da dita Ana, para evitar vexames a Frei Gonçalo das Pias, que sempre fora muito honesto e honrado no cumprimento dos seus votos de cavaleiro de Cristo, pelo que a Ana que amou teve de suportar sozinha o peso daquele filho como se nascido das ervas houvesse sido, que tal e tão grande é a expiação que as mulheres sofrem por ter sido a primeira delas que pôs o pecado no Mundo. Para evitar escândalos a que ninguém poderia opor-se, Frei Gonçalo mandou de regresso ao Reino Ana, o seu dito irmão e o filho Cristóvão, tendo-os muito recomendado a Dom Henrique para que lhes valesse o mais que pudesse, mas o grande Infante nada pôde valer, pois um navio de corsários fez a todos os que iam na mesma viagem prisioneiros, por alturas do Cabo de São Vicente, indo vender a Génova as pessoas e o mais que além destas haviam roubado. Ana ficou por ama do seu próprio filho e dos outros do comprador de ambos, e foi por isso que havendo o menino crescido sempre ouvindo falar de Portugal, das suas ilhas e da sua beleza e abundância, quando se achou com força de homem veio para o Reino e de lá para a Madeira, onde negociou no açúcar dela. Ora este Cristóvão, para não muito se cansar a escrever o nome de Colombreiro, por ser comprido, não escrevia mais que Colomb.º, o que veio a cuidarse que era Colombo, e assim ficou para sempre como se o fosse. Depois de se ter mudado para Castela, onde viveu vários anos antes de se julgar capaz de ser marinheiro como os que em Portugal conhecera ou que soubera que existiam, deu em assinar o seu nome de maneira ainda mais modesta, que era Colom., o que fez com que entre aquelas gentes ficasse conhecido por Colón, pois que os castelhanos não usam como nós a letra m no fim das palavras, e para não dizerem Cólon têm de se valer do acento que na nossa língua não faz falta.

José Borges Há “poucos” anos atrás, fiz 30 primaveras. Confesso que não gostei. Achei que era uma grande quantidade de anos. Porque, quando eu tinha 12 verões , achava que uma pessoa de 30 invernos já era bastante antiga. Há poucos dias, dei por mim a fazer 50 da colecção outono/inverno (mas ainda pareço ter 49, é o que me vale). Fiquei a pensar que, afinal, quando tinha 30 era bastante mais novo (uma grande descoberta, como vêem). Onde é que eu sinto o outono a passar? É nos dentes. Os da parte de trás, mais por baixo do que por cima, começaram a falhar, há muito tempo. Há dias, deu-me vontade de comer favas torradas. Não consegui, aquilo é mais chupar do que trincar. A secção capilar também já começou a falhar há muitos anos. Cada vez menos cabelo e os que sobram estão todos a mudar-se para a cor branca. Em contrapartida, os pelos das sobrancelhas crescem mais do que antes e os do peito também. Enfim, coisas da vida. Dizem que a pessoa mais velha fica mais aborrecida. Tenho-me esforçado para não concordar com isso, mas começo a dar o braço a torcer. Avenida Marginal

1 os jogos de cartas, mandou arder uma casa de Lisboa em que habitualmente se jogava, e com todos os jogadores lá dentro, de que consta nem um ter sido salvo. Foi esse aventureiro um tal Cristóvão Colombo, que alguns têm por grande marinheiro e outros por mau navegador, e isto o dizem porque como marinheiro se arriscava a trabalhosos mares e como navegador não sabia onde estava nem aonde ia, pois foi o caso de que achando-se numas ilhas da América cuidava ter chegado a Cipango. Mas, se alguns julgam por grande erro de Dom João não o haver aceitado como navegador ao seu serviço, lembremos que a Terra já então fora partida em duas partes no Tratado das Alcáçovas, cabendo a Portugal ficar com a Madeira, as ilhas de Cabo Verde e estas dos Açores, e tudo o que se descobrisse a sul das Canárias, sendo que o quinhão de Castela eram as ilhas ou terra firme que houvesse no resto do mar oceano. E tanto assim era que, por serem abaixo das Canárias as ilhas a que Colombo aportou, Dom João as reclamou para Portugal, sendo a contenda resolvida com o muito sábio tratado feito em Tordesilhas. Desse Cristóvão Colombo, que é tido por genovês, afirmam pessoas de muita idade mas de são juízo ter ele nascido em Santa Maria, e ser filho natural de Frei Gonçalo das Pias e de uma Ana filha do Colombreiro, homem honrado e amigo do Infante Dom Henrique, que Deus haja, e por quem todos os vigários de Portugal celebram, e celebrarão missa até ao fim dos tempos,

e

E dizer que aqui também já se fez tanta farinha

Sempre fui um apaixonado pela comunicação social e pela actividade política. Agora, quando vejo a malta da política na televisão, vou a correr atrás do comando para mudar de canal. Deve ser da idade. Porque acho que dizem todos a mesma coisa, só sabem falar mal dos outros e nada de propostas decentes para mudar o que está mal. Muito pessimismo, muito bota-abaixo e isto contagia o nosso cérebro (pelo menos quem ainda tem cérebro, pequeno ou grande). Estas pessoas não gostam de Portugal, como dizem. Gostam, em primeiro lugar, delas mesmas, de aparecer na televisão, de ter cargos, de ganhar um bom vencimento. Em segundo lugar, arranjam uns tachos para os respectivos amigos dos partidos, para os que lhes lambem as botas, os que não protestam, os que têm algumas influências e algum poder (na comunicação social e noutros sectores) e nome de família (infelizmente isso ainda é um passaporte para entrar em certos sítios). Durante todos estes anos, vi muitos tachos, muitos assessores nos governos de Cavaco, Guterres, Barroso, Santana, Sócrates. Saem dos cargos do Estado e vão para empresas públicas ganhar ainda mais (uma espécie de asilo dourado). As câmaras municipais, as empresas municipais também estão cheias de assessores, directores, chefes e chefinhos (e vemos esse sistema com todos os partidos que estão nas câmaras). Vejo todos os departamentos do Estado, dos governos e das câmaras gastarem rios de dinheiro em propaganda, obras desnecessárias e subsídios descontrolados. Por isso, aborreceme quando vêm para a televisão gritar que os outros é que cometem esses pecados. Enquanto o Estado, as câmaras e os governos regionais esbanjarem tanto dinheiro, Portugal vai andar sempre com as calças na mão. Se calhar, sou eu que estou a ficar com pouca visão… coisas da idade.


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As malaguetas doces Terra Garcia

Vovó Chica morreu aos noventa. Bonita idade! Baixinha, quase redonda, puxava as mangas da blusa preta, deixando à mostra uns pulsos largos como tirantes e cobria as pernas com meias grossas, de lã miscra, quer de inverno quer de verão. Bem rijas devem ter sido as pernas de vovó Chica, habituadas a calcorrear campos e caminhos velhos, a subir e a descer maroiços, a percorrer veredas no chão escabroso das vinhas e dos matos, a saltar de pedra em pedra pelas costas da Preguiça, do Cais de Mourato, do Poço Velho… Ia à cata de lapas e patinha, na época própria, como qualquer mulher do seu tempo e da sua condição. E sabia dos buracos das moreias mais do que muitos homens deste e doutros tempos. Enchia cestos daquelas serpentes do mar que ela, destemidamente, engodava e apanhava com o grande anzol preso a um cordel. E que boas eram, depois de assadas no forno grande da cozinha! Melhor dizendo, seriam boas que, a falar verdade, nunca cheguei a provar dessas víboras marinhas, negras ou pintadas, mortas por mãos de vovó. Ao certo mesmo, a única vez que comi daquele peixe na velha casa do Cabeço-Chão, foi meu pai a pescá-lo na Costa Alta, seguindo fielmente a maternal destreza da arte de manejar o moreeiro. Mas dessa vez, se não me engano, comi apenas uma espinha do meio bem sequinha e deliciosa. Aliás, em casa de vovó tudo sabia bem melhor. Minha mãe é que parecia não apreciar a declarada preferência. Outro tanto, porém, confessavam meus primos. Verdade se diga também: são poucas e vagas as minhas lembranças de vovó Chica. Nem outra coisa poderia ser, que vovó abandonou este vale de lágrimas antes ainda do meu ingresso na Primária. Mas guardo bem viva, no retrato da memória, a sua figura, larga e portentosa, subindo o balcão de trás com duas salgadeiras de almagre, uma em cada mão. Foi isso pouco antes da morte vir buscá-la, era ela ainda a imagem viva da força e do trabalho. Numa manhã fresca de Primavera, despontara já um sol envergonhado e vovó Chica, madrugadora habitual, não compareceu na cozinha como de costume. Titia, vinda do quintal aonde fora tratar da cabra de leite e apanhar umas

couves tenras para o jantar do meio-dia, estranhou a ausência materna e o silêncio da casa. Passando ao quarto de dentro, encontrou vovó deitada de costas na cama de ferro: o terço de contas grandes, castanhas, bem seguro nos dedos grossos da mão direita, os olhos fixos nas traves encardidas do tecto… Que não se sentia bem, explicou. Dores não tinha, mas invadia-a um certo mal-estar acompanhado de tonturas nunca dantes experimentadas. Tão surpreendente foi aquela indisposição, para quem nunca manifestara o mais ligeiro sintoma de doença ao longo de noventa anos de vida, que vovó ficou, a partir daquele dia, pegada ao leito onde acabaria por dar o último suspiro. Alguém relacionou o facto com a recente morte do filho mais velho, meu tio Manuel, sepultado três ou quatro dias antes. Atendendo à idade e ao resguardo caseiro, a família decidira ocultar de vovó o fatal e inesperado acontecimento que a todos trouxera profunda consternação. Para justificar o uso da roupa preta entretanto adoptada pelos outros dois moradores de casa, tio José e titia dos Anjos, inventou-se uma carta vinda da América, correctamente envelopada e selada, anunciando a morte dum parente idoso emigrado há um ror de anos. Com isso parecia conformar-se a ingénua curiosidade de vovó. Foi a Maria Alferes, vizinha defronte, que apareceu pela casa adentro com a missiva endereçada em sobrescrito listado de azul e vermelho. Explicou com toda a naturalidade que, tendo ido ao botequim, às Bandeiras, passara por casa do Chamarrita quando se procedia ao anúncio da correspondência acabada de chegar no carro da mala. Entrara para ver o que havia e a Mariazinha pediralhe que trouxesse a carta para entregar à Maria dos Anjos. Titia leu ou fez que leu, em voz alta, na presença de vovó que, antecipadamente informada da origem da carta cujo remetente trazia o familiar nome de John Dias, irmão mais velho do tio José, não mostrou grande interesse pelas novidades. Só no momento em que foi cuidadosamente encenado o anúncio da suposta morte, distanciada no espaço e no tempo, é que vovó, revelando um pouco mais que indiferença, encomendou a meia voz: - Que Deus ponha a sua alminha em bom lugar. E, depois de brevíssima pausa, prosseguiu: -Foi uma esmola do Céu. Há tantos anos preso na cama, a sofrer e a fazer sofrer… E lá na Amerca não é c’m’ aqui, falta tempo para tudo. Ficou-se por ali a fé professa de vovó naquela morte anunciada e estrategicamente antecipada. De resto, segundo anteriores informações lidas em cartas verdadeiras, seria também, de há muito,

naturalmente esperada. Satisfeita com o desempenho da sua missão, titia pouco mais acrescentou. Levantou-se, cabisbaixa, caminhando na direcção da porta, aliviada e segura do sucesso daquela farsa. À saída foi informando: - Vou à Fajã dizer a José… Sossegaram as consciências. Sobre a morte do tio Manuel, nem palavra nem gesto denunciador. O convénio ultrapassara mesmo a roda familiar e firmara-se para além dos vizinhos da porta, não acontecesse aparecer alguém menos prevenido. Mas aquele jeito diferente, aquele estranho desapego de vovó!?... A certeza, porém, de que ninguém se descuidara na mais leve revelação da dolorosa ocorrência. Afinal coração de mãe tem dessas coisas, coisas de sentimento e de pressentimento. Nisso concordavam quase todas as mulheres das redondezas que, nos insondáveis mistérios da psicologia empírica, admitiam a causa de tão singular moléstia. Certo é que chamado a casa o Dr. Mendonça, experiente médico da vila, conhecedor de todo o tipo de doenças por mera auscultação, não lhe encontrou nada que fisicamente merecesse cuidado. Foi de pouca dura a enfermidade de vovó. Mas, durante esse espaço de tempo, passei a visitá-la com assídua regularidade. Aos domingos ia sempre com meu pai, depois da missa do dia, e por lá ficávamos a tarde toda. Normalmente não usávamos a estrada. Para encurtar caminho, metíamos pela Vereda do Pio até à Canada da Cruz. Passávamos ao lado do cabeço do Cura, por atalhos pedregosos e irregulares que levavam meu pai a carregar-me às cavalitas, até chegarmos à Rua de Cima. Saíamos numa canadinha estreita quase apontada à casa de vovó. Era aí que meu pai, antes de transpor o último portal, tirava do pescoço a gravata preta, única ostentação de luto que assinalava o recente passamento de meu tio. Dobrava-a cuidadosamente e guardava-a na algibeira funda do casaco, lembrando o aviso de que eu vinha já mais do que reavisado: sobre a morte do tio Manuel, nem uma só palavra. Abeirávamo-nos da cama onde vovó nos esperava com o ar mais saudável do mundo e, mesmo antes de receber o beijo rotineiro e de nos deitar a costumada bênção, atirava logo a pergunta certeira: - Soubeste de Manuel, hoje? E meu pai: - Pois soube. Venho agora de lá. Ele já ‘tá quase bom. - Mas não me vem ver… - Há-de vir, minha mãe, logo que possa. Ele ainda ‘tá um bocado fraco e não tem saído de casa por causa do frio. Foi uma gripe muito forte – fazia meu pai por esclarecer. E só então: - Deite-me, minha mãe, a sua bênção. Calado, eu presenciava tudo com a

minha inocência atormentada por não entender a razão que levava meu pai a mentir à própria mãe. Aliás, mentiam todos: meus tios, titia dos Anjos, as primas das Casas… E isso não estava de acordo com os meus princípios nem com os ensinamentos que, afinal, de todos eles recebera. Foi numa dessas tardes de domingo, quando já se adivinhava que o recolhimento de vovó seria fatal, não que a sua fisionomia revelasse sofrimento ou demência mas por causa do enorme fastio que dela se apoderara. Nesse dia, meu tio Serafim, que também havia de morrer ao fim de poucos anos, chegara antes de nós e sentara-se do outro lado da cama, junto ao frontal de madeira. Vovó não terminara ainda a longa e respeitável fórmula: Deus te abençoe, meu anjo, te guarde e te crie, te conduza por bons caminhos e te faça um santo e eu pusera já os olhos num embrulho semiaberto que se encontrava em cima da velha mesinha de cabeceira. Desprendia-se do pacotinho um aroma insinuante, frutado, quase mágico e de tal modo intenso que enchia de conforto e doçura aquela câmara exígua e me levava a esquecer o prenúncio de morte envolvente. Tocado de infantil curiosidade, cheguei-me ao embrulhinho mal fechado e reparei que o seu conteúdo era composto de rebuçados vermelhos, tão agradáveis à vista quanto ao olfacto. Pouco dado a guloseimas, como quase todos os garotos desse tempo, aquela doce visão fez-me crescer água na boca. E já vovó ia a dizer tira lá… quando meu tio Serafim, fazendo pirraça com um ar tão sério e natural que a minha ingenuidade infantil não permitia interpretar correctamente, atalhou, enganador e autoritário: - Não toques aí, rapaz. Olha que isso são malaguetas. Suspendi o gesto. Foi bem a tempo, pensei. E fiquei-me pela doçura inquietante do aroma activo que durou a tarde inteira, enquanto ali permaneci numa luta interior de desconforto e ansiedade. Ia o sol em acentuado declínio quando o tio Serafim se pôs de pé. Meu pai logo se ergueu também, dizendo que saíamos todos juntos pois, indo pela estrada, seriamos companheiros de viagem durante grande parte do percurso. Feitas as despedidas, atravessámos a casa até à sala de fora e meu tio, que seguiu na frente, abria já a porta da rua quando se ouviu vovó chamar pelo meu nome. Que fosse lá dentro. Ia meu pai a repreender-me: - Então não deste um beijinho à avó? - Dei, sim… E logo a voz da santa velhinha: - Deixa-o, José. Eu é que preciso de falar com ele. Voltei atrás, cheguei-me à beira da cama e vovó passou-me o pacote dos rebuçados vermelhos que cheiravam a


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A Santa Pagodeira numa cidade em que o seu futuro é sempre o “conveniente” passado

N: Este texto é como que um aperitivo servido aos leitores e amigos para anunciar o próximo livro de contos que o autor prepara. Como qualquer rascunho, está sujeito a possíveis alterações futuras. Agradeço críticas e comentários.

Carlos Lobão Na ilha do Faial, à semelhança do que se passava a nível nacional, também os partidos do rotativismo monárquico eram constituídos por “partidos de notáveis”, o que levou Rodrigo Guerra a escrever nas suas Actualidades: “Que felicidade não pensar na razão porque um médico que não se mete na política é prejudicial à política”. Certamente que não deixa de aludir, entre outros, aos médicos Manuel Francisco de Medeiros, que, em 1879, se torna no chefe local do Partido Progressista; e António Emílio Severino de Avelar, que ocuparia igual cargo, em 1895, mas à frente do Partido Regenerador. Para o autor supra, falar de rotativismo político era o mesmo que falar de um “jogo de duas crianças – duas adoráveis crianças de cabelos de oiro e olhos azuis – que se entretenham a deitar as mesmas cartas horas a fio sobre a mesa, discutindo e ralhando na doce e poética imaginação de que estão jogando”. A título de exemplo, o milho fundamental para a subsistência local, não

espirituosa ao iluminar as figuras num fundo de verdade, reage sobre a banalidade, isto é, sobre a comédia eleitoral, plena de ódios, interesses e vaidades. Em luta dois figurões: o regedor, “um homem de talento” – António André do Val – e o juiz de paz – o Vargas – na opinião do adversário “um farsante”. Pela leitura, basta o seguinte para vermos o relevo dos figurões.

deixaria de “entrar na política”, isto é, e citando Guerra: “És regenerador! És progressista! Como tal entras nas eleições; vences e perdes”. Naturalmente que os “notáveis”, com a sua rede de influências e alicerçados nos seus caciques espalhados pelas diferentes freguesias da ilha, estavam mais interessados em “autopreservar no restrito círculo do poder uma também restrita elite de notabilidades”, como chama a atenção, sobre o assunto, José Miguel Sardica. Em rigor, esta realidade ficava bem patente quando se chegava à hora da comédia eleitoral. Assim, para Manuel Zerbone “como esta boa e honrada gente é explorada! E quando chega a altura de poderem mostrar que são livres, os senhores da cidade impõem-lhes uma lista, sob a ameaça dos despedirem das terras que trazem de renda, se não votarem nela”. Mais sintomático será a leitura de A Eleição, em que o autor, Manuel Garcia Monteiro, através da sua poesia

Passado o dia da eleição, o dia do combate, António Val ao chegar a casa, depois da derrota, ao ver a mulher invocar Santo António em quem ele tanto confiava. Então:

“Ele [o regedor] era homem de fé e usava o seu rosário. Mas em tempo de luta, em tempo de eleições, Que fossem bugiar os santos e o vigário... Não obstante, rezava as suas orações. [...] Mas António do Val pagava com mãos largas; Deixar-se-ia despir para vencer o Vargas, Batê-lo, derrotá-lo, expô-lo num suplício. O Vargas era rato, hábil adversário. De olhinho vivo, a rir, amigo da sua trica, Demais juiz de paz e grande proprietário. E estava p’ra casar com uma carcassa rica”.

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delícias do Céu. - Leva, são para ti. Guarda-os. Quis recusar: - Mas são malaguetas vovó. - Não são nada, leva-os. Teu tio é que diz aquelas coisas… Saí a correr, cheio de gratidão e de felicidade interior que fazia por não deixar transparecer enquanto segurava na mão, alegre e triunfante, o precioso volumezinho. Meti-o por dentro do casaco antes de apanhar meu pai e o tio, já no caminho, em marcha de regresso a casa. Olhei-os com um ar de vitória solitária que eles de certeza não perceberam. Iam absortos numa conversa, sem interesse, acerca de planos de trabalho conjunto para as terras de cocos da Ladeira do Gaipo. Seguro de mim, fiz então por me tranquilizar mentalmente e, no meu íntimo, pensei: ainda bem que ninguém pergunta o que me queria vovó. Eram duma doçura indescritível aqueles rebuçados coloridos! Poupei-os, fazendo-os durar na boca o mais que podia. Saboreei-os durante dias de prazer, procurando conciliar aquele sabor mágico e profundo com todas as fantasias permitidas a uma criança mal vivida, num tempo e num lugar sem história. No dia em que vovó morreu, restavame um último rebuçado na algibeira da samarra escura que minha mãe conseguira arranjar para a ocasião. Sentio rolar entre os dedos mas não me apeteceu comê-lo na altura. Nem o havia de comer nunca mais. À saída do funeral saltei pelas traseiras e corri até ao fundo do quintal. Sentei-me numa pedra lisa debaixo da figueira grande, abri o invólucro transparente com o rebuçado a desfazerse em melaço e coloquei-o no chão de terra seca. As formigas acorreram, gulosas, como se acabassem de nascer do próprio chão. E o rebuçado, rapidamente feito presa desse formigueiro cada vez mais denso e volumoso, transformou-se numa amora grande e madura, quase tão grande como uma maçã. Sem mais doçura e sem aroma, vi colorir-se de luto o derradeiro escarlate do meu inocente desejo. Por entre a névoa das lágrimas fiquei olhando, esquecido do tempo e do mundo, a bola negra e devoradora que, à minha frente, se avolumava ainda mais. Naquele amontoado de seres vivos e irrequietos julguei adivinhar o brilho cavo dos olhos de vovó e ouvir a sua voz enrouquecida a repetir-me com terna doçura: leva, são para ti. Foi a primeira vez que chorei a morte dum ente querido. E nunca mais saboreei rebuçados tão doces como os de vovó Chica.

Ele pulou, rugindo a praga mais medonha, Correu ao oratório esmurraçou-lhe a porta, Alucinado, cego, a arfar, de olhos em brasa, E agarrando o santinho e indo atirá-lo à horta, Berrou: Não quero mais este maldito em casa”.

Se assim era, naturalmente que caia para segundo plano a defesa lógica dos melhoramentos necessários para o bem estar local, isto é, os conteúdos programáticos não passariam de uma boa prática de intenções, porque e socorrendo-nos novamente de Rodrigo Guerra: “Foram-se as eleições. É como quem diz: passou o ciclone, porque aquelas criam ódios, esterilizam actividades, entravam melhoramentos, esbandalham tudo o que visa a um bom fim, para só vigorar, clara e nítida, a pequenina questão de interesse pessoal.

[...]. As revoluções nascem, muitas vezes das leviandades, das fraquezas morais dos dirigentes políticos!” Por isso, na ilha do Faial, tinha-se plena consciência de que as causas de todos os males que infestavam tanto o País como as ilhas estavam no ministério que dirigia a máquina eleitoral e nos partidos. Estes em vez de um “combate” com a justificação da defesa de causas preocupavam-se mais com vinganças mesquinhas, porque há medida que as eleições iam passando acentuava-se nas localidades uma espécie de definhamento moral, porque o “ influente eleitoral contrai para com os eleitores, compromissos que vão sacrificar o andamento regular das administrações locais, e entravar, por sua vez, o governo, que se vê obrigado a atender aquele seu amigo, alargando portanto, a despesa pública”. Finalmente, na ilha do Faial este definhamento causado tanto pelas eleições como pelo luta eleitoral, seria acompanhado, sobretudo, a partir de 1880, pela existência de um jornalismo político que assumiu, por vezes, um tom agressivo, violento, “malhando em tudo e em todos”, porque passaram da fase do envio de “cartas particulares do chefe de um partido ao chefe do outro”, para a fase em que o “nosso jornalismo partidário, pelo facto de ser político, compreendeu erradamente que se devia abster de espalhar ideias úteis, discutir assuntos de interesse local, alvitrar melhoramentos, pugnar por eles, para somente advogar questínculas tão particulares, tão individuais, que, fica-se indeciso, se ele quer representar a seriedade de uma política ou a risada cómica de uma politiquice”. [Deste modo,] o Porto da Horta [semanário fundado em em 1902] procura amarrar na doca o partido regenerador; o Século XX [semanário, 1901] tenta ammarrar também o partido progressista; o velho Faialense [semanário, 1857] esfalfa-se em não amarrar nem desamarrar qualquer dos partidos...” Depois do exposto, concluímos que a ilha do Faial, mais do que uma pedra de lava rodeada de mar por todos os lados, seria, e politicamente falando, uma porção de terra rodeada de políticos ou de títulos por todo o lado, o que levou Guerra a pedir de forma jocosa que o século XX “nos traga vida menos proveitosa e mais descuidada, que o último quartel do que vai passar, bastante árduo nos tem sido na santa Pagodeira e na santa Inutilidade!...” Leitor amigo, será que o nosso pobre presente, nesta terra da “coisa rara” e da “comida apanhada”, não se assemelha, mas para pior, daquilo que aqui, sem qualquer maldade, escrevemos?


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Ainda a teoria da evolução... Maria José Alemão Joseph von Fritz, um grande cientista da nossa era (que me perdoem todos os outros), segue fielmente as pisadas de Darwin com a sua teoria revolucionária da evolução das espécies. Com algumas pequenas (grandes) diferenças, saliente-se. É que, enquanto Darwin andou no seu Beagle a estudar as espécies que se lhe deparavam, fossem elas animais ou vegetais, Fritz analisa especificamente a evolução da espécie… Humana! Hummm… E será que muito haverá que analisar? Parece que sim, senão vejamos: Fritz afirma peremptoriamente que todos os órgãos que actualmente não utilizamos tendem a encolher gradualmente, desaparecendo no espaço de algumas décadas; ora esta parte preocupa-me, nomeadamente porque há muitos órgãos do corpo humano que, pelo andar da carroça, tendem, efectivamente, a desaparecer… A sustentação de Fritz para esta teoria baseia-se na observação directa do processo de evolução de um ovo de galinha, o que muito o surpreendeu há 17 anos atrás… “Na verdade, afirma Fritz, o embrião do pinto apresenta um bico com saliências muito evidentes, o que me pareceu estranho e me fez iniciar uma investigação profunda nesta matéria. Uma vez observadas à lupa, numa primeira fase, as saliências no bico assemelham-se às sombras da formação de dentes em forma de serra. Esta evidência tão concreta do recorte dos dentes no embrião pode, por exemplo, corresponder no ser humano à cauda que os embriões apresentam no início do seu desenvolvimento fetal, e que é comum a muitos seres vivos, incluindo os anfíbios, mas que depois, no momento do nascimento, já não se manifestam…” “Mas, prossegue Fritz, a boa notícia é que as espécies vão evoluindo no sentido de perderem alguns órgãos e respectivas funcionalidades, mas aparentemente mantêm em estado inactivo os genes responsáveis por esses mesmos órgãos/funcionalidades”. O que basicamente quer dizer que, no momento em que as galinhas precisem de voltar a usar os seus dentes, ou nós precisemos de usar a nossa “cauda”, o gene respectivo poderá ser (re)activado! Não é fantástico? Pois… E quanto a nós, as notícias não poderiam ser mais animadoras: • As fêmeas da espécie humana (vulgo mulheres) estão a aumentar a produção de testosterona, por comparação com os níveis de testosterona produzida pelas nossas antepassadas de há duas décadas atrás; • Os machos da espécie humana estão, pelo contrário, a diminuir a sua produção de testosterona, comparativamente com os níveis produzidos pelos nossos antepassados machos;

• As mulheres da nossa era estão a reduzir as dimensões de alguns atributos que as caracterizavam: os seios estão a diminuir consideravelmente e os níveis da hormona oxitocina (a chamada “hormona do amor”, tão útil para “prender” afectivamente a mãe ao seu bebé recémnascido, incentivando o desejo de cuidar e tratar) estão a reduzir-se dramaticamente, a par da redução do nível de estrogénios, de progesterona e de prolactina; • Talvez a título de compensação, porque a Natureza é sábia e não nos iria retirar atributos a troco de nada, estamos gradualmente a aumentar a nossa

planeta. Adivinhem lá qual? Pois é… Ainda segundo Fritz, que denodadamente tem estudado os bebés humanos e seu desenvolvimento até cerca dos dois anos, a probabilidade de sobrevivência de bebés prematuros do sexo masculino é 95% inferior à sobrevivência de bebés prematuros do sexo feminino quando em total igualdade de circunstâncias. Do mesmo modo, e se observarmos estatisticamente o número de sobreviventes seniores de ambos os sexos, sem dúvida que poderemos concluir que os seniores do sexo feminino são em muito maior número. O que, por outras palavras, significa que, em igualdade de

Colectiva de banda desenhada - Centro Cultural de Belém, Fevereiro 2011

estatura (possivelmente por efeito do aumento dos nossos níveis de testosterona), bem como a diminuir a percentagem de gordura corporal, tão útil para enfrentar os períodos de gravidez e aleitação de todas as fêmeas mamíferas; • Os homens estão, por sua vez, a reduzir a dimensão dos seus atributos físicos (leia-se musculatura em geral!), ao mesmo tempo que, paradoxalmente, vai aumentando a sua percentagem de gordura corporal (o que, convenhamos, para quem nunca vai engravidar, não parece ser assim muito útil!). A acumulação de gordura abdominal contribui imenso para esse efeito; • As mulheres estão a adquirir características tendencialmente mais “masculinas”, tornando-se mais agressivas, competitivas, fortes e musculadas; Segundo Fritz, a espécie humana está condenada a desaparecer tal como hoje a conhecemos, prevendo-se que uma mudança absolutamente radical se venha a impor: • Dada a aparente aproximação entre ambos os géneros (notável masculinização do género feminino e evidente efeminação do género masculino) e ainda porque a teoria da evolução pressupõe igualmente a sobrevivência dos mais fortes, diz Fritz que um dos géneros tende a desaparecer definitivamente da face do nosso

circunstâncias, tanto os bebés como os seniores do sexo feminino possuem maior resistência a situações adversas, denunciando maiores probabilidades de sobrevivência e, portanto, de assegurarem a continuidade da espécie. Perante tais condicionantes, explica Fritz, “a Humanidade passará pela consolidação de um só género (o feminino!), o qual passará também por um processo de evolução potenciador dos caracteres actualmente mais dominantes em ambos os sexos, conduzindo progressivamente ao definhar, e consequente desaparecimento, do género masculino”. Mas Fritz acrescenta que “irá nascer uma Super-Mulher, de constituição cromossómica XXY (cariotipo), com notáveis características andróginas, aportadas pelo cromossoma Y, muito mais forte e adaptada do que as (ainda) actuais fêmeas humanas, portadora da capacidade de se autoreproduzir por um processo interno semelhante à clonagem (uma vez que transportará dentro de si gâmetas femininos e masculinos em simultâneo, ou seja, óvulos e espermatozóides). Mas, aponta Fritz, “as questões relacionadas com a afectividade continuarão a fazer parte do quotidiano do ser humano, constituindo a

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base da sua longa sobrevivência enquanto espécie. Questões relativas à protecção dos menores, transmissão de conhecimentos necessários à evolução da espécie, organização e estrutura familiar, por exemplo, passarão a ser semelhantes às que hoje já se verificam em famílias homossexuais.” “Tais processos tenderão a ser mais justos, equitativos e equilibrados, porque baseados na plena afectividade e desejo de partilha, em que todas as partes são consideradas igualmente importantes e representativas na estrutura familiar”, refere Fritz, “por contraste com as actuais famílias disfuncionais que sobrecarregam notavelmente um género, maioritariamente o feminino, com a responsabilidade de provisão de afecto, nutrição, organização e coesão da estrutura familiar, numa clara desresponsabilização do género nãodominante (o masculino). Tal organização tem obviamente favorecido a evolução da espécie humana, pelo que nem tudo foi mau”, refere ainda Joseph von Fritz, tendo-nos tornado naturalmente competentes. Mas tal favorecimento recaiu essencialmente sobre o género feminino, que obviamente adquiriu competências extraordinárias e tem vindo a evoluir de forma absolutamente divergente do esperado. Ou seja, se há um sexo forte, esse é evidentemente o feminino, e quanto a isso nada poderemos fazer…” conclui Fritz, acrescentando que “o cromossoma Y que hoje faz parte do cariotipo masculino (XY) no fundo não passa de um X ‘coxo’, que terá obviamente os dias contados…” E agora, Fritz? Achas bonito o futuro que nos apresentas? Hem? Já não bastava ficarmos enormes, fortes, com a voz grossa, provavelmente com muito mais pêlos no corpo do que na cabeça, sem podermos amamentar os nossos bebés, provavelmente a pôr ovos ou algo parecido, ainda tinhas de nos tirar o pouco prazer que nos restava? Que é como quem diz, o sexo? Tu não explicaste muito bem essa parte, e acho mesmo que foi de propósito para não nos deixares ainda mais de rastos do que a crise em que vivemos, mas eu acho que o futuro não se nos apresenta muito simpático… A ter bebés por clonagem? Como é que será isso? Vamos ser todos iguais? E vamos viver assim a pares, por assim dizer, de “iguais”? Que grande confusão! E que raio de equilíbrio poderá haver numa sociedade em que todos são iguais? E como é que fica o Yin e o Yang, e os opostos que se atraem e os iguais que se repelem, etc? Tu tens mesmo a certeza do que estás a dizer? A nossa esperança residirá provavelmente numa qualquer mutação bem sucedida que venhamos a desenvolver, e que possa voltar a restituir-nos o equilíbrio. Porque afinal todas as evoluções têm um sentido: o de equilibrar a vida neste Planeta Azul, também ele em evolução.


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• sexta feira 01 de Abril 2011

Não pude deixar de notar... Frederico Cardigos Esta manhã, ao ler o jornal, não pude deixar de notar a notícia que enchia a primeira página. Em letras bem grandes “MAIS UM OBJECTIVO ATINGIDO!”. Desde que se iniciou a mobilização colectiva, tendente a recuperar o país, todos os objectivos foram sendo, um a um, atingidos. Apesar deste ser apenas mais um, era particularmente importante. Em letras mais pequenas, “partidos com assento parlamentar conseguiram passar a barreira dos 100 dias sem se ofender mutuamente”. Vendo em retrospectiva, a declaração de “Mil objectivos para Mil dias”, que pareceu “infantil e demagógica” para a ala intelectual, está-se a revelar eficiente. Como todos sabemos, foi pedido a duas mil entidades de relevo que postulassem dois mil objectivos, simples, aplicáveis e mensuráveis. Desde líderes religiosos, cientistas, economistas, sociólogos, psicólogos, políticos, desportistas ou elites sociais, todas as linhas de pensamento relevantes foram tidas em conta e postularam o que lhes parecia importante. Depois de eliminadas as repetições, as

primeira, curiosamente, tenho de vos relembrar, foi a Sra. D. Esperança Sempre Firme, que ajudou a cumprir o objectivo de aumento de literacia, ao propor que as televisões deixassem de trabalhar um dia por semana. Este objectivo, implementado como previsto ao 16º dia do “Mil – Mil”, resultou num aumento consistente de 10% na frequência das bibliotecas públicas ao 60º dia. Entre as medidas que particularmente mais gosto, encontro a avaliação de juízes. A avaliação é feita pelo “número de processos com recurso sem provimento em tribunal superior” e tem-se revelado muitíssimo eficiente. Finalmente, os processos começaram a ser desbloqueados e estão a ter cuidadoso seguimento. Na hierarquização dos juízes, feita e publicada diariamente, vemos uma benigna “luta” particularmente interessante entre o Dr. Juiz Quem Espera Sempre Alcança e a Dra. Juiz Alice no País das Maravilhas. Ambos são já considerados autênticos heróis nacionais, indo na próxima semana o Presidente da República

Colectiva de banda desenhada - Centro Cultural de Belém, Fevereiro 2011

incoerências ou os objectivos que saíssem fora do simples, aplicável e mensurável, o “Conselho dos Dez” entregou ao Governo os objectivos e este ficou incumbido de os cumprir escrupulosamente. Na minha opinião, de certa forma, desde há cem dias que temos um Governo de gestão. Até ao dia 333, continuar-se-á a não saber com toda a certeza quem pertenceu ao “Conselho dos Dez”. Aleatoriamente, de um lote de cem personalidades com destaque social e capacidade intelectual, foram escolhidos 5 homens e 5 mulheres. Este grupo trabalhou os mil objectivos durante 100 dias, fazendo o que parece ser um trabalho absolutamente exemplar. Caso até ao dia 300, todos os objectivos continuem a revelar-se eficientes, os dez serão também agraciados como Cavaleiros de Portugal, grau Platina. Este título, determinado explicitamente para festejar os que mais contribuem para os “Mil – Mil”, já elevou inúmeros cidadãos para os patamares da ribalta social. A

atribuir-lhe as insígnias de Cavaleiros de Portugal, grau Bronze. Graças ao Dr. Até Mais Não Poder Rir, psicólogo com diversos livros publicados, um dos princípios que nortearam o trabalho do “Conselho dos Dez”, para além dos princípios universais como a Igualdade, Solidariedade, Precaução, etc. foi também incluído o Princípio do Humor. Ou seja, as metas, quando possível ou aconselhável, deveriam reflectir jovialidade e optimismo. Foi assim que o Objectivo de todas as publicações (jornais, revistas, etc.) incluírem uma página de humor foi proposta para o dia 33. Embora isso possa ser um reflexo natural do próprio conceito “Mil – Mil”, as depressões psiquiátricas reduziram-se em 27% ao final do dia 80 e o Dr. Rir será nomeado Cavaleiro de Portugal, grau Prata, no dia 303, se a redução se mantiver acima dos 20% até ao dia 250 ou, “mesmo grau Ouro”, como disse o Presidente da República, “se todos os outros, dos cinco

objectivos relacionados com o Humor, também tiverem cumprido as metas até ao dia 220”. A ver… Mas… O objectivo que mais me agrada é o “Aperfeiçoar com o Erro” e inclui, a revisão de cada mandato de todos os dirigentes de nível 1 e 2 associados a decisões duvidosas, apurando com toda a exactidão as razões que levaram à tomada destas resoluções. Entre estas resoluções, interessam-me particularmente as declarações de greves em momentos delicados da falta de produtividade nacional, a aquisição de certo material militar e a injecção de capitais públicos em unidades bancárias falidas. Pode haver justificação e as decisões, hoje consideradas como visivelmente discutíveis, poderiam ser as melhores à luz do conhecimento e contexto da época. No entanto, têm de ficar esclarecidas e têm de ser encontrados métodos para que não se repitam. Esta medida entrará em execução apenas no dia 437, dada a necessidade de preparar toda a documentação, e será verificada a sua conclusão no dia 934. Lembram-se?! A primeira medida foi de facílima implementação e decorreu por sugestão da Sra. Isto Está Tudo Errado. Propôs a Sra. Errado que fossem, no dia 1 do “Mil – Mil”, despedidos 1/3 dos deputados eleitos por cada círculo nacional. Como se esperava, não houve qualquer anomalia no funcionamento da Assembleia da República, considerando-se o Objectivo “cumprido com sucesso” logo no dia 34. No dia 101 será aplicada a mesma metodologia nas assembleias regionais. A Sra. Errado, escolhida para o grupo dos “Dois Mil” pela reflexão crítica, pessimista e deprimente que fazia no seu Blog “O Erradíssimo Erro que não teve Errata”, propôs ainda as medidas de revisão da eficiência do “Mil – Mil” que serão feitas a todos os 200 dias. Por sua decisão, a Sra. Errado não será agraciada como Cavaleira de Portugal. Ela considera essa uma péssima medida, com a qual está contra. Aliás, ela votou contra as suas próprias medidas por considerar que, apesar de “providas de horripilante horribilidade”, eram demasiado correctas dentro de um “mar de rotas erradas”, como lhe chamou. Curiosamente, hoje, passados os primeiros cem dias de aplicação do “MilMil” procurei por todo o jornal as outrora gratuitas e irresponsáveis ofensas entre partidos. Li e reli. Nada. Aparentemente, os partidos entenderam que não o podem fazer. Devem apontar fraquezas, mas sempre com dignidade, dando alternativas e sendo solidários com a decisão. Verdade? Mentira? Quando quiser, o futuro o dirá...

Pensamentos para o mês de Abril Triângulo: Três pequenas ilhas separadas por dois estreitos canais. Discutiam sobretudo a pressão dos dedos sobre a confluência dos seios. Os barcos movendo-se, vagarosos, na embocadura dos estuários… As pessoas do Pico são mais morenas que as pessoas das outras ilhas. Explicam-no a crispação dos dedos no calhau na apanha das lapas e da erva patinha. Ou, em desespero, talvez as longas permanências sobre um cais desnudo e exposto, na espera da próxima lancha rumo ao... Hospital da Horta.

Museu das marionetas - Santos, Lisboa

Aconselhados pelos pais alugaram uma cabana sobranceira ao mar e rodeada de penhascos. Foram 29 dias e 29 noites de autêntica e vertiginosa loucura. Nem lhes sobrava tempo para se alimentarem convenientemente. Ao vigésimo nono dia telefonaram às respectivas famílias dando-lhes conta do seu regresso iminente. Foi durante a viagem de comboio que Carlos tomou a consciência clara de que passara 29 dias e 29 noites com uma desconhecida e que jamais se casaria com aquela mulher. Absorta nos seus pensamentos e alheia à paisagem bonita que começara a desenrolar-se para lá das vidraças Márcia sorriu-lhe e recostou a cabeça no seu ombro preparandose para dormir. A Primavera é uma estação excelente para compreender, em plenitude, a fauna e a flora dos mares açorianos e o ciclo menstrual das baleias de bossas. A Primavera é a melhor época do ano para estudar esse rio imenso que nasce no golfo do México, e que nos banha, e que até nós, ano após ano, encaminha as águas vivas, as velas brancas e os corpos mais trigueiros e tatuados do planeta.


sexta feira 01 de Abril 2011 • Avenida Marginal •

Cagarrices João Fraga Talvez porque os machos piam fininho e as fêmeas, que falam grosso, sejam mais caseiras e quando se escapam é para se dedicarem, de estômago e coração, à pesca do alto, só havia cagarras. E o ano da cagarra principiava nos fins do Inverno, quando elas começavam a ser ouvidas, ou avistadas, ali para as bandas de Porto Pim. A seguir, as funções do Francisco Picadilho na pesca do corrico passavam a ter duas vertentes: matar o peixe à borda ou tratar e libertar as cagarras apanhadas, à traição, pelo anzol tríplice do gigo (ou amostra). Salazaristas, ou não como depois se verificou, todos aqueles pescadores eram ecologistas. Note-se que, então, não sabiam sofrer dessa fraqueza, já que era um termo não usado, desconhecido e, pra falar como deve de ser e prontes! Nã se fala mais nisse e a gente ficam todes amigos. Mas voltando ao Francisco, estou a vê-lo embrulhado em linhas e uma cagarra que se debatia quase na agonia, bico, asas e unhas, e ele a pensar: Eu dava-te mas era uma porrada nessa cabeça e ias fazer companhia aos peixes pró fundo do barco. Mas não, a ordem era fazer os curativos e deitá-la barda fora para ir à sua vida. Depois acontecia o Verão e as férias no Pico onde as cagarras continuavam presentes. Havia as cagarras que se metiam, à noite, terra adentro como loucas. Muito impressionante para nós, marroquinos criados na doca e no Porto Pim e a sua paisagem protegida, até quando o fedor da fábrica da baleia nos fazia perder o apetite, eram as cagarras crucificadas em canas e que encontrávamos nas vinhas solitárias. Eram sacrificadas de cabeça para baixo, não sei se por medo religioso dos carrascos ou se era mesmo para aproveitar o óleo que lhes escorria pelo bico. Depois, os mais ágeis e afoitos iam até à Ponta Gorda apanhar cagarras no ninho que depois eram…não digo. Aquilo era de homem, afrontar os bicos das cagarras encurraladas nos seus buracos. Ia-se rapaz e voltava-se um Homem ou um… medricas. Em Outubro começavam a

O próximo Presidente 1 Governo Regional. Uma instabilidade destas deitaria tudo a perder. Estas coisas fazem-se com a devida antecedência para não dar o flanco ao inimigo, de forma a que o poder continue a ser nosso. Além disso César obviamente tem a intenção de continuar como líder do partido que é uma forma de ter o poder na mão. E depois de muito matutar neste problema surgiulhe uma luz ao fundo do túnel. O futuro Presidente do Governo Regional seria Fernando Meneses, um nome em que ninguém havia de pôr o dedo em cima e ao mesmo tempo da inteira confiança de César. Um único senão era o facto de não ser de S. Miguel, mas Contente também não é e Meneses é bastante mais alto, tem uma figura que facilmente se impõe. O ideal para enfrentar Berta, a quem a oposição há muito quer abrir a porta. E se bem o pensou melhor o fez. Pela caladinha, combinou tudo previamente com Meneses, de forma a dar publicamente aquela impressão com que de facto todos nós ficámos, afastando assim de Meneses qualquer suspeição sobre este melindroso assunto. É por isso que Meneses obviamente se presta ao papel de ofendido, sabendo que em 2012 o seu lugarzinho de Presidente do Governo Regional está garantido, e roubando

e cair nos quintais e pelas ruas. - Cuidado que elas bicam!!!!! E depois… logo se via. Depois vinha o auge do ano da cagarra: o Natal. Época em que delicadas flores, feitas com finas e alvas penas de cagarra, saíam do escuro dos oratórios para enfeitarem, não o quarto do meu bem, mas os altarinhos do Menino. Estas flores chegavam da ilha que tem o nome do santo que matou o dragão, isto já está num papel que até já esqueci que era meu e não faz mal plagiar, pelas mãos dos mestres dos iates do Pico. À medida que fui “enverdecendo” aprendi outras coisas. Os pescadores da Madeira faziam papas de cagarra, também servia para engodo ou para alimentar a isca, chegava-

Angústias e a campainha da missa da manhã a me acordar do meu sono infantil, sempre vivi angustiado. E deitei-me à procura das cagarras e descobri que ainda andavam pela Madeira, Cabo Verde e Brasil, fazendo parte das toponímias cabo-verdiana e brasileira. Sobre o voo dos criôlinha, nha cretcheu paira o livro da Maria de Lourdes Chantre com o guisado de cagarra à Avó Aninha. O mesmo aconteceu com um livro açoriano, mas como as cagarras já não voam por aqui… Bem bom que o Álvaro Garrido, quando traduziu o Alan Villiers, até conhecia as cagarras. Dos mais antigos que me lembre, já o Raul Brandão falou de cagarros e cagarras, não sei se por iluminação se por

Porto Pim, 11 de Setembro de 1968

se aos cardumes de atum guiados pelos bandos de cagarra ou pelo bicho. Transformei-me num salvador marginal de cagarras. Primeiro do meu quintal, depois da minha rua e, com o tempo e a fama, do meu bairro. Para além deste monopólio, exerci esta actividade em regime de freelancer até na doca e outras zonas do burgo. Marginal, não renumerado, daí sem recibo verde, poderia estar a exercêla, mesmo sendo pensionista ou reformado ou lá o que quiserem, se não tivesse havido um programa para a extinção das cagarras que teve apoio científico e foi alvo de cobertura pela parte dos media. De repente deixou de haver cagarras e apenas sobreviveram os cagarros. E aqui surgiu a dúvida, avassaladora, angustiante que tomou conta de mim. E logo eu que, talvez, por ter nascido quase no canto sudoeste da igreja da

premonição. Quanto a mim, estou para aqui parado, olho para as minhas caixas-ambulância já sem préstimo e a última, preparada como deve ser, ainda é da marca epson, tão antiga que já não há tinteiros linha branca para impressora que aí morou. O problema talvez seja cultural, mas é que, na minha ignorância, cagarro era o habitante de Sta. Maria porque adorava (adora?) petiscar cagarras. Assim, quando vêm bater-me à porta gritando que um cagarro acaba de cair, eu digo que não estou em casa. Uma cagarra ainda aguento, agora um mariense, mesmo atordoado pela queda e ofuscado pelas luzes da cidade ou de um carro noctívago, é que NÃO. Nota: Qualquer utilização do acordo ortográfico é pura coincidência ignorante.

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assim a Madruga da Costa o desiderato de ser o único açoriano que já foi Presidente da Assembleia Regional e Presidente do Governo Regional. Vai agora fazendo uma travessia no deserto para inglês ver – se bem que nenhum inglês seria capaz de ver uma coisa destas – e já começa, como quem não quer a coisa, a dar umas saltadas a São Miguel onde tem sido visto a passar algumas vezes a pé em frente aos portões do palácio de Sant’Ana, tendo até dito a alguém que o reconheceu que ia ali mais à frente ao Parque Atlântico comprar um par de meias no centro comercial. Mas é óbvio que ele anda já a mostrar-se pelas ruas de Ponta Delgada para ir habituando os micaelenses à sua presença. Esta teoria continua com uma lacuna, que é o facto de ninguém ter ouvido a conversa entre César e Meneses, ao que parece por ambos terem utilizado para o efeito telemóveis novos, fugindo habilmente às escutas. Mas crê-se que a informação é de fonte segura e de resto, segundo alguns analistas, a forma como tudo tem vindo a acontecer, a começar pela teatralidade da tumultuosa saída de Fernando Meneses da presidência da Assembleia Regional, encaixa perfeitamente.

Nota de... encerramento O jornal Avenida Marginal chegou ao fim. Com efeito, o gratuito faialense cumpre aqui o seu derradeiro acto: após dez edições de excelentes e bem humoradas colaborações, esta aventura chega finalmente ao seu termo. Desde que surgiu até este número, foram mais de duzentas páginas cheias de belíssimos textos e ilustrações que fizeram do Avenida Marginal um caso de sucesso nunca antes visto por estas bandas e que vem merecendo, há já algum tempo, o estudo de algumas das mais reputadas Universidades mundiais. Não foi tarefa fácil. Por três vezes fomos obrigados a levantar o rabo da cama às seis da matina para ultimar a paginação do Marginal. Não, não foi tarefa fácil. No entanto nesta hora de despedidas resta-nos expressar a todos, colaboradores e anunciantes, o nosso público e sentido obrigado. A Ilha ou o mundo ficarão mais pobres com o desaparecimento de mais este título da imprensa regional? Estamos em crer que não. Continuem a ler o Marginal no Blog do costume (» http://jornalavenidamarginal.blogspot.com «) e guardem bem todas as edições em papel porque, tal como diziamos no número zero de 4 de Julho de 2008, “poderá ter, daqui por algumas décadas, como peça de arquivo e colecionismo, um valor verdadeiramente incalculável”. Heitor H. Silva


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Amanhã não será a véspera desse dia ? !!! Fernanda Trancoso

Adiaspora.com ( IX Aniversário ) Ruben Rodrigues

Na minha aldeia a vida decorre com a normalidade possível animada, em determinadas épocas, por discussões acesas entre Matasétix, Astérix , Obelix e outros motivadas pelos três grandes clubes de futebol locais que disputam entre si a liderança do campeonato, mas prontamente são apaziguadas pelo nosso velho, valente e respeitado chefe da aldeia e dos guerreiros, Matasétix. Este, apesar da sensatez e ponderação dignas de um verdadeiro líder, só tem um receio - que o céu lhe caia em cima da cabeça. Um dia, há longo tempo atrás, algo de insólito aconteceu - sobre a aldeia pairou uma enorme esfera metálica (carroça, segundo Panoramix) que parecia querer esmagar-nos e que provocou na população um fenómeno de paralisação. Afinal era uma nave espacial e dela saiu um ser minúsculo, dizendo-se oriundo de um lugar distante onde, segundo ele, todos seriam dotados de uma inteligência bem superior à nossa e onde se “fabricariam” seres em série cientificamente mais evoluídos mas com uma parti-

lharam numa contida indiferença, viram reduzidas as suas regalias em termos sociais e salariais, viram congeladas as progressões nas respectivas carreiras, a desmotivação generalizou-se nas empresas, nas escolas, nos serviços, enfim o caos. A classe docente, conduzida por Lurdix e depois por Alçix, sofreu os mesmos reveses e eu, Matematix, professora de profissão e de coração, vi-me igualmente presa a leis absurdas e de nefastas consequências, atolada num mar de inútil burocracia sem tempo e energia para exercer com dinamismo e vontade as minhas funções de educadora. Matasétix , Astérix (um velho guerreiro muito respeitado por todos, a quem tinha sido confiada a nobre missão de defender a aldeia e que dispunha de uma força sobre-humana , devida à tal poção mágica), Obelix (carregador de profissão e sempre pronto para enfrentar dificuldades) ficaram mais tarde a saber que os tais entes vinham com uma missão – confiscar as receitas das poções mágicas que, segundo lhes tinha constado, constituíam

cularidade – eram desprovidos de sentimentos, verdadeiros robots, designados por superclones. E da nave surgiram os tais superclones, de boa aparência mas todos iguais, um exército verdadeiramente incaracterístico que rapidamente invadiu a aldeia e nos transformou também em autómatos. Bem, todos foram afectados excepto Matasétix, Astérix , Obelix e Panoramix graças a este último , o velho druida da aldeia que prepara “poções mágicas”, conferindo a quem as toma, uma força sobrenatural. E assim os habitantes mergu-

armas fatais. Gerou-se então uma rebelião tremenda, mas depois de muitas peripécias lá conseguimos impedir que nos confiscassem as receitas porque todos os habitantes da aldeia tiveram acesso à poção mágica e em conjunto com o chefe e os guerreiros conseguimos expulsar os superclones invasores. Matasétix respirava de alívio, durante algum tempo ele temeu que o seu único pesadelo – o céu cair-lhe em cima da cabeça – se tornasse realidade. Munidos de poderes tão especiais como a força da razão,

eu e os meus colegas de profissão conseguimos, felizmente, que as leis fossem alteradas, nomeadamente o Estatuto da Carreira Docente – revisão da progressão na carreira em termos de níveis e escalões, dignificação da carreira docente, sistema de avaliação justo, horários de trabalho mais adequados e ajustados a correctas revisões curriculares, esquemas de apoios mais eficazes para alunos com dificuldades, Estatuto do Aluno por forma a clarificar os seus deveres e direitos, responsabilizando-os em muitos aspectos e simultaneamente os respectivos Pais e Encarregados de Educação nomeadamente no que concerne ao Regime de Faltas, etc … A satisfação é visível, a motivação é uma constante com um efeito multiplicador na actividade docente e, como consequência, os jovens passaram a adoptar uma postura correcta de respeito pelos seus professores e de responsabilidade através de trabalho, assiduidade e gosto pelo saber. Acordei deliciada e relaxada na minha cabana da aldeia, pronta para mais um dia de trabalho. Olho em volta e penso que o terror de Matasétix se apoderou de mim, tento fugir mas rapidamente constato que tudo não tinha passado de um sonho, em que eu me cruzo com as maravilhosas personagens das últimas aventuras de Astérix e com outras inventadas e todas elas emaranhadas na teia da ficção e da triste realidade, como se realmente continuasse a viver todos estes problemas por dentro. Apesar de desvinculada da escola, o elo permanece e pergunto-me - Será mesmo que o único receio de Matasétix está prestes a acontecer ? Mas, como uma réstia de esperança, por pequena que seja, é algo que nos alenta, faço minha a máxima que Matasétix costuma utilizar na tal história - amanhã não será a véspera desse dia. Nota: ao reflectir sobre a temática geral proposta, decidi reformular um artigo por mim publicado, com o mesmo título, no Jornal “Arauto” da ESMA em Maio de 2006, por me parecer adequado àquela.

Provindos dos etéreos ares confluíram para a”Vila Baleeira” dos Açores, em busca das raízes que consubstanciam a Açorianidade, alcandorada em “imagem de marca” por um dos expoentes da literatura nacional, o terceirense Vitorino Nemésio, alguns daqueles que, por terras de emigração, continuam arreigados ao espírito da “Alma Lusa”. “Alma Lusa”que se expande vivificante pelos quatro cantos do orbe, na primeira afirmação de globalidade que a gesta dos “Descobrimentos de 500” deu ao Mundo. Quem já teve a oportunidade de viajar por alguns dos “cantos” do hemisfério, sabe, pelo contacto mantido, e pela pujança demonstrada pelos nossos irmãos emigrantes, que os valores da raça, as capacidades de trabalho e de adaptação aos mais diferentes ambientes, constituem e apresentam-se como mais-valias que se afirmam não como anátemas, mas como símbolos dum povo ilhéu, que nunca vira a cara ao trabalho e às mais díspares adversidades, conquistando, por isso, lugares de destaque e de admiração nas comunidades de acolhimento. Ter-se espraiado pelas nossas costas de negritude e de marés de maresia, sob o olhar dominador da límpida e bela Montanha do Pico, foi edificante obra dos nossos irmãos, através desse portal Adiáspora.com que se constitui numa brilhante e fulgurante iniciativa de José Ferreira, radicado por essa Toronto de dinâmicas, e de um escol de empenhados colaboradores em cuja alma fervilha, qual vulcânico magma, o amor às raízes, e a saudade que o tempo esmaga e que só o retornar físico, ou através das novas tecnologias, como é o caso em apreço, consegue minimizar. Foram dois dias de desfiar de vivências, de recordar de caminhadas mais ou menos doridas, de busca de veredas de aproximação, de intercâmbio com outras diásporas, como foi o caso de Cabo Verde, trazido a colação pelo presidente da Câmara da ilha do Sal, Dr. Jorge Eduardo ST. Aubyn de Figueiredo, registando, em comparação com a vivência da nossa Região, a pujança intelectual de uma mão cheia de escritores, poetas, músicos que, impregnados dessa típica nostalgia

ilhoa e pela lusofonia, no panorama geral dos seus países marcam um evidente padrão de cultura, alargado também, pela presença de irmãos brasileiros a confirmarem as potencialidades dessa “Alma Lusa”, mote do encontro. Paulo Luis Ávila, um migrante que fez da pena e da máquina fotográfica misteres de aproximação das gentes, também através do dinâmico espaço que é o Adiaspora.com, já falecido, foi alvo de homenagem pelos seus companheiros de jornada e pelo município lajense. De igual modo, foi também prestada, pela voz autorizada do Director do Museu do Pico, dr. Manuel Costa, também filho de lobo do mar, o reconhecimento da gesta baleeira, desde a subtileza da construção das canoas, obras primas da construção naval, ao estoicismo, à bravura e à temeridade que os baleeiros, na busca do aprovisionamento familiar, imprimiam à aturada faina. Pela nona vez, Adiaspora.com fez-se ao largo, enfunou as velas da sua barca de nostalgia e, ancorando na embocadura do “Caneiro”, desta Vila das Lajes, derreteu, no caldeiro da emoção, as saudades dum povo que presente ou ausente por essas lonjuras do Mundo, continua a afirmar a sua lusitanidade. Durante a sua intervenção, José Ilídio Ferreira afirmou: -”Para além do afecto que nutro pessoalmente pela ilha do Pico, de entre os demais critérios considerados aquando da escolha desta para celebrar esta efeméride, afigurou-se o facto das gentes do Pico nutrirem visível pendor para as actividades culturais. A celebração do IX Aniversário permitiu trazer a debate e conhecimentos dos picoenses assuntos de interesse comum ao vasto tablado luso. Pela pluralidade das temáticas aqui apresentadas, este nosso convívio veio a confirmar que “esta estranha forma de ser”, esta nossa unicidade enquanto povo de fala portuguesa, continua a pautar o caminhar da Diáspora Lusa no Mundo.” Parabéns a José Ferreira e a todos quantos dão vida a este grito sentido da alma dum povo ilhéu que encontrou no mar e nas estradas da emigração o subterfúgio para fugir às agruras de uma vida por vezes dolorosa.


sexta feira 01 de Abril 2011 • Avenida Marginal •

Salmo desfiado na ilha Só o mar conhece todos os segredos. É ele que abraça a ilha de incertezas ignoradas distâncias novos medos. No aconchego da ilha sempre aparecem do tempo que passou horas vividas no porvir dos sonhos que apetecem. Aí se desce ao silêncio mais profundo como se no precipício das fajãs morasse apenas o eco das palavras. De amor se reveste o brilho das manhãs o espanto se queima no fogo do poente a vida se revela crua e transparente.

“No fio das palavras” de Artur Goulart José Francisco Costa Meu caríssimo amigo Quase escrevia “poeta” em vez de “amigo”. Mas a sua preciosa oferta veio de um Amigo com um Poeta lá dentro. E fiquei contente. E agradecido. Muito grato, mesmo. E fui espairecendo os olhos pelo “fio das [suas] palavras”. Como se fora quilha em mar meu também, chão salpicado de verbo em trânsito de insularidade. E percebi os tempos vários que lhe provocaram a escrita. Tempestades amorosas. Amores nunca intempestivos. Manhãs ilhoas de céu de cinza. Tardes dolorosas em angras de solidão. Memórias presentes no ciciar de versos modelados em palavras certas. Avenida Marginal

Tantos já partiram outros se aprestam e aguardamos – para quê as malas?! – neste longo cais de despedidas. Artur Goulart, No Fio das Palavras

Sereia Submersa A bela Atlante espraiada sobre os sentidos Repousa no oceano ao ritmo da sensatez milenar Acomodando-se lenta, lenta, lentamente No seu leito de algas, cagarras, deleite e mar Sobre o peito de pétrea e negra deusa jazente Tatuado pranto, a lamúria, o canto De marujo, de corso, de vida e gente, De barca, nau, canoa, caravela, De Quimera concebida no amplo e fértil ventre Do fogo, do Zefir, e da terra incandescente Dos Açores – parcela de esguio flanco da sereia desnudada, Remanescente nos mares tempestivos do paradoxo existencial – Ergue-se o Pico, atrevido e desafiante aos céus e Olimpo Seio negro de basalto, de mamilo erecto e hirto Jorrando estrelas de mar no leite derramante Sobre as rudes encostas, os homens e o vinho Encrustado na terra, nas correntes e no vento, Com a salga e Nevoeiro sepulcral Galopantes sobre o Canal osculando a derme Da deusa-sereia Revirando, revirando, se revirando… Compassando em seu cuidado desfraldar, O alagado e azul canto das baleias, Prenúncio da ínfima passagem dos Tempos, E chegada do Divino no radiante éden insular

in “O homem que outrora dormia com as sereias”, de Adelina Pereira, livro apresentado na Vila das Lajes do Pico no decorrer dos trabalhos de Adiaspora.com, Novembro de 2010

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Marina da Horta

Apreciei a tonalidade ambiental de religiosidade lírica que impregna muitos poemas. Estou a pensar em “Anunciação” (22), escrito nos meados dos anos 50; e aquele “Flor da manhã” (62), cujo último verso nos catapulta para fora dos limites históricos, em perfeita metáfora da nossa humana eternidade: “[...]canto que nasce do fundo/da vida! [...] /e avança/na esteira dos garajaus a descoberta/do caminho marítimo da esperança”. O seu livro é uma carta de esperança – o que se torna mais evidente a partir da sua “Decisão” (61). Este pequeno poema, de enorme significado interior, evoca , em eco consciente, os “silos” silenciosos, e úberes de mensagem, de outro açoriano, o poeta Eduíno de Jesus. Com efeito, os dois primeiros versos revelam o que, para si, é o fundamento da poesia. Ela é, sobretudo, um reflexo do que as palavras valem no íntimo de cada pessoa. Elas são o sinal de toda a esperança: Aproveitemos as palavras e o silêncio. Sigamos este rasto Marcado na esperança do caminho.

[...] (61) Após a minha leitura, fica-me a convicção de que este seu trabalho segue, verso a verso, a peugada dos nossos grandes mestres da poética insular – basta recordar Vitorino Nemésio – que souberam imbuir muita da sua melhor poesia de uma tonalidade telúrica e genuinamente popular. Por exemplo, a métrica simples, em cadência ondeante, da sua “Súplica”(87) revela a facilidade com que absorveu a nossa comovente, profunda e simples maneira de nos apegarmos a “deus e a santamaria” enquanto navegamos no mar da vida. Parafraseando Álamo de Oliveira, esta sua prece, é um dos exemplares que merece ser rezado em cantiga cujo refrão teria que ser a última estância: “Em terra bem me procuro/só me conheço no mar.” Fiquei impressionado pela simplicidade que empresta aos seus versos. Simplicidade que, no caso, é cúmplice da sabedoria, aquela que consegue ler o que existe nos “olhos dos peixes”(35). Pelas páginas deste seu livro repassa muita ternura, amorosa e compadecida, como se pode ver naquela releitura e escrita de carta , em Março de 1977 (67), e também no belíssimo exemplar que é o poema “Elegia” (89) O livro é modelar no que respeita ao diálogo permanente entre o “eu” poético e os dois tópicos da nossa insularidade. Aproximando-me do que diz o Olegário no prefácio, muitos dos poemas são perfeitas sinestesias de mar e terra, de que resulta um verdadeiro sabor a ilha. E é assim que o mar é esse nosso “brinquedo imenso”(48) que, sabemos bem, nos deixa, por um lado, o “sabor amargo e húmido das ilhas”(52), mas, por outro, nos dá a capacidade de escrever que “O amor é um barco / que eu fiz para ti.” (52) E, se dúvidas houvesse sobre a realidade da interiorização consciente do ser ilhéu, elas desfazem-se com a leitura do seu antológico poema de terra e mar, continente e ilha, “Carta com post-scriptum”, dedicado ao seu bisavô. Termino estas notas com uma referência ao se poema “Ilha”, da página 85, que considero um repto a mim próprio, leitor ilhéu também. Diz que “Na minha ilha não há praias”. Eu sei. E mesmo que houvesse “praias” na ilha, como as há na minha, elas não passam de arremedos de atlântidas para sempre encantadas. Não passam de mitos de areia. Sim, porque entre a “ilha e o mar / não há rodeios.” (86) Eles são rainha e “imperador” sempre na esperança de uma coroação abençoada por um “Divino” de terra, sal e céu. Embora com os limites de leitor inseguro neste seu livro de ilha e mar, ficou-me, acredite, “ o gosto gostoso das palavras” que me ofereceu. Obrigado

Título: Avenida Marginal Periodicidade: Trimestral Director: Heitor H. Silva Editor e Proprietário: Heitor H. Silva Tiragem desta edição: 1100 ex. E-mail: avenida.marginal@sapo.pt Morada para correspondência: Apartado 81, 9901-909 Horta Codex Impressão: Gráfica “O Telégrapho”, Rua Cons. Medeiros, 30, 9900-144 Horta Registo ERC 125447 de 04 - 06 - 2008 (NIF 161921051)

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16 • Avenida Marginal • sexta feira 01 de Abril 2011

Estou farto de ser apalpado! Victor Rui Dores

Por cada check in que faço nos aeroportos preciso de um check up… E quando, nos pontos de rastreio, sou revistado, sinto um incómodo, um constrangimento, um insulto, uma violação à minha privacidade.

-Importa-se que faça a revista? – pergunta-me, com fingida amabilidade, o zeloso funcionário com as manápulas prontas a percorrerem o meu corpo dos pés aos ombros. -E se eu disser que não?... – pergunto eu, com tristeza irónica, o que deixa o agente de segurança algo perplexo e

estonteado. Resignado, abro os braços, afasto as pernas e, submisso, submeto-me à inspecção, com a angústia e o desassossego com que, na escola primária, era obrigado a tomar óleo de fígado de bacalhau… Aliás, nos aeroportos não tenho convicções, tenho impressões. E o que se apossa de mim é a kafkiana sensação de que me querem deter por um crime que não cometi… Entendamo-nos. Nada tenho contra as novas medidas de segurança nos aeroportos nem contra os polícias ou civis que estão ali a fazer o seu trabalho. Mas tenho direito aos meus escrúpulos. Defendo, com unhas e dentes, a inviolabilidade do meu corpo! Pergunto: em nome da segurança, será mesmo justificável que eu tenha que passar pela humilhação de tirar os sapatos e de ser apalpado daquela maneira? Trata-se de uma actuação preventiva, dizemme. Está bem, mas a verdade é que são muito ténues os limites entre a actuação preventiva e a violação do meu espaço territorial. É que não posso abdicar da minha reserva de intimidade. E nem sequer estou aqui a falar das inspecções íntimas decorrentes da recente instalação, em 70 aeroportos dos Estados Unidos da América e em vários da Europa, de scanners corporais que revelam o corpo do passageiro sem roupa… Se isto não é

uma nova forma de pornografia, eu vou ali e venho já… Ser operador de raio X nos aeroportos de todo o mundo vai passar a ser emprego com futuro… A segurança, caros leitores, tem que rimar com bom senso. E depois acontecem, nos aeroportos, coisas absolutamente surrealistas. Por exemplo: na minha bagagem de mão eu não posso levar um desodorizante líquido, mas, se quiser, já terei autorização de transportar comigo garrafas de vinho ou de whisky desde que compradas nas lojas localizadas após o controlo de segurança… Isto faz algum sentido? Os terroristas do 11 de Setembro, munidos de simples estiletes, dominaram

quatro aviões de passageiros e usaramnos como bombas voadoras. Ora, quem é que me garante que um maluco qualquer, uma vez dentro do avião, não parta uma das referidas garrafas e, com os cacos da mesma, não cause ameaças e ferimentos mortais junto do(s) pescoço(s) do(s) piloto(s), cumprindo, assim, um atentado terrorista? Um destes dias, avancei com esta tese junto de responsável superior de uma companhia aérea. Sabem a resposta que dele obtive? -O senhor é um miserabilista. Miserabilista, eu? Não senhor, estou é farto de ser apalpado…

Avenida Marginal nº 9  

Jornal cultural faialense gratuito.

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