Page 1


Mundo Novo A expansão dos horizontes pela astronomia Augusto Xavier ***** SMASHWORDS EDITION PUBLISHED BY: Augusto Xavier on Smashwords Copyright © 2011 Augusto Xavier *****


Smashwords Edition License Notes This ebook is licensed for your personal enjoyment only. This ebook may not be re-sold or given away to other people. If you would like to share this book with another person, please purchase an additional copy for each person you share it with. If you're reading this book and did not purchase it, or it was not purchased for your use only, then you should return to Smashwords.com and purchase your own copy. Thank you for respecting the author's work. Licenciamento da edição Smashwords Este livro é licenciado para sua leitura somente. Este ebook não pode ser revendido ou passado adiante para outras pessoas. Se quiser compartilhar o livro, por favor, adquira nova cópia para cada pessoa. Se você está lendo esse livro e não o comprou, acesse Smashwords.com e adquira sua cópia. Agradecemos por seu respeito ao trabalho do autor.


Dedico este livro a todas as pessoas que desejam um mundo melhor, de verdade, sem as fantasias das quais se utilizam os malintencionados. Aos grandes homens que mudaram o mundo, especialmente Giordano Bruno, Galileu Galilei, Charles Darwin, Albert Einstein, Carl Sagan e ao corajoso Richard Dawkins.


Meus agradecimentos a minha mãe pelo apoio, educação e carinho, a minha esposa Renata Piovesana e ao meu filho Guto.


Sumário Introdução 1- Pedras no caminho 2- O Universo 3- Um certo Charles Darwin 4- A origem 5- Sol, a energia da vida 6- A evolução da fé 7- O homem que veio do céu 8- O mensageiro dos deuses 9- As pirâmides 10- Albert Einstein, o gênio da luz 11- Os pioneiros: Ptolomeu, Tycho Brahe, Johannes Kepler e Nicolau Copérnico 12- Galileu Galilei: a revelação 13- A modéstia de Isaac Newton 14- Edwin Hubble: assim na Terra como no Céu 15- Carl Sagan, o mensageiro do Cosmos 16- O mapa das estrelas Epílogo: O ateísmo moderno


Ciência

não passa

de

uma

palavra

do latim

para

“conhecimento”. E é difícil para mim, acreditar que alguém possa ser contra o conhecimento. Carl Sagan


O Sistema Solar: o rei Sol cercado por seus súditos, Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno até a órbita de Plutão. Destes, o único que reuniu condições propícias para a vida como conhecemos foi o planeta Terra. Do Big Bang até hoje se deu a evolução dos corpos celestes, assim como através do DNA aconteceu a evolução das espécies. Imagem cortesia NASA/JPL-Caltech.


Introdução


Cai a noite, e com ela a encantadora escuridão. Em lugares sem poluição de luz, o deslumbramento com o brilho das estrelas toma conta de todos nós. Aqueles diamantes chamam nossa atenção, especialmente nas noites sem o luar. Comigo foi assim desde criança. Com os olhos aguçados, conseguia ver muito além das estrelas mais brilhantes, e queria saber: haveria muito mais delas lá no fundo, naquela poeira esbranquiçada onde sem ampliação o olho humano não consegue mais ver? A atração permaneceu. Essa sensação me invadiu e ficou na lembrança à beira do rio Guaíba, em Porto Alegre, numa época em que ainda nem havia o aterro da praia de belas. Aquela parte da capital gaúcha, em frente à rua Botafogo, onde costumava visitar minha tia Ivone com minha mãe, tinha como pano de fundo a Via Láctea. A escuridão dos pampas atrás do rio que banha a cidade, era garantia de um céu esplendoroso. Na minha cidade natal, Santa Maria, também. Localizada bem no centro do Rio Grande do Sul, considerada a Cidade Cultura do estado por causa de sua enorme universidade, Santa Maria era por outro lado bastante influenciada pelo catolicismo. Uma tradicional procisão anual de Nossa Senhora da Medianeira percorre as ruas centrais até um santuário da igreja dedicada à santa, que aliás é a padroeira do estado, da mesma forma que Nossa Senhora Aparecida é a padroeira do Brasil. Mas o que chamava mais minha atenção por lá, era mesmo o céu noturno. Aquele rio de estrelas que cobria o quintal da nossa casa era incomparável pra mim. Quando apontei o telescópio para a Lua pela primeira vez em 1990, já em São Paulo, quase perdi o fôlego. Ela deslizava rapidamente pela ocular com suas enormes crateras, pulsando como se estivesse viva, tremulando atrás da camada úmida da atmosfera da Terra. Batia no ritmo do meu coração. A Lua já não estava tão longe. Era minha porta de entrada para o mundo da astronomia. Como a maioria, a religião cristã havia sido minha doutrina, afinal as influências estão por toda parte: em casa, na igreja, na escola, nos livros, e nos dias de hoje mais intensamente na TV. O Deus e o Diabo, a luta pelo poder, pela dominação. Minha escola era Marista e nos primeiros anos a maioria dos professores ainda vestia a batina preta com gola de padre. Eram bons educadores e como era um colégio particular caro, oferecia também laboratórios de biologia e química, ginásio


de esportes, pista de atletismo, auditório, campo de futebol e até uma banda marcial. Tínhamos aulas de ciências mas também fazíamos orações antes das aulas. As explicações científicas conflitavam com a diciplina de religião, e era inevitável que eu fizesse perguntas embaraçosas para os professores irmãos maristas. Se os dinossauros existiram por mais de 200 milhões de anos e desapareceram há sessenta e quatro milhões de anos, o homem não poderia ter sido o primeiro habitante da Terra. Deus não poderia ter criado nossa espécie antes de todos os outros, há apenas uma dezena de milhares de anos. A primeira explicaçāo mais convincente, embora incorreta, veio com o livro e o filme de Erich Von Däniken, Eram os deuses astronautas? Surgia uma nova linha de raciocínio sobre quem eram e de onde teriam vindo os deuses, inúmeras vezes relatados desde a Antiguidade. Seria esse o caminho? A pesquisa científica demonstrou que não. Aqueles vestígios não indicavam nada que tenha vindo do céu.


Talvez há não mais que doze mil anos, o homem nem necessitasse pensar sobre isso. Estava ocupado demais com o próprio sustento, em busca de alimento e proteção na natureza, como qualquer outro animal que é. Os pequenos grupos humanos, com o mesmo comportamento dos grandes macacos de hoje, e ainda com uma linguagem rudimentar, estavam preocupados com os perigos reais da vida, na luta pela sobrevivência, não com fantasmas e fantasias. Passo a passo, caminhava a evolução na face da Terra. Bem mais tarde, quando o italiano Galileu Galilei começou a observar com uma pequena luneta, descobriu um mundo muito maior, com outros planetas, com muito mais estrelas do que qualquer humano pudesse imaginar. Ele viu uma Lua repleta de crateras, com montanhas e vales; e algo que chamou ainda mais a sua atenção: três “estrelinhas” ao redor de Júpiter. Na outra noite, quatro delas ao redor do planeta. Na noite seguinte, todas de um lado só. Ao desenhar no papel, viu um filme nessa movimentação. Era uma miniatura do Sistema Solar, concluiu. Com luas girando na órbita de Júpiter, exatamente como faziam Mercúrio, Vênus, Terra e Marte ao redor do Sol. Diferente do que pensavam filósofos até então, a Terra agora não estava mais no centro de tudo, como criação divina especial, mas era apenas mais um planeta em volta de uma estrela comum. A Terra passou a ser imaginada como um pequenino grão de areia num oceano cósmico. A observação, a ciência prevalecia. Aquilo contrariava os ensinamentos religiosos, o Livro Sagrado. Galileu só podia ser um herege por sustentar tais ideias. Aquelas constatações não haviam sido ensinadas na Bíblia. Para um atemorizado Galileu, numa época em que ninguém mais no mundo possuía um telescópio, era difícil demonstrar simultaneamente para todos o que seus olhos tiveram a oportunidade de ver primeiro. Hoje com a internet, as descobertas de Galileu teriam despertado em todos nós a emoção que certamente sentiu naquela noite aquele professor interessado em matemática e física desde a infância. Ali estava o modelo de um mundo verdadeiramente novo e vasto. Mais tarde, em 1929, Edwin Hubble teve a mesma sensação, quando analisava imagens da galáxia de Andrômeda no telescópio gigante do observatório Monte Wilson, nos Estados Unidos. Hubble constatou uma distância estonteante; novos números que não cabiam na métrica


terrestre, dois milhões de anos-luz de distância. E era apenas, descobrimos depois, o jardim da nossa casa, a galáxia espiral mais próxima. A supremacia do Livro Sagrado estava mesmo seriamente ameaçada. E os deuses no céu? E a vida na Terra, com dinossauros antes mesmo do surgimento do homem? E o jardim do Éden? E o mito de Adão e Eva? Como teriam então surgido a primeira estrela, o primeiro planeta, a primeira célula, o primeiro homem? O naturalista Charles Darwin seguiu essa trilha em busca de respostas e se deparou com uma solução muito mais plausível do que as crendices, uma ideia elegante e extremamente simples: para ele, era uma saga de centenas de milhōes de anos, em escala muito maior do que a dos tempos bíblicos. Uma jornada que chamou de Evolução das Espécies; uma viagem que reconstituía o que aconteceu na Terra durante todos os anos da existência da vida, das grandes extinções até os dias de hoje. Darwin encontrou, ajudado pelos seus estudos de biologia e geologia, um planeta bem diferente do descrito na Bíblia – que afirmava que o mundo havia sido criado num instante, há apenas seis mil anos. Um mundo em evolução, com espécies se adaptando e se transformando ao longo das eras, até estarem cada vez mais aptas; os mais fortes e mais afortunados conseguindo passar adiante o bastão genético. O psicanalista austríaco Sigmund Freud achou um jeito de analisar a nossa mente. Aprofundou-se nas questões psicológicas, e abriu uma vasta estrada para entender o funcionamento do cérebro humano. Mas ainda hoje, até chegar ao conhecimento de todos, é como nos tempos de Galileu, um longo e sinuoso caminho. Em Deus, um delírio, o biólogo Richard Dawkins critica a devoção religiosa e diz que a questão sobre se Deus existe ou não é uma pergunta científica: “um dia talvez conheçamos a resposta, e enquanto isso podemos dizer coisas bem categóricas sobre as probabilidades”.


Mundo novo começou a ser escrito muito antes do aparecimento de Richard Dawkins no cenário internacional. Foi inspirado nos livros de Carl Sagan, notadamente em Um pálido ponto azul, que me pareceu então uma nova Bíblia sobre a criação, e foi a maior motivação para uma entrevista meio clandestina no Programa do Jô, no dia da astronomia em 1996. Clandestina porque na época o programa era apresentado no SBT, canal concorrente da emissora onde eu trabalhava como jornalista e apresentador de telejornais. Havia um veto interno para que os artistas contratados da Globo não fossem abrilhantar aquele programa. Fui convidado para falar sobre o dia da astronomia e imaginei que aquele era um assunto que interessava a todo mundo, literalmente, e não deveria haver nenhum motivo para um impedimento. Afinal o tema não era ligado diretamente ao jornalismo e nem eu era um artista global. Mas o assunto talvez não tenha agradado aos mais altos escalões, talvez até de lideranças religiosas, que imagino terem reclamado à direção. Para mim nada foi dito, apenas meu contrato que terminava no final daquele ano, depois de 16 anos, discretamente não foi renovado. As televisões, especialmente a Record, comprada recentemente pelo bispo Edir Macedo, começavam a ser usadas pelas grandes seitas religiosas oponentes da Igreja Católica. Tendo terminado a leitura daquele livro em inglês, pois a tradução ainda não estava disponível no Brasil, me senti no dever de combater de alguma forma aquela tentativa de iludir as pessoas com discursos falsos, que ao meu ver tinham a nítida intenção do lucro, baseados numa lenda que já não se sustentava mais. Alguém tinha que dizer alguma coisa. Em Israel, a Terra Prometida, pude ver e sentir o que representa o lugar que metade do mundo ainda considera ou imagina ser sagrado. A sensação que tive ao percorrer as ruelas da antiga Jerusalém foi de desapontamento e definitivamente não deixou nenhuma dúvida em mim sobre os obscuros acontecimentos que dizem ter se desenrolado por lá. Não há um registro irrefutável da presença um dia de um filho de Deus onde quer que se vá. Assim como não senti nada diante do templo de Zeus nas ruas de Athenas, de Budha em Hong Kong ou da Garuda em Bali. É claro que sensações são subjetivas, e talvez você e muita gente poderia perceber de outra maneira, com certeza influenciados pela tradição, mas espero demonstrar através de inúmeros trabalhos científicos e


histórias relacionadas que conto aqui, que uma conclusão imparcial não poderia ser diferente daquela que para mim se apresentou tão nitidamente. As pessoas que quiserem seguir uma seita dessas, adorando Jesus Cristo ou qualquer outra entidade, afinal não podemos esquecer que Ele não é uma unanimidade no mundo, têm todo o direito, pela liberdade religiosa. Mas outros pontos de vista, estudos científicos e conclusões que vão muito além das escrituras, precisam também ter o seu espaço na televisão e no ensino. Não podemos ser um dia acusados de omissão. O conhecimento tem de ser compartilhado, acredito. De que me vale, como jornalista, tomar conhecimento de um fato grandioso e guardar segredo dele?


A história mais recente do homem, desde tempos anteriores ao cristianismo, misturada às lendas, nos confunde. Os faraós construíram pirâmides e templos, e eles estão lá como testemunhas de um passado glorioso. Entendemos hoje que as crenças deles não passavam de delírio e fantasia. Sabemos do passado dos chineses, dos gregos, dos árabes, dos índios, dos negros, dos japoneses, dos judeus. Sabemos de deuses venerados, como Zeus, eternizado em estátua de pedra na Grécia. Embora eles tenham sido adorados no passado, foram extintos. Não se fala mais nos filhos de Zeus, nos comandados dele, a não ser como herança cultural e poética. Da história mais recente, sobre Jesus Cristo, o filho do verdadeiro Deus, segundo seus seguidores, nenhuma evidência. O mito de Deus se apoia apenas no sustentáculo da fé. Grupos totalmente equivocados, movidos pela sedução, manipulação, ganância e outros objetivos, iludem-se com um mundo que existe só na imaginação. Inspirados nas fábulas criaram um universo paralelo, habitado por anjos, deuses e demônios, um lugar hipotético no céu, que chamaram de paraíso, e um ponto no interior do planeta que apelidaram de inferno, talvez inspirados no calor da lava incandescente expelida pelos vulcões. Uma figura medieval, um rei, um pai celestial que tem todos os seres vivos, ou pelo menos o homem, como filhos, e teria criado por vontade própria, tudo o que existe no mundo, e agora, pegando carona nas recentes descobertas, o Universo, bilhões de anos antes com o Big Bang. O mesmo mundo de muitos outros deuses antigos, com adaptações diferentes. Essa teoria só não responde a mais simples das perguntas que se faz sobre a criação: o quê ou quem teria criado Deus? E essa resposta nós já sabemos: foi a mente humana. Já não é possível no Ocidente, por exemplo, alegar juridicamente interferências divinas em defesas de práticas de crimes. No filme Agnes de Deus um drama assim é mostrado, quando uma jovem freira aborta na clausura e afirma que o bebê fora gerado pelo espírito santo. O assunto retrata a hipocrisia humana. A justiça não poderia ingenuamente acreditar naquela versão dos fatos e passa a investigar quem teria tido contato de verdade com a religiosa. O assunto religião-ciência é debatido o tempo todo neste livro, mas para entendermos melhor as explicações científicas precisamos aprender mais. Os capítulos estão repletos de informação, e este é o


objetivo. Como poderia o mundo ser explicado em poucos aspectos. Se quisermos respostas sobre a criação, então sem dúvida a ciência é o caminho. E é com ela que vamos trilhar as escadarias do céu. Para entendermos a criação, tem papel fundamental a astronomia, que é o estudo do Universo e de tudo o que ele contém: nebulosas, estrelas, planetas, galáxias; tamanhos e escalas de espaço e tempo nunca antes imaginados. Os astrônomos revelam hoje um jeito novo de ver o Universo, totalmente diferente de como era visto até então: um Mundo Novo.

Canibalismo galáctico, a força da transformação natural do Universo: a galáxia maior engolindo a menor. Whirlpool – Galáxia do redemoinho. Foto cortesia: NASA/HUBBLE


Capítulo 1 Pedras no caminho A Terra anda depressa ao redor da nossa estrela, numa velocidade de 30 km por segundo ou 108.000 mil km por hora. Para dar uma volta em torno do Sol, o planeta demora 365 dias girando em torno de seu próprio eixo a cada 24 horas. Esse percurso em torno do Sol é a maior viagem que alguém pode fazer na vida. E aqui estamos nós outra vez. Não daremos muitas voltas juntos: 80, 90, 100 com muita sorte. Somos contemporâneos desfrutando do mesmo planeta, no mesmo momento, por alguns anos. Temos pouco tempo para aprender tudo sobre o mundo à nossa volta. Leia mais em www.smashwords.com


Capítulo 2 O Universo

Aglomerado de galáxias, o peso de todas elas atua como uma lente de aumento gravitacional. Os riscos de luz são de galáxias ainda mais distantes ampliadas assim. Foto cortesia NASA/HUBBLE.

Amostra – Leia mais em Smashwords.com Ou Apple iTunes store para iBooks, iPhone, iPad, Android PC e Mac. ...


Recentemente, em 2003, o satélite M.A.P. da NASA, que estuda as micro-ondas, a chamada radiação de fundo do Universo, levou os cientistas a respostas há muito esperadas. Que idade tem o Universo? Quando surgiram no horizonte cósmico as primeiras estrelas? Há quanto tempo se deu o Big Bang? Os dados do satélite levaram a concluir que definitivamente o Universo tem cerca de 13 bilhões e 730 milhões de anos, com uma pequena margem de erro, de apenas 1%. As primeiras estrelas, que começaram a fabricar os elementos mais pesados, nasceram 200 milhões de anos depois do Big Bang. Nosso lar, o planeta Terra, junto com o Sol, só se formaria 9 bilhões de anos mais tarde. O homem apareceu há apenas 6 milhões de anos na forma mais primitiva de nossos ancestrais comuns, os grandes macacos, que nesse pequeno período – comparando com a idade do Universo – seguiram por diferentes caminhos, diferenciando-se até o que somos, com incontestáveis semelhanças físicas, assim como são semelhantes por exemplo, o gato, o tigre e o leão. Muitas outras formas de vida habitaram a Terra durante mais tempo antes do homem, e desapareceram. Os dinossauros viveram aqui por cerca de 250 milhões de anos e sumiram há 65 milhões de anos, um período muito mais longo que o da espécie humana. Espécies que também tiveram oportunidade de evoluir, talvez além da nossa imaginação. A hipótese mais aceita para a extinção desses assombrosos animais é a colisão de um asteroide ou cometa com a Terra, num choque devastador. O que pode um dia voltar a ameaçar a todos nós, e certamente as gerações futuras. Este é um fato que deixou de figurar como ficção ou hipótese e tornou-se realidade.


Impactos de corpos celestes podem provocar destruição em massa. Os dinossauros teriam sido vítimas de uma catástrofe assim. Ilustração: NASA.


Os cometas são mesmo assustadores. Em 1996, sabendo que havia um no céu, fiquei atento para tentar visualizá-lo. Por várias vezes durante a noite o procurei em vão. Quase ao amanhecer, ao deitar, dei uma última espiada pela janela, e ao fechar a cortina fiquei espantado com o que vi. Lá estava o cometa Hyakutake, gigante, estampado no céu de oeste a sudoeste. Corri para a varanda levando máquina fotográfica com filme de ASA apropriada para o evento. Não sabia se devia gritar e chamar todos os prédios do alto Leblon para ver; se ligava para a Globo para filmar aquela cena dantesca. Fiquei impressionado, arrepiado com sua grandiosidade. Disparei minha máquina várias vezes. Não havia muito tempo, pois o dia começava a amanhecer rapidamente e o cometa estava sumindo na claridade do sol que começava a nascer em Copacabana. Aquela cena de alguns longos minutos ficou marcada em minha mente, e infelizmente só na minha mente. Ao revelar o filme – sim, ainda não havia a máquina digital – nada. O filme estava velado. A falta de experiência com máquinas SLR, ainda mais com aquela velha Zenit russa me custou o registro. Mas o cometa, claro, estampou as capas das revistas astronômicas da época no mundo todo. O Hyakutake havia sido descoberto apenas dois meses antes e se tornou o mais brilhante cometa dos últimos 29 anos. Segundo especialistas, a última aparição dele foi 17 mil anos antes, e provavelmente foi visto por culturas do período Paleolítico, quando o homem começava a habitar cavernas e cabanas. O cometa só deve retornar daqui a cem mil anos. Se os cometas causam esse tipo de excitação hoje, imagine quando não se sabia nada sobre eles. Em 1910, o cometa Halley voltou a se aproximar da Terra depois de 76 anos, conforme previu corretamente o astrônomo Edmond Halley. A aparição do cometa com sua enorme cauda causou pânico em grandes cidades ao redor do planeta. Nos Estados Unidos, o cometa surgiu acompanhado de boatos sobre o fim do mundo. Enfim chegava o anunciado apocalipse. A cauda teria um gás inodoro venenoso, o cianeto, o que demandou um mercado de produtos de saúde, pílulas anticometa, seguros de vida e outras parafernálias. Mas, felizmente, o cometa veio e se foi sem incidentes.


Estima-se que a Terra seja atingida por cometas e asteroides com frequência. Objetos pequenos, meteoros do tamanho de uma bola de futebol, entram na atmosfera duas vezes por dia; do tamanho de um carro pequeno, são dois por ano. Maiores do que isso são mais raros, porém objetos pequenos riscando o céu são muito mais numerosos. São o que chamamos de estrelas cadentes; a qualquer noite escura é possível avistá-las. Em determinadas épocas do ano a Terra atravessa os restos da cauda de algum cometa que já tenha passado por aqui há anos, e temos então as chuvas de meteoro. No meio de dezembro a chuva chamada de Gemenídeos, por se originar na direção da constelação de Gêmeos, chega a apresentar mais de cem meteoros por hora. Um espetáculo de rara beleza. Mas, alguns podem ser devastadores. O cometa Shoemaker-Levy 9 atingiu Júpiter numa velocidade de 289.500 km por hora, gerando uma explosão equivalente a 6 milhões de megatons de TNT, ou a explosão de uma bomba atômica de Hiroshima a cada segundo durante treze anos. E novamente não temos deuses envolvidos em tamanha liberação de energia. Cada pedaço do cometa tinha um diâmetro estimado de apenas um quilômetro. Entretanto, os cometas não são causadores só de destruição. A Terra evoluiu de impactos durante sua formação. No primeiro bilhão de anos de sua existência, o bombardeio de asteroides e eventualmente cometas era frequente, porque é assim que os planetas se formam. A superfície era muito quente. A Terra surgiu há quatro bilhões e meio de anos e naquele período, água e moléculas de carbono – materiais dos quais somos feitos e que são necessários à vida – não poderiam existir naquela temperatura. Só a partir de três bilhões e meio de anos começam a aparecer os primeiros registros de microfósseis. Assim que o bombardeio pesado cessou, a vida se formou. E aí aparece um dilema. Sem os ingredientes necessários, água e derivados de carbono, como foi que surgiu a vida?


Segundo cientistas da NASA, uma das saídas é postular que houve uma entrega em domicílio por eles mesmos, que são constituídos em 30 a 50 por cento de suas massas, de água. Os cometas teriam trazido água suficiente para encher os oceanos e fertilizar o terreno. As moléculas baseadas em carbono se reproduziram, e apareceu a primeira célula. Impactos subsequentes impulsionaram a evolução, permitindo aos indivíduos mais adaptados seguirem em frente. Esse é o modelo que temos do que aconteceu nos primórdios da vida. Foi assim que tudo começou, num cenário de caos e criação espontânea, um processo que é passível de ocorrer em qualquer planeta que ofereça as condições climáticas ideais para que a química dê a partida. Mas o destino não é fácil. Extinções também ocorriam frequentemente. Um cometa em particular foi responsável pelo desaparecimento dos dinossauros e a maioria das espécies daquele período. A hipótese foi levantada por astrônomos, baseados na enorme quantidade de impactos registrados na Lua. Teria acontecido com a Terra a mesma coisa? O tempo do desaparecimento dos dinossauros coincide com uma grande cratera encontrada recentemente, submersa na península do Iucatan, no México, de um tamanho que justifica tal destruição, quando a Terra precisou praticamente de um novo começo. Com o enorme impacto, a poeira escureceu o Sol, as plantas que dependiam dele morreram e os animais que dependiam das plantas pereceram. As espécies menos adaptadas morreram primeiro. Entre outros, os mamíferos, que ainda eram pequenas criaturas peludas que se enterravam no solo, conseguiram sobreviver. Fazemos parte dessa família e podemos dizer que devemos nossa ascensão ao topo da cadeia evolutiva, a esse cometa ou asteroide, que eliminou nossos principais competidores há 65 milhões de anos.


Dinossauros: Natural History Museum, Londres. Foto Renata Piovesana.


Em 1994, a humanidade testemunhou pela primeira vez uma colisão interplanetária assim. O casal de astrônomos Eugene e Carolyn Schoemaker avistou, com o astrônomo David Levy, perto do gigante planeta Júpiter, um objeto não identificado. Possuía um brilho alongado e a princípio fugia a uma classificação. No documentário The Planets, da BBC, David Levy contou como tudo aconteceu e descreveu a emoção que sentiu naquele dia incrível. Muitos cientistas já haviam imaginado aquele cenário, mas ainda não haviam presenciado nada tão assombroso. Intrigados, eles pediram ajuda a um colega de um observatório maior e ficaram aguardando. Como a resposta demorava, David Levy ligou novamente insistindo: “Temos alguma coisa aí?” perguntou sem conseguir esconder a curiosidade. “Se temos alguma coisa? Temos várias coisas!”, foi a resposta. O objeto parecia um colar de pérolas aberto no espaço. Mais tarde, com a observação detalhada, os cálculos revelaram um dos mais fantásticos objetos já encontrados pelo homem. Era um cometa que havia se partido em 16 pedaços devido à força gravitacional de Júpiter, e estava sendo atraído pelo gigante planeta. O objeto foi denominado Shoemaker-Levy 9, e a previsão era de um choque entre os dois astros em pouco mais de um ano.

Cometa Shoemaker-Levy 9. Foto: NASA/Hubble.


Chegado o dia, telescópios do mundo inteiro apontavam para o poderoso planeta, trezentas vezes maior que a Terra, inclusive a sonda Galileo, que estava a caminho de Júpiter. Mas o Brasil estava distraído, pois todas as atenções voltavam-se naqueles dias para a Copa do Mundo nos Estados Unidos, e a grande atração era um jogador baixinho, de nome Romário, que fazia gols nos adversários e garantia mais um título para o país que ama o futebol. Ao mesmo tempo, os impactos das bolas espaciais aconteciam no lado escuro de Júpiter. Apenas o brilho lateral das explosões foi registrado no exato momento, inclusive um forte reflexo em uma de suas luas. Como a rotação de Júpiter é rápida, em vinte minutos as cicatrizes estavam à mostra. Para delírio dos cientistas, as imagens captadas mostravam as feridas da gigantesca explosão, uma delas maior do que a Terra inteira. Pela primeira vez na história da humanidade foram vistas as marcas do que seria um verdadeiro Armagedom, se fosse em nosso pequeno planeta. Não no sentido bíblico, que parece trazer um desejo inconsciente de um extermínio absurdo, que antecederia a volta de Cristo para o arrebatamento apenas dos que acreditam, mas implacavelmente real e destrutivo. Mais uma vez, o Universo nos dá provas de que não é objeto de criação divina, pronto e acabado. O Universo está em constante transformação. As imagens captadas mostraram as feridas da gigantesca explosão ocorrida. O Brasil vibrava com Romário, e os Estados Unidos e o mundo científico comemoravam com o casal Shoemaker e o astrônomo David Levy. O evento em Júpiter nos remete à época dos dinossauros, que foram vítimas de um encontro assim.


Eugene Shoemaker foi um renomado cientista do Instituto Geológico dos Estados Unidos, em Flagstaff no Arizona, onde tinha estabelecido uma agência no ramo da astrogeologia, e é reconhecido pelo trabalho com impactos extraterrestres e por estudar e descobrir cometas, com a colaboração da esposa Carolyn. No Arizona existe uma das mais impressionantes e bem preservadas crateras de impacto do nosso planeta, testemunha do choque de um meteorito com a Terra há cinquenta mil anos. A explosão deixou um buraco de 1,2 km de largura por 175 metros de profundidade. Curiosamente, Shoemaker morreu vítima de um acidente de impacto. Em 18 de julho de 1997 durante pesquisa de campo sobre geologia de crateras em Alice Springs, Austrália, ele sofreu um acidente de carro. A esposa Carolyn ficou ferida. Infelizmente Eugene não resistiu. Mais tarde Eugene Shoemaker recebeu uma homenagem póstuma inimaginável pela humanidade até então. Uma espaçonave lunar carregou as cinzas do homem que sonhou um dia pisar na Lua. Não poderia haver maior tributo ao legendário geólogo planetário. As cinzas do corpo de Shoemaker viajaram a bordo da nave Lunar Prospector. Ao redor da caixa, uma peça de bronze com uma imagem do cometa Hale-Bopp, uma imagem da cratera do Arizona, e uma passagem da história de amor de William Shakespeare, Romeu e Julieta: “E, quando ele tiver que morrer, estilhasse-o em pequenas estrelas, e ele deixará a face do céu tão linda que todo o mundo vai se apaixonar pela noite, nem se importando com o Sol brilhante.”


No final da missão Prospector, a espaçonave levando as cinzas dele iria se chocar com a Lua, fazendo um último experimento em busca de vestígios de água, deixando para sempre sepultado nela o corpo cremado do homem que sonhava pisar ali. Pouco antes de assistir o lançamento da nave Lunar Prospector, em 6 de janeiro de 1998, Carolyn Shoemaker disse que o marido nunca nem havia sonhado que um dia suas cinzas pudessem parar na Lua e que ele estaria emocionado. Carolyn falou da importância da homenagem para a família, que de certa maneira trazia conforto para os sentimentos deles. “Nós vamos sempre saber, quando olharmos para a Lua, que Gene está lá”, declarou. A comunidade científica planetária sabia que Eugene sempre quis ir a Lua como astronauta em uma missão Apollo, para poder estudar sua geologia em primeira mão. Ele uma vez disse que não ter ido a Lua e não ter batido nela com o próprio martelo tinha sido a maior decepção da sua vida. Um problema de saúde impediu Shoemaker de se tornar o primeiro geólogo no nosso satélite natural. No entanto, ele ajudou a selecionar e treinou os astronautas da missão Apollo em geologia lunar em crateras de impacto. Nos noticiários da TV americana, sentou-se ao lado do apresentador Walter Cronkite, fazendo comentários geológicos durante as caminhadas do homem na Lua. A geóloga e astrônoma Carolyn C. Porco, aluna e colega de Eugene Shoemaker, que propôs e organizou a homenagem, escolheu para enfeitar a inscrição levada junto à urna das cinzas, a espetacular imagem do cometa Hale-Bopp feita em 14 de abril de 1997 porque ele enfeitou o céu no ano da morte do cientista, e foi o último cometa que os Shoemaker observaram juntos. A bela imagem da Cratera do Arizona, local onde Eugene treinou os astronautas da Apollo foi escolhida com a ajuda de Carolyn Shoemaker. A Lunar Prospector ao completar a missão, quase dois anos depois, foi direcionada para o impacto com o solo lunar, deixando por lá registrada para sempre a história de um homem que finalmente realizou seu maior sonho: chegar até a Lua.


Capítulo 3 Um certo Charles Darwin

"Estou surpreso, considerando o fato de sermos ignorantes em muitos aspectos, que os pontos fracos do meu livro não tenham sido apontados até agora." Charles Darwin


Nossos heróis bem que poderiam ser apenas humanos e estar mais ao nosso alcance. Alguns homens mudaram para sempre conceitos fundamentais e mereciam ser melhor reverenciados por todos nós. Apesar de suas enormes capacidades, da herança inestimável que nos deixaram, permanecem incompreendidos por muitos. É o caso de Darwin. A vida é o sub-produto da formação dos planetas, e quando a investigamos não podemos deixar de lado um pensamento que define esse processo de uma vez por todas. Uma ideia de pouco mais de cento e cinquenta anos mudou tudo. O naturalista inglês Charles Darwin nos apresentou sua teoria científica sobre a seleção que ocorre espontaneamente na natureza. Como alguns cientistas antes dele, Darwin acreditava que através de milhões de anos todas as plantas e animais haviam evoluído aos poucos de espécies ancestrais em comum. As teorias de Darwin incluíam muitas ideias que se relacionavam; ocorreu uma evolução e essa evolução foi gradual, demorando, suspeitava, milhares ou milhões de anos para as mudanças. O mecanismo primário para a evolução foi um processo que ele chamou de seleção natural. Milhões de espécies presentes hoje na Terra nasceram de uma única forma original de vida, num ramo chamado de especiação, onde uma espécie pode dar origem a duas ou mais espécies diferentes. Essa ideia foi ilustrada por ele como galhos de uma frondosa árvore. Darwin publicou suas teorias no livro A origem das espécies pela seleção natural, ou A preservação das raças favorecidas na batalha pela vida (1859). A teoria de Darwin chocou a maioria das pessoas daquele tempo, que acreditavam que cada espécie havia sido criada separadamente por atos divinos em seis dias, conforme as Escrituras. O livro de Darwin, atualmente chamado apenas de A origem das espécies, apresentava fatos que refutavam essa crença. Os fatos causaram uma revolução na ciência biológica e o livro afetou enormemente o pensamento religioso, e ainda afeta. A teoria da criação do Universo por um deus, literalmente caiu por terra, não se sustentava mais como hipótese pela ciência e poderia ser varrida de uma vez por todas para baixo do tapete. O curioso é que isso não aconteceu até os dias de hoje. As pessoas parecem ter esquecido o esforço de Darwin, de Galileu, de Copérnico, de Giordano Bruno, de Einstein,


ou nem tomaram conhecimento sobre o quê exatamente eles fizeram. As aventuras de Charles Darwin, até chegar ao seu famoso livro, foram descritas nos dois volumes da Viagem de um naturalista ao redor do mundo. Darwin esteve na África, Brasil, Uruguai, Argentina, Terra do Fogo, nos Andes, no Chile, onde presenciou à distância de 150 km, a erupção de um vulcão lançando lava, e um terremoto seguido de um tsunami que arrasou Concepción e o arquipélago chileno vizinho. Chegou às ilhas Galápagos, onde fez suas mais importantes descobertas e associações, percorreu o arquipélago das Maldivas no Oceano Índico, o Tahiti, as Ilhas Maurício, a Austrália e a Nova Zelândia. Em todos esses lugares da Terra teve a oportunidade de observar diversos aspectos da natureza e compará-los. Insetos, animais únicos, adaptados aos seus diferentes hábitats, homens pré-históricos vivendo como animais na Terra do Fogo, onde a civilização ainda não havia chegado. Darwin admirou-se do homem em seu estado mais baixo e selvagem, e perguntou-se: “Nossos progenitores teriam sido homens como esses?”. O naturalista se encantou com nosso céu noturno, especialmente o Cruzeiro do Sul, e o que chamou de “nebulosa” de Magalhães, que mais tarde foram identificadas como duas galáxias satélites da nossa.


No dia 19 de agosto de 1836 ao deixar as praias do Brasil de volta pra casa, dando graças a Deus, escreveu com propriedade, que esperava nunca visitar outra vez um país escravocrata. Não lhe saía da cabeça os maus tratos aos negros escravizados. Em Pernambuco, ouviu ao longe os terríveis gemidos de um escravo sendo torturado e sentiu-se impotente como uma criança por nada poder fazer. Perto do Rio de Janeiro morou em frente a uma velha senhora que guardava tarraxas para esmagar os dedos de suas escravas. Ficou em uma casa onde um mulato era maltratado a cada hora, espancado e atormentado de um modo suficiente para aniquilar o espírito do animal mais miserável. Presenciou um garotinho de seis ou sete anos ser atingido três vezes por um chicote de açoitar cavalos, antes que pudesse interferir, simplesmente por ter lhe servido água num copo que não estava bem limpo. A prática de separar as famílias dos negros, vendendo crianças e esposas ao primeiro comprador, como se fossem animais, causou revolta em Darwin, que escreveu: “Esses atos são praticados e mitigados por homens que professam amar o próximo como a si mesmos, acreditar em Deus e rezar para que sua vontade seja feita na Terra. Faz o sangue ferver e o coração palpitar pensar que nós ingleses, e nossos descendentes americanos com seu orgulhoso grito de liberdade, foram e são tão culpados em relação a esta hediondez.”


Com o avanço da ciência, novos rumos foram seguidos para explicar a criação e a evolução. Ossadas gigantes de animais que nunca haviam sido avistados começaram a ser encontradas. Apareceram os primeiros registros da extinção em massa. Surgiram pistas concretas da evolução das espécies, no aprimoramento das sementes para o plantio das safras e nos animais domésticos, como pombos, cães, gatos e cavalos selecionados pelo homem. Darwin seguiu todas as pistas disponíveis, comparou estruturas, formas, comportamento e estratégias dos animais para a sobrevivência. Mas deixou de lado a evoluçāo do homem, pois não queria polemizar com a Igreja, nem decepcionar sua amada esposa Emma, que não conseguia imaginar um mundo sem o controle de um Deus. Ela não suportaria a ideia de não ter Charles ao seu lado no paraíso, e temia que ele pudesse arder no purgatório. Darwin foi extremamente cauteloso e cuidadoso com suas conclusões e demorou vinte anos para publicar seu livro. O filme Criação explora esse aspecto da vida de Darwin, enquanto ele concluía o livro A origem das espécies. Provavelmente ninguém mais tenha influenciado tanto nosso conhecimento da vida na Terra quanto Darwin. Sua teoria explica de onde veio essa enorme diversidade de tipos de seres vivos e como eles se adaptaram de maneiras exóticas ao meio ambiente. A teoria conseguiu conciliar descobertas, como evidências da natureza progressiva de formas fósseis gravadas nos sedimentos geológicos, a distribuição geográfica das espécies, vestígios de órgãos atrofiados, animais diferentes com a mesma aparência embrionária, estruturas homólogas, como os ossos da mão nas asas do morcego por exemplo. Nenhuma outra explicação antes ou desde então faz sentido ou supera a dele sobre esses fatos.


Num trabalho posterior, em A origem do homem e a seleção em relação ao sexo, publicado em 1871, Darwin demonstrou que a diferença dos humanos para os animais não está relacionada a tipo, mas a grau de parentesco. Sobre a estrutura física do homem, Darwin escreveu: “É fora de questão que, no tocante a sua conformação, o homem segue o mesmo padrão ou modelo geral de qualquer outro mamífero. Todos os ossos de seu esqueleto correspondem a outros similares encontrados nos macacos, nos morcegos ou nas focas. O mesmo pode ser dito com relação aos músculos, nervos, vasos sanguíneos e órgãos internos. (...) Com relação aos animais inferiores, o homem é propenso a contrair e transmitir certas doenças, como a hidrofobia, a varíola, o mormo, etc., o que comprova a estreita semelhança dos seus tecidos e seus sangues, tanto no detalhamento estrutural como na sua composição.” Antes da publicação de A origem do homem, que também ele relutou em publicar por muitos anos, até que tivesse certeza de suas opiniões pessoais sobre o assunto, Darwin havia apenas sugerido que, na cadeia evolutiva, o homem não era especial ou divino. Em A origem das espécies lhe pareceu suficiente dizer que esperava que aquela obra “lançasse alguma luz sobre a origem do homem e sua história”. E assim indicou “que também o ser humano devesse ser incluído no conjunto geral dos seres vivos, no que se refere ao seu modo de aparecimento sobre a Terra”. O site Darwin On Line descreve as áreas nas quais o cientista se destacou: geologia, zoologia, taxonomia, botânica, paleontologia, filosofia, antropologia, psicologia, literatura e teologia. Os escritos de Darwin despertaram reações profundas, algumas ainda hoje, e chamaram a atenção de uma variedade enorme de leitores no mundo todo. Assim, ainda que fossem ignorados seus trabalhos sobre evolução, seria difícil igualar suas conquistas. Seus trabalhos originais sobre geologia, botânica, biogeografia, zoologia de invertebrados, psicologia e registro de viagem científica continuariam fazendo dele um dos mais influentes e originais colaboradores na história da ciência.


Darwin por sua vez também foi influenciado pelo trabalho de vários cientistas, entre eles o astrônomo Sir John Herschel, o viajante Alexander Von Humboldt e o geólogo Charles Lyell. O novo livro de Lyell, Princípios da geologia, influenciou profundamente Darwin, não só sobre o assunto, mas por oferecer um novo jeito de entender a natureza. Lyell mostrava como pequenas, lentas, graduais e cumulativas mudanças que ocorriam em imensos períodos de tempo podiam provocar grandes mudanças. Causas naturais, visíveis, não milagrosas podiam ser usadas para explicar fenômenos naturais. Darwin teve a oportunidade de testemunhar todas essas forças durante a viagem do Beagle e se convenceu de que Lyell estava certo. O naturalista fez importantes descobertas sobre a geologia da América do Sul, ilhas vulcânicas como a de Fernando de Noronha, e sobre a origem dos recifes de corais, baseado nas ideias de Lyell. E se pergunta em um de seus trabalhos: “Onde na face da Terra podemos encontrar um único lugar, no qual uma cuidadosa investigação não descobrirá sinais do ciclo sem fim das mudanças às quais a Terra esteve, está, e estará sempre sujeita?”


O mesmo site comenta sobre um mito que circula ainda hoje sobre Darwin, de que ele teria se arrependido do evolucionismo ou se convertido ao cristianismo no leito de morte. Essas teorias são comumente contadas por aqueles que gostariam que elas fossem verdadeiras, mas não são. Não há nenhum mistério sobre a morte de Darwin; seus parentes presentes naquele momento escreveram em detalhes sobre suas últimas horas. Em sua autobiografia, Darwin conta como foi aos poucos desacreditando da interferência de um Deus. Ainda a bordo do Beagle começou a ver que “o Velho Testamento, com suas falsas histórias do mundo, como a torre de Babel, o arco-íris interpretado como um sinal, etc. etc., e por atribuir a Deus sentimentos de um vingativo tirano, não poderia ser mais acreditado do que os livros sagrados dos hindus ou as crenças de quaisquer bárbaros”. E continuando sobre o assunto, Darwin conta que “haveria de ter evidências mais claras para que um homem em sã consciência fosse levado a acreditar nos milagres que dão suporte ao cristianismo – quanto mais temos conhecimento das leis fixas da natureza, mais inacreditáveis se tornam os milagres – porque os homens daquele tempo eram ignorantes e crédulos num grau quase incompreensível por nós – porque não se pode provar que a Bíblia tenha sido escrita simultaneamente aos fatos – porque estes diferem em muitos detalhes importantes, importantes demais no meu entender para que sejam admitidos como simples inexatidão de testemunhas oculares – por reflexões como essas... gradualmente deixei de acreditar no cristianismo como revelação divina.” Em seguida, Darwin escreve que “A descrença caiu sobre mim lentamente, mas finalmente se completou. Aconteceu tão lentamente que eu não me senti angustiado, e nunca desde então duvidei por um só segundo de que minha conclusão estava correta. Eu mal consigo conceber como alguém ousa desejar que o cristianismo seja verdade; porquanto ao pé da letra do que está escrito significa dizer que homens que não acreditam, e isso inclui meu pai, irmão e quase todos os meus melhores amigos, serão eternamente punidos. E esta é uma doutrina abominável”.


Capítulo 4 A origem

O Big Bang impulsionou a expansão do Universo. Ilustração: NASA-JPL.


O Big Bang é ingenuamente comparado em analogias inadequadas. Teria um boeing ou o mecanismo de um relógio surgido da explosão de uma fábrica? Isso seria como se um livro se arranjasse sozinho explodindo-se a tipografia. Ora, é evidente que um Boieng 747 evoluiu de aviões menores e que a Bíblia foi construída letra após letra, não caiu do céu pronta. O Universo surgiu, todas as evidências apontam, num processo que é o mais aceito pelos cientistas. Não há no momento uma hipótese melhor do que o Big Bang para o surgimento. É importante notar que o planeta Terra não surgiu naquele momento, nenhuma estrela, nenhuma galáxia. Os átomos foram se agrupando e cozinhando até se transformarem em elementos mais pesados ao longo de enormes períodos de tempo, até se agruparem e dar ignição a fusão nuclear gerando as fornalhas das estrelas, que se aglomeram entre restos de gases e poeira cósmica, que por sua vez ao explodirem dão origem a novas estrelas, como o Sol, com elementos ainda mais pesados. Segundo pesquisas recentes, o número de planetas é maior do que o número de estrelas. Durante seis anos uma equipe internacional de astrônomos incluindo a NASA e a ESA, a agência espacial européia, concluiu que planetas ao redor de estrelas é a regra e não a excessão. Se a nossa galáxia contém no mínimo um planeta para cada estrela em média, isto significa que deve haver pelo menos 100 bilhões de planetas só na Via Láctea, destes, 10 bilhões seriam do tipo terrestre. Os planetas Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, por comparação, são apenas gasosos.

Leia mais em smashwords.com Apple iTunes store iPhone, iPad, Android


Capítulo 5 Sol, a energia da vida

O todo-poderoso Sol é a estrela mais próxima que podemos observar. Visto pelo telescópio, devidamente filtrado, é um caldeirão atômico. Dinâmico, apresenta muitas características. É um ser vivo, pulsante, nervoso; extremamente quente e radioativo. É vida e é morte. Tem cinco bilhões de anos e vai viver o dobro disso, calculam os astrônomos. Foto cortesia: NASA/SDO e AIA, EVE, e HMI science teams.


Se tivesse que escolher um lugar para um deus seria no Sol. De lá, sendo ele, daria para controlar os planetas, especialmente o nosso. Nossa estrela é responsável pela origem e o destino da humanidade. Não vamos nos libertar dela jamais, dependemos e precisamos de sua energia e a adoramos por isso. O deus Sol dos incas e dos egípcios nos ilumina e aquece enquanto a Terra requebra no espaço correndo ao seu redor, fazendo as estações do ano, à distância média de 149 milhões e 600 mil quilômetros. É acima de tudo, nossa razão de viver. A energia primordial da vida. A formação do Sistema Solar, que é o Sol e seus planetas, se deu nos braços da Via Láctea. O Sol é fruto de mais de uma geração de estrelas; surgiu de uma nebulosa, os restos das primeiras estrelas que explodiram ao esgotar seus combustíveis, basicamente de hidrogênio e hélio, os elementos primordiais do universo. A explosão gerou naquelas fornalhas estelares os elementos pesados, como o ferro, o ouro, o zinco e o oxigênio; substâncias que são abundantes nos planetas e estão presentes em nossa composição e nos vegetais, o que comprova nossa origem da mesma nuvem primitiva. Corre ferro no nosso sangue, e o único lugar onde o ferro pode ser forjado é na explosão de uma estrela. É só lá que as altas temperaturas necessárias nesse processo são alcançadas. Somos feitos de estrelas. Para entender o universo temos de estudar as estrelas. As estrelas em fusão nuclear transmutam os elementos em outros. Nas estrelas são construídos os elementos mais pesados da tabela periódica que estudamos em química. Combinados eles formam os compostos, como a água, na junção dos átomos de hidrogênio e oxigênio.


O Sol, uma estrela amarela de meia idade, é uma enorme bola de gás incandescente que se expande do seu centro à superfície por 695 mil e 600 quilômetros, aproximadamente 109 vezes o raio da Terra. Nele estão contidos 99,8 por cento da massa de todo o Sistema Solar, em uma esfera com um volume mais de um milhão de vezes o da Terra. O que sobrou dessa estrutura formou oito planetas maiores, mais de cem luas, centenas de milhares de asteroides e bilhões de cometas em sua órbita. Toda a energia dele vem de reações de fusão nuclear, que ocorrem no núcleo. Sua morte, que pode ser calculada pela observação de outras estrelas da mesma classe, as quais duram em torno de dez bilhões de anos segundo estimativas atômicas, determinará o fim da vida na Terra. Os cientistas calculam que nossa estrela desencadeou seu brilho há cerca de cinco bilhões de anos e deve, portanto, queimar mais cinco bilhões. Provavelmente, por outros motivos, a raça humana terá se extinguido antes de presenciar a morte do astro rei. Quando esgotar seu combustível nuclear, ele vai crescer e se tornar uma gigante vermelha. Mais tarde, no seu ciclo de vida, vai desprender suas camadas externas. O restante vai entrar em colapso, transformando-se num objeto chamado anã branca, e lentamente vai esfriar até virar uma anã negra. Nem os deuses estarão mais por aqui.


Um observatório no espaço, o SOHO, estuda o Sol 24 horas por dia, em diversas frequências do espectro de luz, em raios x, ultravioleta e luz visível. No site do SOHO é possível acompanhar diariamente o que acontece na nossa estrela. Outros satélites se juntaram a ele nos últimos anos em busca de novos conhecimentos. Uma única erupção no campo magnético do Sol libera energia equivalente ao consumo de um milhão de anos de eletricidade na Terra. Essas explosões quando direcionadas para o nosso planeta podem desencadear alguns desconfortos para a indústria de telecomunicações, desativando satélites e afetando redes elétricas na Terra. Mas também podem dar origem a espetáculos de cores nas regiões próximas aos polos do planeta, as auroras boreais. A camada externa da atmosfera se excita com as partículas solares e os gases ionizados dançam transformando o céu da noite em cortinas mágicas esvoassantes. Quantas lendas não teriam sido originadas nessa fonte de energia, quando não era completamente endendida? O Sol é um caldeirão em ebulição, distante 25 mil anos-luz do centro da galáxia, é uma entre aproximadamente 200 bilhões de estrelas da Via Láctea, girando em volta dela a cada 250 milhões de anos. Então, se o Sol gira e a Via Láctea inteira gira, a pergunta que surge é, o que teria impulsionado tudo isso?


Todas as galáxias se afastam umas das outras a grandes velocidades. Dá para visualizar através de poderosos radiotelescópios, lá no princípio dos tempos, a ignição do processo que resultou em toda essa matéria excitada. Matéria que continua a evoluir até hoje nas nebulosas de gás e poeira, dos restos das primeiras estrelas. Utilizando supercomputadores que retrocedem em simulação o movimento das galáxias, é possível chegar perto do começo de tudo. O Universo teria surgido quando toda essa energia estava comprimida em um pequeno espaço, o que produziu um calor capaz de cozinhar as primeiras partículas atômicas. O Universo transborda de energia. Somos matéria que em última análise foi gerada naquela grande explosão primordial. Essa expansão da qual o Sol e a Terra são resquícios vagando no cosmos, foi o que colocou o Universo em movimento. Assim é o processo do desencadeamento da vida, do surgimento até o desaparecimento completo e inevitável. Se tivermos a chance, enquanto estamos aqui, deixamos descendentes e ela resiste. Para nos mantermos vivos, necessitamos de energia, e o sol é a nossa fonte. O Sol que já foi considerado um deus, agora é entendido como apenas mais uma das estrelas no céu. Os deuses estão mesmo perdendo espaço no mundo. Já não há lugar pra ele na nossa estrela.


Capítulo 6 A evolução da fé

Zeus ou Poseidom, o Deus dos deuses, ou o Deus dos mares, eternizado em bronze no museu arqueológico de Athenas, Grécia. Foto: Augusto Xavier.


Você acredita? Talvez o maior erro esteja exatamente na pergunta. Acreditar não implica que as coisas aconteçam ou vão acontecer como desejamos. Crer em algo sobrenatural, divino, pode acabar projetando em nossas mentes uma realidade virtual, que passa a existir disfarçada, alimentando ilusões, esperanças e sonhos. Todos concordamos que é muito bom amar, ter saúde, vida longa, felicidade, prosperar, esperar o bem, promover o positivismo; todos queremos isso. Mas não é necessariamente preciso associar essas conquistas a um ser que manipule os resultados por trás de um manto sagrado misterioso. Muito mais sensato do que acreditar, é duvidar; questionar qualquer resultado que deixe margem de dúvida. Não teria sido apenas por minha capacidade, por mera sorte ou oportunidade?

Capítulo 7 O homem que veio do céu

Um novo Deus grego. Jesus numa capela da Grécia. Foto: Augusto Xavier


Talvez você nunca tenha imaginado questionar as suas próprias crenças. Eu me lembro bem quando isso começou comigo. Por alguns segundos, quando adolescente me pegava divagando sobre o episódio bíblico que relatava Pôncio Pilatos lavando as mãos. Ele deixou aquela decisão para as pessoas comuns. O rei dos judeus não poderia ter mostrado naquele momento para aquela autoridade militar romana todo o seu alegado poder? Afinal ele era aclamado por seus seguidores como o rei dos reis. Jesus, o suposto filho de Deus, diz a lenda, morreu na cruz para nos salvar. Mas, se fossemos educados do ponto de vista dos muçulmanos, com certeza Mohammed, o Maomé, um profeta que também teria sido enviado por Deus, é que seria nosso salvador, como acreditam seus seguidores. Todo o contexto seria diferente, e até chamaríamos Deus pelo verdadeiro nome, Alah, o único Deus criador de todas as coisas, segundo o Alcorão, o verdadeiro livro sagrado para os muçulmanos. Dois livros sagrados verdadeiros com ensinamentos diferentes? Livro sagrado? O que faz um dia da semana ser considerado sagrado para o homem, numa determinada civilização, é a convenção. Para o reino animal, do qual descendemos, os dias não diferem. Escrituras, por serem consideradas sagradas por determinados grupos, não implicam que são verdadeiras. São suposições e imposições que devem sim ser questionadas. Na época atribuída a Jesus havia uma esperança vaga que é muito cultivada ainda nos dias de hoje. As profecias mais antigas, atividade comum de adivinhação do futuro, iriam finalmente se concretizar. O salvador da humanidade, o libertador dos oprimidos, dos que sofrem, viria do céu para purificar os pecados do mundo.


Aparentemente, Jesus - o homem - contribuiu para salvar a religião judaica, que se ramificou com diferentes denominações. É preciso notar que tudo o que se diz a respeito dele não passa de especulação. Nem mesmo o rosto de Jesus é conhecido. Especialistas, utilizando técnicas modernas de reconstituição facial, baseados nos tipos humanos habitantes daquela região e época, chegaram a uma aparência completamente diferente do indivíduo apresentado como o Cristo.


O Santo Sudário, uma manta de linho branco que teria supostamente envolvido o corpo de Cristo na sepultura, está guardado pelo Vaticano no Palácio Real de Turim, na Itália, fora das vistas do público. Eventualmente ele é colocado em exposição. Na peça, as manchas vermelhas sugerem a imagem de Jesus sangrando, com vários traumatismos físicos consistentes com a crucificação. Cientistas de posse de novos métodos de avaliação pediram para atestar a autenticidade do pano. Os primeiros testes em 1977, feitos por técnicos da Universidade de Turim, com microscopia, demonstraram que a imagem do Sudário é composta por inúmeras gotículas de tinta fabricada a partir de ocre. Em 1988, autorizados pela Santa Sé, foram feitos testes de datação radiométrica pelo método do carbono 14, muito mais confiável, apresentando margem de erro de apenas 0,4 % para materiais com até 10 mil anos. Três amostras foram enviadas a três laboratórios independentes, na Inglaterra, Estados Unidos e Suíça. Todas as análises revelaram idades entre os anos de 1260 e 1390 – muito depois da morte de Cristo. O Santo Sudário é a única relíquia que existe, atribuída a Jesus. Não deveriam os religiosos serem os maiores interessados na comprovação de sua autenticidade? As autoridades alegam que mais testes danificariam a peça sagrada. A verdade é que a peça não passou nos testes científicos e assim talvez devesse estar exposta apenas como peça de arte, como a Mona Lisa no Museu do Louvre, e não atestando fatos verdadeiros. Aqui aparece uma diferença de postura. A ciência não agiria assim. Uma ossada humana atribuída a existência do homem na época dos dinossauros que não passasse no teste de datação não seria guardada no museu da ciência para forjar uma descoberta científica. Nas inúmeras buscas independentes por vestígios da existência do filho de Deus, os pesquisadores voltam sempre de mãos vazias.


A referência mais antiga ao nome de Jesus aparece numa publicação em Roma de um homem chamado Josefo, no ano 79 depois de Cristo. Considerando que houve um erro de seis anos nos cálculos sobre quando teria ocorrido a crucificação, o manuscrito foi feito 85 anos depois da morte dele. E pouco ou quase nada foi dito sobre Jesus. E, ainda, a autenticidade não é aceita com unanimidade. Acadêmicos suspeitam, pelo estilo, que o texto teria sido acrescentado ao original em edições posteriores para se adaptar a interesses religiosos. Estamos falando aqui de quatro ou cinco linhas escritas resumidamente. Tente escrever sobre alguém que viveu 85 anos atrás, sem registros escritos ou fotográficos. Não seria tarefa fácil. Muito menos o que foi escrito sobre Jesus muitos anos depois. Na ilha de Bali, na Indonésia, em 1994 presenciei uma cena interessante diante do vulcão Gunung Agung. Os moradores levavam oferendas para aplacar os espíritos do fogo, com a intenção de poupar os habitantes das comunidades, vizinhas àquela poderosa montanha. Uma cultura milenar, afastada até pouco tempo da civilização ocidental e do fluxo turístico, ainda hoje devota seus temores diante do poder incrível da natureza. Intrigado com as reverências que eles prestavam diariamente aos deuses em seus templos caseiros, aproveitei para perguntar a um indonésio, se ele não acreditava em Cristo. Depois de pensar um pouco, ele respondeu com uma nova pergunta: “O filho de uma mulher que era virgem?”. “Esse mesmo”, respondi. Ao que conclusivamente me disse, “não”.


O filho de Maria com Deus é uma lenda inventada no Ocidente, em que eles não acreditam e da qual têm pouco ou nenhum conhecimento. A religião local é dividida principalmente entre o hinduísmo e o islamismo, que estão difundidos em toda a ilha. Os balineses, que foram catequisados e são administrados por autoridades que levam adiante essa tradição, oferecem alimentos para os espíritos que habitam o interior do vulcão, numa pequena procissão, carregando frutas, aves e vegetais, ao som de marimbas. As caravelas europeias não aportaram na Indonésia e portanto não havia, e ainda praticamente não há, influência do cristianismo por lá. A maioria simplesmente não conhece as lendas que nos ensinam desde criança, bem como nós não sabemos nada sobre a Garuda, Buda ou Maomé. Pesquisadores e estudiosos da Bíblia têm conseguido chegar a conclusões no mínimo embaraçosas a respeito dos evangelhos. A inclusão deles no cânone da Igreja, quando foram aceitos como inspiração divina, se deu por serem os mais populares e não os mais antigos. Os quatro evangelhos se complementam e têm a intenção de reforçar o dogma da divindade de Jesus, sendo o filho de Deus. Segundo a autor de Scripting Jesus, L. Michael White, diretor do Instituto de Estudos sobre as Origens do Cristianismo do Texas, Estados Unidos, numa reportagem à revista Época, na edição de 21 de junho de 2010, “os evangelistas sentiam-se compelidos a preencher os vazios da narrativa oral com fatos adequados a seus objetivos”. Segundo ele, a meta desses narradores era cativar públicos de formação cultural distintas. Os evangelhos não teriam o caráter universal que se atribui a eles e não são uma biografia de Jesus. São baseados em antigas tradições orais. Os historiadores, diz a reportagem, são unânimes em afirmar que os quatro evangelistas bíblicos não escreveram uma só linha de punho próprio. Não se sabe a real identidade dos autores. Seus nomes passaram a constar nos textos apenas a partir do século II, com o objetivo de dar credibilidade às Escrituras.


O texto ganhou mais força ao ser atribuído a Mateus e João – apóstolos que teriam convivido com Jesus – e a Marcos e Lucas, discípulos de Pedro e Paulo, respectivamente. Os narradores gostavam de reforçar a divindade de Jesus adequando sua vida às velhas profecias judaicas. Mateus diz que Jesus teria entrado em Jerusalém no lombo de um jumento, exatamente como o profeta Zacarias previra que o Messias chegaria à cidade. E assim em muitas outras passagens escritas. O evangelho de Marcos foi escrito entre 70 e 75 d.C., o de Mateus entre 80 e 90 d.C., o evangelho de Lucas, entre 90 e 100 d.C. e o de João entre 95 e 120 d.C. Diz L. Michael White que “mesmo juntando os quatro, não temos um registro histórico confiável de Jesus”.


Fica difícil estabelecer lugares e fatos confiáveis para seguir os passos do homem Jesus, considerando todos os relatos disponíveis. O documentário da BBC, Jesus, o filho de Deus, reconstrói a época de Cristo; vai atrás da verdade sobre a lenda, e faz uma ótima abordagem sobre o assunto. Astrônomos tentam explicar a misteriosa estrela que indicou o local do nascimento do Messias, mesmo sabendo que estrelas ou cometas não se movem para indicar acontecimentos em nenhum planeta. A arqueologia mostra como viviam na época as famílias judias, suas habitações e costumes. O tabu da gravidez de mães solteiras é ainda hoje uma desonra para as famílias na Palestina, onde as mulheres são brutalmente castigadas por isso. A prática da crucificação como forma de punir criminosos era comum. A conclusão a que se chega é que lendas de outros deuses mais antigos misturam-se a acontecimentos históricos para dar credibilidade e contemporaneidade à narrativa. As afirmações bíblicas mais fantásticas dependem de muita fé para serem aceitas. Que Maria tenha sido inseminada por Deus e dado à luz um filho híbrido; que Jesus tenha ressuscitado tendo contato com seus dicípulos depois e subido aos céus, não há como comprovar; é preciso usar a imaginação e a fé para admitir como verdade. A Bíblia é um livro manipulado, não uma revelação. Depois de se livrarem de lendas e dogmas antigos, de deixar para trás Zeus e Poseidon, e os deuses do antigo Egito, readaptando personagens dessas crenças, as religiões foram se transformando através dos séculos. Era evidente que a unificação, diante de tantas divindades, parecia uma trilha mais inteligente a seguir. Fazia mais sentido um só Deus, criador de tudo no Universo, que nem se sabia ainda ser tão vasto.


Jesus teria sido condenado e crucificado por crime político, talvez pressionado e revoltado pela cobrança de altos impostos dos invasores romanos. Nada de entregar o ouro a César, era preciso dar a Deus. Como Deus não vinha buscar, não faltaram candidatos a embolsar as ofertas. Deus era, de longe, a melhor explicação para a origem do homem, e ainda oferecia uma proteção divina. Reservar tempo para esse agradecimento era fundamental, e ainda, César não possuía poderes ocultos. Afinal, nem ele tinha explicação para aquelas bolas de fogo, ou meteoros, que ocasionalmente desciam do céu nas noites mais estreladas; muito menos para um cometa esporádico em forma de espada pendurado no céu. Segundo os profetas, que então tinham a ajuda de astrólogos, era iminente a vinda do Messias, o mensageiro de Deus. Uma possibilidade é que Jesus tivesse lutado contra a ocupação romana de Jerusalém e então fundado com seguidores, uma doutrina voltada a um deus que julgava incrivelmente poderoso, pai de todos nós. Um ser que habita o céu, lá longe onde ficam as estrelas, para onde todos nós iríamos depois da morte. Criar suposições é tudo o que podemos fazer. O que não dá para aceitar é a mistura de DNAs de humanos com deuses, isto é descartável, obviamente. Jesus, acusado de charlatanismo, sucumbiu sem a ajuda dos poderes do pai, a quem teria reclamado pelo abandono naquele momento doloroso. Ali estava para os romanos um candidato apropriado para concretizar a profecia.


Recentemente no Iraque, embora em outro contexto, o ditador Saddam Hussein morreu enforcado por crimes políticos. Ele partiu com uma aparente convicção inabalável. Não abandonou sua fé nem na última hora, era tudo o que lhe restava. Indignado esbravejou, Alah é grande! Não surpreendeu a ninguém a falta de socorro ou resposta divina. Era o mesmo discurso da declaração de guerra aos Estados Unidos, aceita pelos países da ONU e por ele. Saddam confiou demais no escudo invisível de Alah. Enquanto isso, soldados muçulmanos morriam em seus tanques, destruídos à distância, sem nem ao menos saber sobre uma tecnologia nova que utilizava mísseis teleguiados. Eles eram observados num espectro de luz diferente, que detecta a fonte de calor dos corpos no escuro, o infravermelho. Como pôde Alah permitir a vitória dos infiéis Cristãos? Como Deus pôde permitir a vitória dos infiéis romanos? Os fanáticos nos aviões que destruíram as torres gêmeas do World Trade Center em Nova York, deixaram a vida de forma estúpida, levando com eles milhares de pessoas inocentes, pensando equivocadamente assim. Qual será o resultado ou a resposta para as suas preces? Se analisarmos cada caso, chegaremos a conclusão de que as orações não mudam o curso dos acontecimentos. Nem para melhor nem para pior. Podemos observar isso a todo momento. Nos atentados em Nova York, talvez a maior tragédia do mundo moderno, uma infeliz constatação: tanto nos aviões quanto nos edifícios, principalmente para as pessoas que ficaram acima da explosão, a esperança de um milagre era enorme, maior do que qualquer pedido desesperado que alguém possa ter sonhado em fazer. O que estava acontecendo ali chocou instantaneamente o mundo todo. Via satélite aquilo era absurdamente real. Todos rezaram para que não houvesse mais perdas humanas, para que tudo terminasse bem. Um acidente inacreditável. Como poderia um piloto de um avião comercial ter atingido um edifício em Manhattan? Logo em seguida ficamos sabendo que quem pilotava os aviões era mais fanaticamente religioso do que a maioria dos que estavam assistindo. Eram estupidamente religiosos a ponto de imaginar que estavam fazendo aquilo em nome do deus em que acreditavam.


Pessoas completamente inocentes, no cotidiano de suas vidas, foram atacadas por psicóticos religiosos. O mundo descobre um perigo real escondido no manto sagrado. E as preces não foram ouvidas. Sem nenhum socorro divino, os negros africanos durante a escravidão, os judeus, dizimados pelos nazistas, foram vítimas das decisões ignorantes do homem. A aids e outras doenças ceifam milhões de vidas humanas, devastando famílias. Há um ditado que diz: pior que não enxergar é não querer ver. Homens-bomba lideram o absurdo do ponto a que se pode chegar com o fanatismo religioso. Glorificar um deus, reunir-se com esse propósito, há de ficar claro para essas pessoas, que elas se comportam como os antigos adoradores de vulcões, temerosos daquele poder assustador.


A religião, que alguns seguem como filosofia de vida - afinal é bom que se tenha uma - não é tão benéfica como querem afirmar. Em primeiro lugar pela exploração financeira, que está evidente e muita gente se recusa a ver. Os fiéis ou contribuintes são induzidos pelo discurso obscuro a ajudar o líder espiritual, uma espécie de mediador terráqueo do Criador, a prosperar e espalhar aquela doutrina adiante. A ilusão que a religião provoca nessas pessoas, pensando que são diferentes e que só existem por criação divina, por isso devem submeter-se ao Criador, dá espaço para os espertalhões faturarem, e muito. O poderio financeiro dessas instituições pode conquistar uma nação em pouco tempo. Os números impressionam. É grande o crescimento do patrimônio desses senhores engravatados que aparecem o dia inteiro na televisão choramingando a palavra de um hipotético Deus, extremamente improvável. Discursam apaixonadamente até chegar ao real objetivo de tudo, a eventual oferta em dinheiro. E eles agem sem infringir nenhuma lei. Não caracteriza extorção nem formação de quadrilha, quando o assunto é religião. Tudo pode em nome de Deus. Invente a sua. A religião é um grande negócio respaldado na lei e alcançou um patamar intocável, isenta de impostos. Num discurso disfarçado e indutivo, eles pedem só para aqueles para os quais Jesus estaria, naquele momento, tocando ao coração. E quem não gostaria de ser aquele, por precaução. A liberdade religiosa está garantida na Constituição do país; a extorção, a expropriação, esperamos que não. Um dia, a liberdade de não acreditar é que poderá estar cerceada. Ser ateu poderá ser economicamente inviável num futuro próximo, e já é para algumas pessoas que ousam discordar do estabelecido. Politicamente é um suicídio. Num debate eleitoral, perguntaram ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, se ele acreditava em Deus. Homem inteligente e esclarecido, a honestidade falou mais forte. A resposta evasiva naquele ano, lhe custou o cargo. Quando um político responde afirmativamente a essa pergunta, que acredita, no mínimo está atestando sua falta de informação; é ingênuo, ou de maneira malévola quer agradar o eleitorado mal-informado para se eleger.


Mas nem tudo está perdido, ainda há esperança. O Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, embora se declare religioso, fez um discurso histórico sobre religião diante de uma igreja durante a campanha presidencial. Assumiu a neutralidade, citando literalmente as contradições bíblicas sobre justiça, e lembrou aos religiosos que aqueles que não seguem suas crenças tem os mesmos direitos diante do Estado. Reafirmou a condição inegociável diante do direito de um Estado laico, separado das religiões. E se elegeu. A religião pode sim ser perigosa. Pode estar comprometida com ações beneficentes e filantrópicas, mas serve também de disfarce para o terrorista, para o enganador, para o corrupto, e para o explorador, que muitas vezes pode estar disfarçado em pele de cordeiro. Na ausência de um Deus criador, essa é a última fronteira para a atuação dos espertos, que tem como objetivo o lucro fácil. Uma indústria com um produto virtual, defendido pela eloquência e pela retórica, pronta para ser explorada com objetivo comercial.


Os religiosos brasileiros Sônia e Estevam Hernandes que se intitulam bispos ou apóstulos, fundadores de uma grande seita religiosa que começou em reuniões informais em casas de famílias, foram presos nos Estados Unidos portando dinheiro ilegal em dólar, escondido na própria Bíblia. Seus rendimentos são produto direto e indireto de “ofertas” espontâneas, que impulsionam hoje um império de atividades ligadas ao culto. Argumento nenhum convenceria um juíz bem preparado sobre sua inocência, a menos que houvesse tolerância e complacência com a forma pela qual é praticada essa espécie de extorção psicológica através do discurso religioso. Muitos estão nadando no dinheiro dos fiéis ingênuos, enganados por uma velha tradição. Aviões particulares, mansões no Brasil e no exterior, contas bancárias milionárias, proprietários de grandes canais de comunicação, tudo desvio de dinheiro de doações filantrópicas. Os seguidores dessas pessoas ainda concordam com essa extravagância, pois estão dominados pela ideologia que lhes parece a mais correta até então. Deixem o homem aproveitar suas dádivas, afinal foi Deus quem deu a ele esta oportunidade, concluem. Enquanto o escolhido está desfrutando de uma renda milionária que provém de uma atividade recheada de indução à filosofia de que se deve doar parte de seus bens para aquela causa, tudo em cima de lendas bíblicas inteiramente improváveis e refutáveis, muitos dos fiéis comem o pão que o diabo amassou. É o golpe do século ou, melhor ainda, do milênio. O país deixa que se espalhe por aqui uma espécie de vírus virtual que se instala na mente das pessoas e bloqueia a realidade em favor de um mundo imaginário, um mundo controlado por deuses e atormentado por demônios, como escreveu Carl Sagan no livro O mundo assombrado pelos demônios, que tem como subtítulo, A ciência vista como uma vela no escuro. Segundo o professor de astronomia da USP, Roberto Dias da Costa, especialista em nebulosas planetárias, em conversa informal durante uma entrevista para a TV, o livro de Sagan deveria fazer parte do currículo escolar brasileiro, tamanha sua importância – com o que concordo plenamente. A astronomia também.


Mais recentemente Richard Dawkins no livro Deus, um delírio aplica um golpe de mestre na crença sem fundamento. Deus não existe, afirma, baseado nos estudos da Evolução das espécies, o grande legado de Darwin, que explica racionalmente como os seres vivos evoluíram nesse planeta, e acertadamente como se adaptaram ou pereceram por bilhões de anos, sem a necessidade de intervenção divina. Nas histórias de Jesus, seguramente adaptadas, há uma exploração de ensinamentos, o que pode ser comparado a filosofias como a de Buda, e dessa forma ela é recebida como exemplos a serem seguidos, e isso é uma forma positiva do cristianismo. Toda a forma fantástica como é explorada não apresenta evidências nem tem credibilidade, é bom que se saiba. Antes de Cristo, havia na Grécia muito mais deuses. Zeus, era o Deus dos deuses, o regente. Hoje restam em Atenas as ruínas do seu templo sagrado. Zeus também teve casos amorosos com humanas que deram à luz filhos semideuses. Seria apenas coincidência? Na Roma antiga, Zeus era chamado de Júpiter, que mais tarde deu nome ao maior planeta do Sistema Solar. Poseidon com seu triton era o deus dos mares. Na Itália, virou Netuno, que também batizou o planeta. Eram mais de vinte. Hoje, no começo do terceiro milênio, por que a insistência com ideias lendárias? A quem interessa o fortalecimento das religiões? Aos ditadores, que pela alienação controlam as massas? Aos governantes alienados que não proporcionam as necessidades básicas para um ser humano que vem ao mundo, e não tem o que comer, principalmente nas grandes cidades? Só resta às pessoas, sem respaldo político, o apelo aos céus; ao impossível.


Quando visitei Israel, fui ver de perto os locais bíblicos, num ônibus de turismo que percorre vários pontos de interesse na grande Jerusalém, especialmente o suposto local do nascimento de Cristo em Betlehem, ou Belém, na Cisjordânia. Depois de algumas barreiras com militares fortemente armados, isoladas por rolos de arame farpado na estrada, e de uma loja de souvenirs de peças sacras, chegamos a uma igreja. O grupo desceu uma escadaria escura, onde havia muitas velas acesas, até uma espécie de lareira com uma estrela de cerâmica no piso. Era a estrela de Davi. “Diz a lenda que Jesus nasceu aqui”, explicou o guia. Quando subimos, poucos minutos depois pelo outro lado para o interior da igreja fiquei surpreso com os tipos de sacerdotes que circulavam por ali; não eram os que estamos acostumados a ver. Eram gregos ortodoxos, com suas batas marrons, sandálias, chapéus pretos tipo gourmet, e barbas enormes tradicionais. Só ali me dei conta que aquele local considerado sagrado pelos cristãos não pertencia à Igreja Católica. Na saída, meninos pobres corriam atrás dos turistas pedindo esmolas. Pareciam cópias do menino Jesus, com suas longas vestes. O lugar que imaginei como o paraíso na Terra, onde o filho do criador nasceu, não reflete a imagem que se faz dele. Nada ali me convenceu disso. E assim, por todos os lugares que passávamos, o guia, que era judeu, explicava; “diz a lenda que João Batista foi batizado ali, naquele rio, vê?”. Em seguida apontava o Monte das Oliveiras. E todos os lugares se pareciam como outros quaisquer no mundo, não havia nada de especial. Fiquei imaginando as dificuldades que teria um homem montado num jumento, viajando por aqueles terrenos acidentados e secos, com um sol intenso sobre a cabeça, para chegar até o Egito. Obviamente as caravanas se deslocavam à noite, e dá para imaginar o esplendor do céu, com seus ocasionais meteoros riscando a noite, sendo interpretados como sinais divinos. Uma inspiração e tanto. Se todos os homens são produto de uma evolução, e isso é fato, como poderia alguém ter vindo do céu? E por que seu corpo iria voltar para lá, elevando-se misteriosamente sem propulsão, num desafio à lei da gravidade. Como podem acreditar em algo tão impossível?


download em smashwords.com


CapĂ­tulo 8 O mensageiro dos deuses

Cometa Hale-Bopp em 1995. Foto: cortesia de Philipp Salzgeber. http:/www.salzgeber.at.


Capítulo 9 As pirâmides

Estátua do Faraó Amenophis III, no Vale dos Reis em Luxor, antiga Tebas, Egito.


Os faraós, ao contrário da lenda Cristā, realmente existiram, e lá estão todos aqueles monumentos fenomenais que não escondem um passado grandioso. Eram homens que acreditavam em vida eterna depois da morte. A analogia era de acordo com o Sol, que todo dia voltava a nascer a leste do rio Nilo, a dádiva de um povo oprimido pela secura do deserto do Sahara. Parecia haver um túnel subterrâneo, por onde o Sol retornava depois de morrer a oeste. As pirâmides serviam apenas de túmulos para os faraós, uma derradeira tenda protetora dos raios do Sol. Foi à beira do Nilo que se deu a invenção da escrita em papiros, o precursor do papel, há cerca de quatro mil anos. Surgiram os primeiros escribas que passaram a relatar as cheias do rio, as colheitas, as medições, os fatos e pensamentos do povo egípcio. A visão faraônica de vida após a morte é compartilhada ainda hoje. Ao menos, deixamos de lado a mumificação, embora nossos túmulos sejam bem parecidos com os sarcófagos do Nilo. Uma máscara de ouro, reluzente como o Sol, foi colocada em Tutankamón para que o jovem faraó morto prematuramente fosse reconhecido e devolvido à vida pelos deuses. Para ajudar na travessia, foram depositados em seu túmulo roupas, adornos, um barco dourado, joias, comida, tudo o que pudesse ser útil até o retorno. De alguma forma eles estavam certos. Apesar de continuarem embalsamados no museu do Cairo, estão vivos na memória da humanidade e não seria surpresa se um dia talvez fossem até clonados.


A história do antigo Egito ficou por muito tempo escondida nas areias do deserto. Suas riquezas arqueológicas eram disputadas por pesquisadores nos anos de 1800, quando Inglaterra e França mandavam exploradores atrás de obras para seus museus. E com as peças, todas aquelas figuras exóticas que até então ninguém conseguia decifrar. A vida de Jean-François Champollion, o francês que conseguiu ler pela primeira vez os hieróglifos, é mais um exemplo de empecilho para o avanço do conhecimento. Essa história foi mostrada no brilhante documentário sobre o Egito produzido pela BBC, no episódio O mistério da Pedra de Rosetta. Champollion, um grande estudioso de línguas antigas, algumas delas praticamente mortas, sonhava entender os códigos da escrita egípcia, porque ali poderia estar registrada a história da humanidade, desde praticamente o surgimento de Adão e Eva, ou da ocorrência do dilúvio, pelo que se deduzia da cronologia bíblica. Acontece que as descobertas, como a pedra do zodíaco de Dendera, encontrada no teto de um templo próximo a Tebas, poderiam colocar em dúvida o dilúvio, que segundo a Bíblia havia ocorrido no ano 2349 a.C. e destruíra toda a vida na Terra, com exceção dos que estavam na arca. A Bíblia era considerada até então um documento histórico e a descoberta de civilizações intactas antes e depois da catástrofe ameaçava a autoridade da Igreja e a palavra de Deus, pois todas elas teriam sido varridas do mundo. A fama de Champollion já corria no Vaticano, desde que o jovem pesquisador do antigo Egito havia sido escolhido pelo rei da França para avaliar na Itália coleções egípcias pretendidas para o museu do Louvre. Havia uma controvérsia a respeito da idade da pedra de Dendera, que poderia ter mais de dois mil anos, e Champollion foi chamado para opinar como cientista, pela imparcialidade, sobre a questão que era acompanhada por um abade preocupado com a revelação de algo que pudesse contrariar as Escrituras. Lendo os cartuchos inscritos na pedra, deduziu que ela não tinha mais de 1500 anos, para alívio da Igreja. Foi por essa proeza e por seu trabalho de avaliador e, mais tarde, criador da ala egípcia do museu do Louvre que Champollion se qualificou para pedir patrocínio para uma viagem a terra dos faraós, e assim completar seu trabalho de tradução e pesquisa. Negociadas as necessidades para a viagem exploratória até o extremo sul do


Egito, surgiu uma última surpreendente condição para que a viagem fosse autorizada. O rei estava sendo pressionado por um abade enviado pelo papa Leão XII para que o patrocínio fosse negado. Segundo o Vaticano, Champollion não estaria interessado no Egito, mas sim em atacar as crenças cristãs. O jovem pesquisador rebateu que seus interesses eram puramente científicos, e que estava unicamente em busca da verdade. A condição exigida pela corte francesa era de que se encontrasse algo que contrariasse os ensinamentos da Igreja, Champollion não deveria publicar. Sem escolha, partiu Jean-François para uma aventura que definitivamente colocaria a história egípcia ao alcance das novas gerações. A grande pirâmide de Gizé havia sido construída num período de vinte anos, e concluída no ano 2560 a.C. e serviu de túmulo para o faraó Khufu (Quéops). Na tumba de Menofre, Champollion fez uma descoberta que o deixou abalado. Os registros eram anteriores ao dilúvio de Noé. A dinastia já existia antes da inundação e não havia sido afetada por ela, uma conclusão que desafiava a Bíblia. Uma bomba para o ano de 1828, mas que Champollion guardou escrita apenas em seu diário secreto.


Os templos egípcios eram maravilhosas estruturas de paredes de pedras maciças com fileiras de colunas gravadas com hieróglifos e imagens religiosas. O templo era a morada dos deuses. As pessoas comuns só podiam ficar no pátio. Nas salas escuras dos templos os sacerdotes realizavam rituais sagrados. Como outros povos antigos os egípcios acreditavam que todos os eventos eram controlados por deuses. Os egípcios cultuavam nada menos que 740 deuses, embora um pequeno número deles fosse cultuado no mesmo lugar e época. Todas as forças da natureza eram representadas por deuses e deusas. Fazendo oferendas e usando amuletos, esperavam por uma vida mais feliz e também tinham esperança de que os deuses os ajudariam na vida depois da morte. Acreditavam ainda que muitos deuses viviam na Terra dentro dos animais. A esfinge com cabeça de carneiro representava o deus Amun. Thoth, o deus da escrita e da sabedoria tinha cabeça de Íbis, a garça, uma ave que os egípcios consideravam esperta. Anúbis, o deus da morte e do embalsamento, tinha cabeça de chacal, uma espécie de cão que tem o costume de desenterrar ossos. O enorme crocodilo do rio Nilo, responsável por inúmeras mortes era adorado como o deus Sobek. Os hipopótamos eram temidos por virar barcos e eram associados ao deus do mal, Seth. Matar um hipopótamo era considerado uma vitória do bem sobre o mal. Os jovens os caçavam com lanças. Horus o deus do céu tinha a forma de um falcão. Os faraós eram associados aos deuses do Sol e do céu. Os egípcios acreditavam que os faraós eram deuses vivos. Só eles tinham poder para unir o país e manter a ordem cósmica. Eles acreditavam que quando morressem alcançariam a vida eterna, não só para eles, mas para todo seu povo. O poder do faraó era absoluto; ele estabelecia os impostos, julgava crimes, chefiava os exércitos e controlava os templos. O Sol, fonte de todo calor e luz, era cultuado desde tempos antigos como um Deus. De que outra forma poderia ser interpretada tamanha força e fonte de energia?


Atualmente o Egito tem maioria islâmica. Pelas ruelas de Aswan, bem ao sul do país, diariamente ecoam orações em árabe das cornetas das mesquitas. A crença nas escrituras sagradas do Alcorão é amplamente difundida e aceita. Em conversa com um simpático egípcio no navio que desce o rio Nilo desde Luxor, fiquei sabendo tranquilamente que todos os ocidentais já estão condenados ao inferno por não seguirem o Islã. A escolha é nossa. No Cairo num bate papo, uma moça pareceu convicta contrariada e indignada quando comentei que o episódio da Bíblia sobre Jonas ter sobrevivido dentro de uma baleia, que ela havia citado, fosse obviamente falso, não poderia passar de uma lenda. Às margens do deserto de Sahara, deslizando rumo ao sul do Egito, observando pastores com suas cabras, templos milenares, costumes preservados, o tempo parece permanecer parado, de uma época gloriosa da humanidade, que pode ser revivida ainda hoje.

No templo de Luxor no Egito, com as estátuas do filho do deus Sol Rá, faraó Ramsés II.


Capítulo 10 Albert Einstein, o gênio da luz

“Os ideais que iluminaram o meu caminho são a bondade, a beleza e a verdade.” Albert Einstein


Capítulo 11 Os pioneiros: Ptolomeu, Tycho Brahe, Johannes Kepler e Nicolau Copérnico

Nicolaus Copernicus. Conversation with God, quadro do pintor polonês Jan Matejko, Jagiellonian University Museum.


Vale a pena conhecer a história de alguns dos homens que contribuiram para o vasto conhecimento que acumulamos nos últimos séculos sobre o mundo a nossa volta. Ptolomeu, um dos maiores astrônomos e geógrafos do mundo antigo viveu entre os anos 165 e 100 a.C. Pesquisadores presumem que Claudius Ptolomeu fez suas observaçōes astronômicas em Alexandria, no Egito, por volta de 150 a.C. Seus trabalhos matemáticos eram tão admirados que ficaram conhecidos como o Almagest, que significa O Maior.


Capítulo 12 Galileu Galilei: a revelação

“A verdade é filha do tempo, e não da autoridade.” Galileu Galilei


O físico e astrônomo italiano Galileu Galilei utilizou pela primeira vez na história um telescópio para observar o céu, no ano de 1609. Foi quando a humanidade começou a entender como era a Lua, e viu através dele outros planetas do Sistema Solar. As quatro luas de Júpiter, nunca avistadas antes, tiraram da Terra o privilégio de estar no centro de tudo. Como essas informações não estavam escritas no Livro Sagrado, os religiosos desconfiaram daquelas descobertas e tentaram boicotar a divulgação dessas heresias – ideias discordantes do credo religioso. Menos sorte teve, alguns anos antes, Giordano Bruno, condenado e morto numa fogueira em praça pública em Roma, sentenciado pela Inquisição comandada pelo mesmo cardeal, Roberto Bellarmino. Giordano Bruno, um filósofo italiano que havia estudado como seminarista, também era simpatizante da teoria copernicana, do Sol no centro do sistema e não a Terra. Por esse raciocínio se convenceu de que existia uma infinitude de outros mundos e de outras vidas no Universo, além do nosso planeta. Isto implicava duvidar de que Deus houvesse feito tudo em favor do homem. Poderia implicar a existência de outros deuses, descaracterizando o monoteísmo oficial da Igreja. Obrigado a ouvir ajoelhado a sentença de seus juízes, Giordano Bruno proferiu suas famosas últimas palavras na praça Campo dei Fiore, em 8 de fevereiro de 1600: “Talvez vocês sintam maior temor ao pronunciar esta sentença do que eu ao ouvi-la”. E antes de ser queimado, teve a língua pregada para “parar de blasfemar”. O extremo da sentença mostrou até que ponto a Igreja podia chegar com sua tolerância para com os hereges. A Inquisição da Igreja Católica poderia eliminar até mesmo pensadores famosos, se ousassem discordar dos dogmas sagrados.


Giordano Bruno, Campo dei Fiore, Roma. Foto Augusto Xavier.

Os cientistas acreditavam que era verdadeira a teoria do heliocentrismo, mas a Igreja se sentiu rebaixada em seu posto, junto com o homem e a Terra. Que medo era esse em relação à verdade? Seria simplesmente o desejo de fortalecer a falsidade da instituição ou o temor da perda de poder? Com a morte de Giordano Bruno na fogueira santa, e a condenação de Galileu à prisão domiciliar perpétua, a ciência começou a se afastar da Igreja cada vez mais. Giordano Bruno escreveu cerca de vinte livros e a proibição deles para os católicos só foi retirada em 1948. O medo do castigo, não apenas do inferno, permaneceu por séculos. A Igreja protestante, reformada em outros países, permitiu mais tarde que a ciência florescesse novamente. Em 1979, com atraso de 346 anos, o papa João Paulo II declarou pela primeira vez que a Igreja católica poderia ter se enganado condenando Galileu. Foi então formada uma comissão para estudar o caso. Em 1983, a comissão concluiu


que ele nāo deveria ter sido condenado. Em 1984, com a recomendação da comissão, a Igreja publicou todos os documentos relacionados ao julgamento de Galileu. Em 1992, o papa João Paulo II publicamente apoiou a conclusão de que a Igreja havia mesmo cometido um erro ao condenar Galileu. Sobre Giordano Bruno a Igreja só deplorou a execução, mas não os motivos que levaram à terrível condenação. A praça Campo dei Fiore tem hoje uma estátua de bronze de Giordano Bruno, uma homenagem ao homem que é considerado o pioneiro da filosofia moderna e um mártir do pensamento livre. Galileu é considerado o fundador da ciência experimental moderna. Ao ser perseguido pela Igreja por suas conclusões que sabia serem corretas, Galileu escreveu estas palavras proféticas: “De todos os ódios, nenhum supera o da ignorância contra o conhecimento”.


Capítulo 13 A modéstia de Isaac Newton

“Se eu vi mais longe, foi por estar de pé sobre ombros de gigantes.” Isaac Newton


Capítulo 14 Edwin Hubble: assim na Terra como no Céu

As mais longinquas galáxias do Universo, observadas pelo Hubble. Mais de 5.500 delas num único ponto no céu. Foto: NASA, ESA, G. Illingworth, D. Magee, and P. Oesch (University of California, Santa Cruz), R. Bouwens (Leiden University), and the HUDF09 Team.


Capítulo 15 Carl Sagan: O mensageiro do Cosmos

Copyright © 1980 Druyan-Sagan Associates, Inc. Reproduzido com permissão de Druyan-Sagan Associates, Inc. Esse material não poderá circular sem a permissão por escrito de Druyan-Sagan Associates, Inc. Todos os direitos reservados.


CapĂ­tulo 16 O mapa das estrelas

Aglomerado de estrelas, Lua, Saturno, Marte, Jupiter e a nebulosa de Ă“rion. Fotos Augusto Xavier.


Epílogo O ateísmo moderno O ateísmo hoje tem uma conotação muito diferente de alguns anos atrás. A palavra deriva do grego antigo Atheos, formada pelo prefixo “a”, que significa ausência, e pelo sufixo radical teu, do grego “theos”, que significa Deus. A palavra significa sem Deus. O ateu moderno está fundamentado em observações transmitidas por inúmeros pensadores através dos séculos. O homem ultrapassou muitas barreiras no último milênio. Descobertas espetaculares colocaram em xeque o pensamento estabelecido e com muita propriedade. O homem chegou até a Lua, deixou pegadas por lá e trouxe na sacola centenas de quilos de rochas que puderam ser analisadas com os mais avançados instrumentos de datação. Colocamos um olho gigante em órbita, aterrissamos em Marte, sobrevoamos os vulcões de Io, e estamos a caminho de Plutão, onde chegaremos em 2015. Ainda estamos na metade do caminho, desde o lançamento da New Horizons, pela NASA, em janeiro de 2006. Que descobertas mais esse extraordinário encontro com um mundo perdido poderá trazer? Muitas dessas conquistas fizeram com que o homem comum começasse a se questionar sobre a verdadeira origem de tudo. As contradições ajudaram a florescer a dúvida. A figura do ateu deixa de ser o estereótipo do Anticristo. Como poderia ele ser contra alguém tão improvável quanto Cristo? Como poderia ele ser comparado a uma figura tão fictícia quanto o diabo? São apelações desesperadas, tanto quanto foram as tentativas de restrições a Champollion, Galileu, Giordano Bruno, Darwin e tantos outros. O ateísmo, que como a ciência não é uma instituição, não persegue ninguém, não desrespeita quem quer seguir tradições, não agride e nem ataca para sustentar pontos de vista. É apenas isso; opiniões sobre o assunto, conclusões com embasamento.


Essa eterna luta da Igreja para silenciar opositores leva a induzir seguidores a menosprezar os ateus, na tentativa de antecipadamente minar esse posicionamento. Recentemente em visita ao Reino Unido, o papa Bento XVI culpou os ateus pelas atrocidades de Hitler e outras do século XX, em Edimburgo, na Escócia. Richard Dawkins, autor de Deus, um delírio, reconhecido por isso como um ícone do ateísmo, fez um protesto público contra as palavras do papa, lendo uma carta em que repudia o discurso do pontífice. O protesto publicado no Youtube, diante de uma pequena multidão, não teve na imprensa a mesma repercussão. Por isso, traduzo aqui algumas partes do discurso.


Dawkins começa dizendo que a princípio ficou contente com aquilo, porque de certa forma isso demonstra que o ateísmo os incomoda tanto “que ele foi forçado a esse expediente infame de nos atacar, certamente para desviar a atenção dos verdadeiros crimes que foram cometidos em nome da Igreja católica”. E continua dizendo: “Eu posso imaginar as discussões nos corredores do poder do Vaticano: Como vamos distraí-los das sodomias com garotos?” E vem a resposta: “Por que não atacamos os ateus? por que não os culpamos pelo hitlerismo?” E continua Dawkins, revelando: “Adolph Hitler foi um católico romano. Foi batizado e nunca renunciou a seu batismo.” E faz uma comparação lógica: “A marca de 5 milhões de britânicos católicos é retirada presumivelmente dos registros de batismo. Eu não acredito nisso, pode haver 5 ou 6 milhões de britânicos batizados, isso sim, mas se a Igreja quer reivindicá-los como católicos, então terá de reivindicar Hitler como católico”. Ao que a multidão presente interrompeu com aplausos efusivos. E ele continua sobre o assunto: “No mínimo, Hitler acreditava numa personificada Providência, ele sempre falava disso. E era presumivelmente a mesma Providência que foi invocada pelo cardeal arcebispo de Munique em 1939 quando Hitler escapou de um assassinato e o cardeal ordenou um Te Deum especial na catedral de Munique, para agradecer à divina Providência, em nome da arquidiocese, pela escapada feliz do Führer”. E complementa: “Mesmo que Hitler tivesse sido um ateu – como Stalin mais provavelmente era – como ousa Ratzinger sugerir que o ateísmo tem qualquer conexão, ou o que seja, com aqueles atos terríveis?” E diz ainda que não mais que a descrença de Hitler e Stalin em duendes e unicórneos, entre outos, não há nenhum caminho lógico do ateísmo para a maldade. “A menos que, note bem, você esteja imerso na repulsiva obscenidade que é o cerne da teologia católica.” E cita os religiosos que acreditam e ensinam às criancinhas a terrível falsidade do inferno, no pecado original. “Esse seria o pecado de Adão; por falar nisso, o mesmo Adão que, eles mesmos admitem agora, nunca existiu.” No mesmo discurso de protesto, Dawkins afirma que Joseph Ratzinger é um inimigo da humanidade; inimigo das criaças que foram estupradas por padres pedófilos, “inimigo dos homossexuais, conferindo a eles o tipo de intolerância que a


sua Igreja costumava reservar aos judeus, antes de 1962”. E afirma ainda, entre outros, que ele é inimigo da ciência, “obstruindo a pesquisa vital com células-tronco, desta vez baseado não na moralidade, mas na superstição pré-científica”. Dawkins conclui o protesto parafraseando um trecho de seu próprio livro Deus, um delírio, dizendo que, o que o preocupa mais é que ele seja um inimigo da educação, já que o papa e sua igreja “fomentam a doutrina educativamente perniciosa de que a ‘evidência’ é uma base menos confiável para a crença do que a fé, tradição, revelação e autoridade – a autoridade dele”. Raramente se viu na história, posição tão dura frente uma autoridade da Igreja católica. O que motivou tamanha afronta, sem dúvida foi a falta de respeito para com os ateus do mundo inteiro por parte da Igreja. O ateu não quer se posicionar contra qualquer tipo de seita, não é contra a manutenção de culturas milenares, como as tradições indígenas, por exemplo; deseja apenas que aquele que dança para os deuses da chuva, tome conhecimento, se quiser saber, de que esse método, comprovadamente, não funciona. A verdade é que a hipótese de um Deus já está completamente descartada cientificamente, embora isso possa decepcionar muita gente. É preciso sempre lembrar que a religião cristã não é a única sobre a terra, nem mesmo a mais isenta, ética ou com mais credibilidade. É apenas mais uma tradição milenar. Todo o esforço de um livro como esse talvez não fizesse sentido numa cultura como a da China, por exemplo. Toda a refutação apresentada aqui, para os chineses não significaria nada, simplesmente porque as crenças daquele povo de um país com vastas dimensões e superpopulação são outras. Talvez nem sequer saberiam exatamente do que estamos falando, assim como o ano do Dragão não faz sentido por aqui.


Há muito tempo, consegui substituir todo tipo de crendice por uma visão mais realista do mundo e da vida. Uma linda paisagem, o nascer do Sol, o luar, as estrelas, uma obra de arte, a música, as cores do arco-íris, o amor; nada disso se torna menos encantador sem a presença de um deus. Aliás, sem a presença deles tudo passa a fazer mais sentido. Vivemos numa bolha azul presa numa enorme teia de aglomerados de galáxias na vastidão do Universo. E isso por si só já é um gigantesco privilégio. *****


Sobre o autor Augusto Xavier natural de Santa Maria, RS, é jornalista, formado pelo CEUB de Brasília, em 1985. Trabalhou como apresentador de televisão na RBS - Santa Maria, TV Globo Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Atualmente apresenta o telejornal RedeTVNews, na RedeTV em São Paulo. É astrônomo Amador desde 1990 quando passou a colecionar a revista americana Astronomy e observar o céu com binóculos e telescópios. Entre os lugares que visitou pelo mundo estão o Egito, Indonésia, Japão, Hong Kong, Bangkok, Israel, Estados Unidos, Canadá, vários países da Europa incluindo Grécia, países escandinavos, República Tcheca, Iugoslávia, Inglaterra, França e Itália. O livro Mundo Novo foi inspirado em todas essas experiências.


JĂşpiter e quatro de suas luas; Ganimedes, Europa Io e Calisto, como foram avistadas por Galileu em sua pequena Luneta. Foto: Augusto Xavier


No Observat贸rio Griffith em Los Angeles, Calif贸rnia, com o Sojourner, r茅plica do carrinho que foi para Marte. Foto: Renata Piovesana.


Quando vi pela primeira vez a Lua em meu telesc贸pio, fui fisgado. N茫o haveria volta; seria para sempre um astr么nomo. Foto: Augusto Xavier - Celestron 8.

Mundo Novo  

A expansão dos horizontes pela astronomia

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you