Issuu on Google+

t

1


Encontrámo-nos com os nossos autores, num café de Macedo de Cavaleiros. Alguns tinham reclamado da distância (e do frio de Trás-os-Montes), mas nenhum faltou à grande entrevista. De modo a tornar o nosso projeto "Atlântico de Histórias" ainda mais interessante e chamativo, fomos em "missão" procurar respostas, que todos nós desejaríamos saber, acerca dos grandes escritores portugueses. Confortavelmente instalados, iniciámos uma conversa muito interessante, que agora partilhamos com todos vós.

Joana: Ora então vamos iniciar a entrevista. Caso mais alguém tenha algo a acrescentar, teremos todo gosto em ouvir. Garrett, diga-nos, de onde lhe vem a inspiração para escrever? Garrett: Tudo o que escrevo e reflito são fruto da beleza das viagens na minha terra. Mário de Sá Carneiro: Eu sou como aquele jovem, o José Luís Peixoto, encontro-a em qualquer livro, num abraço, numa casa na escuridão, ou até num cemitério para pianos... Andreia: E quanto à poesia, Mário, o que representa esta para si? Mário Sá Carneiro: Ora, para mim, poesia é céu em fogo, é toda uma mistura de sentimentos e de sensações! José Régio: Para mim é um cântico negro… Sophia de Mello Breyner Andresen: A poesia é o nome das coisas, nada mais... Daniela: Muito interessantes essas metáforas! A poesia é, de facto, algo extraordinário. E, já que enveredámos pelo tema “poesia”, o que é um poeta? Florbela Espanca: Sinto-me tentada a responder... Daniela: Faça o favor, Florbela! Florbela Espanca: Ser poeta é ser mais alto, é ser maior do que os homens, morder como quem beija... Mário de Sá Carneiro: Nada disso! O verdadeiro poeta é o homem dos sonhos - aquele que, com a alma e com empenho, coloca toda a sua vida nas palavras que escreve. Joana: Bem, isso é uma posição algo contraditória face a um outro grande poeta português, Fernando Pessoa. Ele diz que “o poeta é um fingidor". Mais alguém partilha desta opinião? José Régio: Eu cá não sei por onde vou, sei que não vou por aí... Miguel Torga: Tenho andado a refletir acerca dessa frase do grande Pessoa, e cheguei à conclusão de que minto até ao dizer que minto. A vida é uma incógnita, a poesia então... Andreia: Fernando, será que nos poderia falar um pouco sobre o poema que mais gostou de escrever? Fernando Pessoa: Hoje não, hoje só está cá o Álvaro de Campos.

2


Joana: A poesia pode ser emocionante, concorda? Camilo Castelo Branco: Todas as lágrimas que derramei durante o meu ato de escrita, foram lágrimas abençoadas pela paz que a poesia me transmite. Assim como todos os sorrisos. A poesia é, sem margem para dúvidas, o que preenche a minha vida. Andreia: Fernando, reparo agora que trouxe um livro consigo... O que lê? Fernando Pessoa: Oh, este é um livro do desassossego... Mexe-me com os sentidos, sabe? Daniela: Pode dizer-nos por que motivo tem esse livro tal efeito? Fernando Pessoa: Porque há nele coisas espantosas… Há nele poemas que funcionam como um antídoto. Sabia que a poesia é eficaz no combate à tristeza e até à depressão? Há estudos científicos sobre isso, minha cara... Daniela: Não tenho a menor dúvida. Mas, digam-me, como se faz poesia? Florbela Espanca: Trocando olhares, por exemplo... Joana: Uma terra sem poesia seria...? José Saramago: Uma terra do pecado. Andreia: Se pudesse fazer uma breve descrição do que é a poesia, em que termos o faria? Sophia de Mello Breyner: A poesia é o tesouro da humanidade! Joana: Se tivesse de publicar uma última obra, sobre o que gostaria de versar? Miguel Torga: Não sei responder. Não existe tal coisa como últimas páginas na poesia. A poesia é nossa companheira para sempre! Sophia: Sim, enquanto houver poesia, nunca as minhas mãos ficam vazias! Daniela, Joana e Andreia: Faltam-nos palavras para agradecer condignamente a vossa presença nesta tarde chuvosa, pois o que queríamos dizer-vos, nesta tarde, nada tem em comum com as gaivotas... E assim terminou este diálogo fictício, que mais não almeja senão honrar a missão de tão grandes escritores que é a de transmitir, ao longo dos séculos, a beleza e o poder da poesia. Cumpri-la-ão por toda a eternidade.

3


Títulos referenciados

Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett Livro, José Luís Peixoto Abraço, José Luís Peixoto Casa na Escuridão, José Luís Peixoto Cemitério de Pianos, José Luís Peixoto Céu em Fogo, Mário de Sá Carneiro Cântico Negro, José Régio (poema) O Nome das Coisas, Sophia de Mello Breyner Anderson Ser poeta, Florbela Espanca (poema) O Homem dos Sonhos, Mário de Sá Carneiro Eu cá não sei por onde vou, sei que não vou por aí, José Régio (Cântico Negro)

Minto Até ao Dizer que Minto, José Luís Peixoto Hoje Não, José Luís Peixoto Lágrimas Abençoadas, Camilo Castelo Branco Livro do Desassossego, Fernando Pessoa Coisas Espantosas, Camilo Castelo Branco Antídoto, José Luís Peixoto Trocando Olhares, Florbela Espanca Terra do Pecado, José Saramago O Tesouro, Eça de Queirós Últimas Páginas, Eça de Queirós Para Sempre, Vergílio Ferreira Nunca as minhas mãos ficam vazias, Sophia de Mello Breyner Anderson (Apesar das ruínas e da morte) Nesta tarde, nada tem em comum com as gaivotas, Sophia de Mello Breyner Anderson (Tarde)

4


Atlântico de Histórias_1