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Campo Grande MS Ana Ruas


Participação:

Realização: Ministério da Cultura ateliê

Secretaria de Politica para as Mulheres


O seminário entre vários olhares – da pintura à intervenção traz uma proposta de incentivo ao debate crítico e difusão de ideias, possibilitando a ampliação de conhecimento e expectativas com relação a temas relevantes da arte contemporânea.


palestrantes

Aline Figueiredo Espíndola Leda Catunda Lucia Koch Maria Adélia Menegazzo Marília Panitz Silveira Saletti de Abreu Barreto Sandra Tucci

publicações

Aline Figueiredo Espindola Maria Adélia Menegazzo Marília Panitz Silveira Maysa Leite Barros

intervenções

Ações interativas e compartilhadas com o público.


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Seminário Entre Vários Olhares – Da Pintura à Intervenção Durante três dias do mês de abril de 2014, a cena artística campo-grandense mudou sua configuração, levando mais de cento e oitenta pessoas ao Ateliê Ana Ruas e ao MARCO – Museu de Arte Contemporânea de Mato Grosso do Sul. Nesses dois espaços deram-se os debates críticos do Seminário e estabeleceu-se um fórum de discussão sobre a arte contemporânea, por vezes vista como algo muito distante das realidades e diferenças culturais regionais brasileiras. Enquanto projeto contemplado com o Prêmio FUNARTE Mulheres nas Artes Visuais, do Ministério da Cultura e da Secretaria de Políticas para Mulheres, o Seminário foi aberto com uma palestra sobre a relação Mulher, Arte e Beleza na Arte Contemporânea, proferida por Maria Adélia Menegazzo, que destacou o trabalho de artistas mulheres, definindo um percurso a partir do conceito de beleza construído segundo os padrões clássicos, resultando numa representação harmônica e equilibrada do corpo feminino, até a configuração de uma mulher desdobrada que não se submete ao estereótipo e que se apresenta criticamente frente a seus afazeres e afetos, numa sociedade de consumo. Aline Figueiredo, curadora, crítica de arte e historiadora, falou sobre A Descentralização da Arte Brasileira via MT/MS, enfatizando, principalmente, suas ações na criação de grupos de artistas e atelieres livres nos anos 70 e 80, que constituíram uma visualidade local e difundiram a arte regional para outros estados brasileiros. Artistas mato-grossenses e sul-mato-grossenses foram apresentados de forma panorâmica por meio de suas obras e poéticas. Marília Panitz enfocou a relação entre a arte e a palavra na obra de três artistas brasileiras, revelando o artista como leitor e o texto como o objeto que instaura seus fluxos a partir dos elementos da tradição, paradoxalmente refazendo-os por meio de fraturas e rasuras.

No Ateliê Ana Ruas, no período noturno foram realizados encontros com artistas e suas obras. O primeiro contou com a artista brasileira Lúcia Koch, que apresentou e discutiu a própria obra como resultado de um processo reflexivo que relaciona arte e espaço arquitetônico. Enfocando basicamente suas instalações, a artista falou da arte como objeto de mediação entre o homem e o espaço construído, como fator essencial para sua desautomatização. Propôs ao público compreender a experiência estética, individual e coletiva como elemento humanizador na percepção do espaço. Saletti de Abreu Barreto e Sandra Tucci trouxeram para discussão a experiência do Collegio das Artes, de São Paulo, com a “Incubadora de criação”, voltada para formação do artista, formação de repertório e referências, elaboração, desenvolvimento e acompanhamento de projetos e exposições. Saletti enfocou principalmente o papel da pintura e do desenho como ponto de partida para a elaboração dos projetos e das poéticas individuais. E fechando o Seminário, a artista Leda Catunda falou sobre Percurso da obra de arte e Processo criativo, voltando as reflexões para sua própria produção. No encerramento das atividades no MARCO, ocorreu o “apagamento” da intervenção realizada em 2004, pela artista Ana Ruas, na espiral que conduz ao subsolo do museu. A participação no apagamento foi liberada ao público, numa ação complementar às discussões sobre as práticas artísticas contemporâneas assentadas sobre o transitório e o efêmero, a liberdade e o controle, o espetáculo e a sedução. O Seminário Entre Vários Olhares – da Pintura à Intervenção revelou-se como um importante movimento na busca do exercício reflexivo das práticas artísticas e da necessidade de investimento na formação de público para a arte contemporânea. Maria Adélia Menegazzo, Campo Grande/MS Professora da UFMS e crítica de arte – ABCA/MS Abril de 2014

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1 SEMINÁRIO 08 de abril de 2014, das 14h às 16h, MARCO - Museu de Arte Contemporânea de MS

Maria Adélia Menegazzo, Campo Grande/MS Doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Unesp de Assis, com pósdoutorado no Grupo de Estudos e Pesquisa “Arte & Fotografia”, do Departamento de Artes Plásticas da ECA/USP. Professora aposentada da UFMS. Curadora e Crítica de Arte. “Mulher, arte e beleza na arte contemporânea” Tecer considerações críticas sobre a abordagem dos conceitos pela arte contemporânea, por meio de leituras de obras de artistas brasileiros. Conteúdo: Os conceitos de beleza associados à figura feminina nas artes visuais brasileiras contemporâneas. Palestra: Objetivo:

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O MARCO O MARCO - Museu de Arte Contemporânea de MS é um espaço destinado à arte, promove ações museológicas, realiza intercâmbios culturais e a difusão do conhecimento da arte, com a inserção do artista em seus espaços expositivos. Um museu como território de redes simbólicas, entre arte e público, possui vários fatores dinâmicos em sua essência. O acervo, em especial, expressa não apenas sua função prática de salvaguarda e conservação, mas também o suporte imateral essencial ao valor e a memória das expressões artísticas. Detentor de um expressivo acervo de artes visuais, o MARCO preocupa-se em trabalhar ações de pesquisa das obras e artistas que compõem suas coleções, bem como em buscar maneiras de propiciar a ampliação e atualização deste acervo, formado por aproximadamente 1600 obras de arte, entre pinturas, esculturas, gravuras, desenhos e fotografias, provenientes das exposiçãoes realizadas no marco, dos salões de arte, de compras através de editais públicos e de doações diversas. O acervo do MARCO é um registro importante da arte realizada em Mato Grosso do Sul, corresponde às necessidades de discussão e reflexão em torno da produção artística local, ilustrando os diversos caminhos percorridos e pontuando os processos de investigação de uma geração que contribui para o impulso do exercício contemporâneo nas artes plásticas no estado.

Com essa proposta, realizamos exposições dando maior visibilidade ao acervo, mostrando assim vários recortes dessas coleções, que não podem ficar confinadas, guardadas nas reservas técnicas dos museus. Sistematizar, ampliar e discutir a formação das coleções de arte passou a ser prioridade do Museu desde 2003, quando foi retomada a política de aquisição de obras de arte para compor o acervo. A seleção das obras passou a ser feita por curadores e críticos de arte que possuem um olhar atento e que acompanham as transformações da arte. Sendo assim entendemos que é através da formação de uma coleção museal que torna-se possível o desenvolvimento de ações para realização e difusão do conhecimento. O Museu mostrando e ampliando seu acervo configura-se uma ação fundamental da instituição, tendo como objetivo a valorização, o fomento e a divulgação das artes visuais.

Maysa Barros, Campo Grande/MS Coordenadora do MARCO - Museu de Arte Contemporânea de MS Abril de 2014

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ateliê

Ateliê Ana Ruas - Um ateliê aberto O Ateliê Ana Ruas, inaugurado em agosto de 2011, partiu da vontade de discutir, trocar, pensar sobre arte com convidados, parceiros, colaboradores e público. A intenção não está voltada só para a prática em si. Surgiu também, da tentativa de abordar temas que permeiam a contemporaneidade não só nas práticas artísticas, mas nas diversas áreas/assuntos que dialogam com a arte; possibilitar o encontro de artistas, críticos e pesquisadores com os diversos segmentos das artes fomentando e veiculando um debate crítico constante. O projeto visa o contato com artistas de Campo Grande, MS e hospeda e convida artistas de outros lugares do país, gerando um intercâmbio de ideias e um deslocamento do olhar sobre o local. Este ateliê aberto é um local transdisciplinar e um espaço expositivo, onde são realizadas diversas atividades culturais, entre elas: palestras, workshops, bate-papos filosóficos, oficinas para o público adulto e infantil, capacitação sobre arte-educação, seminários etc; onde a arte pode ser discutida juntamente com literatura, física, história, psicologia e outras áreas; onde o estímulo à pesquisa sobre processos e deslocamentos de ideias é sempre bem vindo; onde as Intervenções e os Sites Specifics são propostas que estarão sempre presentes; onde o espaço sofre mutações constantes e, através de um novo olhar, ele se transforma em outro lugar.

Meu ateliê além de ocupar um lugar no território da cidade, construído com a função especifica para tal, com suas altas paredes, amplas janelas, com um pequeno acervo, objetos pessoais é também um espaço que provoca um novo olhar e reflexões constantes. É o desafio de propor um novo olhar para nossa cidade e para nós mesmos, é o convite para novas discussões, é a provocação para o deslocamento de quem não está aqui (mas que poderá vir), é a audácia de se saber parte do cenário nacional. Quando se fala em cenário, se fala em lugar e lugar é sempre uma metáfora em meu trabalho, coincidente até no meu nome. Isso me faz pensar sobre as relações entre arte e localidade e com a universalidade. Me questiono: O que é um lugar e o que é uma cidade? O que faz de um lugar, o nosso lugar? O que faz da cidade, a nossa cidade? Que lugar, no mundo, Campo Grande ocupa? E eu, como habitante deste lugar, o que faço para merecer esta ocupação?

Ana Ruas, Campo Grande/MS Artista plástica, Idealizadora do Ateliê Ana Ruas Abril de 2014


ateliê aberto

acadêmicos da Unigran Dourados acampam durante o seminário

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Grande participação do público acadêmico: UFMS, FUNLEC e UNIGRAN. 21


Exercícios de alongamento para os acadêmicos acampados no Ateliê, com o mestre de Tai-chi-chuan

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INTERVENÇÃO

entre

Imagens captadas no período vespertino, durante o seminário, e projetadas na parede externa do ateliê, no período noturno.

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2 SEMINÁRIO 08 de abril de 2014, das 19h às 21h, Ateliê Ana Ruas

Lucia Koch, São Paulo/SP Lucia Koch nasceu em 1966, em Porto Alegre. Vive e trabalha em São Paulo. Intervenções, instalações, vídeos e fotografias são alguns dos meios escolhidos por Lucia Koch para investigar questões relativas a luz e espacialidade, sempre em profundo diálogo com a arquitetura – tanto pelo modo como seu trabalho se insere em um local no qual interfere, quanto ao criar espaços imaginários que provocam e reorientam a percepção. “Estados Alterados do Lugar” Falar sobre a arquitetura dos espaços, mas principalmente seu uso. Isso porque o lugar é uma coisa vive que existe no tempo. Conteúdo: Intervenções em espaços expositivos explorando a incidência e a percepção da luz e os fenômenos daí resultantes: cores, nuances, sombras, projeção. Palestra: Objetivo:

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Projeção da palestra, em tempo real, na sala 2 do ateliê.

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PĂşblico lota ambas as salas do ateliĂŞ.

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Sobre o seminário A propósito do Seminário realizado em Campo Grande, entre 8 e 11 de abril de 2014, através de projeto proposto pela artista plástica Ana Ruas e aprovado pela Fundação Nacional de Arte. Parabéns à Funarte que soube discernir e apoiar tal iniciativa. Fui uma das palestrantes convidadas por ela e vi o resultado animador provocado pelo seu Seminário. Um auditório repleto de jovens, que ela, Ana Ruas contactou pessoalmente, junto à UFMS, à FUNLEC e a UNIGRAN de Dourados, entre outros interessados de todas as idades. Vi a prontidão da eficiência acontecer com todo o entusiasmo que só mesmo um espírito animador pode provocar. Vi mais de 30 barracas instaladas no gramado do seu espaço. E vi também uma chuva torrencial acontecer, na noite do dia 9 que, entretanto, não fora nada demais e nem de menos. Recolheu tudo, espalhou colchonetes pela casa inteira e, num átimo, acomodou, alimentou e matou a sede de conhecimento, e de intercambio da rapaziada. Ana comoveu e alinhavou parcerias somadoras. É isso que nos comove em animar.

Aline Figueiredo, Cuiabá/MT Historiadora e Crítica de Arte Abril de 2014

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3 SEMINÁRIO 09 de abril de 2014, das 14h às 16h MARCO - Museu de Arte Contemporânea de MS

Aline Figueiredo Espindola, Cuiabá/MT Crítica de arte, curadora e historiadora. Recebeu o Prêmio Mario de Andrade, 2013, concedido pela Associação Brasileira de Crítica de Arte, pela trajetória crítica, pelo trabalho intelectual engajado na criação do circuito de arte, nas pesquisas histórica e curatorial e no questionamento crítico. “A Descentralização da Arte Brasileira Via MT/MS” Dialogar, refletir e divulgar a arte brasileira, bem como aproximar as relações criativas entre Mato Grosso e Mato Conteúdo: Grosso do Sul. A Descentralização da Arte Brasileira e o circuito de arte Palestra: Objetivo:

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4 SEMINÁRIO 09 de abril de 2014, das 19h às 21h Ateliê Ana Ruas

Sandra Tucci, São Paulo/SP Artista Plástica, participou de exposições coletivas e individuais em âmbito nacional e internacional. Idealizadora e mediadora da Incubadora de criação do Collegio das Artes Coordenadora do curso de Pós Graduação Curadoria em Arte do Senac São Paulo e docente dos cursos de pós graduação em gestão Cultural, e Fotografia Aplicada. Responsável pela curadoria da galeria Senac Lapa Scipião. Palestra: Objetivo: Conteúdo:

“Incubadora de Criação” Apresentar a experiência do Projeto Incubadora de criação, em co-autoria com Saleti de Abreu, do Collegio das Artes, em São Paulo. Formação do artista, formação de repertório e referências, acompanhamento de projetos, exposição.

Saletti de Abreu Barreto, São Paulo/SP Curadora e produtora cultural no Collegio das Artes; atuou como Coordenadora do MuBe – Museu Brasileiro da Escultura Marilisa Rathsam (1996-2005); Coordenadora do Departamento DE Artes Gráficas e do Clube de Colecionadores de Gravura no MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo. Palestra: Objetivo:

Conteúdo: 38

“A pintura e o desenho discutida em um Espaço Independente Escola Livre” Discutir sobre a formação artística em um espaço independente, com cursos livres ministrados por artistas, onde a grade é construída de forma interdisciplinar. Processo, pintura contemporânea, cursos livres, incubadora de criação e a poética pessoal.


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INTERVENÇÃO

trama

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Movimento para dentro: a leitura

(O livro de Marilá, o livro de Elida e o livro de Joana)

Para Joana Corona Para mim, o sinônimo de leitura poderia ser mergulho. Como aquele de Alice para dentro do espelho onde ela encontra o livro. Neste livro ela lê. O que não pode compreender, já que a suposta língua em que é escrito, ela não domina. Mas a menina sabe que: “De algum modo ele parece encher a minha cabeça com ideias — eu somente não posso saber exatamente o que elas são! No entanto, alguém matou alguma coisa: isso é claro, de alguma maneira”.1 Muitas vezes (talvez sempre) abordar um livro é transformá-lo. Como três leitoras, das quais gostaria de apresentar o trabalho para lermos juntos: Elida Tessler, Marilá Dardot e Joana Corona. Elas (assim como tantos outros artistas contemporâneos) recorrentemente, nos colocam a questão do estatuto da palavra como imagem e da imagem como texto. O próprio objeto-livro passa a ser suporte (o que a princípio ele já é), mas suporte de outra poética, que a um só tempo dialoga com a poética inicial, ali inscrita e, por outro, a desfaz materialmente (apaga?) deixando certos vestígios que afloram através da nova poética. O filósofo, escritor e tradutor Donaldo Shüller (um parceiro eventual de Elida Tessler), nos propõe um conceito que me parece interessante para tratarmos da operação executada pelas artistas. Partindo de um termo que ele traz da pintura, o Palimpsesto, e apontando para um deslizamento significante que a leitura provoca em certos textos de associação forte, ele nos fala do palintexto. Na introdução que fez ao trabalho monumental de tradução do intraduzível Finnegans Wake, de James Joyce, ele nos diz: “Falar em palimpsesto é adequado. Tenha-se, entretanto, o cuidado de não apagar nenhuma das 1

CARROL, Lewis, “Trough the Looking Glass”, Penguin Popular Classics, p. 30

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JOYCE, James, FInnegans Wake Volume 1, São Paulo: Atelier Editorial, 2000, p. 24

escritas sobrepostas. O palintexto preserva textos” 2. Mesmo em sua ausência ou recobrimento, me parece que esta é a operação executada pelas artistas. Mas que lugar esta operação ocuparia? É claro que as relações entre texto e imagem na arte datam de muitos séculos, do início da sua própria história como campo de saber, mas no momento representado pelo pós segunda guerra mundial o que interessava era o caminho tomado pelos movimentos artísticos ligados à visualidade, cuja tendência apontava para um desaparecimento da imagem criada pelo artista em favor do conceito e da citação ou apropriação do que já se havia produzido. Joseph Kosuth, no centro desta discussão, propunha o paradoxo de uma arte visual da palavra que, dentro do corpo da obra, continha o próprio discurso crítico em relação à produção artística. O texto deste autor, como materialidade e como desencadeador de processos de significação, acompanha sua obra, ao longo das décadas. Talvez sua mais conhecida obra, “Uma e três cadeiras”, seja um bom exemplo desta operação. Esta é a questão que gostaria de pontuar, ao convidá-los para a visita às “bibliotecas” das artistas Elida Tessler, Marilá Dardot e Joana Corona, três artistas cujo suporte da poética é o livro. Assim proponho cinco pontos de ancoragem: O Ulisses de Joyce: Ler é Perder, Ler é Esquecer; A Coisa Livro; O Apagamento como Apropriação - O Apagamento como Poética; Letraimagem e a Palavra e a Intervenção como Leitura. Para acompanhar esta leitura, sugiro uma visita aos sites das artistas: www.elidatessler.com; www.mariladardot. com e http://joanacorona.wordpress.com.

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O Ulisses de Joyce: Ler é Perder, Ler é Esquecer O livro que Joana Corona lê, em seu último trabalho Para o Leito do Rio (o que me escapa) 3, feito durante sua estadia na Itália, em 2013 e apresentado em Roma, no dia 16 de fevereiro de 2014 (exatamente um mês antes de sua morte) e que se compõe de vídeo que acompanha a dança das paginas, rumo ao fundo do Rio Tevere, era de Maurice Blanchot. Seu nome, traduzido para o português é “A Espera, o Esquecimento”. Essa é a pequena Odisseia do tempo alargado, enquanto vemos o texto desaparecer nas águas. Dois outros projetos em torno da Odisseia, esta de Ulisses, foram desenvolvidos por Marilá e Elida. Odisseia de um só dia, 16 de junho de 1904, esse Ulisses fala do tempo, e fala da duração, e fala do quase nada, intensamente, movimento para dentro do dia onde nada acontece. Mas esse nada gera narrativa, duração. O Ulyisses de Marilá aponta para a enumeração da palavra palavra e na “criação” de uma edição bilíngüe, onde estão marcadas todas as palavras com post its coloridos (colocados segundo um código que vamos tentando adivinhar enquanto percorremos as gravuras). Pela galeria estão as gravuras-páginas desta suposta edição e as capas dos dois livros utilizados pela artista. O trabalho fez parte de uma mostra chamada Ficções (Borges, antigo interlocutor), realizada na galeria Vermelho, em 2008. Na fachada da galeria, a intervenção “O Grande Livro” (todo o prédio transformado) os post its colocados nesse livro fechado que se abre quando adentramos. Galeria=livro, já nos pega na chegada. O de Elida começa durante uma viagem à Irlanda, quando ela resolve se integrar a uma visita guiada pela Dublin de Ulisses, com o guia que leva o livro e lê trechos de acordo com o lugar por onde passam. Elida acompanha mais o contexto do que a própria visita. Acompanha o rio que aparece no romance de Joyce. Compra um Ulysses em inglês e começa a marcar 3

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O Rio é o Tevere, que atravessa a cidade.


os verbos em gerúndio (o que acontece em ato, continua, continua, como o rio). Propõe a si mesma algumas regras: todo dia lê um pouco em um café (nunca o mesmo) guarda em um caderno a conta e os verbos que achou. Segue fazendo o exercício durante todo o ano, até terminar a terceira leitura do livro, para que não escapasse nenhum gerúndio (4.311 verbos no gerúndio). Volta a Dublin para a segunda etapa do trabalho: fotografar o Rio Liffey em 4311 ângulos e criar postais, cada um com um dos gerúndios encontrados. A instalação constitui-se de 4311 garrafas , com rolhas onde são escritos os gerúndios. ao lado delas, os postais. O trabalho tem o nome de Dubling que a artista traduz por Dublingua (intradução proposta por Schuller à palavra intraduzível de Joyce no Finnegans Wake Dyoublong).

A Coisa Livro Aqui talvez fosse mais apropriado dizer, “o livro como objeto”. Porém, a presença do livro na obra das três artistas tem outro estatuto: o do livro como coisa, Coisa no sentido de certa filosofia e certamente no sentido da psicanálise como algo que não pode ser conhecido, decodificado, embora se dê a ler. Porque aqui trata-se de um enorme deslocamento do livro de seu lugar funcional (que pensamos domesticado) de ser tomado e apreendido pelo passar das páginas. O livro horizonte de Marilá é documentado pelas fotos que compõem seu Tratado de pintura e paisagem. Note-se que, embora os livros sejam escolhidos por tonalidades para compor a paleta de cada foto-paisagem, a artista faz a referência direta a título e autoria, tensionando a ideia de objeto para composição e impondo um aporte conceitual. Não é qualquer livro, são livros de sua biblioteca por eleição. Os livros lidos muitas vezes por Elida, como Meu nome é vermelho e Em busca do tempo Perdido, são apropriados a partir de sua materialidade, pela falta de palavras|no primeiro| 4

e pela marcação geográfica da suposta leitura |no segundo| livros topografias. Já Joana se utiliza do fragmento, o corte do livro, justamente onde está sua mancha de escritura, o que sobra é sua forma sem palavras, que são assim, puro espaço negativo.

O Apagamento como Apropriação – O Apagamento como Poética A ideia de apropriação permeia toda a nossa conversa. Mas e quando a apropriação do livro, dá-se pelo apagamento de seu texto - por sobreposição (palimpsesto), por recorte|retirada, ou por recobrimento? O texto se retira para permanecer como memória de si. Como em Zero & Not de Kosuth. Em Meu nome também é vermelho, Elida vai desescrevendo letra por letra o texto usando o risco vermelho de um cálamo, onde só sobram os ...vermelhos e em O homem sem qualidades caça palavras, os termos selecionados paradoxalmente em relação ao titulo do livro são 30301 adjetivos presentes na obra, que são rasurados até o desaparecimento e “migram para as telas do caça-palavras. É lá que podemos recuperar o que a artistas escondeu... talvez. Na Biblioteca de Resquícios, trabalho de Joana em parceria com Raquel Stolf há um livro. Neste livro são retiradas partes do texto... O livro torna-se textura, tecido urdido por fios de papel. Já em Desencapa Desescreve 4, faz-se a operação inversa do cuidado e da leitura: a obra é a sobrecapa lisa, sem nenhuma informação e o texto das páginas apagados, recortados. Marilá produz seu O Banquete com um pedido aos amigos para que enviassem textos que, colocados sobre transparência, transformam o livro em tal operação de palintexto que nos é impossível lê-los. A acumulação sem apagamento faz dele uma bela mancha, onde sabemos que há algo escrito, mas como mancha. Em Avant et après la lettre o recorte das

Este trabalho foi desenvolvido em parceria com Raquel Stolf.

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frases em milhares de tiras faz do livro a montanha material de palavras. Paisagem de onde se infere o texto, sem lê-lo.

Letraimagem e a Palavra Grafo e Saliências (formas de restar) de Joana Corona, seguem uma mesma lógica do aparecimento da letra por espaço negativo (por retirada). É a luz que atravessa o vazio que nos revela a letra-palavra que compomos. É o espelhamanento desta falta que se projeta na parede oposta à luz como sombra do furo... A leitura se dá pela retirada do conteúdo da escrita. E a composição do espaço cria uma arquitetura, como página tridimensional, dentro da qual nos movemos Uma bela metáfora do caráter muitas vezes inabordável da letra. Há anos atrás, em uma Bolsa do Museu da Pampulha, Marilá produziu vasos-letras feitas de barro (e como não se lembrar da metáfora do vaso, que Lacan traz de Platão?). Esse projeto chamou-se A Origem da Obra de Arte Dentro. Nos vasos, podia-se plantar e com eles formar palavras -receptáculos. Esse projeto se expandiu, quando ela instalou sua casa, em Inhotim. Em 2013, convidada por um museu da Suécia, a artista levou suas letras- receptáculos, agora com outra função. Colocadas sobre a grama e expostas ao sol, elas criam por retirada (do sol na grama) regiões amareladas do gramado, sombras que formam palavras por falta (de sol). Esta obra tem o nome de No silêncio nunca há silêncio. De uma das parcerias de Elida com Donaldo Schuller surgiram os Tubos de Ensaio, receptáculos de palavras que tem por única regra serem retiradas do livro O homem que não sabia jogar, de Schüller e começarem com a letra T ou a letra E (de tubos de ensaio (ou seria com a letra E a letra T, de Elida Tessler?). Já em A vida somente, que parte de A vida, modo de Usar, de Georges Perec, gostaria de chamar a atenção para o processo de retirada de elementos da obra. Se em sua criação, em um a residência na Itália, o trabalho era composto pelos

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advérbios de modo, juntamente com objetos, em seu desdobramento nas outras montagens, traz somente as placas de acrílico com as palavras selecionadas.

A Intervenção como Leitura O atravessamento do espaço por ... palavras. Corpóreas, fantasmáticas, elas ocupam os lugares fazendo-nos desviar, percorrer não com os olhos ou com as mãos, mas com o corpo inteiro. Elas transformam o ambiente. Você me dá a sua palavra? é o nome de um work in progress de Elida Tessler, com mais de 10 anos de trajetória e desdobramentos. Usando prendedores de madeira (a escolha do objeto não é aleatória), a artista os oferece para que as pessoas inscrevam ali a sua palavra. A minha , eu ofereci a ela ,em um encontro que tivemos em São Paulo, em 2006. Já são mais de 5000 palavras em um varal que se oferece como possibilidade de uma leitura , talvez daquelas do livro do Jaguadarte, de Alice. As coisas estão no mundo, de Marilá se alimenta de restos, do erro, dos muitos erros nas gráficas que legam as folhas, plenas de informação, ao expurgo. Elas são a matéria prima dessa obra, esculpida no recorte da acumulação de restos... É isso, as coisas estão no mundo... só é preciso recortá-las para ver. Floema vem do Fluxo-Floema de Hilda Hilst e constitui o espaço (matérico) com palavras , na instalação de Joana. Já em Saliências, formas de restar, trata-se de ...frestas , de onde saem as palavras imagens, O exercício é de aproximação ... de espiar... Como se o espaço fosse constituído de notas de pé de página. Para nós, uma boa leitura!

Marília Panitz, Brasília/DF Crítica de Arte e Curadora Independente Abril de 2014


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5 SEMINÁRIO 10 de abril de 2014, das 14h às 16h MARCO - Museu de Arte Contemporânea de MS

Marília Panitz Silveira, Brasília/DF Foi professora entre 1999 e 2011. Pesquisa e coordena programas educativos de mostras. De 1990 a 1996, dirigiu o Museu Vivo da Memória Candanga. Em 1998, dirigiu o MAB, coordenou o Prêmio Brasília de Artes Visuais 98 e o Programa de Bolsas de Pesquisa MAB/MinC.Desde 1994, atua como pesquisadora e coordenadora de programas educativos em exposições é como curadora independente. “Movimento para dentro” Investigar configuração das linguagens artísticas contemporâneas, em tempos de diluição de fronteiras, como “documentação-versão” do mundo e das questões que orientam as estruturas sociais do ocidente contemporâneo. Conteúdo: A diluição de fronteiras entre os campos das artes visuais, entre as artes visuais e as outras linguagens e entre a arte e outros campos de conhecimento. A obra de três mulheres artistas brasileiras como representação desse trânsito. Os “documentos-discursos poéticos” que configuram certa produção artística contemporânea. Palestra: Objetivo:

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INTERVENÇÃO

apagamento

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Apagamento Durante o seminário Entre Vários olhares: da Pintura à intervenção, em abril de 2014, a artista Ana Ruas convidou o público para interagir e realizar o “apagamento” da obra Balaustre que encontrava-se no MARCO - Museu de Arte Contemporânea de MS, desde 2004. Sobre a obra Balaustre, com texto parcial de Rafael Maldonado/2004 “Fazendo contraponto às linhas modernas do edifício, Ana Ruas utiliza a imagem de antigos corrimãos e suas balaustradas como referência à estética clássica, tendo como modelo de desenho a escadaria de madeira da Morada dos Baís, um dos mais importantes exemplos da história arquitetônica e cultural de Campo Grande. Essa concepção da artista aproxima ludicamente dois importantes centros de difusão da cultura desta cidade, unindo o antigo e o novo de forma inusitada, sem que houvesse a desvaloração da imponente arquitetura do MARCO. Nesse aspecto, Ana Ruas nos coloca diante de uma possibilidade de reflexão, ampliando nossa capacidade de percepção e compreensão do espaço e da história, reforçando a pintura como tradição das artes plásticas em Mato Grosso do Sul.”

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INTERVENÇÃO

s/ título

No Ateliê do MARCO pintura e montagem com banquetas.

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6 SEMINÁRIO 10 de abril de 2014, das 19h às 21h Ateliê Ana Ruas

Leda Catunda, São Paulo/SP Pintora, escultora, artista gráfica e visual e professora. É considerada um dos maiores talentos surgidos no âmbito da Geração 80. Expôs três vezes na Bienal Internacional de São Paulo, entre outras importantes mostras nacionais e internacionais. “Leda Catunda - Trajetória” Discorrer sobre a trajetória da carreira da artista desde 1983 até hoje e seu processo de criação. Conteúdo: Percurso da Obra e Processo Criativo; investigação no campo pictórico, os limites entre a pintura e objeto. Palestra: Objetivo:

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Seminário Entre vários olhares - da pintura à intervenção Concepção e Curadoria Ana Ruas

Participação/Locais da realização MARCO - Museu de Arte Contemporânea/MS Atividades do Seminário no período vespertinho, das 14h às 16h.

Textos Maria Adélia Menegazzo, Maysa Leite Barros, Aline Figueiredo Espindola, Marília Panitz e Ana Ruas

Rua Antônio Maria Coelho, 6000, Parque das Nações Indígenas, Campo Grande/MS Telefone : (67) 3326-7449 marco@fcms.ms.gov.br www.marcovirtual.wordpress.com

Identidade Visual Giriasolidário - Combox Editoração e Diagramação André Morato

Ateliê Ana Ruas/MS Atividades do Seminário no período noturno, das 19h às 21h. Lanche as 18h.

Fotografias Elis Regina Nogueira, Vania Jucá, Karine Breve Dias do Carmo, Magno Missirian, Ana Ruas, Alexandre Augusto Brandes

Rua Inah Cesar Rosas, 8, Tayamã Park, Campo Grande-MS Telefone: (67) 3326 1078

Produção Ateliê Ana Ruas Assessoria de Comunicação e Mídias Sociais Karine Breve Dias do Carmo Informações Telefone (67) 3326-1078, Celular: (67) 9202 4095 contato@anaruas.com.br Agradecimento Pelo apoio incondicional de Alexandre Augusto Brandes Distribuição gratuita, proibida a venda Os direitos desta edição pertecem à Copyright © 2014 ANA RUAS www.anaruas.com.br facebook.com/atelieanaruas

Participação:

Realização: Ministério da Cultura ateliê

Secretaria de Politica para as Mulheres


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Seminário Entre Vários Olhares  
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