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Os Fantasmas do Teatro de Santa Isabel

Texto: Roberto Beltrão / Ilustração*: Fábio Rafael *Feita originalmente para o livro “Malassombramentos: Os arquivos secretos d’O Recife Assombrado”


O endereço é mais do que nobre: em frente à Praça da República, ao lado dos Palácios do Governo e da Justiça, no tradicional bairro de Santo Antônio, no Recife. O prédio é um belo exemplo da arquitetura neoclássica e foi construído no século XIX a mando de Francisco do Rêgo Barros, então presidente da província de Pernambuco. Além de até hoje ser palco de encenações e concertos grandiosos, no passado o lugar também foi cenário de debates cívicos como os que marcaram a campanha abolicionista. Quem pode imaginar que por trás de uma fachada imponente, cheia de significados para a nossa história, o Teatro de Santa Isabel oculte mistérios sobrenaturais? Pois é assim - na plateia, nos corredores, nos camarins, nas frisas e camarotes desfilam vultos espectrais e são ouvidos sons arrepiantes que se confundem com as muitas lembranças ali guardadas. No livro “Assombrações do Recife Velho”, o sociólogo Gilberto Freyre descreve alguns desses acontecimentos inexplicáveis: "O que se murmura entre os empregados antigos e discretos do Santa Isabel é que em noites burocraticamente silenciosas se ouvem, no ilustre recinto, ruídos e aplausos, palmas, gritos de entusiasmo de uma multidão apenas psíquica. Mas sem que se possa precisar a que ou a quem são os seus aplausos de bocas e mãos que não aparecem". E acrescenta o Mestre de Apipucos: "Há também quem afirme ter visto no interior do Santa Isabel, em noite de silêncio e rotina, a figura de austera senhora do Recife, há longos anos morta e sepultada em Santo Amaro". E as aparições na antiga casa de espetáculos não deram trégua ao longo das décadas, embora tenham perdido um pouco do charme e da elegância. Na reportagem intitulada "...Mas que eles existem, existem", publicada no Diário de Pernambuco do dia primeiro de outubro de 1992, a jornalista Sandra Correia registrou o seguinte caso: Lourdes Medeiros, faxineira do Teatro de Santa Isabel, reluta em falar no assunto. “Dizem que sou louca”. Numa determinada ocasião, Lourdes ficou presa no banheiro do teatro com uma mulher alta e loura, com algodão na boca e nas narinas. “Queria sair e ela estava na porta”. Nem mesmo gritar resolveria: “perdi a voz”. Já no século XXI, no ano de 2007, a auxiliar de serviços gerais Andréa da Silva passou por uma experiência diferente quando fazia a limpeza dos corredores entre as cadeiras da plateia num domingo de manhã: “Na terceira fileira tinha um senhor de idade sentado de pernas cruzadas, chapéu branco, roupa branca, sapato branco, olhando para mim e balançando a cabeça. Continuei meu serviço. E quando já estava quase terminando de varrer, ele apareceu lá no canto, na última cadeira. Abaixei a cabeça e num instante ele desapareceu. Então eu gritei: ai meu Deus, tô vendo assombração! Os servidores da tradicional casa de espetáculos relatam ainda que, em outras noites, é possível escutar melodias tocadas no piano de cauda que existe no local. Composições executadas por mãos


invisíveis, dizem as testemunhas desses estranhos recitais. De longe escutam a suave harmonia das notas; quando se aproximam do instrumento, a música cessa repentinamente. E ninguém consegue entender como as teclas do instrumento são acionadas de forma tão competente se a tampa que as protege permanece fechada. Quem seria o pianista fantasmagórico? Para essa questão nunca houve uma resposta. E se uma assombração é somente ouvida, outra é frequentemente vista no teatro. É uma bailarina que, vestida com antigo traje de dança clássica, desfila no tablado vazio das noites nas quais não há apresentações. Mesmo sem música, ela executa, nas pontas dos pés, uma coreografia suave. Aparece sempre sob um facho de luz azulada que a acompanha a cada passo ou rodopio. No rosto, emoldurado por cabelos negros presos em forma de coque, revela um semblante tristonho. É muito comum também os funcionários enxergarem a imagem dessa esguia figura refletida nos espelhos que existem nos corredores e frisa. Quando, assustados, eles olham para o palco; a moça desaparece como por encanto. Mas perca seu tempo em perguntar quem seria essa artista incorpórea – ainda não foi possível confirmar se seria a alma penada de uma dançarina que se apresentou no Santa Isabel ou materialização de um sonho romântico.

Ilustrações e textos cedidos para a publicação no site O Recife Assombrado são de propriedade de seus respectivos autores. Está terminantemente proibida a reprodução total ou parcial dos referidos trabalhos sem a devida autorização.


Os Fantasmas do Teatro de Santa Isabel