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diário de um bosszorro do bufo da ual 08 “Este é um pormenor típico! Vê-se logo que é uma obra dele!” – Aqui está um comentário típico de um guia numa visita a uma obra de um arquitecto famoso. À partida fico relutante quando se olha para uma obra de arquitectura e imediatamente se reconhece o seu autor. Porque é que existe uma necessidade em revelar determinados tiques e pormenores, muitas vezes de carácter supérfluo, de maneira tão intensa para mostrar o seu autor, a sua personalidade? Será que existe algum medo de serem apagados da História da Arquitectura? Existirá algum pânico em cair no terrível mundo do anonimato? Parece que existe uma certa necessidade comercial ou intelectual de vender uma assinatura explicitamente presente em obras de arquitectura designada de topo ou de autor. Porque é que não se regressa às coisas elementares da arquitectura?, um quarto de dormir sempre será um quarto de dormir, uma cozinha sempre uma cozinha, uma sala sempre será uma sala, espaços para viver; a verdadeira autoria revela-se de maneira invisível, não em pormenores caprichosos e pretensiosos; revela-se na inteligência ou arte de coser todos os elementos, os espaciais, os materiais que constituem a realidade física, a eficiência do edifício, as suas qualidades poéticas e o local onde se insere – todas essas componentes juntas formam algo de muito complexo e parece-me bastante

redutor quando determinada solução se parece igual a outra num outro local com um outro programa tendo apenas como denominador comum: o arquitecto, a sua assinatura, o seu nome. Porque é que haveremos de ter o arquitecto das paredes curvas, o dos ângulos agudos, outro para as paredes grossas e outro para as construções enterradas? Para quê esta obsessão de desenvolver e publicitar uma imagem de marca, um estilo? Quando todas as premissas envolvidas num determinado projecto são tão complexas, porquê resolvêlas sempre da mesma maneira? É triste quando se abre uma “croquis” do Gehry ou Hadid e em cada projecto a mesma fórmula está lá, sempre tão obsessivamente presente. Mas talvez esta questão se compreenda através da própria sociedade, as pessoas parecem ter uma necessidade de catalogar tudo e quando vêem uma obra de um arquitecto começam logo a tipificar qual é o seu estilo, talvez seja uma maneira de organizar o pensamento. Admiro arquitectos que não se acomodam a um status já reconhecido mas tentam sempre ir em frente, descobrir algo de novo em cada situação; não defendo a mera invenção ou obsessiva necessidade de fútil originalidade apenas pela diferença, mas prezo quando cada caso é resolvido de um modo genuíno, autêntico. miguel marcelino arquitectura de autor

08.

boletim de arquitectura da u.a.l.

01052005

o bigode


biography chanel*

* souto moura

“as obras do SIza são como um gato a dormir ao sol (...)”

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obigode8  

boletim de arquitectura da ual

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