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diário de um bosszorro do bufo da ual 07 Eu e mais alguns amigos da minha turma somos daqueles alunos que gostam de deambular pelas salas de aula, e pelos corredores, das diferentes turmas e ir conversando com outros alunos, colegas, para saber como é que está a correr o ano e quais os trabalhos que se andam a fazer. Este hábito é saudável, tanto para nós como para eles, e sobretudo para o ambiente escolar. Aprendese muito nestes corredores! E foi a partir destas conversas que eu reparei num “estado” físico e psicológico que é comum a muitos alunos de arquitectura da U.A.L., é um estado de inércia quase generalizado e apercebe-se pela célebre frase: “Epá! A minha turma é assim…”, e a partir daqui todos culpabilizam a turma pela falta de interesse e de empenho na resolução dos trabalhos propostos pelos professores. Em seguida vem uma frase parecida com: “Se eu tivesse a tua turma é que era! Trabalhava bué mais! É que vocês puxam uns pelos outros e resulta!” e depois: “Mas se vocês se juntassem para discutir trabalhos num furo qualquer iam ver que ficavam com mais pica para trabalhar! Têm é de forçar a cena para que haja discussão, não é ficar à espera! Ou então, juntas mais três colegas teus e começam a aumentar o ritmo da turma! É preciso é que alguém comece, e os outros vão atrás…”, mas: “Epá! Não dá! Não estás a ver a minha turma! E

estás a ver-me a puxar pela minha turma!? Tinha de trabalhar bué…” O que o pessoal se esquece é que cada um ajuda a fazer o que a turma é, e que no fim o resultado mede-se pela soma dos esforços individuais. Apercebermo-nos da nossa condição como colegas e como futuros profissionais, assim como seres humanos em comunidade – e para tal conseguirmos ver a nossa posição pelo lado de fora – ajudanos, muitas das vezes, a decidir qual a maneira com que podemos contribuir para o melhor rendimento da turma e, por acréscimo, do nosso. Crescemos muito mais se puxarmos uns pelos outros (nem que para isso se produza “alta competição”) e ainda nos resta tempo para namorar! Mas este “tempo” fica para outro capítulo do diário… joao caria lopes

06.

o bigode

boletim de arquitectura da u.a.l.

01032005

este

espaço

podia s e r teu! não

nos

contacte

pelo

telefone,

nem

pelo

fax,

muito

menos

pelo

mail...


diário de um bosszorro do bufo da ual 05

Lembro-me do meu primeiro ano como aquele momento de ruptura com tudo o que tinha como certo até aí, não falo só em relação à arquitectura, mas também nas relações interpessoais. Estava então no quarto ano a primeira turma de arquitectos saídos da U.A..L., e, ainda vejo as corridas de cadeiras pelo corredor feitas por esses alunos, lembro-me também da união que a nossa turma «tinha», aprendemos e «crescemos» juntos, uns mais que outros, ou melhor uns pensam que cresceram mais que os outros. Ao longo dos três anos que por cá passei e neste princípio do quarto, fui perdendo a sensação de união da “nossa” turma, não existe conjunto mas sim fragmentos. Nos dois primeiros fomos apelidados de «brutais», a turma fantástica, agora (dizem) que só existem alguns «fantásticos», mas temos de aguardar pelos dois anos que faltam para atingirmos aquilo que todos ambicionamos. “Temos de começar por brincar aos profissionais para aprendermos

como é que faz um profissional”, mas calma (ainda) não somos arquitectos, temos de «brincar». “E penso que, se houvesse uma mínima ideia de conjunto, de escola, no fim ganhávamos imenso” estou totalmente de acordo, mas não só “ se houvesse o mínimo de coordenação entre anos”, não nos podemos esquecer que deve haver primeiro uma coordenação sincera entre cada turma/ano. Estou cada vez mais de acordo com um amigo nosso, que não se encontra este ano presente na faculdade, ele diz que isto parecia uma vacaria, quando entramos no primeiro ano somos logo rotulados, ou seja, existem as vacas para abate e as vacas sagradas, mas, os rótulos vêm numa embalagem e dentro da embalagem vem o produto, produto este que pode ser podre. P.S- Nós ainda não temos idade para dar bigodes, um incipiente buço de vez em quando, vá lá. freaky

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diário de um bosszorro do bufo da ual 06

“Caro Senhor Manicómio e nome e de

– Encontro-me num esqueci-me do seu quem o Senhor é.”

Jonh Clare (1860)

É altura de pôr os pontos nos is. iiiii. Após alguns meses em crescimento pareceme que o bigode está na moda – apesar de haver ainda quem o veja em desuso*. A verdade, é que todos sabemos exactamente como seria o bigode que nos ficaria melhor: curto, espesso, à Einstein, retorquido à Salvador Dalí, à (El matador) Aznar, o típico bigode português – todos o conhecemos, apesar de não o conseguirmos descrever –, o literário à Fernando Pessoa, o inigualável à D. Duarte, o descarado à Zezé Camarinha ou mesmo o tão discreto à Odete Santos. O pior é quando vem à baila o assumir do bigode. Aí é que a coisa fica preta! O dilema de lhe dar um nome ou mantê-lo no anónomemato divide-nos a opinião: se por um lado, assumi-lo poderá ser visto como uma vontade de individualizar quem o fez e dele faz uso em seu puro benefício (que sinceramente não estou a ver como) – e desse modo, ele poderia perder o sentido colectivo que todos nós (bigodeiros da ual) gostaríamos de preservar –, por outro, é um

pouco triste esquecermo-nos que ele existe e abandoná-lo em praça pública, à mercê de injúrias e cantigas de escárnio e maldizer, sem que possa garantir um mínimo de integridade. Por isso quanto a mim, há que salvaguardar o bigode e quem tão bem dele cuida. Deixemo-nos de textos no escuro e opiniões envergonhadas, que pouco ou nada contribuem para o diàlogo que a todos interessa. (Porque os bigodes também têm direitos) Chamemos os bigodes pelo nome. Falemos das coisas e não das pessoas. Falemos das coisas com as pessoas. Vamos ser críticos mas exigentes: há que concordar e discordar – mas hà sobretudo que reflectir – sobre a opinião dos outros. Vamos dar espaço ao diálogo e animálo para além destas curtas páginas. Como cantaria O Grande Estebes, no seu inconfundível tom copofónico: Bamos lá Cãombada, Todos à molhada, Qu’ isto é Futebol Total, Deixemo-nos de tretas, Força nas canetas Que o melhor é Portugal! (nacionalismos à parte) *Bigode: s.masc. (...) nas ARTES GRÁFICAS: filete ornamental, tb. designado filete inglês, utilizado na separação de títulos e artigos, nos jornais, e nos frontispícios e pág.(s) finais de capítulo, nos livros, há muito caído em desuso pela evolução do estilo tipográfico. (E esta hein?...) in Nova Encicliopédia Larousse, n.º 4 (Bat – Bul), VA, pág. 1055, Círculo de Leitores, 1997, Lisboa.

Ricardo Pires 3


inquérito aos leitores do bigode

inquérito aos leitores do bigode

Achas que tens alguma importância para o curso? sim não

Achas que tens alguma importância para o curso? sim não

pensas em seguir a profissão de arquitecto? sim não

pensas em seguir a profissão de arquitecto? sim não

sonhas com o teu atelier próprio, ou em ser colaborador num atelier em que te sintas bem e sejas participativo? atelier colaborador

sonhas com o teu atelier próprio, ou em ser colaborador num atelier em que te sintas bem e sejas participativo? atelier colaborador

qual é o teu balanço do curso como ele é hoje? muito positivo positivo mau

qual é o teu balanço do curso como ele é hoje? muito positivo positivo mau

são as instalações, os professores ou os alunos que fazem o curso ser aquilo que é hoje? instalações professores alunos

são as instalações, os professores ou os alunos que fazem o curso ser aquilo que é hoje? instalações professores alunos

achas que a proximidade com os professores aumenta ou diminui a exigência das disciplinas? aumenta diminui

achas que a proximidade com os professores aumenta ou diminui a exigência das disciplinas? aumenta diminui

achas que a carga horária ajuda o teu desempenho como aluno? sim não

achas que a carga horária ajuda o teu desempenho como aluno? sim não

devia existir uma reunião periódica de alunos, onde se discutiam os problemas do curso? sim não

devia existir uma reunião periódica de alunos, onde se discutiam os problemas do curso? sim não

deviam existir mais iniciativas da parte dos alunos? sim não

deviam existir mais iniciativas da parte dos alunos? sim não

sobre tudo o que achaste que devia haver.... porque é que ainda não tomaste nenhuma iniciativa?

sobre tudo o que achaste que devia haver.... porque é que ainda não tomaste nenhuma iniciativa?

_____________________________________________.

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quando acabares de fazer bolinhas á volta da tua resposta entrega a tua opinião na portaria! e começa a dar bigodes ao pessoal!

quando acabares de fazer bolinhas á volta da tua resposta entrega a tua opinião na portaria! e começa a dar bigodes ao pessoal!

o bigode 6  

boletim de arquitectura da ual