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Papo Jovem

A verdade sobre o Crepúsculo

Entrevista

Confissão: o Sacramento da alegria

A Voz da Igreja

Direitos, deveres e o bem comum

Raniero Cantalamessa, OFM Cap | Pregador da Casa Pontifícia

Espiritualidade | Trindade revela o segredo das belas relações humanas


E D I T O R I A L

A importância dos limites na educação dos filhos

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ducação dos filhos. Sabemos que a realidade é desafiante: pais que chegam em casa cansados, estressados... O que fazer para educarmos bem? O que para nós é educar um criança? O que é preciso para sermos fiéis a esta primeira missão enquanto pais e mães? Nesta edição no Assunto do Mês vamos juntos refletir sobre a importância que você dá aos limites na educação dos seus filhos e a grande riqueza de buscarmos aquilo que é realmente essencial em nossas vidas. Confissão: O que é mesmo esse Sacramento e o que deve nos levar a ele? Com que frequência devemos vivenciá-lo? Qual a diferença entre Confissão e aconselhamento espiritual? Tudo isso você vai conferir na Entrevista com Dom Wilson Tadeu Jönck, SCJ, Bispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Encontraremos ainda nesta edição a mensagem do Papa Bento XVI para a XXIV Jornada Mundial da Juventude: “Pusemos a nossa esperança em Deus vivo”. Mais uma vez, o Santo Padre nos alerta quando nos diz que a experiência demonstra que as qualidades pessoais e os bens materiais não são suficientes para garantir a esperança da qual o coração humano está em busca constante. Cristo é nossa esperança! “Ide por todo mundo e pregai o Evangelho a todos os povos”. Como ressoa esse mandato de Cristo hoje em sua vida? Qual a sua resposta diante das necessidades do mundo, que geme e sofre pela “ausência” de Deus? O que você tem feito para evangelizar? Como tem aproveitado as oportunidades para anunciar Cristo? Será que a exemplo de São Paulo está evangelizando oportuna e inoportunamente? Confira no Especial mais um chamado de Deus em sua vida para fazer parte de sua missão. Na seção Espiritualidade, mergulharemos no mistério da Santíssima Trindade, conhecendo melhor esse Deus que tem o amor como essência, que não se cansa de dar-se por amor a nós. Deus é amor constante e fiel, modelo também para nossas relações humanas. Na Palavra do Papa, a bela entrevista do Santo Padre durante a sua ida para África. Perguntas que falam desde sua pressuposta solidão até a perspectiva da Igreja sobre o Continente Africano. Os livros da série “Crepúsculo” já venderam mais de 25 milhões de cópias em todo o mundo, com traduções em 37 línguas. Você pode descobrir o que está por trás dessa série que virou filme, no Papo Jovem. Boa Leitura, Shalom!

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Shalom Maná | Junho/2009

E X P E D I E N T E Coordenação Geral RICARDO MOREL LOPES Cristiano Tuli Coordenação Editorial Andréa Luna valim eliana gomes lima Equipe de Redação Andréa Luna valim andréia gripp eliana gomes Lima José Ricardo F. Bezerra Revisão José Ricardo F. Bezerra Sandra Viana rejane nascimento Editor de Arte AUGUSTO F. OLIVEIRA Gerente Comercial ELIANA GOMES LIMA Assinaturas Lane Marques Jornalista Responsável Egídio Serpa

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SUMÁRIO

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Entrevista

Confissão: o Sacramento da alegria

Humana 26 Formação Eu não sou o Messias!

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Papo Jovem

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Espiritualidade

A verdade sobre o Crepúsculo

Trindade revela o segredo das belas relações humanas

Palavra do Papa 04 AVou à África com

18 Especial Atenção! Precisa-se urgente

e Razão 09 Fé Paulo e a Teologia

do Mês 22 Assunto A importância dos limites

com a Palavra 12 Orando Quem é como Deus?

28 Atualidade “Pusemos a nossa

grande alegria

dos Carismas

e Espiritualidade 14 Arte A Virgem Anunciada

Missão 16 Em Garanhuns-PE celebra cinco anos de missão Shalom

de Missionários!

na educação dos filhos

esperança no Deus vivo”

Voz da Igreja 35 ADireitos, deveres e o bem comum

no Mundo 42 Acontece 22.308 novos católicos na

China desce o começo do ano Reconhecido milagre pela intercessão de Bárbara Maix Santa Sé denuncia nova corrida armentista nuclear

44 Divirta-se Mulheres de destaque na Bíblia O monge mordido

45 Entrelinhas Ana, Simeão e a Juventude www.edicoesshalom.com.br

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a palavra do papa

Vou à África

com grande alegria

Partilhamos com você essa maravilhosa entrevista concedida pelo Santo Padre Bento XVI a alguns jornalistas durante sua viagem aérea para a África. Foram escolhidas perguntas de jornalistas de diversas nacionalidades – italianos, franceses, alemães, e chilenos – que pudessem apresentar um discurso mais completo sobre essa viagem e que pudessem interessar a todos.

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antidade, há tempos, sobretudo, depois da sua última carta aos Bispos do mundo – muitos jornais falam de “solidão do Papa”. Que pensa sobre isto? Sente-se sozinho?E com que sentimentos, depois das recentes vicissitudes, voa agora para a África conosco? Na realidade, devo dizer que me vem um pouco vontade de sorrir sobre este mito da minha solidão: de modo algum me sinto sozinho. Todos os dias recebo nas visitas programadas os colaboradores mais estreitos, começando pelo Secretário de Estado até à Congregação de Propaganda Fide, etc.; vejo depois todos os chefes das Congregações regularmente, todos os dias recebo Bispos em visita “ad limina” – ultimamente todos os Bispos, um

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depois do outro, da Nigéria, depois os Bispos da Argentina... Tivemos duas plenárias nestes dias, uma da Congregação para o Culto Divino e a outra da Congregação para o Clero, e depois colóquios amistosos; uma rede de amizade, também os meus concelebrantes de missa da Alemanha vieram recentemente por um dia, para falar comigo... Portanto, a solidão não é um problema, estou realmente circundado de amigos numa maravilhosa colaboração com Bispos, colaboradores, leigos e por isto estou grato. Vou à África com grande alegria: eu amo a África, tenho muitos amigos africanos já desde os tempos em que era professor até aos dias de hoje; amo a alegria da fé, esta fé jubilosa que se encontra na África. Vós sabeis que o mandato do


Senhor para o Sucessor de Pedro é “confirmar os irmãos na fé”: eu procuro fazê-lo. Mas estou certo de que regressarei eu mesmo confirmado pelos irmãos, contagiado – por assim dizer – pela sua fé jubilosa.

Tenho uma visão mais positiva da Igreja na África: é uma Igreja muito próxima dos pobres, uma Igreja com os sofredores, com pessoas que têm necessidade de ajuda e, portanto, parece-me que a Igreja é realmente uma instituição que ainda funciona, quando outras estruturas já não funcionam, e com o seu sistema de educação, de hospitalidade, de ajuda, em todas as situações, ela está presente no mundo dos pobres e dos sofredores.”

Vossa Santidade vai em viagem à África no momento em que se está a verificar uma crise econômica mundial que tem reflexos também nos países pobres. Aliás, a África neste momento tem que enfrentar uma crise alimentar. Gostaria de perguntar três coisas: esta situação encontrará eco na sua viagem? Vossa Santidade apelar-se-á à comunidade internacional para que assuma os problemas da África? E, a terceira coisa, falar-se-á destes problemas também na Encíclica que está a preparar? Obrigado pela pergunta. Naturalmente, eu não vou à África com um programa político-econômico, para o qual me faltaria a competência. Vou com um programa religioso, de fé, de moral, mas precisamente isto é também uma contribuição essencial para o problema da crise econômica que vivemos neste momento. Todos sabemos que um elemento fundamental da crise é precisamente um deficit da ética nas estruturas econômicas; compreendeu-se que a ética não é uma coisa “fora” da economia, mas “dentro” e que a economia não funciona se não tiver em si o elemento ético. Portanto, ao falar de Deus e dos grandes valores espirituais que constituem a vida cristã, procurarei dar um contributo precisamente também para superar a crise, para renovar o sistema econômico a partir de dentro, onde está o centro da verdadeira crise. E, naturalmente, apelar-me-ei à solidariedade internacional: a Igreja é católica, isto é, universal, aberta a todas as culturas, a todos os continentes; está presente em todos os sistemas políticos e assim a solidariedade é um princípio interno, fundamental para o catolicismo. Naturalmente gostaria de dirigir um apelo antes de tudo à própria solidariedade católica, fazendo-o extensivo contudo à solidariedade de todos os que veem a sua responsabilidade na sociedade humana de hoje. Obviamente falarei disto também na Encíclica: este é um motivo do atraso. Estávamos prestes a publicá-

la, quando se desencadeou esta crise e retomamos o texto para responder mais adequadamente, no âmbito das nossas competências, no contexto da Doutrina Social da Igreja, mas com referência aos elementos reais da crise atual. Assim espero que a Encíclica possa ser também um elemento, uma força para superar a difícil situação presente.

O Conselho especial do Sínodo dos Bispos para a África pediu que o grande crescimento quantitativo da Igreja africana se torne também um crescimento qualitativo. Por vezes, os responsáveis da Igreja são considerados como um grupo de ricos e privilegiados e os seus comportamentos não são coerentes com o anúncio do Evangelho. Vossa Santidade convidará a Igreja na África a um compromisso de exame de consciência e de purificação das suas estruturas? Tenho uma visão mais positiva da Igreja na África: é uma Igreja muito próxima dos pobres, uma Igreja com os sofredores, com pessoas que têm necessidade de ajuda e, portanto, parece-me que a Igreja é realmente uma instituição que ainda funciona, quando outras estruturas já não funcionam, e com o seu sistema de educação, de hospitalidade, de ajuda, em todas as situações, ela está presente no mundo dos pobres e dos sofredores. Naturalmente, o pecado original está presente também na Igreja; não existe uma sociedade perfeita e por conseguinte há também pecadores e deficiências na Igreja da África, e neste sentido um exame de consciência, uma purificação interior é sempre necessária, e recordaria também neste sentido a liturgia eucarística: começa-se sempre com uma purificação da consciência, e um novo recomeçar na presença do Senhor. E diria, mais do que uma purificação das estruturas, que é sempre também necessária, é preciso uma purificação dos corações, porque as estruturas são o reflexo dos corações, e nós fazemos o que é possível para dar uma força renovada à espiritualidade, à presença de Deus no nosso coração, quer para purificar as estruturas da Igreja, quer também para ajudar a purificação das estruturas da sociedade. www.edicoesshalom.com.br

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Estamos convictos de que toda esta sobriedade, este realismo que anuncia um Deus que se fez homem, por conseguinte um Deus profundamente humano, um Deus que sofre, também conosco, dá um sentido ao nosso sofrimento para um anúncio com um horizonte mais vasto, que tem mais futuro.” Quando Vossa Santidade se dirige à Europa, fala com frequência de um horizonte do qual Deus parece desaparecer. Na África não é assim, mas existe uma presença agressiva de seitas, existem as religiões tradicionais africanas. Qual é então a especificidade da mensagem da Igreja católica que Vossa Santidade deseja apresentar neste contexto? Então, primeiro reconheçamos todos que na África o problema do ateísmo quase não se apresenta, porque a realidade de Deus é tão presente, tão real no coração dos africanos que não crer em Deus, viver sem Deus não parece uma tentação. É verdade que existem também os problemas das seitas: nós não anunciamos, como fazem alguns deles, um Evangelho de prosperidade, mas um realismo cristão. Estamos convictos de que toda esta sobriedade, este realismo que anuncia um Deus que se fez homem, por conseguinte um Deus profundamente humano, um Deus que sofre, também conosco, dá um sentido ao nosso sofrimento para um anúncio com um horizonte

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mais vasto, que tem mais futuro. E sabemos que estas seitas não são muito estáveis na sua consistência: no momento pode fazer bem o anúncio da prosperidade, de curas milagrosas, etc., mas após pouco tempo vê-se que a vida é difícil, que um Deus humano, um Deus que sofre conosco é mais convincente, mais verdadeiro, e oferece uma ajuda maior para a vida. É importante também que nós tenhamos a estrutura da Igreja católica. Não anunciamos a um pequeno grupo que depois de certo tempo se isola e se perde, mas entramos após pouco tempo, nesta grande rede universal da catolicidade, não só transtemporal, mas presente sobretudo como uma grande rede de amizade que nos une e nos ajuda também a superar o individualismo para alcançar esta unidade na diversidade, que é a verdadeira promessa. Santidade, entre os muitos males que atormentam a África, existe também, e, sobretudo, o da difusão da SIDA. A posição da Igreja católica sobre o modo de

lutar contra ela é com frequência considerada irrealista e ineficaz. Vossa Santidade enfrentará este tema durante a viagem? Diria o contrário: penso que a realidade mais eficiente, mais presente na frente da luta contra a SIDA é precisamente a Igreja católica, com os seus movimentos, com as suas diversas realidades. Penso na Comunidade de Santo Egídio que faz tanto, visível e também invisivelmente, pela luta contra a SIDA, nos Camilianos, em todas as outras realidades e em todas as Irmãs que estão à disposição dos doentes... Diria que não se pode superar este problema da Sida só com dinheiro, mesmo se necessário, mas se não há alma, se os africanos não ajudam (assumindo a responsabilidade pessoal), não se pode resolver o flagelo com a distribuição de preservativos: ao contrário, aumenta o problema. A solução só pode ser dúplice: a primeira, uma humanização da sexualidade, isto é, uma renovação espiritual e humana que tenha em si um novo modo de se comportar uns com os outros; a segunda,


uma verdadeira amizade também, e, sobretudo, pelas pessoas que sofrem, a disponibilidade, até com sacrifícios, com renúncias pessoais, a estar com os sofredores. E estes são os fatores que ajudam e proporcionam progressos visíveis. Portanto, diria esta nossa dúplice força de renovar o homem interiormente, de dar força espiritual e humana para um comportamento justo em relação ao próprio corpo e ao do outro, e esta capacidade de sofrer com os que sofrem, de permanecer presente nas situações de prova. Parece-me que esta é a resposta justa, e a Igreja faz isto e oferece deste modo uma grandíssima e importante contribuição. Agradeço a quantos o fazem. Santidade, que sinais de esperança vê a Igreja no Continente africano? E Vossa Santidade pensa poder transmitir à África uma mensagem de esperança? A nossa fé é esperança por definição: di-lo a Sagrada Escritura. E por isso, quem leva a fé está convencido de levar também a es-

perança. Parece-me, não obstante todos os problemas que conhecemos bem, que há grandes sinais de esperança. Novos governos, novas disponibilidades de colaboração, luta contra a corrupção – um grande mal que deve ser superado! – e também a abertura das religiões tradicionais à fé cristã, porque nas religiões tradicionais todos conhecem Deus, o único Deus, mas parece um pouco distante. Esperam

A nossa fé é esperança por definição: di-lo a Sagrada Escritura. E por isso, quem leva a fé está convencido de levar também a esperança. Pareceme, não obstante todos os problemas que conhecemos bem, que há grandes sinais de esperança.” www.edicoesshalom.com.br

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que se aproxime. É no anúncio do Deus que se fez Homem que elas se reconhecem: Deus aproximou-se realmente. Depois, a Igreja católica tem muito em comum: digamos, o culto dos antepassados encontra a sua resposta na comunhão dos santos, no purgatório. Santos não são só os canonizados, mas todos os nossos mortos. E assim, no Corpo de Cristo realiza-se precisamente também tudo o que o culto dos antepassados intuía. E assim por diante. Há, portanto, um encontro profundo que dá realmente esperança. E cresce também o diálogo inter-religioso – falei com mais

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de metade dos bispos africanos, e as relações com os muçulmanos, apesar dos problemas que se podem verificar, são muito promissoras, disseram-me eles; o diálogo cresce no respeito recíproco e na colaboração nas comuns responsabilidades éticas. E de resto cresce também este sentido de catolicidade que ajuda a superar o tribalismo, um dos grandes problemas, e isto origina a alegria de ser cristão. Um problema das religiões tradicionais é o medo dos espíritos. Um dos bispos africanos disse-me: “uma pessoa converte-se realmente ao cristianismo, torna-se plenamente cristão

Um problema das religiões tradicionais é o medo dos espíritos. Um dos bispos africanos disse-me: “uma pessoa converte-se realmente ao cristianismo, torna-se plenamente cristão quando sabe que Cristo é realmente mais forte. Deixa de ter medo.” E também este é um fenômeno em crescimento.” quando sabe que Cristo é realmente mais forte. Deixa de ter medo.” E também este é um fenômeno em crescimento. Portanto, diria que com tantos elementos e problemas que não podem faltar, crescem as forças espirituais, econômicas, humanas que nos dão esperança, e gostaria de realçar precisamente os elementos de esperança.


FÉ E RAZÃO

Paulo e a Teologia

dos Carismas

A palavra grega chárisma é um substantivo derivado do verbo “charízomai” que significa mostrar-se generoso, presentear algo. Desde já podemos começar a entender o significado geral deste termo, que indica um dom generoso, um presente. Todavia encontramos na teologia paulina vários significados referentes a este termo. na teologia paulina vários significados referentes a este termo. Das 17 vezes que este termo é usado no Novo Testamento, 16 vezes é citado por Paulo nas suas Cartas e uma vez por Pedro na sua primeira Epístola (cf. 1Pd 4,10). Podemos, assim, sem hesitação, afirmar também que Paulo é o “teólogo dos Carismas”. Partindo da teologia paulina percebemos que os charísmas – num sentido mais específico – significam dons ponto de partida para compreender- particulares distribuídos segundo o beneplácito da Vonmos a teologia dos carismas é – antes tade Divina, para o bem de cada um e para a utilidade de de tudo – notifitodos os membros do único Corpo car a existência de Cristo que é a Igreja. Desta Os carismas são de Paulo. Uma existência enforma, torna-se evidente que, para considerados como tendida somente à luz de uma falar destes dons, precisamos partir vivência não “mais na carne”, mas uma manifestação da da graça divina, pois é possível falar “no Espírito”, “pela fé no Filho de “multiforme graça de dos carismas somente partindo de Deus, que me amou e se entregou a Deus”. Os chárismas são de uma “vida no Espírito”, porque os si mesmo por mim” (Gl 2,20). São natureza divina, diferentes carismas são: uma “manifestação do Paulo é considerado o “teólogo Espírito Santo” (cf. 1Cor 12,7). da graça”, e este reconhecimento dos talentos humanos, Tanto o apóstolo Paulo como é mais que justo e fundamentado pois são manifestações Pedro, exprimem uma íntima relação em uma verdade, pois das 155 do Espírito Santo.” entre os carismas e a graça de Deus. vezes que a palavra “charis” (graça) Os carismas são considerados como ocorre no Novo Testamento, 100 ocorrências estão nos uma manifestação da “multiforme graça de Deus”. Os escritos paulinos. A palavra “chárisma” (carisma) tem a chárismas são de natureza divina, diferentes dos talentos mesma raiz da palavra charis. humanos, pois são manifestações do Espírito Santo: “Mas A palavra grega chárisma é um substantivo deri- tudo isso é o único e mesmo Espírito que o realiza, concedendo a vado do verbo “charízomai” que significa mostrar-se cada um diversos dons pessoais, segundo a sua vontade” (1Cor generoso, presentear algo. Desde já podemos começar 12,11). Os textos paulinos mais importantes sobre este a entender o significado geral deste termo, que indica argumento são os capítulos 12 da Epístola aos Romanos um dom generoso, um presente. Todavia encontramos e da primeira carta aos Coríntios. Rômulo dos Anjos Silva Missionário da Com. Católica Shalom em Pacajus/CE

Paulo:

homem carismático

O

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Finalidade dos

Carismas: a edificação da Igreja

A Igreja primitiva se caracteriza pela fundamental experiência de Pentecostes. Esta experiência assinala o começo de um tempo novo de evangelização e o abundante florescimento dos carismas na vida dos Apóstolos e dos primeiros cristãos. Esta experiência, não sendo simplesmente algo do passado, que marcou a história da Igreja, é uma experiência sempre nova, como afirma Santo Tomás de Aquino, dizendo que o Espírito Santo pode ser enviado muitas vezes na vida de cada um, implicando “um conhecimento mais íntimo e mais vivenciado de Deus presente na alma, um conhecimento que explode num amor mais ardente” (cf. Suma Teológica I, q 43). De fato, o Espírito Santo continua a atuar na Igreja fazendo com que esta experiência repita-se muitas vezes na vida de cada um de nós. Os carismas têm como origem o próprio Deus, a Santísima Trindade. Nos primeiros versículos da primeira carta aos Coríntios, no capítulo 12, o apóstolo evidencia esta verdade afirmando por meio de três palavras: dons, no plural (charismata), serviço (diakonia) e operações (energemata); temos aqui uma fórmula trinitária. Deste modo, ele atribui os carismas ao Espírito Santo, os ministérios ao Senhor Jesus Cristo e as operações ou poderes a Deus Pai. Contudo, nele não há a pretensão de indicar ou separar três categorias distintas de dons, mas mostrar a unidade entre ambos e evidenciar que os dons da graça (charismata) são destinados ao serviço (diakonia) e que todos manifestam com poder a ação ou operação divina (energemata). Em 1Coríntios 12, Paulo nos apresenta – sem pretender dar um elenco completo e fechado – uma série de “manifestações do Espírito”: a palavra de sabedoria, a palavra de ciência, a fé, o dom das curas, o dom de milagres, a profecia, o discernimento dos espíritos, o dom de falar em línguas e o dom de as interpretar (cf. 1Cor 12,8-11). Já no capítulo 12 da Epístola aos Romanos ele nos apresenta uma lista de outros dons (chárismas) do Espírito Santo: o dom de serviço, de ensino, de exortação, de distribuição dos bens, da presidência, e até mesmo o dom de exercer a misericórdia (cf. Rm 12, 3ss). São Paulo fala ainda de ministérios hierárquicos (cf. 1Cor 12,28; Ef 4,11), ministérios ordenados (cf. 1Tm 4,14; 2 Tm 1,6) e outros.

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Deus livremente dá os seus dons e cada um recebe o dom do Espírito para a utilidade de todos, ou seja, para o bem comum, e mesmo que exista dom em vista de uma edificação pessoal, como é o caso do dom de línguas (cf. 1Cor 14,4), os chárismas têm uma dimensão eclesial, eles existem para atuar como uma realidade edificante, construtiva no interior de toda a Igreja. Para entender a teologia dos carismas podemos notar três características importantes que devem ser consideradas: I. Os chárismas são dons provindos da graça de Deus, são uma manifestação do Espírito Santo na vida e na missão da Igreja; II. São dons com caráter de utilidade pública, são dados em vista do bem pessoal, mas sobretudo do bem comum e III. Enfim, são dons do Espírito Santo, a vida do Espírito é uma vida na fé, é uma experiência concreta e real.

A caridade:

medidas de todos os chárismas Sem a caridade – nota o Apóstolo – os carismas por mais impressionantes que sejam, não têm nenhuma utilidade (cf 1Cor 13,1-3). Afirma o Catecismo da Igreja: “Os carismas devem ser acolhidos com reconhecimento por aquele que os recebe, mas também por todos os membros da Igreja, pois são uma maravilhosa riqueza de graça para a vitalidade apostólica e para a santidade de todo o Corpo de Cristo, contanto que se tratem de dons que provenham verdadeiramente do Espírito Santo e que sejam exercidos de maneira plenamente conforme aos impulsos autênticos deste mesmo Espírito, isto é, segundo a caridade, verdadeira medida dos carismas” (cf. Cat. 800). A Caridade é a verdadeira medida dos chárismas, pois se falta a Caridade “nada vale” e “nada lhe adiantaria” (cf. 1Cor 13,2-3).

Igreja

carisma e instituição Existem tendências que afirmam haver uma contraposição entre a dimensão institucional e a dimensão carismática da Igreja, atribuindo esta última dimensão como sendo característica do apóstolo Paulo. No entanto, não há fundamentos no Novo Testamento para justificar uma oposição entre estas duas dimensões,


como se fossem duas realidades independentes. Ao invés, o conjunto dos textos Neo-Testamentários nos afirmam a existência de uma única Igreja com uma única estrutura Carismática-Institucional, a qual encontra o seu modelo na instituição dos Doze Apóstolos escolhidos por Jesus Cristo (cf. Mc 3,13 ss) e repletos do Espírito Santo para formar a Igreja de Deus (cf. At 2,4 ss). Na Constituição Dogmática Lumem Gentium do Concílio Vaticano II ao número 12

nos mostra que existe na Igreja de Cristo a presença de dons carismáticos e hierárquicos. Enfim, vemos que existe uma plena harmonia entre as duas dimensões da Igreja: a institucional e a carismática.

Conclusão A Igreja sempre foi assistida pelas “manifestações do Espírito” e sempre será. Podemos afirmar – cheios de fervor (parresia), sem temor – que vivemos como Igreja, sob o Espírito Santo. Nos tempos atuais, de fato, vivemos um “Novo Pentecostes”, como pediu o nosso caro Papa João XXIII por ocasião do Concílio Vaticano II. Sem negar, de modo realista, os desafios que vivemos hoje, não podemos deixar de ser “homens de esperança”, não podemos esquecer que estamos numa profunda “Renovação Carismática” no interior da Igreja, que os Movimentos Carismáticos e as Novas Comunidades são uma graça de Deus para os tempos atuais. É o próprio Concílio Vaticano II que nos convida a estarmos atentos e tomar consciência da

presença permanente e ativa do Espírito Santo na vida e na missão da Igreja. É o Espírito Santo, a força da Igreja que a impele para as rotas do mundo para anunciar o Evangelho da Paz. Somos a Igreja da Esperança, pois Deus não cessa de conceder-nos “dons generosos”, ou seja, chárismas, para com parresia vivermos a nossa fé e anunciá-la ao mundo de hoje. Façamos então, como nos recomenda o “teólogo dos carismas”: “Já que aspirais aos dons do Espírito Santo, procurai tê-los em abundância, para a edificação da Igreja” (1Cor 14,12). Bibliografia: • Lexicon, Dizionario Teologico Enciclopedico, Ideazione, direzione editoriale a cura di Luciano Pacomio e Vito Mancuso, Edizioni Piemme Spa, Casale Monteferrato (AL), 1993. • Nuovo Dizionario di Teologia Biblica, a cura di Pietro Rossano, Gianfranco Ravasi e Antonio Girlanda, Edizioni San Paulo, Cinisello Balsamo (Milano), settima edizione, 2001. • Catecismo da Igreja Católica, Edição Típica Vaticana, Edições Loyola, São Paulo (Brasil), 2000. • Compêndio do Vaticano II, Constituições, decretos e declarações, Editora Vozes Ltda, Petropolis RJ, 29a edição, 1968. • Cardeal Suenes, Movimento carismático um novo pentecostes, Coleção Cristianismo aberto, Edições São Paulo, Lisboa, 2a edição, 1996. • D. João Evangelista Martins Terra, SJ, Os Carismas em São Paulo, Edições Loyola, Ipiranga (SP), 1995.

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ORANDO COM A PALAVRA

Quem é como Deus? José Ricardo Ferreira Bezerra Missionário da Com. Católica Shalom em Fortaleza/CE

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omo você, leitor antigo da Shalom Maná já sabe, o objetivo desta seção é levar-nos a ler e meditar com a Palavra de Deus através do antigo e comprovado método da Lectio Divina que consiste em quatro passos: leitura, meditação, oração e contemplação. Caso você ainda tenha dúvidas consulte os outros números ou escreva-nos (josericardo@comshalom.org). Tomemos hoje o último livro da Bíblia, o do Apocalipse de São João e leia três vezes à meia voz, o capítulo 12, do versículo 7º ao 12º, (Ap 12,7-12). Releia-o agora silenciosamente, meditando com ele.

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Shalom Maná | Junho/2009

O livro do Apocalipse (ou da Revelação) de São João é cheio de simbolismos. Mas como já dissemos antes, não pretendemos aqui fazer um estudo aprofundado dos textos e dos seus significados. Isto é feito pelos teólogos e exegetas que têm as condições para isso. Nosso objetivo é simplesmente levá-lo a fazer uma leitura orante com a Palavra de Deus. O primeiro versículo proposto diz: “Houve uma batalha no céu: Miguel e seus anjos guerrearam contra o Dragão...” (Ap 12,7) A nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém, deste versículo, diz que “segundo a tradição judaica, Miguel (cf. Dn 10,12-21;12,1) é o com-

Diante do orgulho dos anjos maus, Miguel e os anjos fiéis continuam submissos a Deus, pois haviam experimentado que nada e nem ninguém se comparava ao que Deus é e realiza. Você já constatou esta verdade em sua vida?

batente de Deus. Seu nome quer dizer: “Quem (é) como Deus?” Diante do orgulho dos anjos maus, Miguel e os anjos fiéis continuam submissos a Deus, pois haviam experimentado que nada e nem ninguém se comparava ao que Deus é e realiza. Você já constatou esta verdade em sua vida?


A Igreja venera São Miguel arcanjo como celestial protetor do povo de Deus. Em visita ao santuário de São Miguel no monte Gargano (Itália) em 1987, o então papa João Paulo II disse: “Estou feliz de encontrar-me entre vocês à sombra deste Santuário de São Miguel Arcanjo, como já fizeram no passado, tantos dos meus predecessores na Cátedra de São Pedro, eu também vim venerar e invocar o Arcanjo Miguel, para que proteja e defenda a santa Igreja num momento em que é difícil professar um autêntico testemunho cristão com compromissos e sem acomodações.” Convido-o, portanto a meditar hoje sobre as maravilhas que Deus já operou em sua vida e a não desanimar na sua luta contra o Maligno – “o grande Dragão, a antiga serpente, Diabo, Satanás, sedutor da terra inteira” (Ap 12,9). Você tem pedido a ajuda de São Miguel? Comece fazendo uma oração de Renúncia como esta ou outra que você saiba: “Em nome de Jesus Cristo, pelo poder do Seu Sangue, pelas Suas Santas Chagas, pela intercessão da Virgem Maria, de todos os Anjos e Santos de Deus e com a proteção de São Miguel Arcanjo, eu RENUNCIO a Satanás, a todas as suas seduções e ciladas, às suas mentiras, aos seus seguidores; RENUNCIO ao espiritismo e a toda a sua malignidade; RENUNCIO a todo tipo de ocultismo e a toda forma de superstição; a todas as falsas filosofias e falsas religiões e seitas como a Nova Era e outras, que não têm Jesus como único Mestre e Senhor; RENUNCIO a tudo que ponha em dúvida a presença viva de Jesus na Sagrada Eucaristia, onde Ele se encontra inteiro, em Corpo, Sangue, Alma

Convido-o, portanto a meditar hoje sobre as maravilhas que Deus já operou em sua vida e a não desanimar na sua luta contra o Maligno – “o grande Dragão, a antiga serpente, Diabo, Satanás, sedutor da terra inteira” (Ap 12,9). “ e Divindade; RENUNCIO a todo vício de pecado, a toda escravidão pelos meus sentidos, a todo o mal contra mim e contra o meu próximo; RENUNCIO a todo espírito de confusão, de distúrbio nos meus sentimentos, de agressividade, de ódio e rancor, de vingança e de ira, de ressentimento e mágoa, de tristeza e de prostração, de rejeição por parte das pessoas, de descrença em Deus e no seu amor, de decepção e desespero; RENUNCIO a todo espírito de morte e desejo de morte dos outros, de autoflagelação e suicídio, de angústia e de esgotamento, de cansaço e torpor; RENUNCIO a todo espírito de maldição, de blasfêmia e de xingamento, de fofoca e mentiras, de ironia e deboche, de palavrões; RENUNCIO a todo espírito de promiscuidade, de prostituição e adultério, de desregramento sexual, de práticas homossexuais, de vício de masturbação e de excitação por pornografia; RENUNCIO a todo espírito de seitas secretas, de idolatria, de falsas religiões, de magias e esoterismo, de bruxaria, de feiticismo e espiritismo, de agouros e encantamentos, de adivinhação e sortilégios, de evocação dos mortos; RENUNCIO a todos os espíritos que foram invocados sobre mim ou sobre minha família. Senhor Jesus Cristo, peço que quebres todo julgo hereditário que

pesa sobre mim, todas as maldições, taras, tendências para o mal, que tudo o que me foi comunicado pelos meus antepassados seja tocado pelo Teu sangue redentor. Destrói, Senhor, todos os efeitos de consagrações, pactos, batismos e outros sinais de consagração feitos da minha pessoa no espiritismo, na magia ou em qualquer seita. Definitivamente, clara e conscientemente, com toda a força do meu coração ACEITO a Jesus Cristo, como o meu Salvador, meu Rei e meu único Senhor e aceito a Virgem Maria, como minha querida Mãe e Rainha! Amém!” Reze a seguinte Oração do Papa Leão XIII: São Miguel Arcanjo, protegei-nos no combate, cobri-nos com vosso escudo contra os embustes e ciladas do demônio. Subjugue-o Deus, instantemente o pedimos e vós, príncipe da milícia celeste, pelo divino poder, precipitai no inferno a Satanás e aos outros espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas. Amém. Depois de um forte momento de louvor a Deus, tome um dos seguintes salmos que proclamam: “Senhor Deus dos Exércitos, quem é como tu?” (Sl 89,9) Ou: “Quem é como o Senhor nosso Deus?” (Sl 113,5). Ou ainda junte-se a Moisés no seu cântico de vitória, após atravessar o Mar Vermelho a pé enxuto tendo o povo hebreu sido salvo dos egípcios: “Quem é igual a ti, ó Senhor, entre os fortes? Quem é igual a ti, ilustre em santidade? Terrível nas façanhas, hábil em maravilhas?” (Ex 15,11). Para concluir sua lectio, não se esqueça de anotar em seu caderno as maravilhas que o Senhor fez em sua vida e o seu compromisso de vida nova. Shalom! www.edicoesshalom.com.br

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ARTE E ESPIRITUALIDADE

A Virgem

Anunciada

Toda a obra está baseada em Lc 1,26- 38. A jovem que vemos é Maria de Nazaré e o nome da obra se refere ao mistério da Anunciação, “A Anunciada”, ou seja, Antonello a representou justo no momento da anunciação. A túnica vermelha representa a humanidade, e o véu azul, a divindade.

Cassiano Rocha Azevedo Missionário da Com. Católica Shalom em Fortaleza/CE

Interpretação

T

oda a obra está baseada em Lc 1,2638. A jovem que vemos é Maria de Nazaré e o nome da obra se refere ao mistério da Anunciação, “A Anunciada”, ou seja, Antonello a representou justo no momento da anunciação. A túnica vermelha representa a humanidade, e o véu azul, a divindade. Maria está meditando nas Escrituras. A representação da Bíblia e do suporte vieram do século XVI, pois na época de Nossa Senhora os livros sagrados eram em papiros ou pergaminhos. A aparição do anjo se dá justamente quando ela ora com a Palavra. A Bíblia não diz especificamente como se deu a aparição. A Bíblia está aberta com duas páginas que ainda vão virar. A página da história vai virar com o seu sim.

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Nesta obra, Antonello enfatiza a intervenção do Anjo em visão intelectiva. Este tipo de visão só pode vir de Deus, pois age no intelecto (uma área nobre do homem que não se corrompeu com o pecado). Já a visão imaginativa e a física podem vir de Deus, do próprio homem ou do demônio. O seu olhar vago está centralizado num ponto fixo que se situa não fora de si, mas em seu interior. Os homens veem as aparências, Deus vê o interior do homem. Tudo acontece no interior. E é no interior que ela vê e escuta o anjo: “Alegra-te cheia de graça, o Senhor está contigo”. Ela ficou intrigada com a saudação, recolhe o véu para melhor captar ao que tudo indica, não uma voz exterior, mas uma locução interior. “Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim.”

Maria perguntou ao anjo: “Como se fará isso, pois não conheço homem?” Respondeu-lhe o anjo: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso, o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, até ela concebeu um filho na sua velhice; e já está no sexto mês aquela que é tida por estéril, porque a Deus nenhuma coisa é impossível.” Então disse Maria: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra”. E o anjo afastou-se dela. Nesse momento, vemos o Espírito Santo a iluminá-la clareando o véu, pois a sombra do Altíssimo é luz. A palma de sua mão direita se ergue suavemente num sinal de fé assumindo a graça, pois para Deus nada é impossível. A cor azul do véu significa a divindade que cobre a sua humanidade representada pelo vermelho da túnica. O azul e o vermelho nesta tonalidade indicam também a realeza.


Descrição Vemos nesta obra de arte uma jovem com túnica vermelha e um véu muito tênue e suave em azul sobre sua cabeça, que cobre inteiramente os seus cabelos. Com a mão esquerda ajusta o véu e a mão direita tem a palma suavemente erguida. Seu olhar vago parece atraído por um ponto fixo, não visível fisicamente. Seu rosto é de uma impressionante limpidez, clareza e pureza. Ela parece estar sentada ou acabou de erguerse. Há uma mesa diante de si com um suporte de livros em madeira. Sobre o suporte, um livro aberto com duas páginas ainda a abrir-se totalmente. A luz que vem do noroeste a sudeste iluminando o véu, o rosto, o pescoço, mãos, mesa, o suporte e o livro. O fundo é totalmente escuro. A Virgem Anunciada (1475) por Antonello da Messina, em madeira (34 x 46 cm ). Museu Nacional de Palermo.

Maria é livre enquanto serva do Senhor e também dos homens, pois logo em seguida, viaja às pressas para servir sua prima Isabel. No reino de Deus quem serve reina. A ausência de qualquer paisagem no fundo escuro nos mostra que o mundo estava em densas trevas quando surge uma luz – “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz.” (Mt 4,16) – Antonello não pinta nada além

do fundamental para que não nos distraiamos, pois o essencial está no interior do homem. A luz é a da graça, que quando encontra um sim na humanidade é irradiada a todos os homens, pois uma alma que se eleva, eleva o mundo inteiro. Maria ao receber o anúncio do Pai estava em oração, assim como Jesus também estava ao receber o batismo de João e ao ouvir a voz

do Pai (Cf. Lc 3,21-22): “Tu és o meu Filho, Eu hoje te gerei”. Te peço Senhor a graça de permanecer na tua palavra em amizade contigo, acolhendo o teu amor e a minha missão pessoal qual a tua Mãe para que no meu sim, o teu reino aconteça no meu interior e exterior. Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós! www.edicoesshalom.com.br

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EM MISSÃO

E P s n u h n a Gar

m o l a h S o ã s s i m e d s o n a o c n i ouco mais de p á h o d celebra c a ri c s, m dos jardin jardim chegara te o mais belo

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A comunidade vai se estabelecendo e se firmando, mesmo em meio aos desafios, que são muitos, próprios de uma fundação, porém a graça de Deus não nos deixa paralisar, mas nos convida a ousarmos cada vez mais. “

Ronylson Soares Coelho Missionário da Com. Católica Shalom em Garanhuns/PE

D

iz a sabedoria popular de um povo que vive no coração do agreste pernambucano que, quem beber da água de Garanhuns, um dia volta. Não é para menos: Conhecida como a “Cidade das Flores” e a “Suíça Pernambucana”, não tem como não se encantar: Com clima frio e ar europeu, quem poderia imaginar? Chegar aqui em qualquer época é ser calorosamente bem acolhido pelo povo aqui presente. Dentro desta cidade das flores existe o mais belo dos jardins, criado há pouco mais de 90 anos, chamada de Diocese de Garanhuns. Para compor este imenso jardim chegaram no dia 5 de abril de 2004 os primeiros missionários da Comunidade Católica Shalom, a pedido do Sr. Bispo Dom Irineu. A partir deste dia inicia-se um tempo novo, novo para a cidade, novo para a Diocese e para os missionários. Tempo de conhecimento, adaptação, tempo de amar, lançar as sementes, cultivar, regar e no tempo certo deixar os verdadei-

ros frutos aparecerem. Começam os trabalhos de evangelização, a formação de adultos e evangelização em um dos bairros mais pobres, missão primeira que nos foi confiada por D. Irineu. Porém não paramos aí, mas lançamos nossas redes em águas mais profundas e vamos ao encontro dos primeiros jovens através do Seminário de Vida no Espírito Santo e ali vidas são mudadas e transformadas por inteiro. Estes primeiros jovens são pioneiros de uma nova forma de ser e viver, participam fervorosamente dos grupos de oração e, nesta obra ofertam suas vidas e assim vão sendo atraídos por Deus, pela vocação, pela radicalidade e testemunho de outros jovens que deixaram tudo para seguir Jesus num amor incondicional e sem restrições. Dá-se início ao grupo vocacional, alguns desejam se comprometer mais com o Carisma, surgem os primeiros ingressos na Comunidade de Vida e na Comunidade de Aliança, pessoas que vão descobrindo a vontade de Deus para suas vidas.

A comunidade vai se estabelecendo e se firmando, mesmo em meio aos desafios, que são muitos, próprios de uma fundação, porém a graça de Deus não nos deixa paralisar, mas nos convida a ousarmos cada vez mais. Agora não são mais os jovens, mas crianças e adultos são atingidos pela força do carisma. Foi no sim de cada dia, no ordinário, na fidelidade ao carisma que o Senhor foi realizando o extraordinário e edificando a sua obra. Hoje, cinco anos depois, não somente Garanhuns, mas outras cidades da Diocese encontram na comunidade uma resposta aos desafios do mundo de hoje. É verdade, “muito pouco ou quase nada fizemos”, portanto há muito o que celebrar, pois o Senhor “presenteia esta cidade com mais uma manifestação do seu poder criador”. Damos hoje a vida por Ti, muitos já deram a vida nesta missão e muitos ainda darão seu sim que frutificará cada vez mais. Parabéns, Missão de Garanhuns, porque neste jardim tão florido começas a exalar teu perfume.

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especial

Atenção! Precisa-se urgente de

missionários! Deixemos que o grande testemunho deste pequeno nos encoraje a evangelizar cada vez mais com ousadia, indo ao encontro daqueles que estão afastados de Cristo.

Vanilton Lima Missionário da Com. Católica Shalom em Fortaleza/CE

P

essoas que vivam o seu batismo, no qual receberam o mandato de Jesus: “Ide por todo mundo e pregai o Evangelho a todos os povos”. Pessoas que não vivam centralizadas em si mesmo. Que uma vez chamadas, abram mão, por amor a Deus e aos homens, do conforto do seu lar, da segurança adquirida ao longo da vida, do aconchego da família, do trabalho, do estudo. Pessoas que tenham um grande amor por Jesus Cristo, a ponto de tudo perder, tudo dar por causa desse incomparável amor. Também é fundamental um amor pelos homens, consequência natural do amor incondicional a Jesus. Pessoas que, a exemplo de Jesus, vão ao encontro dos pecadores,

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dos pobres, dos jovens e excluídos. Dos tantos sem rumo, que se encontram vagando nas ruas de nossa cidade. Pessoas que tenham um coração desejoso do Céu, da eternidade. Que não absolutizem as dores e os sofrimentos presente, mas façam deles um meio para se aproximarem de Cristo, o Servo Sofredor. Pessoas que conheçam, amem e se submetam a Santa mãe Igreja, que sigam o exemplo da Mãe de Deus e tentem imitar as virtudes de Maria, que estejam dispostas a partirem para qualquer lugar do Brasil ou além fronteiras. Como é importante encontrar pessoas que não fiquem preocupadas com o dia de amanhã, com as coisas que ainda hão de acontecer, confiando assim, na Providência

Divina. Que estejam, de fato, dispostas a remar contra a maré do mundo, com suas mentalidades pagãs, contrárias ao Evangelho. Pessoas que não fiquem tardando sua conversão para amanhã, e esse amanhã nunca chega. Que abracem a Graça da conversão diária, hoje, no sim de cada dia. Pessoas carismáticas, abertas à condução do Espírito Santo. Abertas aos dons para a edificação e salvação de muitos. Pessoas que reconheçam suas fraquezas, limites e imperfeições. Que reconheçam o seu lugar diante do Senhor. Que por entender e acolher seus limites e fraquezas, não se escandalizam com as fraquezas dos outros. Por fim, pessoas alegres, violentas de coração, humildes, simples.


Como é importante encontrar pessoas que não fiquem preocupadas com o dia de amanhã, com as coisas que ainda hão de acontecer, confiando assim, na Providência Divina.” Homens e mulheres, e não anjos. Que vivam o perdão e a reconciliação entre si. Enfim, abertas ao diálogo. Para terminar, pessoas orantes. Homens e mulheres de uma autêntica vida de oração. Que não se deixem escravizar pelo ativismo. Pessoas que tenham um coração como o de Zenon, uma criança de 12 anos que participa de grupo de oração na obra Shalom de Teresina, no Piauí, que, como presente de aniversário, pediu aos pais para participar de uma vigília de evangelização. Deixemos que o grande testemunho deste pequeno nos encoraje a evangelizar cada vez mais com ousadia, indo ao encontro daqueles que estão afastados de Cristo.

Meu melhor presente de

aniversário!

Zenon Ribeiro

“H

oje aconteceu a minha maior experiência no Shalom: pela primeira vez fui evangelizar a galera nos quiosques, aliás, na verdade, essa foi a primeira vez que fui evangelizar!

Senti-me maravilhosamente bem! É uma paz tão grande... Sem falar na coragem para evangelizar. Lá têm jovens emos, góticos, dependentes químicos, bêbados e até que dizem adorar satanás. Só a galera que mais precisa conhecer o amor de Deus em suas vidas... No final, aliás, na hora em que você escuta essas pessoas, você percebe as causas de estarem ali... A maioria são filhos de pais alcoólatras, jovens que brigaram com suas namoradas, com sérios problemas familiares e muitas outras coisas. É uma experiência maravilhosa! Agora eu irei todos os meses e ficarei rezando por aquelas pessoas, para que encontrem o caminho de Deus! Vou sempre lembrar dessa noite como o meu melhor presente de aniversário...”

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EnTREvISTA

Confi ssão: o Sacramento da alegria A Confissão é o sacramento pelo qual os fiéis obtêm o perdão dos pecados cometidos depois do Batismo. Para falar um pouco mais sobre esse Sacramento, entrevistamos Dom Wilson Tadeu Jönck, SCJ, Bispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Por Andréa Gripp Missionária da Com. Católica Shalom no Rio de Janeiro/Rj

C

onfissão, reconciliação, sacramento da penitência ou sacramento do perdão. Estes são alguns dos nomes com os quais é conhecido um dos mais belos sinais visíveis e eficazes da graça de Deus em nossa realidade temporal. Este sacramento é um dos canais instituídos por Cristo para que a salvação que Ele conquistou

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com a sua morte e ressurreição seja comunicada a todos os homens. Como os outros seis sacramentos da Igreja (Batismo, Confirmação, Eucaristia, Unção dos enfermos, Ordem sacerdotal e Matrimônio), a Confissão é eficaz em si mesma, porque nela Cristo atua diretamente. A Confissão é o sacramento pelo qual os fiéis obtêm o perdão dos pecados cometidos depois do

Batismo. Nele o sacerdote, agindo in persona Christi, perdoa o pecado quando o pecador, arrependido, com o coração contrito, diz as suas faltas, de forma auricular, e se submete à satisfação ou pena que lhe são dadas. Para falar um pouco mais sobre esse Sacramento, entrevistamos Dom Wilson Tadeu Jönck, SCJ, Bispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro.


No tumulto das paixões terrenas e das adversidades, surge a grande esperança da misericórdia inexorável de Deus. Corramos confiantes ao tribunal da penitência onde Ele, com ansiedade paterna, espera-nos a todo instante.” (Padre Pio) O que deve nos mover a procurar a confissão? Dom Wilson – Em primeiro lugar devemos entender quem somos, nós pessoas humanas, que procuramos seguir a Deus, que procuramos viver o Evangelho. Nós reconhecemos no Evangelho um tipo de vida que gostaríamos que fosse o nosso, só que vivemos de forma diferente, somos inconseqüentes, muitas vezes, agimos exatamente de modo contrário. E pecamos... Sim. Queremos viver o amor, mas buscamos as nossas coisas; queremos viver em harmonia e acabamos prejudicando o outro. Esse é o pecado. Quando nós não agimos de acordo com aquilo que Deus quer. Isso nos faz mal. O pecado é exatamente aquilo que faz da nossa vida uma contradição. E como reverter isso? Com a graça de Deus. É Deus quem pode nos perdoar. É nEle que vamos ser fortes para de novo buscar viver de forma consequente aquele ideal que o Evangelho nos coloca, que é a vida em Deus. Qual o meio que dispomos para isso? O meio que Jesus nos deixou é o Sacramento da Confissão. Por isso, não podemos ver na Confissão algo que nos humilha, que nos apequena, que é um aborrecimento na nossa vida. Na realidade é um grande dom que Ele nos dá para nos colocarmos novamente em sintonia com Deus. E como acontece isso tudo? Por ação de Deus na nossa vida. Na Confissão Deus nos perdoa os nossos pecados, aquilo que se opõe a Ele. Porque nos arrependemos Deus tira essa culpa. Então, estamos novamente em harmonia com Deus. E não por uma ação humana, mas por uma ação direta dEle. Essa é uma coisa grandiosa que deve nos atrair. Por isso, a Confissão não é o Sacramento da tristeza, da chateação, mas é o Sacramento da alegria, da reconciliação, mesmo. Sabemos que por ação de Deus “eu” que era pecador, que me opunha a Ele, agora sou cheio da graça de Deus. E é nessa graça que procuramos viver. Tenho certeza de que se vivo na graça de Deus, vou buscar as suas coisas com a sua ajuda. Vou buscar amar o próximo, ter disposição de me ocupar com as coisas de Deus, com a oração, em escutar a sua Palavra. A minha natureza estará mais

disposta a isso, porque Deus se faz presente em nós nesse sacramento. Com que frequência devemos buscar o Sacramento? O princípio é esse: cada vez que me sinto em pecado vou buscar a Confissão. A Igreja diz ‘ao menos uma vez por ano’ e muitas vezes se faz na Quaresma para celebrar a Páscoa. Esse é o mínimo, como dizer: ‘se você relaxar não passe disso’. Quando buscamos nos unir a Deus vamos nos confessar sempre que sintamos necessidade. Deus sempre está disposto a nos perdoar, a nos acolher. Qual a distinção entre Confissão e aconselhamento espiritual? Na Confissão eu confesso meu pecado e o sacerdote me dá o perdão em nome de Deus. Quando o padre absolve, não é uma pessoa que está fazendo isso; é Deus que está perdoando o pecado. Já outra coisa que também é muito boa, mas não se trata de Confissão, é o aconselhamento. Muitas vezes temos situações na vida em que precisamos escutar pessoas. Às vezes a vida está pesada e só de falarmos com alguém já muda todo o horizonte dela. Outras vezes uma pessoa vê as coisas de outro ângulo, e passando isso faz bem a quem procura. Aconselhamos vivamente que se faça, mas isso não é Confissão. O que acontece é que as pessoas aproveitam esse momento para também pedir conselhos. Como podemos fazer um bom exame de consciência antes da Confissão? Primeiro é preciso me colocar sempre diante de Deus em oração e deixar passar, como que um filme, toda a minha vida. Depois, permito que minha consciência me aponte o que na minha vida não foi de acordo com a proposta de Deus. Diante do pecado constatado existe algo que é essencial: estar arrependido. Quando se procura viver para Deus, começa a se perceber as coisas que não estão bem. Essa sensibilidade diz-se ser “a voz da consciência”. Por exemplo: se por acaso criticar injustamente alguém, mais tarde estando sozinho, terei consciência de que essa não é uma boa ação. Se prejudiquei de outra forma, se fui violento, tenho consciência de que não é dessa forma que devo conviver com as pessoas. Esse é o exame de consciência. www.edicoesshalom.com.br

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assunto do mês

A importância dos limites na

educação dos filhos Torna-se mais fácil dar limites quando temos convicção de nossos objetivos e sabemos que eles são essenciais.

Ana Laura Wanderley Diniz Martins Missionária da Com. Católica Shalom em Fortaleza/CE

E

stamos vivendo numa sociedade onde temos experimentado uma avançada tecnologia, o que tem facilitado em muito a nossa vida: telefone celular, eletrodomésticos, internet, etc. Nos supermercados temos diversidade de produtos que visam facilitar o nosso trabalho em casa, outros inúmeros serviços são oferecidos para economizarmos tempo e energias. Maravilhoso! É importante e necessário economizarmos tempo e energias em favor daquilo que consideramos mais essencial. A questão é percebermos: O que tem sido essencial em nossa vida? Uma sociedade de consumo precisa gerar sempre mais consumo em vista do crescimento e movimentação da economia, a fim de gerar emprego, renda e desenvolvimento. Em vista disto, criam-se cada vez mais necessidades e facilidades de consumo. E por causa disso, também, para acompanhar esta corrida desenfreada da sociedade, temos que trabalhar cada vez mais e melhor, o que implica em capacitação profissional, horas a mais de trabalho ou outras atividades que complementem a renda familiar. Com isto, temos também experimentado algumas dificuldades: doenças decorrentes do stress, falta de tempo adequado para conviver com a família, com os filhos, etc. No entanto, vamos levando esses prejuízos em vista até da boa intenção de dar mais conforto à família.

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Como está a família brasileira nesse contexto? A realidade é desafiante: pais que chegam em casa cansados, estressados e em muitos casos, ainda, as mães têm que trabalhar o terceiro expediente nos serviços de casa, nas tarefas dos filhos, entre outros afazeres. Essa realidade tem gerado no coração dos pais também certa inquietação, uma certa culpa por não ter tempo para os filhos. Começa então um mecanismo de compensação, que é utilizado para sanar este sentimento desagradável: permissividade! Tentamos cobrir com presentes e outros bens de consumo os filhos, ou somos permissivos, deixando que façam suas vontades, o que nem sempre é o melhor para eles: ficar até mais tarde vendo filme ou na internet, ou nos jogos, comprometendo os horários para acordar, estudar, comer e dormir. E agora já tem até o corujão (deixar a criança virar a noite na internet, como recompensa de alguma negociação feita com os pais). A alimentação também sofre com isso, pois deixamos às vezes adquirirem hábitos alimentares errados. Tudo em vista de agradá-los, de manifestar nosso amor, de suprir as ausências, a irritação e a impaciência. E assim, não damos limites às atitudes e escolhas dos filhos. Somos fruto de nossa época, deste tempo onde predomina o consumismo e forte hedonismo, ou seja, a busca do prazer pelo prazer, sem reflexão crítica que gere certo autodomínio


“Dê muito mino a seu filho

e ele trará surpresas desagradáveis para você... Siga os caprichos dele e ele deixará você triste”. Eclo 30,9

em favor daquilo que é o melhor, o certo, o mais saudável. Sem convivência familiar adequada, nossos filhos não vivem algumas experiências familiares que são fundamentais à vida quando adolescentes, jovens ou adultos, como por exemplo: o espírito de partilha, o respeito pelas diferenças, a experiência do conflito (que tem começo, meio e solução), do diálogo, do perdão, do amor. O exercício da tolerância, da renúncia ou do sacrifício inerente ao convívio humano, em favor da paz nos relacionamentos. Uma vida familiar “light” Vamos vivendo, enquanto dá, uma vida familiar “light”, deixando as coisas acontecerem ou se resolverem com o tempo, sem maiores esforços, colocando panos quentes. O filho hedonista, sem limites, começa a mentir, coisa à toa, depois começa a sair com a turma, não

cuida de suas coisas, deixa tudo desorganizado, não tem muito compromisso com sua aprendizagem, não tolera receber um não, não tolera desafios, entre outras situações do gênero. E nós não vamos corrigindo muito, porque, afinal, já passamos tanto tempo fora de casa, trabalhando, que não podemos estragar o pouco tempo de convívio com sermões, correções, castigos, etc. Não queremos dizer não, só em último caso. Não demora muito para começarmos a perceber que nosso filho está dando trabalho na escola com indisciplina, brigas, tarefas não realizadas, notas baixas, até chegar a situações mais difíceis como bebida, drogas, gangues, e outras. É possível que muitos de nós, sem intenção e sem o sabermos, estejamos preparando adultos frágeis emocionalmente, que não conseguem tolerar um chefe exigente

e mal humorado, ou uma pequena briga do casal – pois querem logo se separar, não têm capacidade de ceder para o outro, de perdoar, de tolerar os defeitos. Aliás, poderão até concluir que não conseguem se relacionar com as diferenças do sexo oposto e decidem pelo caminho mais fácil, que pode ser a solteirice ou, às vezes, relações ocasionais ou com parceiro do mesmo sexo. Outras vezes, nas primeiras dificuldades da vida querem desistir, não suportando o fracasso, preferem fugir nas drogas, no álcool... Na minha experiência como psicopedagoga em escola e como assistente social em uma comunidade terapêutica, pude observar largamente essa realidade que sofre a família deste tempo. Pude constatar que aproximadamente 90% dos jovens e adolescentes internados para tratamento da dependência química são filhos sem limites, mimados e carentes

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“Quem corrige o próprio filho,

depois terá satisfação e ficará feliz por ele, na frente dos conhecidos” Eclo 30,2-3

de afeto e atenção familiar de qualidade. “Quem mima o próprio filho, depois terá que lhe curar as feridas” (Eclo 30,7). É melhor dizer um não, perdendo por um tempinho, o afeto do filho, do que deixá-lo entregue a si mesmo, para sofrer muitíssimo mais futuramente. “O cavalo xucro se torna intratável e o filho entregue a si mesmo se torna teimoso” (Eclo 30,8) Situações familiares que dificultam o bom desenvolvimento dos filhos Permissividade e mimos em excesso geram: falta de limites, crianças consumistas, dificuldades de relacionamento com o grupo (não gostam de ceder em favor do outro), crianças que não sabem lidar com a frustração, relações interesseiras com os pais e com os outros, desrespeito às normas, adultos autoritários e cruéis.

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Autoritarismo pode gerar: comportamento inseguro, dificuldades de expressão, bloqueios emocionais, introversão. Negligências e omissões podem gerar: Carência afetiva, necessidade exagerada de chamar atenção e de autoafirmação, rebeldia, baixa autoestima, relacionamentos afetivos negativos. É importante evitar os “rótulos” que desanimam os filhos, gerando baixa estima, e inseguranças. “Pais, não irriteis vossos filhos para que não desanimem”, diz a Palavra de Deus. As drogas podem entrar na vida do adolescente quando: ele não suporta sua realidade de vida e busca meios de fuga dela; quer buscar novos prazeres diante da sensação de saturação hedonista; quer experimentar riscos para se auto afirmar diante do grupo, ou chamar a atenção dos pais. O que deve ser proporcionado aos filhos para que possam ter uma vida saudável? Como dar limites? Numa sociedade que favorece o hedonismo – a busca do prazer pelo prazer –, a corrupção, o individualismo, o materialismo, é

necessário que a família tenha uma âncora para o seu barco, a fim de acioná-la e não deixá-lo afundar nos momentos das tempestades que todos passamos. É necessário que o barco tenha uma bússola que norteie o rumo a seguir, a fim de não deixá-lo o barco à deriva, sujeito a acidentes e outros perigos. Qual é essa bússola? Deus. Os valores do evangelho que são fundamentais a qualquer sociedade e qualquer homem. Qual é essa âncora? A fé que se fortalece na oração, na Palavra de Deus, na vida em comunidade. Precisamos estar conscientes do bem e do mal, seguros daquilo que é melhor para nossa família, não se deixando levar pela mentalidade do mundo capitalista que escraviza o homem ao trabalho e ao consumo. Buscar viver de forma equilibrada, elegendo os valores que são fundamentais à paz e à felicidade do ser humano: escolher lazeres que tragam gratificação emocional e afetiva, como esportes, passeios, jogos de salão, refeição familiar destinada a um convívio mais


intenso, filme que todos possam assistir juntos... Torna-se mais fácil dar limites quando temos convicção de nossos objetivos e sabemos que eles são essenciais. Atitudes que podem ajudar Que teu sim seja sim e que teu não seja não. Parceria entre o casal e comunhão de mentalidade na forma de educar. Diálogo conjugal: comunhão e unidade do casal nas decisões, nas orientações aos filhos, sem desautorizar o cônjuge. Firmeza e afeto na clareza de orientações, fundamentando os “porquês”. Parceria com a escola. Ela quer ser apoio e ajuda para os pais, precisa dizer o que não vai bem com seu filho. Não tem a intenção de julgar, de culpar alguém, mas de iluminar uma necessidade ou mais necessidades de seu filho.

É difícil para os pais serem chamados na escola para falar sobre o filho, pois isso fere um pouco o nosso orgulho. Quereríamos ser perfeitos e que nossos filhos também o fossem. É preciso humildade para educar segundo o coração de Deus. Também evitar atitudes defensivas na relação com a escola, como: desconsiderar o que está acontecendo, diminuindo a importância real do ocorrido com o filho, ou irar-se e descontar em casa de forma agressiva nos filhos, ou culpar a escola. É indispensável o diálogo do casal (sobre os filhos) e o diálogo com os filhos (em perfeita comunhão com o cônjuge). Também é muito importante: Expressar afeto, Ressaltar as qualidades e conquistas do filho,

Vigiar-se para não expressar preferências por algum filho, evitando comparações, Não emitir pré-julgamentos, Escutar primeiro, Dizer a verdade sobre o que está errado e considerar a gravidade ou não do ato, para que seja, inclusive, reparada sua consequência, com tranquilidade, Ser firme nas orientações e decisões tomadas, até o fim.

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FORMAÇÃO HuMAnA

Eu não sou o

Messias!

“Eu não sou o Messias, mas sou enviado diante dele” (Jo 3,28). ver, assimilar a verdade, deixar-se por ela libertar e plasmar para alcançar a liberdade, eis a marca registrada de São João Batista, o precursor de nosso Senhor. Sendo enviado diante do Messias, em nenhuma hipótese arvorou-se assumir a identidade ou o papel do Cristo de Deus. Pe. Marcos Chagas Missionário da Com. Católica Shalom em Quixadá/CE

P

or mais que pareça óbvio e ululante, é de suma importância cada qual reconhecer o seu lugar e lá permanecer, na convicção profunda, deste ser o caminho a ser tomado. As tentações de querer ser o messias na vida das pessoas, das comunidades, instituições e, por conseguinte, da Igreja

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ou mesmo do mundo, sempre perpassaram os corações em sua humana fraqueza. A humildade, que é a verdade, quando é sólida, não dá espaço para ilusões. O humilde não se engana, nem engana. Sabe muito bem que por meio de uma evangelização ousada e de uma fé que opera na caridade, não deve se permitir omitir em fazer

das pessoas seguidoras do único Cristo Messias. Sem buscar atrair ou formar discípulos para si, ao máximo será, na vida das pessoas, um ponto de passagem e nunca um ponto de chegada. A desobediência, a presunção, o orgulho, a vaidade, a soberba e todo o triste cortejo de consequências nefastas das corrosivas ações na vida das


Quem ama a Deus está sempre em vantagem, no lucro certo, na felicidade garantida. Quem no-lo assegura é Paulo quando afirma: “Tudo contribui para o bem daquele que ama a Deus” (Rm 8,28).” pessoas, fatalmente levá-las-á ao engano profundo. Cada qual procure conhecer e viver no melhor dos modos e na mais vívida verdade, a missão confiada a si por Deus. Ele nos dará tudo quanto precisamos para o exercício deste ministério-serviço. Efetivamente, lembra-nos São João: “Um homem nada pode receber a não ser que lhe tenha sido dado do céu” ( Jo 3,27). Noutras palavras, tudo recebemos do Senhor, nosso único benfeitor e supremo provedor. Esta visão de fé inspirou Santo Agostinho a dizer em suas “Confissões”: “Dá-me aquilo que pedes e pede-me aquilo que quiseres” (Livro X, n. 10). As criaturas, as instituições, os acontecimentos acabam, de um jeito ou de outro, assumindo um papel de seus ministros, seus canais e seus instrumentos a fim de que os divinos favores ou a divina correção cheguem a nós. O zelo grande deve ser o de amar a Deus. Quem ama a Deus está sempre em vantagem, no lucro certo, na felicidade garantida. Quem no-lo assegura é Paulo quando afirma: “Tudo contribui para o bem daquele que ama a Deus” (Rm 8,28). Ninguém com isso, deve se sentir autorizado, em nenhuma hipótese, a fazer o mal, nem a se acomodar em não fazer o bem, podendo e devendo fazê-lo. Não somos marionetes nas mãos de Deus! Ele, em sua sabedoria e providência, sabe dispor de tudo e de tudo tira um bem Maior. Permanece a missão de construirmos com diligência e reta intenção, o Reino de Deus. Sim, é preciso querer, mas o querer deve ser amor e nada mais é amor senão viver a caridade da Trindade que ao revelar sua vontade, exalta ao máximo nossa liberdade e nos plenifica com sua eternidade! Certamente, alegrar-se-á o amigo do esposo, ao ouvir deste esposo a voz.

Nesta voz, está a Palavra. A alegria de contemplar este Cristo que desposa a Igreja é prenúncio das núpcias eternas da feliz eternidade. No rastro desta alegria “é necessário que ele cresça e que eu diminua” ( Jo 3,30). Desafio grande para o orgulho humano é diminuir, apequenar-se. Sem esta humilde disposição, a evangelização está fadada a reduzir-se a uma triste orquestração de vanglória do evangelizador. Pode até existir eficiência e exuberância nos meios, mas a fecundidade está comprometida. Ele dará a si mesmo, ao invés de dar Cristo. Esta liberdade de saber aparecer e desaparecer, de estar aqui ou ali, de fazer esta ou aquela tarefa, não sentir-se necessário, mas ser disponível, tudo isso é saber diminuir. Assim, Cristo crescerá! Sem confundir-se com o complexo de inferioridade, a humildade é uma virtude de maturidade humana e espiritual que leva à ousadia apostólica por crer na sublimidade da causa e sobrenaturalidade dos meios. O humilde, ao invés de olhar para si, contempla quem o chamou, ungiu e enviou. Conhecerá, valorizará e utilizará no melhor dos modos as ferramentas que Deus a ele disponibilizou. O que foi dado aos outros, bem, isso não é da sua conta. Naquilo que Deus doa e não doa, concede ou nega a cada um de nós, uma visão de fé é sempre uma inesgotável fonte de paz. Mantendo fixo o seu olhar em Deus, ele segue rumo à meta! Seguindo os passos do apóstolo Paulo, o evangelizador, vocacionado a ser também o precursor, prosseguirá para ver se alcança Cristo, pois que foi conquistado por Ele. Deste modo, esquecendo-se o que fica para trás, avançando para o que está adiante, prosseguirá para o alvo, para o prêmio da vocação do alto, que vem de Deus em Cristo Jesus (cf. Fl 3,12-14). www.edicoesshalom.com.br

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ATUALIDADE

“Pusemos a nossa esperança no

Deus vivo” Mensagem do Papa Bento XVI para a XXIV Jornada Mundial da Juventude 5 de abril de 2009

Fazei escolhas que manifestem a vossa fé; mostrai que compreendestes as insídias da idolatria do dinheiro, dos bens materiais, da carreira e do sucesso, e não vos deixeis atrair por estas quimeras falsas. Não cedais à lógica do interesse egoísta, mas cultivai o amor ao próximo e esforçai-vos por colocar a vós mesmos e as vossas capacidades humanas e profissionais ao serviço do bem comum e da verdade, sempre prontos a responder “a quem vos perguntar a razão da vossa esperança!”

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ueridos amigos! Penso de novo com profunda gratidão ao Senhor no encontro que se realizou em Sidney, em julho do ano passado: encontro inesquecível, durante o qual o Espírito Santo renovou a vida de numerosíssimos jovens que se reuniram de todo o mundo. A alegria da festa e o entusiasmo espiritual, experimentados durante aqueles dias, foram um sinal eloquente da presença do Espírito de Cristo. E agora estamos nos encaminhando para Madrid, em 2011, que terá como tema as palavras do Apóstolo Paulo: “Enraizados e edificados em Cristo, firmes na fé” (cf. Cl 2,7). Em vista deste Encontro Mundial dos Jovens, queremos realizar juntos um percurso formativo, refletindo em 2009 sobre a afirmação de São Paulo: “Pusemos a nossa esperança em Deus vivo” (1Tm 4,10), e em 2010 sobre a pergunta do jovem rico a Jesus: “Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?” (Mc 10,17). A juventude tempo da esperança Em Sidney, a nossa atenção concentrou-se sobre o que o Espírito Santo diz hoje aos crentes, e em particular a vós, queridos jovens. Durante

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a Santa Missa conclusiva, exortei-vos a deixarvos plasmar por Ele para serdes mensageiros do amor divino, capazes de construir um futuro de esperança para toda a humanidade. A questão da esperança está, na realidade, no centro da nossa vida de seres humanos e da nossa missão de cristãos, sobretudo na época contemporânea. Todos sentimos a necessidade da esperança, não de uma esperança qualquer, mas sim de uma esperança firme e de confiança, como eu quis ressaltar na Encíclica Spe Salvi. Em particular, a juventude é tempo de esperanças, porque olha para o futuro com várias expectativas. Quando se é jovem alimentam-se ideais, sonhos e projetos; a juventude é o tempo no qual amadurecem opções decisivas para o resto da vida. E talvez também por isto é a estação da existência na qual emergem com vigor as perguntas fundamentais: Por que estou na terra? Qual é o sentido do viver? Que será da minha vida? E ainda: Como alcançar a felicidade? Por que o sofrimento, a doença e a morte? O que existe depois da morte? Perguntas que se tornam insuportáveis quando devemos nos confrontar com obstáculos que por vezes parecem insuperáveis: dificuldades


A experiência demonstra que as qualidades pessoais e os bens materiais não são suficientes para garantir a esperança da qual o coração humano está em busca constante. nos estudos, falta de trabalho, incompreensões na família, crises nas relações de amizade ou na construção de um entendimento conjugal, doenças ou deficiências, carência de recursos adequados como consequência da atual difundida crise econômica e social. Então perguntamos: de onde haurir e como manter viva no coração a chama da esperança? Na raiz da “grande esperança” A experiência demonstra que as qualidades pessoais e os bens materiais não são suficientes para garantir a esperança da qual o coração humano está em busca constante. Como escrevi na citada Encíclica Spe salvi, a política, a ciência, a técnica, a economia e qualquer outro recurso material sozinhos não são suficientes para oferecer a grande esperança que todos desejamos. Esta esperança “só pode ser Deus, que abraça o universo e nos pode propor e dar aquilo que, sozinhos, não podemos conseguir” (n. 31). Eis

por que uma das consequências principais do esquecimento de Deus é a evidente desorientação que marca as nossas sociedades, com consequências de solidão e violência, de insatisfação e perda de confiança que não raro terminam no desespero. É clara e forte a chamada que nos vem da Palavra de Deus: “Maldito o homem que confia noutro, que da carne faz o seu apoio e cujo coração vive distante do Senhor. Assemelha-se ao cardo do deserto que, mesmo que lhe venha algum bem, não o sente” ( Jr 17,5-6). A crise de esperança atinge mais facilmente as novas gerações que, em contextos socioculturais privados de certezas, de valores e de sólidos pontos de referência, enfrentam dificuldades que são maiores do que as suas forças. Penso, queridos amigos, em tantos irmãos vossos, feridos pela vida, condicionados por uma imaturidade pessoal que muitas vezes é consequência de um vazio familiar, de opções educativas permissivas e libertárias e de experiências negativas e traumáticas. Para alguns e infelizmente não são poucos a saída quase obrigatória é uma fuga alienante com comportamentos de risco e violentos, na dependência www.edicoesshalom.com.br

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de drogas e álcool, e em muitas outras formas de mal-estar juvenil. Contudo, também em quem se vem a encontrar em condições difíceis por ter seguido conselhos de “maus mestres”, não se apaga o desejo de amor verdadeiro e de autêntica felicidade. Mas como anunciar a esperança a estes jovens? Nós sabemos que só em Deus o ser humano encontra a sua verdadeira realização. O compromisso primário que interpela todos é portanto o de uma nova evangelização, que ajude as novas gerações a redescobrir o rosto autêntico de Deus, que é Amor. A vós, queridos jovens, que estais em busca de uma esperança firme, dirijo as mesmas palavras que São Paulo dirigia aos cristãos perseguidos na Roma de então: “Que o Deus da esperança vos encha plenamente de alegria e de paz na vossa crença, para que abundeis na esperança pela virtude do Espírito Santo” (Rm 15,13). Durante este ano jubilar dedicado ao Apóstolo das Nações, por ocasião do bimilênio do seu nascimento, aprendamos dele a tornar-nos testemunhas credíveis da esperança cristã. São Paulo testemunha da esperança Encontrando-se imerso em dificuldades e provações de vários tipos, Paulo escrevia ao seu fiel discípulo: “Pusemos a nossa esperança em Deus vivo” (1Tm 4,10). Como tinha nascido nele esta esperança? Para responder a esta pergunta devemos partir do seu encontro com Jesus ressuscitado no caminho de Damasco. Nessa época Saulo era um jovem como vós, com cerca de vinte ou vinte e cinco anos, seguidor da Lei de Moisés e decidido a combater com todos

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os meios quantos ele considerava inimigos de Deus (cf. At 9,1). Quando estava a caminho de Damasco para prender os seguidores de Cristo, foi envolvido por uma luz misteriosa e ouviu chamar pelo nome: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”. Caindo por terra, perguntou: “Quem és Tu, Senhor?”. E aquela voz respondeu: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues!” (cf. At 9,3-5). Depois daquele encontro, a vida de Paulo mudou radicalmente: recebeu o Batismo e tornou-se apóstolo do Evangelho. No caminho de Damasco, ele foi interiormente transformado pelo Amor divino que encontrou na pessoa de Jesus Cristo. Um dia escreverá: “A vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, que me amou e Se entregou a Si mesmo por mim” (Gl 2,20). De perseguidor, tornou-se portanto testemunha e missionário: fundou comunidades cristãs na Ásia Menor e na Grécia, percorrendo milhares de quilômetros e enfrentando toda a espécie de peripécias, até ao martírio em Roma. Tudo por amor a Cristo. A grande esperança está em Cristo Para Paulo a esperança não é só um ideal ou um sentimento, mas uma pessoa viva: Jesus Cristo, Filho de Deus. Persuadido intimamente desta certeza, poderá escrever a Timóteo: “Pusemos a nossa esperança em Deus vivo” (1Tm 4,10). O “Deus vivo” é Cristo ressuscitado e presente no mundo. É Ele a verdadeira esperança: Cristo que vive conosco e em nós e que nos chama a participar na sua própria vida eterna. Se não estamos sozinhos, se Ele está conosco, aliás, se é Ele o nosso presente e


Para Paulo a esperança não é só um ideal ou um sentimento, mas uma pessoa viva: Jesus Cristo, Filho de Deus. Persuadido intimamente desta certeza, poderá escrever a Timóteo: “Pusemos a nossa esperança em Deus vivo.” o nosso futuro, por que temer? A esperança do cristão é, portanto, desejar “o Reino dos céus e a vida eterna como nossa felicidade, pondo toda a confiança nas promessas de Cristo e apoiandonos, não nas nossas forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo” (Catecismo da Igreja Católica, 1817). O caminho rumo à grande esperança Assim como um dia encontrou o jovem Paulo, Jesus deseja encontrar também cada um de vós, queridos jovens. Sim, antes de ser um nosso desejo, este encontro é um desejo profundo de Cristo. Mas alguns de vós poderiam perguntar: como posso eu, hoje, encontrá-lo? Ou também, de que modo Ele se aproxima de mim? A Igreja ensina que o desejo de encontrar o Senhor já é fruto da sua graça? Quando na oração expressamos a nossa fé, também na obscuridade já O encontramos porque Ele se oferece a nós. A oração perseverante abre o coração para O acolher, como explica Santo Agostinho: “O Senhor nosso Deus quer que nas orações se exercite o nosso desejo, de modo que nos tornemos capazes de receber o que Ele pretende dar-nos” (Cartas 130, 8, 17). A oração é dom do Espírito, que nos torna homens e mulheres de esperança, e rezar mantém o mundo aberto a Deus (cf. Enc. Spe salvi, 34).

Dai espaço à oração na vossa vida! Rezar sozinho é bom, mas ainda melhor e mais proveitoso é rezar juntos, porque o Senhor garantiu que está presente onde estiverem dois ou três reunidos no seu nome (cf. Mt 18,20). Existem muitas formas de se familiarizar com Ele; existem experiências, grupos e movimentos, encontros e itinerários para aprender assim a rezar e a crescer na experiência da fé. Participai na liturgia nas vossas paróquias e alimentai-vos abundantemente da Palavra de Deus e da participação ativa nos Sacramentos. Como sabeis, ápice e centro da existência e da missão de cada crente e comunidade cristã é a Eucaristia, sacramento de salvação na qual Cristo se faz presente e doa como alimento espiritual o seu próprio Corpo e Sangue para a vida eterna. Mistério deveras inefável! Em volta da Eucaristia nasce e cresce a Igreja, a grande família dos cristãos, na qual se entra com o Batismo e nos renovamos constantemente graças ao sacramento da Reconciliação. Depois, os batizados, mediante a Crisma, são confirmados pelo Espírito Santo para viver como autênticos amigos e testemunhas de Cristo, enquanto os Sacramentos da Ordem e do Matrimônio os tornam preparados para realizar as suas tarefas apostólicas na Igreja e no mundo. A Unção dos enfermos, por fim, faz-nos experimentar o conforto divino na doença e no sofrimento.

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Agir em sintonia com a esperança cristã Queridos jovens, se vos alimentardes de Cristo e viverdes imersos nele como o apóstolo Paulo, não podereis deixar de falar dele, de O fazer conhecer e amar por tantos vossos amigos e irmãos. Tendo-vos tornado seus fiéis discípulos, sereis assim capazes de contribuir para formar comunidades cristãs impregnadas de amor como aquelas das quais fala o livro dos Atos dos Apóstolos. A Igreja conta convosco para esta imperativa missão: não vos desencorajem as dificuldades e as provas que encontrardes. Sede pacientes e perseverantes, vencendo a natural tendência dos jovens para a pressa, para querer tudo e já. Queridos amigos, como Paulo, testemunhai o Ressuscitado! Fazei-O conhecer a quantos, vossos coetâneos ou adultos, estão em busca da “grande esperança” que dê sentido à sua existência. Se Jesus se tornou a vossa esperança, dizei-o também aos outros com a vossa alegria e com o vosso compromisso espiritual, apostólico e social. Habitados por Cristo, depois de ter posto nele a vossa fé e de lhe ter dado toda a vossa confiança, difundi esta esperança ao vosso redor. Fazei escolhas que manifestem a vossa fé; mostrai que compreendestes as insídias da idolatria do dinheiro, dos bens materiais, da carreira e do sucesso, e não vos deixeis atrair por estas quimeras falsas. Não cedais à lógica do interesse egoísta, mas cultivai o amor ao próximo e esforçai-vos por colocar a vós mesmos e as vossas capacidades humanas e profissionais ao serviço do bem comum e da verdade, sempre prontos a responder “a quem vos perguntar a razão da vossa esperança!” (1Pd 3,15). O

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cristão autêntico nunca está triste, mesmo quando tem que enfrentar provas de vários tipos, porque a presença de Jesus é o segredo da sua alegria e da sua paz. Maria, Mãe da Esperança Modelo deste itinerário de vida apostólica seja para vós São Paulo, que alimentou a sua vida de fé e esperança constantes seguindo o exemplo de Abraão, do qual escreve na Carta aos Romanos: “Ele mesmo, contra o que podia esperar, acreditou que havia de ser pai de muitas nações” (Rm 4,18). Por estas mesmas pegadas do povo da esperança formado pelos profetas e pelos santos de todos os tempos nós prosseguimos rumo à realização do Reino, e no nosso caminho acompanhe-nos a Virgem Maria, Mãe da Esperança. Aquela que encarnou a esperança de Israel, que doou ao mundo o Salvador e permaneceu, firme na esperança, aos pés da Cruz, é para nós modelo e amparo. Sobretudo, Maria intercede por nós e guia-nos na escuridão das nossas dificuldades para

o alvorecer radioso do encontro com o Ressuscitado. Gostaria de concluir esta mensagem, queridos jovens amigos, fazendo minha uma bela e conhecida exortação de São Bernardo inspirada no título de Maria Stella maris, Estrela do mar: “Tu que na instabilidade contínua da vida presente, te vês mais a flutuar entre as tempestades do que a caminhar na terra, mantém fixo o olhar no esplendor desta estrela, se não quiseres ser aniquilado pelos furacões. Se insurgem os ventos das tentações e te encalhas entre as rochas das tribulações, olha para a estrela, invoca Maria... Nos perigos, nas angústias, nas perplexidades, pensa em Maria, invoca Maria... Seguindo os seus exemplos não te perderás; invocando-a não perderás a esperança; pensando nela não cairás no erro. Amparado nela não escorregarás; sob a sua proteção nada recearás; com a sua guia não te cansarás; com a sua proteção alcançarás a meta” (Homilias em louvor da Virgem Mãe, 2,17). Maria, Estrela do mar, sê tu a guiar os jovens do mundo inteiro ao encontro com o teu Filho divino Jesus, e sê ainda tu a celeste guarda da sua fidelidade ao Evangelho e da sua esperança. Ao garantir a minha recordação quotidiana na oração por todos vós, queridos jovens, abençoo de coração a vós e às pessoas que vos são queridas.


POESIA

Intimidade

com Deus O Senhor não faz acepção de pessoas A todos trata igualmente Todos recebem a mesma graça Somos chamados à sua intimidade

Aqueles que se apossam desta graça E buscam o Senhor além do natural Encontram-nO, experimentam seu amor Alcançam a realidade sobrenatural Uns acordam bem mais cedo Outros almoçam bem mais rápido, Outros ainda fazem toda sorte de sacrifícios Para poder estar com seu Senhor Aquilo a que todos somos chamados Ser almas esposas do Filho de Deus Entrar no círculo restrito de sua intimidade Não se consegue sendo só natural Para receber tão grande prêmio É preciso não se acomodar Sacrificar algo que nos custa muito Passar por uma muralha de fogo É preciso buscar a oração Romper com o pecado Acolher as provações de Deus Passar por uma noite escura Quem se contenta com o normal O equilibrado, o racional. Pode vir a ficar sem o extraordinário, O milagroso, o sobrenatural. Pode ficar sem experimentar A doçura do amor de Deus Sem escutar sua voz suave e firme Insistentemente seu nome a chamar Paulo Roberto

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A VOZ DA IGREJA

Direitos, deveres e o bem comum

O Concílio Ecumênico Vaticano II diz que os cristãos “devem distinguir-se pelo exemplo, porquanto estão obrigados por consciência a desenvolver em si o senso de responsabilidade e do devotamento ao Bem Comum”. E por isso “o Sínodo Vaticano exorta a todos (...) que se esmerem por formar homens que, por reflexão própria, (...) organizem suas atividades com senso de responsabilidade”.

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Uma atitude pessoal verdadeiramente evangélica nos faz observar os deveres a serviço de Deus e da pátria e não apenas exige direitos.

os noticiários do diaa-dia, percebe-se um fogo cruzado de acusações recíprocas. Muitos possuem grande acuidade em constatar as deficiências materiais e morais na administração da vida pública, esquecendo, contudo, que repetidas vezes cometemos falhas semelhantes. Todos somos, também, responsáveis pela construção do Bem comum. Aliás, essa tarefa compete a todos e não apenas aos que ocupam funções diretivas. Relendo o documento conclusivo Conferência de Puebla, de 1979, “A Evangelização no presente e no futuro da América Latina”, capítulo IV, intitulado “Ação da Igreja em favor da Pessoa na Sociedade Nacional e Internacional”, encontro uma diretriz importante sobre o assunto. Ao falar que a Igreja “deve ser a voz daqueles que não têm voz (...) decorrência e serviço em prol da comunhão e da participação” (nº 1.268), e após enumerar os “direitos individuais, direitos sociais e direitos emergentes”, acrescenta (nº1274): “Entretanto, a Igreja também ensina que o reconhecimento desses direitos supõe e exige sempre, ‘no homem que os possui, outros tantos deveres. Direitos e deveres encontram na lei natural que os outorga ou impõe, sua origem, seu sustentáculo e sua força indestrutível’” (Pacem in Terris, nº 28). Nós todos somos indulgentes conosco e severos com o próximo. Essa tendência é tão antiga e generalizada que se encontra retratada na frase do Evangelho: www.edicoesshalom.com.br

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Com que autoridade moral um pai ou uma mãe de família, que é infiel na observância de suas obrigações, inclusive a fidelidade conjugal, pode recriminar a fraude cometida por quem fere a Ética em suas tarefas administrativas?” “Por que olhas o cisco no olho do teu irmão e não percebes a trave que há no teu (...) Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás bem, para tirar o cisco do olho do teu irmão” (Lc 6,41-42). Aplicando esse texto à nossa vida, duas questões devem ser levantadas, quando afirmamos alguém, simples cidadão ou homem público, ser desonesto: primeiro a validade da assertiva, pois há um ordenamento de Deus que proíbe o falso julgamento e a calúnia; segundo, se, ao acusar, estamos isentos de falhas semelhantes. Por exemplo, será que pagamos o imposto devido? Caso contrário, também espoliamos a coletividade de recursos destinados ao bem comum. Uma dívida por nós contraída e não saldada é uma apropriação indébita: a justificativa da inexistência de meios para solver compromissos é enganosa, quando se deixa de suprimir o não-essencial à sobrevivência. E isso ocorre por falta de sensibilidade para com o cumprimento de nossas obrigações. Há os que clamam justamente por direitos e outros o fazem por querer abafar a consciência perante a omissão dos próprios deveres. Estas deformações prejudicam a comunidade e, por isso, se equiparam a uma iniquidade similar aos que administram mal os assuntos referentes ao Estado. Isto não exclui a afirmação de que o abuso é tanto mais grave no âmbito político quanto maior for o alcance coletivo de seus malefícios. O Concílio Ecumênico Vaticano II diz que os cristãos “devem distinguir-se pelo exemplo, porquanto estão obrigados por consciência a desenvolver em si o senso de responsabilidade e do devotamento ao Bem Comum” (Gaudium et Spes, nº 75). E por isso “o Sínodo Vaticano exorta a todos (...) que se esmerem por formar homens que, por reflexão própria, (...) organizem suas atividades com senso de responsabilidade” (Declaração Dignitatis Humanae, nº 8). Existem razões para esta advertência, pois “não poucos, por diversas formas de fraude e de dolo, não têm escrúpulo de sonegar os impostos justos ou outras contribuições devidas à sociedade. (...) Que todos considerem como sagrada obrigação enumerar as

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relações sociais entre os principais deveres do homem de hoje e observá-las” (Gaudium et Spes, nº 30). Na apreciação das sombras e luzes da realidade em que nos encontramos, há dois elementos valiosos e indispensáveis: as diretrizes oriundas dos princípios expostos pela Igreja em nome do Evangelho, pois ela tem o direito de “emitir juízo moral, também sobre as realidades que dizem respeito à ordem política, quando o exigem os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas” (Gaudium et Spes, nº 76). O outro é o questionamento de nossa conduta. Diz o Concílio: “É preciso lembrar o dever de prestar à nação os serviços materiais e pessoais exigidos pelo Bem comum” (Gaudium et Spes, nº 75). Com que autoridade moral um pai ou uma mãe de família, que é infiel na observância de suas obrigações, inclusive a fidelidade conjugal, pode recriminar a fraude cometida por quem fere a Ética em suas tarefas administrativas? Soa hipócrita o protesto feito diante dos desvios na aplicação do dinheiro público, se tal reação parte de alguém que afronta com o esbanjamento e o luxo desmedido a miséria de irmãos que vivem ou tentam sobreviver na mesma coletividade. Na verdade, as deficiências de uma conduta não impedem a fiscalização das falhas existentes na condução da vida política de um país. Contudo, os desmandos particulares invalidam ou enfraquecem essas críticas. Os descalabros financeiros merecem enérgica reprovação. Esta, entretanto, não exclui esse exame de consciência. Pelo contrário, exige-o em nome de uma autenticidade que caracteriza o verdadeiro cidadão. Tais considerações não absolvem os erros cometidos pelos dirigentes, mas abrangem, na solução dos mesmos, todos que, por pertencerem à mesma nação, estão igualmente comprometidos na superação dos problemas. O profundo amor à Verdade nos possibilita sobreviver ao torvelinho que brota das paixões. Uma atitude pessoal verdadeiramente evangélica nos faz observar os deveres a serviço de Deus e da pátria e não apenas exige direitos. Uma luta autêntica questiona sempre a execução das diretrizes corretas e justas na vida privada e social, sabendo que nunca será uma obra acabada, mas uma busca sempre nova que envolve cada geração (cf. Papa Bento XVI, Spe Salvi, 25).

Cardeal Dom Eugenio Sales Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro/RJ


PAPO JOvEM

Os livros da série “Crepúsculo” já venderam mais de 25 milhões de cópias em todo o mundo, com traduções em 37 línguas. Assim como a saga Harry Potter, Crepúsculo também tem como inspiração o ocultismo e têm atingido uma quantidade enorme de adolescentes, principalmente garotas.

Carmadélio Souza Missionário da Com. Católica Shalom em Fortaleza/CE

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uma noite de verão de junho de 2003, enquanto dormia com o marido e os três filhos em sua casa no subúrbio de Phoenix, nos Estados Unidos, Stephenie Meyer, então com 29 anos, sonhou com o encontro romântico entre uma adolescente e um vampiro num anoitecer chuvoso. Na manhã seguinte, segundo seu relato, deixou de ser uma típica dona de casa para se tornar escritora. Em três meses, escreveu as 416 páginas de “Crepúsculo”, primeiro de quatro volumes da saga, maior fenômeno literário desde Harry Potter, o “menino bruxo”. Nos livros da saga, a fórmula de Stephenie é converter histórias de terror em romances adocicados. Seus vampiros não têm dentões pontiagudos, não mordem e não há sangue no canto da boca. A ação é desacelerada para dar lugar ao drama humano que conduz à narrativa. Tudo apimentado pela tensão erótica velada entre os dois personagens. Os livros da Série “Crepúsculo” já venderam mais de 25 milhões de cópias em todo o mundo, com traduções em 37 línguas diferentes. Assim como a saga Harry www.edicoesshalom.com.br

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O problema de obras como essa e como Harry Potter é o rompimento da luz e das trevas. Não existe mais a separação do mundo sobrenatural e natural, tudo é uma coisa só; verdade e mentira não existem, é minha “crença e o uso desta crença” que faz as coisas serem boas ou más.

Potter, Crepúsculo também tem como inspiração o ocultismo e têm atingido uma quantidade enorme de adolescentes, principalmente garotas. Esse fenômeno nos deixa reflexivo: o fato de uma obra que mexe com o sobrenatural fazer

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tanto sucesso revela o que nós já sabemos: os jovens têm sede de Deus, embora procurem em locais tão variados, como as drogas, participação em tribos exóticas ou leituras como essa. Por outro lado percebe-se a superação da fronteira que antigamente existia entre o bem e o mal, aquela fronteira que tínhamos de forma mais ou menos clara quando éramos crianças, que nos protegia, mesmo que mais por medo do que por convicção cristã. O relativismo tem comprometido o sentido da verdade e tem conduzido a juventude a buscar experiências esvaziadas de sentido “mas que emocionam” e que prendem pelo suspense e aventura.

É verdade que a grande maioria não vê nenhum problema em uma obra de ficção que tem como personagem um “vampiro”, até porque, como ouvi em recente pregação sobre o assunto de algumas jovens, que me cercaram pós ensino: “Vampiro não existe… é só um romance… todo mundo tá lendo...” A autora é americana, mórmon, casada com um pastor desta denominação não cristã. Sua a obra é mais uma que vai na mesma direção de negar o mal do ocultismo


esvaziando-o de religiosidade e apresentando personagens simbolicamente e culturalmente associados a ocultismo, como vampiros e lobisomens, quase humanos, que interagem com personagens normais e que amam! Na pregação citada acima, perguntei aos jovens se eles sabiam quem eram os vampiros e a maioria não sabia. Perguntei-lhes porque os vampiros não suportam a luz nem símbolos cristãos como o crucifixo, porque dormem de dia e saem só à noite. Porque dormem em caixões mortuários. Nenhum sabia. Pela perca do sentido da fé, isso não tem nenhuma importância para a maioria dos jovens. Não faz muita diferença que existam tribos de jovens identificados com os vampiros, que existam hoje especialistas em vampiros, veja: http:// www.contonoturno.hpg.com.br/ entrevista/robertogoldkorn.html. Que, paralelamente à compreensão sensata de que, de fato, os vampiros sejam figuras mitológicas, existe também, de fato, o tal do “vampirismo real”, vivenciado por pessoas que “se descobrem vampiros”, que gostam de sangue. E o bebem! Se tiver estômago, coloque no Google “vampirismo real” e encontrará 808 mil respostas! É inacreditável, porém REAL! Se quiser ler algum link, prepare-se! Esse “glamour” por vampiros é demoníaco e um jovem verdadeiramente cristão não pode nem deve perder seu tempo lendo “Crepúsculo”, embora não exista nada demais em ler algumas obras de ficção, desde que fique clara a separação da verdade e da mentira e que não mexam com realidades associadas ao Mal, de forma tão explicita ou não neguem positivamente os valores de nossa cultura cristã. A visão mais antiga dos vampiros, no nosso tempo de criança, era

Crepúsculo é apresentado dentro de um romance, muito bem escrito, que enriquece a autora e empobrece os leitores. A luz e as trevas são uma coisa só, não existe mais a fronteira definida, fundamental para um posicionamento crítico e cristão.” mais “honesta”, pois falava dessas figuras míticas, morando em castelos europeus, (hoje eles são americanos, “filhos” da matriz cultural do mundo, exportadora de halloweens e conceitos anti evangélicos) eram seres malignos, porém sempre derrotados no final, pela força da cruz ou da estaca no peito. Tínhamos medo! Os vampiros de hoje, pelo menos os da TV e cinema não geram medo. Não são maus… O problema de obras como essa e como Harry Potter é o rompimento da luz e das trevas. Não existe mais a separação do mundo sobrenatural e natural, tudo é uma coisa só; verdade e mentira não existem, é minha “crença e o uso desta crença” que faz as coisas serem boas ou más. No caso do Harry Potter, por exemplo, os seus defensores dizem que a bruxaria no filme tem dois lados e que a questão não é a bruxaria, mas é o uso da bruxaria que a torna boa ou má, esquecendo que a bruxaria, intrinsecamente é um conceito mau, anti evangélico, mesmo que se tenha a intenção de usá-la para o bem, já que, sabemos, o fim bom não justifica o uso de um meio mal. Crepúsculo é apresentado dentro de um romance, muito bem escrito, que enriquece a autora e

empobrece os leitores. A luz e as trevas são uma coisa só, não existe mais a fronteira definida, fundamental para um posicionamento crítico e cristão. É engraçado que para o mundo de hoje ter conceito sobre a verdade e mentira é visto sempre como um sinal de “pré“ conceito ou exagero. Em um mundo onde a “verdade” vai de um lado para o outro segundo as conveniências, ter firmeza de opinião é ser “fanático”. Na realidade, como cristãos, precisamos ter conceitos definidos e claros, alicerçados na revelação, nas Sagradas Escrituras e no Magistério da Igreja. Não podemos ser vítimas fáceis das modas de “Potter´s” – já sendo esquecido, porém deixando o rastro de abertura para “Crepúsculos e afins”. Talvez até, para quem nos ler, o assunto “vampirismo” pareça marginal. Entretanto, faça uma experiência e coloque no Google a palavra “vampiro” e você verá três milhões e oitocentos mil resultados de busca com essa palavra. Se somar “vampiros reais” com “vampiros imagens” teremos mais de seis milhões de resultados. O termo “vampiro” tem mas resultados no Google do que o termo “Jesus Cristo”, com três milhões trezentos e quarenta mil! E nossos jovens, o que fazer? Bem... Eles estão à procura... São belos em sua busca da verdade, precisam que lhes apresentem Jesus Cristo como resposta para os seus anseios de eternidade e de sentido. São pegos pela cultura circundante, que os atingem no vazio da ausência de formação cristã; de nossas famílias que pecam pela ignorância e de nossa incapacidade de acompanhar “as novidades”, não tão novas assim, deste mundo, que continua caminhando desorientado em busca da verdade. www.edicoesshalom.com.br

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espiritualidade

Trindade revela o segredo

das belas relações humanas A contemplação da Trindade pode ter um precioso impacto em nossa vida humana. É um mistério de relação. As pessoas divinas são definidas pela teologia como “relações subsistentes”. Significa que as pessoas divinas não têm relações, mas que são relações.

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or que os cristãos acreditam na Trindade? Já não é bastante difícil crer que existe Deus, para podermos aí então, acrescentarmos o enigma de que é “Uno e Trino”? Frequentemente aparecem aqueles que deixariam de lado a Trindade, também para poder assim dialogar melhor com judeus e muçulmanos, que professam a fé em um Deus rigidamente único. A resposta é que os cristãos acreditam que Deus é trino porque creem que Deus é amor! Se Deus é amor, deve amar alguém. Não existe um amor vazio, sem ser dirigido a ninguém. Interrogamos-nos: a quem ama Deus para ser definido amor? Uma primeira resposta poderia ser: ama os homens! Mas os homens existem há alguns milhões de anos, não mais. Então, antes, a

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quem amava Deus? Não pode ter começado a ser amor desde certo momento, porque Deus não pode mudar. Segunda resposta: antes de então amava o cosmos, o universo. Mas o universo existe há alguns milhões de anos. Antes de então, a quem amava Deus para poder ser definido como amor? Não podemos dizer: amava a si mesmo, porque amar a si mesmo não é amor, mas egoísmo, ou, como dizem os psicólogos, narcisismo. Está aqui a resposta da revelação cristã. Deus é amor em si mesmo, antes do tempo, porque desde sempre tem em si mesmo um Filho, o Verbo, a quem ama com amor infinito, que é o Espírito Santo. Em todo amor há sempre três realidades ou sujeitos: um que ama um que é amado e o amor que os une. Ali onde Deus

é concebido como poder absoluto, não existe necessidade de mais pessoas, porque o poder pode ser exercido por um só; mas não é assim se Deus é concebido como amor absoluto. A teologia tem-se servido do termo natureza, ou substância, para indicar em Deus a unidade, e o termo pessoa para indicar a distinção. Por isso, dizemos que nosso Deus é um Deus único em três pessoas. A doutrina cristã da Trindade não é um retrocesso, um pacto entre monoteísmo e politeísmo. Ao contrário: é um passo adiante que só o próprio Deus poderia fazer que a mente humana desse. A contemplação da Trindade pode ter um precioso impacto em nossa vida humana. É um mistério de relação. As pessoas divinas são


A felicidade e a infelicidade na terra dependem em grande medida, sabemos, da qualidade de nossas relações. A Trindade nos revela o segredo para ter relações belas. O que faz bela, livre e gratificante uma relação é o amor em suas diferentes expressões.”

Raniero Cantalamessa, OFM Cap Pregador da Casa Pontifícia

definidas pela teologia como “relações subsistentes”. Significa que as pessoas divinas não têm relações, mas que são relações. Os seres humanos têm relações – entre pai e filho, marido e mulher... –, mas não nos esgotamos nestas relações; existimos também fora e sem elas. Não é assim com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A felicidade e a infelicidade na terra dependem em grande medida, sabemos, da qualidade de nossas relações. A Trindade nos revela o segredo para ter belas relações. O que faz bela, livre e gratificante uma relação é o amor em suas diferentes expressões. Aqui se vê quão importante é contemplar a Deus antes de tudo como amor, não como poder: o amor doa, o poder domina. O que envenena uma relação é querer dominar o outro,

possuí-lo, instrumentalizá-lo, em vez de acolhê-lo e entregar-se. Devo acrescentar uma observação importante. O Deus cristão é uno e trino! Esta é, portanto, desta forma, a solenidade da unidade de Deus, não só por ser trino! Nós, cristãos, também cremos “em um só Deus”, só que a unidade na qual cremos não é uma unidade de número, mas de natureza. Parece mais a unidade da família que a do indivíduo, mais a unidade da célula que a do átomo. A primeira leitura da Solenidade nos apresenta o Deus bíblico como “misericordioso e clemente, lento para a cólera e rico no amor e na fidelidade”. Este é o traço que mais reúne o Deus da Bíblia, o Deus do Islã e o Deus (melhor dito, a religião) budista, e que se presta mais, por isso, a

um diálogo e a uma colaboração entre as grandes religiões. Cada sura do Alcorão começa com a invocação: “Em nome de Deus, o Misericordioso, o Compassivo”. No budismo, que desconhece a ideia de um Deus pessoal e criador, o fundamento é antropológico e cósmico: o homem deve ser misericordioso pela solidariedade e a responsabilidade que o liga a todos os viventes. As guerras santas do passado e o terrorismo religioso do presente são uma traição, não uma apologia, da própria fé. Como se pode matar no nome de um Deus ao qual se continua proclamando “o Misericordioso e o Compassivo”? É a tarefa mais urgente do diálogo inter-religioso que juntos, os fiéis de todas as religiões, devem buscar a paz e o bem da humanidade. www.edicoesshalom.com.br

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acontece no mundo

22.308 novos católicos na China desce o começo do ano

Este cálculo recolhe dados proporcionados por 90 das 97 dioceses da parte “oficial” da Igreja e, portanto, não leva em conta os batismos administrados na parte “clandestina” da Igreja.

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umerosos estudos indicam há anos: a China vive um “despertar das religiões”. Um artigo recentemente publicado pelo jornal católico “Xinde” (“A fé”), citado por Eglises d’Asie, informa que a Igreja Católica não se mantém à margem desta tendência e indica que o número de batismos está em alta, dado que a Igreja sabe mostrar-se empreendedora no campo da evangelização. Onde as catástrofes naturais, tais como o terremoto de Sichuan, fazem estragos, o número de

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catecúmenos está também em crescimento. Em um artigo publicado em 22 de abril, Xinde, que se edita em Shijiazhuang (Hebei), indica que, desde

o começo deste ano, 22.308 pessoas foram batizadas na fé católica na China. Este cálculo recolhe dados proporcionados por 90 das 97 dioceses da

parte “oficial” da Igreja e, portanto, não leva em conta os batismos administrados na parte “clandestina” da Igreja. O número de batizados aumentou este ano cerca de 40% em comparação com os números do ano passado. Concretamente, parece estranho que uma catástrofe natural, como o terremoto que arrasou uma parte de Sichuan, em maio de 2008, contribua para levar novos fiéis à Igreja. Mas o jornal informa que, com 390 batizados, o número de novos católicos se duplicou neste ano na diocese de Chengdu. Na diocese vizinha de Chongging, também duramente atingida pelo sismo, foram realizados 1.400 batismos na Páscoa, o que supõe um número três vezes superior ao do ano passado.


Reconhecido milagre pela intercessão de Bárbara Maix

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Congresso dos Teólogos de Roma reconheceu no dia 22 de abril um milagre pela intercessão da venerável serva de Deus Bárbara Maix, religiosa austríaca que viveu no Brasil; informa a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Trata-se da cura do menino Onorino Ecker, quatro anos. Segundo a CNBB, a comissão foi unânime em reconhecer esta ação como milagrosa, uma etapa decisiva no processo de beatificação.

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Santa Sé denunciou que neste momento acontece uma nova corrida de armamentos nucleares e exigiu a aplicação do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP). Porta-voz da posição vaticana foi o arcebispo Celestino Migliore, observador permanente da Santa Sé nas Nações Unidas, ao intervir nesta terça-feira em um Comitê de preparação da Conferência de Revisão desse Tratado que a ONU realizará em 2010. Depois de quatro décadas de vida “e de bons serviços à comunidade interna-

Segundo a CNBB, a comissão foi unânime em reconhecer esta ação como milagrosa, uma etapa decisiva no processo de beatificação.

Bárbara Maix é fundadora da Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria. Nasceu em Viena, na Áustria, em 27 de junho de 1818.

Colaborou no acolhimento aos pobres, desenvolveu intensas atividades sociais no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, atendendo o clamor dos mais necessitados. “Os teólogos apresentam a serva de Deus Bárbara Maix como modelo de vida e virtude para um mundo no qual

os valores duradouros são tão desacreditados, onde tudo é provisório; como modelo de vida religiosa consagrada que ilumina a vida da Igreja e nos serve de exemplo na busca da verdadeira santidade”, afirmam as freiras da Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria.

Santa Sé denuncia

nova corrida armentista nuclear cional – declarou o núncio apostólico –, o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares continua sendo a pedra angular do desarmamento nuclear e da não proliferação de regimes nucleares, assim como um instrumento chave para fortalecer a paz e a segurança internacionais”. A Santa Sé reafirma seu firme e contínuo apoio ao Tratado e faz um convite a uma adesão universal e completa, assim como a seu cumprimento.

À luz de seu valor e importância, o Tratado constitui um urgente apelo a todos os Estados a unirem esforços para alcançar um mundo limpo de armas nucleares. A Santa Sé também fez na ONU um convite aos Estados que contam com armas nucleares a assumirem uma valente liderança e responsabilidade política, salvaguardando a integridade do Tratado e criando um clima de confiança, transparência e

autêntica cooperação, com o objetivo de realizar concretamente uma cultura da vida e da paz. Em um esforço por estabelecer prioridades e uma hierarquia de valores em seu justo lugar, deve-se realizar um maior esforço comum para mobilizar os recursos para um desenvolvimento ético, cultural e econômico, de maneira que a humanidade possa dar as costas à corrida armamentista. www.edicoesshalom.com.br

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DIvIRTA-SE

Mulhres de destaque na Bíblia por José Ricardo Ferreira Bezerra HORIZONTAIS 1- A mãe de Jesus (Lc 1,26-27) 2- Primeira cristã de Filipos (At 16,14) 3- Rainha que salvou os judeus (Est 2,7) 4- Mãe de João Batista (Lc 1,36) 5- Mãe de José e Benjamin (Gn 35,24) 6- Encontrou Jesus no poço de Sicar (Jo 4,9) 7- Ela servia a Jesus com seus bens (Lc 8,3) 8- Mãe de Salomão (2Sm 12,24) 9- Derrotou Holofernes (Jt 13,10) 10- Irmã de Lázaro e Marta (Jo 11,1) 11- Mãe de Samuel (1Sm 1,20) 12- Juíza em Israel (Jz 4,4) 13- Mãe de Tiago e João (Mt 27,56; Mc 15,40) VERTICAIS 1- Primeira a ver o Ressuscitado (Jo 20,16) 2- Escrava de Sara, mãe de Ismael (Gn16,15) 3- Mãe de Isaac (Gn 21,3) 4- Profetisa de Jerusalém (Lc 2,36) 5- Mulher de Isaac (Gn 25,16) 6- A amada nos Cânticos (Ct 7,1) 7- Profetisa, irmã de Aarão (Ex 15,20) 8- Esposa de Áquila (At 18,2) 9- Irmã de Maria e Lázaro (Jo 11,1) 10- Esposa de Joaquim salva por Daniel (Dn 13,65) 11- Esposa de Booz e avó de Davi (Rt 4,13.17) 12- Primeira esposa de Jacó (Gn 29,23) 13- Mãe dos viventes (Gn 3,20)

mordido

U

m monge e seus discípulos iam por uma estrada e, quando passavam por uma ponte, viram um escorpião sendo arrastado pelas águas. O monge correu pela margem do rio, meteu-se na água e tomou o bichinho na mão. Quando o trazia para fora, o bichinho o picou e, devido à dor, o homem deixou-o cair novamente no rio. Foi então à margem, tomou um ramo de árvore, adiantou-se outra vez a correr pela margem, entrou no rio, colheu o escorpião e

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o salvou. Voltou o monge e juntou-se aos discípulos na estrada. Eles haviam assistido à cena e o receberam perplexos e penalizados. – Mestre, deve estar muito doente! Por que foi salvar esse bicho ruim e venenoso? Que se afogasse! Seria um a menos! Veja como ele respondeu à sua ajuda, picou a mão que o salvara! Não merecia sua compaixão! O monge ouviu tranquilamente os comentários e respondeu: – Ele agiu conforme sua natureza, e eu de acordo com a minha.

Horizontais 1. Maria de nazaré/ 2. Lidia/ 3. Ester/ 4. Isabel/ 5. Raquel/ 6. Samaritana/ 7. Joana/ 8. Betsabeia/ 9. Judite/ 10. Maria de Betania/ 11. Ana/ 12. Débora/ 13. Salomé. Verticais 1. Maria Madalena/ 2. Agar/ 3. Sara/ 4. Ana/ 5. Rebeca/ 6. Sulamita/ 7. Maria/ 8. Priscila/ 9. Marta/ 10. Suzana/ 11. Rute/ 12. Lia/ 13. Eva.

O monge

Filme:

O Menino do Pijama Listrado

B

runo, de oito anos de idade, é o filho protegido de um oficial nazista cuja promoção leva toda família a deixar sua confortável casa em Berlim para seguir para uma área desolada onde o menino solitário não tem o que fazer e nem com quem brincar. Muito entediado e movido pela curiosidade, Bruno ignora as insistentes recomendações da mãe de não explorar o jardim dos fundos e segue para a fazenda que ele viu a certa distância. Lá ele encontra Shmuel, um menino da sua idade que vive uma existência paralela e diferente do outro lado da cerca de arame farpado. O encontro de Bruno com o menino do pijama listrado o leva da inocência a uma profunda reflexão sobre o mundo adulto ao seu redor conforme seus encontros com Shmuel se transformam em uma amizade com conseqüências devastadoras.


por Elena Arreguy Sala | Missionária da Comunidade Católica Shalom em Haifa – ISRAEL

EnTRELInHAS

Ana, Simeão e a Juventude Mas quem foram estes dois discretos personagens, anciãos, servos bons e fiéis, quem sabe amigos de longa data, no templo em Jerusalém, têm nos braços o Menino Jesus?

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ão creio que encontremos no Brasil um jovem que se chame Simeão, ou mesmo alguém que de este nome a um filho, pois, este personagem bíblico citado somente em S. Lucas (capítulo 2, 22-40), era um ancião. Simão até vai, por causa de S.Pedro, mas Simeão é nome de velho. Ana não ficou com a mesma fama, e continua sendo um nome belíssimo e muito popular em todas as culturas e idiomas. Esta senhora bastante idosa em seus 84 anos, testemunha uma rara longevidade, principalmente tratando-se da Antiguidade, servia a Deus noite e dia, nos falam as Escrituras. Mas quem foram estes dois discretos personagens, anciãos, servos bons e fiéis, quem sabe amigos de longa data, no templo em Jerusalém, têm nos braços o Menino Jesus? O que podemos com eles aprender, além do evidente louvor, fruto de vida de oração, e da fé nas promessas do Senhor, em suas palavras? Quem são esses dois que abordam José e Maria nos átrios do templo e reconhecem na criança recém-nascida o Messias que havia de vir? Quem nos falou a respeito foi o biblista Gregorio Vivaldelli, nosso amigo e irmão, da comunidade irmã Shalom de Riva del Garda na Itália, na festa da Apresentação de Jesus no Templo, no dia 2 de fevereiro, em Nazaré, na Terra Santa. Ana em sua velhice representa todos os estados de vida que servem o Senhor, em oração, à espera do Senhor que vem, nos ensinou o Gregório. Ela representa todas as faixas etárias e estados civis, acrescento eu, pois o evangelista faz questão de dizer que ela era viúva. E quantas milhares de mulheres viúvas,

separadas, divorciadas reconstroem a própria vida ‘nos átrios do templo’, na vida comunitária, paroquial, nos apostolados? Ana nos ensina o valor de encontrar Jesus, nas realidades ordinárias da missão cotidiana de nossas vidas. Reconhecer Jesus onde Ele está e onde Ele se esconde. Se Ana não tivesse esta sensibilidade espiritual dada pelo Espírito Santo e pelo contato com os profetas, com a Palavra de Deus, não reconheceria o Menino no braço de sua Mãe, pois Maria e José eram um casal igual a todos os outros que passavam pelo templo em meio à multidão. Quem já teve a alegria de ir à Jerusalém sabe como aquele espaço é imenso e se não fosse pelo Espírito Santo eles passariam despercebidos. Mas Ana reconheceu Jesus e o teve em seus braços, diante de seus olhos. Deve tê-lo abraçado e dado “um cheir”’ contemplando-o com toda ternura e emoção. Ela sabia que carregava e via o Libertador da humanidade! Já Simeão além de erguer a voz em ação de graças, testemunhando publicamente sua fé e amor pelo Senhor, e de profetizar o que aconteceria aos pais daquela criança, em especial à Virgem Imaculada, nos aponta um outro caminho surpreendente: o da esperança e da confiança nas novas gerações! Disse-nos o Gregório que “o Evangelho nos transmite toda a comovente confiança de um homem ancião no pequeno Jesus. Essa imagem que nos é apresentada na festa da Apresentação do Senhor é verdadeiramente bela, mais ainda se considerarmos com que facilidade ao longo da história adultos e anciãos consideram os jovens como motivo de lamentação”. E para ilustrar, nosso amigo biblista nos surpreendeu com algumas citações que pareciam ter sido colhidas das conversas que circulam nas escolas, www.edicoesshalom.com.br

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nas ruas, nas famílias e em quase todos os ambientes e publicações na atualidade, preocupadas e aflitas com a juventude, e não há centenas de anos atrás: “A juventude agora um triste lixo. Não tem mais uma gota de bom humor e não faz outra coisa a não ser protestar”1. “Nossa juventude vive na abundância, no luxo. Mal educada, despreza toda autoridade e não demonstra qualquer respeito pelos mais velhos. Nossos filhos são verdadeiros egoístas que frequentemente se rebelam contra os pais” 2. “Não há mais nenhuma esperança para o futuro do nosso país quando a ‘desmiolada’ juventude de hoje tiver o poder em mãos, no amanhã. Esta juventude é indomável, sem freio e presunçosa”3. “O nosso mundo chegou a uma situação crítica. Os filhos escarnecem seus pais, são insubordinados é só querem se divertir”4. “A nossa juventude está corrompida até a medula e é muito pior que as gerações passadas, esta juventude não terá condições de salvar nossa cultura”5. A assembléia de consagrados reunida em Nazaré se sentiu apanhada, rindo meio sem graça, se reconhecendo na murmuração e no temor perante a juventude do século XXI. Fazemos hoje a mesma coisa que faziam ou fazem os pagãos! Os santos como S.João Bosco e o amadíssimo servo de Deus Papa João Paulo II nunca temeram a juventude e deposita-

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Ana nos ensina o valor de encontrar Jesus, nas realidades ordinárias da missão cotidiana de nossas vidas. Reconhecer Jesus onde Ele está e onde Ele se esconde.” ram sobre ela toda a sua esperança, vendo-a com os olhos da esperança e do amor, do potencial a ser desabrochado e formado. O mesmo podermos dizer do nosso também amado e respeitado fundador, Moysés Azevedo, que sendo jovem ofertou sua juventude aos pés de João Paulo II em 9 de julho de 1982, para evangelizar outros jovens levando-os a conhecer Jesus Cristo, o Shalom do Pai, o Ressuscitado que passou Cruz, a única fonte da verdadeira alegria, paz e sentido de vida. Em suas próprias palavras, na Carta escrita à Comunidade na Páscoa de 2005, na introdução, refere-se aos jovens com estas palavras: “Saúdo em particular os jovens, alegria de Deus e minha”. Quem conhece Jesus não teme a juventude, mas, passa a amá-la como Ele ama. Ao colocarem o Menino nos braços e louvarem a Deus, Ana e Simeão nos ensinam a colocar Nele a confiança, guardando um olhar positivo sobre a realidade, pois Deus se fez criança. Há esperança para o futuro exatamente por causa dos jovens, das novas gerações. Acrescenta o Gregorio:

“Não se trata de nos tornarmos pessoas iludidas e incapazes de reconhecer o drama que cerca a vida de milhões de jovens, na violência desconcertante, nas drogas, na banalidade viciante da internet, na vida sem sentido, ou no vazio dos ídolos escolhidos como modelo da existência”. Jesus e Maria ao apresentarem o Menino no templo nos apresentam Nele a novidade que está presente na vida de cada criança e jovem. Um velho e uma anciã abraçam um bebê, mas naquele Menino abraça o futuro, o futuro de suas vidas doadas a Deus! A esperança é pequena como é pequena cada criança, porém é uma esperança fecunda de vitalidade e de potencialidade. Simeão e Ana se alegram porque alguém vem depois deles e continuará a obra que eles começaram. Tem a coragem de se alegrar com a própria decadência que dá espaço ao novo, ao que vem a seguir. E isso não é fácil, ‘deixar que o velho que há em nós acolha o Menino’, ou o menino, ou seja, tudo aquilo que é novo e que Deus nos apresenta, muitas vezes de maneira imprevisível e inesperada, no tumulto dos átrios por onde nossas vidas passam e por onde tantos passam também por nós. Contato com autora: elenarreguy@gmail.com www.elenarreguy.blogspot.com Notas: 1 Walter von Vogelweide, 1200 d C 2 Sócrates, 420-395 a C 3 Esíodo, 720 a C 4 Hieróglifo de 2000 a C 5 Escrito cuneiforme de 3000 a C


Shalom Mana 191  

Publicação mensal, editada e organiza pela Comunidade Católic a Shalom.

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