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PoNte dA BArcA

Fotos: Luis Borges

A Paix達o pela Natureza

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Ficha técnica Edição Município de Ponte da Barca e Tradisom Apoio à produção José Pedro Carneiro (Câmara Municipal de Ponte da Barca), José Costa (Banzé), José Augusto Borges (design do cartaz) Direcção editorial, textos e entrevistas António Pires Desenho gráfico e capa rodrigo Madeira

António Vassalo Abreu Presidente

da

C â m a r a m u n i C i Pa l

de

Ponte

da

B a rCa

Este Guia Oficial do Festival Folk Celta de Ponte da Barca 2014 tem distribuição gratuita

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elo sétimo ano consecutivo Ponte da Barca vai sentir a influência da música folk/celta com o regresso do Festival Folk/Celta. A edição de 2014 traz ao palco barquense músicos Portugueses e espanhóis de renome, antecipando já o sucesso de mais uma edição.

A decorrer nas margens do rio Lima, este é um Festival de excelência reconhecida, em muito graças ao cartaz diversificado e de grande qualidade a que nos vem habituando, permitindo o contacto com artistas de excelência que definitivamente deixam a sua marca em terras portuguesas minhotas. À semelhança das edições anteriores, pretende ser o veículo para o cruzamento de sonoridades musicais ibéricas captando assim a atenção de vários públicos, numa região cheia de beleza natural, com cenários propícios a um evento desta natureza: o rio Lima e o verde da paisagem, em paralelo com a afamada gastronomia local, o artesanato e a hospitalidade das gentes locais. Trata-se ainda de um evento impulsionador na divulgação do património tradicional e cultural do concelho que tem fortes ligações à cultura celta. em cada concerto um espetáculo contagiante de ritmos, em que se descobre um novo caminho, uma via de fusão, um ponto de encontro que não obedece a fronteiras, que fazem já deste festival uma referência de Ponte da Barca e do Alto Minho. c

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F e s t i vA l F o l k c e ltA d e P o N t e d A B A r c A

seis Anos em imagens Galandum Galundaina | 2008

Som IbĂŠrico | 2008

Isabel Silvestre | 2012

Susana Seivane | 2008

UxĂ­a | 2011

Aduf | 2012

Magmell | 2012

Judith Mateo | 2011

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PA l c o B r i c e ltA

Novos valores da Folk Espiral

Myrica Faya

aCordaPele

Swing Station

Pelo segundo ano consecutivo, o Festival Folk Celta de Ponte da Barca promoveu um concurso em que foram seleccionados quatro novos projectos musicais para actuar no Palco Bricelta. São eles o trio feminino de música celta Espiral (Águeda), o grupo de nova música tradicional açoriana Myrica Faya (São Brás, Ilha Terceira), o duo folk ACordaPele (Porto) e as músicas e danças vintage norte-americanas da Swing Station (Lisboa e Porto). Um deles subirá ao palco principal na edição de 2015, à semelhança do que este ano acontece com os Música Profana, que foram o ano passado uma das bandas eleitas pelo público para o Festival, ao lado dos Cabra Çega, GiraSol e Dunya. 5


Música Profana

Os Música Profana regressam um ano depois ao Festival, desta vez para actuar no Palco Somersby. O guitarrista Daniel Moreira explica-nos o quanto cresceram. Os Música Profana nasceram em 2009, aqui ao lado, em Ponte de Lima. Quais foram as principais motivações que os levaram a formar o grupo? A formação dos Música Profana nasce da vontade de musicar uma série de temáticas que, na nossa opinião, pertencem a um universo pouco conhecido pelo público, em geral, como a histórica e a mitologia ligadas aos descobrimentos, mas também a nossa história e lendas locais. Nessa altura, a sonoridade que nos pareceu mais adequada era o folk-metal, pois tinha a melodia, energia e poder necessários para transmitir esse imaginário. Durante alguns anos o grupo usou instrumentos eléctricos mas optaram entretanto por começar a usar apenas instrumentos acústicos. O que é que levou a essa mudança? essa mudança surgiu por acaso, quando nos convidaram a integrar um evento que decorreria numa igreja, estando já subjacente que o ideal seria apresentarmos os temas em formato acústico. Posteriormente a isso ainda fizemos alguns espectáculos nesse formato, tal foi a boa aceitação por parte do público, mas actualmente evoluímos para um som que podemos designar por rock celta. 6

Essa troca de «naipe» instrumental implicou alterações na música que praticam? exactamente, até porque coincidiu com a entrada do Hélder Cerqueira que introduziu a gaita de foles e também com a aquisição de novos instrumentos, como o bouzouki. Naturalmente a sonoridade evoluiu, houve mais composição em conjunto e tendo como base esses instrumentos novos, mais caracteristicos da música tradicional celta. Muitas das vossas letras originais falam de mitos e lendas enraizados na memória colectiva dos portugueses, nomeadamente dos minhotos. Queres dar alguns exemplos dessas narrativas que vocês usam como inspiração para a vossa música? As histórias que contamos através da nossa música vão de encontro ao rico património imaterial que existe na voz do povo, lendas que permaneceram no imaginário das nossas gentes e que merecem ter um lugar de destaque na cultura do Minho. Lendas como a da passagem do Abakir, um rei mouro que viveu no Monte da Nó onde travou batalhas com os cristãos, ou o salteador que viveu as suas aventuras na serra d´Arga e, ainda, a Zaida, a Mal-degolada, que foi vítima de um amor perverso, são histórias que nos encantam e inspiram, tornando a nossa música muito

mais ligada à terra e às nossas tradições. Para além dos temas originais, os Música Profana também fazem versões de temas como o «Entrudo» (que está no vosso álbum de estreia, «Abakir») ou o «Meninas Vamos à Murta». É importante, para um grupo como o vosso, ir também buscar temas tradicionais portugueses? sim é importante na medida em que podemos apresentar a nossa interpretação desses temas, oferecendo ao público algo que também lhes é familiar, criando-se assim um elo de ligação entre gerações. O ano passado, os Música Profana foram seleccionados para o Palco Bricelta do Festival Folk Celta de Ponte da Barca. Isso foi importante para vocês? Naturalmente, em primeiro lugar, por ser um festival que frequentamos desde o seu início e onde já pudemos assistir a concertos de grandes nomes da música folk. em segundo lugar, por termos a oportunidade de actuar num evento dedicado a este estilo de música e em que o público se sente identificado e interessado em conhecer novos nomes deste género. e ainda, o facto de termos a possibilidade de contactar pessoalmente e partilhar experiências com artistas e promotores que se encontram dentro do meio da música folk. Que diferenças podemos esperar no vosso espectáculo desta edição? Teremos oportunidade de mostrar algumas músicas novas, reveladoras já de uma nova sonoridade mais moderna. c


Milladoiro

Mítico, entre os mais míticos, grupos galegos que recuperaram a memória da música tradicional dita celta nesta região, os Milladoiro vêm a Ponte da Barca mostrar uma arte que já leva quase quarenta anos de História.

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ruzando-se com inúmeros grupos e artistas de outras tradições irmãs, desde 1978, os Milladoiro – cujo nome remete para a lenda e as práticas (actuais e não lendárias, apesar de a essa lenda se remeterem) do Caminho de santiago – têm sido os principais embaixadores – ao lado dos Luar na Lubre, Berroguetto e outros – de uma música que vive, sobretudo, das raízes que nos alimentam e ensinam e de umas antenas que nos iluminam novos caminhos, os de santiago ou muitos outros. Ao longo de quase quarenta anos, os Milladoiro – com o seu acervo de canções tradicionais e preservando de forma viva a forma de tocar instrumentos como a gaita galega, as pandeiretas, as flautas, as sanfonas e os pandeiros… -- mas usando também os bouzoukis, os bodhrans e muitos outros instrumentos que a tradição galega recebeu, protegeu e acarinhou – são um dos maiores, se não o maior, exemplo de como uma tradição musical pode permanecer viva e actual em pleno séc. XXi. No seu último álbum, «A Quinta das Lágrimas» (editado em 2008), os Milladoiro ligam, intimamente, a galiza a Portugal. Há canções medievais galaico-portuguesas,

há a Lenda/História de D.Pedro e D.inês – o rei português e a rainha (coroada postmortem) galega! --, há poesia de Luís Vaz de Camões (que ilustra essa História, no seu quarto canto de «os Lusíadas»), há poesia de Fernando Pessoa («Mar Português», de «A Mensagem», em que os Milladoiro tocam para Mafalda Arnauth cantar, num fado que nos une ainda mais, nós portugueses e também nós galegos) e há o «Venham Mais Cinco», de José Afonso, declaração de amor e amizade à solidariedade entre os iguais, sejam do lado de cá desta fronteira fictícia (entre Portugal e galiza) sejam de outra fronteira qualquer. José Afonso, que desde sempre, fez e desenhou o maior e mais indelével – musicalmente, entenda-se – traço de união entre os nossos dois povos, Portugal e galiza. sejam bem-vindos. Há muitos anos, rodrigo romani, da primeira formação dos Milladoiro, disse numa entrevista a uma publicação inglesa: «Nós queremos fazer o mesmo (pela música galega) que os Chieftains fizeram pela música irlandesa ou o Alan stivell com a música bretã». Ao fim deste tempo, deste tempo todo, podemos dizer que o conseguiram (ou ainda mais). são um

exemplo e um espelho e um «caminho» a seguir (tal como o de santiago). Para além dos temas tradicionais galegos e dos seus temas originais – e todos eles devedores da sua tradição galega (à mistura com algumas outras) -- , os Milladoiro também interpretam temas tradicionais com os quais se sentem, naturalmente, identificados, da música irlandesa, escocesa ou da Bretanha. Numa crença unitária e identitária, os Milladoiro partilham a ideia – comum a outros povos – de que existe mesmo uma «irmandade celta» que une historicamente, culturalmente e musicalmente todos os povos «celtas». Muitos destes povos aspiram, desde há muitos séculos, à independência (a escócia e a irlanda ocupada por inglaterra são os mais óbvios mas também há fortes movimentos independentistas na galiza, nas Astúrias ou, do outro lado da fronteira, em França, na Bretanha). Hoje, com a chegada de Filipe Vi ao trono de espanha, diz-se que a sua maior batalha vai ser tentar manter a espanha unida. os povos da actual espanha hão-de um dia responder. e nestes, como portavozes da galiza, os Milladoiro serão dos primeiros. c 7


kepa Junkera O maior embaixador da música basca e mestre da trikitixa KEPA JUnKErA vem a Ponte da Barca apresentar o seu mais recente álbum», «Galiza», uma declaração de amor à cultura desta região e às trocas entre a Galiza e o País Basco.

O que é que primeiro o apaixonou na música tradicional basca? E, também, por um instrumento emblemático da música tradicional basca como a trikitixa? o meu avô tocava pandeireta, que é o instrumento acompanhante da trikitixa na nossa música popular. A minha mãe dançava ritmos tradicionais e também tocava pandeireta. Por isso, pude escutar os ritmos da trikitixa em minha casa logo em criança. Depois, como autodidacta, comecei a estudar a trikitixa, que é um acordeão diatónico, um instrumento muito semelhante à concertina. gostei muito de o fazer porque é uma música muito alegre, muito rítmica, que eu senti muito como minha. Acho que esse gosto veio da minha família, desde há gerações… Qual é a origem da trikitixa? É um instrumento nascido no País Basco ou foi importado e adoptado pelos bascos como seu instrumento nacional? A trikitixa veio de fora, de itália, e entrou no País Basco no final do séc. XiX ou início do séc. XX. e foi adoptada pelos bascos, principalmente na Biscaia, em Bilbau. É um instrumento relativamente jovem, se comparado com outros instrumentos tradicionais bascos como a alboka, a txalaparta ou mesmo as pandeiretas. Ao longo da sua carreira – que já conta com mais de vinte álbuns – tem dividido o seu reportório entre muitos temas originais compostos por si e muitos temas de música tradicional que interpreta à sua maneira. Enquanto músico (e compositor) que desafios oferecem cada uma dessas diferentes opções? A maioria dos temas que gravei fui eu que os compus. e, quando componho, não me inspiro apenas na música tradicional do meu país mas também em muitas outras influências. A música tradicional é aquilo que recebemos e que já foi trabalhado por muitas gerações diferentes. Também gosto muito de tocar música tradicional – principalmente a música popular basca -- mas agrada-me, sobretudo, fazer a minha própria música.

Ao longo deste percurso, já tocou com dezenas de músicos de variadíssimos países e géneros musicais. A música é mesmo uma linguagem universal? sim, tive a sorte – ao longo de todo este percurso – de tocar e partilhar experiências com muitos amigos, com grandes músicos que eu admiro. grandes instrumentistas que, em muitos casos, têm também uma linguagem muito pessoal. É maravilhoso ter tocado com tanta gente diferente e ter verificado, tantas vezes, que a música – e por muito diferentes que sejam as origens dos músicos – é algo que se

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pode partilhar, com que se pode comunicar. Por muito diferentes que sejam as nossas culturas há também muitas raízes comuns e essa descoberta é emocionante, também. Que memórias guarda do seu trabalho com Júlio Pereira, que gravou consigo o álbum «Lau Eskutara» (1995) e de Dulce Pontes que colaborou no seu álbum «Bilbao 00:00 h» (1998)? eu admiro muito a cultura portuguesa. e eu já era admirador do Júlio Pereira quando o conheci. gostava muito, essencialmente, do seu pulsar rítmico. Foi um grande prazer e tive um grande orgulho em gravar esse disco com ele. Dulce Pontes tem uma voz maravilhosa e é uma das mulheres que melhor transmite o sentimento português. Também tive a sorte de já me ter cruzado ou ter colaborado com outros cantores e músicos portugueses como o mestre António Chaínho, a Teresa salgueiro, a Mafalda Arnauth, o Tito Paris – que é cabo-verdiano mas vive em Portugal --, João Afonso, Filipa Pais… Muitíssimos músicos portugueses. Também admiro muito o António Zambujo e, claro, o quarteto de concertinas portuguesas Danças ocultas, do Artur Fernandes, que me encantam. Antes de ter gravado o álbum «Galiza», editado o ano passado, já tinha colaborado com músicos galegos como Xosé Manuel Budiño ou Carlos Núñez. O que é que o levou a editar um duplo-álbum de colaboração com inúmeros (mais de 200?) músicos galegos e em que a música basca e a música galega convivem de forma tão intensa – e apesar de já ter havido experiências anteriores – pela primeira vez? os povos da galiza e do País Basco – assim como da Cantábria e das Astúrias – são povos irmãos. Todos partilhamos o Atlântico e temos, historicamente, muitas trocas e pontos de contacto. Na música também é assim: a galiza e o País Basco têm muitos ritmos parecidos, muitas harmonias e melodias semelhantes. e, mesmo quando há diferenças, é possível conciliá-los. este disco é uma homenagem a um povo e a uma cultura que admiro. eu já era amigo de muitos músicos galegos com quem tinha partilhado o palco ou os estúdios e este disco foi uma oportunidade maravilhosa de tocar com muitos outros, incluindo nos ritmos e melodias da galiza o meu «filtro» da trikitixa e das txalapartas. estou muito orgulhoso da generosidade de todos os participantes, de todos os músicos galegos que tornaram este disco possível. em palco não estarão, claro, todos os músicos com quem toquei, mas está um grupo em que há lugar para muita improvisação e muitas trocas entre os músicos bascos e os músicos galegos que me acompanham. c


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E, paralelamente à questão anterior, a língua continua a ser o principal traço de união histórico entre os povos da Galiza e Portugal ou há mesmo outras coisas a unir-nos? sem dúvida que a língua é um traço de união forte mas penso que há muitas outras coisas comuns entre a galiza e Portugal. Na música as conexões são mais que evidentes, na maneira de sentir, no carácter intimista que têm tantas músicas vossas e tantas músicas nossas. e também noutras, cheias de energia.

isGA collective

Um dos mais originais e arrojados grupos galegos da actualidade, o ISGA collective parte das raízes tradicionais galegas – e de memórias antigas – para criar uma música moderna e aberta a outras influências. Aqui, responde Isaac Garabatos, principal compositor do grupo. Quando é que se formou o ISGA collective e quais foram as principais motivações para a sua criação? o isgA collective é um projecto em que trabalhamos desde 2005. Num primeiro momento, imaginei-o como um colectivo de músicos e artistas de outras disciplinas que se reunissem à volta da ideia de mostrar uma galiza moderna e actual que cuida e que se nutre da sua tradição. o certo é que mantemos praticamente a formação musical do início e, também, tivemos muitas colaborações no caminho com outros músicos, poetas, bailarinos, etc. Acha correcto caracterizar a música do ISGA collective como folk-rock galego ou acha que esta é uma designação demasiadamente redutora? A música do isgA collective tem um claro sabor galego e sem dúvida que tem muito de tradição e folk, mas a intenção é sempre a de aplicar muita contemporaneidade nas composições que, para além da nossa tradição musical, são influenciadas pelo minimalismo, pela música clássica, o pós-rock e mesmo o jazz. Dentro da ambiguidade que têm as designações World Music ou roots 10

Music, são essas com que habitualmente nos caracterizam. Podemos perguntar quais são as principais influências do grupo, quer do lado da música tradicional da Galiza quer de outros géneros musicais? De uma forma premeditada, o isgA collective é formado por músicos muito diferentes e formados em géneros distintos. Temos especialistas em jazz, em música tradicional, professores de música clássica, conseguindo assim uma sonoridade pessoal e concreta. o facto de contar com estes magníficos músicos dá ao grupo uma extraordinária riqueza. No vosso primeiro álbum, «A Redeira» (2005) interpretam canções que têm letras em galaico-português, escritas pelo poeta medieval Martín Codax. De que maneira é que ainda faz sentido, em pleno Séc. XXI, preservar essa memória? Para nós esses poemas têm uma actualidade absoluta e continuam a fazer parte, depois de muitos anos, do nosso reportório actual. Tanto a temática – especialmente para nós, que somos de Vigo e vivendo perto do mar – como as melodias têm um carácter intemporal.

O segundo álbum, «Etheria» (2011) é a baseado na música que o Isaac compôs para um bailado homónimo, da coreógrafa Mercedes Suaréz. De que modo é diferente compor para um espectáculo com estas características e como é que se consegue manter, neste caso, a coerência estética com a sua composição habitual de canções? Desde há muitos anos que componho para muitas companhias de dança contemporânea, especialmente galegas. em «etheria» era claro para mim que o som ia ter muito de galiza, pelo que trabalhar com o isgA collective era a opção ideal. Foi um bonito espectáculo com doze bailarinos e oito músicos actuando ao vivo sob a direcção da coreógrafa Mercedes suárez. Na nossa parte musical, ainda que com momentos de maior protagonismo, também procurámos espaços sonoros menos densos em que a coreografia pudesse encaixar-se. Quando utilizamos este reportório nos concertos, os arranjos mudam bastante e o instrumentista tem mais liberdade. Fale-nos por favor um pouco dessa mulher lendária, Etheria, que viveu no Séc. IV e que partiu em viagem por outras regiões do sul da Europa. E pode dizer-se que, à semelhança de Etheria, a música do ISGA collective é também viajante e aventureira? os galegos (e também os portugueses) trazem no seu ADN o gosto pela viagem. A figura desta primeira peregrina e a sua viagem serviram-nos como inspiração para este espectáculo que tinha, de facto, um paralelismo com os dias actuais. o isgA collective é um grupo de viajantes que, por sorte, visitam muitos palcos europeus. Agora estamos emocionados e com muita vontade de visitar Ponte da Barca. Vai ser uma delícia poder estar convosco. Este vosso concerto em Ponte da Barca é anunciado como «ISGA collective com Lorena Freijeiro». No entanto, esta maravilhosa gaiteira toca muitas vezes com o ISGA collective. Ela é um membro efectivo do grupo ou uma convidada muito especial? Lorena é uma excepcional gaiteira que tem desde há muitos anos um altíssimo nível como instrumentista. Agora dá aulas no Conservatório de Música de ourense e trabalha no seu projecto pessoal, que está muito ligado à música tradicional galega. Para nós é um privilégio e uma sorte tê-la no isgA collective desde o início. c


abordagens á música tradicional eram muito poucas, embora já todos nós ouvíssemos viciadamente música popular. sem dúvida, a Quadrilha e eu próprio guardamos sempre um pouco da pop que fazíamos antes e que ainda está presente nas nossas canções Tanto na Quadrilha como, mais recentemente, no teu álbum a solo («Cá Dentro»), a tua música contém sempre uma boa parte de canções originais mas também de versões. O que te motiva a fazer umas e outras? As originais acontecem porque não consigo passar sem compor e escrever. sou influenciado por muitas coisas que me levam a tentar descrevê-las numa canção, ouço muita música popular de muitos lugares e, de vez em quando, há uma melodia por norma da tradição portuguesa que me faz ter vontade de fazer uma versão. Com ou sem a Quadrilha, as tuas canções partem de múltiplas inspirações: a chamada música celta, a música tradicional portuguesa mas também a música árabe ou a música da África negra. Quão importantes são para ti estas diferentes viagens musicais? No início era apenas a chamada música celta que, juntamente com a música tradicional portuguesa, influenciavam as minhas composições. Mas com o tempo e com as gravações que fiz no deserto do sahara, Marrocos. Argélia, Tunísia e Mali veio uma grande paixão, essencialmente pelas melodias tocadas pelas etnias tuaregues. Comecei então a fazer canções já com todas essas influências.

sebastião Antunes & A Quadrilha Com a Quadrilha ou a solo, Sebastião Antunes sempre fez a ponte entre a música tradicional portuguesa e muitas outras sonoridades. São 26 anos de carreira passados em revista neste concerto em Ponte da Barca. O ano passado celebraste 25 anos de carreira com um concerto especial no Centro Cultural de Belém. Que balanço é que fazes deste quarto de século – e agora com mais um ano em cima – dedicado à música? Foi um concerto muito especial pois convidei muitos amigos que fizeram parte desta, já um bocadinho, longa história, quer a tocar quer no público. Com a casa cheia -- e com a sempre incrível forma de terminarem um espectáculo

dos galandum galundaina -- fizemos uma retrospectiva desde o primeiro álbum até ao disco «Com um Abraço». A música que ouvias – e que fazias – no primeiro grupo que tiveste, os Peace Makers, veio de alguma forma a influenciar o teu trabalho na Quadrilha ou nos teus projectos a solo? os Peace Makers eram um grupo mais pop e as

Um dos «assuntos preferidos» nas canções que escreves é, pode dizer-se, a intervenção política. De que forma ainda é importante fazer canções de protesto e, paralelamente, sentes que há em ti uma influência clara de pessoas como José Afonso ou Sérgio Godinho? sem dúvida, para mim continua a fazer sentido a intervenção política como consciência social, como forma de expressar a minha indignação para com certas coisas… José Afonso, sérgio godinho e todos os outros nunca deixaram de ser grandes fontes de inspiração, quer pelas canções, quer por tudo o que defendem, quer pelos seres humanos que são. Durante muitos anos houve, apenas, a Quadrilha. Mais recentemente passou a haver Sebastião Antunes a solo (ou em trio) e Sebastião Antunes e A Quadrilha. Porque é que passou a haver essas distinções? Foi uma questão de vontade. Com o álbum «Cá Dentro» quis criar uma forma de concerto mais pequena e intimista. Neste espectáculo em Ponte da Barca que repertório vamos ouvir? Uma mescla das tuas canções a solo e com o grupo? Acima de tudo quero fazer um espectáculo que faça predispor bem as pessoas. Vamos ter muitas músicas da Quadrilha, alguns tradicionais e algumas versões de músicas da irlanda ou da Bretanha. c 11


Uxu kalhus

Pioneiros na fusão de ritmos tradicionais portugueses (e outros) com géneros musicais modernos, Uxu Kalhus são sempre garantia de festa e baile. A entrevista com o baixista Eddy Slap. Uxu Kalhus formaram-se no ano 2000 e, nessa altura, eram essencialmente um grupo que pegava em temas tradicionais portugueses e europeus e lhes dava uma nova roupagem. Como é que, catorze anos depois, caracterizas a evolução musical do grupo? os uxu Kalhus têm sido ao longo dos tempos um colectivo onde todas as ideias e vontades têm sido conciliadas. Temos sido revolucionários, ousados, falamos sobre o pequeno quotidiano ou sobre questões mais universais, temos cantado a tradição e sobre o que sentimos. o que nos move é uma grande paixão pela música. A evolução musical e amadurecimento da banda têm vindo a reflectir-se de disco para disco. As músicas mais simples da fase inicial deram lugar a arranjos mais complexos, à experimentação em estúdio e a letras elaboradas. Durante os primeiros anos d’Uxu Kalhus as vossas actuações destinavam-se essencialmente ao circuito dos bailes tradicionais. Quando é que surgiu a vontade – ou a necessidade – de começar também a dar concertos «normais»? É natural que o nosso circuito fosse o dos bailes tradicionais, pois era um circuito que estava a ser criado em torno de um «movimento» onde os uxu Kalhus e outras bandas estavam 12

na vanguarda. os uxu Kalhus eram um grupo que fazia essencialmente música baseada na tradição europeia e como era ainda um movimento muito recente, as nossas apresentações ao vivo tinham também oficinas de danças tradicionais, onde ensinávamos o público a dançar diferentes tipos de danças. Na altura os grandes festivais não tinham espaço para este tipo de programação. em relação aos uxu Kalhus, existiu sempre alguma curiosidade por parte dos programadores em conhecer o nosso trabalho daí que tivéssemos começado mais cedo a sair para fora das fronteiras do circuito do movimento tradicional.

Apesar de terem começado como um grupo de versões, logo no primeiro álbum começaram a incluir também originais. De que modo é que fazem essa gestão entre versões e originais? os uxu Kalhus desde o seu início usam a tradição como ponto de partida para as suas composições. É à tradição que vamos buscar a nossa matéria-prima. Todos os nossos temas têm sempre uma melodia, uma letra, uma dança ou uma estrutura musical baseada na tradição. Desta forma surgem naturalmente temas originais ou adaptações dos temas tradicionais.

Ao longo dos anos, o grupo teve várias mudanças de formação. O seu espírito inicial ainda se mantém ou a vossa música foi evoluindo com os sucessivos músicos e estes com as sucessivas novas abordagens musicais? o espírito inicial da banda continua o mesmo, ou seja, fazer música honesta, com arranjos originais, enérgica, com qualidade e irreverência. Naturalmente quando os músicos de uma banda têm estas características, têm também diversos interesses musicais e são alvo do interesse por parte dos mais diversos projectos musicais e por vezes têm de optar e seguir percursos musicais diferentes.

Já este ano lançaram o projecto «Filarmónica Extravagante», em que tocam acompanhados por músicos de bandas filarmónicas. O que é e como surgiu esta ideia? imaginem um trombone a tocar uma melodia que tradicionalmente associamos à gaita de foles ou um bombardino na pele de uma flauta de tamborileiro. um saxofone que se disfarça de viola de arame, mesmo que não seja carnaval. Filarmónica extravagante é um projecto de adaptação do reportório português de identidade para banda filarmónica, num contexto de liberdade de criação e recriação do nosso património musical. c


Ponte da Barca Em pleno coração do Alto Minho deve o seu topónimo à “barca” que fazia a ligação entre as duas margens do Rio Lima, muitas vezes peregrinos a caminho de Santiago de Compostela, sendo a “ponte” construída em meados do séc. XIV que lhe vai dar o nome de S. João de Ponte da Barca (1450). Terra rica, fidalga, de feição arejada, as Terras da Nóbrega viram nascer junto ao bucólico Lima os irmãos Bernardes, Diogo e Agostinho, poetas da paisagem, das fontes e da saudade. Mas Ponte da Barca, é também vila morena, de granito talhada, cheia de construções apalaçadas com capelas e muros fronteiros, ameados e brasonados dos séc. XVI e XVII, os Paços do Concelho, o Pelourinho, o abrigo porticado, a Matriz dedicada a S. João Baptista com risco de Vilalobos. E ao lado de todo este espólio histórico-monumental, em plena harmonia de linhas e cérceas, uma vila nova a cheirar a progresso, uma Ponte da Barca atrativa e moderna. Ponte da Barca é um concelho de contrastes: em primeiro plano, à esquerda a albufeira do Alto Lindoso (maior da Península), encontrando-se ao lado, o velho castelo roqueiro afonsino reconstruído por D. Dinis, em 1278, com baluartes e torre de menagem; os famosos espigueiros cobertos com lajes de granito; a Ermida, alminhas e cruzeiros. Depois, a igreja do antigo mosteiro de Bravães, um dos mais significativos monumentos do românico do Alto Minho. É de registar o pórtico principal voltado a ocidente com cinco arquivoltas recheadas de motivos figurativos e geométricos e na porta lateral, o místico cordeiro. Ponte da Barca turística, com as suas pesqueiras no Rio Lima (pesca da lampreia), possui ainda coutos de caça, desportos náuticos, praia fluvial, um bom equipamento de restauração e de animação hoteleira, artesanato, folclore e uma gastronomia de requinte: o presunto e a boroa de milho, as papas de sarrabulho, a chanfana de Foto: Luis Borges

cabra à moda de Germil, a lampreia, o cabrito dos montados de Boivães e aquele branco colheita selecionada, ou os famosos vinhos branco e tinto, da Adega Cooperativa, acompanhado sempre por um saber receber como ninguém, fazem de Ponte da Barca uma terra de eleição. c

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in’Folk celta datas

25 e 26 de Julho de 2014

local

Praça terras da nóbrega (campo da nucha), Ponte da Barca

Actividades Paralelas

feira Alternativa, com entrada livre no período da tarde. nela poderão encontrar cerveja artesanal, licores tradicionais, vinhos, queijos e enchidos da região, sabonetes artesanais, óleos e unguentos naturais, entre outros produtos manufacturados. A feira inclui ainda uma área de restauração que estará a trabalhar durante todo o horário dos concertos.

Bilhetes

onde Ficar

Parque de campismo de S. Miguel Entre Ambos os rios (Parque natural da Peneda-Gerês); residencial San fernando rua S.António, Ponte da Barca hostel Magalhães (rua dr Joaquim Moreira Barros) Ponte da Barca casas de turismo de habitação e turismo em Espaço rural central de reservas da AdErE Peneda-Gerês (largo da Misericórdia) Ponte da Barca

sites informativos

https://www.facebook.com/folkcelta http://folkceltabarca.wordpress.com/ http://www.cmpb.pt/

Horário dos espectáculos sextA-FeirA, 25

sáBAdo, 26

21h00 Abertura de portas

21.30 Abertura de Portas

Palco Somersby 22h00 – 22h40 MúSicA ProfAnA

Palco Somersby 22h00 – 22h40 iSGA colEctivE c/lorena freijeiro

Palco Bricelta 22h40 – 23h00 ESPirAl Palco Somersby 23h00 – 00h00 MillAdoiro Palco Bricelta 00h00 – 00h20 MyricA fAyA Palco Somersby 00.30 – 02.00 SEBAStião AntunES & A QuAdrilhA

Palco Bricelta 22h40 – 23h00 AcordAPElE Palco Somersby 23h00 – 00h00 KEPA JunKErA Palco Bricelta 00h00 – 00h20 SwinG StAtion

Foto: Luis Borges

os bilhetes diários custam 5€ e podem ser adquiridos directamente na bilheteira do festival ou através de pré-reserva via facebook ou site oficial do festival.

Palco Somersby 00h30 – 02h00 uxu KAlhuS

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Festival Folk Celta Guia 2014  

Guia da VII Edição do Festival Folk Celta de Ponte da Barca. www.folkcelta.pt www.cmpb.pt www.facebook.com/folkcelta

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