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T. H. Risant - Atravessando Paredes: Episódio I

[DIÁRIO DE MAGNUS LUND - 2003] O mesmo sonho já havia se repetido tantas vezes que, mesmo acordado, eu passara a vê-lo em exibição constante sob minhas pálpebras. Eu só não sabia ainda quem era a moça de branco. Meus olhos se abriram e os berros ofensivos da minha mãe, em mais uma sessão diária de reclamações frequentes, retumbaram nos meus ouvidos com mais cobranças por resultados sobre os quais eu não tinha controle. O encontro com Hedda me transformara de diversas formas e eu ainda suspeitava que o verme-cor-de-âmbar também tivesse sua parcela de culpa. Mediunidade ou esquizofrenia? Essas eram as teorias oferecidas em troca de metade do salário da minha mãe. As minhas mais curtas olhadas para o vazio e conversas de frente para o espelho arrepiavam-na os pelos dos braços e aumentavam o repudio que sentia por mim. Ninguém era capaz de encontrar uma solução para o terror que eu a fazia sentir. Seus gritos continuaram, mas meus olhos se fecharam mesmo assim. Até aquele velho sonho era melhor do que a realidade. A moça de vestido branco usava uma daquelas perucas alvas e ostentosas, símbolos da nobreza no século XVII, ornamentada com esmeraldas e rosas vermelhas. Um vestido comprido e branco ocultava suas formas. Metade da face ficava encoberta por uma máscara de penas negras. Mesmo assim eu sentia que a conhecia. Ela empunhava uma estaca prateada em sua mão direita. O som de batidas distorcidas e abafadas repetia-se ritmicamente, a um compasso quatro por quatro. A mulher esboçou sorrisos tímidos enquanto pressionava a estaca de metal contra uma das têmporas. Manchas de um sangue negro surgiram em seu vestido a cada ruído de batida. Pedaços do vestido caíram revelando um corpo pálido, quase que sem contrastes. Meus olhos se abriram. Estávamos na cozinha. Minha mãe berrava, dizendo que eu não passava de um inútil. Todos os talheres saíram do armário e caíram no chão. A pia transbordou. A lâmpada derreteu. Uma


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das cadeiras deslizou até parar entre nós. Minha mãe suava, seus olhos estavam arregalados. Ela olhou para a cadeira e depois para mim. Senti minha pulsação dentro da minha cabeça. Ofegante e confuso olhei para minhas mãos. Elas transpiravam sangue. Meus olhos se fecharam. Estava de volta àquele salão onde a moça de peruca golpeava a cabeça com uma estaca de prata. Estava de joelhos. Seus olhos não piscavam. Não havia mais nenhum som de batida. Aquele mesmo sangue cor de petróleo começou a jorrar de seus ouvidos, boca e nariz. O chão foi inundado. Todo o vestido da mulher se desmanchou. Ela era branca como uma escultura de gesso. Meus olhos se abriram. Esfreguei as mãos na minha camisa, na calça, na toalha da mesa da cozinha. Não adiantava. O sangue não parava de brotar dos poros da minha pele. Eu e minha mãe nos observamos em silêncio. Sua face era a representação perfeita do caos. Eu não sabia se ela queria chorar ou arrancar meu rosto com os próprios dentes. Meus ombros ficaram pesados. Eu podia sentir o peso do ar. Mas não era só isso. Movi meus dedos de um lado para o outro como se tentasse fazer cocegas num ser invisível. Eu podia sentir a textura do ar. Não pude evitar que um sorriso nascesse em minha face. O silêncio de minha mãe acabou quando ela me definiu com uma única palavra: “aberração”. Meus olhos se fecharam. O salão de paredes vermelhas me recebeu mais uma vez. Aquela mulher, branca como algodão, de joelhos sobre um mar de petróleo, arrancou a máscara de penas do rosto. Era um rosto familiar, como eu, mesmo que sem certeza, já imaginara que seria. Era Hedda. Suas joias estavam em pedaços, espalhadas pelo chão. Ela sorriu para mim e seus olhos se fecharam. Como se feita de cera, seu corpo derreteu bem na minha frente. Sua pele se desfez, depois seus músculos, seus ossos e seus órgãos. Minha visão ficou turva e então tudo embranqueceu. Meus olhos arderam como se eu encarasse o sol. Deslizei minha língua por sobre meus lábios e pude sentir o sabor salgado das lágrimas.


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Meus olhos se abriram com o impacto do tapa que recebi no rosto. Minha mãe gritava a poucos centímetros da minha face e sua saliva turvava minha visão. “Meu Deus, o que eu fiz de errado para merecer vocês dois?! Os espermatozoides do seu pai só podiam ter algum problema. Magnus, você é mais uma bomba relógio, igualzinho à sua irmã. Por que não surta logo e fica catatônico também? Aliás, você pode fazer melhor. Vá embora daqui e leve-a com você. Quem sabe um dia você deixa de ser um inútil, compra uma casa e coloca a Alice como enfeite na sala.” Minha mãe sempre tivera o dom de humilhar, era o que ela fazia de melhor. Mas somente os familiares eram premiados com sua verdadeira face. No trabalho ela fazia uso de toda a habilidade social que possuía. Confesso que quis matá-la naquele momento, mas a vontade que ela sentiu de fazer o mesmo pareceu ser muito maior. Com o ódio estampado no rosto, tremendo de raiva, ela catou uma das facas do chão e, sem hesitar, fez um rasgo no meu braço direito. Meus ouvidos zumbiram e minhas mãos voltaram a suar sangue. Ouvi o barulho de vidro sendo quebrado dentro da geladeira. Sua porta abriu alguns centímetros, mas foi possível ver diversos líquidos de cores e consistências diferentes escorrendo em direção ao piso. Os ruídos de vidro explodindo prosseguiram. A torneira da pia estourou e a água passou a jorrar para todos os lados. Meus olhos, que observavam a luz passando através dos esguichos d’água, se voltaram novamente para minha mãe. Seus braços estavam cravejados de cacos de vidro e o sangue gotejava no chão. Boquiaberta, ela observava cada rastro vermelho e cada caco de vidro nos braços. Vi o horror em seu rosto e, por alguns instantes, me perguntei por que ela me odiava tanto. Eu não conseguia encontrar uma razão lógica. Pensei que, por ser filho, deveria amá-la, mas já não era mais possível. Ela ergueu os olhos em minha direção e atirou a faca, que caiu sem força perto dos meus pés. Minha mãe correu para fora da cozinha pelo corredor. Fui atrás dela, não sei bem por qual


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motivo. Objetos e roupas dos outros quartos estavam espalhados pelo corredor. As lâmpadas balançavam e piscavam. Cheguei até a porta de vidro do terraço. Minha mãe a bloqueara com o tanque de roupa que o morador anterior havia deixado após se mudar. Ela me viu chegando e sentou-se com as costas no tanque. Tentei entrar, fiz força. Ela gritou para que eu fosse embora. Eu ainda não sabia por que estava lá. Sentia raiva, mas também queria simplesmente ignorá-la. Continuei a forçar minha entrada e percebi que a porta começara a se mover quando algo passou ao meu lado esquerdo. Esquerda, direita. O que foi aquilo? Não encontrei nada. Virei-me para a porta do terraço mais uma vez e vi o buraco. Algo do tamanho de um livro atravessara o vidro. Inclinei-me para olhar pelo buraco. Minha mãe segurava um porta retrato com a mão direita e esfregava os dedos ensanguentados da mão esquerda. Pelo reflexo no vidro do porta retrato, pude ver que ela tinha sangue no rosto. Seu olhar era intenso, as veias saltando das têmporas. O que estava acontecendo? Meus olhos se fecharam. O salão vermelho agora era branco. Alice segurou minhas mãos e meus olhos se abriram. Eu continuava no corredor, mas o tanque de roupa havia sido atirado para longe da porta de vidro, que continuava fechada. Minha mãe estava de pé, os braços ainda cobertos de cacos de vidro, sangue jorrava da sua testa. Ela estava encostada na porta, de frente para mim, sendo sufocada por um pedaço de encanamento. Tentei ir até ela, mas minhas pernas não se mexeram. Seus olhos encontraram os meus e um pensamento de origem desconhecida implorou: “Toque-me.” O cano de cobre pressionou sua nuca com tanta força que parecia querer atravessá-la. Toque-me e venha até Qoa. Novamente, Qoa. Novamente, Hedda? Ela falava de um modo diferente, mas ainda parecia ser ela. Abriga-me em uma doença e depois me extirpa. Mantive-me imóvel. O que aquilo poderia significar? Se não me tocar agora, você terá que fazer tudo no futuro. No futuro? Fazer tudo o quê? Não recebi resposta. Ouvi o som repugnante de cartilagens sendo esmagadas. O ar não


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conseguiu mais preencher os pulmões de minha mãe. Ela olhou para mim enquanto uma lágrima descia vagarosamente por seu rosto. Seus olhos se fecharam e seu pescoço amoleceu. O tubo de metal caiu no chão e ela o seguiu. Aquela pessoa que deveria me amar, mas me odiava, estava ali inerte. Eu ainda não conseguia me mover, ainda não era capaz de entender o que havia acontecido. Senti uma presença, alguém estava no corredor e me observava. Olhei para trás e não pude acreditar no que meus olhos viram. Era Alice. De algum modo ela saíra de seu quarto e fora para o corredor, mas continuava sentada em sua cadeira de madeira, presa por amarras que impediam que ela caísse. Imóvel e em silêncio, ela olhava para o nada. Alice vivia como um vegetal havia quase seis anos. Nós a alimentávamos, dávamos banho e a deitávamos na cama. Ela não falava e nem se mexia. Como ela poderia ter chegado até ali? Então percebi, no chão do corredor, riscos grossos e tortuosos que seguiam paralelos um ao outro, até os pés da cadeira onde Alice estava sentada. Olhei para seu colo e vi que nele havia uma flor, a rosa que eu colocara ao lado de sua cama no dia anterior. Não dava para acreditar no que aquilo tudo poderia significar. Eu não quis acreditar. [DIÁRIO DE MAGNUS LUND - 2010] Mais um dia daqueles. Saudações e tapinhas nas costas. Perguntas que não esperam por respostas. Olhos que buscam desculpas por sobre ombros, oportunidades de escapar de entediantes ocasiões de socialização. Ofertas aguardando por recusas. As sessões de gabolice ao redor do bebedouro. Sábado parece estar a milhares de quilômetros de distância desta Terçafeira que acabará dentro de dezessete horas. A falsa fila que se formou no final da plataforma não tem qualquer utilidade, já que todos precisam correr para o ônibus que resolveu parar em outro lugar. Pode passar.

Quando a tampa fecha, a lata de sardinhas é tão apertada na parte de cima


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quanto é no fundo. Um desejo de bom dia que, assim como o "boa tarde," é substituído por um pedido por mais moedas. Que bom que tinha uns trocados. A pequena vitória. A passagem pela roleta. Hora de rumar em

direção ao fundo. Não há mais lugar, mas as paradas continuam. A cada ponto, menos oxigênio e mais suor, mais escapismo. Chegar em casa, comer, dormir, acordar, lamentar, vazio, repetir. Não espero por uma resposta, mas não custa tentar. Talvez um sopro de extraordinário derrube a ausência de ar respirável. Não abro a boca, mas faço a pergunta: “Consegue ouvir meu pensamento? Alguém...” Desvio de um passageiro, de outro, e mais um. Alguém desceu. Há um lugar pra mim lá no fundo. De um lado para o outro, todos surfam até o próximo ponto. Finalmente, um descanso para minhas pernas. Entre costas suadas vejo os condomínios passando. Lares, doces lares de cinquenta metros quadrados pelos quais eu levaria 60 anos para pagar. Talvez 70. Tipuanas enfeitam a rua silenciosa. Gostaria de morar neste bairro. Eu também. Hã? Procuro por todos os cantos. Ninguém olha para mim. Quem sussurrou? Você também o quê?

Gostaria de morar aqui. Quem disse isso? Eu consigo te ouvir. Consegue? Meu dedo no botão amarelo, a luz acesa, o som agudo, o movimento para frente, as portas se abrem, a calçada. Onde você está? O silêncio, a ansiedade. Eu olho para todos com expectativa. Alguns me olham com estranheza, outros nem isso. A decepção me acertou mais uma vez para, logo em seguida, ser expulsa. Nem perto, nem longe. Qoa. A resposta atrasada chegou, o sorriso perdido regressou. Hedda? Qoa, mais uma vez. O que é Qoa? A resposta veio em outro sussurro mental: É o desenho que

ficou incompleto porque a página acabou. É onde existo. É onde poderá me alcançar. A voz parecia ser a mesma que invadira meus pensamentos

em Rørvik, mas soava como a voz que sussurrara na minha mente no dia da morte de minha mãe. Era Hedda, embora não mais falasse como uma criança. Isso quer dizer que fantasmas também crescem? Como posso

chegar a Qoa, Hedda? Abriga-me em uma doença e depois me extirpa.


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Essa frase mais uma vez. Meu pedido por uma explicação menos

enigmática não foi atendido, e a excitação foi responsável por minha insistência em aguardar mais uma hora antes de desistir. Não fazia ideia do que Hedda quisera dizer com aquilo tudo, mas ao menos havia me dado uma pista de onde e como encontra-la. Infelizmente, nos dias seguintes, não fui mais capaz de ouvi-la. Será que é tão difícil ter a vida que desejo? Não espero possuir uma conta gorda no banco, nem aparelhos eletrônicos que me tornem mais sedentário. Quero apenas ser capaz de sentir um arrepio morno subindo por minha espinha. Algo que me faça soluçar de vez em quando, algo que me faça querer chorar com um sorriso no rosto. Isso é tudo que me move.

O outro lado de tudo [DIÁRIO DE MAGNUS LUND - 1998]

Eu, minha irmã e minha mãe estávamos num pequeno hotel em algum lugar perto de Rørvik, na Noruega. Elas compartilhavam um quarto e eu ficava no cômodo adjacente, como de costume. Era nosso terceiro dia por lá e o céu cinzento parecia ser o telhado oficial de toda a região enquanto nuvens de gaivotas, mergulhões e papagaios-do-mar decoravam as rochas


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que circundavam a cidade, mas nada disso era suficiente para prender minha atenção. Eu estava com 17 anos na época e já não suportava mais viajar com minha família para esses cantos ocultos da Península Escandinava. Infelizmente, minha mãe trabalhava como inspetora para uma grande empresa de processamento de pescados e vivíamos viajando sempre para os mesmos portos, sempre para as mesmas espeluncas. Ninguém reclamava, afinal, o trabalho dela era a nossa única fonte de subsistência. Não conhecia meu pai e minha irmã sofrera um derrame ainda jovem, aos 19 anos, após uma tentativa de estrupo. Eu passava todos os meus entediantes dias dentro do hotel, olhando para o mar e para os suportes de secar bacalhau pendurados nos alpendres das casas. O oceano sempre me atraiu. As águas escuras do mar da Noruega me faziam imaginar que tipos de seres poderiam viver lá embaixo, longe dos nossos olhos. Acho que era a única coisa agradável em se viver viajando por cidades portuárias. E foi assim, encarando o oceano, que tive meu primeiro contato com Hedda. ‘Karma Police’, do Radiohead, tocava no meu CD player enquanto eu riscava meu nome na escrivaninha perto da janela, e eu não parava de pensar no tamanho da minha dívida com a Polícia do Carma. Quase diariamente, aquela típica análise rápida, influenciada pelos pequenos problemas semanais, era feita pelo meu cérebro e expelida na mesma frase curta: que vida de merda. O piso de madeira rangeu atrás de mim. Isso não teria sido algo fora do comum se eu também não tivesse sentido um sopro de ar morno atrás da minha orelha esquerda. Olhei para trás. Nada. Segui buscando por algo peculiar no ambiente, mas nada parecia não fazer parte da atmosfera de tédio constante. Levantei-me e fui até a porta que dava acesso ao quarto onde minha irmã e minha mãe dormiam. Minha mãe ainda não voltara do trabalho e Alice estava na cadeira de rodas, inerte como sempre. Minha mente começava a aceitar o fato de que eu havia apenas imaginado tudo aquilo quando outro sopro de ar, agora mais forte, fez todos os pelos de


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minha nuca se levantarem. Girei minha cabeça freneticamente. Direita, esquerda, direita, esquerda. Algo havia mudado. O surrado aviso plastificado de “Não Perturbe!” saíra da maçaneta da porta do quarto e agora estava sobre a cama, virado para cima, “Por favor, arrume meu quarto.” Eu não o pusera lá. Ao seu lado, meu caderno de anotações estava aberto. Letras grandes e trêmulas ocupavam uma página inteira. Aproximei-me para ler. “Estou cansada do frio.” Quem poderia ter escrito isso? Não havia tocado no meu caderno desde que chegamos a Rørvik. Minha mãe não era do tipo brincalhona e, para ser sincero, fazia anos que ela não sorria para mim e sua única forma de comprimento era uma batidinha na porta do meu quarto seguida de um “E aí?” sempre que chegava do trabalho. Com certeza não era obra dela. Sentei-me na cama ainda sem saber o que pensar da mensagem vacilante que quase atravessara a página do meu caderno. Não parava de olhar para ele. Eu o usava para anotar coisas que me chamavam a atenção, por isso ele continuava intocado, afinal, três dias haviam se passado e Rørvik mais parecia um quadro de onde a tinta escorria lentamente. Que lugar entediante! De súbito, uma batida forte veio do quarto da minha irmã. Corri para ver o que era, pensei que Alice tivesse caído da cadeira, mas nada havia mudado. Então houve outro som de batida, agora vindo do meu quarto. Seria isso tudo algum tipo de brincadeira dos idiotas que sempre me enchiam a paciência todas as vezes que eu saía para comprar sanduíches? Talvez estivessem jogando pedras pelo lado de fora. Voltei para o meu quarto e encostei minha testa na janela. Minha respiração cuidou de embaçar o vidro e isso foi a única coisa de diferente a surgir no meu campo de visão naquele momento. Tudo estava absolutamente igual. Mantive-me encostado na janela por falta de vontade de me mover, esse era o efeito que Rørvik tinha sobre mim. De repente, outra corrente de ar tépido acariciou meu pescoço e um som de papel sendo manuseado chegou até meus


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ouvidos. Virei-me para a sua origem, meu caderno, e pude ler outra mensagem sobreposta à anterior, “Por favor, não tire as coisas do lugar.” Aquilo não era algo comum. Senti muito medo, mas, ao mesmo tempo, fui tomado por uma empolgação tão expansiva que resultou num sorriso que eu há muito não imaginava ser capaz de dar. Resolvi escrever uma pergunta logo abaixo daquela mensagem, ansioso para ver uma resposta se materializar logo em seguida, “Desculpe-me. Não sabia que o quarto era seu.” Escrevi rapidamente com letras bem pequenas para que houvesse espaço de sobra para o diálogo que eu tanto aguardava que fosse se seguir. Minutos se passaram sem resposta e minha empolgação foi diminuindo até que, após exatos quatorze minutos, a caneta se ergueu sozinha e, com aparente dificuldade, escreveu na folha do caderno. “Não é. Mas não gosto de bagunça!” Minha mente começou a arquitetar dezenas de teorias para aquilo tudo. Eu estava extasiado e queria escrever cada vez mais rapidamente. “Você gosta daqui?” “Sinto muito frio. Sempre sinto muito frio.” “Como você chegou aqui?” “O mar.” “Você nadava por aqui?” “Andei pelo mar por muito tempo.” Minha cabeça tentava entender tudo aquilo, mas meu raciocínio e as perguntas que queria fazer se embolavam a todo instante. Certo de que aquilo se tratava de um fantasma, quis saber se a entidade tivera sido um marinheiro ou algo do tipo. Contudo, antes que eu pudesse terminar de escrever minha nova pergunta, fui interrompido com uma revelação, “Chamo-me Hedda. Caminhei de Kragerø até aqui.” Deduzi que Hedda fora atropelada no caminho, mas, com sua frase seguinte, ela destruiu minha suspeita, “Tive medo. As crianças que flutuam


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são feias. Vi duas, inchadas e pálidas. Os peixes as beijavam sem parar.” Pensei que não fosse capaz de ficar mais chocado, mas fiquei. Pelo modo de se comunicar, percebi que Hedda era uma criança e, se andou sem parar, ela deve ter levado mais de uma semana para ir de Kragerø a Rørvik. Sem contar o fato de que ela parecia estar descrevendo o fundo do mar. Mesmo temeroso pela resposta tenebrosa que esperava receber, me senti compelido a pergunta-la, “O que faz aqui, Hedda?” Sua resposta me fez sentir um frio que nem a calefação do quarto foi capaz de amenizar, “Eu atravesso paredes. Eu as atravesso como se não estivessem onde estão.” Meu corpo inteiro começou a tremer ferozmente, uma sensação angustiante preencheu meu peito e, pela primeira vez desde que iniciamos nossa conversa, eu proferi minha pergunta ao invés de escrevê-la, “Como assim?” A resposta de Hedda, suave e clara, também não foi escrita, “Eu não as sinto, assim como você também não me sente aqui, de pé, ao seu lado.” Fui tomado pelo pânico enquanto me virava para o lado de onde se originara a voz. Senti o chão amolecendo sob meus pés, minha visão ficou borrada e um zumbido nauseante pareceu ecoar dentro do meu crânio. O piso de madeira se partiu e eu caí dentro da água negra e gelada do cais de Rørvik. O tempo parou. Não ouvia mais som algum e só conseguia enxergar o buraco por onde havia caído. Tentei nadar, mas minha angústia só cresceu ao me dar conta de que não podia me mexer. Senti a água gelada espetando minha pele e inundando meus pulmões. À medida que meu corpo se deixava guiar pela gravidade, a única fonte de luz que meus olhos alcançavam fugiu do meu campo de visão rapidamente. Eu sabia que estava agora olhando para o fundo do mar, mas tudo era escuridão. Pensei em fechar meus olhos, mas que diferença faria? Eu estava afundando, perdido na imensidão negra, no fundo do mar ou no espaço, não fazia diferença. Foi então que aquele zumbido enjoativo retornou. Temi pelo que pudesse acontecer em seguida, meus músculos continuavam paralisados. Talvez eu já estivesse morto. Era um pensamento que normalmente me assustaria,


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mas, por alguns instantes, aquela agonia me fez desejar que realmente estivesse morto. Então, um bruxuleante ponto luminoso se ascendeu dentro da imensidão negra. Enquanto tentava compreender o que via, outro ponto se ascendeu, depois outro, mais um, mais outro, vários pontos de luz pareciam iluminar o fundo do mar. Imaginei-me flutuando, em órbita, olhando para uma pequena cidade que acabara de ligar sua iluminação noturna. Contudo, a profundidade, naquele ponto onde afundei, não poderia ser superior a 10 metros. Aquilo não poderia ser uma cidade, seria impossível. Então, uma voz suave sussurrou nos meus ouvidos. “Qoa”. Era a voz de Hedda, mas o que seria “Qoa”? Do canto do meu olho direito, ela surgiu, vagarosamente, flutuando em minha direção. O cadáver da garota pairava a poucos centímetros de mim, pálida, inchada, em decomposição. Era muito jovem, talvez tivesse menos de sete anos, faltavam-lhe pedaços da cabeça e do ombro direito, os olhos estavam fechados, e as mãos, com as palmas unidas e os dedos entrelaçados, davam a ela a impressão de estar orando ou implorando por misericórdia. Observei-a por algum tempo até perceber algo se movendo dentro de sua boca. Quis ver mais de perto, porém continuava paralisado e dependendo exclusivamente da correnteza para me carregar. Aquela coisa deslizava sobre a língua intumescida de Hedda, emitindo um fraco brilho dourado como de âmbar, rumando para seus lábios. Assim que deixou o interior escuro da boca do cadáver pude ter uma ideia da consistência da coisa. Não possuía boca ou membros, mas três esferas escuras, presentes em uma das extremidades do verme, me faziam pensar que eram olhos. Aquilo mais parecia uma lesma translúcida, recheada de óleo de cozinha e células macroscópicas. Aguardei para ver por onde a gosma fluiria em seguida, e então, com a rapidez do bote de uma serpente, o verme cor-de-âmbar saltou para dentro de minha garganta. Nada senti fisicamente, mas fui preenchido por uma mistura de nojo e curiosidade. Quis cuspir aquela coisa, mas também ansiei, meio sem saber o porquê, ver o que ela faria


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comigo. Nada aconteceu. Eu continuava submergindo sem resposta dos meus músculos. Em pouco tempo perdi Hedda de vista, e as luzes do fundo do mar se apagaram. Já não tinha mais esperanças de estar vivo quando, de repente, a sensação sufocante do medo passou. Pude ouvir os ruídos dos motores dos barcos acima de mim e aos poucos retomei o controle sobre meus músculos. Olhei para cima e pude ver a melancólica luz da superfície. Nadei ansiosamente em direção ao céu cinzento de Rørvik, e ao esticar minha cabeça para fora d’água, cuspi aquela porção de mar gélido dos meus pulmões com um sorriso no rosto. No mesmo dia, mergulhadores encontraram o corpo de Hedda e, por quase dois meses, a polícia achou que eu a havia assassinado, ou que sabia que ela estava ali desde o início, porém, os legistas confirmaram que ela fora assassinada por alguém maior e mais forte que eu, sem falar que o corpo fora arrastado por correntes marítimas, durante dias, vindo de um lugar onde eu nunca estivera antes. Mas, naquele momento da minha vida, ser acusado de assassinato não me afetou muito. Hedda me revelara o outro lado de tudo e, daquele momento em diante, isso seria tudo que eu iria querer viver.


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[DIÁRIO DE MAGNUS LUND - 2010] Apagando Memórias Fica cada vez mais difícil reconstruir os sonhos se a vida faz questão de carregá-los para longe como uma enxurrada que não cansa de retornar. Três meses se passaram desde meu último encontro com Hedda no Avessal e o que resta é o que não faz falta. Colegas com problema de atenção e ausência de opinião própria, empregos que matam lentamente. Você chega às oito e sai às dezoito, comparece de segunda a sábado, mas reclamam se você não quer dar aquela “força” no domingo. Nada disso é suficiente pra quem deposita o dinheiro na sua conta. Eu estava cansado de tentar agradar, mas não conseguia achar outro meio que me levasse ao mundo que Hedda me revelara, o mundo que eu queria explorar. Ela me revelara o caminho, mas eu não consigo me ver fazendo o que ela pediu. “Abriga-me em uma doença e depois me extirpa.” Recusei-me e então ela me abandonou. Para mim era muito mais interessante sentir o que senti quando caí nas águas geladas de Rørvik, ao invés do jogo de interesses sem fim; poucos trabalhando, sobrecarregados com o serviço dos que não querem trabalhar; tapinhas nos ombros e desejos de “bom dia” vazios. A vida é uma piadista incrível. Afinal, quem mais faria um aspirante a explorador do sobrenatural tornar-se fotógrafo do departamento estadual


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de polícia científica? Eu não tinha contato com o sobrenatural. Todos os dias eu somente via o natural, em sua versão mais crua. Afinal, como disseram Richards e Jagger: guerra e crianças estão a um tiro de distância. Se não fosse pela televisão eu não teria aguentado. Mas não me refiro ao mundo de possibilidades oferecido pela TV a cabo - mais internet, mais telefone. O que eu gostava de assistir era o canal fora do ar na minha televisão velha. Chegava em casa por volta das nove da noite, acendia um cigarro, pegava meu caderno e anotava as conversas que saiam daquele amontoado de chuviscos e chiados projetados pelas ondas desordenadas da atmosfera. Ouvi tantas descrições de acontecimentos, lugares e personagens que me senti obrigado a dar um nome àquele mundo à parte: Bordas do Silêncio. Até hoje não sei quem eram, ou quantos eram os interlocutores daquelas conversações, mas tenho certeza de que não pertenciam a este mundo, tamanhas as bizarrices descritas pelas vozes abafadas daquele canal. Essa era minha rotina diária: ovos mexidos, ônibus lotado, fotos de corpos, conversas insignificantes de trinta segundos, mais fotos de corpos, ônibus lotado, cigarro, Bordas do Silêncio, café e diazepam. E tudo teria permanecido igual se, um belo dia, eu não tivesse resolvido apagar minhas memórias. Não, eu não consegui, mas realmente tentei. Era uma quinta-feira e não parava de chover. O céu estava avermelhado e os estrondos dos trovões, assim como os clarões dos relâmpagos, não cessavam. Eu estava anotando mais linhas de Bordas do Silêncio, as conversas do canal fora do ar estavam mais insanas do que de costume e as vozes mencionavam algo sobre um Dobermann flamejante que liderava uma gangue de arruaceiros. A conversa estava interessante e geralmente, para mim, seria impossível ignorar aquele tipo de enredo sem pé nem cabeça; mas mesmo assim eu não era capaz de prestar atenção. Eu simplesmente não conseguia parar de me perguntar como Hedda poderia ter me pedido o que pediu. Além disso, havia se tornado impossível não


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pensar em uma cena de assassinato em que trabalhara na madrugada anterior. Um homem de mais ou menos 40 anos, magro, 1,90m de altura; tivera sua barriga aberta cirurgicamente, depois preenchida com ratos-toupeiras vivos e, em seguida, costurada. O indivíduo fora deixado na porta de uma igreja, em meio a uma missa, ainda sob o efeito de anestésicos. É difícil descrever o que vi, mas posso dizer que muitos daqueles bichos acharam modos diferentes de sair do corpo dele. Não sei o porquê, mas lembrar daquilo estava me afetando mais do que os costumeiros buracos de balas, poças de sangue e corpos desmembrados. Pensei em tomar o diazepam e apagar de uma vez, como de costume, mas já havia feito isso por quatro dias seguidos sem sucesso. Os pensamentos voltavam assim que eu acordava. Concluí que nada me faria esquecer daquele cadáver esparramado no chão da igreja, coberto por roedores sem pele que brotavam de todos os lugares, encharcados de sangue. E eu nunca poderia ir a Qoa. Era hora de tentar algo diferente. Lembrei-me de um dos primeiros casos em que me envolvi logo que entrei para a polícia. Uma senhora teve o cérebro fritado por dois enfermeiros de um hospício durante uma sessão de eletrochoque a que fora submetida para tratamento de depressão. Eles não eram muito competentes e já haviam se tornado conhecidos pelo excesso de brutalidade no trato com os pacientes. Na época, as investigações revelaram que nem todos os pacientes haviam sido mortos nas sessões de eletrochoque, mas a maioria dos sobreviventes perdera boa parte da memória, e já que eu precisava apagar aquela maldita lembrança dos ratos-toupeiras, a tempestade que caia do lado de fora só poderia ter me levado a uma conclusão óbvia: relâmpagos. Não espero que me achem a pessoa mais normal do mundo, afinal, a “normalidade” é algo que todos buscam na vida em sociedade. Todos tentam ser normais. Até mesmo aqueles que dizem fugir da “normalidade”.


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Há sempre uma cartilha a ser seguida para cada tipo de linha de comportamento. Eu tento apenas me manter vivo e evito falar das coisas de que gosto, pois sei que serei taxado de algo muito pior do que já sou. As pessoas sempre te acharão pior do que você já é, a não ser que você seja famoso. Nesse caso podem te achar muito melhor do que você já é. Mas tal anomalia só dura até você ser sincero. As pessoas odeiam isso. Se você quer dizer o que pensa, esteja preparado, pois a fama não é para indivíduos, mas sim para símbolos. Também sei que muitos provavelmente me veem como um sujeito bem maluco. Meu modo de agir com certeza não ajuda a modificar tal avaliação, então não me esforçarei para mudar minha imagem. Continuando, minha ideia foi sair na chuva e levar um raio na cabeça. Simples assim. Os clarões dos relâmpagos eram peneirados sobre mim através das persianas. O som das gotas de chuva parecia ficar cada vez mais forte e eu já não conseguia mais parar de pensar no que pretendia fazer. Levantei-me da poltrona, segui até porta da sala e a abri. O vento gelado da noite me abraçou e a chuva pesada lavou meu rosto cansado. Percebi, naquele momento, que não seria mais capaz de voltar para minha sala, para meu emprego, para a aquela vida. Pus meus pés descalços na grama encharcada e o estrondo de um trovão fez o chão tremer. A vibração subiu por minhas pernas, por dentro dos meus ossos, chacoalhou meu peito e ecoou dentro do meu crânio. Fiquei paralisado por quase 10 minutos até que decidi andar até o centro do gramado. Não tinha mais volta. À medida que caminhava, os relâmpagos iluminavam os cantos mais ocultos da minha mente trazendo à tona cada imagem, cada crime, cada cadáver que eu já fotografara com minha câmera. Eu iria apagar tudo de uma vez por todas, inclusive a lembrança da suave voz de Hedda. Aproximava-me lentamente do centro do gramado enquanto o vendaval frígido acarinhava minhas bochechas e os pingos da precipitação faziam meus olhos convulsionarem freneticamente. Parei e olhei para meus


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pés, que pisavam sobre meu rosto refletido numa poça d’água. Por alguns instantes me senti bem ao pisar em mim mesmo. Eu merecia. Levantei minha cabeça e encarei o céu feroz. Imaginei como seria poder voar por dentro daquelas nuvens negras e enraivecidas. Senti um vazio no peito, os pelos da minha nuca se eriçaram, a adrenalina da expectativa tomou conta de mim e, então, eu vi. O tempo pareceu desacelerar e fui capaz de ver claramente aquele rastro de luz ziguezagueando do céu até mim. A chuva virou uma cortina de bolas de vidro que pairavam no ar. Pude ver o raio vaporizando cada gota em que roçava, cada vez mais próximo de mim. Minhas pupilas se contraíram, prendi a respiração, não havia som. Um clarão enorme embranqueceu minha visão, meus pés não tocavam mais o chão. Um incêndio desesperador me corroeu por dentro e fui capaz de sentir minha saliva virando vapor. O vazio dentro do meu peito ganhou vida e se transformou em um coice que fez meu coração parar. O tempo parou e a lembrança do último encontro com Hedda retornou.

*** Córregos estreitos deslizavam pelas margens das ruas, alimentados pela chuva que ainda não parara de cair. Minha televisão permanecia no show de chuviscos acinzentados e o frasco de diazepam aguardava para ser virado de ponta cabeça. O episódio de Bordas do Silêncio daquela noite se misturava às vozes distorcidas que vazavam dos reality shows dos outros canais, e isso me fez querer desmaiar mais cedo do que de costume. Infelizmente, antes que pudesse engolir minha dose excessiva de sempre, o telefone tocou. Um shopping fora evacuado após dezenas de relatos de vômitos e desmaios de clientes, provocados por uma infestação inesperada de ratos-toupeiras cobertos de sangue, na praça de alimentação. O


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diazepam teria de esperar. Ao chegar ao local percebi que funcionários de uma lanchonete ainda eram interrogados e, pouco a pouco, fui me inteirando do que havia acontecido. Um funcionário da mesma lanchonete, ao levar o lixo para os contêineres reservados aos restaurantes da praça de alimentação do shopping, se deparou com dois indivíduos ainda vivos dentro do carrinho de lixo, com os abdomens costurados, e cobertos por sacos e restos de comida. A princípio aterrorizado, e ainda na praça de alimentação, ele se afastou alguns metros, mas logo voltou para tentar socorrer os homens que escalavam lentamente as paredes do carrinho de lixo. Muitos clientes presenciaram o momento, alguns tentaram ajudar, mas a maioria, com razão, logo se apavorou. Não demorou para que os dois sujeitos começassem a gemer de dor e os rústicos pontos cirúrgicos em suas barrigas se rompessem. Sangue e vísceras se espalharam pelo chão enquanto os ratos-toupeiras disparavam em todas as direções. Era um dia de calor atípico, então o shopping estava superlotado no horário em que tudo aconteceu. Nunca se deve menosprezar a importância do ar refrigerado na vida da população quando os termômetros de rua marcam 40ºC na sombra. Mas como o assassino conseguiu capturar duas pessoas, dopá-las, abri-las, recheá-las com animais vivos, costura-las e ainda escondê-las dentro de um dos carrinhos de lixo mais utilizados de um shopping lotado? Mesmo que ele tivesse feito quase tudo em outro lugar, como conseguiu transportar dois homens enfeitados com suturas nada discretas dentro de um lugar tão movimentado? Essas certamente eram as mesmas perguntas que os investigadores estavam fazendo a si mesmos. Eu batia minhas fotos e só conseguia lembrar da minha insônia. Minhas doses noturnas de sedativo haviam aumentado desde o surgimento da primeira vítima do Cirurgião das Toupeiras –apelido dado pelos jornais locais- e aquelas novas vítimas provavelmente não me ajudariam a dormir melhor. A cada flash eu sentia o ódio por meu emprego subir pela garganta, e meu dedo parecia bater as


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fotos automaticamente já que eu não sentia como se o tivesse sob controle. Após cinco minutos documentando aquela cena, aqueles roedores carecas e abomináveis, aqueles corpos abertos e suas costelas saltando para fora; senti que algo além do ódio ecoava em cascata por dentro do meu esôfago. Fui tomado por um enjoo que nunca sentira antes, nem mesmo nas cenas de homicídio mais repugnantes. Deixei minha câmera no chão e procurei pelo banheiro mais próximo. Como era de se esperar, meus colegas despejaram gracinhas e provocações através dos dentes: “Você não aguenta, Lund!” ”Quer um remédio, sueco fresco?” ”Você não serve pra isso. Volta pra Suécia!” “O maluco que foge das confraternizações só poderia fugir do trabalho também!” , mas eu estava nauseado demais para me importar. Passei pelas lojas fechadas, algumas com as luzes ainda acesas, funcionários assustados me seguiam com os olhos. A vontade de vomitar era tão intensa que tive que levar minhas mãos à boca por várias vezes antes de chegar ao banheiro. Minhas têmporas pulsavam de dor, a transpiração intensa encharcava minha camisa e as gotas de suor caíam como chuviscos nos bicos dos meus sapatos. Meus pensamentos eram uma mescla de temor pelo que poderia estar acontecendo ao meu corpo e fúria por não haver uma quantidade maior de banheiros no shopping. Pouco mais de três minutos haviam se passado quando finalmente encontrei um banheiro. Aos tropeços avancei até uma privada e pus-me de joelhos no piso alagado sabe-se lá pelo que. Estava certo de que o vômito viria logo em seguida, mas ao invés disso uma série de espasmos dolorosos contraiu e estendeu minha laringe até que uma gota vermelha saltou dos meus lábios e mergulhou na água da privada. Levei uma das mãos à boca e automaticamente procurei por explicações lógicas para aquele sangramento: gastrite, tuberculose, câncer... Meu pessimismo sempre alerta também entrou na discussão e não demorou para que eu logo estivesse calculando quanto me custaria organizar meu próprio enterro. Arranjos de flores podem ser muito caros. Mas de que me serviria um


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enterro? Nunca entendi a conveniência de se reunir pessoas ao redor de um cadáver exposto. E quem iria ao meu enterro? Talvez a cremação fosse melhor, mas também não custaria barato. E por que eu iria querer ser cremado? Eu poderia cavar uma cova no jardim de casa, bolar algum dispositivo simples de liberação de terra acionado ao fim de uma contagem regressiva e tomar a quantidade certa de sedativos. Adubo gratuito para o próximo morador. Eu teria pensado em outras maneiras diferentes de reaproveitar meu corpo, mas a gosma dourada que despencou na privada, logo em seguida, tomou minha atenção. O objeto, que mais parecia um tentáculo translúcido recheado de mel, se contorcia como a cauda recémamputada de uma lagartixa. Observei aquela coisa se retorcer por alguns segundos até perceber que se tratava de um pedaço do verme cor-deâmbar, ou algo muito similar. Hesitei em enfiar meu braço naquela sopa de urina e fezes, mas a vontade de poder segurar um pedaço da lesma herdada de Hedda fez com que eu ignorasse qualquer sentimento de nojo. Contudo, ao me aproximar do tentáculo dourado, franzi minha testa ao ouvir o ruído torturante emitido pelo verme. A lesma cor-de-mel se retorceu ferozmente e, como um peixe fugindo de uma gaivota faminta, submergiu para o fundo do vaso. Mergulhei meus braços tentando alcança-la, mas só consegui capturar as coisas mais repugnantes que os intestinos de qualquer ser humano podem produzir regularmente. Frustrado, levantei-me e me dirigi para uma das pias. O enjoo diminuíra, mas a decepção por não ter conseguido pegar o verme cor-de-âmbar parecia me incomodar muito mais. Abri a torneira e empapei meus braços com todo o sabonete líquido que pude conseguir. A água respingava na minha camisa e se misturava ao suor. Eu esfregava meus braços como se quisesse arrancar minha própria pele e não parava de me perguntar o porquê de eu ter expelido aquele pedaço do verme. Removi toda a espuma e me olhei no espelho. Minha vida estava refletida no meu rosto: cansaço e decepção. Um gemido tirou minha atenção. Se sofrimento pudesse ser definido com um som,


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certamente seria aquele. O ruído vinha da cabine que eu havia usado, mas quem ou o que poderia estar ali? Virei-me na direção da cabine e iniciei uma caminhada lenta até sua porta. O gemido continuava, mas não parecia significar nada além de dor. Parei em frente à cabine. Aquele som horripilante estava tão alto que pensei que a qualquer momento algum funcionário do shopping ou um dos meus colegas apareceria para averiguar. Pus minhas mãos na porta, ainda decidindo se deveria abri-la ou não, e aguardei. Quem poderia estar lá? O banheiro estava vazio quando entrei. “Quem está aí?” Perguntei com a voz trêmula. O gemido cessou. Fechei meus olhos e suguei o ar com força. Eu iria abrir aquela porta. Abri meus olhos e esvaziei meu peito. Seria agora. Empurrei a porta com tanta força que ela bateu na parede lateral da cabine. Não havia ninguém lá. Olhei para a privada e percebi que bolhas saiam da água fétida. Aproximeime para observar e pude ouvir uma voz que sussurrava através delas, como se viesse de dentro do encanamento. “A mesma via, o sol oposto, a luz que falha, Qoa.” Qoa. Hedda sussurrava na minha mente mais uma vez. Ela estava marcando um encontro, afinal “a mesma via” só poderia significar na mesma rua. Naquele momento não senti mais vontade de planejar meu enterro. Regressei à cena do crime na praça de alimentação e avisei a meus colegas que iria para casa. Os corpos já haviam sido encaminhados para o Instituto Médico Legal e o pessoal se preparava para mais uma estúpida happy hour em algum clube de strip. Contudo, isso não impediu que mais palermices fossem despejadas nos meus ouvidos, e devidamente respondidas com meu dedo médio erguido. Saí do shopping e esperei alguns minutos até conseguir um taxi. Desejei boa noite, mas não recebi qualquer palavra em troca. Nada fora do normal. Expliquei o caminho para o motorista e seguimos para a silenciosa rua das tipuanas. Durante todo o trajeto pensei nas instruções de Hedda: “A mesma via, o sol oposto, a luz que falha, Qoa.” Aquela era a mesma via. Fiquei em dúvida sobre o que poderia significar “sol oposto”. Ao descer do carro pensei que Hedda talvez


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quisesse dizer que o ponto de encontro ficava do lado da rua onde o sol não batia, mas com o telhado verde criado pelas tipuanas era difícil de imaginar um ponto onde os raios do sol ficassem em evidência. Então imaginei que Hedda estivesse falando do período de ausência do sol, ou seja, a noite. E acredito que, para qualquer pessoa, seja muito mais fácil encontrar uma fonte de luz trêmula durante a noite, então eu só precisaria localizar uma lâmpada defeituosa. Não demorou muito para que eu pudesse notar um trecho da rua que alternava momentos de invisibilidade completa e visibilidade parcial ao toque de uma débil luz azulada que tremeluzia nas poças d’água deixadas pela chuva. Era uma lâmpada defeituosa, de aparência triangular incomum, que repousava sobre um poste de madeira retorcida, em frente a uma construção de aspecto deteriorado. Caminhei até o local e observei suas paredes negras de madeira, cobertas por traços e respingos de tinta branca. Um grande letreiro metálico, semienterrado no caminho de entrada, refletia a luz da lâmpada triangular revelando o nome do lugar: Avessal. Olhei para os lados para me certificar de que aquela era realmente a única lâmpada defeituosa da rua e caminhei vagarosamente até a porta do edifício de um andar. Meus lábios estavam secos de ansiedade e só não entrei mais rapidamente no Avessal pelo fato de ter demorado quase 1 minuto do lado de fora até perceber que a maçaneta da porta se mexia apenas para cima. Ao adentrar o local, fiquei impressionado com seu interior. As paredes de tijolos escuros cobertas por perspex incolor e os móveis acinzentados, que mais pareciam nervos em escala ampliada, não aparentavam pertencer ao mesmo bar de exterior sujo e descascado cuja faixada eu estivera a observar minutos antes. O lugar estava lotado e ‘Venus in Furs’ do Velvet Underground – numa versão cujo som da batida dos tons parecia muito mais alto e poderoso - não me ajudava a pensar no que eu deveria fazer a seguir. Ninguém parecia se importar com o que acontecia ao redor, apenas contorciam os próprios corpos no ritmo da batida da música, com os olhos cerrados num ritual que lembrava uma


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espécie de transe coletivo. Entre flashes ofuscantes e rostos suados pude ver um cartaz que dizia “Avessal Bar” e logo abaixo do mesmo, para meu alívio, um balcão escuro delineado por bebidas multicoloridas. Transpus o mar de pessoas com certa dificuldade até alcançar o balcão para me dirigir ao barman. Era um sujeito alto, de pele escura e face tranquila. Fitei suas mãos sobre o balcão por alguns segundos e não pude deixar de notar que as pontas dos dedos estavam sujas por uma tinta de cor preta, e carinhas tristes enfeitavam suas unhas. Senti-me um pouco retraído devido ao porte ameaçador do homem, mas imaginei que só ele seria capaz de me ajudar naquele momento. A voz demorou um pouco para deixar minha boca, mas fiz a pergunta: “Boa noite. Não sei se pode me ajudar, mas gostaria de saber onde eu poderia encontrar Hedda.” Como o sujeito não me deu qualquer atenção, eu tive que me esforçar para competir com a música ambiente. “Olá! O senhor saberia me dizer onde posso encontrar Hedda?” mais uma vez fui ignorado e já começava a achar que aquele homem não queria me ouvir. Olhei para os lados, a multidão em transe, olhos fechados, sorrisos discretos e corpos em movimento. Ninguém parecia me notar ali no balcão, nem o barman. Meus olhos buscaram por um crachá ou algum outro objeto de identificação. No braço esquerdo do sujeito, algo similar a um brasão bordado ostentava a imagem de uma cruz invertida, com a frase “The Right Way” cercada por pequenos símbolos. No seu peito, também do lado esquerdo, a frase “Não é ‘Ei’ nem ‘Psiu’. Pra você, é ‘DAIFAI’” parecia ter sido pintada à mão. Não iria perder meu tempo analisando quão ridículo achara aquele nome, ou se realmente era um nome. “Daifai, será que você poderia me ajudar?” o rosto esculpido pela pele desgastada e barba grisalha virou-se em minha direção. Minha imagem perfeitamente refletida em seus olhos negros. Seus dedos manchados buscaram por algo atrás do balcão. Meus pelos se eriçaram quando imaginei que aquele brutamonte poderia sacar uma arma a qualquer momento. Ninguém notaria até que fosse tarde demais. Dei dois passos para trás pronto para


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fugir. “Engula isto e me acompanhe,” disse ele, apontando para um comprimido que colocara em cima do balcão. Naquele momento imaginei que ele quisesse me drogar. “Por que preciso tomar isso?” perguntei. “Porque Hedda precisa que você tome isso antes de chegar a Qoa.” Ele sabia de Qoa. Eu tinha que arriscar. “E o que é essa coisa? Algum alucinógeno?” perguntei já imaginando que ele poderia me dizer qualquer coisa só para me tranquilizar. “Hedda irá te explicar. Não dá pra reiniciar os movimentos de um músculo involuntário sem antes restabelecer seu ritmo.” Ele realmente devia conhecer Hedda, isso explicaria o gosto por enigmas. “Engula de uma vez e te levarei até Hedda.” Mesmo tomado pelo medo eu precisava correr o risco. Peguei o comprimido e o empurrei garganta adentro. “Esse é seu nome, Daifai?” perguntei ao barman, que agora abria caminho pela multidão. “É um apelido,” ele respondeu secamente. “O que significa?” Daifai parou em frente a uma porta negra que parecia feita de terminações nervosas ampliadas, assim como os móveis do Avessal. “Dirty Fingers,” ele me respondeu ao abrir a porta e me pedir para aguardar dentro daquele outro ambiente. Dirty Fingers fazia sentido, ainda mais levando em consideração as pontas negras dos seus dedos. “Fique aí.” Ele fechou a porta atrás de mim. Eu estava numa sala pequena, preenchida com uma iluminação vermelha que agredia minha visão. Não havia móveis lá, apenas uma espécie de piscina estreita cujo fundo era impossível de enxergar. Aguardei por alguns minutos, mas nada aconteceu. Impaciente, imaginei ter sido vítima de uma brincadeira de Daifai e decidi sair dali para confrontá-lo. Ao tentar abrir a porta minha raiva cresceu ao perceber que ela estava trancada. Gritei por ajuda e esmurrei as paredes, mas nada aconteceu. O Magnus de sempre, o ingênuo de sempre. Sem saber o que fazer e tomado por uma dor crescente nas costas, resolvi sentar no chão com a esperança de que o próprio Daifai ou outra pessoa me tirasse dali. Mais alguns minutos se passaram e a dor na coluna se tornara insuportável a ponto de não conseguir mais me levantar.


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Minhas pernas formigavam e a dor se alastrara para minha cabeça. Eu sentia como se estivesse sendo virado ao avesso. Dobras surgiram nos cantos dos olhos, ao lado das pálpebras apertadas, abaixo da testa franzida, regados pelo suor frio que brotava de cada poro, tremendo com o movimento das têmporas pulsantes, ao ritmo de ecos graves que retumbavam em meus ouvidos. A agonia era insuportável. Murchei deitado no chão, encolhido no canto da sala. Pressenti que meu corpo se aproximava de um colapso, um derrame, um desligamento total. Quando já não era mais capaz de me mover, um estampido cancelou meu purgatório como num passe de mágica. Abri meus olhos, a sala estava diferente. A luz vermelha sobre superfícies negras não mais caracterizava o ambiente. As paredes e o teto haviam se tornado entranhas de algo vivo. Cada face do recinto parecia moldada por uma argamassa de músculos, galhos e raízes em tons de branco e cinza. Comecei a me levantar quando ouvi o som da água a borbulhar. Vapor tomava conta do ambiente e o nível de água da pequena piscina diminuía rapidamente. Levantei-me com um pouco de dificuldade e me aproximei lentamente da borda. A piscina era mais funda do que eu esperava, talvez tivesse uns 20m de profundidade. A água continuava a descer e uma figura se formava no fundo. Após alguns segundos, como se tivesse sido expelida pela superfície viva do fundo da piscina, a figura se ergueu até uma das bordas. Quando uma fina película de água se tornou a única coisa dentro da piscina, a figura ergueu uma das pernas e pisou próximo a mim. Assustado, recuei até pressionar minhas costas contra a parede. Aquele ser se assemelhava mais a uma grande vesícula de muco do que a qualquer outra coisa. Meus olhos buscavam por uma saída. Eu respirava com dificuldade e torcia para que alguém abrisse a porta e me tirasse dali, mas ela sumira juntamente com as paredes e o teto originais da sala. Voltei a observar a figura gosmenta, que parecia secar aos poucos enquanto pequenas bolhas estouravam em sua superfície, liberando vapor. Eu olhava fixamente para o que parecia ser uma cabeça em


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formação e pude ver uma pequena depressão se formando no que poderia ser a boca. A figura sugou o fluido da depressão e depois o cuspiu. “Qoa espera por você, Magnus,” disse a figura, com a voz de Hedda. “Hedda, é você?” perguntei com um alívio no peito. Encontráramo-nos novamente. “E o que preciso fazer?” perguntei ansioso. Hedda olhou para uma das paredes e um vulto começou a se formar sobre a massa de músculos e galhos. Em pouco tempo aquela forma viscosa secou, assim como acontecera com Hedda, e dois homens surgiram. Um era Daifai e o outro era desconhecido para mim. Perguntei o que estava acontecendo, mas tanto Hedda como Daifai não me responderam. O barman olhou rapidamente para mim e então largou o outro homem no chão. A princípio imaginei que estivesse morto, mas rapidamente percebi que estava enganado ao ver que ele mexia os dedos das mãos, e respirava pela boca com dificuldade. “O que está acontecendo, Hedda?” “Você entrará em Qoa.” “Ele também?” “Não.” “Então o que ele faz aqui?” Hedda caminhou em direção ao homem caído. “Ajude-me,” ele suplicou com dificuldade. Hedda o observou por alguns segundos e então o ergueu do chão, segurando-o pela nuca. “O que você vai fazer?” ela não me respondeu. O homem gemia em agonia, mas Hedda parecia não se importar. “Verme,” ela disse com uma voz abafada. Paralisado de medo, me mantive imóvel até que, num piscar de olhos, ela se desfez como um balão cheio d’água ao ser estourado. De joelhos no chão, o homem começou a chorar. Perguntei se estava bem. Ele ergueu a cabeça e olhou para mim com olhar vazio. “Abriga-me em uma doença e depois me extirpa,” foi a frase que saiu de sua boca. “Hedda, é você?” o homem se levantou sem tirar os olhos de mim. “A comunicação entre qualquer plano


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só pode ser realizada por transferência de essência para um recipiente. A essência é o que vocês chamam de alma e o recipiente é o que vocês chamam de corpo. Uma essência não pode fazer nada sem um recipiente que a abrigue em outro plano. Além disso, é necessário ter um conhecimento que sua raça ainda não possui sobre a transferência. Contudo, você faz parte de um grupo que é capaz de atravessar com essência e recipiente juntos.” Tentei me concentrar para deixar o medo de lado e encontrar sentido naquilo tudo. “Você está me dizendo que para vir pra cá precisa possuir alguém?” “Todos em Qoa são capazes disso.” “E por que eu posso atravessar?” “Você ainda não pode fazer isso por conta própria. Eu preciso leva-lo a Qoa três vezes antes disso.” “Três vezes?” “Possuímos recipientes livres em Qoa. Eles foram gerados para todos como você.” “E o que preciso fazer?” “Precisa me seguir durante a transferência.” “Como?” “Direi isso de um modo que possa entender. Você precisa matar aquele que eu possuir.” Aquilo me acertou como uma marretada no peito. Para mim, Hedda simbolizava o mundo que existe fora desta realidade sofrível em que vivemos. Passei parte da minha vida em busca daquele mundo por causa dela, e agora ela me pedia para tirar a vida de alguém. “Eu não vou matar alguém para te seguir até Qoa,” eu disse a ela, com lágrimas nos olhos. “Precisa ser feito. Vocês possuem muitos que não fazem falta, que desperdiçam seus recursos e vivem para causar dor. Você estaria ajudando sua raça. Após as três visitas isso não seria mais necessário.” “Você não está me propondo isso. Não é possível.”


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“Sua origem se deve a isso. Você é um híbrido. Seu pai fez uso de um recipiente para engravidar sua mãe, mesmo sendo algo proibido.” “Meu pai é um de vocês?” “Sim, era. E por isso você possui uma célula de transferência. A entrada para Qoa é muito cobiçada e logo precisaremos ampliar as defesas das nossas fronteiras.” Eu não podia acreditar naquilo tudo, pensei estar alucinando, quis estar louco. “Ele não vai aguentar por muito tempo, você precisa me seguir na transferência,” disse Hedda com a mesma voz inalterada. “Eu não vou fazer isso,” respondi. “Não me interessa o que eu sou, o que meu pai era, ou o quanto você precisa de mim. Não sou muito fã desta vida, mas isso não quer dizer que despreze a vida dos outros. Eu não mataria por ninguém, nem por você, Hedda.” “Meu nome não é Hedda.” As pernas do homem se dobraram e ele despencou no chão. Uma dor extrema espetou minha coluna e minha visão escureceu. Acordei no dia seguinte deitado na calçada em frente a onde seria o Avessal. Não havia nada lá, apenas um terreno baldio. Imaginei o que teria acontecido se tivesse feito o que Hedda me pediu. Estava de volta ao presente e ao processo de obliteração da minha memória.

Aquelas memórias também seriam trituradas. Eu estava de volta ao jardim encharcado, à vaporização do meu sangue. O relâmpago retalhou minha carne e o branco do clarão que inundara minha vista virou preto. Uma escuridão sem fim. CECILIA BANKS Desde que ele se mudou para cá, pintou toda a casa de preto e começou a colocar aqueles gnomos narigudos, de cabelos coloridos, horríveis, no jardim. Eu sabia que as maluquices logo


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começariam, mas eu esperava por festanças, visitas de traficantes, um vai e vem de prostituas ou alguns bêbados fantasiados como vikings, essas coisas dos jovens de hoje em dia. No entanto, normalmente a casa era tão silenciosa que eu, muitas vezes, me esquecia de que a tinham vendido para aquele sueco. Ele não me incomodava, então não desejava o mal para ele, muito menos um raio na cabeça. Não sei o que ele pretendia com aquilo. Só lembro-me de avistá-lo da janela da minha cozinha. Ele caminhou bem devagar até o jardim e ficou um tempo olhando para o chão, depois olhou pra cima e o raio o acertou. Eu mal consegui vê-lo por causa daquele clarão. Quando percebi, ele já estava caído. DR CHARLES BOWER Quando o senhor Lund chegou ao hospital já havia sofrido duas paradas cardiorrespiratórias ainda dentro da ambulância e seu estado era gravíssimo. A descarga elétrica que o atingiu causou queimaduras de primeiro grau nas costas e no pescoço, e ele precisou de ressuscitação cardiovascular imediata, seguida de tratamento médico emergencial, a fim de reverter as consequências da hipóxia cerebral. Além disso, durante o período de recuperação, ele reclamava de muitas dores e insensibilidade nos membros inferiores. Devo dizer que sua recuperação foi realmente impressionante. FREDRIC WEBÓ Magnus tinha um senso de humor que era, no mínimo, incomum. Era impressionante como ele podia se transformar de um sujeito sombrio e misterioso para um simples maluco sorridente em questão de segundos. Isso me cativava, mas também me deixava confuso. Só para citar um exemplo, quando ele resolveu criar o site do documentário, insistiu que o projeto deveria ter uma sigla imponente como “Busca Extraordinária, Sobrenatural e Tecnológica com Investigação Avançada e Localizada: BESTIAL”. Foi uma das primeiras coisas que ele falou sobre a ideia do projeto durante uma das minhas visitas na


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fisioterapia. Fiquei animado ao ver sua empolgação poucas semanas após ter sido fritado por um raio e achei que “BESTIAL” até soava muito legal, mas de uma hora para outra ele virou para mim e disse “Quer saber de uma coisa, Fredric? Acho que poderia se chamar Magnus Rockatansky, ou talvez Mad Magnus. O que acha?” Eu achei uma merda, obviamente. Até hoje não sei de onde ele tirou tal adoração por Mad Max. Mas foi após aquelas sugestões ridículas que ele soltou a pérola definitiva: “E que tal Mad Land? Não, não! Mad Lund. É isso!” Madlund foi uma brincadeira com as palavras “mad” e “land” usando seu sobrenome. Parecia nome de parque temático, mas eu até que gostei. Afinal, Magnus merecia ter sua própria terra de loucos. Contudo, por fim ele decidiu usar o título “Atravessando Paredes”, pois o lembrava daquela garotinha norueguesa. Enfim, ele só queria fazer algo que o motivasse. Ele realmente não pensava em ficar rico com aquilo, sabe? Magnus sempre deixou claro para todos nós que seu objetivo era divulgar tudo que envolvesse descobertas em áreas do conhecimento desprezadas pela ciência e ocultadas pelas autoridades, e eu sei que ele era sincero. Eu sempre o vi como uma espécie de Jacques Cousteau do desconhecido.

[DIÁRIO DE MAGNUS LUND - 2011]

Tomamos o café-da-manhã em Puerto Santa Cruz e seguimos de carro por quase 9 horas até chegarmos a nosso destino, Cuero Esmeralda, uma cidade minúscula localizada a cerca de 70 quilômetros de distância do lago O'Higgins/San Martín, na fronteira do Chile com a Argentina. Ninguém gosta de dirigir por muito tempo, e isso poderia ser minha maior queixa sobre a viagem, mas o que realmente me incomodou foi a queimadura na mão direita, ou talvez tenham sido os pedidos de desculpas intermináveis


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de Piano, que fizera o favor de derrubar o café em mim enquanto se servia no hotel. Ele é um cara bacana, mas ainda não sei se é seu perfeccionismo que o torna mais desajeitado ou se é sua constante falta de atenção que o faz ser tão paranoico sobre os próprios atos. A princípio, Pierre, o Piano, não quis vir comigo e Fredric. Minhas ideias para o projeto o aterrorizavam, mas como eu não conhecia mais ninguém dessa área e sempre soubera que ele trabalhava com design de som, imaginei que seria melhor ter alguém como ele na função de operador de boom do que eu ou Fredric, até porque deduzi que as habilidades de Fred como fotógrafo seriam mais úteis com ele por trás de uma câmera do que segurando um microfone. FREDRIC WEBÓ Eu me interessei pela ideia de viajar ao redor do mundo com uma câmera. Confesso que as bizarrices que Magnus adorava perseguir não eram muito interessantes para mim, mas a vontade de produzir algo profissionalmente e ainda ter a chance de conhecer lugares e culturas diferentes funcionaram como combustível para mim. Pouco tempo depois de me falar sobre a ideia do documentário e me convidar para fazer parte de sua equipe, comprei uma 5D Mark III e um kit de lentes só para usar no documentário, e as imagens que consegui naquele trajeto até Cuero Esmeralda só serviram para aumentar ainda mais minhas expectativas com relação a Atravessando Paredes. Lembro que, durante todo o caminho, Magnus não cansava de olhar de soslaio para aquele recorte de jornal que ele colocara no painel do carro: “Oz existe e fica na Argentina”. O título daquela matéria chamou sua atenção, ao passar por uma banca, no primeiro dia após deixar o hospital. Cuero Esmeralda virara notícia depois que um fazendeiro, testando seu recém-adquirido helicóptero, afirmou ter sido derrubado por bruxas quando sobrevoava uma área localizada a cerca de dois quilômetros da cidade. Depois de investigar mais sobre o lugar, Magnus descobriu que, por decisão dos


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próprios habitantes, ninguém da cidade possuía telefone, televisão ou internet. Não imagino lugar melhor para termos iniciado o projeto.

Cuero Esmeralda Uma névoa acinzentada, de aparência víscida, envolvia todo o horizonte à frente deles como se fosse feita de camadas infinitas e sobrepostas de teias de aranha. Os faróis do carro já não faziam muita diferença, mas o Bronco 1964 amarelo guiado por Magnus Lund prosseguia a constantes 30 km/h. Inquietos, Fredric e Piano moviam suas cabeças de um lado para outro, tentando visualizar alguma coisa, mas sem sucesso. O aparelho de GPS indicava a entrada de Cuero Esmeralda a poucos metros adiante, mas Lund e os outros ainda não eram capazes de ver silhuetas de qualquer tipo de construção no meio da névoa. O pessimismo logo tomou conta da equipe e pensamentos de derrota começavam a germinar na mente de Magnus quando o vulto de uma pessoa atravessou a estrada bem à frente do carro. Num impulso quase que automático a mão esquerda de Fredric se moveu para agarrar o braço de Magnus. Piano berrou “Olha, olha!” O interior do carro foi inundado pelo som dos pneus se arrastando na estrada de terra. A figura desconhecida, envolta pelo manto visguento do nevoeiro, parou de se mover. O jipe que levava Lund, Webó e Piano ainda não parara de se mover, e logo puderam


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ouvir uma forte pancada sendo desferida contra o para-choque de metal. O velho Bronco chacoalhou e sua suspensão trabalhou, o vulto sumiu e o carro parou. As gostas de suor rolavam pela pele desgastada de Magnus e “Não. Não deu. Eu atropelei...” foram as palavras sussurradas, intercaladas por tosses nervosas, que escorregaram de seus lábios. Fredric Webó ainda apertava o braço de Lund e encarava a névoa com os olhos marejados, sem dizer nada. Ele não conseguia acreditar no que acontecera. Teriam atropelado alguém? Mas foi tudo tão rápido. O velho jipe amarelo estava a 30 km/h, talvez a pessoa não estivesse tão machucada. Partículas de poeira ainda flutuavam no interior do Bronco, carregadas pelas respirações ofegantes de seus três ocupantes, quando Piano foi o primeiro a sair do estado de choque e berrar “Saiam do carro, vamos!” Magnus e Fredric entreolharam-se e velozmente se deram conta de que Piano estava certo, precisariam agir rápido para ajudar aquela pessoa. “Espero que ela esteja bem,” disse Fredric, sem muita fé. Os três saltaram do jipe e instantaneamente se abaixaram para olhar debaixo do carro. Não havia nada. Lund correu para olhar a frente do Bronco e, novamente, nada encontrou. Confuso, ele tateava o para-choque de metal sem identificar um dano sequer. Fredric e Piano procuravam por uma pessoa ou animal ferido, alguma coisa ou alguém que estivesse caído na estrada. Não havia nada, somente eles, o jipe amarelo e a névoa. Alívio e confusão se misturavam na cabeça de Lund. O que acabara de acontecer? Teriam alucinado aquilo tudo? Seria, aquela névoa, tóxica? Os três se observavam, tensos, aguardando o momento em que um deles logo ergueria o dedo indicador para o alto e descreveria uma teoria plausível para aquilo tudo. Após quase 2 minutos de silêncio resolveram voltar para o jipe e seguir viagem, pensariam naquilo mais tarde. Piano já colocara um dos pés dentro do carro quando Magnus, olhando para a traseira do veículo, gritou “Ei, ei!” Pela janela traseira Piano pôde ver alguém na estrada a poucos


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metros do jipe. Transportados por um vento frígido e rodopiante; cliques, estridulações e rinchos agudos vindos de várias direções, fizeram com que os três amigos, aterrorizados, se esforçassem para ver através do nevoeiro. Era impossível. Aquele vulto misterioso já sumira da estrada e Magnus apalpava o local onde a figura estivera por último quando, atrás de Fredric, as pedrinhas rosadas da estrada farfalharam. Ele se virou para olhar, mas não havia ninguém lá. Novos rinchos estridentes brotaram da névoa. Todos correram para a frente do jipe. “Estão ouvindo os sussurros?” perguntou Magnus, os outros assentiram com as cabeças. “Precisamos gravar isso,” gritou Piano, num momento inesperado de empolgação. Ele correu para o carro e, no banco de trás, abriu a caixa onde guardava um de seus vários gravadores digitais. “Quer sua câmera, Fred?” gritou. Como não houve resposta, Piano fechou a caixa e virou-se para Magnus e Fredric “Fred, você não quer a...” Piano não terminou a pergunta. Magnus e Fredric olhavam para ele e para além dele. Seus olhares, aterrorizados. Piano quis se virar, mas não conseguiu. Seus músculos ardiam petrificados e lágrimas amontoavam-se por trás de suas pálpebras inferiores, prontas para rolar bochechas abaixo. Uma figura sombria de quase 3 metros de altura e cabeça pontiaguda estava parada atrás dele, mergulhada no nevoeiro. “Caminhe até nós,” disse Magnus para Piano, gesticulando suavemente. Os faróis do jipe começaram a piscar freneticamente e a névoa pareceu engrossar. Fredric observou seus antebraços e viu o nevoeiro se tornar uma massa granulada e pegajosa, um algodão-doce-do-inferno, ele pensou. Piano sentiu suas veias congelando por dentro, como se vermes gélidos deslizassem sob sua pele. Suspenso no ar, seus braços e pernas dançavam tremelicosos enquanto seu abdômen e tórax acompanhavam em movimentos espasmódicos. Magnus e Fredric o observavam, aterrorizados e indecisos sobre um plano de ação, quando Piano, de repente, parou de chacoalhar a dez centímetros do chão e sua glote inchou até que o ar deixasse de alcançar seus pulmões. Ele tossiu forte, seus olhos se fecharam


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e as lágrimas acumuladas finalmente encontraram o chão. Magnus fez menção de correr até ele, mas não houve tempo. A névoa se misturou à pequena nuvem de poeira que o corpo de Piano levantara ao despencar no chão. Fredric e Magnus se olharam e, esperando pelo pior, finalmente correram em direção ao amigo caído. A pele de Piano adquirira uma coloração quase que idêntica à do nevoeiro e o vulto ameaçador sumira como uma sombra apagada por uma nuvem passageira. Magnus tateava o rosto de Piano como se procurasse por um botão de liga e desliga. “Ele está respirando?” perguntou Fredric. Magnus olhou para ele, mas nada disse. Fredric abaixou-se ao lado de Piano e estapeou seu rosto. “Ei! O que você está fazendo?” gritou Magnus. “Quero que ele acorde,” Fredric berrou de volta. Piano permanecia imóvel e sem respiração. “Ele morreu. Ele morreu, Magnus. Eu não acredito nisso. Ele morreu. Magnus, ele morreu,” repetia Fredric, desesperado. Um filete vermelho escorreu do nariz de Piano. As pedras da estrada farfalharam mais uma vez, tremelicaram, saltaram e começaram a girar. Chocando-se fortemente, umas contra as outras, as pequenas esferas rosadas emitiam o ruído de mil cascavéis e seus chocalhos. Uma linha, escura como uma mangueira cor de chumbo, nasceu por entre as pedras, rodopiando e ziguezagueando. O fio crescia, engrossava e ascendia em espiral. Em poucos segundos já parecia uma serpente, um tronco, um trem. A névoa acompanhava a dança e o caos tomou forma: um tornado vivo, uma força da natureza, um bípede gigante, um monstro feito de sombras. “O que é aquilo, Magnus?” perguntou Fredric, já sabendo que não ouviria resposta. Os rinchos agudos cresceram e viraram o zumbido mais grave e tenebroso já ouvido. Uma pressão esmagadora comprimiu os cérebros de Magnus e Fredric, colocando-os de joelhos. Com um único espasmo, o café-da-manhã de Fredric foi despejado na estrada. Magnus observou o amigo expelir restos de comida. A mancha gigantesca que se deslocava através do nevoeiro se aproximou. Fredric continuava ajoelhado, olhando para o chão, desejando que nunca tivesse


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dado ouvidos a Lund. Com os olhos cerrados, Magnus Lund não pensava em nada, apenas esperava pelo fim. A besta feita de poeira estava pronta para o bote final quando um estalo de eletricidade cortou o ar. As pedras despencaram e a imensa figura se desfez em centenas de fragmentos que pareceram se dissolver na terra. O nevoeiro afinou e o silêncio retornou. Fredric e Magnus, se entreolharam. Suas roupas estavam cobertas de pó, suor e do algodão-doce-do-inferno – pensou Fredric, mais uma vez. Ainda buscavam forças para se colocarem de pé quando ouviram uma tosse forte seguida de um longo e rouco ruído de respiração. Piano abrira os olhos e esfregava os dedos na estrada como se quisesse certificar-se de que ainda estava deitado no chão. “Ele está vivo!” exclamou Fredric. “Você nos assustou. Pensei que teria de contratar outra pessoa entendida de microfones,” disse Magnus, com um sorriso de alívio no rosto. Piano também sorriu, mas sua face logo foi ornada por um semblante de apreensão. O operador de boom, ainda deitado na estrada, apontou para o alto e os três amigos puderam ver a placa da cidade, desgastada e imunda: “Bem-vindo a Cuero Esmeralda.” Logo abaixo, pregado à metade inferior da placa, um pedaço de lona, negro e surrado, carregava um aviso de letras brancas que transmitiu todo o terror e desespero da população da cidade: “Não perca seu tempo aqui. Deus não perdeu.”



Atravessando Paredes - Volume I