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Entre consensos e dissensos, abolir as distinções entre o privado e o público, o íntimo e o social não é uma tarefa fácil e nem muito menos rápida. Sua eficácia, talvez, aconteça apenas quando nem um e nem outro deixem de existir, mas passem a coexistir, estabelecendo um equilíbrio que – por sua natureza cambiante - sempre há de ficar em uma estabilidade instável. Para a filósofa belga Chantal Mouffe, a arte pode agir como fomentadora de dissensos, como construtora de formas de dissenso. E aqui ela dialoga com o filosofo francês Jacques Rancière quando ele diz que “o dissenso é, no seu sentido estrito, uma diferença na partilha do sensível, ou seja, o dissenso seria, antes de tudo, estético, um conflito entre diferentes regimes sensíveis, agenciamentos de relações entre regimes heterogêneos do sensível". Tanto a arte quanto a política provocam, produzem fricções. Para Rancière, ambas também produzem “ficções ou novas relações, tensões ou dissensos, ou seja, outras formas de reconfiguração da nossa experiência sensível“. Em uma residência, entre outras ações e práticas, entre fricções e ficções, tensões e relações é também preciso explorar a “capacidade de fala” dos lugares. Afinal eles nos contam histórias, evocam lembranças, despertam expectativas e nos emocionam com suas particularidades. Lugares são bens simbólicos com natureza social e processual que lhes concedem condições não só objetivas mas também subjetivas. E é também nessa experiência que é uma residência artística que os lugares se transformam, pois não são objetos estáticos, mas necessariamente cambiantes. A identidade espacial que se expõe aos observadores em seu dia a dia é apenas uma parte do conjunto de características dos lugares (aquela que permanece no tempo), pois outros atributos mudam no decorrer do tempo. Por intermédio de outros processos, de outras residências, onde sempre haverá o risco – por não ter um caráter estático – de embaralhar as fronteiras entre o público e o privado.

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Poemas aos homens do nosso tempo - Hilda Hilst em diálogo  

O projeto Poemas aos homens do nosso tempo de curadoria de Ana Luisa Lima, Ateliê Aberto e Jurandy Valença, partiu de um programa de residên...

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