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Alguns dias são mais difíceis de amanhecer. Naquele dia, abri meus olhos de volta ao sonho inquieto da noite anterior. Eu havia deixado aquela casa ocre para trás como se tivesse adquirido uma dívida: a demarcação de um novo horizonte. E eu sozinha era pouquíssima gente para realizar tal tarefa. Quando me amanheci, o corpo já havia se rearticulado, por si só, para permitir a co-existência com outros pés e pernas e braços e mãos e bocas e cérebros. Amanheci em dores e suores. Sonhar o sonho é coisa simples. Dar cabo ao sonhado requeria dilaceração. O que tinha visto com meus olhos adormecidos precisava se tornar muita coisa. E eu só tinha pouco mais do que um coração, dois braços, duas pernas e uma ideia. Quando a ideia, como um sopro, veio para fora, já não era mais minha e se fez em tantos detalhes que braços e pernas, e cérebros foram se multiplicando aqui no meu corpo, e eu já nem era mais eu, era muitos. E a ideia teve a necessidade de ser outras ideias, como também, objetivos justificados, planos de toda sorte (inclusive de comunicação) e orçamentos possíveis que coubessem numa planilha. Aquela era a primeira vez que tinha feito contato com alguém que já não vivia – dizer que ela tinha morrido era inadequado. Recorri a muitos relatos da vida que levou para ver se era mesmo daquele jeito as histórias que me contava. Eu estava caminhando perto daquela árvore estrondosa a qual ela costumava fazer pedidos e me emudeci ao ouvir-lhe a voz que dizia: corre, há vozes que são minhas e nunca souberam como sair daqui. Os presságios daquela tarde poderiam, desde então, ser chamados inestimáveis. Mas o corpo nem sempre é capaz de vislumbrar os significados das cicatrizes enquanto essas ainda são feridas. Depois que lhe ouvi a voz, vi uma escrita contundente nas peles de cinco homens. A escrita atravessava as

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Poemas aos homens do nosso tempo - Hilda Hilst em diálogo  

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