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“I have a dream…” sobre uma faculdade de arquitectura… Nesse sítio... bem não era um sítio era um espaço. Para ser um espaço, os seus habitantes, que lá passavam todos os seus dias - mesmo todos - tinham que de lá sair, ir para longe para criar, ali. Este exercício de criar espaços dentro de um espaço comum para muitos criadores não era fácil. Estavam todos a experimentar perceber esses espaços distantes dentro de um outro espaço, aquele... Este lugar comum podia ser uma cápsula, um laboratório ou até um campo de cultivo. Passo a explicar: uma cápsula porque era um lugar hermético, era ali que tudo se passava, os projectos nasciam e morriam ali. Um laboratório porque era ali que se faziam as experiências, com tentativa e erro, com problemas e soluções. E podia ser um campo de cultivo porque também era ali que, mesmo que não se apercebessem, os seus habitantes produziam, lançavam sementes à terra e colhiam os frutos. As cápsulas eram onde eles trabalhavam, os laboratórios era onde confrontavam aquilo que tinham posto na sementeira. Também tive nesse sonho a visão que os habitantes daquele espaço tinham que se saber instalar. Aquele espaço era muito bom, não era um útero, mas

era um espaço bem real. A sua realidade vivia da sua imaginação. Depois acordei e fui apressado para a faculdade para ter uma aula de estruturas - para a qual não há estrutura - e tive de ir a uma aula de projecto ver se me safava com aquelas maquetas em esferovite muita porreiras que estive a fazer em casa a ver televisão. Depois à hora de almoço lá joguei uma redezita e um pacman para a sobremesa. Não fui a física porque aquilo não me ajuda a fazer espaços brutais e fui para a fnac ver se conseguia sacar umas ideias para o hotel que tenho que fazer no segundo semestre. Epá, porra! Esqueci-me de pagar a faculdade e já estou aqui no meio trânsito! ...sim, porque transportes públicos não dão para sentir não sei muito bem o quê.(estou?). Se calhar logo à noite ainda vou ao cinema, ou ao lux, sim o lux é fixe! o que é que tenho amanhã às nove?... •

03.

boletim de arquitectura da u.a.l.

o bigode

15122004

M.C. Escher - “escada acima e abaixo” - 1960

diário de um bosszorro do bufo da ual 03


o meu percurso *

* joão santa rita

- O meu futuro foi sempre algo sinuoso e ainda hoje não tenho propriamente definido o que exactamente quero fazer. Como estudante passei exactamente pelo que vocês estão a passar, com a diferença que, no tempo em que me formei, não existiam as oportunidades de percorrer o mundo como vocês agora têm. Hoje, programas como o Erasmos facilitam muito a comunicação entre universidades, entre diferentes métodos de ensino, contextos e culturas. No nosso tempo era um meio mais fechado, sair de Portugal exigia um grande esforço económico, mas eu sempre achei que faria sentido uma experiência fora do país: primeiro, porque queria conhecer outras coisas; segundo, porque tem a ver com minha maneira de ser (mesmo perante a arquitectura), em que acredito que, se o mundo é diverso, a diversidade deve fazer parte da nossa formação. Portanto achava que devia sair, porque o que enriquece não é um mundo de palas em que um tipo tem um caminho direccionado. Mas dadas as vicissitudes, não fiz o que gostaria (sair quando acabasse o curso) pois já trabalhava antes. Sempre trabalhei enquanto estudei. Comecei a trabalhar muito cedo, com os meus 16/17 anos comecei a ir para o atelier do meu pai, desenhar. Tinha um ambiente muito animado, com o Manuel Vicente, havia ali um grupo de amigos muito curioso, que tinham todos atelier conjuntos, e o meu pai tinha o dele conjunto com o Manuel Vicente, na altura estavam a fazer as Olaias. Aquilo era engraçado! Íamos lá fazer umas coisas, pôr umas letras, enfim, era um trabalho de um jovem de 16/17 anos, mas serviu como aproximação. Sempre trabalhei durante o curso e quando acabei apetecia-me fazer algo diferente, mas acabei por não o fazer, fiquei por aqui um ou dois anos e depois sim, fui para Macau. Estive uns tempos com o Manuel Vicente, trouxe de lá recordações maravilhosas. Fui conhecer algo queria muito conhecer que era aquela realidade. Foi extremamente enriquecedor perceber como é que uma cultura pode ser transferida para outro local e como é que, personagens que vêm de um sítio, se estabelecem noutro, e conseguem formar uma cultura própria. Entretanto, voltei para Portugal, estabeleci alguns parceiros, trabalhei durante muito tempo com um escultor, Santos de Almeida, e isso deu-me uma enorme paixão e vontade de experimentar coisas que não a arquitectura. É um pouco a minha postura até hoje, gosto tanto de arquitectura como de escrever, de desenhar e de escultura, e gostaria muito de fazer escultura de grande escala, é algo que me daria um grande gozo, e mesmo essas parcerias com o J. Santos de Almeida deram-me um enorme prazer, porque são, cá está,

relacionamentos diversos, com personagens de outras áreas que trazem coisas para o nosso mundo assim como nós para o mundo deles. E foi assim até ao ponto em que disse – Não! Agora é isto que quero fazer!, e nessa altura montámos um atelier, o Manuel Vicente, o meu pai(José Santa-Rita), eu e o José Caldeira. Formámos uma sociedade e fizemos umas aventuras de projectos, dois concursos muito grandes. Tivemos um ano e tal com esse atelier a funcionar só para aqueles dois concursos, e depois, ao fim desse período, cada um seguiu mais ou menos o seu rumo. Eu acabei por me associar ao meu pai, com quem estive associado toda a década de 90, formámos o atelier em 1990 e até ao falecimento dele, estivemos sempre associados, mantivemos sempre uma grande coesão. Em alguns projectos, por vezes, procurávamos participações de outros colegas e associávamo-nos para alguns concursos, e curiosamente, para uma exposição sobre um trabalho que o meu pai e o Manuel Graça Dias tinham feito, juntámos os dois ateliers e, apesar de não ter sido motivo para conversas infindáveis, foi divertido trabalhar com o Egas J. Vieira e com o M.G.D., como nunca tinha trabalhado com eles foi muito motivante estar no mundo deles e descobrir como é que se trabalhava e como é que fabricavam as coisas naquele atelier. E portanto, até hoje, tenho feito um percurso muito ligado à arquitectura, mas teria feito muito mais se tivesse coragem de explorar esses mundos paralelos. Por isso continuo a achar que foi uma parvoíce separar a arquitectura das artes plásticas, ninguém lucra com isso, nem nós, nem eles. Nesse aspecto (o meu período universitário) foi enriquecedor, fiz parte do último ano, 1983, da faculdade de arquitectura nas Belas-Artes de Lisboa, o que não quer dizer que fossemos melhores ou piores, foi só porque foi um capítulo que se encerrou entre essas áreas. E isto para dizer, que o próprio percurso, enquanto estudante e depois de estudante, foi muito marcado pela convivência que se estabeleceu entre as pessoas das diversas áreas da escola do Chiado, pintores, escultores, designers e arquitectos. E isso também nos somou, com amizades a seguir à formação, e permitiu manter pontes de contacto, preocupações comuns, e questões faladas, que mais tarde viriam a ser importantes no percurso de cada um. É muito enriquecedor, sobretudo aquela heterogeneidade que existia dentro da escola, das várias formações, e das várias preocupações, era muito produtivo e tem um bocado a ver com a minha preocupação em ser um bocado curioso a seguir à minha formação. • Entrevista realizada no âmbito do site “www.dizquesim.com” 2002

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