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ÓRGÃO DA COMISSÃO DE TRABALHADORES DA CP

Nº 86

EDITORIAL

ANDAM A BRINCAR COM A MALTA Há muitos anos que não se viam tantos ferroviários numa manifestação sindical. Foi no dia 30 de Outubro, em Lisboa, à porta da reunião dos governantes da EU. Mais de duzentas mil manifestantes, vindos de todo o País, gritaram bem alto que é tempo de acabar com tanta injustiça, que queremos trabalho com direitos e uma distribuição justa do rendimento nacional. Foi com enorme satisfação que pudemos ver na gigantesca massa de manifestantes centenas de ferroviários, também eles profundamente preocupados com as políticas de direita que este governo fascizante do Sócrates nos está a impor e ao País. É claro que nem todos os portugueses se fizeram representar na manifestação de protesto contra as injustiças sociais. Na realidade não vimos lá os senhores da banca, que ganham 300 mil euros por mês, ou seja 60 mil contos em moeda antiga. O que vimos lá foram dezenas e dezenas de milhares de jovens desempregados, a trabalharem a prazo ou a recibo verde, como é do agrado do Sócrates, do Vieira e até mesmo do Cavaco. Não vimos lá, na realidade, os grandes especuladores financeiros, para os quais o governo do PS tem estado a governar, enquanto vai hipocritamente proclamando que os sacrifícios são igualmente distribuídos por todos. Na verdade, o que vimos lá foram milhares e milhares de professores aos quais o governo do PS tem infligido tratos de polé e atirado para o desemprego, certamente porque já temos educação a mais e não precisamos de aprender mais. O que vimos lá foram milhares de enfermeiros com

trabalho precário, porque o País já não precisa da sua contribuição, não obstante as listas de espera nas consultas a nas cirurgias, crescerem de ano para ano, numa estratégia clara de recuo do Serviço Nacional de Saúde, criando assim objectivamente, espaço para a montagem de hospitais e clínicas da banca. Perante este indesmentível cenário de ataque aos direitos dos trabalhadores e da população em geral é hoje cada vez maior o número de pessoas que temem que a continuação das políticas de direita do governo do PS nos façam resvalar para um sistema anti-democrático. Portugal é o País da EU com a mais injusta distribuição da riqueza. E o pior é que esta situação se agrava de dia para dia, o que não deixa de espantar até os mais crédulos, por se tratar de um governo que tem a lata de se dizer de esquerda. Hoje já toda a gente, alto e bom som, que Sócrates é o chefe do partido e do governo mais à direita que tivemos depois do 25 de Abril. É verdade que começam agora, que se aproxima um ano eleitoral, a ser distribuídos alguns rebuçados, certamente envenenados, aos velhinhos e às grávidas. Pura vigarice, que serve apenas para que a política anti-social possa prosseguir. Há muitos anos que não víamos tantos ferroviários numa manifestação de protesto sindical. Mas não admira que assim aconteça, porque esta é a pior fase, depois do 25 de Abril, sofrida pelos trabalhadores portugueses. Tudo está a ser feito para que os milionários se tornem cada vez mais ricos e os trabalhadores cada vez mais pobres. O défice das contas públicas foi reduzido, sem dúvida, mas à custa exclusivamente de quem trabalha e dos reformados. Basta olhar para os escandalosos aumentos dos lucros dos bancos e dos Belmiros que por aí pululam, para se perceber que algo vai mal, muito mal mesmo neste cantinho à beiramar plantado. Andam a brincar com a malta. Até quando?„


QUEREM LIQUIDAR

O DIREITO À GREVE Alegando a existência de uma omissão no pré-aviso apresentado pelos sindicatos a CP considerou ilegal a adesão dos trabalhadores à paralisação do passado dia 30 de Outubro. Em termos práticos significa isto que a CP, a pretexto de uma alegada irregularidade formal, pretende violar brutalmente um direito constitucionalmente adquirido dos trabalhadores. A CT já denunciou este atropelo ao director dos Serviços de Apoio à Actividade Inspectiva da Autoridade para as Condições de Trabalho. É que esta manobra contra o direito à greve é traduzida na marcação de faltas injustificadas, com todas as consequências inerentes, a todos os trabalhadores que exerceram o direito incondicional de recorrer à greve como forma

de luta pelos seus direitos, conquistas do 25 de Abril. Quer isto dizer, para quem ainda tem dúvidas, que para este governo, seus capangas e também para os seus representantes nas empresas públicas, o direito à greve merece todo o respeito desde que não seja exercido. É uma espécie de amor platónico o que esta gentalha quer fazer do direito à greve: Muitas declarações de amor, mas nada de se passar à prática. De contrário lá virão os cortes nos salários e todo o tipo de represálias que todos conhecemos. Mas bem podem os campeões do embuste e da trapaça democrática tirar o cavalinho da chuva, porque se nem a PIDE nos conseguiu impedir a nós trabalhadores de fazer greve, não serão agora estes “travestis” do regime democrático que o conseguirão.„

UM MÍNIMO DE RIGOR

NUNCA FEZ MAL A NINGUÉM Preocupada com a imprecisão que domina a informação acerca da transferência do espólio do Museu Ferroviário para a recém criada Fundação do Museu Ferroviário, a CT solicitou ao CG uma informação mais rigorosa sobre a matéria. Pensa o CG que o valor do referido museu, acrescido do atribuído aos respectivos depósitos, está a ser muito inflacionado por razões de índole afectiva. Sem ignorar a componente afectiva e cultural do referido espólio, a CT receia que o CG possa estar a empolá-la, facto que um dia mais tarde, perante uma eventual extinção da Fundação, poderia ter consequências negativas para a CP.

Nas actuais circunstâncias e para que tudo fique claro, não seria vantajoso que o CG mandasse proceder à avaliação, objectiva quanto possível, do valor do espólio em questão? Não haverá na empresa técnicos com competência suficiente para fazer esse trabalho, sem necessidade de recorrer a auditorias externas? O CG tem que nos demonstrar, que está a agir de boa fé perante mais este assalto ao património ferroviário, que a todos deve deixar de sobreaviso no sentido da defesa intransigente da história dos caminhos de ferro em Portugal e dos ferroviários em particular, sem nos esquecermos das populações por eles servidas.„

INSÓLITO OU NÃO

como fazer os testes de alcoolémia e despiste de drogas e substâncias psicotrópicas, testes estes tão em voga na CP e defendidos com unhas e dentes pelos nossos queridos gestores. Como é do conhecimento geral, nunca o maquinista pode em caso algum abandonar uma unidade motora em plena via, para ir satisfazer um capricho de um GNRzito qualquer, muito menos pelo período de quase duas horas conforme relatório da Refer. O CG comprometeu-se a tomar posição pública sobre este assunto, mas até agora e decorridos quase dois meses, nada de nada. É necessário que sejam dadas directrizes ao pessoal no sentido de saberem como agir em circunstâncias idênticas quando aconteçam acidentes similares.„

Recentemente um casal de idosos foi colhido por um comboio junto ao apeadeiro da Baixa da Banheira, na Linha do Sado. No estado de choque em que todos ficamos nestas circunstâncias, o pessoal do comboio seguiu todos os trâmites normais, comunicando o facto ao INEM, ao PCL de Campolide e à GNR desta vila, que para o efeito fez deslocar uma patrulha para o local do acidente. Até aqui tudo normal. O insólito começou quando a patrulha deu ordem de prisão ao maquinista para que o mesmo fosse identificado no Posto da GNR local, bem

CONTROLO DE ÁLCOOL Face aos procedimentos seguidos na empresa no controlo do álcool nos locais de trabalho, a CT fez uma exposição ao presidente da Comissão Nacional de Protecção de Dados, na qual questiona a forma irresponsável como essa actividade está a ser exercida na CP. 2

A quebra clara da confidencialidade das operações é denunciada pela CT, que aponta o facto do respectivo regulamento interno começar logo por omitir o direito à confidencialidade. Outro aspecto negativo deste regulamento reside na prévia diagnosticação de todos os trabalhadores como eventuais doentes alcoólicos ou toxicodependentes. Afinal sempre existe perseguição aos trabalhadores.„


HÁ PARCERIAS BOAS MAS TAMBÉM AS HÁ BEM RUINS Na recente reunião da CT com o CG foi por nós suscitada, mais uma vez, a questão do encapotado plano de privatização da CP Carga. Isto porque se sabe que tanto o CG da CP como a Secretaria de Estado dos Transportes continuam empenhados na privatização da CP Carga. Agora sob a camuflagem da criação de parcerias ditas estratégicas, mas que os trabalhadores preferem designar como obscuras, está a preparar-se a entrega de um sector rentável da CP a um grupo privado, previamente escolhido no segredo dos deuses. Para os trabalhadores ferroviários trata-se de mais um atentado contra os interesses do caminho de ferro, com prejuízos inevitáveis para a CP e

para os seus trabalhadores. Como sempre receiam os trabalhadores que esteja a ser preparada uma manobra em que a actividade de carga seja subtraída à CP, sem que aos felizardos que forem contemplados com a respectiva concessão seja exigido qualquer risco, tal como está a verificar-se com a Fertágus. É aquilo a que pode chamarse um negócio de chave na mão, com lucros previamente assegurados e o Estado a suportar eventuais prejuízos. Para os trabalhadores tudo isto dói, porque a liquidação de postos de trabalho virá por arrastamento, assim como uma nova vaga de restrições aos direitos laborais.„

EM PRAIAS DO SADO CP E REFER PROMETEM SOLUÇÃO Relativamente ao problema da falta de segurança dos trabalhadores que laboram na estação e nos comboios em Praias do Sado, o CG da CP informou a CT que em conjunto com a Refer, compromete-se a solucionar o

mesmo dentro de um prazo razoável. Vamos então ficar à espera, sem deixarmos de lembrar que o termo razoável tem a elasticidade que lhe queiramos atribuir.„

CG DIZ DESCONHECER PROJECTO DE ALCÂNTARA Questionado pela CT acerca de um projecto de reestruturação da zona de Alcântara, com envolvimento e grave afectação da funcionalidade de Alcântara-Terra, o CG respondeu que ainda não tem informação precisa sobre o assunto. Segundo julgamos saber o referido projecto prevê a instalação dos

serviços centrais da Refer na zona de Alcântara-Terra. Havendo o claro risco deste projecto vir a prejudicar irremediavelmente o desenvolvimento harmonioso das actividades da CP, com a planeada ligação a Alcântara-Mar e à zona portuária da Rocha de Conde de Óbidos.„

AUMENTA INSEGURANÇA NAS LINHAS DE LISBOA Como a comunicação social tem referido com alguma insistência nos últimos tempos, a falta de segurança nas linhas da Grande Lisboa (Sintra, Azambuja, Cascais e Sado). Grupos de delinquentes e energúmenos marginais entram nos comboios e ameaçam os passageiros e os próprios ferroviários, com a complacência pelos vistos dos nossos magistrados, uma vez que mais depressa sai de um tribunal um marginal em liberdade, que o polícia que o capturou. O CG, na reunião com a CT, compro-

meteu-se tomar medidas dissuasoras de vandalismo que impera nas referidas linhas, mas como se trata de um problema com fortes raízes sociais, ligadas à urbanização desordenada de alguns subúrbios de Lisboa, pensa a CT que, para além de medidas policiais devem ser adoptadas outras, que vão no sentido de descobrir a origem dos “gangs” de jovens desenraizados, aos quais a sociedade não oferece um mínimo de esperança numa vida digna de ser vivida.„

CP CARGA INVESTE PARA OFERECER AOS PRIVADOS Nunca a CP Carga se empenhou tanto no investimento em obras e aquisições, como nesta altura, quando se prepara para entregar tudo de bandeja ao “parceiro estratégico” que o governo lhe indicar. A música é sempre a mesma. O sector público avança com as despesas para, depois, aparecerem uns gulosos a devorar os lucros. Será a isto que os defensores neo-liberais chamam capital de risco?„

CG GARANTE QUE NÃO VENDE Instado a responder à CT se tenciona ou não vender locomotivas à concorrência o CG disse que não. Que deve ser boato. Pois que assim seja.„

QUEREM UM HOTEL DE LUXO EM SANTA APOLÓNIA Na última reunião com o CG a CT foi formalmente informada da inteira oposição dos actuais gestores da CP ao projecto de construção de um grande hotel de luxo no local onde existe, há mais de 100 anos, a estação de Santa Apolónia. Os motivos invocados pelo CG para repudiar tão estranho projecto coincidem inteiramente com os da Comissão de Trabalhadores. Esse projecto afastaria o terminal ferroviário para a zona de Xabregas, isto depois de estarmos há dez anos à espera da ligação ao Metropolitano de Lisboa. Tal afastamento induziria fatalmente à redução do fluxo de passageiros da CP, sem qualquer vantagem para ninguém, excluindo apenas os desgraçadinhos dos investidores imobiliários„

“À TABELA” Nº 86 DEZEMBRO DE 2007 Órgão da CT da CP Redacção - Secretariado da CT da CP Composição e Impressão - CT da CP Calçada do Duque, 14 Tel: 213215700 — Tlm: 917484271 1249-109 LISBOA 3


Novas

oportunidades Por vezes chego a pensar que a minha Teresa, que é conhecida pela sua evidente esperteza e profunda sagacidade, como todos sabemos, pirou de todo. Não é que, agora, lhe deu para o empreendorismo, talvez soprada pela onda de propaganda que o governo pôs ao serviço das Novas Oportunidades. Seja lá por que for, a minha Teresa, que nunca vendeu um tremoço, pois sempre vivemos exclusivamente do meu salário, deu-lhe agora para entrar numa sociedade, a meias com a sua grande amiga que é a Alzira, alentejana de cepa. Já sabia eu que esta coisa das Novas Oportunidades tem servido e está a servir para alguns criarem empresas de vão de escada, às quais são entregues verbas para pagar os formadores. Há casos em que os formadores ganham 11 euros à hora, pagos com recibos verdes…,de forma que, depois pagarem à Segurança Social levam para casa pouco mais de 1.000 euros, que são pagos apenas durante nove meses por ano. São estas grandes oportunidades que o governo do Sócrates está a proporcionar à nossa juventude. Foi sabendo de tudo isto que fiquei com os cabelos em pé quando a minha Teresa veio dizer que a Alzira a tinha desafiado para uma nova oportunidade. A primeira coisa que me veio à cabeça é que se tratava de mais uma

grandessíssima vigarice, daquelas a que o governo do Sócrates já nos habituou. Mas a minha Teresa, que além do mais tem um forte e saudável sentido de humor, não se deu por achada. -A Alzira garante que é um bom negócio e eu penso que será uma maneira de contribuir para equilibrar o barco da nossa economia caseira—avançou ela. -Mas que negócio é esse, que tanto entusiasmo te provoca, Teresa? -É um negócio de ferro velho. Eu nem queria acreditar. Então a minha Teresa, sempre tão cautelosa e avessa a aventuras, queria agora meter-se na candonga do ferro velho? Vendo o meu espanto a minha Teresa apressou-se a explicar: -Não vês, Zé, que é dinheiro em caixa? Nós só temos de vender o ferro velho sem gastarmos um cêntimo na sua compra… -Mau… Teresa. Não me digas que vais ser receptadora de material roubado… -És parvo ou quê. Nada disso, Zé. Basta caminharmos ao longo da Linha da Beira Baixa, onde um dia destes o comboio 5675, entre a Lardosa e o Alcaide, foi sempre a perder peças… Bastaria que nós fossemos recolhendo tudo o que fosse caindo do comboio e tínhamos o dia feito.

-E então, Teresa? -Foi aqui que a nossa amiga Alzira, que tem faro para o negócio, se lembrou de mim, para montarmos a tal sociedade de venda de ferro velho. E digo só venda porque da compra estaríamos nós livres. Era só apanhar o que ía caindo dos comboios… -Olha, Teresa… Se não te conhecesse pensava que tinhas ficado maluca de todo… por ires na conversa da Alzira… Então tu não vês que bastaria a CP dispor-se a reforçar a manutenção do material, para que, de um momento para o outro a tua sociedade com a Alzira ir por água abaixo? E se o CG da CP decidisse, por exemplo, comprar material circulante cuja falta já se faz e bem sentir de norte a sul do País? Onde é que vocês depois iriam encontrar as peças que os comboios, hoje, vão perdendo ao longo da via? -Seja como for, Zé, enquanto as coisas se mantiverem como estão, eu e a Alzira vamos aproveitando a maré das novas oportunidades que este governo está a oferecer à nossa juventude. -E vocês não têm medo de ir para a cadeia por andarem ao rabisco das peças caídas das composições ferroviárias? -Olha, Zé: Como as coisas estão só quem corre perigo neste País são os trabalhadores por conta de outrem, que vivem cada vez pior e até já são intimidados pela polícia quando se arrogam o direito de ir para a rua proclamar, alto e bom som, que as coisas como estão não podem continuar. -Mas o que é que isso tem a ver com o teu negócio do ferro velho recolhido ao longo das linhas ferroviárias? -Por mais que não pareça tudo tem a ver com tudo. Fartos de apanhar pancada de todos os lados, os trabalhadores também têm direito a um momento de fantasia. E com esta a minha Teresa se calou, deixando-me a pensar que, ao fim e ao cabo, o seu negócio de ferro velho, em comandita com a nossa velha amiga Alzira, foi muito bem inventado...„

Zé Ferroviário

A COMISSÃO E AS SUB-COMISSÕES DE TRABALHADORES DA CP Saúdam todos os Ferroviários e Familiares com os melhores votos de FELIZ NATAL e um ANO NOVO repleto de felicidades.

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À tabela 86  

Orgão da Comissão de Trabalhadores da CP

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